quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O homem que nasceu póstumo

Mário Ferreira dos Santos

“Alguns nascem póstumos...”
Nietzsche

Referindo-se à pouca compreensão de seus livros pelo leitor comum, ainda preso aos preconceitos de dois mil anos de uma educação caluniosa à vida, e dominada apenas por esquemas abstratos, Nietzsche dizia:
“Quanto ao problema da compreensão ou da incompreensão, tornar-se-á um assunto supérfluo, por estar ele muito longe ainda da atualidade.
Eu mesmo não sou um homem atual; alguns nascem póstumos.
Chegará o tempo em que surgirão institutos, nos quais se viverá e ensinará o que entendo por viver e ensinar; talvez se instalarão cátedras especiais para interpretar “Zaratustra”.
Contudo, eu estaria em flagrante contradição comigo mesmo se esperasse encontrar desde já ouvidos e mãos dispostos a acolher as minhas verdades: que hoje não me ouçam, que não se queira aceitar nada de mim, parece-me não só natural, mas até justo”.
Em outra passagem de sua obra, presumia que só muitos anos após a sua morte viriam os seus leitores. Já entramos nesse período, e só agora é Nietzsche realmente estudado de ângulos mais precisos.
Sobre três figuras da história foi escrito o maior número de obras: Cristo, Napoleão e Nietzsche. Num período de cinqüenta anos, neste século, ninguém recebeu uma literatura tão abundante. E se dá com ele o que se não dá com outros, que brilham muito, e depois são esquecidos. Nietzsche, cada dia que passa, é mais lido, mais analisado. Seus temas estão aí presentes em toda a filosofia moderna, e colocados, bem ou mal, do ângulo que ele desejou colocar.
É natural que este livro, que ora publicamos, focalize apenas alguns desses temas, pois a temática nietzscheana apresenta-os numerosos, além da complexidade da sua problemática, à espera de exegeses por parte dos estudiosos de todos os campos do saber humano.
Pode dizer-se sem receio, e o provaremos ainda no futuro, que não há tema atual geral, nem nas ciências naturais nem nas culturais, que não tenha sido por ele colocado. E sua temática exigirá, não este século, mas possivelmente dois séculos de estudos, de respostas às perguntas por ele formuladas, bem como para verificar a procedência ou não de muitas das suas soluções.
Considerava ele que uma época poderia ser medida pela sua capacidade de reconhecer os grandes homens. E não tinha dúvidas quanto à que vivia. Não admirava o homem bovino que se formava na Europa e que iria, neste século, como o foi, constituir a maior ameaça de termitismo, ou de abelhismo humanos.
Compreendia merecer “Zaratustra” interpretação após estudos acurados. Obra simbólica, de feitura alciônica, de difícil penetração pelos não-iniciados, seria um livro dos mais lidos, um livro de todos, mas também de ninguém.
Em nosso último tema, sobre a mística, procuraremos dar uma análise simbólica da obra nietzscheana e da sua mistagogia. Compreendemos que o nosso trabalho completa-se, com “Assim Falava Zaratustra”, cujas anotações sobre a simbólica, permite tornar claros muitos aspectos.
“...Entender somente umas seis frases “de “Zaratustra”, o que equivaleria a vivê-las elevaria o leitor a um grau de humanidade bem mais alto do que poderiam alcançar os homens “modernos”..., afirmava ele. A penetração no mundo dionisíaco de Zaratustra levará os homens a um “olhar goetheano de boa vontade e de amor”, aproximando-os no alto das montanhas, de onde olharão o nascer do sol com a mesma altivez das águias.
Nietzsche não procurava leitores; procurava os seus leitores.
Considerava sua obra como dinamite, e julgava-a absolutamente imprópria para a juventude, porque o seu imoralismo – e muitas vezes o afirmou – seria compreendido por ângulos diversos de os por ele desejados.
Ademais, como transmitiria a sua “verdade” a qualquer um? E antes de tudo se deve compreender que, para Nietzsche, uma verdade só o é quando é transmissível. E sabia que poucos, muito poucos, estariam naquela disposição simpática que permitiria recebê-la. Além disso, a maioria dos leitores toma uma posição feminina: gosta de ser fecundada.
Nietzsche não queria fecundar, mas apenas romper cadeias, romper elos, dissolver teias de aranha.
]...
Nietzsche, para Brandes, foi um libertário aristocrata. A dignidade do homem estava no uso da liberdade. Pode ser alguém um nietzscheano quando aliena sua personalidade a uma seita?
Que obedeçam os que não são capazes de mandar em si mesmos, mas o homem livre não pode ser apenas o reflexo de seus superiores. Para seguir Zaratustra, é preciso afastar-se dele. O verdadeiro nietzscheano afasta-se dele; conhece-o à beira do caminho, ouve as indicações que oferece, aproveita a sua experiência, mas despede-se dele para buscar a si mesmo, para encontrar-se, para interpretar o seu próprio papel.
Não foi acaso ele quem disse: “quem segue a sua própria estrada, ergue a minha imagem a uma luz mais clara”?
Devemos ser o que ele foi, sincero sempre em cada um dos “nossos” instantes, e tão sinceros que não devemos temer contradizer-nos, repelir-nos até em nossas afirmações.
“Quero andar com homens que tenham o seu próprio modelo e não o devem ver em mim. Isto me tornaria responsável pelo seu modelo e far-me-ia torná-lo escravo”. “Quero provocar sobre mim mesmo a maior desconfiança”.
“Fugi de mim, cuidai-vos de Zaratustra. É da humanidade, de um mestre pôr em guarda os próprios discípulos”.
Nietzsche foi um libertário, e Brandes foi o primeiro a compreender.
É ele um exemplo do homem livre, desse homem livre que há séculos luta contra todos os obscurantistas que se obstinam em negar-lhe a única qualidade verdadeiramente humana que possui: a de ser livre, a de poder ser livre, a de poder e dever ser livre, fiel a si mesmo, e viver plenamente a si mesmo em toda a gama de sua diversidade, contradição, fraqueza e sonho.
“Nada há em mim de um fundador de religiões. Não quero crentes; creio que sou demasiado maligno para poder crer em mim mesmo. Não falo às massas.
Tenho um horrível medo que um dia me santifiquem... “este livro (são de “Ecce Homo” estas palavras) deve esconjurar o perigo que possa advir dos excessos sobre minha pessoa”.
Não queria crentes, mas aqueles que se dizem seu seguidores querem crentes. Não era um fundador de religião, mas os fundadores de novas religiões, os divinizadores da matéria, que a tornam infinitamente criadora, e os idealistas de um autoritarismo totalitário, querem fundar novas religiões.
Não falava às massas; e eles apenas se dirigem às massas. Nietzsche não adulava os pequenos, queria o surgimento de grandes homens, e fortes.
Nos seus últimos dias, teve outra vez fé nos homens e suas palavras são de confiança e de amor. Libertar o homem da massa será a nossa maior tarefa.
Não são tais atitudes as de um verdadeiro libertador?
Os defensores da força e da brutalidade buscam uma filosofia para justificá-las. Buscaram a Nietzsche, que se prestava às interpretações favoráveis ao sentido crepuscular o nazismo. Entretanto, deve salientar-se:
Nietzsche declara que desejaria ter escrito seu livro máximo: “Vontade de Potência”, em francês. Ele mesmo usa de expressões francesas tanto quanto pode. E, além disso, ajuntava: “para que não parecesse esse livro uma confirmação de qualquer das aspirações do Reich alemão”.
“Custa caro chegar ao poder; o poder embrutece...” Isso é nietzscheano. Não se iludia com o novo deus adorado pelo homem bovino: o Estado.
“Cultura e Estado – não é possível enganar-se a si mesmo – são antagonistas”. Estado cultural “é somente uma idéia moderna. Um vive do outro; um prospera às expensas do outro. Todas as grandes épocas de cultura são épocas de decadência política: o que é grande no sentido da cultura foi impolítico, até anti-político...”
E já refutava previamente o socialismo autoritário, cujos malogros, neste século, vinham corresponder à sua crítica.
O socialismo de Estado não é um progresso humano, mas uma fórmula viciosa. O que havia de socialismo no nazismo? O Estado torna-se senhor, único, absoluto. É uma autocracia de grupo, de casta, como o é na Rússia dos senhores do feudalismo burocrático. Ele negava esse estado “nec-plus-ultra” dos socialistas, esse Estado absorvente, totalizador, criador de homens de rebanho, negador das exceções. Ninguém poderia elevar a voz de Zaratustra num Estado de opressão, de massas bovinas. A interpretação totalitária da obra nietzscheana é uma grande mentira e uma grande falsificação.
No “Tema da Guerra e do Estado”, no corpo desta obra, focalizaremos ainda outros aspectos, onde as provas se amontoarão para refutar toda essa mentira que se espalhou.
É um dos aspectos mais dolorosos da cultura verificar-se como as mentiras conseguem impor-se e perdurar por tanto tempo. Valeria a penas colecionar todas as mentiras históricas sobre o pensamento humano, repetidas nas escolas, nas universidades e nos livros, em conseqüência de muitos não se dedicarem preferentemente ao estudo dos textos do que às obras de exegese.
Ouçamos esta frase de Nietzsche:
“Em geral, a tendência do socialismo como a do nacionalismo é uma reação contra a formação do indivíduo. Eles têm suas dificuldades com o ego, com o ego semi-maduro, insensato; querem-no colocar de novo sob a campânula da ordem, da”, do super-nós do totalitarismo, diríamos.
Quem leu, compreendeu e sentiu a obra de Nietzsche sabe que toda a sua ação foi verdadeira dinamite contra os conceitos generalizadores, contra todas as concepções de totalização. Desafiou o formalismo exagerado, esgrimiu com violência contra o racionalismo, combateu as “totalidades fechadas”. A totalidade, para ele, é uma simplificação, uma sistematização da “práxis” humana. Nós universalizamos as idéias, damos-lhes um caráter total, sem que isso implique realidade, mas por ser simplesmente cômodo.
Humanidade, vontade, instinto, razão, amor, fraternidade são universalizações. Se os homens lutam sob a mesmo bandeira e se desavêm, tal se dá pela diferenciação do conceito universalizante. Dois homens falam de amor e não se entendem, e assim podem discutir e se engalfinharem por defender a liberdade. Através da obra de Nietzsche, por centenas de vezes, essas afirmações estão claras, expressivas, categóricas. O totalitarismo é, para ele, uma fórmula primária e preconceitural. Toda e qualquer tentativa que tende a totalizar representa uma afronta à dignidade do homem. O nazismo nivelava os homens pela obediência, aceitava a teoria da guerra eterna no sentido de Klauss Wagner, e afirmava a dialética rosenberguiana da “luta dos contrastes”. Ora a dialética trágica de Nietzsche fundamenta-se na “transubstancição” e na transfiguração. A luta é eterna, porque o movimento é eterno, e aceitar o equilíbrio é cair na interpretação comumente mal compreendida do pensamento hegeliano. A síntese marxista inclui a afirmação e negação da tese e da antítese. Mas Nietzsche dá um passo mais à frente e aceita a transubstanciação. A síntese não é simplesmente uma afirmação-negação dos contrários. É muito mais: é a inseparabilidade dos contrários, muito próxima às antinomias de Proudhon, da contemporaneidade antinômica, que cooperam para alcançar o que este chamava de “justiça”.
Eis o que separa profundamente a concepção dialética nietzscheana da concepção hitlerista, que se fundamenta no choque dos contrários, choque eterno, sem solução, competidor e não cooperador. É como a conservação eterna das negociações, sem aceitar a superação dessa luta, pois quer eternizá-la.
...

Esses dois mil anos de calúnia contra a vida, deram-nos um homem postergado, preterido às coisas, além da valorização dos números e das abstrações que aumentam, sobretudo, no campo dos que se julgam os mais realistas, os mais objetivos, como se a objetivação não fosse já uma abstração. Esgrimia Nietzsche suas armas contra todas as falsificações, todas as mentiras. Sabia ele que era contemporâneo de um dos momentos mais tristes da história, porque poucas vezes o homem caíra tão baixo.
“... Vós, cavaleiros da Triste Figura, fabricadores e vendedores de teias de aranha espirituais, vós sabeis muito bem que não importa se tenhais ou não razão; sabeis que nenhum filósofo, com o decorrer do tempo, tem razão; que há muito maior verdade nos pontos interrogativos que pondes atrás de vossas palavras e frases favoritas (e se vem ao caso, também atrás de vós mesmos), que em todo o esplendor solene com que vos revestis entre os acusadores e os tribunais...”
Não está ainda muito da filosofia jungido aos preconceitos de um passado que não é todo o passado, mas apenas um dos seus aspectos preferentemente atualizados? Não prefirimos conservar o que havia de falso, de frágil, de mentiroso na filosofia e rejeitar o que havia de criador, e construir toda uma “teia de aranha” metafísica na qual se aprisionaram até os seus próprios criadores? Um mundo de conceitos, de estandartizações pensamentais de um logicismo anti-vital, acósmico, permitiu a construção de toda uma ciência que se dava na vida, mas continuava lutando contra a vida.
Criamos um passaporte para toda a superficialidade e “sobre as bases sólidas e incomovíveis da ignorância, pode-se fundar até o dia de hoje a ciência; pode-se fundar a vontade de saber sobre a base de uma vontade muito mais poderosa, a vontade de não saber, de incerteza, da mentira. E não como um oposto, mas como uma feição e um requintamento...”
E essa hipocrisia penetrou até o sangue. “De quando em quando nos inteiramos disso, e rimo-nos em nosso interior ao pensar que o melhor de nossas ciências trata de entreter-nos neste mundo simplificado. Inteiramente artificial, alterado e falseado conscientemente...”
Julgamos ser o menos hábil o processo de analisar Nietzsche sob os esquemas do pensamento racionalismo. Sabemos também que muitos desejariam que assim o fizéssemos. Mas prender Nietzsche dentro de esquemas seria negá-lo e não dar a vivência de seu produzir-se flamejante e contraditório. Seu pensamento livre e fragmentário, indisciplinado para os categóricos defensores de um esquematismo a outrance, levou-o à incompreensão dos seus contemporâneos. Foi por isso que só se tornou conhecido graças aos espíritos livres, em cujo pensamento pressentiram aquela pujança da liberdade e o compreenderam como um afim. Foi Brandes, o grande crítico do século XIX, o amigo de Ibsen e Strindeberg que levou o nome de Nietzsche ao mundo. Era difícil compreender a liberdade que se respirava em suas páginas, quando o homem bovino unia suas forças para ameaçar a cultura e destruí-la.
Sincero demais, convicto de seu valor, e do que era, teve a petulância de dizer o que pensava de si mesmo. Proclamou-se gênio. Que crime extraordinário o de quem se proclama aberta e publicamente que é uma exceção. Todos os que se julgam gênios, e proclamam a si mesmos, sem a audácia de o fazer de viva voz, revoltaram-se contra Nietzsche, num gesto que o psicanalista logo classificaria de auto-punição.
A loucura posterior, que o acometeu, vinha ajudar a argumentação de todos os energúmenos que o combateram. Ao ver um bruto martirizar um pobre animal de carga, num gesto de revolta, defende-o e escorraça o agressor a chicotadas. Depois, em lágrimas, abraça-se ao pobre animal, exclamando, “meu irmão, meu pobre irmão!”. Esse gesto franciscano provocou risos, gargalhadas de homens “equilibrados e sãos”.
E depois sereno, com um rosto onde se expressava a bondade, ele viveu o resto de sua vida entregue à música e ao silêncio. Nesse período, tudo quanto escreveu mostrava incoerência, desordem racional. Perdera a razão... Por acaso não foi o que tanto desejara? Não era sempre o seu desejo libertar-se da rigidez dos esquemas abstratos? Lembra-nos um homem religioso que acusava a Nietzsche da sua loucura e esquecia a loucura de tantos santos e de tanto crentes. É que o ataque endereçado ao Cristianismo não fora compreendido pelos que se dizem cristãos.
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Como a obra de Nietzsche é alciônica e sempre escrita num tom de voz mais alto, é natural que os homens da planície, amantes da monotonia ruidosa dos “sapos”, repilam as suas exclamações.
“Não existem livros mais soberbos e ao mesmo tempo tão requintados quanto aos meus: alcançam eles, aqui e acolá, ao ponto mais alto a que se possa chegar: ao cinismo; - é necessário, por isso, conquistá-los com dedos delicadíssimos e ao tempo com pulsos valorosos...” São frases como essas que fundamentam a acusação da megalomania nietzscheana.
“... Possuo, em suma, a mais completa arte do estilo que jamais homem algum possuiu.”
“... A arte do grande ritmo, do grande estilo na confecção dos períodos, para exprimir num enorme “crescendo” e “diminuendo” de paixão sublime, sobre-humana, foi descoberta unicamente por mim; como um ditirambo, como é o último do terceiro livro de Zaratustra, aquele que se intitula “Os sete selos”, eu ascendi mil milhas acima do que até então se chamava poesia”.
Atingindo seu desejo dionisíaco de alienação do racional, fugindo a todas as regras que até então a modéstia estabelecera para as relações entre os homens, ele realizou-se plenamente nesse livro. Foi o livro de um homem que já conhecera o caminho que levaria ao super-homem. Falou de si com a ingenuidade e com o cinismo que ele sempre considerara como imprescindíveis a toda obra superior. Esse livro, mais que qualquer outro, representa a mais sincera, leal e nobre confissão de que alguém fez de si mesmo.
Nietzsche sempre foi um solitário. Vivia ausente dos outros homens. A sua humanidade não consistia em simpatizar com os homens, mas em suportar a sua proximidade... “A minha humanidade é uma contínua vitória sobre mim mesmo”. Acusam-no por isso. Sua ausência, esse desejo de solidão, o homem de rebanho não perdoa, porque não compreende. O homem do rebanho precisa do rebanho.
A megalomania é comum a homens superiores. Schopenhauer também se julgava um gênio, quando ainda se lhe fazia o cerco do silêncio. Goethe, Kant, Napoleão, Epicuro, Alexandre, Aristarco de Samos... a história está cheia desses homens que jamais usaram da falsa modéstia.
A megalomania nietzscheana tem servido de repasto aos paleólogos desherdados. É fácil buscar-se na sua obra, sobretudo em “Ecce Homo”, sintomas de loucura.
A obra de um autor vive por si mesma e independe (quanto à apreciação) das circunstâncias que geraram. A loucura é sempre um estigma para os medíocres, e o gênio está sempre nessa faixa que precede à loucura. Pelo menos conhece essa fronteira, e viceja sempre nesse estreito lugar, mas o gênio liberta-se pela criação. A megalomania de Nietzsche seria intolerável se ele não merecesse nenhum daqueles títulos. Um superficial que se julgasse gênio mereceria sorrisos, mas um gênio, que tem consciência de sua genialidade, merece respeito.
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A finalidade de sua obra é a luta contra toda espécie de fariseísmo, de saduceísmo e de filisteísmo. Luta pela vitória da natureza contra todas as forças que se impuseram para desmerecê-la. Luta pela valorização dos nossos instinto caluniados por certos predicadores da moral; luta contra a hipocrisia. Analisando a moral, mostra toda a sua etiologia, e põe de manifesto a auto-sugestão exercida pelas nossas próprias paixões na consciência, e o perturbador influxo exercido no espírito pelo vírus fatal da má consciência, esse envenenamento milenário, esse pessimismo moral, que corrompeu as fontes da vida.
Filólogo, estudou a influência das palavras na metafísica. O homem acreditou que dando um nome às coisas havia determinado a sua essência, e pensando haver realizado uma ciência mais elevada dos seres, nada mais fez que um sistema convencional de termos. E assim acabou por definir a metafísica como “a ciência dos erros humanos, elevados à categoria de verdades fundamentais”. E tinha razão quanto à forma viciosa que a metafísica acabara assumindo na filosofia moderna.
Nietzsche estabeleceu um critério, uma orientação na filosofia, procurando libertá-la do antropomorfismo, que fala mais aos apetites e interesses que à verdadeira e desinteressada sede de verdade, de que tanto o homem afirma possuir.
O alcance dessa deshumanização é “dissipar as sombras que o homem projetou ao redor de si por efeito de suas paixões, de seus sentimentos, de sua sensibilidade”.
Por essas paixões, por esses sentimentos e por essa sensibilidade, o homem carregou-se de cadeias. Formou algemas, criou limites para sua visão, estreitou horizontes, aprisionando-se na planície de um falso objetivismo.
Nietzsche combate ferozmente esse homem objetivo, que ele situa incarnado historicamente em Sócrates, esse homem objetivo que procura, que luta “para tornar o mundo auxiliado pelos teólogos, pelos moralistas e pelos metafísicos, numa imensa escola, num laboratório ou num cárcere”.
E nesse momento de limitação para a ciência, quando assistimos que para ela se estabelece uma nova fronteira, uma fronteira mais séria que todas as que já se estabeleceram, a opinião de Nietzsche avulta de valor, quando nega a essa ciência a possibilidade de explicar o sentido da vida. Não aceita na objetividade, e sim na união das duas metades do homem: a objetiva e a subjetiva.
Essa última vive oculta, silenciada pelas imposições morais do ambiente, pelas cadeias que os homens construíram para ela. Sem a união dessas duas metades não teremos o homem integral, a totalidade do indivíduo. Toda a história humana, para ele, não tem sido mais que a luta dessa outra metade pela sua libertação, para se impor, conquistando os campos que os deuses interditaram.
“O homem tem disputado palmo a palmo aos deuses a posse do mundo e quer agora ser dono do seu destino”.
“A ciência nunca passará de nos proporcionar uma cultura dos meios e não dos fins. E com isso fica afastado o erro dos que acreditam que a filosofia nasceu da ciência e terá, afinal, de converter-se e reduzir-se à ciência”.
“... as culturas se explicam, em grande parte, pelo sentimento que ilumina ou obscurece sua vida, e se transformam pelas grandes metamorfoses desse mesmo sentimento”.
Não é isso Spengler?
Para ele o conceito de cultura compreende fatos espirituais, subjetivos, dos quais a ciência é uma pequena parte, uma disciplina intelectual, para fins práticos, a qual não absorve de maneira alguma a atividade intelectual e subjetiva do homem.
“A cultura é a plenitude da vida espiritual coletiva. A autoridade não basta para lograr esta unidade; impõe-se um pensamento latente, a ação radiante de uma vida interior, à qual ajustamos nossos passos, pela qual estão condicionadas as nossas instituições”.
E quanto à arte, é pela exaltação, pela arte como potencialização do homem, quando diz que ela não pode pretender encerrar em seus quadros o conteúdo total de uma cultura.
Apesar do “seu caráter sintético”, a arte se alimenta de estados contemplativos, desinteressados, estados esses que depuram, que selecionam, e que raramente debilitam a vida. Em regra geral ela é uma potencialização da vida, é uma interpretação, um tom de voz mais alto nesses estados contemplativos, quer objetiva, quer subjetivamente.
A unidade do mundo objetivo e subjetivo não existe na natureza, onde ele não aceita a causação unívoca do ponto de vista científico, mas no sentido do proto-fenômeno de Goethe, e de Spengler. Além disso, a unificação da vida é um ato pessoal, subjetivo. É o homem que unifica o disperso, é o homem que faz a ciência, a arte, a filosofia. Por isso, na natureza, há estética, mas só no homem há arte, porque esta é criação do homem, que vê com olhos mais profundos as coisas do mundo ou as ouve com um ouvido mais apurado. Só essa interpretação é capaz de elevar o homem além da própria humanidade. Só essa maneira de perceber as coisas do mundo, com olhos mais vivos e ouvidos mais subtis, onde exista uma hipertensão, uma hiperestesia, é capaz de elevar o homem acima da sua pequenez. É a arte, não mais com a égide e o destino infeliz, que lhe querem marcar as escolas modernas de simples arte pela arte, sem outra finalidade, mas como um fim mais elevado, como força, como criadora de potencialidades, como progresso afetivo, como meio de exarcebação de impulsos naturais, como magia e como mística.
A ciência faz-nos pesados, como ele diz, faz-nos limitados, estreitos; é a morte subjetiva do homem, pelo limite, pelo contorno. Na nova cultura ecumênica, que vem de um longo filete na história, e que se atualiza aos poucos, teremos a formação de filosofias mais livres, mais criadoras, livres de proselitismo. A libertação do homem será conquistada pela superação, de si mesmo. A nova cultura revelará o homem impondo-se à natureza, como intérprete e como reformador. É o homem dando cores onde elas existem parcas e esmaecidas, é o homem emprestando sons onde eles não se ouvem mais, criando e fugindo à objetividade unilateral, conquistando o mundo e construindo dentro de si uma nova imagem.
Difícil a caminhada dessa cultura; difícil e trágica. A visão concreta atualizando os contrários, para vivê-los e superá-los, é superior às forças de muitos, que entre os extremos não aspiram aos extremos para vencê-los, mas desejam o meio termo que lhes dê a passividade pastoril das longas e mansas planícies, levemente perturbada em sua tranqüilidade por alguma brisa suave e temerosa de vergar demais as hastes finas dos arbustos que mal emergem à flor da terra.
Amar este mundo, salvá-lo para salvar-se, este será o lema desse homem que há de vir: o novo Prometeu libertado.
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“O Homem que Nasceu póstumo” surgiu de uma série de pedidos que recebermos para apresentarmos a obra nietzscheana, juntando os aspectos contraditórios dos seus temas, e ficando as “predominantes”, a fim de permitir uma melhor inteligência. Desde logo se vê que seria impossível abordar todos os temas. Por isso escolhemos alguns, precisamente aqueles que têm oferecido maior problemática e mais polêmicas. No futuro, se tivermos a apoiar-nos a boa vontade leitor, continuaremos nossa já iniciada em “O homem que foi um campo de batalha”, que publicamos como prólogo da tradução de “Vontade de Potência”, editada pela Livraria do Globo.
Quanto àquela tradução, fundamo-nos na obra publicada por Elisabeth Foerster Nietzsche. Esperamos, no futuro, poder dar uma tradução do texto aumentado pelo “Nietzsches-Archiv”, mas acrescentado de novas notas esclarecedoras.
Aproveitamos aqui o momento para agradecer à crítica brasileira e à estrangeira que recebeu com aplausos o nosso trabalho. Apenas desejaríamos fazer uma simples anotação a alguns críticos que julgaram demasiado o número de nossas notas. Entretanto, se estivessem eles a par das inúmeras cartas que recebemos, das inúmeras perguntas que nos foram dirigidas, saberiam que aquelas notas eram ainda parcas, porque muitos aspectos da obra não são de fácil compreensão. Numa edição completa desse livro, teremos oportunidade de acrescentar ainda mais notas que corresponderão às dúvidas surgidas, e que nos foram endereçadas.
Neste livro, “O Homem que Nasceu Póstumo”, usamos uma técnica diferente. Levando em parte o terreno da ficção, fizemos Nietzasche falar sobre sua filosofia. Aproveitamos as suas idéias, muitas das suas frases para tornar inteligíveis aqueles temas mais difíceis. Basta que se lei a interpretação que se fez de sua obra, e até por grandes nomes do pensamento universal, para que se compreenda que, ao procedermos como o fizemos, nos colocamos na maneira mais acessível para a boa compreensão da mesma. Nietzsche nunca usaria o nosso método. Sua obra é fragmentária, e ele gostava de permanecer no fragmentário e entre seus símbolos, Se procuramos tornar seus temas mais claros, mais acessíveis, não se entenda por uma “vulgarização” que ofenderia ao próprio Nietzsche, pois sempre respeitamos a sua dureza, a sua implacabilidade e fidelidade de seu pensamento. Apenas suavizamos essa dureza, tanto quanto nos foi possível, no intuito de permitir que seus temas pudessem ser apresentados coordenadamente, já conciliados através das suas contradições.
Dessa forma, respondemos com antecedência à acusação fácil que nos fariam os que não compreendem que Nietzsche, para ser lido, exige esse trabalho de exegese e de ordem, sob pena de sua obra oferecer mais perigos que vantagens.
Desde que se considere que o fragmentário de sua filosofia tinha mais profundas raízes em sua constituição psicológica, compreender-se-á facilmente porque o reduzimos a uma ordem, que não é propriamente a sua, mas que em nada nega o seu pensamento, nem atenta à fidelidade.
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Atravessamos um momento crucial de nossa cultura, e estamos às portas de uma das maiores ameaças sobre a humanidade.
Colocamo-nos entre aqueles que se convenceram que o momento atual de nivelação, de especulação na baixa exige homens da montanha, que lutem por uma elevação humana, por maior dignidade.
E é dirigindo os olhos para a obra do grande solitário do século dezenove, e o anunciador alciônico de uma das maiores possibilidades humanas para o século em que vivemos, que julgamos encontrar os sinais de uma nova aurora que há de luzir, uma aurora cheia de promessas, mas uma aurora também terrível, porque ela anuncia uma imprescriptibilidade: ou segui-la ou perder-se na planície; ou ultrapassar o homem, ou abismar-se no insetismo que nos ameaça; ou caminhar pelo caminho das exceções super-humanas ou achatarmo-nos na regra de uma sub-humanidade que preferiu recuar, por não ter o brio necessário de forjar, com a sua vontade, o seu próprio destino.
Mário Ferreira dos Santos

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