domingo, 30 de agosto de 2009

Boa noite, meu bem...em romeno...


CANTECE DE LEAGAN SUPERBE ... ( Cateodata e bine sa mai dam in mintea copiilor...parerea mea...)
Vezi mai multe video din Muzica

O Sexo Também se Levanta: Códigos Sexuais Num Romance de Hemingway

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Introdução


A androginia na obra de Ernest Hemingway já tem sido bastante pesquisada. Mas é sempre interessante ler um romance como The Sun Also Rises observando os códigos sexuais ali presentes. Inicialmente, o romance gira em torno da amizade entre Cohn e Jake, assim comov desdobra-se num triângulo amoroso com a entrada da figura de Lady Ashley Brett. Jake Barnes é um jornalista em Paris que é amigo de Robert Cohn, herdeiro rico de família judaica, boxeador e escritor.


2. Os triângulos Barnes/Brett/Cohn e Bill/Barnes/Cohn


Jake Barnes é o melhor amigo de Robert Cohn, mas sempre o descreve com distanciamento e ironia. Temos então o eixo Barnes/Cohn, ampliado para Brett como objeto de desejo dos dois. Barnes explica o que aconteceu quando da formação desse triângulo amoroso:

A razão é que, até o dia em que se apaixonou por Brett, eu nunca o ouvira (Cohn) fazer alguma observação que o distinguisse dos outros. Era agradável vê-lo numa quadra de tênis. Tinha um bom corpo e conservava-se em forma, jogava bem o bridge e havia nele um quê divertido de colegial (HEMINGWAY, 1982, p. 53).

Nesse triângulo, portanto, existe admiração platônica de Jake Barnes pelo belo físico de Cohn e uma forte afeição de Cohn por Barnes. A relação irá se complicar com a entrar em cena Brett, figura muito próxima das poules (putas) de Paris, pendendo inicialmente mais para o envolvimento com o rico Cohn do que com o distanciado e frio Barnes. O amor de Barnes por Brett é forçosamente platônico, pois Barnes foi ferido na guerra e sofre as seqüelas psicológicas. Isso faz, de certo modo, com os ânimos entre Barnes e Cohn esfriem.
O núcleo central é abalado quando os três se inserem em meio a outros personagens em uma viagem à Espanha. Brett, objeto de desejo platônico de Barnes e efetivamente envolvida com Cohn, liga-se também a um toureiro espanhol. O fascínio de Brett pelo toureiro é partilhado por Barnes, que se refere a ele duas vezes como “um homem muito bonito”.
A partir daí, o conflito principal é deslocado para um conflito semelhante ao do romance Carmen, de Prosper Mérimée e gerou a adaptação de Bizet para a ópera: Cohn, Brett e o toureiro. De certa forma, os oponentes de Barnes são primeiramente Cohn e depois o próprio toureiro. No entanto, Barnes tem uma postura cínica, distanciada, que não se justifica nem moraliza. Barnes é pouco envolvido com os acontecimentos que narra, os quais enxerga como se fosse um drama que se desenrolasse à parte: ele tem um olhar impotente para interferir. Quando ele se desloca do eixo, vai beber com Bill. A conversa, regada a álcool, em plena festa de San Fermin, em Pamplona, exibe um deslocamento da ligação Barnes/Cohn para a ligação Barnes/Bill. De certo modo, se considerarmos a fala de Bill para Barnes, pode-se dizer que Barnes ficou em outro triângulo amoroso, outro vértice de afetos, mas entre pessoas do mesmo sexo: Cohn/Barnes/Bill. Ao se deslocar do eixo com Brett e Cohn, devido à entrada do toureiro em seu lugar, ele também se desloca do afeto heterossexual para um campo de afetos homossexuais. O deslocamento de lugares (Paris/Espanha, USA/Espanha) também permite deslocamentos de afeto e declarações reveladoras. Uma frase de Bill reflete esse deslocamento com uma visão de mundo fortemente marcada pela vulgarização da psicanálise:

Escute. Você é um sujeito ótimo, formidável. Gosto mais de você que de qualquer pessoa. Mas não podia dizer-lhe isso em Nova York. Eu seria considerado um efeminado. Foi a causa da guerra civil. Abraham Lincoln era efeminado. Estava apaixonado pelo General Grant. Jefferson também. Dred Scott foi forjado pela liga antialcoólica. O sexo explica tudo. A mulher do coronel e Judy O´ Grady são lésbicas até a medula. Parou de falar (HEMINGWAY, 1982, p. 125).

Acima, nessa fala de Bill, ele projetou numa explicação baseada em códigos sexuais uma selvagem explicação da história. As relações entre pessoas do mesmo sexo seriam, para ele, a chave das grandes narrativas históricas e desencadeariam os acontecimentos importantes. Claro que a explicação histórica de Bill é fantasia movida pelo álcool, mas essa fantasia é profundamente interessante porque nela aparece delineado um triângulo amoroso que explicaria algo fundamental: a guerra civil americana. O triângulo seria: General Grant/Abraham Lincoln/Jefferson. Esse triângulo pode ser aproximado ao triângulo que acaba de se formar: Bill/Barnes/Cohn. O fato de que Bill ama Barnes “mais do que qualquer outra pessoa” explica o ódio que ele sente de Cohn, a quem hostiliza com freqüência: ele quer afastar Barnes de Cohn, uma vez que sente ciúmes.
Em The Sun Also Rises, assim com em Carmen, o ponto de virada é a entrada do toureiro na narrativa. Em Carmen existia a relação entre o soldado e a cigana Carmen, mas ela se complica quando Carmen se liga um toureiro: o resultado é que o soldado mata a cigana, tomado de ciúmes.
Carmen é uma ópera em quatro atos de Georges ,Bizet com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Ambientada em Sevilha, na primeira metade do século XIX, narra a história do oficial de exército Don José, que, prometido à jovem Micaëla, deixa-se seduzir pelos encantos da cigana Carmen, causando para si inúmeros problemas como a prisão e o rebaixamento no exército por facilitar-lhe uma fuga quando ela fora declarada culpada por agredir uma colega na fábrica de cigarros onde ela trabalha. Abandonando a vida honrada para se entregar à vida errante junto aos ciganos, Don José vê Carmen trocá-lo pelo toureiro Escamillo e, tomado por uma crise de ciúmes, mata-a.
É o mais popular triângulo amoroso numa ópera. É uma das mais conhecidas óperas de todos os tempos. E algumas de suas árias ficaram tão populares que foram até plagiadas em publicidade. Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), no entanto, é a história de uma mulher que gostava de homens. E por eles era capaz de tudo: de abandoná-los e de levá-los a matar. E até a morte.
A ópera de Bizet foi baseada em novela do francês Prosper Mérimée, com acréscimo de personagens, como Micaela, para ser o contraponto da cigana Carmen. O compositor teve medo que a moral da época rejeitasse a ópera por causa da personalidade de Carmen, uma das mais fortes e dominadoras.
Em The Sun, Cohn é que possui um papel análogo ao do soldado: ele ataca o toureiro. Esse conflito dissolve o triângulo amoroso. Mais tarde, afastada do toureiro e de Robert Cohn, Lady Brett volta para Jake Barnes em Paris. Os deslocamentos no espaço produzem o deslocamento final e o fim do triângulo amoroso: o episódio todo fez com que Barnes decidisse retornar aos Estados Unidos e decidisse que seu lugar não era a Europa; o romance de Brett com o toureiro foi prejudicado pela agressão deste a Cohn, a quem Brett se afeiçoara.

3. Conclusão

No final do romance, Jake Barnes rompeu também o triângulo homossexual para o qual tinha se deslocado, entre Cohn e Bill, retornando a Paris e retomando o laço afetivo, mais platônico do que afetivo, estabelecido com Brett no início do romance, sonhando em poder amá-la e que sua história pudesse ter sido diferente – assim como, já que esse amor não se efetiva, é bem provável que está aberto um outro vértice para outro possível personagem participar desse triângulo, dando a idéia de um final em aberto em “infinito”.

4. Bibliografia

HEMINGWAY, Ernest. O sol também se levanta. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hobsbawn por Hobby

A Paz e Terra está reeditando vários volumes de Eric Hobsbwan. Nada como um pouco de estrutura para mover a superestrutura! Matéria do João Paulo no Estado de Minas:

"Há um consenso paradoxal no mundo da inteligência: com a mesma força que se decreta a morte do marxismo se afirma a importância da obra de Eric Hobsbwan, marxista convicto e atuante aos 92 anos" Estado de Minas, Caderno Pensar, 23 de agosto, p. 3.

Vou te dizer como é que se resolve o paradoxo, João: ele apoiava a tal terceira via de Bill Pinton e Tony Blefe, nos anos 90!

Eu li alguns capítulos da Era dos Extremos. Uma colega da faculdade, que também lia, observou e disse: "ele é quase neoliberal". Concordo. Taí a razão de tamanho consenso. Agrada aos neoliberais e aos que não são com esse "quase".

Comecei a ler, por hobby, Nações e Nacionalismo. Lá pelas tantas, ele elogia Karl Kautsky. Mas sem dizer que Kautsky escreveu também absurdos tal como a previsão de que os checos iriam falar alemão no futuro. Como subproduto da social-patriotada, apoiou Hitler em 1933, que achava mal menor que o stalinismo. Que furada! E o historiador da terceira via deixa passar tudo isso em brancas nuvens. Ah, não, Hobsbawn por hobby, não, só por obrigação, agora.

Viva la Vida (Coldplay)



Uma dica vindo do blog romeno abaixo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Um blog da Romênia

http://mirceabadeano1.blogspot.com/

Gostei bastante: dá para entender muita coisa.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Bitácora del Párvulo: La acción, la firmeza, la convicción

Bitácora del Párvulo: La acción, la firmeza, la convicción

Recomendação de blog

Um blog que recomendo:

amorfc.blogspot.com

Na revista cidade do sol (www.revistacidadedosol.blogspot.com) publiquei o texto Estudo do Lixo, do excelente escritor Felipe Moreira, que atualmente divide esse blog com outros escritores também de qualidade. Dele, publiquei aqui a peça Parque. Vale a pena visitar.

Glauber X Jorge Schweitzer

Eu gostaria de falar sobre o equívoco que Jorge Schweitzer comete em igualar Glauber com Duda Mendonça no seu Táxi em Movimento (taxiemmovimento.com.br), mas deu preguiça.

Acho fútil. Duda, publicitário, opiniático desde sempre, queria pagar a dívida externa, publicitário dando pitaco em política e comprometido financeiramente, inclusive, vide mensalão.

Glauber sempre frisou o outro lado, ou seja, era contra pagar a dívida, contra o imperialismo.

Ah, jornalistas à la Azevedo/Mainardi...tantas vezes cafetinando a verdade. Cafetinar a verdade pelas ruas do Rio, grande bordel do Terceiro Mundo: tarefa inglória.

Falando na Abril, Jorge se baba: eles estão chupando as pautas do seu Táxi em Movimento.

Inveja da interlace? De um implante capilar?

Queria ser colunista na Veja? Não, queria colocar a cabeça de Schweitzer na bandeja como numa peça do teatro do absurdo.

Mas, claro, para falar bobagens: ele descobriu Glauber agora, graças a um amigo do Reinaldo Azevedo e seu ex-amigo: daí que ele não quer entender.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Algumas anotações

Se eu registrasse seria Amanuense Belmiro estragado. Karnal na TV Cultura: a ciência faz Hiroshima e penicilina, a religião, Auschwitz e Capela Sistina. Pondé com seu óculos de "modernidade covarde" apareceu, Teologia, Pascal e Dostoiévski também. Metaforologia, Die Sorge Geht Uber die Fluss.

Minha professora Angélica Sátiro está na Espanha. Coisas estranhas se passavam no te-a-tro & a conversa é toda muito break, blow, burn.

Cláudio: uns toques, ideias plásticas: No Limite é Survivor, Big Brother é da Endemol, é tudo versão de programas norte-americanos, holandeses, etc. A velha questão da cultura aqui ser postiça, que fala Schwarz. Na Globo é verdade porque a Globo é espuma flutuante, fútil, colonizada. No entanto, Milton cantando no Criança Esperança me comoveu, teve homenagem a Villa-Lobos e a Guignard, que a Angélica não sabe pronunciar, infelizmente, etc, mas deu alguma esperança. Mas não vou doar, pois não se consegue isenção fiscal e, afinal, quem vai declarar esse dinheiro no imposto de renda? A Globo? A UNESCO? Todo mundo pedindo. A trupe pedindo grana.

Glauber reagiu violentamente a Schwarz quando ele disse isso do tropicalismo (que era versão da arte pop): senão o Cinema Novo viraria versão complexa e cabocla da Nouvelle Vague e por aí vai. Hélio Oiticica, diante da Rolling Stone de 1972 também reagiu assim: por que precisa ser cópia da daqui, se tem tanta gente talentosa em design no Brasil? Voltando: Glauber esculhambou Schwarz: os tropicalistas eram anti-Beatles, anti-Rolling Stones.

Também combato essa ideia de que tudo no Brasil é versão de algo da metrópole, mas às vezes tem coisa que...tem uns bozos da vida, né? E tem Papai Papudo, Vovó Mafalda e o Socialismo Brasileiro de Televisão faz aniversário, como dizia meu amigo escritor Dênis Reis.

O Demiurgo

Jorge Mautner é Satã, a negação, no filme O Demiurgo
Caetano, Gil E Eu 

por Jorge Mautner
Durante dois anos quase, eu lavei pratos em restaurantes de Babylon-New-York-City, fui empregado de assistente de garçom carregando caixotes cheios de camarões, garrafas de vinho, lavei cozinhas ao som de soul music, limpei milhares de cinzeiros mas nunca fui promovido a garçom. Eu invejava muito o Neville D’Almeida. Depois fui massagista. Foi Ruth quem me deu a ideia. Coloquei um anúncio no Village Voice e comecei a fazer massagens orientais em muitas pessoas de variados backgrounds sociais em Gotham City. Como todos os dias faço ginástica (uma hora e meia) e como aprendi algo de karatê e tai-chi-chuan eu acabei fazendo ótimas massagens de espinha. Era um tempo estranho, com tempestades de neve lá fora e leitura de Heidegger. E escrevendo meu manuscrito de 3 mil páginas.
Depois veio a primavera e eu e Ruth fomos pra Londres subitamente num avião a jato. E foi lá, foi lá que eu conheci Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eu entrei de guarda-chuva na casa de Caetano e disse uma profecia. O Caetano ficou impressionado e disse tremulamente — "Você é profeta, é?" Eu disse mais tremulamente: — Bem, não são bem profecias, são análises, análises totalizantes que incluem muitas coisas, por exemplo..." E falei, falei. Gilberto Gil disse — "Ei, nêgo, você toca bandolim, é?" E eu timidamente no dia seguinte trouxe meu bandolim e tocamos, tocamos, noites, dias, e a lua sumia por dentro da névoa londrina. Aquele relax londrino com juventude sensual imitando os Rolling Stones pelas ruas do ex-império a passear.


Com Caetano eu tocava (acompanhando fazendo ecos e fraseados) sambas antigos, de Noel e Caimmy, de Ismael Silva e Ary Barroso, todo aquele repertório popular de Caetano. Com Gil eu tocava acompanhando o seu novo som africano-rock-heavy-brazilliance-electricity. Às vezes predominava o jazz, às vezes rock & baião. Falava-se muito de tudo. Inumeráveis discussões sobre Nietzsche, Hegel, estruturalismo, discos voadores, Dionisius e Apolo. Quando eu voltava para a casa do Arthur que me hospedava lá em Londres, eu vinha pela madrugada (eu e Ruth) pensando naquelas maravilhosas criaturas que eu havia conhecido. Eu, um mitólogo massagista e lavador de pratos em New York, de repente na Bahia em plena Londres! Um dia o Caetano ao ouvir eu cantar uma canção minha chamada "O Vampiro", ficou entusiasmado e disse que ia gravar. Eu fingi que não havia escutado e só quando ele repetiu é que eu me manifestei em sorrisos chineses e cortesias que tais. Eu sou uma estranha mistura do século XIX e do XXI pulando o XX. Os baianos são o mel, a bondade, a ternura, o cristianismo, a generosidade, o amor de um Brasil que só agora descobri através deles. Então eu disse para Caetano e Gil: — "VOCÊS ME TIRARAM DA LAMA".


Depois fomos à Espanha, e foi em Barcelona que eu vi com que crueldade pagã Cae gostava das touradas. Ele ficava espiando o sangue sair do touro entre horrorizado e fascinado. Era como se toda a violência que a Cae tanto horror causa, fosse naquele momento algo que pudesse conter beleza.


Gilberto Gil
Gilberto Gil é Pan no filme O Demiurgo
Gil em suas vestes africanas fazia as autoridades espanholas se espantarem muito. Foi na Espanha que eu Gil e Cae falamos de Deus e na anti-matéria, no destino dos astros, na desintegração da matéria, e nos deuses. Foi aí que nasceu a letra "Three Mushrooms". Também falava muito Périkles (que fez agora um filme com Dedé como atriz principal). Ruth e Dedé falavam muito formando uma espécie de complô feminista contra os homens. Foi aí que eu as comecei a ver como Bacantes e Amazonas, coisa que eu iria aproveitar no filme "O Demiurgo".


Um dia, quando Caetano foi visitar as ruínas de um templo grego, eu que acompanhava o cortejo do mestre bem lá atrás, ouvi um grupo de espanhóis murmurarem quando Cae passou: — "É um príncipe mouro, um príncipe de uma casa muito antiga". Mas outro dia Cae foi atacado por um policial porque estava de biquini escandaloso. Eram assim os dias e as noites na Espanha. Foi durante este período que Gil musicou a letra "Babylon" que são memórias sintetizadas de New York, e "Crazy Pop Rock", que é um rock ecológico-social. Foi durante este período também que Gil ficou treinando bastante sua guitarra elétrica e todos brincavam com seu filho que era recém-nascido e muito bem cuidado por Sandra, sua mãe. O nome dele é Pedrinho e eu saudei o seu advento com uma letra que falava na era de Aquarius.
Depois chegaram Rogério Sganzerla e Helena Ignez, e também Julinho Bressane, e aí o ambiente enriqueceu-se com a presença desses radicais românticos. Caetano e eu andávamos muito preocupados com a lógica, a razão, e a história.


As discussões multiplicaram-se. A idéia do filme brotou como uma flor selvagem na boca de Caetano. Foi ele quem propôs: — "Vamos fazer um filme?" Mas como muitas das idéias do divino mestre, guru, prestidigitador e rei da Bahia, a idéia pairou no ar e depois transformou-se numa canção. Foi só em 1971 que a concretizamos. Era ainda julho de 1970.


Depois eu e Ruth voltamos para New York, e Antônio Bivar ficou com a gente no Chelsea Hotel. A neve caiu poderosa e New York mais uma vez me fascinou com seu vampirismo expressionista. Depois chegou Hélio Oiticica que ficava admirando a lua amarela em cima do anúncio do YMCA.


Voltei para Londres com Ruth Pante-rete em inícios de 1971, e foi aí que começamos a rodar o filme. Gil já com seu conjunto formado tocando maravilhosamente sua guitarra elétrica e com um som genial. Toquei um dia com ele lá no Marquee, sob os olhares vigilantes e de águia de Guilherme Araújo. Cae formando seu conjunto trabalhando com Macalé, e lendo Levi-Strauss La pensée sauvage. O filme é colorido e Caetano é um Demiurgo (mistura de oráculo, prestidigitador, pitonisa, profeta) Gil é o deus Pã, Leilah Assumpção é Cassandra, e eu sou Satã, a negação. Há a revolta das mulheres chefiadas por Dedé. Há milhares de situações e acontecimentos. Aguilar, o pintor, é Sócrates, mestre do Demiurgo, e o filme teria sido impossível sem a inestimável colaboração de Ruth que explodiu a minha alma e me fez crescer os cabelos, e sem a assistência da direção constante, os palpites maravilhosos, a criatividade, a presença dinâmica de Arthur de Mello Guimarães.



Caetano Veloso
Caetano Veloso é o Demiurgo no filme de mesmo nome
Caetano Veloso é preocupadíssimo com assuntos dos mais variados, de Filosofia à História, e sua casa é um centro de discussões de onde emana uma luz de aurora renascentista. Cae acha graça no meu modo de escrever como uma fábrica. Nossos diálogos são muito estranhos porque ele é um poeta, um dos maiores poetas brasileiros, com agudíssima informação, um prestidigitador, um demiurgo cujas referências estarão sempre localizadas no Brasil, na Bahia. Na querida Bahia. Eu sou um desintegrado, um indivíduo dissolvendo-se em cacos internacionais. Um escritor pop. Vejo Cae como um rei oriental, com abanos, corte, dengosidade baiana, registrando o mundo e as incríveis contradições da nossa época através desta peculiar posição. Caetano não tem crise de identificação, suas referências são nítidas e seguras, a Bahia mítica, tribal e mágica.


Gilberto Gil disse que é pela primeira vez que sente a música como um trabalho. Um trabalho cotidiano, um serviço de operário. Gil possui uma serenidade, uma tranqüilidade de quem realmente está em relação desalienada com o seu trabalho. Caminha para um ascetismo de dedicação integral para com a música, eu diria que o seu ser poético, todo seu sistema nervoso, tudo nele, se encaminha para um contínuo processo de crescimento e desalienação na simplicidade reencontrada. Ambos aprofundaram-se, estão em caminhos separados porém paralelos, muito mais simples, mais despojados do que na época do tropicalismo. Os dois estão navegando agora pelos desconhecidos mares do oceano aberto, em cujo horizonte a grande noite e a eterna aurora os espera. Na obra dos dois, cada vez mais diferenciada, profunda, e simples, sente-se o emanar de uma luz de aurora, renascença, esperança. Dentro da amargura atual, a obra dos dois, cada vez mais diferenciada, irradia uma vibração de bálsamo, uma inquietude fermentadora, indicando o caminho do oceano aberto, aquele de Nietzsche, aquele de Aurora.


Para além da incrível criatividade do nosso trabalho em conjunto, foi através destes dois iluminados baianos que eu conheci pela primeira vez um Brasil desconhecido para mim, um Brasil misterioso, doce, dengoso, cheio de riquezas míticas e humanas sem fim. Estranha aliança, deveras estranha, destes dois sóis da Bahia com um desintegrado produto industrial, eu, Jorge Mautner, pura negação permanente.

Quanto ao filme, foi uma viagem de prazer e agonia. Numa das cenas em que eu, Cae e um jovem chamado Upsi Luli sacrificamos a Dionisius oferecendo a ele nosso sangue, o sangue saiu muito aguado, e eu para salvar a situação, tentei consertar e disse: — "Eis, eis o nosso sangue como água". Mas não deu certo porque Caetano caiu na gargalhada com todo mundo. Aliás Caetano tem um nome artístico no filme: chama-se Caetano Veloso. Acumular as funções de diretor e ator foi uma experiência incrível e eu me senti um pouco Charlie Chaplin.


Macalé no filme canta uma estranha cantiga com letra minha que dura 8 minutos. É quase uma ária de ópera-candomblé. Nunca vi filme mais irônico do que este, e ao mesmo tempo com um élan de tragédia musical. Como os meus livros, o filme nada tem a ver com situações dramáticas, relacionamentos psicológicos dos personagens. O filme é uma farsa, uma fábula. Oh! La Fontaine, se as pessoas soubessem como você é atual!


Leilah Assumpção está magnífica em seu papel de Cassandra, e Dedé tem uma longa cena de namoro com Caetano Veloso ao som de "Coração Vagabundo". O filme é a fusão de quatro influências: expressionismo alemão, Godard, Glauber, pop americana. E um quinto elemento tropicalmente brasileiro de chanchada.


Claro que o filme é muito mais como tudo é sempre muito mais. O filme é denso, profundo, aterrorizante. Há uma nostalgia romântica a pairar por cima do filme, e acho que ele é algo muito novo.


Caetano participou da montagem, Gilberto Macedo foi a peça principal. Agradeço a todos que me tiraram da lama, e espero que todos vocês leitores d’O PASQUIM assistam ao filme.


Um dia eu li O PASQUIM pelas ruas de New York em meio a uma tempestade de neve. Como este mundo é estranho!
Jorge Mautner
Pasquim, 10/6/1971

O DEMIURGO - Um filme dos Tropicalistas
por Toninho Buda, 25 agosto 2000

Demiurgo é o nome dado pelos platônicos ao deus que teria criado o mundo, mas significa também operador de milagres. E hoje (25 de agosto de 2000) é uma data muito oportuna para falarmos deste filme, porque estamos comemorando no mundo todo o centenário da morte de Frederico Nietzsche. A influência deste filósofo é tão vasta, que eu chego a ficar emocionado quando leio o caderno Idéias, do Jornal do Brasil desta semana, especial sobre ele. Curiosamente, encontrei por acaso e reli hoje mesmo as anotações que fiz há exatos dois anos, em 20 de setembro de 1998, na casa do Marcos Petrillo, assistindo a um fantástico filme dos tropicalistas. Naquela noite mágica, o Marcos - que tem com a Tropicália uma ligação semelhante à que eu tenho com a Sociedade Alternativa - me mostrou esta relíquia da Kaos Filmes, que muito pouca gente conhece. Diga-se de passagem, Kaos sempre foi o nome da proposta político-filosófica de Jorge Mautner, que é um outro verdadeiro apaixonado por Nietzsche. É o próprio Mautner que inicia o filme, no papel de Satã. Gilberto Gil logo aparece - fantástico - no papel de Pan e em seguida vem Caetano Veloso, no papel do Demiurgo. E este demiurgo é um discípulo de Sócrates... Da trama ainda participam Jards Macalé e Dedé Veloso, a primeira mulher de Caetano.

Ora, é importante salientar nesta abertura, a representação da violência contra a natureza humana que foi causada pela maniqueísta divisão entre o corpo e a mente, ou entre physis e logos, desde os tempos dos gregos. Os gregos são os autores da máxima mens sana in corpore sano (mente sadia em corpo são), que pressupõe essa integridade entre corpo e mente. Mas foi exatamente com um grego - Sócrates - que nós passamos a assistir à decapitação do ser humano, num processo em que a cultura socrático-judaico-cristã veio - durante os séculos posteriores - desprezar a terra e valorizar somente o céu. Bem como desprezar o corpo e valorizar somente a alma. E ainda dizer que o corpo tem parte com o diabo e a alma deve buscar se livrar dele e buscar a Deus. Assim, o filme O Demiurgo se inicia com Caetano fazendo o papel de representante de Deus e Mautner e Gil representando os lados demoníaco e dionisíaco da natureza: Satã e Pan, Luta & Prazer (aproveito aqui para relembrar o nome desta fantástica e infelizmente desaparecida publicação alternativa da contracultura brasileira: Luta & Prazer).

Satã é o mesmo Satanás, chefe dos anjos rebeldes contra Deus, segundo a Bíblia. É ainda o demônio da Ira, do ódio, da guerra, do repúdio e do revide. Seus colegas são Lúcifer (Orgulho), Mammon (avareza), Asmodeus (luxúria), Belzebú (gula), Leviatã (inveja) e Belphegor (preguiça). Mas voltemos ao filme: os diálogos são fantásticos e as cenas, cheias de símbolos. Mautner usa o pentagrama invertido (símbolo do mal) e o anjo o utiliza na forma positiva. A cena de Gil (Pan) com as lésbicas é antológica! O demiurgo dá consultas às mulheres, castiga-as, lê suas mãos e, de repente, grita “viva a lógica”. Logo em seguida, Sócrates quer ler suas mãos... É evidente aqui uma grande gosação com o logos grego, pois a leitura de mãos não tem nada a ver com a lógica (que é a parte da filosofia que estuda as leis do raciocínio). Em dado momento, sete amazonas matam o demiurgo e bebem o seu sangue (a amazona parece representar o domínio da delicada beleza sobre a besta - o cavalo. Ou seja, a besta selvagem subjugada à vontade da mãe, geradora da vida). Mas o demiurgo ressuscita e discursa sobre a divina comédia humana, com saudades da Bahia, Porto Seguro e do sol dos trópicos (Na Divina Comédia, Dante colocou no inferno grande parte dos políticos do seu tempo... O filme, que assistimos em vídeo mas parece ter sido feito em super/8, parece ter sido rodado durante o exílio deles na Europa e época da Ditadura Militar no Brasil. Seria interessante se o Internacional Magazine buscasse uma entrevista com os tropicalistas, sobre o assunto)...

A presença de citações de Nietzsche então se torna muito forte no filme. Na cena do equilibrista, em que Caetano cita o grande poeta Rimbaud (o primeiro grande hippie), o filósofo alemão é muito evidente num texto que é do Zaratustra e diz mais ou menos o seguinte: “o homem é uma corda esticada entre o animal e o além do homem; uma corda sobre o abismo”. Além disso, Caetano faz uma outra citação do Zaratustra, que o próprio Mautner sempre usou em seu trabalho: “Aquele que não trouxer dentro de si o caos, não poderá dar à luz a grande estrela bailarina” (na verdade, o texto original está na primeira parte do ítem V do Zaratustra, e diz: “e Zaratustra falava assim ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros”). Mas tem outra nota importante a este respeito: Ordem da Estrela Bailarina era o nome de uma ordem iniciática criada por Edenilton Lampião (editor da revista Planeta no início dos anos 80), onde ele tentava aglutinar o que restava dos movimentos alternativos no Brasil. Esta ordem era de clara inspiração nietzschiana e crowleyana... Não é a primeira vez que falamos das semelhanças entre a Jovem Guarda, o Tropicalismo e a Sociedade Alternativa... mas voltemos ao filme.

A cena da lata de Coca-Cola é digna de Salvador Dali! Quem mais poderia criar uma analogia entre a beleza externa de uma lata de Coca com Apolo (o deus da beleza na mitologia grega) e o seu conteúdo com Dioniso (o deus do vinho entre os gregos ou o mesmo Baco entre os romanos)? E quem mais poderia ter a genialidade de pintar um pacto entre o Demiurgo, o diabo e Sócrates, para daí resultar a morte de Pan, senão os tropicalistas?! Gilberto Gil interpreta de forma brilhante a morte de Pan. E não estaria aqui também a morte da nossa cultura, bem como a morte de Deus, que é uma das essências da grande obra de Nietzsche? O Grande Deus Pan morreu... Em resumo: ao tentar separar a cabeça do próprio corpo, os socrático-judaico-cristãos se esquecem de que o que alimenta o cérebro é o sangue, que vem do coração. E que o alimento do sangue é ingerido pela boca e pelo nariz, que também estão na cabeça! Ora, ao tentar separar-se do corpo (physis), a própria cabeça (logos) morre imediamente de fome! Aí reside a essência da morte de Deus: a ninguém é possível ir para o céu assassinando dentro de si o Grande Deus Pan!
Toninho Buda
25 agosto 2000
Informação Suplementar
O Demiurgo é o criador do Mundo inferior (ou material). É considerado o chefe dos Arcontes possuindo sabedoria limitada e imperfeita.

Segundo os Gnósticos, esta entidade seria o Deus do Velho Testamento da Bíblia. Este ente tem a arrogância típica dos que se acham onipotentes. Criador de tudo que conhecemos, acha que todos devem curvar-se a sua divindade: "Não terás outros deuses diante de mim" é seu lema.
No mito Gnóstico o Demiurgo foi gerado pelo eon Sophia após sua queda. Ao ser gerado, criou o mundo material com o objetivo de aprisionar e governar as partículas divinas provenientes de sua mãe (Sophia) na matéria.
Querendo que as Almas do Mundo sejam livres, Sophia rebela-se contra o Demiurgo, e o verdadeiro Deus Inefável envia aos homens o seu filho mais querido, o eon Christós ou Cristo que desce ao mundo material com o objetivo de transmitir a "Gnosis" (conhecimento) às Almas para que elas tenham consciência de sua parcela divina e partam para o Pleroma libertando-se do jugo do Demiurgo.
Com o objetivo de impedir que isso ocorra, o Demiurgo cria inúmeras ilusões para afastar as Almas de sua legítima parcela divina, de modo que estas estejam presas e sejam escravas do mundo material, tendo que sempre a ele retornar (reencarnação). Desta forma esta entidade poderá ser o governante desta pequena Esfera de Vida onde reina absoluto.
O Demiurgo possui um povo eleito: os judeus. A estes se revelou e os têm como seu povo. Deu-lhes sua Lei (Lei de Moisés ou Torah) para a sua própria maldição: "Olho por olho, dente por dente". Seu dia é sábado.
Possui vários nomes: Samael (deus cego), Yaldabaoth (criança do Caos), Saclas, Saturno, Cronos, etc. Sua consorte é o demônio feminino Nebruel, que ao se acasalar com ele, dá origem a doze eons.
No Evangelho Apócrifo de João, o demiurgo Yaldabaoth tem a aparência de uma cobra com rosto de leão e seus olhos são como relâmpagos faiscantes.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Denny Yang's blog: video-promocional do livro "NEW YORK, NEW YORK"

Denny Yang's blog: video-promocional do livro "NEW YORK, NEW YORK"

O Desmanche do PT -- e de Lula

Nota do Lúcio: para mim, já desmanchou há muito. É questão de enterrar a alma, pois o corpo já tá podre há muito tempo.





Laerte Braga





Há um pensamento dominante entre petistas que qualquer crítica ao governo Lula signifique apoio, ou consentimento, ou ajuda, a manobras tucano/democratas para eleger José Serra em 2010. Ou o tresloucado governador de Minas Aécio Neves. Petistas não têm o hábito de olhar para o próprio umbigo e perceberem os equívocos cometidos pelo governo Lula e pelo partido numa trajetória errática que, mesmo com os altos índices de aprovação do presidente, não o exime de críticas.



Uma coisa são as alianças podres do governo e outra coisa são os podres tucanos e fétidos democratas. Eu não votaria em Aluísio Mercadante para nada. Mas entendo sua decisão de renunciar à liderança da bancada do partido no Senado. Não votaria nele, mas há diferenças abissais entre Mercadante e Jereissati ou qualquer tucano. Mercadante é um sujeito decente, tucano não sabe o que é isso.



O problema é que Sarney é um dos cânceres da política nacional e como todo câncer precisa ser extirpado. Do contrário todo o organismo fica comprometido. E não há nenhum milagre no fato de Lula ser mais popular que FHC. Qualquer um que não seja tucano ou democrata em qualquer canto do mundo.



O xis da questão é que quando os eleitores se libertaram do jugo corrupto dos tucanos, do governo FHC, elegeram Lula para fazer o contrário. Lula não fez. Dourou a pílula, evitou uma ou outra das costumeiras besteiras de FHC, o caráter entreguista do governo, mas não foi além do “capitalismo a brasileira”, perfeita definição de Ivan Pinheiro.



E isso, evidente, porque há uma diferença de caráter entre o atual presidente e o ex-presidente. Lula não é bandido. Mas também não é mocinho.



A senadora Marina da Silva viveu na pele, sofreu, agüentou, tentou de todas as formas, que políticas ambientais – era o que lhe cabia no governo enquanto ministra – obedecessem ao programa do seu partido, o PT.



Esbarrou no pragmatismo de setores do governo e do partido, numa aliança inacreditável que levou, por exemplo, o norte-americano Henry Meireles (algumas pessoas chamam de Henrique) à presidência do Banco Central.



Em busca de uma “governabilidade” que não tinha nada a ver com os anseios e aspirações dos brasileiros que o elegeram, Lula juntou-se a partidos e políticos inaceitáveis em qualquer circunstância.



O que foi o mensalão? A jogada perversa, mas fria, planejada e pensada de um político ligado à ditadura militar, com postura de extrema-direita, mas corrupto confesso, Roberto Jéferson, em favor de tucanos.



Por detrás da postura de Jéferson havia apenas um jogo de interesses e o ex-deputado não fez nada daquilo por acesso de bom caratismo, até porque nada do que disse ficou provado até hoje. Ao contrário da compra de votos para aprovar a emenda constitucional da reeleição no primeiro governo de FHC. Mas Lula deixou-se enredar e cada vez mais foi atolando seu governo e seu partido num PMDB tucano, sob a batuta de Michel Temer e noutra faceta, a do coronelismo, sob a regência de José Sarney.



Existe algo maior que Lula e o PT. Não inventaram nem a esquerda e nem a luta popular. Se faz parte do governo uma figura com a estatura de Celso Amorim, ou do secretário geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, do ministro da Saúde, que por sinal é do PMDB, José Carlos Temporão, fez parte até pouco tempo um embuste chamado Mangabeira Unger. Está no Ministério das Comunicações um político no mínimo complicado, Hélio Costa.



Quais os avanços reais e efetivos na reforma agrária? Por que a entrega de ponderável parte do pré sal?



A opinião pública foi iludida no governo FHC com a conversa fiada que privatizando o governo teria mais dinheiro para a saúde, a educação e políticas sociais de reais e efetivos avanços, na prática, o programa bolsa família, tocado com a competência e a seriedade do ministro Patrus Ananias (uma das exceções positivas), mas e daí?



O governo Lula caiu na armadilha da política rasteira de Brasília, uma espécie de ilha da fantasia e os aspectos positivos acabam se perdendo nessa “arraia miúda”, pagando o preço de defender um dos mais corruptos e venais políticos do Brasil contemporâneo, exatamente José Sarney.



O Senado todo é uma desnecessidade como afirma o jurista Dalmo Dalari de Abreu? Num projeto político de governo popular é sim. Não importa que existam cinco ou seis senadores decentes. A chamada Câmara Alta pratica a mais baixa forma de política.



Lula pensou pequeno.



A senadora Marina da Silva, à frente do Ministério do Meio-ambiente, tratou de defender interesses nacionais para além dos específicos de sua pasta.



A Amazônia é talvez o maior desafio para o País, ao lado do problema da Comunicação em poder de grupos controlados de fora. Por gente de fora. De olho na Amazônia.



Quando candidato a presidente Lula falava em projeto Brasil. Onde está? Nos acordos feitos com a MONSANTO para a produção de transgênicos? Na VALE privatizada? Na EMBRAER em mãos do capital estrangeiro?



Na PETROBRAS acossada dia e noite por bandidos do porte de Jereissati, FHC, Arthur Virgílio, de olho nas contas bancárias e nas contribuições das empresas estrangeiras do setor petrolífero?



Há dias a Marinha brasileira divulgou um comunicado oficial repudiando e desmentindo o jornal THE GLOBE (alguns conhecem como O GLOBO) sobre a questão dos submarinos movidos a propulsão nuclear. Já poderíamos ter pelo menos três desses submarinos tomando conta das costas, do litoral do Brasil e não o temos por conta do jogo de empurra e entrega do governo FHC e da falta de decisão do governo Lula. A decisão veio agora e como compensação política. Não como parte de um projeto de defesa da soberania nacional e da integridade de nosso território que passa pelo mar territorial brasileiro. São indispensáveis, os submarinos.



Pior ainda. A Aeronáutica brasileira está a mercê de interesses norte-americanos e de Israel no que diz respeito a ser reequipada com caças à altura das reais necessidades da segurança nacional. É um problema que rola desde os tempos de FHC e Lula não resolveu. Só procurou equilibrar-se na conversa de uma no cravo e outra na ferradura, ou em soluções paliativas.



Segurança não pode confundido com empregado do CARREFOUR levando um negro para um quartinho (a empresa é cúmplice, é bandida) pelo fato de ser negro e, portanto, suspeito de ser ladrão. Uai! FHC é branco. Sarney apesar de pintar cabelos e bigodes de preto é branco. E nunca ninguém levou os dois para quartinho escuro.



A política de Lula para a Amazônia, para além da questão ambiental, inexiste. Ou o que existe é um outro exercício de equilibrismo entre as mega concessões feitas a setores e grupos privados e as palhaçadas do ministro Minc com dados estatísticos que não comprovam coisa alguma no essencial.



Falta decisão política efetiva de uma integração latino-americana que exclui tropas no Haiti. E um monte de outras coisas.



Onde o governo Lula consegue avanços – e existem – é onde estão figuras que na verdade garantem o mínimo de credibilidade e visibilidade desses avanços. Do contrário seria só uma exibição fantástica de carisma de Lula, inegável, mas compreensível se comparado com alguém como FHC, uma figura que tipifica o ser amoral. Sem escrúpulos.



Ou você acha que Obama chama Lula de “o cara” por que?



O governo dá a sensação, outro ponto, que não atinou para a grave ameaça à soberania nacional e especificamente a Amazônia, no que diz respeito ao acordo militar entre a Colômbia e os Estados Unidos. Sete bases militares para “combater o narcotráfico”? Ora, o narcotráfico, segundo o departamento de combate às drogas do governo dos EUA, está no governo colombiano. Em Álvaro Uribe.



E é o que menos importa. Importa o controle da Amazônia. Quando a GLOBO e outros se referem às FARCs como “terroristas” estão apenas tentando criar na opinião pública – e criaram – o monstro que devora criancinhas, mata idosos, não permite a democracia, quando no duro, as FARCs são um ponto de resistência ao avanço dos EUA sobre a Amazônia brasileira ou não.



Em seguida ao cancelamento da visita do presidente do Irã ao Brasil, o líder sionista (sinônimo de fascismo) que ocupa o ministério das Relações Exteriores de Israel apareceu por aqui para deitar falas sobre cooperação, de olho em comunidades palestinas no sul do País e na água, no controle da tríplice fronteira, onde agem às escancaras terroristas do MOSSAD.



Por que o governo brasileiro não rompeu relações diplomáticas com o governo golpista de Honduras? Qual a razão da presença de tropas brasileiras no Haiti num processo de ocupação e repressão ao sabor dos interesses dos EUA?



Marina da Silva não é a ponta de um iceberg. É o próprio. Não agüentou digerir tantos sapos assim. E existem diferenças fundamentais entre ela e Heloísa Helena. A senadora Marina tentou de todas as formas resistir dentro do PT. Não é uma temperamental como a alagoana. E não vai aqui nenhuma crítica sobre conduta em relação a Heloísa Helena, só a forma, ao jeito.



A decisão de deixar o partido foi consciente. Pensada e pesada. O que vai fazer daqui para a frente é outra conversa. Se se deixar ludibriar pelo canto de tucanos e democratas joga fora sua história. Não creio que faça isso. A senadora não dá mostras, nunca, de assimilar a convivência com pústulas padrão José Serra.



O problema Marina da Silva não é só Marina da Silva, o tamanho da perda (imenso). É o processo autofágico de Lula e do PT.



Isso significa que presidente e partido são absolutamente irresponsáveis no que diz respeito à luta popular e pensam apenas e tão somente na política menor de um institucional carcomido pela corrupção e pelo entreguismo.



Não se pode exigir das pessoas que fechem os olhos a isso e apóiem incondicionalmente o governo e seu partido.



Apoio incondicional, um político mineiro dos velhos tempos dizia que a gente “só presta a mãe”.



O que está em jogo é bem maior que Lula e o PT.



Os caminhos são outros. Ou esse País vira estado norte-americano, república de bananas, com bases militares no Nordeste como querem os EUA, sob a batuta de bandidos tucanos democratas à frente José Serra e toda a corte FIESP/DASLU.



Na luta pelo Brasil soberano, independente e justo, Lula e o PT são episódicos. Essa construção está acima deles. E a resistência se estende a atitudes e posturas como a de aliar-se a figuras como Sarney. Não se trata de sobreviver a nada, mas tão somente de criar condições de governabilidade dentro de um processo corrupto e anti-nacional.



É abrir as portas para José Serra em 2010. Ou pior, o irresponsável do governador de Minas. O tal que não tem dinheiro, mas compra apartamento de 12 milhões de reais.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fernanda Torres fala dos Dias de Tempestade e Fúria



Eu costumo olhar arte com olho de vidro. Teórico. Mas essa moça. Tenho vontade de dar uma beijoca nela. Pronto. Falei.

Duas indicações de blog

Duas indicações de blog:

http://improvisions.blogspot.com/ (do graphonótico Marcelo Kraiser e da adorável maluca Vera Lúcia Rosas)

edwardsteinhardt.blogspot.com (blog do Edward, poeta e escritor amigo de Key West e amigo do John Hemingway).

Um dos diálogos do post sobre a perda do pai que ele fez tem um diálogo mais ou menos assim:

--Pai, sabe o Ryan?

--Sei.

--Somos mais próximo do que se aceita socialmente, entende?

--Sim. Não se sinta culpado.

(...) E isso, vindo de alguém que pouco tempo antes ele tinha visto desposar uma mulher.


Lúcio chegou. Quando do inverno o tredo vento balançava o coqueiral vetusto. Ainda o recordo, pálido de medo e trêmulo de susto.

Teologia penetrália: JC,

Jesus Cristo = Gerald Thomas.

Caets (Veloso) é Judas.

Zênites.

Nadires: Giba-Glauber-Laerte Braga

Pólos: Caets/GT
X
Laerte Braga + GibaGlauber

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Going Through My Father´s Things

Going Through My Father's Things

His glasses,
A half-dozen watches;
Old photographs.
My brothers get
The black-powder guns.
I choose a few things:
A clock he made,
A heron he carved,
A painting he painted.
We find old driver's licenses,
Deer tags from the 50s;
An arrowhead he found
When he was a kid.
My brother Wally gets his dog-tags.
I insist on the old wooden cigar box
My dad found in the Mojave Desert
When he was 16...
This is what happens
When you join the armory
Of widowed sons,
When a poet's father dies.

At home I am going
Through old photos
And I reach for my phone
To call my dad and say:
"Guess what I found,"
And I can't.
The entry in "Calls Received"
In my cell-phone for Friday
Still says, 'Dad';
By Tuesday he is gone.
On Friday we lay his hammer
Alongside a cedar box
Not much bigger than a book
In a hole in the ground.


Edward Steinhardt em seu blog

Hakim Bey e Fernanda Torres na Revista Piauí

"Bush é a verdadeira cara da América. Obama é Bush com vaselina".

Hakim Bey, cineasta palestino que está com a Fernanda Torres no último número da Revista Piauí, dizendo uma frase que já circula na web e foi dita por meu amigo Laerte Braga...

A resposta de Theodore Roszak

Eu tinha inúmeras coisas que queria desenvolver depois: sobre um grupo de teatro que está atuando em BH, sobre uma palestra de Leandro Karnal que vi ontem na TV Cultura, com curadoria de Luiz Filipe Pondé, como sempre combatendo nossa "modernidade covarde"; fora que queria falar da morte de Erwin Puhler, intelectual uberabense amigo de papai e escreve muito bem sobre Goethe e outros filósofos. Fora que estou numa ambiência Woodstock depois que li um encarte do Jornal Estados de Minas anotando que ocorreram duas mortes: uma por overdose de heroína e outra um acidente com um trator no campo, etc, etc, fora que queria pinçar frases do diálogo de Glauber com Antonio Calmon versus Oiticica e Torquato, citando trechos dos filmes que encontrasse no Youtube: O Demiurgo, Os Inconfidentes, todos filmes dos quais gostei (do Demiurgo, vi cenas, Inconfidentes vi todo e a cena final é referência para mim): Tiradentes ia ser morto no filme histórico, quando a cena é aplaudida: corte surpreendente, são estudantes do ensino secundário vendo uma encenação em Ouro Preto em 1972, com professoras em formação, uniformes, discurso de autoridades da ditadura.

O melhor ensaio acadêmico sobre a Contracultura lançado em 69 mesmo por Theodore Roszak, tem um prefácio profético:

"A resposta, creio, é que eu mesmo me vejo incapaz de vislumbrar ao fim da estrada que seguimos com tanta confiança, nada senão os dois vagabundos tristes de Beckett, que sob uma árvore murcha esperam que suas vidas comecem. Além disso, acho que a árvore nem sequer será real -- e sim uma contrafação de plástico. Na verdade, é possível que até mesmo os vagabundos não passem de autômatos...embora -- é claro --com largos sorrisos programados nos rostos".

Camile Paglia

CAMILLE PAGLIA FALA DOS ANOS 60
Pensadora, ensaista, polêmica em tempo integral, Camille Paglia sai com novo livro nos EUA - Break, Blow, Burn (Quebrar, Estourar, Queimar), que inclui 14 palestras em 11 cidades. São 43 pequenos ensaios sobre 43 poemas de língua inglesa, começando por Shakespeare e terminando com a letra de Joni Mitchell da canção Woodstock
Publico a seguir texto transcrito do caderno MAIS, da Folha, que vem de certa maneira corroborar o que coloco em meu livro, sobre a década de 60.
lucena
lucenasp@hotmail.com
Na leitura da canção de Joni Mitchell ela fala da geração que viveu a juventude nos anos 60, e as frustrações que ficaram. Mas com uma aguda observação daquele momento. Segundo Paglia, "Minha geração me parecia tão talentosa, dotada de tamanhas promessas, parecíamos estar fazendo nada menos que uma revolução cultural. E tudo aquilo deu em desastre. Um desastre que se deve, em primeira instância, aos efeitos das drogas... acreditando ingenuamente num atalho para o paraíso... E o resultado foi que as pessoas mais convencionais, mais conformistas, acabaram tomando conta das universidades. Tomaram conta e têm a audácia de dizer
que são verdadeiros herdeiros dos anos 60, o que é uma calúnia".
"Tenho um sentimento muito forte, um sentido elegíaco dessa geração que agora se vê caricaturada, reduzida a um período exótico do passado, quando se usavam roupas coloridas e cabelo comprido, quando se tocava violão na calçada e dançava pelado no parque."
"O fato era que havia uma grande revolução artística em curso. A interação da poesia, artes visuais, música, cinema etc. na criação de um novo tipo de performance artística. Tudo isso se movendo na direção de uma verdadeira renascença norte-americana- algo que já havia se rebaixado nos anos 70 ao simbolismo da discoteca... E logo veio a Aids, que destruiu uma geração inteira de homossexuais talentosíssimos."
"Uma dimensão gigantesca desse legado foi esquecida, que foi precisamente a dimensão cultural. De um lado, a ambição de fundir todas as artes. De outro, uma visão abrangente da natureza".
Falando sobre as canções que ouvimos hoje, comenta:
"Minha geração tinha esse elo com a tradição medieval irlandesa e escocesa das baladas que chegou aos EUA no século 17, em regiões hoje associadas ao estilo "country", como Kentucky e Tennesse. E toda aquela disciplina da escrita, as lindas simetrias dessa tradição se fizeram presentes na música "folk", que também tinha um componente político forte, contra as guerras, contra a bomba atômica.
Tínhamos isso de um lado e de outro o blues, que veio nutrir o rock. O rock inglês trouxe isso de volta para nós, adolescentes da década de 50. Mas tudo isso foi varrido pelo hip hop e pelo rap."
"...O rap me parece algo importante e vital.... mas o pessoas do rap não se dá conta de que está falando para um nicho. Ainda não apareceu nenhuma canção capaz de se comunicar com o resto de nós".
Gente, é com o maior orgulho, tesão, prazer e nada de humildade que posso dizer alto e de bom tom: Camille Paglia veio confirmar toda a tese do meu livro, toda a importância que a década de 60 teve como o movimento social, cultural, artístico e político mais importante do século passado, e que deixou suas influências na formação dos intelectuais e pensadores que hoje estão por aí. Leia o livro e depois faça sua crítica. O jornaldorock.jex.com.br estará aberto a todas as posições dos leitores, sem discriminação ou distinção, sejam as críticas construtivas ou esmagadoras.
Quando tiverem o livro, escrevam.
Abraços
Lucena
Autor: luiz carlos lucena

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Lemmings: paródia de Woodstock de 1973

Original Off-Broadway Cast, National Lampoon's Lemmings (Blue Thumb, 1973; Decca Records, 2002)

"Lemmings is a satirical joke-rock mock-concert musical-comedy semi-revue theatrical presentation, or none of the above." -- CD Liner Notes

Back when the National Lampoon was still a comic force to be reckoned with -- before National Lampoon's Last Resort, ...Senior Trip, ...Van Wilder, and other instantly forgettable titles soiled a once instantly recognizable and trusted brand name; even back when there was still a magazine called the National Lampoon -- they attracted the best comic talent available, many of whom went on to later stardom. Above the National Lampoon Radio Hour, and albums like That's Not Funny, That's Sick... (though classics in their own right), one National Lampoon product stands out as a legendary example of how talent and zeitgeist can combine to produce a timeless piece of satire.

National Lampoon's Lemmings is a parody of the Woodstock Festival. It takes the "peace, love, and music" idea and adds "mass suicide" to it. Half a million youth, gathered together on a farm in New York for the "Woodchuck Festival of Peace, Love, and Death" to commit mass suicide, an act that draws respect from "Farmer Yasser," who posits that this action of protest is "probably the best goddamn thing ever happened to this country" and that he, for one, is willing to ignore their differences because "long hair, short hair, what the hell's the difference once the head's blowed off?"

Mocking the seemingly interminable announcements given throughout the festival, John Belushi constantly interrupts the proceedings to make announcements of his own -- making particular note of such famous moments as the "brown acid" warning and the "rain chant." It helps to be familiar with the source in order to get some of the more pointed humor, but other sequences like "the All-Star Dead Band" can be enjoyed by anyone with a sense of humor and a basic knowledge of dead musicians, real and rumored.

Lemmings stars such future luminaries (Saturday Night Live would not see its debut for two more years) as Belushi and Chevy Chase -- two names that would become synonymous with the "National Lampoon" moniker through their film work on Animal House and the Vacation series, respectively -- as well as Christopher Guest, who has become the poster boy for parody and satire through his work on the "mockumentaries" This is Spinal Tap, Waiting for Guffman, Best in Show, and A Mighty Wind. Also on hand are respected but less famous names like Tony Hendra (best known as the manager in Spinal Tap), Gary Goodrow, and Alice Playten.

Fans of Guest's newer work will appreciate that his talent for copying musical styles was already in full bloom during his work on Lemmings, responsible for co-writing half the songs in the show and delivering terrific impressions of Bob Dylan in "Positively Wall Street," James Taylor in "Highway Toes" -- where one can hear the tenor that he would later use as one of the Folksmen -- and, in a throwaway gag, Richie Havens, who is shot before he is allowed to become intelligible.

Chase puts in a deft turn as a John Denver-type in the darkly hilarious "Colorado," as well as a terrific though mildly anachronistic Altamont Hell's Angel riff. We are also treated to an early appearance of John Belushi's Joe Cocker impression during "Lonely at the Bottom," a song (co-written by Belushi) so loving in its mockery that it could easily have found its way to radio.

Not only real artists are mocked, however. Lemmings finds room for a couple of archetypes, as well. "Goldie Oldie" (Playten) announces that she and her group, the Oldies, are "going to play a medley of my hit for you" then segues into "Pizza Man," a 1950s "death rock" song along the lines of "Leader of the Pack" -- only more descriptive. Later, the "Motown Manifestos" deliver a musical rendering of Marx and Engels with their tune, "Papa Was a Running-Dog Lackey of the Bourgeoisie," a primer of eastern European politics that you can dance to. (The proletariat raise their heads at the beginning in the form of the supergroup "Freud, Marx, Engels, and Jung" who sing the "Lemmings Lament.")

And for those who are still alive at the end of the concert, there's a performance by Megadeath (not the modern day heavy metal band; they leave out the second "a"), about which a "Megagroupie" proselytizes that "pure rock sound can kill" and recommends putting your head right next to the amplifier.

This is a fitting end to an incisive satire of a period in time that is burned into our collective consciousness, an event that has created its own reality, its own mythology. Those who feel strongly about it will not be offended by this album, but will simply recognize the attention to detail that went into making this comic portrait of something that was once taken very seriously, and perhaps should be remembered affectionately, but that also was overdramatic enough to rate being made fun of. Lemmings is that portrait, done with care. That is why, like its forbear, it stands the test of time.


[Craig Clarke]

Steinhardt sobre a morte do pai

Uma postagem do poeta Edward Steinhardt sobre a morte do pai (a post of a poet about the death of his father).

http://edwardsteinhardt.blogspot.com/2009/08/armory-of-widowed-sons.html

Reading the post I remembered a Ferlinghetti poem:


Autobiography

I am leading a quiet life
In Mike´s Place every day
watching the champs
of the Dante Billiard Parlor
and the French pinball addicts.
I am leading a quiet life
on lower East Broadway.
I am an american.
I was an American boy.
I read the American Boy Magazine
and became a boy scout
in the suburbs

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Frase do Laerte

"Serão sete bases militares dos EUA na Colômbia para combater o narcotráfico (fachada) e no duro mesmo derrubar Chávez, Evo Morales, Rafael Corrêa e tomar conta da Amazônia. O tráfico não importa tanto, um dos chefões é Álvaro Uribe, presidente do país vizinho. Mas é aliado".

Laerte Braga

Arrabal no JÔ

crônicas e críticas da América Latina: Cidades de tendas nos EUA : a economia em fase terminal

crônicas e críticas da América Latina: Cidades de tendas nos EUA : a economia em fase terminal

Bitácora del Párvulo: Distancias

Bitácora del Párvulo: Distancias

Reinaldo Azevedo e a morte do pai

Meu pai padeceu longamente de um câncer, que depois se generalizou em metástases várias... Já não podia mais se comunicar, mas estava vivo... Não sentia mais dor. Não sofria mais. Até seu último suspiro, que eu não olvidaria esforços para retardar, construí e reconstruí teias de afetos e de lembranças, caminhei pelos desvãos da memória, tentei entendê-lo melhor e a mim mesmo. Queria me fazer, e talvez tenha conseguido, a partir dali, um homem melhor. Meu pai estava vivo porque sua vida, mesmo naquelas condições, vivia em mim, na minha irmã, na minha mãe, nos seus netos, na generosa rede familiar que se criou, incluindo sobrinhos, irmãos, cunhados, para protegê-lo e dignificá-lo. Seu corpo ainda morno, embora já não emitisse qualquer sinal de consciência, me acolhia e me amparava, cobrava de mim entendimento.

Arquipélago Gullar: mais uma do poeta marxista

"Não acredito que ninguém, exceto o Chávez, acredite que vá fazer a revolução socialista"

Outra pérola do poeta marxista Ferreira Gullar, enamorado de sua musa Roseana Sarney, o "monstro de olhos verdes".

Ele trabalhava na Globo de dia, tramava no partido comunista brasileiro de noite e não entende como a esquizofrenia pode ser social.

Esquizoanálise? Não, esquerdofrenia, Gullar!

Duchamp

Com Gerald, na sombra de um Starbucks

Monday, August 10, 2009
CON GERALD, A LA SOMBRA DE UN STARBUCKS
W.G.G


El pronóstico para aquella jornada de agosto era que, por tercer día consecutivo, se levantaría el mercurio por arriba de los cien grados Fahrenheit. Miami se iba transformando en el infierno tan temido, la humedad desfiguraba rostros, transparentando estados de ánimo.

Mientras me acercaba por Meridian, buscando el Starbucks de la esquina con Lincoln Road, miraba ansioso el cielo, anhelando una nube gris que presagiara la divina tormenta.
Gerald Thomas me había avisado que llegaría el sábado por la tarde y quedamos de encontrarnos en el café, el martes alrededor de las diez de la mañana. Por la peatonal circulaba poca gente. A media cuadra del negocio, casi soy atropellado por un curioso individuo que llevaba en el manubrio de su bicicleta un enorme y bien cuidado gallo blanco, de cresta alta y roja. “South Beach” pensé divertido, aquí podes encontrarte cualquier cosa. Levanté la vista del gallo móvil que se alejaba y me encontré la figura del maestro Gerald, hundida en una silla como escondida del resto de la gente.
Se levantó con energía y me dio un fuerte abrazo. Me pareció más bajo que la última vez y noté que por su rostro surcaba una profunda tristeza.

—¿Como está mr. Thomas? —le dije estrechando su huesuda mano.

—No muy bien querido —me contestó con un leve temblor en la voz.

Ordené un expreso en la barra, con una torta de blueberry (mi favorita). Gerald ya estaba tomando un café late. La colombiana del mostrador me regaló un cappuccino con mucha crema y salsa de cranberry arriba. Lo había hecho equivocadamente y no quería que el jefe lo viera. Volví cargado a la mesa y el anglo brasilero me miró sorprendido.

—¿Te vas a tomar todo eso querido? Mucha azúcar no es bueno para la salud —me recriminó.

Asegurándome de que la empleada no me miraba, tiré la apetitosa bebida al basurero y me quedé solo con el cafecito y el dulce. Le pregunté a mi amigo la causa de su tristeza, aunque sabía que el laureado director siempre tendría una causa para su romántica melancolía.

—El día anterior —me contó— había fallecido una de las personas que más respetaba. La anciana de 91 años, toda una leyenda en el ambiente teatral neoyorquino, estaba encargada de la dirección del prestigioso teatro, donde también trabaja él. Más allá de la enorme pena que lo embargaba, debía asumir ahora la plena responsabilidad de la conducción del establecimiento cultural. Sus esperadas vacaciones de seis días en South Beach, no pasarían de tres.
La crisis terminal del teatro y el cine independiente en general, lo tenían trastornado.

—Se rompió el circuito Walter. —me dijo apenado— Más de doscientos locales de cine y teatro han cerrado el último año en el área metropolitana de New York. Si no presentas un bodrio ( no dijo esta palabra pero me sirve) hollywoodense, con Adam Sandler incluido, no tenes sala ni productor disponible.

Tomó un trago corto y se arregló el largo pelo en un movimiento característico. La peatonal comenzaba a cobrar vida. Dos homeless, con sus carritos de supermercado repletos de porquerías, pasaron hablando entusiasmadísimos.

—Para colmo, la ciudad nos redujo los subsidios casi totalmente y nuestra deuda es un lastre enorme. A mediados de septiembre comenzamos la temporada y realmente no sé si podremos afrontarla. Pero hay que intentarlo, no nos queda otra—dijo abriendo los brazos en señal de resignación.

—Nunca estuvimos tan desamparados, creo que el panorama caótico es mundial. Solo en Brasil, donde tengo bastantes problemas en la actualidad, y en Francia, donde no me conoce nadie, hay un movimiento esperanzador— terminó dándole un poco de positivismo a un monologo que venía en caída libre.

—¿Y en la Argentina? —pregunté inocentemente.

—Estuve en Bs As dos meses atrás, haciendo un trabajo para el teatro San Martin. Encontré una ciudad embotada, apesadumbrada. Se ve que van perdiendo la esperanza que al principio tenían con los Kirchners. En el plano cultural, el mismo caos que aquí. No hay trabajo por ningún lado.

Si necesitaba una inyección de optimismo esa mañana, sin duda mr. Thomas no me iba a dar. Por lo menos al principio. Empezaba a conocerlo bien y sabía que detrás de esa coraza de persona amargada, habitaba un hombre tierno y supersensible. Siempre guardaba algunas noticias buenas (por lo menos para mí) para el final.

—Lo de España es un hecho —acotó, refiriéndose a unos contactos que había realizado para promocionar El Guionista… en la madre patria— A fin de mes tenemos algo marchando por allá.

Se ofreció a ayudarme en unas cuestiones legales y me invitó, una vez más, a quedarme en su casa un fin de semana y conocer la gran manzana. Le comenté del proyecto de hacer un video sobre el libro y me prometió colgarlo de su blog apenas estuviese listo. La palabra blog como que lo acercó a otra realidad.

—El tema de mi sitio me tiene preocupado querido. El administrador de IG me ha pedido que me dedique a tocar temas culturales, como si la política no fuese cultura también. El vampiro de Curitiba (un columnista de su blog) ha estado criticando a Lula y el sitio es sostenido por el gobierno Brasilero— comentó haciendo un gesto de disgusto con la boca— Yo casi no opino sobre política Brasilera. Tampoco quiero pelearme con el Vamp, él tiene libertad para hablar de lo que quiera, así que es probable que cierre el sitio. Una pena porque además de ser una ayuda económica en estas épocas, estaba alcanzando un éxito singular.

Rozando el mediodía nos levantamos con pereza. La conversación estaba entretenida pero debíamos volver a nuestras obligaciones. El tomaba un vuelo a Nueva York en tres horas y yo entraba a apilar reposeras y revolear toallas en la playa del National. Caminamos lentamente por la peatonal rumbo al Delano Hotel, donde se estaba hospedando. Cruzó su brazo sobre mi hombro y seguimos hablando sobre sus pasados viajes por el planeta.

—¡Ámsterdam da pena querido! —dijo en un suspiro— Jóvenes de todo el mundo confluyen a drogarse allá con total libertad. Ves a cientos, muchos americanos, desparramados por las calles. Algunos tirados en estado lamentable. En el centro solo encuentras pizzerías y negocios de comida chatarra, que es todo lo que comen. La decadencia de la civilización.

Pasamos por enfrente del Lincoln Theather y miró curioso en la cartelera, pero no habia presentacion alguna.

—Más allá de su capacidad innegable, está con las manos atadas —comentó sus pensamientos y adiviné que se referia a Obama.— Es tan grande el desastre que creó Bush que no veo forma en que lo pueda arreglar en un futuro proximo.

—Por menos razón lo echaron a Nixon —le acoté, buscando una respuesta.

—Sí, pero corrían otros tiempos, ahora Bush se encargó de crear un estado de psicosis nacional respecto al peligro del terrorismo. Fue como un escudo tras el cual, él y sus laderos cometieron todo tipo de barbaridades.

Tardamos cinco minutos en pasar la Collins, una fila de buses de turismo tenían el tráfico atascado. Comentó que volvería en tres o cuatro semanas e iríamos a comer algo por allí y a hablar más tranquilamente. Se despidió con su habitual beso en la mejilla, deseándome la mejor de las suertes mientras me recordaba que le mandara el link de mi libro en amazon.com.

—Saludos a Daniela —le dije, en relación a su hermosa esposa carioca y lo vi subir con su desgarbado andar las escaleras del Delano.

Ya estaba llegando a trabajar quince minutos tarde. Hoy no me importaba, pues la mañana había sido bien aprovechada. Pensé en como disfrutaba las charlas con esta entrañable criatura. Se me ocurrió compararlo con don Quijote, después que una de las aspas de su principal enemigo, un molino gigante, lo hubiera derribado golpeándolo duramente. Se sentía deprimido, más estaba seguro que se levantaría, acometiendo de nuevo contra todos los imposibles que lo enfrentaban. En síntesis de eso se trataba su vida. Una lucha continua, casi utópica, por un mundo mejor… o al menos habitable

Salud maestro Gerald!
Posted by GERARDWALT at 4:33 PM 6 comments

waltergreulach.blogspot.com

O Descanso de Duchamp

Link permanente O descanso de Duchamp
por Daniel Piza, Seção: artes visuais 08:12:13.

Baptistão

Marcel Duchamp continua a ser o ídolo-mor de artistas contemporâneos e a besta-fera dos que odeiam a arte contemporânea, entendendo por isso basicamente as instalações. O primeiro a rir desse papel central no debate do século 21 seria o próprio Duchamp. Qualquer pessoa que caminhe pela boa exposição em cartaz no MAM, no parque do Ibirapuera, sabe desde a entrada que não é para levá-lo tão a sério, nem por um lado nem por outro. E o que menos vê são instalações como as que tomaram conta de bienais mundo afora.

Já é lugar-comum notar que o artista que um dia ironizou os museus e pintou bigode na Mona Lisa é agora homenageado por eles. Sua Fonte de 1917, o urinol invertido que enviou para um salão de “belas artes”, virou objeto de culto; os “ready-mades”, utensílios do cotidiano que desvirtuava num exercício de livre associação visual, não são vistos como efêmeros, mas duradouros. Suas frases sobre o acaso e o inacabamento foram convertidas em dogmas, em doutrinas. Acima de tudo, é como se ele tivesse o gênio de Pablo Picasso, capaz de reinventar todos os gêneros. Mas ele não tinha – e sabia disso.

Duchamp passou por todos os “ismos” do início do século passado, como futurismo e dadaísmo, mas me parece claro que sua natureza tendia ao surrealismo, com seu gosto por sonhos, nonsense e trocadilhos (como “prière de toucher”, um seio para tocar, em que “prière” é “por favor” e também “prece”). Seu alvo era o modo de vida tido como “burguês” e “racional” que se traduzia na monogamia religiosa e na arte que se pretendia um espelho da natureza. Como mostra Calvin Tomkins na biografia que fez do artista, ele declaradamente se preocupava em provocar a moral da época, mais do que em ter uma “obra”. Não espanta que tenha convertido sua pessoa em assunto, tal como Dalí e Warhol depois que disseram o que tinham a dizer em arte.

Em suas próprias palavras, Duchamp era um maníaco sexual, e atrás de toda a variedade de seu trabalho o único tema era esse. O Grande Vidro é um projeto em que os homens como máquinas tirariam a roupa da mulher com quem iam se casar, naqueles tempos em que muitas mulheres se casavam virgens. Étant Données é, como já escrevi, um “peep show” em que você vê uma mulher de pernas abertas deitada na natureza como a Giganta de Baudelaire, enquanto segura um lampião de gás. A sexualidade na era mecânica – e o próprio urinol foi acompanhado de um elogio irônico à engenharia americana de encanamentos e pontes – é o que motivava Duchamp. Não existe discurso político em sua arte.

E ele gostava de fazer coisas, de lidar com mecanismos e efeitos concretos; jamais caiu nessa arte conceitual que abandonou a noção do fazer. Apesar de ter abandonado a pintura em 1918, a figuração é uma constante em sua carreira, como em Étant Données (cena derivada de Courbet e outros pintores românticos), e ele sabia que uma diagonal ou uma simples transparência já implicam a sensação de perspectiva. Mesmo quando fazia algo mais gráfico – como os discos em movimento, que antecipam a “op art” – nunca deixava de associar uma simbologia. Chamava esse disco de “plafond pulsant”, com óbvia conotação erótica – como a espiral que Saul Bass fez para os letreiros de Um Corpo que Cai, de Hitchcock. Duchamp não deixou apenas más heranças.

Hoje não há mais “belas artes”, casamentos virginais, corpos cobertos por roupas fechadas e escuras, burguesia fácil de chocar em seu mundinho de carros e eletrodomésticos, etc. O público em geral apenas se diverte com as obsessões e os truques de Duchamp, enquanto os artistas o endeusam e os caretas o demonizam. Ri melhor quem ri primeiro.

("Sinopse")

Arrabal no JÔ

Para minha amiga MNC:

http://programadojo.globo.com/Programadojo/0,6993,7524,00.html

"Vocês do Brasil são modestos. O melhor do teatro do século vinte e do início do terceiro milênio foi feito por Ruth Escobar. Venham correndo vê-la, de patins, de helicóptero"...

Arrabal

kkk

Pois é, acho que o Gerald Thomas está mesmo loosing aí em New York, esse lugar provinciano. Venha para cá de patins ou de helicóptero agora!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Gullar X Habacuc

FERREIRA GULLAR

O cachorro como obra de arte
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A arte de vanguarda, que nasceu contra a institucionalização, é refém da instituição
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ANO PASSADO, em 2007, um costarriquenho, que se diz artista e se chama Guillermo Habacuc Vargas, pegou na rua um cão vira-lata, amarrou-o numa corda e o prendeu à parede de uma galeria de arte, onde o animal ficou definhando até morrer de fome. Tratava-se, segundo ele, de uma "instalação perecível", uma obra de vanguarda. Pois bem, para o espanto das pessoas que já se tinham revoltado com a crueldade de Habacuc, a Bienal de Arte Centro-Americana de Honduras acaba de convidá-lo para dela participar com a referida "obra" e concorrer a um dos prêmios do certame.
Será tudo isso verdade ou apenas uma "pegadinha"? Custa crer que o dono de uma galeria de arte permita que um exibicionista pirado amarre ali um pobre cão e o deixe morrer de inanição. Como se deu a coisa? O animal urinava e cagava preso à parede, ganindo desesperado? As pessoas iam assistir a esse espetáculo de sadismo e ninguém se revoltou nem nenhuma sociedade protetora dos animais protestou? A possibilidade de ter o cão morrido sem que ninguém tenha sabido está fora de questão, uma vez que o objetivo desse tipo de "autor" é precisamente chamar a atenção sobre si, já que nenhum outro propósito pode ser considerado. Mais surpresa causa ainda a notícia de que a Bienal de Honduras o tenha convidado a repetir, nela, aquele mesmo espetáculo de crueldade e sadismo.
Não obstante, essa informação está em vários sites, e surgiu até um movimento de protesto -um abaixo-assinado- para impedir que a Bienal mantenha o convite. Se o que Habacuc queria era escandalizar e ganhar notoriedade, conseguiu, ainda que a notoriedade própria aos torturadores e carrascos.
Não obstante, apesar da repercussão que o cerca, esse fato não é tão novo assim. Sem a mesma dose de cocô e urina nem a mesma animalidade, outras "obras" e atitudes ocorridas antes são reveladoras do impasse a que chegaram a arte dita de vanguarda e as instituições que a exibem, particularmente as Bienais. Uns poucos anos atrás, um gaiato enviou para a Bienal de São Paulo, como sua obra, a seguinte proposta: abrir uma segunda porta na exposição por onde as pessoas entrariam sem pagar. Não podia ser aceita, pois implicaria sério prejuízo ao certame, mas também não poderia ser rejeitada, porque, sendo a Bienal "de vanguarda", tal rejeição comprometeria sua imagem.
Em face disso, adotou-se a seguinte solução: improvisar, nos fundos do prédio, uma portinha meio secreta, garantida por um guarda que a manteria aberta por apenas uma hora e só permitiria a entrada de dez visitantes, no máximo. E assim as coisas se acomodaram, salvando-se a audácia do artista e o caráter vanguardista da instituição. Pode ser que me engane, mas a impressão que tenho é de uma luta farsesca entre falsos inimigos que necessitam um do outro para existir: sem o espaço institucional (galeria, museu, Bienal), não existe a vanguarda e, sem a vanguarda, não existem tais instituições. E a gente se pergunta: mas a vanguarda não nasceu contra a arte institucionalizada? Pois é...
Voltemos ao cachorro. O tal Habacuc pegou o cachorro na rua e o levou para a galeria de arte a fim de fazer dele uma "instalação perecível", ou seja, uma obra de arte. Se o tivesse levado para um galpão qualquer e o deixasse lá morrendo de fome, ele não passaria de um pobre vira-lata vítima de um maluco. Mas, como o Habacuc é artista -ou se diz-, levou-o para uma galeria de arte e aí o pobre cão, de cão virou instalação, por obra e graça do espaço em que o puseram para morrer. Esse é um dado que os críticos de arte (também de vanguarda) teimam em ignorar, ou seja, que, nessa concepção estética, é o espaço institucional que faz a obra: por exemplo, um urinol igualzinho ao de Duchamp, se estiver no Pompidou, é arte; se estiver no banheiro de um boteco, é urinol mesmo, pode-se mijar nele à vontade.
É, portanto, diferente da Mona Lisa, que depois de roubada do Louvre, em 1911, e levada para um quarto de hotel na Itália, continuou a obra-prima que sempre foi. É que a chamada arte conceitual dispensa o fazer artístico e afirma que será arte tudo o que se disser que é arte, mas desde que o ponham numa galeria ou numa Bienal.
Ou seja, a essência da arte de vanguarda, que nasceu contra a institucionalização da arte, é contraditoriamente, a instituição; não está nas obras e, sim, no espaço institucionalizado em que ela é posta. Talvez por isso, a próxima Bienal de São Paulo não terá obras de arte: exibirá apenas o espaço institucional vazio, que as dispensa.
Posted by Luciano Trigo: at 5:33 PM

Um poema de Ana Peluso

NOTAS DE GERALD THOMAS



gerald:
sete cabeças
sete vidas
sete pulos

milhões de saltos
a
l
t
o
s
purpu
rimadíssimos

geral
ID
entidade
múltipla


quaDrante
transformação
astuta

o bruto do bruto no bruto
o doce do doce no doce
o olhar humano estupefato
o tato a falta o rato
buracos semanas a fio

o canto do canto nas naves
a nave de neves na alma

o parto de pernas abertas
o rumo o homem
não viu



bocas quietas
semelhanças
corações estupefatos [!]



o grito agudo no ato
sentido mulher olfato
tímidos corações
orações
surdez
serena cortina resguarda

-. Anotações:



as notas de gerald thomas
são notas em escala clássica
olhadas de ponta cabeça
do avesso e do direito
com ouvidos
bem abertos

os olhos decantam tudo.

*

Ana Peluso é poeta, ilustradora, webmaster de Zunái e editora do site Officina do Pensamento. Escreve o blog palavrap, tentando domar as idéias, antes das palavras. Possui participações em algumas antologias.

*

Leia também a entrevista com o dramaturgo, conheça seu repertório e veja imagens das peças.

Antonio Fagundes sobre a lei antifumo

Mas Fagundes não quis comentar o tema polêmico, limitando-se a dizer que se tratava de "caso encerrado". No entanto, o ator, diretor e produtor não se esquivou em responder declarações favoráveis à lei Antifumo do encenador Gerald Thomas em seu blog e contrárias ao teatro realista/naturalista.

- Para alguém que mostra a bunda para o público está bom ... - disse.

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/08/10/estou-cansado-de-ser-chamado-de-ladrao-diz-fagundes-sobre-nao-usar-rouanet-para-produzir-restos-757343153.asp

Do blog do La Mama

Ellen Stewart dando feliz 2008 e pedindo apoio para o teatro La Mama. Ela diz que sempre quis fazer um blog.



http://lamamaetc.blogspot.com/

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sala de Debate sobre o Woodstock


http://roomfordebate.blogs.nytimes.com/2009/08/09/from-woodstock-to-sarah-palin/?scp=4&sq=Woodstock&st=cse&apage=5#comments

Meu comentário: não vejo Woodstock como evento político, tomemos como exemplo o fato de que líder estudantil Abbie Hoffman foi expulso do palco quando quis discursar -- e pela banda The Who -- como se fosse um chato qualquer.

A frase apropriada para refletir de modo pertinente sobre o acontecimento é do Pasolini: a tecnocracia quer que a cultura burguesa seja destruída; a contracultura quer destruí-la.

Bruno: trailer oficial

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Hitler zuando o cruzeiro

Iniciação à Ópera: Picapau

Num post aí do lado, Caetano Vilela contou de sua iniciação à ópera. A minha foi com o Picapau! Veja aí embaixo:



Ah, bravo Figaro! Bravo, bravissimo;
Ah, bravo Figaro! Bravo, bravissimo;
a te fortuna (a te fortuna, a te fortuna) non manchera.
Ah, bravo Figaro! Bravo, bravissimo;
Ah, bravo Figaro! Bravo, bravissimo;
a te fortuna (a te fortuna, a te fortuna) non manchera.

Sono il factotum della citta,
Sono il factotum della citta,
della citta, della citta,
Della citta!!!
La la la la la la la la la!
thiagoalipiobh (4 dias atrás) Exibir Ocultar -2 Marcado como spam Responder | Spam Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono,
donne, ragazzi, vecchi, fanciulle:
Qua la parruca. Presto la barba...
Qua la sanguigna. Presto il biglietto...
Tutto mi chiedono, tutti mi vogliono,
tutti mi chiedono, tutti mi vogliono,
Qua la parruca, presto la barba, presto il biglietto, ehi!
Figaro. Figaro. Figaro. Figaro. Figaro.
Figaro. Figaro. Figaro. Figaroooooooooooooooooo...
Figaro qua, Figaro la, Figaro qua, Figaro la, Figaro su, Figaro giu, Figaro su, Figaro giu.
thiagoalipiobh (4 dias atrás) Exibir Ocultar -2 Marcado como spam Responder | Spam Rasori e pettini
lancette e forbici,
al mio comando
tutto qui sta.
Rasori e pettini
lancette e forbici,
al mio comando
tutto qui sta.
V'e la risorsa,
poi, de mestiere
colla donnetta.
col cavaliere.
colla donnetta.
La la li la la la la la
col cavaliere...
la la li la la la la la la la LA!
thiagoalipiobh (4 dias atrás) Exibir Ocultar -2 Marcado como spam Responder | Spam Largo al factotum della citta.
Largo!
La la la la la la la LA!
Presto a bottega che l'alba e gia.
Presto!
La la la la la la la LA!
Fortunatissimo per verita!
Fortunatissimo per verita!
La la la la la la la LA!
Pronto a far tutto, la notte e il giorno
sempre d'intorno in giro sta.
Miglior cuccagna per un barbiere,
vita piu nobile, no, non si da.
La la la la la la la la la la la la la!

Música de Habacuc no Myspace

www.myspace.com/casitadetentaciones2

Vejam o Funeral Blues recitado

James e Walter, vejam o poema Funeral Blues recitado no filme Four Weddings and a Funeral

http://www.youtube.com/watch?v=b_a-eXIoyYA

Refutação de Alberto Caieiro

Cito alguns trechos de um artigo de Octavio Paz:

"A história de um homem pode se reduzir à de seus encontros".

(...).

"Não menos decisivos são os encontros imaginários. Um dia nos encontramos frente a um quadro de Vermeer e vemos -- transformado em luz, ar e e em uma mulher que escreve e olha por uma janela -- o tempo em pessoa."

"Quem já não se sentiu -- só ou acompanhado, diante do mar ou em um vale, irmão do felino ou do polvo, do inseto e da rã? Quem já não se sentiu -- diante do espelho ou de um teatro, em uma praça ou em um aeroporto -- o expulso do cosmos, o judeu errante, o estranho ou, como diziam os agnósticos, o alógeno? Encontros com uma canção, uma paisagem, um quadro, mas, sobretudo, encontros com um livro e com um autor."

"Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras.
E as plantas são plantas plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto, como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra", digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. O que há a dizer?

Gerald´s Ship of 22, Ahoy! Hast seen the White Whale?

Gerald Thomas fala sobre a matança de baleias e golfinhos; Affonso Romano (que provavelmente apoiaria o piche de Gullar contra Habacuc, mas enfim) comenta, em crônica no Estado de Minas, a montagem de Aderbal Freire para Moby Dick, de Melville.

Alguns trechos da crônica:

"Estou me lembrando do filme dirigido por John Huston, há décadas, sobre essa estória. Começavam com Orson Welles fazendo aquele sermão do padre, recontando a história de Jonas. E terminava com Gregory Peck -- o capitão Ahab arrastado pela gigantesca baleia depois de ter nela jogado inutilmente todos os arpões de sua fúria. Como fazer isso no teatro?"

"O espetáculo levanta velas, as âncoras saem do real para a sentida alucinação e, de repente, tudo é mar, tudo é texto. Entre tantas invenções da direção, aquela de botar os marinheiros com livros na mão, livros que ondulavam, ancoravam, flutuavam mostrando que a viagem teatral/literária é dupla e una. Você já tinha tido alucinações parecidas, Aderbal, quando encenou fantasticamente o surrealista Campos de Carvalho (O Púcaro Búlgaro).

"Meu oponente é um anjo cruel" Isaac Singer, citado por Affonso.

"Há parentescos e diferenças com O Velho e Mar, do Hemingway".

"Se navegar é preciso, escrever, nem se fala".

"Lá vai o navio Pequod em meio a borrascas, lá vai a tripulação como num navio fantasma, procurando a alucinada e inapreensível baleia".

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone.
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead,
Put crépe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song,
I thought that love would last forever: 'I was wrong'

The stars are not wanted now, put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.



Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “não tinha razão”.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.

postado por james p. às 09:24 em 24/02/2009

Teatro, mito e metáfora

Teatro, Mito e Metáfora:

Conversas com Gerald Thomas


Por Ana Peluso e Claudio Daniel



Zunái - Você nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu muitos anos em países como a Inglaterra, a Alemanha e os Estados Unidos. O que esse périplo trouxe a você, como conhecimento da arte, de si mesmo e do mundo?

GT - Existe algum conflito sobre onde eu nasci, desde o momento em que me foi revelado - aos 28 anos de idade - que o meu pai não era o meu pai. E que meu "verdadeiro" pai, o biológico era fulano de tal. Minha vida virou de cabeça pra baixo. Tive que rever cada momento da minha vida ate então. Fiz um rewind daqueles 28 anos, de cada beijo e abraço, de cada coisa que me foi dita, enfim... E há cerca de um ano descobri que nasci num quarto de hotel, o Gramercy Park Hotel, aqui em Nova York. Mas ainda não é a versão definitiva. Continuo botafoguense. Ter vivido nesses países todos como um, digamos, "nativo", foi duro e ao mesmo tempo muito agradável. O fato é que hoje, ao ver os fogos de artifício explodirem nesse dia da independência americana, aqui na frente do meu apartamento, em Manhattan, nesse 4 de julho, percebo que não pertenço a lugar algum. Passei 2003 em Londres, achando (ilusão pura) que estaria voltando ao lugar da minha adolescência, o lugar onde tive os meus dois primeiros casamentos e onde aprendi o que era a vida pratica. Pura mentira. Desencanto total. Na primeira oportunidade, me mandei de volta pra Nova York, ainda o único lugar que consigo chamar de "casa". Veja bem, não os EUA, mas Nova York.

Mas sou um Nowhere Man. Sempre fui tratado como tal. Nunca tive o sotaque do local, sempre tentei ao máximo ser como os outros, mas era evidente que esse judeu errante errava mesmo. Acho que as minhas peças falam, narram isso. Então, me refugiei no mundo abstrato da cultura, da pintura, do teatro, da literatura e me infiltrei, mergulhei tão fundo nisso que ninguém conseguiu mais me acompanhar. De tal forma que quando "emergi", as analogias e metáforas que eu fazia eram somente minhas, resultado de leituras muito peculiares e muito particulares. Mas assim é o artista, não é? Isolado, marginalizado e com uma assinatura que nem sempre é entendida. Graças a Deus, tive publico.


Zunái - Suas primeiras encenações teatrais foram realizadas no La MaMa Experimental Theater, em Nova York, onde você adaptou e dirigiu 12 estréias mundiais de obras de Samuel Beckett. Comente essa experiência.

GT - Não sei muito bem por quê, mas o Beckett foi com a minha cara. A biógrafa dele, a Deidre Bair, já estava me seguindo (e seguindo a correspondência entre nós - eu e Beckett) quando, um dia, eu recebi um cartão dele um pouco menos monossilábico que os outros. Aí ela falou: "Voa já pra Paris. Ele quer te ver". Naquela tarde, eu estava embarcando. O resto é história. Tocar em Beckett - fisicamente - era como se eu estivesse tocando em Joyce. Quer dizer, ter essa experiência já vale a pena ter vivido. É como ter dirigido Julian Beck, fundador do Living Theater, que só trabalhou comigo fora da sua própria companhia, a mais revolucionaria de todo o século XX, aquela que tirou o teatro do recinto teatral e levou o drama para as ruas e para as prisões etc. Julian trabalhou em cinema com Pasolini, com Coppola e com Spielberg. Sabendo que ia morrer, com câncer, ele pediu pra trabalhar comigo numa peça de Beckett. Fizemos a première americana de That Time (Aquela Vez), e, frágil do jeito estava, ele rejuvenesceu. Lotávamos o La MaMa Annex na East 4th Street e ainda fizemos uma curta turnê pela Europa até que não deu mais. Julian morreu.


Zunái - Você foi um dos maiores ilustradores do The New York Times, cargo que abandonou para dedicar-se ao teatro. O que o trabalho na imprensa trouxe para você, e o que o levou a esse afastamento?

GT - A pressão de ser o ilustrador da OpEd page do Times é enorme. E você tem que ter uma idéia "genial" diariamente. Veja bem, não é cartoon. Eram pinturas, eu fazia coisas a quatro cores que eram reproduzidas em preto e branco (half tone drop out) e eram metáforas, como aquela que ganhou um prêmio: tratava-se de um artigo que alertava a população sobre caminhões cujo conteúdo era lixo nuclear e que literalmente utilizavam estradas que margeavam as grandes cidades. Com o tamanho dos buracos dessas estradas, podia acontecer um enorme acidente, de proporções inimagináveis. Depois de passar a noite em claro, pensei na seguinte imagem: aquele cartão porta-ovo, que tem aquela divisão que parecem dois silos nucleares. E eu coloquei um único ovo lá dentro, rachado, vazando a gema...


Zunái - Como surgiu a Companhia Ópera Seca? Qual é o balanço que você faz das atividades do grupo? O que levou a sua dissolução?

GT - Meu Deus! Essa resposta precisa de 19 horas! Surgiu com o que sobrou da montagem de Carmem com Filtro 1, com o Fagundes. Ou seja, Bete Coellho, Oswaldo Barreto, Luiz Damasceno e, claro, Daniela Thomas. Aí fomos adicionando gente. No Rio, foi a Vera Holtz, a Beth Goulart, Maria Alice Vergueiro... e fizemos Elektra Com Creta logo após a estréia de Quartett, do Heiner Mueller, com Tônia Carreiro e Sergio Britto. Estourou. Ficou mais de um ano em cartaz. Eu ficava indo e vindo, do Brasil pra cá. Próxima grande produção (grande mesmo): a Trilogia Kafka, aumentando ainda mais o elenco. O Processo, Metamorfose e Praga. Aí vieram os convites internacionais. A trilogia (mais Carmem Com Filtro 2) veio pro La MaMa Annex e fez tanto sucesso que a temporada foi estendida por duas semanas em Viena. Fomos convidados pelo Wiener Festwochen, o Festival de Viena, que é o evento que te abre todas as portas pro mercado de língua alemã (virtualmente, o mercado "sério" de teatro, Alemanha, Áustria, Suíça etc). E aí, não paramos mais. A Cia de Ópera Seca, ou Dry Opera, ficou sendo a companhia de teatro brasileira que mais viajava pelo mundo.

Durou 18 anos, e foi ótimo. Mas acho que chegamos a um desgaste com a residência da Cia no Sesc Copacabana, em 2001, 2002. Tive que apresentar seis novos espetáculos e não há diabo que agüente. Então, desde o Ventriloquist, e Gabi com Esperando Beckett até Reynaldo Gianechini com Príncipe de Copacabana, tinha Nietzsche contra Wagner e Solos Secos e não sei mais o quê. Me desgastei como não sei o quê. Estava em frangalhos. E ainda presenciei a queda do World Trade Center aqui, o que acabou comigo... Na volta, tive que estrear Deus Ex Machina... e o desgaste foi enorme.

Com os "desencontros" que tive no Rio durante Tristão e Isolda, pensei: "pro inferno com o passado". Vou rebatizar a companhia na primeira oportunidade. Quando estreei Anchorpectoris aqui no La MaMa, em marco de 2004, na minha volta a NY, resolvi engajar atores novos e pegar um novo nome, ou seja, o Terceiro Trilho, The Third Rail Company. E assim será com A Circus of Kidneys and Livers, com o Nanini. Afinal, sobrevivi aos 50 anos e me vejo no direito de mudar o que eu quiser. Amanhã, acho que vou mudar o meu nome.


Zunái - Além de diretor, você também é o autor da maioria das peças que encena, como Elektra com Creta, Carmem com Filtro, a Trilogia Kafka, entre outras. Quando você escreve, já está pensando nos atores, na cenografia, na iluminação, enfim, na obra dramática como um todo?

GT - Escrevo diretamente para os "meus" atores, conhecendo as idiossincrasias deles, as suas peculiaridades etc. Dirigir não se dá no palco, mas, muitas vezes, em torno dele ou completamente fora dele. É criação de "climas". E, sim, crio com toda a cena na cabeça, cada luz ligada, cada cenário em seu lugar. É a tal Gesamtkunstwerk que o Richard Wagner falava.


Zunái - Na ópera Mattogrosso, você trabalhou em parceria com o músico Phillip Glass. Como foi esse processo de criação conjunta?

GT - Não foi só em Mattogrosso. Na Trilogia Kafka também. Em Carmem Com Filtro 2 também. Estamos trabalhando juntos em Cantebury Tales, uma ópera baseada nos contos de Chaucer. Não dá pra responder a essa pergunta. Toda parceria tem os seus segredos e as suas manias. Não existe uma máquina por traz, ou tampouco um método. Somos os melhores amigos, o Philip e eu, então, isso facilita muito as coisas. Rimos muito. Fazemos muitas piadas o tempo todo. Ele aceita todas as minhas sugestões e vice-versa. Mas o segredo de uma boa parceria não é a brincadeira entre os dois e nem o fato de fazermos piada o tempo todo. O segredo vem do profundo respeito que um tem pelo trabalho do outro. Só posso dizer que o Philip é o nosso grande compositor erudito contemporâneo, o nosso Beethoven de hoje, digamos. Muita gente não se dá conta disso. O leque de sua obra é enorme. O que já foi escrito sobre ela é gigantesco, assim como os lugares em que sua musica foi apresentada, e os músicos que a regeram ou tocaram foram simplesmente os mais importantes músicos vivos de nossa era. Eu tenho a humildade suficiente para saber que trabalho com o maior gênio da música vivo.


Zunái - Você é organizado, metódico, faz anotações e ensaios muitas vezes ou é mais intuitivo, confiando nas sensações? Comente o seu processo criativo.

GT - Minhas cenas nascem de desenhos meticulosos, cada cena é anotada, desenhada quase que obsessivamente e geometricamente e milimetricamente coreografada com luz e som. Mas, claro, no decorrer dos ensaios acontecem erros. E os erros não existem, então eu os transformo em acertos e os incorporo logo. Chamo isso de obra do acaso total. Como escrevo para aqueles atores que estão ali, nada mais natural do que eles reagirem àquilo que eu escrevi. Então, essa metalinguagem causa uma certa estranheza. Exemplo: Julian Beck estava com câncer terminal fazendo o papel de alguém morrendo. O público sabia disso e o resultado era de arrepiar. Outro exemplo: Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real. A tal cena da masturbação causou tanta confusão (até aqui, no Lincoln Center) porque as pessoas jamais puderam esquecer (e eu as lembrava disso o tempo todo) de que aquelas duas eram mãe e filha na vida REAL. E Gabi era uma entrevistadora também na peça Esperando Beckett, e Reynaldo Gianechini era um ator despreparado, assim como o príncipe dinamarquês Hamlet, é um filosofo despreparado para lidar com as armadilhas reais e cruéis da vida real do castelo de Elsinore. É essa a minha assinatura: a metalinguagem. Uma linha corre abaixo daquilo que você vê e que te soa um pouco atonal, apesar da total harmonia que sai dos alto-falantes.


Zunái - O que significou para você o contato com Haroldo de Campos? Qual é a relação que existe entre a poesia e o teatro de Gerald Thomas?

GT - Haroldo de Campos não significa somente para Gerald Thomas, mas para todo e qualquer criador em qualquer área das artes brasileiras. Sem ele, a arte brasileira não seria considerada "moderna". Seriamos algo como o Uruguai ou a Bolívia. Claro, estou exagerando. Mas quero deixar bem claro que o Haroldo não teve o tratamento em vida que merecia. Eu sinto muita, muita falta dele. Não dá nem para medir o quanto. Éramos próximos. Muito próximos. Não posso dizer como era uma delícia passar as tardes com ele, conversando, ou melhor, bombardeando conversas. Isso resultou em dois livros que ele orientou, ambos pela Perspectiva. E longos artigos que ele publicou pela Folha. E na peça Graal, que ele havia escrito em 1952 e eu encenei em 1997, com alunos da CAL mais a Bete Coelho... Não sei, são tantas as memórias que é difícil dizer. Só gostaria que outros artistas brasileiros fossem mais generosos e confessassem o quanto Haroldo de Campos foi fundamental na vida deles. Infelizmente, a mesquinharia é enorme e isso talvez não aconteça ou demore muito a acontecer.


Zunái - Você já encenou óperas como O Navio Fantasma e Tristão e Isolda. De onde vem o seu interesse pela obra de Richard Wagner? A seu ver, qual é a novidade que essa arte dramática ainda reserva para os dias de hoje?

GT - O teatro musical (como a ópera é chamada em alemão) te dá a chance, como encenador, de delirar e construir, desconstruir temas e mais temas, sem que haja o tal TEXTO, o tal diálogo dos atores que sempre remete à ação para um lugar determinado, ou seja, o didatismo e a objetividade disso, daquilo ou daquilo outro, por mais "surreal" ou "absurda" que a cena seja. Na ópera, a cena é lírica. Geralmente, não se entende o que está sendo cantado (por causa das vogais esticadas, consoantes suprimidas etc), então, o campo da ação fica inteiramente livre para que o encenador lide com o MITO em questão (o Holandês Voador ou Tristão e Isolda, no caso) e os impulsos da música, e constrói em cima desses impulsos as suas desconstruções, os seus delírios as suas leituras sobre esses mitos através dos tempos.


Zunái - Você é conhecido como um artista polêmico. Durante a encenação de Tristão e Isolda, no Rio de Janeiro, ao ser provocado por alguns dos espectadores, reagiu subindo ao palco e mostrando a bunda, o que lhe valeu um processo judicial e o seu afastamento do país. Comente o caso.

GT - Deixa o caso ter um desfecho judicial no STF que eu comento. Aliás, juro que não agüento mais falar sobre. Isso. Foram cinco segundos. O Haroldo de Campos havia morrido naquela tarde e isso havia acabado comigo... Sei lá, deixa esse caso pro STF.


Zunái - O que você espera fazer, quando retornar ao Brasil? Tem planos para novas montagens?

GT - Escrevi uma peça pro Marco Nanini, A Circus of Kidneys and Livers, ou Um Circo de Rins e Fígados, que possivelmente acontecerá mais tarde, neste ano, se eu sobreviver. Marco Nanini é, sem dúvida, o ator dos meus sonhos. Um ator completo, aquele que sabe se desconstruir no palco a ponto de conseguir confundir a platéia sobre o fato de estar ou não perdido no texto, se deu ou não branco na cabeça, se perdeu o norte. Se (des)posicionar no palco é uma das coisas mais difíceis que existem. Exemplo? Um ator, quando tem que fazer um bêbado, inevitavelmente entorta a boca, entorta o tom e começa a cambalear. Bebedeira não é nada disso. Estar bêbado é tentar mostrar ao máximo que NÃO se esta bêbado, não é isso? Os bêbados não tentam provar que ainda estão sóbrios? Mas ator raramente pensa nisso. O Nanini é muito meticuloso nesses pequenos detalhes e, ao mesmo tempo, sabe delirar com uma mera palavra.


Zunái - Diversas produções que você realizou na Europa e nos EUA foram transmitidas pela televisão, em seus respectivos países. A seu ver, no Brasil, faz falta essa parceria entre a televisão e o teatro?

GT - No Brasil faz falta muita coisa. Mas não é só no mundo das artes. O Brasil está em falta consigo mesmo. E nas péssimas condições sociais em que está, por que deveria soltar dinheiro para as artes? Essa é uma pergunta que eu me faço e é justamente por causa disso que não moro no Brasil e não mamo nas instituições que distribuem dinheiro, não faço parte das panelinhas que sobrevivem das mutretas e das ladroagens e das incríveis corrupções (o mundo teatral é uma terrível corrupção, acreditem) que acontecem aí. Nesse sentido, me sinto menos mal no Primeiro Mundo, onde a fome, a educação e a saúde já foram resolvidos e, portanto me sinto menos culpado em cobrar o que cobro para encenar algo que escrevi ou algo que algum compositor compôs.


Zunái - Você já realizou experiências com o cinema? Planeja adaptar alguma de suas peças para a telona?

GT - Há cerca de dois anos, o Dogma 95, da Dinamarca, literalmente "acampou" no meu apartamento em Williamsburg, Brooklyn e propôs um filme. Transformaram a minha vida num verdadeiro inferno durante uma semana (eles bebem 24 horas por dia) e a coisa não deu em nada. Preciso explicar. Tenho uma vida muito ativa na Dinamarca desde o inicio dos anos 90 (92 pra ser preciso), que é quando levamos Flash and Crash Days para lá pela primeira vez e a crítica de todos os jornais foi absolutamente exuberante. Alguns críticos usaram nosso espetáculo para zombar do teatro local, usando o titulo "É assim que se faz". Na platéia só tinha gente de teatro e de cinema, incluindo o Lars, e o pessoal do Dr Dante Aveny, que mais tarde, em 95 e 96 eu fui dirigir. De dois em dois anos, na década de 90, eu ia pra Copenhague me apresentar e fazer debates. O cinema me interessa e ao mesmo tempo não me interessa nem um pouco. Digo, o processo industrial envolvido. Mas nunca se diz não, não é? Em Elektra Com Creta (96), Sérgio Augusto, na crítica que fez para a Folha de S. Paulo, escreveu que eu fazia cinema no palco e urrava: "dêem uma câmera pr'esse homem, urgente!" Acho que o que diferencia o meu teatro do dos outros é que - até hoje - continuo fazendo cinema no palco.


Zunái - Você se considera um artista inovador? Como encara a série de mutações (e permutações) da história da arte? O artista é um inventor ou reinventor da roda?

GT - Não cabe a mim dizer isso. Cabe à História. Conheço bem a História. Sou praticamente formado nela, pela Biblioteca do Museu Britânico. Sei dos seus ciclos, sei das suas injustiças, sei das suas frivolidades e crueldades, enfim. O "meu" inventor da roda é Marcel Duchamp, que colocou a roda de bicicleta em cima de um banco, tornando-a redundante. E, em plena era industrial, os ready-mades vieram pra sacanear a praticidade das coisas. Esse foi um dos statements mais fortes da arte ou da anti-arte, como queira.


Zunái - Morte das vanguardas, fim da história: para você, estes são slogans ideológicos, ou realmente nada mais existe para ser dito?

GT - Nada disso tem mais significado algum. Pode berrar o que quiser. Nada morre e nada nasce. Esta tudo aí nas vitrines. Tudo é decorativo.


Zunái - Como você vê a nova situação de poder no mundo de hoje, e em especial a política desenvolvida por George W. Bush e Tony Blair?

GT - Existe gente melhor do que eu para falar sobre isso. Por isso o livro de Bob Woordward, Plan of Attack, ou o filme brilhante de Michael Moore, Farenheit 911, estão aí. Bush - para começar - "roubou" as eleições na Flórida, então não era nem para ter sido presidente. A conexão da família Bush (o pai e filho) com a família saudita Bin Laden vem de décadas. Não havia nenhuma conexão entre Saddam Hussein e Bin Laden e tampouco Saddam tinha os tais weapons of mass destruction e tanto a CIA e o FBI quanto a NSA sabiam disso. Por isso que George Tenet, da CIA (há um mês) renunciou - dizendo que precisava passar mais tempo com a família. A 911 Commission foi um escândalo. O Senado descobriu o quanto Bush-Cheney mentiram para o publico americano, ignorando qualquer tratado internacional, ou qualquer escrúpulo, a pretexto de invadir o Iraque. PETRÓLEO e bastante dano de estrutura causado pelos bombardeios, para que a Halliburton - firma enorme de construção da qual Cheney foi CEO durante 5 anos - pudesse entrar e lucrar com a tal da "reconstrução" do Iraque. Removeram Saddam, mas, com isso, abriram milhões de tocas de fundamentalistas; aquilo ali vai feder e até agora já morreram quase 900 soldados americanos. Bush é inescrupuloso, burro, guloso, ignorante. Mas vai pagar caro por isso. E Blair, como cúmplice (e às vezes, até como mastermind) vai se sair bem na História, por ser articulado, bem-educado e nunca ter sido aquele a ter tomado a iniciativa. Mas tanto os EUA como a Grã Bretanha (os dois países entre os quais eu me movo) são alvos permanentes graças a esses dois imbecis.


Zunái - Vivemos num conto de Kafka, numa peça de Beckett ou numa fábula das Mil e Uma Noites, em tradução ruim?

GT - Seria injusto colar o mundo de hoje a autores que conseguiram transformar a realidade em metáfora de uma forma tão brilhante. Não vivemos nenhuma metáfora e sim uma horrenda realidade. Eu diria que vivemos algo mais parecido com Orwell ou Huxley.


Zunái - Qual é o sentido de fazer arte hoje, numa era regida pelo mercado, pela moda e pela mídia?

GT - Me pergunto isso todos os dias, e todos os dias a resposta mais honesta que a minha consciência consegue me dar é que a arte hoje não vale a pena. Por isso é que a mídia virou a merda que virou. Os interesses estão nas fofocas, na moda, nas coisas de superfície. A tese de Andy Warhol venceu e quem conseguir ficar famoso por 15 minutos conquistou o seu lugar. Os reality shows são uma vergonha, mas voltamos à época romana dos Coliseus. Me preocupa aonde isso vai dar na escalada da evolução. Daqui a pouco não me resta muita dúvida de que estarão matando pessoas ao vivo na televisão, para que cresça o Ibope. E isso não deixa de ser a arte do nosso tempo.


Zunái - Acredita em alguma utopia, pessoal ou coletiva?

GT - Acho que você terá que me fazer essa pergunta quando sairmos do buraco negro. Ainda estamos em plena virada de século e de milênio. Se você consultar a História, as outras viradas não foram diferentes para as vanguardas. O mundo está sangrento, grande parte do mundo está com fome, doente, e os milionários estão aí, nos Hamptons, em Beverly Hills e no Morumbi com seus enormes automóveis e iates, vestindo griffes de vomitar. Enquanto isso, estamos numa guerra que não existe, a pretexto de encontrar terroristas que talvez sejam simplesmente invenção ou um master plan desse mesmo Bush-Laden que quer beber petróleo e ganhar seus bilhões. Utopia Avenue é uma avenida em Queens e está bem detonada.

LOVE,

Gerald


Veja também fotos das peças de Gerald Thomas, leia um poema dedicado a ele, e conheça a cronologia de seu trabalho em Repertório.

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escreva para ZUNÁI: revistazunai@hotmail.com



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