sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Poema de Fabrício Estrada: Graymuras Fiction

Guaymuras fiction

"Durante la llamada, él (Micheletti)

uso la mayor parte del tiempo para hablar del pasado", dijo un funcionario

del Departamento de Estado. "Ella (Clinton) quería hablar del futuro".

Al principio fueron los Everglades y las lanchas rápidas volaban encima de los lagartos.

Luego, vinieron los grandes centros comerciales y los neandertales subimos las escaleras eléctricas hacia el nivel de los cromagnones.

Después, vino la conquista, el insufrible trato con los indios, los mosquitos, el damero de las ciudades, las minas profundas en la carne del esclavo, la construcción de las picotas, el escarnio de la felicidad a toda prueba.

Al final, ascendió el vestuario, la hilada fina, el vuelo de ida y vuelta: los astronautas muertos en Cabo Cañaveral y los muertos encontrados en los cañaverales de la costa norte.

Así se conquistaron los pantanos, señores, así se extendieron los rieles y las gloriosas fumigadas de las bananeras.

Hubo un tiempo pasado

de hermosas plantaciones silvestres.

El dolor era un mito

y los perros no tenían alma,

ni los indios, ni los negros.

Todo era tan bello.


F.E.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Roy Batty Dies

Lula para a Academia Brasileira de Letras!

Eu explico, eu explico. Sou oposição ao governo Lula. No entanto, eu o quero na ABL. Por que? Porque ele tem interesse em Gramática. Outro dia foi registrado que ele perguntou ao ministro Luiz Dulci sobre a crase, assim como corrigiu o "interviu" do ministro Tarso Genro. Ele tem curiosidade a respeito da Gramática, daí que será um belo estímulo para nossos alunos. E esse quase haikai que ele fez?

Não tem poema com narcotráfico

Poema ao narco tráfego

Não é um belo mote para um poema?

Não há rima com o narcotráfico
Não há poema; o narco
trêfego
anarco
trôpego
A droga é a morte do filho de Gullar
Na coca a poesia morre
Nada de cosmococa
Nada de Hélio Oiticica
depois do incêndio.
O estado fará tréguas
secretas
--segredos de liqui
dificador
com os traficantes.
Eles brincam com
nossas vidas:
polícia &
ladrão.



Outro dia, lendo um livro de Saulo Ramos, Código da Vida, vi que ele -- ou um amigo dele, não estou lembrado ao certo -- pediu ao Sarney que fizesse tudo, só não colocasse Lula na ABL, em nome do Português e da Gramática. Já eu adoraria ver aquelas carecas de louça e ratazanas fardadas estremecendo diante de um "menas", ou chorando sangue diante da ausência de um plural! Ahhh! Eu quero, eu quero!

DEDO IVO, JOSÉ SARNA, TREEEEMEEEEI!

LULA PARA A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS!

PS: o próximo a ser lançado será o Gerald Thomas, para realmente ABALAR as estruturas! Já pensaram o Gerald com aquele fardão e os taxistas perguntando, em movimento: SOIS REI?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

do blog Ovelha Pop

Conheci os poemas da Micheliny, se não me engano, no Suplemento Literário de Minas Gerais. Gostei demais. Agora encontrei o blog dela, graças ao blog do Wilson Nanini. Aí vai um "novilho dela, retirado do Ovelha Pop:

O Espelho de Borges



Em uma jaula de vidro

repousa um homem

que não vê,

mas é visto.



O observam

as coisas inanimadas,

as trevas

a os móbiles

de onde pendem

transluminosas

palavras.



O trem

envolto na bruma azul

do calendário

confunde-se com o homem,

seu sono de mármore,

seu hálito.



Confunde-se com o homem

até a palavra em negro

Fevereiro

o musgo dos números

a pedra dos domingos

em vermelho.



Confunde-se com o homem

tudo o que não vê,

mas o cerca,

o que de fora da moldura

respira e observa.


(Micheliny Verunschk, in: Geografia Íntima do Deserto, Landy, 2003)


ovelhapop.blogspot.com

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Tributo aos Vivos

Um blog de poesia e fotografia muito bom que descobri:

wilsonnanini.blogspot.com

Um poema de lá:

Tributo aos vivos

Poema Para Adélia Prado

Estrelas!
no pomar celeste da boca conso-
lidá-las
foto-
grafar o avesso
da treva do ventre do ferro do trem de ferro
convertido em sentimento

o hieróglifos
numa brancura fecunda
de constelar escuros,
de transgredir o tempo

mas recito insonte-
mente: besouros são
sementes
de rinocerontes;

o lunático com um guarda-chuva,
a virgem com uma cabaça,
a beata com um calvário
atravessam a nado meu poema

num olor inato interno que mescla
bois borboletas
Deus: todos os
artefatos álacres
de escavar cosméticos
entre distúrbios

que concretos ou telúricos
noitinvadem-me às vezes.
Postado por Wilson Torres Nanini às 02:44 1

Shakespeare em Honduras

Informe de Shakeaspeare a la ONU, a la OEA y al SPQR
Don Willian suele explicar las cosas ex temporáneamente y sin despeinarse un solo pelo, como el buen James Bond isabelino que fue. A nadie se le puede confiar con mejor acierto la investigación de cuanta maquinación se le haya ocurrido a los poderes aciagos de la riqueza.
Dando el salto correspondiente, podemos atravesar el océano del tiempo y utilizar el texto de Julio César como Piedra Rosetta para interpretar nuestra crisis. Me cuesta imaginar a nuestras momias con tan alto lenguaje, pero con seguridad, el método utilizado para maquinar el asesinato de las aspiraciones populares romanas, fue el mismo; así que sin contemplaciones, leamos:


Casio.- Pero ¿qué hacer respecto de Cicerón? ¿Le sondearemos? Pienso que estará resueltamente con nosotros.

Casca.- No lo dejemos fuera.
Cinna.- No, de ningún modo.
Metelo.- ¡Oh! Tengámosles, porque sus cabellos canos nos harán adquirir buena opinión y conseguirán que se levanten voces para encomiar nuestros hechos. Se dirá que nuestras manos han sido dirigidas por sus sentencias, y lejos de aparecer en lo menor nuestra juventud y fogosidad, desaparecerán por completo en su gravedad.

Bruto.- ¿Oh! No mencionéis su nombre, pero no rompamos con él. Jamás seguirá cosa alguna principiada por otros.

Casio.- Entonces, dejadle fuera.
Casca.- En verdad no es hombre a propósito.
Decio.- ¿No habrá de tocarse a hombre alguno, excepto César?
Casio.- Bien pensado, Decio. No juzgo oportuno que Marco Antonio, tan amado por César, le sobreviva. En él hallaríamos un astuto contendiente; y bien sabéis que si perfeccionase sus recursos, serían suficientes para fastidiarnos a todos. Pues para evitar esto, que César y Antonio caigan juntos.

Bruto.- Parecería demasiado sangriento nuestro plan, caro Casio, el cortar la cabeza y mutilar además los miembros. Sería algo como la ira en la muerte y la envidia después. Porque Antonio no es sino un miembro de César. Casio, seamos sacrificadores, no carniceros. Todos nos erguimos contra el espíritu de César, pero el espíritu de los hombres no tiene sangre. ¡Oh! Si pudiésemos por ello dominar el espíritu de César y no desmembrar a César. Pero ¡Ay!, César tiene por eso que derramar su sangre. Y benévolos amigos, matémosle como la vianda que se corta para los dioses, no como la osamenta que se arroja a los perros. Y hagan nuestros corazones lo que los amos astutos: excitar a sus sirvientes a un acto de furor, y después aparentar que se los reprueba.
Así nuestro propósito aparecerá necesario, no envidioso. Y con tal apariencia a los ojos de las gentes, se nos llamará redentores, no asesinos. Y en cuanto a Marco Antonio no penséis en él, porque no tendrá más poder que el brazo de César cuando la cabeza de César esté cortada.

Casio.- Y, sin embargo, le temo, acausa del profundo amor que tiene a César.
Bruto.- ¡Ah, buen casio!, no penséis en él. Si ama a César, lo más que podrá hacer será reflexionar dentro de sí mismo y morir por César. Y harto sería que lo hiciera porque es hombre dado a juegos y a disipación mucho, camaradas.
Trebonio.- No ofrece peligro. No hay para que muera, desde que gusta de vivir y ha de reirse de esto después.
Publicado por Fabricio Estrada en 20:28 0 comentarios Enlaces a esta entrada

Expogolpe em HOnduras


"A melhor imagem é a que golpeia": importamos repressão, exportamos presidentes!

Já são trinta os mortos desde 28 de junho...

Fonte: fabricioestrada.blogspot.com

O programa do Chaveletti

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Blog de Dadá Coelho

Um blog de uma moça que é show:

http://tricortando.zip.net/

Minas no New York Times

http://travel.nytimes.com/2009/10/25/travel/25brazil.html?hpw

Lendo O Filho Eterno

Sempre que falo em Jô Soares, minha mãe me vem com uma história que ele tem um filho com síndrome de down e nunca fala sobre isso. Não sei se é verdade. Mas recentemente li um livro sobre um autor que tem um filho assim e que fala sobre o assunto: O Filho Eterno, de Cristovão Tezza.

O livro me deixou surpreso, por várias razões: 1) por conseguir, enfim, concordar com Jerônimo Teixeira e não sentir repulsa; 2) por ter algo de "história que realmente aconteceu", como está em moda, sem ser constrangedor e rebarbativo. Não é algo como ler na Folha sobre um romance dizendo maravilhas sobre a Mongólia e ler, numa notinha abaixo: "o repórter tal viajou a convite de uma universidade mongol".

A história do escritor meio ripongo que passa a viver o seu dream is over com o nascimento do filho com síndrome de down é interessante. Ele sobretudo ressalta que a escritura é trabalho, é esforço. Tezza inaugurou coluna na Folha de São Paulo. Pelo que li, não crê na morte do AUTOR. Anelito de Oliveira me conta que vive a morte do autor. Para um autor, isso é ruim. Para o crítico é bom não ter que aceita ra última palavra do autor sobre a obra, é libertação.

Lembro, sobretudo, o quanto insultávamos uns aos outros, na minha infância nos anos 80, satirizando a propaganda na TV dizendo que alguém era "excepcioonal", ou seja, era um burro, retardado, "mongolóide". Era um insulto comum. Imagino a extensão do sofrimento que o personagem passou; aí, me eletrizo para ler o livro. Adorei a crítica ao futebol no final do livro: o futebol é um grande circo, um jogo onde sempre há falcatrua e erros grotescos, aqui ou em qualquer lugar do mundo. Me fez lembrar Oswald de Andrade em Ponta de Lança, onde ele dizia que o futebol era o novo pão e circo, uma transa nascida do imperialismo inglês...

domingo, 25 de outubro de 2009

Anticristo: review na New Yorker

Depois de lido o comentário da revista New Yorker a respeito de Anticristo, de Lars Von Trier, fico com vontade de dizer algumas coisas. Anthony Lane diz não entender o título. Mas a simbologia de Trier (ele disse, segundo Lane, que é um filme-sonho) não é assim tão confusa. Vou arriscar uma interpretação: He, o psicanalista, é o Deus-pai, She, a mulher, é Cristo; o Espírito Santo, a pomba, é o menino que caiu; a natureza é Satanás, ou a "igreja de Satanás", como comenta a personagem feminina. A tese sobre bruxas que ela andava fazendo materializa-se na cabana na floresta e ela mesma morre queimada, tal como uma bruxa.

A lógica do filme é nem tanto a do sonho, mas do pesadelo, porque o filme é dominado pela natureza, logo, por Satanás. A imensa dor da perda do filho pequeno é extensamente pesquisada, encenada, repetida. O filme é contra o Cristo que a mulher representa; a ótica dele, no geral, é a da natureza. A referência pode ser ao Anticristo de Nietzsche, onde ele diz que a Imaculada Concepção é que maculou a concepção, tornando pecado toda gravidez onde esteja presente o sexo.

O sexo é uma força da natureza no filme; é parte da força de Satanás, onde reina o caos. A imagem da constelação da raposa, do cordeiro e do corvo, seguida pela chegada desses três animais, parece representar os três reis magos e apontar para uma simbologia mágica, quem sabe de magia negra. Pelo menos foi essa a impressão com a qual fiquei. A música de Haendel, o Cristianismo, as criações do homem tais como a Psicologia, parecem estar lá para serem destruídas. Esse é mais que um filme: é um pesadelo concretizado em imagens, uma força da natureza, ou seja, um braço da "Igreja de Satanás".

Na Bíblia, o Anticristo virá no final dos tempos, com a decadência da civilização. Ele não tem propriamente uma face no filme, mas o filme se faz em cima da ideia de que nosso ataque à natureza, que no filme não é edênica e sim satânica, está trazendo o fim dos tempos e com ele o Anticristo. Curiosamente, Anthony Lane, resenhista da New Yorker, não fala em Satanás em seu review, pelo contrário, acha o filme em grande parte ridículo e faz piada de sua manifestação demoníaca através da boca de uma raposa, dizend que essa imagem o faz pensar em Pedro e o Lobo (!). Lane também fez piada da agressão da mulher ao homem, que fez o pinto dele jorrar sangue, numa das cenas mais aflitivas do filme. Isso o fez pensar num filme cafona da Madonna...

O que Von Trier desejou foi materializar o inconsciente do espectador no filme, daí o fato dele ser tão penoso de assistir (parte da platéia saiu). Senti arrepios na espinha e quase chorei com a reiteração das imagens de pesadelo a respeito do filho perdido (sofri situação semelhante quando perdi minha filhinha Lara recém-nascida); enfim, sofri muito, mas achei o filme instigante, até melhor do que Dogville e Dançando no Escuro, filmes anteriores dele que vi. Dogville foi como uma peça filmada; talvez ficasse melhor resolvido se fosse teatro e Gerald Thomas a dirigisse. Dançando no Escuro era, em parte um musical. Embora eu goste da Bjork, a parte especificamente musical não fluiu e ficou como que inserida à força, chegando mesmo a incomodar.

Anticristo realmente me toca, me emociona. A simbologia cristã é muito visitada, dada sua importância, daí paródias grotescas, tais como D (r) ogma (alguém lembra?), um aleijão do Kevin Smith. Mas não fui buscando entretenimento, enfim. E não se vê sonhos materializados na televisão e na maior parte do cinema por aí, a não ser, quem sabe, para vender coisas.

Bitácora del Párvulo

Bitácora del Párvulo

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um excelente Calaf: Franco Corelli



Essa ária de Turandot ficou famosa com Pavarotti, mas o pessoal da comunidade do Orkut Turandot me indicou essa interpretação do Franco Corelli: realmente maravilhosa.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Marx X Bolívar: polêmica em O Globo

OPINIÃO
Raízes do socialismo bolivariano


PAULO GUEDES
"Simón Bolívar nasceu em Caracas em 24 de julho de 1783, filho de uma família da nobreza crioula da Venezuela. De acordo com os costumes dos americanos ricos da época, foi mandado para a Europa aos 14 anos de idade. Esteve presente na coroação de Napoleão Bonaparte como imperador, em 1804."

Tenho simpatia pela figura histórica de Simón Bolívar, o Libertador. Compreendo a impaciência de Hugo Chávez com uma elite política corrupta, incompetente e sem consideração pela miséria dos povos latino-americanos. Compreendo também sua solidariedade com os países vizinhos. Mas temo que o socialismo bolivariano se torne mais uma tragédia de reengenharia social para o círculo de influência chavista. E também uma guerra expiatória desse fracasso contra países que não aderirem, como a Colômbia.

Prossegue o biógrafo: "No comando de Puerto Cabello, a mais sólida fortaleza da Venezuela, Bolívar dispunha de uma guarnição numerosa e grande quantidade de munição. Mas, quando os prisioneiros espanhóis se rebelaram, apesar de desarmados, Bolívar partiu precipitadamente durante a noite com seus oficiais. Ao tomar conhecimento da fuga de seu comandante, a guarnição retirou-se do local. A balança pendeu em favor da Espanha, obrigando o general Miranda, comandante supremo das forças insurgentes, a assinar o Tratado de La Victoria, devolvendo a Venezuela ao controle espanhol. Miranda tentaria embarcar em La Guaira num navio inglês, mas foi convencido por Bolívar a ficar pelo menos uma noite no local. Às 2 horas da madrugada, com Bolívar à frente, soldados armados apoderaram-se da espada e da pistola de Miranda e lhe ordenaram que se levantasse e se vestisse. Puseram-no a ferro e o entregaram aos espanhóis. Despachado para Cádiz, na Espanha, Miranda morreu acorrentado, após alguns anos de cativeiro."

"Em direção a Valência, Bolívar deparou com o general espanhol Morales à frente de 200 soldados e cem milicianos. Ao ver dispersada sua guarda, Bolívar fez meia-volta com seu cavalo, fugiu a toda velocidade, passou por um vilarejo num galope desabalado, chegou à baía próxima e embarcou, ordenando a toda a esquadra que o seguisse e deixando seus companheiros em terra privados de qualquer auxílio. Piar, homem de cor, general conquistador das Guianas, que ameaçara levar Bolívar à corte marcial por deserção e covardia, não poupava de ironias o 'Napoleão das Retiradas'. Bolívar aprovou um plano para se livrar dele. Sob falsas acusações de ter conspirado contra brancos, planejado um atentado contra Bolívar e aspirado ao poder supremo, Piar foi levado a julgamento por um conselho de guerra, condenado à morte e fuzilado em 16 de outubro de 1817."

Seu biógrafo, Karl Marx, admitiu numa carta a Engels que "seria ultrapassar todos os limites querer apresentar como um novo Napoleão o mais covarde, brutal e miserável dos canalhas".

Texto publicado no Globo de hoje.

Resposta da Embajada:

SOBRE BOLÌVAR E MARX: UM ATO DE JUSTIÇA HISTÓRICA

Para hablar con franqueza, hay cosas que cansan. Agota, por ejemplo, la absoluta ausencia ética derivada del odio visceral sobre lo diferente, lo distinto, lo distinguido. Y agota porque si la crítica de intención destructiva que genera el odio fuera más bien análisis objetivo, con sustento en la realidad, pudiera establecerse un proceso de intercambio de opiniones que contribuya a la articulación o a la aproximación de la verdad histórica, política, social (no digo a la verdad económica, porque la economía se rige por parámetros tan objetuales que no necesita ni reclama aproximación alguna a la verdad).

No obstante, siendo que la manipulación ideológica prima sobre aquellos intentos críticos motivados por el odio a lo diferente, lo único que surge de éstos es la tergiversación de la realidad, el insulto a la inteligencia humana, la violencia conceptual y la subjetividad mal intencionada.

Predicciones sombrías, descalificaciones apriorísticas, arengas catastróficas, señalamientos infundados o fundados en la mentira, son el resultado de las opiniones que se sustentan en la ausencia de ética al momento de asumir un espacio para la defensa o el enaltecimiento de las ideas que constituyen el bagaje de intereses sociopolíticos, culturales y económicos de cada quien.

El mundo libre garantiza la posibilidad de expresar con profusa abertura, sin cortapisas, sin coerciones, nuestras ideas y querencias. Y el mundo libre también permite que esto sea hecho de manera sustentada, objetiva, con base en comparaciones que pueden apoyarse en el análisis complementario, en la pluralidad ideológica y en la diversidad histórica y cultural. El mundo libre está cerca de la perfección gracias a esto y por ello resulta inentendible –y agotador- el empleo de recursos que se alejan o desconocen estas posibilidades.

Es obvio que quien se aleja de estos recursos, quien emplea mecanismos antiéticos, quien echa mano de la mentira y la tergiversación de los hechos, para construir matrices de opinión en contra o a favor de intereses exclusivos, atenta contra las virtudes y ventajas del mundo libre y, al mismo tiempo, irrespeta la dignidad humana. Es obvio que quien hace esto sabe que sus acciones generan confusión, violencia ideológica, y de allí devienen las ideas matizadas por los ismos más desagradables y peligrosos que ha creado la sociedad elitista: clasismo, racismo, apriorismo.

Lamentablemente hemos sido testigos de la repetición de estas posiciones antiéticas y de tendencia negativa en un reciente artículo publicado en el Diario O Globo, bajo el título Raíces del Socialismo Bolivariano.

El autor del texto, Paulo Guedes, con escaso respeto por la verdad histórica y, en consecuencia, por sus lectores, pretende nutrir las posiciones de conflicto frente al proceso revolucionario venezolano mediante una práctica poco honesta: la de la desacreditación de la imagen del Libertador Simón Bolívar. Lo triste es que Guedes pretenda hacer esto mediante la manipulación de la capacidad de arbitrio del lector y la burla a su dignidad cultural, al echar mano de un texto reconocidamente inconsistente, caprichoso y carente de fuentes objetivas, además de anti-suramericano.

Al usar esta fuente, el propio artículo de Paulo Guedes se torna parcial e insostenible. Guedes cita con profusión pasajes de su fuente, la biografía sobre Bolívar escrita por Carlos Marx en 1857.

Lo que Guedes no revela son las motivaciones impulsadas por el alto grado de prejuicio contra la sociedad americana, que se articulaba en el pensamiento marxista desde su asunción de las ideas hegelianas de los pueblos sin historia.

Desde esta perspectiva ideológica es fácil comprender la noción marxista del proceso de independencia suramericano y su prejuicio contra varios de los articuladores del mismo, especialmente de aquellos que habían tomado posición contra el eurocentrismo imperante en la época para intentar la fundación de un sistema ideológico autóctono. No en balde vemos como Marx repite loas a la presencia y acción de tropas y personajes de origen europeo, o vinculados al eurocentrismo, en su texto, tal como aquel pasaje donde asegura que “la conquista de Nueva Granada no se le debe a Bolívar y a las tropas patriotas, sino a las tropas extranjeras, compuestas fundamentalmente por ingleses”.

Desde nuestra perspectiva podemos reconocer el valor de las tropas, de los soldados y los oficiales extranjeros, en el proceso independentista venezolano y suramericano, como lo hemos hecho, por ejemplo, con el Gran Pernambucano General José Inácio de Abreu y Lima, o como lo hacemos con los veteranos ingleses e irlandeses que acompañaron al ejército libertador en la batalla del 12 de mayo de 1819, por la libertad de Nueva Granada.

Desde nuestra visión de la realidad histórica, libre de vileza, fortalecida por el sentimiento de respeto a nuestra identidad suramericana y por la idea de unión de nuestros pueblos, otorgamos el peso que merece la sangre derramada por aquellos compañeros libertarios y revolucionarios integrantes del Ejército Libertador que vinieron de otras latitudes del Continente americano y de Europa, y por ello hacemos el esfuerzo por explicar también los condicionamientos que condujeron aquella biografía escrita por Marx, la dimensión eurocéntrica de su pensamiento, la influencia hegeliana y la noción imperial dominadora de la época, que obstaculizaron la comprensión marxista sobre un proceso emancipador, al punto de que Marx achaca al ejército patriota una condición conquistadora, cuando en realidad fue libertaria.

Claro, en la lógica marxista de la época no cabía sino esta visión del ejercicio bélico militarista, por eso habla de la “conquista de Nueva Granada” y no de la liberación de las fuerzas imperiales españolas. Lástima para ustedes, lectores, que el señor Guedes no se muestre capaz de hacer ese análisis contextual.

De igual manera, el autor de Raíces del Socialismo Bolivariano obvia documentos tan importantes para el análisis de esta posición de Carlos Marx frente a Bolívar como aquel del sacerdote jesuita M. Aguirre Elorriaga a propósito de polémica suscitada, a mediados de 1941, por la edición rusa de la Nueva Historia de los países coloniales y dependientes, donde un grupo de líderes políticos y escritores rusos asumen la defensa de la biografía escrita por Marx sobre Bolívar.

Aguirre Elorriaga dice “La Nueva historia de los países coloniales es una obra sectaria, redactada con una miopía clasista, con una visión absolutamente chata y adulterada de los acontecimientos históricos”. Y este sacerdote jesuita continúa su análisis para ubicar en el contexto histórico e ideológico de la época las razones que impulsaron –de manera lógica entonces- la posición antibolivariana de Marx y de los comunistas rusos que lo siguieron: “Si todo lo español y criollo es malo, si todo lo negro y todo lo indio es bueno, si toda revuelta popular es loable y toda iniciativa de los ricos terratenientes es necesariamente mala, es consecuencia lógica que Bolívar fue un hombre detestable.”

Como vemos, desde la perspectiva católica, la posición de Marx y los comunistas que intentaron desacreditar a Bolívar es comprensible porque, dadas las condiciones de clase y origen social y económico del Libertador, “sería un absurdo que lo comprendieran los profesores comunistas”.

Es lamentable que el señor Paulo Guedes no se haya ocupado en indagar un poco más allá del texto de Marx. Pudo haber hecho un esfuerzo investigativo y llegar hasta esta polémica que involucró a católicos y comunistas, o pudo haber leído también los trabajos de Lallement y De Prat, que otorgan elementos distintos a los de Marx sobre el Libertador.

Es una lástima también que Paulo Guedes oculte realidades contextualizadoras del trabajo de Marx que revelan su verdadera orientación. Por ejemplo el hecho de que esta biografía sobre Bolívar fue rechazada por su propio encomendador, Charles Dana, director del New York Daily Tribune, por considerar que estaba escrita con prejuicio y que –según informa un trabajo investigativo de Carlos M. Ayala Corao, que Guedes obviamente no se ocupó en leer y tal vez ni siquiera en procurar- fue “el propio Marx quien dio noticias a Engels sobre los reparos de Dana contra su artículo sobre Bolívar, porque estaba escrito en un tono prejuiciado y, además, le había exigido más fuentes”.

Sí, el propio solicitante de la biografía sobre Bolívar exigió a su redactor, Carlos Marx, un trabajo objetivo, basado en fuentes diversas que pudieran avalar lo expresado en el trabajo del filósofo alemán, por considerar que la percepción del estado de la sociedad suramericana que se trasmitía, ponía de relieve los errores de mezclar la ideología con la historia.

Otra cosa que se cuida de no exponer el señor Guedes es que en la segunda edición en ruso de las obras de Marx y Engels, datada en 1959, se incluyó por primera vez una severa crítica de las posiciones sostenidas en la biografía de Marx sobre Bolívar. La propia sociedad intelectual alemana de la época realizó un apelo para aprender la historia de los historiadores y sus diversas fuentes objetivas, para evitar reproducir errores históricos como el de Carlos Marx en su biografía rechazada sobre Bolívar.

Por otro lado, Paulo Guedes no informa en su artículo Raíces del Socialismo Bolivariano, que gran parte del mundo marxista contemporáneo coincide en catalogar el artículo de Marx sobre Bolívar como un hecho poco feliz. Juan Marinello, político y escritor cubano que prologa las obras completas del primer difusor en América de este texto de Carlos Marx, el argentino Anibal Ponce, lo califica de “lamentable”, por ejemplo.

Como lo expresa también el periodista argentino Armando De Magdalena –a quien Guedes seguramente tampoco leyó ni procuró-, en su artículo titulado Aníbal Ponce y el Bolívar de Marx, “…muchos se preguntan (quizás por fetichismo, quizás por sana admiración) como el genio de Marx pudo concebir semejante artículo. Otros (los que creen en la infalibilidad de los clásicos marxistas) lo han defendido a ultranza por dogmatismo. El hecho es que el citado artículo ha sido utilizado por los sectores más reaccionarios (sobre todo en nuestro continente), en primer lugar para descalificar al propio Marx, en segundo, para presentar al marxismo como opuesto a los valores, a las tradiciones y al sentir de nuestros pueblos y tercero para demostrar que el marxismo (como en el caso del citado artículo) distorsiona la realidad, la historia, para forzar una visión de lucha irreconciliable de clases como único modo posible de explicar los acontecimientos presentes y pasados.”

Estas palabras de De Magdalena encuadran bien la intención del pensador liberal-derechista Paulo Guedes en su también poco feliz artículo Raíces del Socialismo Bolivariano y por ello tal vez seguir con este análisis sería redundante y además innecesario, porque chocaríamos, hasta agotarnos, contra la inflexibilidad reaccionaria de Guedes y de los dogmáticos seguidores de su objetivo mal fundado.

No obstante, para aquellos lectores que guardan consideración a los valores autóctonos de la cultura suramericana, para aquellos que han asumido la batalla por el rescate de nuestra dignidad como pueblos con una historia propia, grande y particular, para aquellos que no se arrastran a los pies de los intereses imperiales, ofrecemos la posibilidad de acercarse al pensamiento y los hechos bolivarianos a través de la edición en portugués del libro Simón Bolívar, el libertador, patrocinada por la empresa brasileña Odebrecth, que se encuentra disponible en la Embajada de la República Bolivariana de Venezuela en Brasil. Y luego pueden juzgar por ustedes mismos.

Y como agregado final vale indicar que pese a las diferencias ideológicas de origen presentes entre Marx y Bolívar existen también coincidencias esenciales en sus propuestas y posturas sociopolíticas, comenzando por la convicción de que la libertad no se reduce al rompimiento de las cadenas de un yugo determinado, sino que su alcance definitivo está en el poder libertario que debe tener la conciencia de los hombres en particular y de la sociedad en general, hasta llegar a la concepción bolivariana de que la historia es el hombre, es la acción del hombre en tiempos diversos, nutriéndose del pasado de su identidad.

Nosotros creemos fervorosamente en que cualquier expresión de pensamiento, surja donde surja, si es en beneficio de la humanidad, no debe restringirse a fronteras terrestres e ideológicas, ni mucho menos a sectarismos nacionalistas, y esa condición la otorgamos al marxismo y al bolivarianismo, y, más que por fortuna, por respeto a su enorme dimensión social, política y humana, al lado de Bolívar y en torno a sus ideas hay mucho pueblo militando, hay muchos dirigentes, muchos conductores, en torno a sus propósitos de unión, a su ideario de libertad, y ningún Paulo Guedes puede contra eso.

Fuente: Embajada de la República Bolivariana de Venezuela en Brasil

Honduras instala aparelhagem contra embaixada brasileira



Golpistas instalaram canhão acústico diante de nossa embaixada em Honduras! O objetivo é expulsar Zelaya, de onde provavelmente irão expulsá-lo para um novo exílio. A matéria original está no blog do Fabrício Estrada e segue aí embaixo:


El artilugio frente a la Embajada de Brasil, Tegucigalpa

Ruidos altos y molestos se han utilizado como arma personal desde hace milenios.

Recientemente, las fuerzas de seguridad y de carácter militar también han estado empleando un arma acústica mucho más potente, conocida como “Dispositivo Acústico de Largo Alcance” o LRAD. Con menos de 90 centímetros de diámetro y un peso de 20 kilos, este dispositivo circular de color negro emite un rayo acústico con una intensidad de entre 15 y 30 grados de amplitud. Se trata de un tono agudo y estridente similar a la alarma de un detector de humo, que puede causar un daño auditivo permanente en un perímetro cercano.


En un radio de 100 metros, el rayo del LRAD es sumamente doloroso aunque generalmente es utilizado en perímetros de entre 280 y 450 metros, como advertencia o como arma disuasiva. El LRAD es empleado por la marina estadounidense y los guardacostas para advertir a las embarcaciones cercanas. Sus capacidades también han sido probadas en Irak.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tudo azulzim...

Um blog muito bom que descobri: belas crônicas, fotos, etc.

http://tudoazulzim.blogspot.com/

E um texto que a dona do blog, professora, me pediu:


NOTAS SOBRE O TEATRO DE GERALD THOMAS: UMA DESCIDA NO MAELSTROM
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior


RESUMO


Esse texto busca analisar a trilogia do encenador Gerald Thomas iniciada com Rainha Mentira (Queen Liar), Terra em Trânsito e, no ano de 2008, enriquecida pela blognovela O cão que atacava mulheres: Kepler, the dog, além de Bate-Man, monólogo escrito para Marcelo Olinto. O texto analisa a virada autoral de Thomas, que passa a partir desses textos a fazer relatos marcadamente autorais, senão autobiográficos, como mais uma forma de cultivar a sua assinatura enquanto autor, mais próximo, segundo ele, do cinema de Glauber Rocha do que realizam, no teatro, os chamados diretores teatrais, um título que Thomas desconsidera e julga figurativo. A partir do texto original da blognovela, escrito por Gerald em seu blog, desvendamos um pouco de seu processo criativo: ao encenar a peça, Gerald Thomas substituiu um texto mais lúdico e coloquial, ligado ao cotidiano, por imagens derivadas do inconsciente inspiradas nos símbolos que criava Beckett.


Palavras-chave: dramaturgia, Terra em Trânsito, Queen Liar, Kepler, Gerald Thomas, blognovela, teatro, Ópera Seca, pós-modernismo


ABSTRACT


This text analyzes the works of the encenador Gerald Thomas initiated with Rainha Mentira (Queen Liar), Land in Transit and, in the year of 2008, his blog´s soap opera named The dog that attacked women: Kepler, the dog. The text analyzes the authorial turn of Thomas, who pass from drama director from authorial and autobiographical dramasas as a form to cultivate its signature while author, next according to it of the cinema of Glauber Rocha of what of they carry through it, in the theater, his teatrical managing calls, a heading that Thomas disrespects and judges figurative. From the original text of blog´s soap opera, congregated in his blog,this work unmasks a little of his creative process: at the moment where it was staged, Gerald Thomas substituted a text more ordinary and playful for images derived from the unconscious one inhaled in the symbols that Beckett created.


Key-words: Land in Transit, Queen Liar, Kepler, Gerald Thomas, blognovela, theater, Dry Opera, post-modernism
INTRODUÇÃO


O início dos anos 80 foi o momento em que o Brasil reconheceu o talento de encenador de Gerald Thomas. O contexto em que sua peça Quatro Vezes Beckett fez sucesso era de redemocratização e abandono das preocupações políticas dos anos 70. A partir de então, transformou-se o contexto em que boa parte dos diretores e dramaturgos brasileiros tinham sido primordialmente brechtianos, mas vivia-se um momento em que Brecht foi perdendo, paulatinamente, sua influência.
Essa pesquisa visa estudar e verificar uma importante mudança ocorrida na carreira do encenador Gerald Thomas desde meados dos anos 2000: Gerald decidiu não mais encenar textos de outros autores, esforçando-se agora por encenar e redigir sua própria dramaturgia. A primeira experiência dessa nova fase foram as peças Terra em Trânsito e Rainha Mentira (Queen Liar). Ele se aproxima, portanto, do traço autoral de um Glauber Rocha, que sempre escrevia e dirigia seus filmes, tendo todos eles a sua marca, sua assinatura autoral e muitas vezes, como em Idade da Terra, sua presença física e voz propriamente ditas.
Nos anos 90, o crítico David George Thomas já considerava Thomas como mais do que um diretor e sim um encenador surgido a partir de uma visão original das obras de Beckett nos anos 80. É comum nas peças de Thomas a interferência da própria voz do encenador. Por exemplo, em Queen Liar, a narrativa autobiográfica apresenta constantemente a voz do encenador que faz intervenções narrativas. Essa voz narrava, por exemplo, que a personagem da avó se assemelhava a uma personagem do pintor Otto Dix (expressionista alemão que protestou contra guerra pintando os mutilados e mortos). Já Terra em Trânsito, que Gerald considera a mesma peça, refere-se claramente a Terra em Transe, filme de Glauber Rocha: cita-se, por exemplo, o apaixonado por ópera Paulo Francis, enquanto Terra em Transe era o epitáfio do jornalista e poeta ficcional Paulo Martins. Em Terra em Trânsito, uma cantora de ópera se vê presa em seu camarim e entra num processo de enlouquecimento enquanto escuta um discurso reacionário Francis no rádio e desespera-se enquanto alimenta um ganso para fazer foie gras. Trata-se de uma oscilação freqüente na obra de Gerald Thomas e que talvez seja o drama do artista contemporâneo: ele oscila entre um ceticismo neopositivista (“nada prova nada”) e o desespero ultra-romântico (a diva em crise na carreira, Hamlet/Paulo Martins).
Recentemente, em 2008, Thomas realizou mais uma peça que continua essa trilogia iniciada com Terra em Trânsito: a peça O cão que atacava mulheres, Kepler, the dog, inspirada numa blognovela realizada por Gerald Thomas juntamente com os participantes de seu blog no provedor Ig, internet gratuita. Nela, um cão de nome Kepler perambula entre um cenário de pesadelo que, dentre muitos outros personagens, vê imagens que fazem lembrar as torturas nas bases norte-americanas de Abu Ghraib e Guantánamo, assim como um executivo suicida, a busca do Santo Graal, etc. O cão (Fabiana Gigli) está na coleira do personagem do executivo (Duda Mendonça), mas faz referência à imagem, muito recorrente na mídia, da militar norte-americana no Iraque trazendo um prisioneiro iraquiano na coleira, imagem associada a uma mulher dominadora da imagética sadomasoquista, a dominatrix. A dramaturgia de Thomas possui, portanto, referência a um universo de referências muito particular e caro ao autor: Living Theatre, Stoppard, Orwell, Kafka, Kantor, Duchamp, Haroldo de Campos, Oswald de Andrade, às montagens do próprio Gerald Thomas, entre outros.
Gerald Thomas é um enigma, mas não um enigma vazio, como alguns querem que seja a arte contemporânea. Para o crítico norte-americano David George, Gerald realiza uma antropofagia wagneriana. Enquanto isso, no Brasil, devido à sua posição polêmica dentro do teatro brasileiro, é acusado de fazer imperialismo cultural. David George estabelece uma linha de influências para Gerald Thomas no Brasil: José Celso Martinez Corrêa e Antunes Filho, assim como a dramaturgia de Nelson Rodrigues, em homenagem a quem Thomas dirigiu uma peça chamada “Asfaltaram o Beijo”. Ele seria o principal divulgador do pós-modernismo no teatro brasileiro. Mas Thomas vai bem além e é um agitador cultural que exerce muito bem o seu talento para o jornalismo, diferente da tendência de Beckett para escrever poemas e prosa mais extensa. Thomas, por sua vez, é show man: atua como colunista em veículos como Ig, Folha Ilustrada, comentarista no prestigiado programa de TV Manhattan Connection, etc.


2 DE BECKETT A KEPLER


Gerald Thomas começou como seguidor de Beckett e com ele ainda possui muito em comum. Em primeiro, ele surge de uma revisão de Brecht e do teatro político, que terminava não alcançando as camadas populares a quem dirigia seu discurso. Além dessa inabilidade de chegar às camadas populares, e diretamente associada a ela, uma outra dificuldade tem caracterizado uma considerável parcela do teatro dito político: a predominância do compromisso didático em detrimento das preocupações estéticas. Isto é, um desequilíbrio entre conteúdo e forma. Apesar de Brecht enfatizar por diversas vezes em seus escritos teóricos que o teatro engajado não precisaria, nem deveria, excluir o caráter de diversão próprio a essa arte, muitos dos seus seguidores incorreram nesse erro e construíram espetáculos sisudos, excessivamente intelectualizados e de pouco apelo para o grande público. Como explica o encenador Gerald Thomas:

Pouco foi dito sobre isso, mas o efeito de distanciamento, de esfriamento, de racionalização e de didatismo sobre uma arte que é, essencialmente, fabulesca e metafórica começou como uma saudável doença de alerta e acabou por se tornar seu vírus mais fatal (THOMAS apud GUINSBURG et al FERNANDES, 1996, p. 37).

Diante desses impasses, em um mundo pós-muro de Berlin, o teatro político tem sido impelido a redimensionar seus objetivos e suas práticas. O próprio trabalho de Boal evidencia uma busca por um novo posicionamento teórico. Quando comparado ao Teatro político de Piscator, por exemplo, percebe-se que no Teatro do Oprimido já não há um enfoque explícito na questão da luta de classes. A "revolução" de que fala Boal pode também significar uma radical modificação interna do indivíduo-espectador. É a partir da necessidade desse tipo de modificação e da dificuldade em obtê-la é que está o traço que podemos notar em Beckett e Thomas.
Para explicar Thomas, tratemos de Beckett. Em The Rhetoric of Fiction, Wayne Booth utilizou, numa edição revista, a novela Company de Beckett como exemplo de sua teoria do autor implícito, aplicando-a em uma narrativa contemporânea. Como definir Beckett e aquilo que pode ter influenciado Thomas? Tomemos as palavras de Peter Brook:

Talvez a escrita mais intensa e pessoal de nosso tempo venha de Samuel Beckett. As peças de Beckett são símbolos no sentido exato da palavra. Um símbolo falso é mole e vago; um símbolo verdadeiro é duro e claro. Quando dizemos “simbólico” frequentemente queremos dizer enfadonhamente obscuro; já um símbolo verdadeiro é específico, é a única forma de expor uma certa verdade. Os dois homens esperando ao lado de uma árvore seca, o homem gravando a si próprio em fitas, os dois homens escravos de uma torre, a mulher enterrada na areia até a cintura, os pais em latas de lixo, as três cabeças nos vasos: essas são invenções puras, imagens frescas, agudamente definidas – e funcionam no palco como objetos. São máquinas teatrais. As pessoas sorriem delas, mas elas ficam firmes: são à prova de crítica. Não chegaremos a lugar nenhum se esperamos que elas nos sejam explicadas, entretanto cada uma tem uma relação conosco que não podemos negar. Se o aceitamos, o símbolo nos provoca uma grande e pensativa exclamação (BROOK, 1970, p. 57).

Assim como em Company não é preciso explicar de onde vem a voz que sugere ao personagem que imagine, Gerald busca símbolos que não precisem ser explicados nem entendidos racionalmente e sim imagens que falem direto ao inconsciente, símbolos tais como Beckett fazia: e símbolos duros. São símbolos poderosos presentes nas peças recentes de Thomas: em Queen Liar, a figura distorcida da avó que era como um personagem de Otto Dix, a cantora de ópera em crise e seu ganso em vias de virar foie gras, um cão em forma de mulher que diz um texto filosófico enquanto defeca no chão.
Os pontos em comum entre Gerald Thomas e Samuel Beckett ficam mais claros quando se avalia alguns pontos da análise de Wayne Booth a respeito da novela Company. Em alguns momentos, é como se ele estivesse falando da blognovela que ora estamos estudando. O texto de Beckett é um “texto para nada”. Essa forma de limitar artificialmente as palavras imaginadas para fazer um quebra-cabeças minimalista é presente nas peças de Thomas e de Beckett. Para se ter uma idéia, Company inicia-se com a enigmática frase: “Uma voz chega para alguém no escuro. Imagine” (BECKETT apud BOOTH, 1983, p. 445). Tanto o mestre quanto o herdeiro tratam da falta de sentido do mundo. O mundo, em seus textos, é predestinado a ser sentido, e o recurso de escrever sobre ele, “para ter companhia”, está destinado ao fracasso insignificante, produzindo não mais do que falência supérflua e miséria. Ambos buscam estabelecer um equilíbrio delicado entre criar situações que complexas e que geram perplexidade, mas que não são tão confusas ao ponto de não despertarem a curiosidade e demandarem uma interpretação.


3 A VOZ AUTORAL EM KEPLER, O CÃO QUE ATACAVA MULHERES


Gerald Thomas foi uma voz autoral desde o início de sua carreira. Sua interpretação das peças de Beckett já tinha uma assinatura própria. “Julian Beck morreu durante uma voz que ele ouviu, gravada por ele mesmo e ouvida por ele próprio” (THOMAS, 2008), referência em off que entra com a voz de Gerald Thomas quando o personagem de Duda Mamberti está em cena na peça O cão que atacava mulheres: Kepler, the dog e que refere-se à montagem de um texto que Beckett escreveu para Julian Beck quando este já era paciente terminal de câncer (All Strange Away e The Time). O texto em off, surgido devido a exigências extra-artísticas em Nova York, onde, para se apresentar uma peça é preciso depositar pagar um valor vultoso para o ator a título de seguro, encarecendo a peça e obrigando o diretor a ter a voz do ator ao invés de tê-lo presente, passou a ser usado de forma muito inovado como recurso anti-realista por Thomas, num lance verdadeiramente antropofágico, revertendo o desfavorável em favorável e fazendo da voz em off um de suas marcas autorais mais importantes.
Tanto nas peças que ele escreve quanto nos textos que dirige, Thomas busca acionar uma simbólica profunda, vinda do inconsciente, criando símbolos e imagens fortes como os que estão presentes na obra de Samuel Beckett. Quando Thomas surgiu, o Brasil vivia um momento onde se buscava novos caminhos para a dramaturgia. A problemática coletiva dava lugar às questões individuais. O trabalho de Thomas não se filia nem a Brecht nem a Stanislavski, nem segue ortodoxamente os métodos nem de um nem de outro. Thomas recusa tanto o método épico-didático de Brecht (não transmite conteúdos socialistas, prefere polemizar com a esquerda) quanto o método de Stanislavski, que segundo ele não seria apropriado para o teatro (pois o teatro exigiria principalmente projeção de voz), adequando-se melhor ao cinema (a propósito, ele cita o Actor´s Studio, estúdio norte-americano que aplicou amplamente em Hollywood o método do russo, ajudando a criar atores tais como Marlon Brando). Marcelo Alcântara comentou a respeito na revista A Bacante:

(...) Muitas das características do que se vê na tela são facilmente relacionáveis ao nome e à obra de Thomas - uma montagem textocêntrica e sem linearidade, entrecortada por milhares de assuntos, embalada por imagens construídas com rigor, muita fumaça, jogos de luzes e narração em off dublando personagens em cena. Nada disso é novidade, mas aqui há muito mais do que a tradicional relação forma/conteúdo: ganha força também o fator meio (nã-não, não o centro, tô falando do medium por onde o espetáculo é transmitido) - e as influências que esse meio impõe à forma do que é produzido (...). Mas diferente dos roteiros escritos por Samuel Beckett para a TV, por exemplo, Kepler, The Dog visto pela mediação da tela do monitor não passa de um espetáculo concebido para o palco - ainda que sua realização visasse a transmissão pela rede. Por mais que tenha surgido a partir da internet e só faça sentido considerando este fato, o primeiro capítulo da blognovela de Gerald Thomas ainda é teatro filmado, com toda a importância que o registro da efemeridade do palco pode ter, mas também com toda a precariedade e ingenuidade de câmeras que tentam dar conta de captar o todo de forma documental e com pouco diálogo com o meio a que a obra se destina (vale ressaltar que a busca por atores via internet, por meio do envio de vídeos, dialoga muito mais com o meio do que o próprio resultado final). Para os próximos episódios desta blognovela, fica a expectativa de que além da inspiração na atividade colaborativa, haja maiores apropriações (e por que não questionamentos e subversões?) da tecnologia como forma de transformação (e não apenas reprodução/propagação) da produção teatral - além da torcida para que o produto final transmitido pelos precários serviços de banda larga brasileiros seja minimamente estimulante a quem não está num teatro escuro cheio de fumaça (e cujos focos de atenção não estão condicionados a seguir os movimentos de luz e som que ocorrem em cena) (ALCANTARA, 2008).

Divergimos da crítica acima no seguinte ponto: a blognovela foi concebida primeiramente como texto literário, somente depois foi encenada, de maneira totalmente repensada, pela Companhia Ópera Seca e pensado simultaneamente para ser encenado no palco e transmitido pela internet. Diz Mau Fonseca a respeito do “teatrocinema da blognovela”, quase como se estivesse respondendo às críticas acima elencadas por Marcelo Alcântara:

O teatro visto por uma tela pequena de computador sujeito às entropias da exibição intra-pessoal (algo que não seja pessoalmente) é como a comunicação diária no blog. Todos são íntimos distantes, sujeitados a uma entropia diária - a mensagem é verdadeira, mas os formatos criados (os nicknames e as técnicas) dentro do blog são falsescas, tal como na produção cinematográfica. Então, por associação, o blog é como o cinema também, mesmo parecendo absurdo. A encenação da peça ao vivo, como num ensaio, era teatro apenas pra quem estava na platéia, o cenário, elenco, a fumaça, a interação e o peso dos corpos e sons. Ao público em casa, era também uma peça teatralizada porque não houvera montagem anterior, seguia-se obviamente um roteiro, mas a montagem era ao vivo (o plen-air impressionista) - portanto teatro. E a criação foi com base teatral, Gerald é homem do teatro, e sua cia. faz parte do universo teatral. Nossa visão se deslocava na tela do computador procurando pontos focais, sendo que em determinados momentos a tela se escurecia, um corte cinematográfico e teatral. É o teatrocinema ou nenhum dos dois...de repente não é uma coisa ou outra, é apenas uma obra audiovisual, como uma vídeo arte ou "Performance Body Art" que poderia ser reproduzida em paredes de museus ou encostas de morros, laterais de prédios, projetada por grandes projetores interferindo na paisagem, o que aumentaria a percepção e ao mesmo tempo provocaria outras interferências perceptivas em relação ao tema. Afinal, as idéias ou conceitos eram mais importantes que o formato, o que deveria ser relevante era a mensagem. E foi justamente a mensagem que prevaleceu e sendo assim funcionou, não importando quão complexa a linguagem. Quando no cinema o diretor filma várias tomadas da mesma atriz, de costa, perfil, diagonal, de cima, com mão no joelho, no cabelo, boca entraberta, etc e etc, busca-se o excesso da imagem e o detalhismo para construção rica na tela grande. O teatro funciona melhor no minimalismo pra causar a impressão, ao mesmo tempo que limpa a imagem deixando o objeto exposto de forma nua (...). Há ganhos e perdas, seja qual for o meio, a importância de renovar é relevante. Vivemos uma época que se pode pensar - tudo já foi criado e não nos sobrou espaços para mais nada. A ousadia não foi repelida e nossa capacidade talvez ainda exista. Tem que se quebrar espelhos sem medo das pragas do azar e fuçar os escombros do mundo arruinado (FONSECA, 2008).

A blognovela seria, portanto, um gênero híbrido entre a literatura, o teatro e o cinema. Diferente do que Alcântara supôs, Gerald pensou a peça não só como teatro, até porque ele define o que faz como cinema para o palco, assumindo a influência de Glauber Rocha.
Embora conhecido como diretor, recentemente Thomas decidiu que seria preciso dirigir e encenar somente seus próprios relatos para garantir sua assinatura própria. Thomas leva bastante a sério esse direcionamento em seu trabalho: embora tenha de fato recolhido as falas e comentários dos freqüentadores do blog para realizar a blognovela, ao encená-la preferiu uma outra solução: homenagear os mais fiéis freqüentadores do blog através da citação de seus nomes em cena, o que de fato ocorreu, e não utilizar literalmente suas palavras e falas no texto, que foi praticamente todo alterado. Do texto original da blognovela, Thomas manteve a idéia da figura de um travesti, símbolo da ambivalência e da androginia. Um exemplo do texto original:

Gerald: Bom, eu queria reunir todos vocês aqui pra tentar encenar….
(sou interrompido)

Fabio:…Gérald,…?!..Que tal falar da Dóroty Stang, Chico Mendes, o Joãzinho trinta, o “almirante” negro da revolta da chibata, o madãme satã, o dom Élder Cãmara,o Antônio Conselheiro……..!!!!!! Tem tãnto brasileiro BOM e PÓBRE, esquecido ……! Claro que o Mandela e o Bill são legais….! Mas eles não precisam de fãma ou espaço, eles já Os TEM, E MUITO..!..São RECONHECIDOS EM VIDA..! isso é muito legal. Os que CITEI, SE FUUUUUderam em VIDA E NINGUÉM TÁ NEM AÍ COM ELES..!(desculpe o palavrão)

Gerald: Peraí Fabio, calma. Eu nem falei ainda sobre o que trata esse espetáculo! Além do quê tudo já foi escrito sobre Dorothy Stang, Chico Mendes virou filme com Raul Julia e Dom Helder Câmara foi uma das pessoas mais conhecidas e reconhecidas de sua época. Mas estou aqui pra tentar montar uma peça inédita que escrevi pra vocês, do Blog. É uma espécie de remontagem de um espetáculo…. (sou interrompido de novo e vejo que o Vamp esta atacando fisicamente o Fabio). (...). Obs: todos estão mudos no espaço de ensaio. Mau Fonseca tentava dizer alguma coisa tipo “a humanidade é horrivel” mas murmurava, ninguém o ouvia. Sandra tentava socorrer o coitado do Fabio que já flutuava a mais de 30 cm de altura do chão e estava sangrando. Eu me escondia, covarde que sou, atrás da única pilastra de concreto que havia no espaço (...).
Gerald - Cacá, tudo bem, tá ótimo. Justo o que você falou aí, muito justo. Mas eu estou aqui com vocês pra remontar o espetáculo M.O.R.T.E (movimentos obsessivos e redundantes pra tanta estética - aquele que o Haroldo de Campos montou uma tese em cima e que viajou o mundo)….lembram? Nao lembram? Bem foi em 1990 e a segunda versão foi em 1991. Não lembram. É, falta cultura à essa falta de cultura. Falta memória a essa falta de memória!

Gerald – Mas Fabio, eu já disse que…..

Vamp: se voce falar mais uma palavra com esse Fabio eu saio por aquela porta ali e nao volto nunca mais!

Gerald - Mas Vamp…..

Vamp: NUNCA MAIS entendeu? NUNCA MAIS!!!!

(ouve-se uma porta batendo, a luz desce em resistencia e Fabio sussurra: “poxa, perdi meu melhor amigo.. eh a MORTE!)

Fim do Capitulo 1 de uma longa novela da blogosfera! (THOMAS, 2008).

No texto da blognovela, Thomas valorizava a oralidade da fala cotidiana, os assuntos do momento, agindo como se estivesse realmente dirigindo uma peça, refletindo, pensando alto e revendo momentos de sua própria trajetória. Ao transpor a blognovela para o palco, reduziu significativamente o texto, refazendo-o para que ele pudesse trazer referências a dilemas fáusticos sobre a relação, presente no trabalho de Thomas, entre o poder e a arte, tal como o seguinte fragmento: “Não é o que vocês estão pensando. De alguma forma, é o que vocês estão pensando. De alguma forma, o que vocês estão vendo é isto. O que vocês estão vendo confirma o que vocês estão pensando” (THOMAS, 2008).
A essa altura pode-se ver pessoas dependuradas de cabeça para baixo, com um chapéu panamá pendurado no alto de seus corpos pendentes. O chapéu panamá refere-se a um quadro de Magritte e ao trabalho de Reinaldo Azevedo, jornalista e blogueiro da revista Veja e com quem Gerald Thomas polemizou, mas conseguiu reverter a antipatia inicial, travando com ele relações de amizade, numa peripécia que muito abalou os seguidores de ambos na internet, tendo todos entrado em guerra e realizado a paz juntamente com seus “mentores”. Reinaldo Azevedo possui uma relação de oposição radical ao governo Lula, no que existem confluências com a rebeldia anárquica e oposicionista proposta por Thomas. Azevedo, no entanto, alimenta-se da crescente impopularidade do governo Lula entre parte das elites e da classe média, devendo a esse governo boa parte de sua repercussão. E ele concorda, por exemplo, que o governo Lula deve manter sua política econômica. As relações entre Reinaldo Azevedo e o governo Lula fazem lembrar a tragédia Lacerda/Getúlio, inclusive possuem algo que podemos chamar de um resquício de uma dialética. Gerald Thomas diferencia-se de Azevedo por sua posição liberal em relação a costumes, especialmente no que se trata de ecologia e liberdade sexual. Para além dessa discussão, a revista Bacante referiu-se à blognovela como “teatro filmado” e descartou-a como inferior a trabalhos como Quádos, de Beckett (como uma forma de evitar a verve polêmica de Gerald: afinal, ele não se diria melhor do que Beckett, deve ter pensado Marcelo Alcântara). No entanto, Kepler vai bem além de um teatro filmado como habitualmente se faz na televisão brasileira e é teatro agudamente experimental, fazendo jus às influências recebidas de Beckett: é um espetáculo que marca pela sobriedade e despojamento minimal e cujo claro e escuro permanece em nossas mentes. Escreveu Alberto Guzik a respeito de Kepler, the Dog:

É muito poderoso o novo trabalho de Gerald Thomas, "o cão que insultava as mulheres, Kepler, the dog". Vi ontem e ainda está girando na minha cabeça. as imagens, a força das idéias. tudo muito simples, muito despojado, e extremamente requintado. Não parece o gerald capaz de inventar máquinas cênicas complicadíssimas. Este gerald está interessado em explorar o palco nu, a caixa cênica desventrada, sem nenhuma moldura que a enfeite. O resultado é magnífico porque sofre o impacto da visão de mundo lúcida e arguta do encenador. Fabiana gugli está esplêndida, cada vez mais precisa e senhora do palco. E também brilham Duda Mamberti e Pancho Capeletti, dominam a cena com extrema segurança. Mas é das idéias do espetáculo que se precisa falar (...) (GUZIK, 2008).

Na primeira versão da blognovela, o próprio Thomas era, ao mesmo tempo, diretor e ator: ele falava como um dos demais personagens e atuava de fato como um diretor dos demais, sendo partícipe da narrativa, mas resguardando-se a posição daquele que determina a direção que a narrativa deveria tomar. Era uma espécie de “Deus intra machina”. A decisão de antropofagizar até mesmo os comentários dos leitores e trazer à luz imagens que são, como dizia Freud, unmheimlich, ou seja, ex-estranhas, foi a decisão de Gerald tomou para unificar e manter sua assinatura própria, seu gesto e escritura autoral. Rui Filho associou a peça à problemática fundamental da identidade (que ligaremos, aqui, com a de autor e autoria):

Tentar diagnosticar nossa identidade, já seria um desafio imensurável. Tratar o diagnóstico, então, pelo prisma da arte, associando esta ao poder, torna a abordagem ainda mais complexa. Tudo inicia na exposição de corpos dependurados. Escolha anunciada do próprio criador. “Porque eu coloquei ali” (...). Como responder, então, o paradoxo entre “a arte tem a cara do poder” e “o poder tem a cara da arte”? O que parece ser a mesma coisa, expõe uma problemática crucial para chegarmos a tal da identidade. Na primeira questão, a arte é colocada como artifício, instrumento de determinação de uma ordem pela subjetividade da estética; na segunda, o poder se fantasia de subjetividade para esconder sua manipulação. Mas nem tão distantes estão. Equilibram-se na existência do próprio homem como fruto responsável por ambas, já que tanto arte quanto o poder são atributos da necessidade humana de superar o meio, seja ele simbólico (e portanto cultural e natural, entendendo que a origem etimológica das duas palavras são a mesma) ou político. E é esse homem, essa figura, transformada em mulher, que vemos surgir da figura do cão. Se deus é o criador de tudo e todos, então a mulher é responsável pela continuidade da vida. É ela igualmente criadora. A humanidade se configura, portanto, na existência da criação como instrumento de adoração do criador. Adoração exposta em desejo ao próprio corpo, como o strip-tease do ator (metáfora da necessidade de abdicarmos de nossas máscaras sociais para nos reencontrarmos puros e originais), como a idolatria ao inacessível, ao inquestionável, ao que cala, representado pelo Santo Graal (face existencial de criador supremo) (FILHO, 2008).

Vale a pena registrar um ponto importante: o fato da dramaturgia ancorar no “autor”, em se tratando de Thomas, não é garantia de não-decifração. O autor mesmo possui diferentes falas conforme o momento. Em algumas situações ele é “O Rebelde Revolucionário do Teatro Carioca”, em outras ele é “Conservador Realista Norte-americano”, em outras ele fala alemão, inglês, francês. Thomas parece vivenciar, enquanto autor, a dissolução do sujeito de que trataram Nietzsche e Foucault.
A virada autoral de Thomas talvez tenha se dado no momento da grande polêmica gerada por Tristão em Isolda em 2003. Naquele momento, o gesto do autor de protestar diante das vaias da audiência foi extensamente noticiado, assumindo maior importância até do que o debate – que deveria acontecer – sobre a montagem. Na montagem, os elementos que surgiam por associação livre adquiriam maior relevância que a narrativa clássica. Podemos dizer que Gerald Thomas é pós-modernista no sentido em que Fredric Jameson analisou essas formas culturais de origem norte-americana em seu livro A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio: o pós-modernismo surge como uma aceitação e valorização do momento presente, representando, portanto, um abandono praticamente total das utopias da modernidade. Por isso em seu Tristão e Isolda aparece Freud cheirando cocaína, junto a desfiles de moda, etc. A modernidade (Freud, Wagner) foi ali problematizada e, em boa parte, desconstruída. Sua direção foi entendida no Brasil, muitas vezes, como provocação hermética “chata” ou “pretensiosa”, assim como proclamação do vale-tudo nas artes, o que é um grande equívoco.
Minha hipótese é que, a partir da enorme repercussão do gesto autoral ao final de Tristão e Isolda, Thomas tenha decidido tecer sua obra a partir da autobiografia e dos gestos autorais conscientes. O gesto de protesto do encenador em Tristão e Isolda resultou em um processo para Gerald Thomas, processo ao qual ele respondeu politizando os ataques aos quais foi submetido: a era Lula, do tão esperado governo “de esquerda”, favorecia uma nova censura e acusações de elitismo contra ele. O processo acabou arquivado, mas suponho que, mais do que a visão da queda das Torres Gêmeas em 2001, seja esse fato que pode fazer o papel de navio que nos pode guiar para o maelstrom (redemoinho) que é a obra de Gerald Thomas.
Para uma melhor compreensão dessa obra multifacetada é preciso ouvir a voz do autor. Mas esse é um dos enigmas de Thomas: o próprio autor se define como um significante tantalizado, ou seja: o Holandês Voador. Ele assume uma identidade multinacional, não desejando representar a arte de nenhum país, a não ser, quem sabe, a América mestiça e de muitas vozes. Ele é anfótero: conforme o meio, ele assume o papel de ácido ou de base.
Como comentou o crítico Alberto Guzik, em Kepler Gerald Thomas deixou limpa a cena, deixando a “máquina cênica” quase nua, ele que já elaborou complicadas máquinas cênicas tal como em Carmen com Filtro. Essa clareza cênica não implica a ausência de alguns estilemas que celebrizaram o encenador: a voz em off do encenador que substituiu a voz de um ator que está em cena (Duda Mamberti), o texto oscilando entre a simplicidade e o hermetismo, a iluminação que faz sobressaltar o jogo do claro e escuro, as referências eruditas (Susan Sontag), misturando-se às de massa (Led Zeppelin) e às artes plásticas (Magritte), assim como uma reflexão sobre o poder. A reflexão fáustica sobre o poder é muito presente na obra de Gerald Thomas e ele mesmo assume que não dissocia política e estética, tal como Jameson teoriza em A Lógica Cultural do Pós-Modernismo: a superestrutura, no capitalismo tardio, perdeu boa parte da autonomia anterior.


4 A VOZ AUTORAL EM BATE MAN: O AUTOR COMO ISCA DE SI MESMO


Bate-Man, espetáculo mais recente de Gerald Thomas, revê, com precisas variações, questões que tratamos acima. Nessa peça o autor reflete sobre os processos que fazem sua arte através da apropriação de seu próprio trabalho e de suas criações passadas. Iconoclasta por vocação e desejo, era de se esperar que, em algum momento, fosse ao extremo de si mesmo para se recompor. Muitas são as referências paralelas a montagens recentes. As garrafas vazias (Ventriloqüist), o chão estéril de terra (Nowhere Man), as caixas e o encontro com os segredos históricos metaforizados em seus conteúdos de restos humanos (Circo de Rins e Fígados), o desfile de moda (Nietzsche x Wagner), o porão como lugar não-identificável (O Príncipe de Copacabana), os remédios e vitaminas (Terra em Trânsito), o corpo dependurado pelos pés (O Cão que Insultava Mulheres, Kepler, the Dog). Com paciência, papel e caneta chegaríamos a mais tantas outras. E o que isso quer dizer? Assim como assinala o argumento de Bate Man – o homem isca –, Gerald se fisga num panteão simbólico por ele criado, na última década, onde a construção de vocabulário particular identifica autoria e destreza. Poucos são, verdadeiramente, os artistas a constituírem um discurso preciso e particular, mesmo entre os bons artistas. Quase sempre nos defrontamos com apropriações circunstanciais, estímulos produtificados de alfabetos comuns e gerais. Gerald, não. Faz do palco e cena a expressão de um complexo sistema de metáforas organizadas a partir de percepções próprias dos fatos históricos, reavaliando suas origens através de provocativas reinterpretações sígnicas. O autor, mais do que tudo, conserva os valores deturpando qualquer possibilidade de estagnação histórica, levando os fatos e circunstância a constituírem um elaborado jogo de origens e conseqüências, como que nos avisando de haver muito mais no ontem na constituição do agora. Nessa perspectiva, por que deveria ele abrir mão de si mesmo? Bate Man argumenta, portanto, a favor do autor determinando sua particularidade e individualidade, tanto estética quanto argumentativa, em um panteão contemporâneo estéril de pessoalidades e olhares originais.
As garrafas de vinho tinto espalhadas pela cena oferecem ao espectador a possibilidade de contextualizar-se à história. E não qualquer história. A que nos torna piores do que desejamos ser. São vinhos originados em sangue humano produzidos durante a ascensão e queda do Terceiro Reich. Mas não devemos nos limitar ao tal período. A guerra hitlerista é outra vez argumento simbólico. Gerald fala de todas, identificando o horror inerente ao espectro maior do Holocausto. Assim, o homem isca, retorna à sua função de traduzir o coletivo, a face comum que nos identifica, num jogo metafórico digno de Charles S. Peirce e semioticistas de plantão. Está na guerra a maior atrocidade humana, o princípio destruidor que nos iguala e distancia, paradoxalmente. E Gerald, insistente sobre isso, vem tramando, sucessivamente, espetáculos cujo foco primordial é compreender em que momento desse paradoxo tombamos ao distanciamento. Se por um lado, o teatro reserva a comunhão dionisíaca, por outro, o discurso que se pretende questionador desagrada ouvidos. Gerald se utiliza da artimanha do humor, ou melhor, do ridículo para nos aprisionar interessados. Na construção de circunstâncias absurdas, revela o mais próximo de nossas idiossincrasias. O patético em ser humano. E a culpa histórica e religiosa configurada no absurdo da surdez autista. Um homem banha-se e serve-se voluptuosamente de vinho de sangue humano decorrente de guerras, assassinatos e atrocidades históricas. E rimos disso sem perceber que abrimos diariamente as mesmas garrafas, embriagados que estamos pelas manipulações. Enquanto nos distanciamos do ontem, na perspectiva errônea do novo, prostituímo-nos ao silenciar de toda e qualquer responsabilidade por nossos atos. Sim, nossos. Não o do indivíduo, mas de toda a humanidade. Somos, assim, iscas de um teatro ainda pior, maior, orwelliano. Nas guerras encenadas de Gerald Thomas, a humanidade é culpada por omissão, e em Bate Man, o homem devaneia embriagado pela crueldade da consciência. Como o homem de Dostoiévski, em Notas do Subterrâneo, o de Gerald opta por permanecer isolado, porém bêbado, travestido de estética e futilidade, conduzido ao sofrimento de Prometeu pelo exercício da reflexão.
Gerald exercita um saboroso monólogo sobre o silêncio, apoiado na consistência da trilha de Patrick Grant e das alongadas notas de guitarra. Não há como suprir a voz calada, nem mesmo como calar o som estridente e persistente. Bate Man mostra que estamos afundados em nossas ausências. E nada mais coerente, então, do que o autor, encenador, cenógrafo e iluminador, buscar socorro em si mesmo. O mundo se tornara excessivamente absurdo. E beber sangue humano não me parece nada além de uma possibilidade futura dentre as demais.
Gerald Thomas propõe trocadilhos para além das palavras em seu Bate Man, em cartaz do Espaço Sesc, em Copacabana, como se a ação, ou inação, do homem submetido ao “banho de vinho tinto de sangue” fizesse parte do jogo das inevitabilidades do nosso tempo. O indivíduo, torturado pela banalidade da violência, transformado numa peça de carne pendurada numa exposição de atrocidades, se esvai pelas frestas de uma realidade de sentidos duplos e aparências enganosas, que o imobiliza e atrai a sua perplexidade. Vejamos uma passagem do texto:

(Vira de costas e toma mais banho de vinho.
Murmura pra si mesmo.)
Sabe que… eu acho nunca vi….
Sinceramente.
Eu vou dizer uma coisa para vocês…
Ai…
Sinceramente.
Ai….
(pigarreia algumas vezes, como se preparando para falar.
Murmurando.)
Acho que….
Eu nunca achei que agradar a Burguesia seria desperdiçar aquilo, aquilo que eles acreditam ter de melhor. E agora? Que eu fiz tudo isso aqui.
Qual será a próxima?
(tempo, pensando.
Conclui.)
Um banho de caviar?
Banho de caviar.
(olha para baixo e vê caixas de caviar.
Encontra caixas de caviar.
Se assusta com a surpresa.)
Ahhh (...).
E OLHA QUE LOUCURA ESSA AGORA!
MEU DEUS DO CÉU.
Roupas FASHION!
Não posso acreditar.
Um John Galiano direto da próxima coleção de verão!
WOW!
(entra música. Bate Man se veste e começa a desfilar) (THOMAS, 2008).

Portanto, o que resta a esse homem, bêbedo do real, mas que desconhece as razões para o que vive, encharcado de incoerência e de culpa. No teatro de meias verdades ou de mentiras cínicas, interpreta o papel do bufão ensangüentado que bebe vinhos de safras incontornáveis e participa, como foi visto acima, de patético desfile de moda, numa antropofágica deglutição da imensa solidão do silêncio dos tempos.
Nas metáforas da existência na atualidade, Gerald Thomas não abandona as citações, a busca de representar o momento com fatos do passado, de reinterpretar significados e reverberar a imobilidade ruidosa. A escrita cênica de Gerald Thomas capta a intensidade com que expõe as suas próprias dúvidas e inflexiona a arte contemporânea. A capacidade de criar identidade visual para suas montagens permite que o autor, diretor e cenógrafo deixe, a cada espetáculo, a sua marca também na ambientação. Em Bate Man, a semi-arena coberta de areia, com caixas de vinho espalhadas pelo chão e um simulacro de palco ao fundo, cuja cortina se abre para desvendar atrocidades, confirma a sua mão firme para o desenho da cena.


CONCLUSÃO


A obra de Gerald Thomas é uma obra de signos em rotação. Concluímos aqui que entrou numa rotação ainda mais intensa recentemente, acelerando o seu maelstrom de referências. O “turning point” da obra, supomos, foi o gesto autoral de protesto em Tristão e Isolda. O resultado foi a guinada para relatos intensamente autorais ou até mesmo autobiográficos que realizou o autor em Terra em Trânsito e Rainha Mentira (Queen Liar). Analisamos também, brevemente, a blognovela O cão que atacava mulheres ou: Kepler, the dog, considerada por Gerald Thomas como continuação da trilogia iniciada em Terra em Trânsito e Rainha Mentira. A blognovela passou por uma transformação entre o seu formato original no blog e a encenação. Nessa mudança, investigou-se o traço autoral de Thomas. Ao verter a peça, originalmente apenas literária, para o teatro, Thomas tornou-a algo marcado pela preocupação em, com imagens de pesadelo, buscar mobilizar o inconsciente, refletir as relações entre arte e a política no mundo atual, referindo-se indiretamente a episódios de tortura em Abu Ghraib, por exemplo. Em Bate Man, ele continua esse trabalho autoral de encenação de si mesmo em um monólogo escrito para o ator Marcelo Olinto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALBUQUERQUE, Severino J. O Teatro Brasileiro na Década de Oitenta. Latin American Review. No. 25.2 (Spring 1992), p. 23-36.


ALCANTARA, Marcelo. Crítica: O cão que insultava as mulheres: Kepler, the dog. Revista Bacante. Disponível em:. Acesso em 20/01/2009.


BOOTH, The Rethoric of Fiction. Chicago University Press: 1983.


BROOK, Peter. O Teatro e seu Espaço. Rio de Janeiro: Vozes, 1970.


FILHO, Rui. Kepler, o cão atordoado. Disponível em: . Acesso em 20/01/2009.


FONSECA, Mau. O Teatrocinema da blognovela. Disponível em: . Acesso em 20/01/2009.


GEORGE, David. Gerald Thomas postmodernist theatre: a wagnerian antropofagia? Luso-brasilian Review, XXXVII, 1998.


GUINSBURG, Jacó et. FERNANDES, Sílvia. Um encenador de si mesmo: Gerald Thomas. São Paulo: Editora Perpectiva, 1996.


GUZIK, Alberto. O Impacto de Kepler. Disponível em: . Acesso em 20/01/2009.


JAMESON, Fredric. A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. São Paulo: Ática, 1996.


MACKSEN Luiz. Texto pretensioso de Gerald Thomas expõe crueldade de nosso tempo. Disponível em: . Acesso em 21/01/2009.


REIS, Luís Augusto. Piscator, Brecht, Boal e Artaud – Considerações sobre o teatro político. Disponível em: . Acesso em 21/01/2009.


THOMAS, Gerald. Press. Disponível em: . Acesso em 21/01/2009.

sábado, 17 de outubro de 2009

Thomas Nagel, um filósofo contra o absoluto e o relativismo: certo ou errado?

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Nascido em Belgrado em 1937, de família judaica, Nagel obteve um Phd em Harvard em 1963 (com a orientação de John Rawls). Atualmente é professor de Filosofia e Direito na Universidade de Nova Iorque, Thomas Nagel escreveu essa passagem em Breve História da Filosofia (São Paulo: Martins Fontes, 2001) para tratar da ética, ou seja, daquilo que é certo ou errado. Ele é um racionalista e combate o relativismo (no sentido de que a razão e seus métodos sejam relativos ao sujeito). Por outro lado, ele não espera que o mundo tenha sido criado por Deus. E escreve contra as grandes narrativas (judaísmo, cristianismo, islamismo) que propõem uma ética fundada somente na autoridade divina, na revelação sagrada da palavra, no absoluto dos dogmas religiosos. Consagrado como filósofo analítico de linguagem nada técnica, Nagel é famoso por não citar filósofos e sim refletir sobre as questões que eles colocam.
Para problematizar a questão, ele dá um exemplo simples: você, se fosse funcionário de uma biblioteca, cederia a um amigo um livro raro, mas que não pode sair daquele recinto? Cederia o livro ou decepcionaria o amigo? Esse exemplo é trazido para que Nagel possa explicar como se deve resistir aos impulsos egoístas. O mundo, em uma observação superficial e presa às aparências, parece estar todo girando em torno de nosso eu. O ser humano já desmontou a hipótese de que o mundo gire em torno de si há muito; Marx, Freud e Darwin foram até muito além disso, mas a força da aparência e da conveniência ainda é muito forte. O exemplo de Nagel é ruim, uma vez que implica em uma concessão a um amigo e não na satisfação do próprio sujeito.
Afinal, o que é difícil é o sujeito renunciar a satisfazer a si mesmo em prol dos outros: isso contraria nossos impulsos naturais, a aparência como o mundo se nos apresenta: é preciso preservar a si mesmo, parece ser a mensagem do corpo para a mente. E ela atende e facilmente explica o mundo a partir disso. Nagel quer desmontar esse tipo de visão de mundo em prol do altruísmo.
Nagel quer verificar os alicerces de uma ética que não precisa recorrer ao castigo divino para ser imposta. O personagem Ivan, do romance de Dostoiévski Irmãos Karamazov, não pensa assim: russo de formação liberal e ocidental, em dado momento em que a morte de Deus, assunto em voga no final do século XIX, é comentada, ele afirma que, sem a autoridade divina, não é possível uma ética funcional. Seus próprios interlocutores dizem, logo adiante, que é possível, sim, uma ética laica, fundada na busca do bem e nas virtudes. Esse é ponto de Nagel: deve-se buscar respeitar o próximo, mas não porque advirá o castigo de Deus e sim porque isso é uma virtude racionalmente comprovável. A razão deve ser utilizada para o sujeito pensante possa questionar a si mesmo e não para uso ilusório, ou seja, para racionalizar as ações em interesse próprio. Nagel quer uma ética normativa, objetivista e racional. Ele crê na razão como algo que todos os sujeitos podem ter acesso ao utilizá-la. Quem usa a razão, reflete, tende a pensar da mesma forma.
Embora o mundo se apresente à nossa consciência enquanto centrado nela, as leis sociais não são fundadas pelo próprio sujeito. Nagel responde ao dilema do rapaz na biblioteca com o imperativo categórico kantiano: não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você; aja como cada ato seu pudesse ser elevado a uma regra universal. Portanto, vem de Kant a resposta que Nagel dá ao amigo na biblioteca: você gostaria de chegar a uma biblioteca e não encontrar o livro que procura porque foi roubado?
Assim sendo, mundo aparece centrado em nós, enquanto a lei surge claramente como uma regra moral imposta de fora para dentro, da coletividade para o indivíduo, algo cuja legitimidade permanecerá sempre necessitando justificativa interna, enquanto algo necessário para preservar aquele indivíduo.
O exemplo de Nagel a respeito da propriedade de um livro não toca numa questão que provoca muitos dilemas éticos: a propriedade privada na sociedade onde vivemos. Alguns seres humanos possuem os meios de produção, arrogam-se donos das riquezas que deveriam ser desfrutadas por todos, enquanto uma grande maioria é obrigada a servi-los. Essa questão motiva dilemas éticos bem mais complexos do que aquele colocado por Nagel. Como convencer alguém a fazer o bem, acaso esse ato prejudique o próprio indivíduo? Como convencer alguém a fazer o bem, se por acaso ele souber que esse ato se voltará contra si mesmo? Esse dilema parece abstrato, mas pense na situação de um político obrigado a engavetar denúncias de um colega comprovadamente corrupto para proteger seu governo e partido e saberá exemplarmente do que estamos falando. Nagel encerra sua análise sobre “certo” e “errado” comentando que, no esforço de fundamentar a moral, sempre será necessário entender que o ser humano necessita sempre de muitos motivos para atender às leis morais. Aos que defendem a perspectiva subjetivista, segundo a qual a primeira pessoa, do singular ou do plural, se esconde no interior de tudo aquilo que dizemos ou pensamos, Thomas Nagel contrapõe o ponto de vista racionalista, de acordo com o qual a razão pode servir de instância de apelação não só contra as opiniões transmitidas e os hábitos da comunidade, mas também contra as peculiaridades de nossa perspectiva pessoal. Para Nagel, a ética é normativa e parte do leque da razão, mas somente será universal se o valor objetivo das pessoas for reconhecido.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Faça a Gentileza, Explica direitinho

Laerte Braga





O presidente dos Estados Unidos Barack Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz. A honraria, vamos chamá-la assim, foi criada por Alfred Nobel, um químico e industrial sueco. Ao morrer deixou uma grande fortuna e desgostoso com o uso da dinamite para fins militares – foi ele o inventor da dita cuja dinamite – resolveu por testamento instituir prêmios àqueles que viessem a contribuir para o progresso da humanidade em determinadas áreas levando em conta, essencialmente, a paz.



Toda a sua fortuna pessoal foi o suficiente para instituir uma fundação e a partir daí conceder, anualmente, os prêmios.



Onde Barack Obama contribuiu para a paz e o progresso da humanidade? Nas bases militares que pretende instalar na Colômbia? Sete de uma vez só para fechar o cerco à Venezuela, ao Equador, a Bolívia e assegurar o controle da Amazônia.



Na ameaça de sanções políticas e econômicas contra o Irã? No olhar para o lado e fazer de conta que não tem nada a ver com as atrocidades cometidas por Israel contra os palestinos? Sustentar um golpe militar brutal em Honduras? No bloqueio econômico a Cuba?



Enviar mais tropas ao Afeganistão e pedir desculpas quando os seus “pacificadores” matam civis por engano? Só numa cerimônia de casamento cento e setenta mortos dentre eles o noivo e a noiva?



Ou porque é um “bom rapaz”, finge-se de negro, tem origem humilde e transformou a Casa Branca numa cervejaria?



Henry Kissinger também foi agraciado com a distinção, ou laurel, o que seja. Foi um dos envolvidos no golpe militar contra Salvador Allende no Chile e no assassinato de vários presos políticos na América Latina ao dar sinal verde para a Operação Condor. Aparato repressivo que juntou as ditaduras do Brasil, da Argentina e do Uruguai, de quebra Pinochet e o Paraguai, com o objetivo de eliminar – e eliminou – adversários e lutadores populares.



Há quem enxergue no cientista do filme “Doutor Fantástico” do notável cineasta Stanley Kubrick a inspiração do ex-secretário de Estado. Kissinger nasceu na Alemanha. É aquele que vive segurando a mão direita. Quando escapa não resiste e grita Heil Hitler!



O que levou Alfred Nobel a destinar toda a sua fortuna a esse fim, com certeza, não foram as armas químicas e biológicas que norte-americanos usam no Afeganistão, como usaram no Vietnã e o estado terrorista de Israel usa contra palestinos. Com certeza não foi.



À época da ditadura militar os integrantes da academia sueca que se reúnem para escolher o agraciado com o Nobel da Paz foram pressionados de todas as formas possíveis para que o arcebispo brasileiro Hélder Câmara não fosse o contemplado. Houve desde gestões dos generais brasileiros junto ao governo sueco, como ameaças explícitas que uma eventual concessão do prêmio a Dom Hélder poderia vir a significar um arrocho na repressão. Ameaças de morte a D. Hélder.



Mais do que já era? Impossível. O ódio permanece vivo nessa gente é só olhar o que estão fazendo com as pensões das famílias de Lamarca e do major Cerveira.



A decisão de conceder o Nobel da Paz a um presidente em seu nono mês de mandato e sem que tenha conseguido outra coisa que não doar dinheiro público a empresas privadas é um escárnio. Submissão absoluta. A propósito, a Suécia nunca foi nada além de base militar dos EUA quando da guerra fria em ações de espionagem contra a extinta União Soviética.



Tirando Bergman, Greta Garbo e mais uns poucos o que fica do país é o tapinha de Mané Garrincha no ombro do rei Gustavo sei lá das quantas, na final da Copa de 1958.



Transformaram um fim previsto nos prêmios criados pelo químico sueco em espetáculo de puxa-saquismo explícito e parte do jogo de um mundo globalizado segundo a ótica do capitalismo.



A mídia inteira, a dita grande mídia, coloca Obama num altar, transforma-o em santo protetor dos oprimidos e afegãos continuam morrendo debaixo dos bombardeios norte-americanos. Presos continuam sendo torturados em Guantánamo (nem fechar a prisão ele conseguiu). O governo de Israel com aval dos EUA ameaça bombardear o Irã (ninguém fala nada sobre as armas químicas e biológicas e o arsenal nuclear de Israel) e continua sua política de extermínio do povo palestino.



Eles deviam explicar direitinho os critérios que nortearam a escolha de Obama. Será que o norte-americano enviou algumas caixas especiais de cerveja aos membros da Academia? Será que manifestou intenção de servi-las na solenidade de entrega do prêmio em dezembro?



Eu se fosse garçom ia botar a boca no trombone. Usurpação indevida de uma das mais importantes funções no processo de integração e interação dos seres humanos.



Do jeito que está não vai demorar muito e o distinto ou a distinta juntam cem tampinhas “premiadas” de budweiser e ganham um Nobel. Assim que nem aquelas garrafinhas antigas que a coca cola costumava premiar a turma. Tira aquele plástico que noutros tempos era cortiça e que vem na tampinha. Está lá escrito “vale um Nobel da Paz”.



Tem que ter, além do escrito, a imagem da Cervejaria Casa Branca e a de Barack Obama despejando o líquido nos copos dos acadêmicos.

Imagino que George Walker Bush, o terrorista que antecedeu a Obama deve estar tentando desatar o nó das pernas até agora, pois não entendeu nada. O cara faz tudo o que ele fez, só disfarça e ao invés de areia usa vaselina e ainda leva o Nobel da Paz?



E ele, que fraudou uma eleição para virar presidente, identificou o “eixo do mal”, foi lá “ajudar” os iraquianos a tomar conta do petróleo, fica como? Leva o Nobel de que?



O perigo é Obama acabar no próximo Big Brother. Ao invés de uma casa no complexo GLOBO, transformam a Cervejaria Casa Branca em reduto dos “brothers” e Boninho, o especialista em jogar coisas "purificadoras" em “vagabundas” (na cabeça dele, se é que tem) dirige tudo em tom maior.



O som? Desde a dor dos palestinos, ao sofrimento dos afegãos, passando pela barbárie hondurenha e nos milhares de assassinatos do governo narco/militar da Colômbia, agora com sete bases.



E a culpa é do Irã.



Vai ver que foi por isso que Paulo Skaft, presidente do esquema FIESP/DASLU, que detém o controle do governo do extinto estado de São Paulo, virou socialista e ingressou no partido do mesmo nome.



Quando Frank Sinatra veio cantar no Brasil manifestou intenção de bater um papo com Tom Jobim. Jobim se esquivou e foi, acho que para Petrópolis com a alegação “esse Sinatra é um chato”.



Esse trem de Nobel está virando uma chatice regada a colarinho de cretinice.

Entrevista de Gerald/comentários de Leo Lama

arta-feira, Outubro 14, 2009
Entrevista de Gerald Thomas ao Jornal “O Globo”, com comentários de Leo Lama

RIO - Gerald Thomas vai deixar o teatro. No mês passado, o diretor que fez da controvérsia seu gênero teatral divulgou pela internet um artigo no qual afirmava que daria adeus ao teatro. "Continuar o quê?", disse ele no artigo; "Se formos analisar o último filme ou CD de fulano de tal, ou a última coreografia de não sei quem, veremos que tudo é uma mera repetição medíocre e menor (...)". Ao GLOBO, por e-mail, o diretor confirma a saída, mas não se será definitiva.

Você vai parar de dirigir? É sua aposentadoria?

GERALD THOMAS: Eu não chamaria de aposentadoria. Aposentadoria implica receber pensão, não? Não é o meu caso. O meu é um pouco mais profundo. Acredite.

LEO LAMA: Eu acredito.

Se é um ''breve'' adeus, como você diz no artigo, você para por um tempo e depois volta?

GERALD: Não tenho nada decretado. Digo no meu artigo que preciso de tempo pra me achar e que não há originalidade alguma na minha geração. Digo que os tempos de hoje estão extremamente chatos, e as verdadeiras estrelas são aquelas fora do teatro: não faz mesmo sentido entreter um pequeno número de pessoas presas em cadeiras, vendo "miragens" no palco. Essa mentirinha está mal contada. E eu parei de contá-la. Mas não estou reclamando: me deram "the time of my life". Tive os melhores teatros do mundo e agradeço a Deus por isso.

LEO LAMA: Que geração é essa, a do Gerald, que se perdeu procurando originalidade? Não há como negar que esses tempos estão chatos, mas e os tempos que não existem nessa chatice como será que estão? Que tempos são esses? Que relógios marcam tais tempos? Quais tempos existem de verdade e na Verdade? Tudo é realtivo, mas o Absoluto não se relativiza com o relativo, ou seja, pra que falar do relativo como se fosse absoluto? Pra que falar do sem sentido se não há sentido algum? (REPOUSO) Então o que Gerald fazia era entreter um pequeno número de pessoas presas em cadeiras que viam “miragens” no palco? E agora, o que se propõe? Que se conte melhor a mentirinha? Ou que se a abandone sem piedade, ainda que as verdadinhas possam não ser essas? (REPOUSO) Teria sido Deus que lhe concedeu os teatros? Se foi, o que Gerald Thomas deu em troca? Uma arte que caiu no ridículo da desistência, na falência, no esgotamento? Que retribuição é essa? É só uma pergunta. Eu não faço críticas, eu apenas formulo questões: ora, O Todo Poderoso já não tinha avisado através de um de seus profetas que já não havia nada de novo debaixo do sol? Ah, essas mentes iluminadas por refletores! O que quer dizer “não há nada de novo sob o sol (ou outras traduções possíveis do Qohélet, como a de Haroldo de Campos: névoas de nadas, disse O-que- sabe, tudo névoa nada. Tudo tédio palavras... e não há nada novo sob sol...)? Se isso é uma coisa que foi proferida e avisada de forma atemporal e simbólica, quando um dia se descobre que não há nada de novo no “teatro”, ou nada de novo a se fazer, ainda que não se tenha feito nada de novo nos anos em que se achava que se fazia novidades, está se falando da mesma falta de novidade a que se refere o Livro Sagrado ou fala-se do que o Livro disse que aconteceria com quem não se deixasse ler pelo Livro? Então pergunto: do que fala Gerald e do que fala o Eclesiastes? Tudo o que possamos fazer já foi feito, “Não há nada de novo sob o Sol”. Tudo é vaidade, diz o Livro. E Gerald parou de contar a mentirinha, ainda que a Verdade já tivesse sido contada há muito, e não por ele, é claro. O que não o desmerece, ainda que se pergunte: o que ele fez para merecer tanto espaço de Deus? O que ele fez com seu tempo de vida? Quando foi que se trocaram os Princípios pela originalidade, a Atualização do Espírito pela novidade? Vai saber. Vai saber.

Vai participar de projetos teatrais fora da direção?

GERALD: Eu parei. Procure me entender. Parei. O Gerald Thomas parou.

LEO LAMA: Parou com o que? O que era “isso” que o Gerald Thomas fazia? Teatro ou aquilo que ele chamava de teatro? O que quer dizer “parei de fazer teatro!”? O que é teatro? O de um é o de todos? Digamos que tal teatro fosse arte. Parou de fazer arte? Mas quando ele começou a fazer arte, se seu teatro for arte e se tal arte é arte? O que é arte? Não estou criticando “sua” arte ou "seu" teatro, estou apenas questionando se o que um “artista” faz é a arte de todos ou é a representação de todas as artes ou de toda a arte. E ainda pergunto se o que enxergamos não é aquilo que conseguimos ver e também se o que vemos não é exatamente aquilo que estamos vendo e nada mais ou a mais. O que ocorre e não estamos vendo? Ah! O que não se vê? O que é o invisível? Quem são os que já viram tudo? Os que sempre vêem as mesmas coisas ou os que possuem o dom de ver na e a totalidade? Gerald Thomas vê por todos ou só por si mesmo? Se é por si que se vê, que diferença faz para nós, se vai parar ou continuar, dizer isso ou aquilo, encenar tal ou tal peça? No entanto “sua” reflexão é importante, ou melhor dizendo, interessante, pois nos faz pensar sobre o que é a crise de um e a crise de todos. A quem damos voz? Há quem nos represente? Um artista representa o que? Uma sociedade? Uma crise geral pode ser medida por uma crise pessoal de um artista que recebeu espaço da mídia durante anos? E os artistas que não foram vistos, não são relevantes, ainda vão ser, ou são relevantes e por isso mesmo não foram vistos por aqueles que achavam que quem tinha que ser visto era Gerald Thomas? Justo este, aquele que não vê mais nada ou viu que nunca viu. Haja vista. (REPOUSO)Sim, podemos dizer que Gerald é o retrato da modernidade, mas quem quer guardar a fotografia desse tempo inócuo? Ele mesmo já não quer. Chafurdar desde o começo no sem sentido para um dia cansar do sem sentido é algum tipo de abandono ou é cair na obviedade abandonável daquilo em que se meteu?

Vai deixar de assistir a peças também?

GERALD: Não quero nem ouvir falar de teatro ou em teatro.

LEO LAMA: Mas e se o teatro for justamente ouvir? Mas e se for ouvir o que não se faz mais? Sem querer dizer o que é e o que não, escuto. A repórter pergunta sobre assistir e Gerald responde que não vai mais ouvir. Onde está o erro, na pergunta ou na resposta? Veremos o teatro sem escuta?

O que você fará a partir de agora? Vai estudar? O quê? Vai viajar? Para onde?

GERALD: Vou trabalhar alguma prosa, pensar na vida. Pensar na vida. Repensar no que aconteceu e onde tudo se perdeu. Porque... te digo com toda a sinceridade: a mediocridade reina, seja na música, seja nas artes plásticas ou no cinema. Então... estamos atravessando um período onde é melhor se calar e... quieto no meu canto, vou pisar em outras calçadas que não NY e Londres, e essas que piso sempre.

LEO LAMA: Precisamos pensar na diferença entre o mundo e a vida. A vida não é o mundo. A vida é verbo, pensar no mundo como se fosse a vida é engano, não vale a pena. A pena valida a vida. Pensar valida o mundo. (REPOUSO) A mediocridade reina no reino da mediocridade, quanto a isto não resta menor dúvida. Há outros reinos? A que rei se quer servir? Sim, é melhor se calar, mas há o que pode ser mais bem dito. Eu nunca quis conhecer Nova Iorque. E o sonho da minha filha é morar em Londres. Isso interessa?

Você fala que não tem vontade de criar um "iTheatro''. As experiências culturais ao vivo, como o teatro, estão em declínio? Quando se vai a um show de música, as pessoas não assistem mais a ele sem fotografar ou filmar. Se pudessem fazer o mesmo com as peças, ajudaria o teatro?

GERALD: Uma de minhas últimas peças foi "Kepler the dog: um cão que insultava mulheres", levada ao ar pelo "Ig". Então, isso, eu já fiz. Foi visto numa noite por mais gente do que uma peça é vista numa temporada inteira. Não culpo o público nunca. Culpo a nós mesmos por não termos tido a coragem de ter ido mais longe: ficamos nessa merda de desconstrutivismo por tempo demais. E deu no que deu. Caiu tudo. A minha geração não tem cultura, falta cultura a essa falta de cultura!

LEO LAMA: Uma pessoa faz merda e por causa disso ninguém mais deve fazer? Será que não existe uma singularidade na merda de cada um? Uma merda vista, todas foram vistas (ou cheiradas)? Sim, "Kepler the dog: um cão que insultava mulheres" a peça do Ig, (ou seria Id?) poderia ser considerada uma merda, ou não, mas por causa dessa merda tudo vira merda? Por que uma quantidade enorme de gente viu a qualidade não pode mais ser vista? Quem ficou nessa merda de desconstrutivismo afinal? Bem, quem realmente ficou muito tempo na merda foi o Derrida. Caiu tudo? Levanta sacode a poeira, da volta por cima, já diria mestre Vanzolini. A verdade é que há muitas gerações sem cultura sobre a falta de cultura, isso não é privilégio do Gerald ou da geração dele, mas eu pergunto: o que foi cultivado?

Como entrar em contato com os que se nivelam pela "culturazinha de merda'', como você diz no seu artigo? A sua geração artística não teria conseguido lidar com isso?

GERALD: Não competíamos com a internet ou a TV a cabo e o Twitter e o celular que manda text message, e isso e aquilo. Isso tudo afasta qualquer pessoa da arte. Seja a arte que for. Havia um tempo para ser dedicado à arte. Havia uma imprensa que nos apoiava aqui em NY. Hoje a imprensa que resta (o "Village Voice") virou um bando de anúncio de travestis.

LEO LAMA: É essa tecnologia toda que afasta as pessoas da arte ou é a arte que é feita que afasta as pessoas da arte? Eis o paradoxo de Tostines. A arte precisa das pessoas ou as pessoas precisam da arte? O que é arte? Eis de novo a impertinente questão.

Acha que esse nivelamento por baixo, esse esvaziamento da arte, poderia se ligar a um também esvaziamento da política? Assim como as pessoas não teriam mais paixões políticas, estariam mais cínicas também para uma discussão da cultura?

GERALD: Como assim "não têm paixões políticas"? Coloquei toda a minha energia na campanha do presidente Obama ano passado. E acho ótimo ter feito isso!!!!! Aqui, nos EUA, não há cinismo algum em relação à política, e sim, um tremendo renascimento político. Não cultural. Mas político, sim.

LEO LAMA: Sim, tais paixões e outras patologias não faltam.

Sua decisão de abandonar o teatro parece vir de um processo longo de reflexão. Mas houve algum acontecimento que tenha servido de gota d'água, de catalisador para essa sua decisão? O que foi?

GERALD: Foi há um mês, quando estive em Amsterdã pela 30 vez e vi um dos auto retratos de Rembrandt. Aquele que ele pintou aos 55 anos. Eu estou com 55 anos. Nos comunicamos através de um estranho olhar. Ele num tempo, e eu, num outro, divididos por 400 anos. Fiquei de tal forma emocionado com aquele quadro (que conheço a minha vida inteira) que dessa vez algo em mim simplesmente se quebrou.

LEO LAMA: O que disse o olhar de Rembrandt além de sua idade (seu tempo)? O que nem em 400 anos poderá se colar? (REPOUSO) Onde estão as estrelas?
Postado por Leo Lama às 2:17 AM
10 comentários:

Andréah disse...

(se Gerald Tomas não tivesse publicado este artigo... eu aplaudia de pé, pela primeira vez, diga-se, essa atitude não-artistica que por isso mesmo, tempos de hoje, é que vai sendo Artisticamente justa... É que por razões diversas, em muitos pontos, eu coaduno, mesmo concordando com o que você Leo, comenta... é que há além dos pontos divergentes, um mal estar unico... só que por ironia da trama desta-vida-conjunta, ontem mesmo, acabava de tomar contato com este trechinho que o fio da minha meada descostura lentamente...
Vê: ...“se a razão motivadora para que eu devolva a John o livro [emprestado] no tempo combinado não é minha consideração por ele, mas minha decisão de viver de acordo com o princípio geral de que promessas devem ser cumpridas, meu ato não é moral, mas moralista”.) Uma ação moral não “serve” a “propósito” algum e certamente não é guiada pela expectativa de lucro, conforto, notoriedade, reforço do ego, aplauso público ou qualquer outro tipo de autopromoção. Embora seja verdade que feitos “objetivamente bons”, isto é, proveitosos e úteis, têm sido realizados continuamente a partir do cálculo de ganhos do ator – seja obter a divina graça, comprar a estima do público ou mostrar arrependimento para ganhar a absolvição dos pecados e o perdão divino por atos insensíveis ou sem piedade em outras ocasiões –, eles não poderiam ser classificados como genuinamente morais porque foram motivados dessa forma..." (mais pra frente, o autor completa:) "Essa é uma razão crucial pela qual a demanda ética, aquela pressão “objetiva” a ser moral que emana do próprio fato de estar vivo e compartilhar o planeta com outros seres vivos, é e deve permanecer silenciosa."
... ...
... de tudo o mais que aqui eu vi e ouvi, quem gritou silenciosamente de maneira contundente foi a propria Arte, pra minha plena alegria... espelhando o que no espelho mesmo, Gerald nunca poderia ver aparente... Tomara a gente faça um coro silencioso de ações pro Teatro poder ser ouvido, sempre...
Dorim.
12:34 AM
Edu disse...

Esse Gerald Thomas é o tipo do bitoladinho de cidade grande. "Não tem mais música, não tem mais filme... buááá... buááá..."
Qualquer curva de rio tem mais novidade que toda a nossa perversão cultural.
Quem procura novidade é porque envelheceu em definitivo.
Você nem deveria tocar nesse assunto, Lama, falar de um tonto mimado desses. Nem eu. O mundo dele se resume a NY e Londres, coitado. Aí é que não dá pra ter novidade nenhuma, mesmo, nunca.
1:35 PM
E. Fields disse...

Vou aproveitar este espaço pra dizer o que penso de Geraldo Thomas:
1:42 PM
Líbio Santeleno disse...

Cena 1: Geraldinho está à toa em Amsterdão, fumando e gastando uns cobres que mamãe deixou na lata da cozinha. Vai até o museu e vê um auto-retrato de Rembrandt. Resolve se emocionar. É tão inteligente e culto se emocionar com Rembrandt ! Ele pensa: vou dizer pra todo o mundo que parei. (Ao fundo, ouve-se aquela velha canção, na linda voz de Ney Matogrosso, que diz a mesma coisa: '...eu parei...')
Cena 2: Geraldinho está impaciente, de banho tomado, fuma e anda pra lá e pra cá em seu lindo apartamento no Rio de Janeiro. Ele pensa: eu parei, eu parei, preciso dizer que parei. Vou ligar pra Sandrinha e dizer pra ela que parei. (Sandrinha sendo uma amiga jornalista d'O Globo.)
Cena 3: Sandrinha encontra o impaciente Geraldo, de 55 anos, numa lanchonete do Leblon.
- Eu parei, Sandrinha, você não está entendendo, eu parei !
- Se parou, tá parado, pra quê tocar no assunto ? Não há nada pra entender.
Ele a encara por um caco de segundo, então sente que alguma coisa se quebrou dentro dele:
- Eu não consigo.
E desata a chorar feito uma criança.
Cena 4: Geraldo acorda subitamente, naquela mesma noite, em sua cama, em seu lindo apartamento do Rio de Janeiro. Tem um único pensamento:
Olimpíada 2016 ! Da Grécia para o Rio de janeiro ! Como o teatro !
2:05 PM
Anônimo disse...

Não com cordo com a Andreah, aplaudir de pé atitude de covardia é covardia também. A vida é difícil e sempre será, a secura e a aridez está aí e vai piorar, os artistas devem ser artistas em suas expressões até o fim de suas vidas. ë obrigação de um artistas se renovar, mas antes de tudo, ser artista ë ter o que dizer, ë ter o que acrescentar, ou então, vá dirigir as olimpíadas, como sugeriu o amigo aí em cima.

Rogério
3:19 PM
Duda disse...

Gostei da reflexão do Leo, e acho que dialogar com as pessoas que querem expor suas decisões como se fossem importantes, é importante, pois esvaziar os discursos vazios é um dever do artista.Assim como enche-los. Acho que o que disse o Fields:() é no fundo o que tem-se a dizer mesmo, mas é importante mostrar que os discursos da mídia, na maioria das vezes não passam de umm amontoado de abobrinhas egóicas. Vi uma entrevista do Gerald da Maria Gabriela há uns anos atrás, o cara só fazia fazer apologia ao Rivotril. O pior é que esses discursos, não falo nem da pessoa, são como o Jason, nunca morrem. Devo concordar com o Leo quando ele diz que os jornalistas, ou o jornalismo sõa idiotas, porque parece que todas as notícias são a mesma, ou seja, é tudo notícia do mesmo vazio.

Blargh!
3:29 PM
Adriana disse...

Acho Rembrandt pintor de uma arte menor. Pode ser só opinião minha, mas vejo certas conexões entre as escolhas que fazemos e as coisas que nos emocionam. Acho essa coisa de auto-retrato uma merda. Pra que ficar se auto-retratando?
3:33 PM
Anônimo disse...

A gente se destrata demais, auto-retrato é coisa boa.
4:56 PM
Andréah disse...

(o olhar deste quadro é flecha: contundência da ironia resignada, por 400 anos! Fiquei botando reparo um tempão na força dessa expressão...)
Não aplaudi, Rogério, aplaudiria se. Não a covardia, mas a "negação" do que está posto, o não-acomodamento, a necessidade de por as barbas de molho, a fragilidade, a humildade para a reavaliação de si... e principalmente, aplaudiria a tirada da máscara de tantos anos, aquela que mais o assegurava... Não estaria assim se renovando? Aplaudiria a coragem: isso sim ... se tudo isso fosse um impulso pelo Bem do Outro... não um discurso público...
Aplaudiria não com palmas, nem com louros... Não haveria "espetáculo", entende? Atentaria: a expressão do artista nascendo perante o Outro... ! Era caso pra olhar de sorriso aliviado... Quase um brinde com o olho no olho do olho...
...
... Pra que o Rembrandt foi fazer auto retrato? (vixe Maria!) Pra acordar o Gerald Thomas! rsrs... Num tá de bom tamanho? (to brincando...)
...
2:56 AM
Priscilla disse...

Eu, artista em crise, elocubro com outros artistas acerca da falta de sentido, da busca pelo sentido, do que é sentido. Justo. Mas é como se eu, médico em crise, pensasse a medicina sem diálogo com o paciente. Que sentido há em um público que não se vê, que não tem "cultura", mas que já não sei quem é? Pra quem desejo falar? O que sua ausência quer nos dizer? Como obter respostas sem olhar para fora de mim e dos meus colegas? Objetiva e profundamente? Perdoe-me, Geraldo, mas se estamos sozinhos, encerrados em nós mesmos, continuaremos sem arte. Nós e eles.
1:18 PM

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