sábado, 28 de janeiro de 2012

Presidenta, quero os haitianos, não Yoani

Presidenta Dilma, quero visto para os imigrantes haitianos, não para a aliada da Veja e de Reinaldo Azevedo Yoani Sanchéz.

No blog da Yoani tem linque para a Veja e tem um nick chamado Dirceu que, se não é o Reinaldo Azevedo, é alguém que usa o mesmo vocabulário: "esquerdopata", "che guevara porco fedorento assassino", etc.

Quando denunciei isso em meu antigo blog Penetrália e no blog de Yoani, muitos petistas passaram a protestar lá e Yoani, para se defender, fingiu ter sido agredida por partidários de Fidel. Ela tem acesso à web, não é censurada, os cubanos a leem, sim. Só que lá ela não é uma escritora famosa, não tem carreira consolidada, é alguém que apareceu turbinada pelo apoio da mídia ocidental. O seu marido, Reinaldo, está juntamente com ela e seu grupo (afinal, só pode ser um grupo que a apoia, o blog é traduzido em vários idiomas).


É esse pessoal que Eduardo Suplicy e Jaime Pinsky defendem, inspirados, quem sabe, na ideia trotsca de liquidar o socialismo na periferia para fazer florescer o verdadeiro socialismo (sabe lá onde). Yoani virá a propósito do lançamento de um filme que se chama Conexão Cuba-Honduras. Ou melhor, para detratar os acertos da política internacional do governo Lula, comparando o golpista micheletti e Fidel. Ou seja, ela vem difamar a política de Lula.

Diretor Dado Bobalhão, Yoani NÃO repudiou o golpe em Honduras! Eu acompanho o blog dela! Yoani não se manifesta contra o bloqueio norte-americano. Segundo o wikileaks, Yoani está a serviço da embaixada norte-americana.


Eu quero é que entrem no Brasil os imigrantes haitianos, não Yoani. Temos responsabilidade com o Haiti, temos uma missão lá. Se um cubano apoiador de Fidel denunciar o horror dos presídios brasileiros, os brasileiros vão aceitar essa intromissão? E se Ahmadinejad denunciasse a violência contra a mulher no Brasil? Será que no Irã homens matam mulheres tranquilamente como aqui no Brasil, ou batem e aleijam? Com certeza, não. E se Fidel vier se encontrar com dirigentes do PCB? Imaginem a grita dessa imprensa!

Aliás, os parentes dos nossos onze soldados mortos no terremoto já receberam indenização? Porque eu soube que as famílias estavam aguardando há meses sem um centavo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

solidariedade com pinheirinho

Uma denúncia grave, que é mais um retrato da lamentável postura da Prefeitura de São José dos Campos (comandada por Eduardo Cury, do PSDB) na questão do Pinheirinho.

Tratores da Urbam (Urbanizadora Municipal), empresa da Prefeitura de São José dos Campos, estão sendo utilizados para derrubar as casas no Pinheirinho, medida que deveria ser realizada e paga por quem reivindica a área, ou seja, a massa falida da Selecta, de Naji Nahas. Essa determinação consta na própria determinação judicial.

Com a medida, a Prefeitura utiliza recursos públicos para atender a interesses privados. Aliás, conduta do governo municipal utilizada há tempos na questão Pinheirinho.

Para o advogado do movimento, Antonio Donizete Ferreira, a Prefeitura, além de atuar em favor de Naji Nahas, desrespeita a própria Constituição Brasileira, em seu artigo 37.

O movimento deve contestar mais esta ação ilegal da Prefeitura de Eduardo Cury.

Não custa lembrar: antes da reintegração, a costura do acordo entre os governos federal e estadual previa que a Prefeitura não precisaria colocar nenhum centavo para regularizar o Pinheirinho, mas agora gasta muito dinheiro público para beneficiar Naji Nahas e para manter uma política fascista que oferece passagens rodoviárias a pessoas que "queiram voltar às cidades de origem".



http://solidariedadepinheirinho.blogspot.com/

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=NBjjtc9BXXY

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ghiraldelli, o Ron Jeremy da Filosofia Brasileira



O divulgador colonizado de filosofia norte-americana Paulo Ghiraldelli escreveu um artigo em seu site que, coincidentemente, aproveita o filme O Leitor para falar do BBB, tal que eu fiz no artigo A Vida Alheia: E se Adorno tivesse um celular? Ao contrário de mim, no entanto, Pombaghiradelli aproveita para defender o BBB de quem o critica. Em suma, ele diz que quem critica o BBB é um imaturo, ainda que tenha idade, ficou na fase anal, etc. Eu penso que é totalmente autobiográfica essa análise. Pragmático, quem sabe relativize o BBB como relativiza a pedofilia. O que acontece com Ghiradelli foi claramente explicado por Olavo de Carvalho a propósito de Nietzsche, mas que serve mesmo é para Olavo e Ghiradelli e não para Nietzsche:

Do fenômeno que denomino paralaxe conceitual -- o deslocamento entre o eixo da concepção teórica e o da perspectiva existencial concreta do pensador --, os exemplos são tantos, nos últimos séculos, que não me parece exagerado ver nele o traço mais geral e permanente do pensamento moderno. As idéias tornam-se aí a racionalização ficcional com que um intelectual se esforça para camuflar, legitimar ou mesmo impor como lei universal sua inaptidão de se conhecer, de arcar com suas responsabilidades morais, de se posicionar como homem perante a vida. Nas culturas européias ou mesmo nos EUA, esse impacto alienante é amortecido pela barreira residual da tradição cristã e clássica. Mas, num país como o Brasil, psicologicamente indefeso entre os muros de geléia de uma cultura verbosa e superficial, qualquer autor que faça algum barulho no mundo [da mídia] adquire as dimensões de uma potência demiúrgica, cultuada com temor reverencial. Suas mais gritantes fragilidades passam despercebidas, e qualquer tentativa de apontá-las é condenada como pretensão megalômana ou insolência blasfema.

É portanto isso que fazem Ghiradelli e Olavo: barulho no mundo da mídia, o que os alça a um status de potência demiúrgica. Exibicionista como um Ron Jeremy da filosofia no Brasil, é claro que Ghiradelli gosta do BBB e é de direita, ou seja, do partido das organizações Globo. Ele há anos faz evasão de privacidade na web, tal qual fazem as celebridades como Paris Hilton.
Ghiraldelli, sem nenhum respeito ou interesse pela tradição brasileira ou por filósofos brasileiros tais como Álvaro Vieira Pinto, Vicente Carvalho e Silva, Mário Vieira de Mello e Mário Vieira dos Santos, provavelmente tem em sua casa um altar para Richard Rorty. Como Ghiradelli, os Rorty são patriotas norte-americanos. O Rorty pai lutou bravamente como intelectual a favor da Guerra Fria. O filho conta que cresceu entre os livros, especialmente os da Comissão Dewey, olhando sempre para elas como símbolo máximo da justiça e da verdade. Ghiraldelli também reverencia John Dewey.
Morri de rir quando li isso! Pobrezinho! A Comissão Dewey foi uma comissão composta por admiradores de Trotsky. No entanto, Trotsky mentiu para ela. Como mostra um artigo recente de Sven Eric Holmstrom, Trotsky encontrou-se com Leon Sedov na Dinamarca. Na época, alegaram que o Hotel Bristol, onde eles teriam se encontrado, tinha fechado as portas muitos anos antes. No entanto, Holmstrom mostra, num artigo que linquei abaixo (em inglês) com ilustrações e farta documentação, que o hotel tinha acabado, mas existia uma placa escrito Bristol e dois estabelecimentos logo abaixo. Assim, os dois se encontraram nesse local, ou seja, Trotsky fez contato, através do filho, com o bloco dos zinovievistas-trotsquistas.
Pobre Rorty, que sorte que não viveu não a ver isso! A referência de justiça e verdade de sua infância, uma mentira! Isto posto, o que será referência de justiça e verdade para Ghiradelli? Tomara que não seja o BBB!


Aqui está o artigo de Holmstrom:

http://marxism.halkcephesi.net/trotskyism/Holmstrom%20hotel%20bristol%20affair.pdf

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Heidegger, Trakl & Klee






Sétimo canto da morte

Georg Trakl


A primavera entardece azulada, sendo sugada entre as árvores

A forma escura da noite se insinua no meio do entardecer declinante,

Ouvindo o lamento leve de um pássaro negro.

Silenciosamente a noite aparece, um cervo sangrando,

Que lentamente afunda na colina.

No ar úmido ramos de macieira balançam

Formas labirínticas se soltam prateadas

Morrendo longe dos olhos noturnos; estrelas cadentes;

Música suave da infância.

O dorminhoco desceu a floresta negra como uma aparição,

E uma primavera azul murmurou a partir do solo,

De modo que o outro calmamente levantou as pálpebras pálidas

Sobre o seu rosto de neve;

E a lua perseguiu um animal vermelho

Desde sua caverna;

E em suspiros o lamento escuro das mulheres morreu.

O estranho branco levantou as mãos mais radiantes

Em direção à sua estrela;

Silenciosamente uma forma morta sai da casa deteriorada.

Ó apodrecida figura de homem: formada a partir de frios metais,

Noite e terror das florestas

Mistura no mesmo fundo

O deserto chamuscado de animal;

E o vento calmo da alma.

Em um barco negro o outro desceu rios brilhantes,

Cheio de estrelas roxas, e os ramos verdejantes

Afundaram pacificamente sobre ele,

Saltitando das nuvens de prata.




O filósofo Martin Heidegger considerava o poema de Trakl e os quadros de Klee acima "além de sua compreensão". Os quadros são: Morte e Fogo; Santa Através de um Vitral, de Paul Klee.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Nietzsche, genealogia e História

Para o Historiador Nietzschiano, História é Genealogia


Nesse texto, discuto o texto de Foucault Nietzsche, Genealogia e História. Nesse texto que é o único em que Foucault discute Nietzsche diretamente, ele analisa que Nietzsche fala em genealogia para se contrapor ao livro do amigo, o médico e filósofo Paul Rée (A Origem das Sensações Morais), que fala em origem. Nietzsche oporia a genealogia mítica à origem metafísica e ao “desenvolvimento” hegeliano. O artigo também faz uma análise filológica de alguns termos usados por Nietzsche: proveniência (herkunft), origem (ursprung) e desenvolvimento (entwicklung). Foucault substituiu essa última pelo termo “emergência” ou “surgimento”, para marcar uma diferenciação com a história supostamente contínua que seria inspirada por Hegel. Ele não cita Marx, apenas se opõe à história-antiguidade, a história de nomes e datas de grandes eventos. A idéia é fazer uma história demagógica num certo sentido, uma história para o povo e saída do povo.

Em seu livro, Origens das Sensações Morais, Paul Rée teoriza que os conceitos de “bem” e “mal” têm sentido nas comunidades. A comunidade criou esses conceitos porque os que mais contribuíssem para a comunidade seriam assim chamados bons e os que não contribuíssem seriam os maus. Os termos foram pensados em termos de utilidade, condicionamento e evolução. As comunidades que mais conseguissem organizar o impulso coletivo contra o impulso egoísta seriam selecionadas e sobreviveriam. Nietzsche diverge totalmente e analisa bem e mal em termos de relações de poder, opondo-se a Paul Rée. Paul Rée também criticou Nietzsche e em cartas exibiu o seu conceito de Nietzsche: uma pessoa vaidosa, egoísta, que corria atrás da fama. Para ele, o melhor seria ser desinteressado, não-egoísta.
A genealogia é uma outra proposta de escrever história que Foucault está fazendo – e de fato ele fez trabalhos nesse sentido. Essa história efetiva seria descontínua. Mas essa história não busca a origem, para ele na origem tudo era o caos, era informe e confuso. Foucault pesquisa história para abalar o presente, para questionar a origem e dissolver a identidade do sujeito de conhecimento.

O genealogista teria também vontade de saber sobre a vontade de saber? Pode-se argumentar com Nietzsche e Foucault que nossa vontade de verdade e saber é determinada pelo nosso desejo de sobrevivência. Se soubermos a verdade, sobreviveremos. No entender dele, pesquisa-se história não para reforçar o presente, mas para descobrir que toda história é luta, é jogo de forças, mas ele não se prende ao referencial “classe social” e sim ao indivíduo, ao corpo, à mente (loucura), à história dos hospícios, hospitais, da sexualidade, etc. Não há um começo, apenas se pode verificar que existe um começo dentre os vários começos que existem.

O conceito de emergência ou de surgimento, usado para substituir o termo “desenvolvimento” (entwicklung) seria um determinado estado das forças. Analisando a proveniência, pode-se mostrar seu jogo, assim como a maneira como lutam as forças umas com as outras. Para Foucault, a relação de dominação não é mais de dominação, nem o lugar onde ela se exercer é um lugar. Existe um jogo da dominação. A genealogia é a história das morais, o jogo da história a investigar.
O corpo, nessa visão, não escapa à história. Ele opõe uma história diferente da tradicional e essa é uma história que não reconhece origem. O corpo não tem um eu e sim uma miríade de “eus”, de acontecimentos perdidos.

Diante das épocas nobres e elevadas, essa história busca uma perspectiva de rã. A história, assim pensada, adota um saber perspectivo. O historiador dessa nova história, que ele chama de história efetiva, não terá tanta preocupação com a objetividade, mas criticar o universal. O europeu, dessa perspectiva, é um homem mestiço, um homem de muitas almas. Nietzsche extrapola nesse ponto em Para Além do Bem e do Mal e Foucault não chega a criticar os aforismas onde Nietzsche escreve, bem ao gosto do século XIX, que o homem mestiço é “débil”. Isso ao meu ver é o ponto mais fraco e defasado desse texto de Foucault.

O historiador nietzschiano ou genealogista seria anti-platônico, mas faria uso da história para a vida, diferente do que Nietzsche mesmo afirmou em determinada altura. Seria mais uma palhaçada da história feita por bobos de Deus do que uma história-antiguidade.

A genealogia da história retomaria máscaras, fazendo a dissociação sistemática da individualidade. A identidade, para o historiador genealogista da história, ou seja, o historiador nietzschiano, identidade é uma máscara dentre várias máscaras, é uma paródia, uma disputa entre forças, também chamadas de inúmeras almas. Identidade não existe: existiriam identidades.

Para Foucault, o historiador nietzschiano, o conhecimento nasce da injustiça e o instinto de conhecimento é tido como mal. Ele opõe o querer-saber e a verdade universal. A paixão do conhecimento talvez mate a humanidade ou ela morrerá de fraqueza, essa é a oposição que ele coloca sobre o destino da humanidade. No entanto, o querer-saber nasce justamente do desejo da sobrevivência e da vontade de viver do ser humano.

Foucault mesmo observa que Nietzsche, com a investigação de Genealogia da Moral e Gaia Ciência, faz um uso da história que ele mesmo tinha criticado e não recomendado em Considerações Extemporâneas. Ele (e o historiador nietzschiano, nesse caso, vai contra Nietzsche) retoma as modalidades da história e seus usos. Assim, a vontade de saber só ela se ela colocar a si mesmo como problemática, assim como ela só faz sentido para esse historiador se ela dissolver continuidades, fizer dissociações sistemáticas e destruir o sujeito do conhecimento. Para ele, história é genealogia das morais, é história das forças em luta.

Efeitos Especiais de Georg Lukács

Artigo sobre Lukács que causou urticária nos lukacsianos:



http://comunidadestalin.blogspot.com/2012/01/efeitos-especiais-de-georg-lukacs.html

domingo, 15 de janeiro de 2012

O riso da mulher de Trácia

O livro O Riso da Mulher de Trácia, publicado na Alemanha em 1987, permanece até hoje inédito no Brasil, assim como Hans Blumenberg (1920-1996), seu autor, permanece pouco conhecido em nosso País. Blumenberg destacou-se pelo estudo das metáforas e da recepção.
No texto O Riso da Mulher de Trácia, Blumenberg investiga a recepção da imagem da queda de Tales num poço, seguida pelo riso da mulher logo ali perto. A mulher representa o senso comum. Essa piada tornou-se o símbolo do nascimento da divisão entre o mundo da teoria e o mundo da vida, entre a filosofia e o senso comum e os conflitos que daí decorrem. Blumenberg, embora estudando essa imagem um tanto quanto vaga, faz uma investigação séria, mobilizando sua erudição em latim e grego e seus conhecimentos sobre a antiguidade, conseguindo encontrar ecos dela de Platão até Heidegger. Aristóteles contou história em sentido contrário, narrando que Tales fez a previsão de uma grande colheita, alugou prensas de azeitonas e ficou rico. No entanto, como acreditar, se até hoje a pesquisa sobre o clima e sobre o ano produtivo é incerta?
O fundamento da pesquisa de Blumenberg é a seguinte teoria: ocorreu uma apropriação de uma fábula de Esopo que tratava de um astrólogo anônimo que, investigando o céu, caiu num poço. Platão e colocou Tales como personagem dela. E Platão o teria feito tendo em vista Sócrates, que também chegou a ser objeto de riso da população, ao ser colocado na peça As Nuvens, de Aristófanes –e em outras ocasiões. O infortúnio de Tales prenunciava o destino trágico de Sócrates: do riso da mulher de Trácia até a ira contra Sócrates, estaria ali uma história primordial da filosofia e da teoria em geral, destinada a se repetir ainda inúmeras vezes.
Como de Tales pouco se sabe, a piada a seu respeito acabou sendo uma metáfora rica de interpretações e recepções da recepção: ela representa o início da filosofia e é importante porque a filosofia já pensa sobre seu fim, e seu fim será, com certeza, pensado a partir de seu início. A Física, ao fazer experiências como o colisor de hádrons, parece também ter chegado ao mesmo ponto de chegada da filosofia: o mais misterioso é o mais próximo de nós e o infinitamente grande se liga com o infinitamente pequeno.
Para além do mero clichê do filósofo distraído, para Blumenberg o mito não se separa da teoria. A geração seguinte, a epicurista, deu razão à Trácia, que aliás é de uma região famosa por seu pessimismo. Dizia-se que os trácios choravam quando do nascimento de uma criança. Alguns historiadores da filosofia viram no esforço de Tales um avanço arriscado no sentido de investigar o sagrado e o inefável. No tempo do Iluminismo, Kant voltou ao assunto a propósito do terremoto de Lisboa: era importante conhecer o interior da terra. Blumenberg chega a especular se o argumento de Crítica da Razão Pura não estaria aí. Kant também associou o episódio da queda de Tales e a mulher de Trácia ao episódio em que o cocheiro do astrônomo Tycho Brahe criticou-o por sua experiência de tentar encontrar o caminho para a sua carruagem orientando-se pelas estrelas.
No tempo do Iluminismo surgiu também, no livro Ética para os Jovens, de Samuel Richardson, uma versão que colocava Tales no papel de um astrólogo que, de tanto investigar e prever o que acontecia nos céus, chegou um dia em casa e encontrou a mulher com outro, não reconhecendo nas estrelas o seu próprio infortúnio conjugal. O historiador Eduardo Gans, no século XIX, contemporâneo de Feuerbach, chega a supor que Tales caiu dentro de uma fonte e não de um poço. A fonte estava cheia de água, que para Tales era “a base de todas as coisas”.
As diversas recepções se sucedem na história da filosofia. Nietzsche opôs a participação política de Tales em seu tempo e seu abandono do mito. Num poema ao final do livro Gaia Ciência intitulado Declaração de Amor, pode-se supor que Nietzsche tratou do tema, acrescentando ao título do poema a frase “durante o qual o poeta caiu numa cova”:

“Ele vive no algo agora, que foge à vida, alvo da compaixão mesma da inveja./E voou alto aquele que apenas o vê pairar (...). Voou alto demais, agora eleva/o próprio céu o voador vitorioso/Agora descansa e paira/no esquecimento da vitória e do vitorioso”.

Finalmente, Blumenberg chega a Heidegger, para quem a queda do filósofo tornou-se critério para a certeza de se encontrar no caminho certo. Para Heidegger, o Seiende (sendo) que é o mais próximo, que somos nós próprios, é, do ponto de vista ontológico, o mais longínquo.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um eu exemplar disponível ao roubo

Os autores do livro de poemas Exemplar Disponível ao Roubo (Ed. Autêntica, 2011) criaram um interessante efeito de eu: um heterônimo composto por “telepatia sexual, musical e poética” como bem exemplifica Arnaldo Batista no prefácio. É Fernando Pessoa na primeira Pessoa, mas não o mesmo Pessoa, nem pessoa alguma. É todos, mas também não é ninguém. Miguel depõe: “Estamos quites para sempre, /Eu em pessoa/sou menos que um bem maior”.
Os seis ortônimos ocupados em fazer um heterônimo, invertendo o processo de Fernando Pessoa, demonstraram que o “eu” é um efeito e criaram um “eu”, Miguel, com um certo estilo. Os ortônimos são: Marcos Braccinni, Marcos Sarieddine, Rafael Fares, Rafael Ludicanti, Thiakov e Vinícius de Morais do Espírito Santo. Miguel Capobianco-Livorno chega a fazer a sua autopsicografia: “eu aqui sozinho/posto em mim/eu, anti-social/pois sou eu e os outros/o que é social é comum e o que é meu não é de mais ninguém/este sou eu, Miguel, essência do meu ser que se condena em unanimidades”.
O “eu” é social, afirmam eles, a contrapelo do eu do poeta, que é eu e anti-eu, sendo ao mesmo tempo eu e eles. O eu ficcional pode muito bem se rebelar contra o eu da sociedade: ele é eu e ao mesmo tempo é fruto da conjunção carnal e orgiástica de seis ortônimos. A poesia de Miguel é polifônica (claro!). Os capítulos onde ele deixa falar suas muitas vozes são principalmente “Casa na montanha”, “Provérbios” e “Naufrágios”. Esse último capítulo retoma o tema do “eu”: “Eu, idiota acordando a esmo, bêbado e desequilibrado, fico por isso mesmo com meu brado esquecido/que vai à parede/e volta pela metade/sem muita vontade”. O Naufrágio número 3: “O laço de ar do vendaval/é tão frágil quanto eu”.
Miguel é esse eu social, é também eu e vocês–eu-leitor, eu-crítico, eu-público, uma vez que afinal eu confiro sentido, junto da comunidade interpretativa leitor/autor/público. Donde decorre que Miguel é meu irmão, meu hipócrita leitor, meu semelhante. Somos todos Miguéis!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Revolução em amor e revolução

O que teria essa novela Amor e Revolução de efetivamente revolucionário? Eu creio que é somente o fato de ter separado a história dos hippies da narrativa dos militantes de esquerda dos anos 60. Como usualmente se mistura as histórias dos boêmios com as dos militantes, as novas gerações acabam confundindo e pensam que um maoísta é um seguidor de Marcuse. Esse ponto é o único onde se avançou desde a minissérie Anos Rebeldes, a meu ver.

A novela, após um início não muito alentador onde apresentava imagens de tortura e depoimentos chocantes de ex-militantes, encaminhou-se cada vez para uma orgia emocional onde uma das principais personagens, Jandira, é claramente inspirada na presidenta Dilma Rousseff. Mais significativa da trajetória e da mentalidade da personagem de Dilma, a meu ver, é a personagem que é cindida e tem dupla personalidade: o PT é esquerdofrênico, faz duplo jogo o tempo todo: fala em socialismo democrático e faz privatizações de aeroportos, mas em época de campanha diz que privatizar patrimônio público é crime.

Na novela, ficamos a par de estripolias sexuais de personagens como “Chico Duarte” e da personagem inspirada em Dilma Rousseff, mas da história do PCB pacifista nos anos 60 e 70, absolutamente nada.

Essa narrativa da revolução fracassada é, na verdade, muito recorrente porque é a história de uma parte da burguesia brasileira, que, diante da terra arrasada do liberalismo, passou para a esquerda armada. Mas como explicar que pessoas como Fernando Gabeira, Pimentel e Pérsio Arida, liberais que falam do período com mistificação e cinismo, mas mesmo assim fizeram luta armada? Penso que viram --corretamente --grandes perspectivas de poder a partir daquela luta, fosse ela bem sucedida ou não, sendo essa a razão maior de sua participação. Ou seja, o que os atraiu foi a perspectiva de poder, não o marxismo-leninismo.

A perspectiva da novela é social-liberal: a luta dos dominicanos e da igreja progressista é reduzida a uma pornochancada dentro da igreja, sendo que muitos sofreram imensamente, como Frei Tito (que suicidou-se em Paris). No geral, as discussões de conteúdos de esquerda viram farofa diante da ambiência "Dercy Gonçalves".

Mais curioso é uma parte da direita simplesmente passar a apontar o determinismo da estrutura por parte da superestrutura: o resgate do banco de Sílvio Santos determinou a compra de uma "novela petista". Ora, então as novelas da Globo seriam novelas tucanas? São concedidas a troco de quê? É possível que elas sejam também narrativas da história da burguesia, só que a narrativa histórica fica invisível.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O homem que nasceu póstumo

Mário Ferreira dos Santos

“Alguns nascem póstumos...”
Nietzsche

Referindo-se à pouca compreensão de seus livros pelo leitor comum, ainda preso aos preconceitos de dois mil anos de uma educação caluniosa à vida, e dominada apenas por esquemas abstratos, Nietzsche dizia:
“Quanto ao problema da compreensão ou da incompreensão, tornar-se-á um assunto supérfluo, por estar ele muito longe ainda da atualidade.
Eu mesmo não sou um homem atual; alguns nascem póstumos.
Chegará o tempo em que surgirão institutos, nos quais se viverá e ensinará o que entendo por viver e ensinar; talvez se instalarão cátedras especiais para interpretar “Zaratustra”.
Contudo, eu estaria em flagrante contradição comigo mesmo se esperasse encontrar desde já ouvidos e mãos dispostos a acolher as minhas verdades: que hoje não me ouçam, que não se queira aceitar nada de mim, parece-me não só natural, mas até justo”.
Em outra passagem de sua obra, presumia que só muitos anos após a sua morte viriam os seus leitores. Já entramos nesse período, e só agora é Nietzsche realmente estudado de ângulos mais precisos.
Sobre três figuras da história foi escrito o maior número de obras: Cristo, Napoleão e Nietzsche. Num período de cinqüenta anos, neste século, ninguém recebeu uma literatura tão abundante. E se dá com ele o que se não dá com outros, que brilham muito, e depois são esquecidos. Nietzsche, cada dia que passa, é mais lido, mais analisado. Seus temas estão aí presentes em toda a filosofia moderna, e colocados, bem ou mal, do ângulo que ele desejou colocar.
É natural que este livro, que ora publicamos, focalize apenas alguns desses temas, pois a temática nietzscheana apresenta-os numerosos, além da complexidade da sua problemática, à espera de exegeses por parte dos estudiosos de todos os campos do saber humano.
Pode dizer-se sem receio, e o provaremos ainda no futuro, que não há tema atual geral, nem nas ciências naturais nem nas culturais, que não tenha sido por ele colocado. E sua temática exigirá, não este século, mas possivelmente dois séculos de estudos, de respostas às perguntas por ele formuladas, bem como para verificar a procedência ou não de muitas das suas soluções.
Considerava ele que uma época poderia ser medida pela sua capacidade de reconhecer os grandes homens. E não tinha dúvidas quanto à que vivia. Não admirava o homem bovino que se formava na Europa e que iria, neste século, como o foi, constituir a maior ameaça de termitismo, ou de abelhismo humanos.
Compreendia merecer “Zaratustra” interpretação após estudos acurados. Obra simbólica, de feitura alciônica, de difícil penetração pelos não-iniciados, seria um livro dos mais lidos, um livro de todos, mas também de ninguém.
Em nosso último tema, sobre a mística, procuraremos dar uma análise simbólica da obra nietzscheana e da sua mistagogia. Compreendemos que o nosso trabalho completa-se, com “Assim Falava Zaratustra”, cujas anotações sobre a simbólica, permite tornar claros muitos aspectos.
“...Entender somente umas seis frases “de “Zaratustra”, o que equivaleria a vivê-las elevaria o leitor a um grau de humanidade bem mais alto do que poderiam alcançar os homens “modernos”..., afirmava ele. A penetração no mundo dionisíaco de Zaratustra levará os homens a um “olhar goetheano de boa vontade e de amor”, aproximando-os no alto das montanhas, de onde olharão o nascer do sol com a mesma altivez das águias.
Nietzsche não procurava leitores; procurava os seus leitores.
Considerava sua obra como dinamite, e julgava-a absolutamente imprópria para a juventude, porque o seu imoralismo – e muitas vezes o afirmou – seria compreendido por ângulos diversos de os por ele desejados.
Ademais, como transmitiria a sua “verdade” a qualquer um? E antes de tudo se deve compreender que, para Nietzsche, uma verdade só o é quando é transmissível. E sabia que poucos, muito poucos, estariam naquela disposição simpática que permitiria recebê-la. Além disso, a maioria dos leitores toma uma posição feminina: gosta de ser fecundada.
Nietzsche não queria fecundar, mas apenas romper cadeias, romper elos, dissolver teias de aranha.
]...
Nietzsche, para Brandes, foi um libertário aristocrata. A dignidade do homem estava no uso da liberdade. Pode ser alguém um nietzscheano quando aliena sua personalidade a uma seita?
Que obedeçam os que não são capazes de mandar em si mesmos, mas o homem livre não pode ser apenas o reflexo de seus superiores. Para seguir Zaratustra, é preciso afastar-se dele. O verdadeiro nietzscheano afasta-se dele; conhece-o à beira do caminho, ouve as indicações que oferece, aproveita a sua experiência, mas despede-se dele para buscar a si mesmo, para encontrar-se, para interpretar o seu próprio papel.
Não foi acaso ele quem disse: “quem segue a sua própria estrada, ergue a minha imagem a uma luz mais clara”?
Devemos ser o que ele foi, sincero sempre em cada um dos “nossos” instantes, e tão sinceros que não devemos temer contradizer-nos, repelir-nos até em nossas afirmações.
“Quero andar com homens que tenham o seu próprio modelo e não o devem ver em mim. Isto me tornaria responsável pelo seu modelo e far-me-ia torná-lo escravo”. “Quero provocar sobre mim mesmo a maior desconfiança”.
“Fugi de mim, cuidai-vos de Zaratustra. É da humanidade, de um mestre pôr em guarda os próprios discípulos”.
Nietzsche foi um libertário, e Brandes foi o primeiro a compreender.
É ele um exemplo do homem livre, desse homem livre que há séculos luta contra todos os obscurantistas que se obstinam em negar-lhe a única qualidade verdadeiramente humana que possui: a de ser livre, a de poder ser livre, a de poder e dever ser livre, fiel a si mesmo, e viver plenamente a si mesmo em toda a gama de sua diversidade, contradição, fraqueza e sonho.
“Nada há em mim de um fundador de religiões. Não quero crentes; creio que sou demasiado maligno para poder crer em mim mesmo. Não falo às massas.
Tenho um horrível medo que um dia me santifiquem... “este livro (são de “Ecce Homo” estas palavras) deve esconjurar o perigo que possa advir dos excessos sobre minha pessoa”.
Não queria crentes, mas aqueles que se dizem seu seguidores querem crentes. Não era um fundador de religião, mas os fundadores de novas religiões, os divinizadores da matéria, que a tornam infinitamente criadora, e os idealistas de um autoritarismo totalitário, querem fundar novas religiões.
Não falava às massas; e eles apenas se dirigem às massas. Nietzsche não adulava os pequenos, queria o surgimento de grandes homens, e fortes.
Nos seus últimos dias, teve outra vez fé nos homens e suas palavras são de confiança e de amor. Libertar o homem da massa será a nossa maior tarefa.
Não são tais atitudes as de um verdadeiro libertador?
Os defensores da força e da brutalidade buscam uma filosofia para justificá-las. Buscaram a Nietzsche, que se prestava às interpretações favoráveis ao sentido crepuscular o nazismo. Entretanto, deve salientar-se:
Nietzsche declara que desejaria ter escrito seu livro máximo: “Vontade de Potência”, em francês. Ele mesmo usa de expressões francesas tanto quanto pode. E, além disso, ajuntava: “para que não parecesse esse livro uma confirmação de qualquer das aspirações do Reich alemão”.
“Custa caro chegar ao poder; o poder embrutece...” Isso é nietzscheano. Não se iludia com o novo deus adorado pelo homem bovino: o Estado.
“Cultura e Estado – não é possível enganar-se a si mesmo – são antagonistas”. Estado cultural “é somente uma idéia moderna. Um vive do outro; um prospera às expensas do outro. Todas as grandes épocas de cultura são épocas de decadência política: o que é grande no sentido da cultura foi impolítico, até anti-político...”
E já refutava previamente o socialismo autoritário, cujos malogros, neste século, vinham corresponder à sua crítica.
O socialismo de Estado não é um progresso humano, mas uma fórmula viciosa. O que havia de socialismo no nazismo? O Estado torna-se senhor, único, absoluto. É uma autocracia de grupo, de casta, como o é na Rússia dos senhores do feudalismo burocrático. Ele negava esse estado “nec-plus-ultra” dos socialistas, esse Estado absorvente, totalizador, criador de homens de rebanho, negador das exceções. Ninguém poderia elevar a voz de Zaratustra num Estado de opressão, de massas bovinas. A interpretação totalitária da obra nietzscheana é uma grande mentira e uma grande falsificação.
No “Tema da Guerra e do Estado”, no corpo desta obra, focalizaremos ainda outros aspectos, onde as provas se amontoarão para refutar toda essa mentira que se espalhou.
É um dos aspectos mais dolorosos da cultura verificar-se como as mentiras conseguem impor-se e perdurar por tanto tempo. Valeria a penas colecionar todas as mentiras históricas sobre o pensamento humano, repetidas nas escolas, nas universidades e nos livros, em conseqüência de muitos não se dedicarem preferentemente ao estudo dos textos do que às obras de exegese.
Ouçamos esta frase de Nietzsche:
“Em geral, a tendência do socialismo como a do nacionalismo é uma reação contra a formação do indivíduo. Eles têm suas dificuldades com o ego, com o ego semi-maduro, insensato; querem-no colocar de novo sob a campânula da ordem, da”, do super-nós do totalitarismo, diríamos.
Quem leu, compreendeu e sentiu a obra de Nietzsche sabe que toda a sua ação foi verdadeira dinamite contra os conceitos generalizadores, contra todas as concepções de totalização. Desafiou o formalismo exagerado, esgrimiu com violência contra o racionalismo, combateu as “totalidades fechadas”. A totalidade, para ele, é uma simplificação, uma sistematização da “práxis” humana. Nós universalizamos as idéias, damos-lhes um caráter total, sem que isso implique realidade, mas por ser simplesmente cômodo.
Humanidade, vontade, instinto, razão, amor, fraternidade são universalizações. Se os homens lutam sob a mesmo bandeira e se desavêm, tal se dá pela diferenciação do conceito universalizante. Dois homens falam de amor e não se entendem, e assim podem discutir e se engalfinharem por defender a liberdade. Através da obra de Nietzsche, por centenas de vezes, essas afirmações estão claras, expressivas, categóricas. O totalitarismo é, para ele, uma fórmula primária e preconceitural. Toda e qualquer tentativa que tende a totalizar representa uma afronta à dignidade do homem. O nazismo nivelava os homens pela obediência, aceitava a teoria da guerra eterna no sentido de Klauss Wagner, e afirmava a dialética rosenberguiana da “luta dos contrastes”. Ora a dialética trágica de Nietzsche fundamenta-se na “transubstancição” e na transfiguração. A luta é eterna, porque o movimento é eterno, e aceitar o equilíbrio é cair na interpretação comumente mal compreendida do pensamento hegeliano. A síntese marxista inclui a afirmação e negação da tese e da antítese. Mas Nietzsche dá um passo mais à frente e aceita a transubstanciação. A síntese não é simplesmente uma afirmação-negação dos contrários. É muito mais: é a inseparabilidade dos contrários, muito próxima às antinomias de Proudhon, da contemporaneidade antinômica, que cooperam para alcançar o que este chamava de “justiça”.
Eis o que separa profundamente a concepção dialética nietzscheana da concepção hitlerista, que se fundamenta no choque dos contrários, choque eterno, sem solução, competidor e não cooperador. É como a conservação eterna das negociações, sem aceitar a superação dessa luta, pois quer eternizá-la.
...

Esses dois mil anos de calúnia contra a vida, deram-nos um homem postergado, preterido às coisas, além da valorização dos números e das abstrações que aumentam, sobretudo, no campo dos que se julgam os mais realistas, os mais objetivos, como se a objetivação não fosse já uma abstração. Esgrimia Nietzsche suas armas contra todas as falsificações, todas as mentiras. Sabia ele que era contemporâneo de um dos momentos mais tristes da história, porque poucas vezes o homem caíra tão baixo.
“... Vós, cavaleiros da Triste Figura, fabricadores e vendedores de teias de aranha espirituais, vós sabeis muito bem que não importa se tenhais ou não razão; sabeis que nenhum filósofo, com o decorrer do tempo, tem razão; que há muito maior verdade nos pontos interrogativos que pondes atrás de vossas palavras e frases favoritas (e se vem ao caso, também atrás de vós mesmos), que em todo o esplendor solene com que vos revestis entre os acusadores e os tribunais...”
Não está ainda muito da filosofia jungido aos preconceitos de um passado que não é todo o passado, mas apenas um dos seus aspectos preferentemente atualizados? Não prefirimos conservar o que havia de falso, de frágil, de mentiroso na filosofia e rejeitar o que havia de criador, e construir toda uma “teia de aranha” metafísica na qual se aprisionaram até os seus próprios criadores? Um mundo de conceitos, de estandartizações pensamentais de um logicismo anti-vital, acósmico, permitiu a construção de toda uma ciência que se dava na vida, mas continuava lutando contra a vida.
Criamos um passaporte para toda a superficialidade e “sobre as bases sólidas e incomovíveis da ignorância, pode-se fundar até o dia de hoje a ciência; pode-se fundar a vontade de saber sobre a base de uma vontade muito mais poderosa, a vontade de não saber, de incerteza, da mentira. E não como um oposto, mas como uma feição e um requintamento...”
E essa hipocrisia penetrou até o sangue. “De quando em quando nos inteiramos disso, e rimo-nos em nosso interior ao pensar que o melhor de nossas ciências trata de entreter-nos neste mundo simplificado. Inteiramente artificial, alterado e falseado conscientemente...”
Julgamos ser o menos hábil o processo de analisar Nietzsche sob os esquemas do pensamento racionalismo. Sabemos também que muitos desejariam que assim o fizéssemos. Mas prender Nietzsche dentro de esquemas seria negá-lo e não dar a vivência de seu produzir-se flamejante e contraditório. Seu pensamento livre e fragmentário, indisciplinado para os categóricos defensores de um esquematismo a outrance, levou-o à incompreensão dos seus contemporâneos. Foi por isso que só se tornou conhecido graças aos espíritos livres, em cujo pensamento pressentiram aquela pujança da liberdade e o compreenderam como um afim. Foi Brandes, o grande crítico do século XIX, o amigo de Ibsen e Strindeberg que levou o nome de Nietzsche ao mundo. Era difícil compreender a liberdade que se respirava em suas páginas, quando o homem bovino unia suas forças para ameaçar a cultura e destruí-la.
Sincero demais, convicto de seu valor, e do que era, teve a petulância de dizer o que pensava de si mesmo. Proclamou-se gênio. Que crime extraordinário o de quem se proclama aberta e publicamente que é uma exceção. Todos os que se julgam gênios, e proclamam a si mesmos, sem a audácia de o fazer de viva voz, revoltaram-se contra Nietzsche, num gesto que o psicanalista logo classificaria de auto-punição.
A loucura posterior, que o acometeu, vinha ajudar a argumentação de todos os energúmenos que o combateram. Ao ver um bruto martirizar um pobre animal de carga, num gesto de revolta, defende-o e escorraça o agressor a chicotadas. Depois, em lágrimas, abraça-se ao pobre animal, exclamando, “meu irmão, meu pobre irmão!”. Esse gesto franciscano provocou risos, gargalhadas de homens “equilibrados e sãos”.
E depois sereno, com um rosto onde se expressava a bondade, ele viveu o resto de sua vida entregue à música e ao silêncio. Nesse período, tudo quanto escreveu mostrava incoerência, desordem racional. Perdera a razão... Por acaso não foi o que tanto desejara? Não era sempre o seu desejo libertar-se da rigidez dos esquemas abstratos? Lembra-nos um homem religioso que acusava a Nietzsche da sua loucura e esquecia a loucura de tantos santos e de tanto crentes. É que o ataque endereçado ao Cristianismo não fora compreendido pelos que se dizem cristãos.
...
Como a obra de Nietzsche é alciônica e sempre escrita num tom de voz mais alto, é natural que os homens da planície, amantes da monotonia ruidosa dos “sapos”, repilam as suas exclamações.
“Não existem livros mais soberbos e ao mesmo tempo tão requintados quanto aos meus: alcançam eles, aqui e acolá, ao ponto mais alto a que se possa chegar: ao cinismo; - é necessário, por isso, conquistá-los com dedos delicadíssimos e ao tempo com pulsos valorosos...” São frases como essas que fundamentam a acusação da megalomania nietzscheana.
“... Possuo, em suma, a mais completa arte do estilo que jamais homem algum possuiu.”
“... A arte do grande ritmo, do grande estilo na confecção dos períodos, para exprimir num enorme “crescendo” e “diminuendo” de paixão sublime, sobre-humana, foi descoberta unicamente por mim; como um ditirambo, como é o último do terceiro livro de Zaratustra, aquele que se intitula “Os sete selos”, eu ascendi mil milhas acima do que até então se chamava poesia”.
Atingindo seu desejo dionisíaco de alienação do racional, fugindo a todas as regras que até então a modéstia estabelecera para as relações entre os homens, ele realizou-se plenamente nesse livro. Foi o livro de um homem que já conhecera o caminho que levaria ao super-homem. Falou de si com a ingenuidade e com o cinismo que ele sempre considerara como imprescindíveis a toda obra superior. Esse livro, mais que qualquer outro, representa a mais sincera, leal e nobre confissão de que alguém fez de si mesmo.
Nietzsche sempre foi um solitário. Vivia ausente dos outros homens. A sua humanidade não consistia em simpatizar com os homens, mas em suportar a sua proximidade... “A minha humanidade é uma contínua vitória sobre mim mesmo”. Acusam-no por isso. Sua ausência, esse desejo de solidão, o homem de rebanho não perdoa, porque não compreende. O homem do rebanho precisa do rebanho.
A megalomania é comum a homens superiores. Schopenhauer também se julgava um gênio, quando ainda se lhe fazia o cerco do silêncio. Goethe, Kant, Napoleão, Epicuro, Alexandre, Aristarco de Samos... a história está cheia desses homens que jamais usaram da falsa modéstia.
A megalomania nietzscheana tem servido de repasto aos paleólogos desherdados. É fácil buscar-se na sua obra, sobretudo em “Ecce Homo”, sintomas de loucura.
A obra de um autor vive por si mesma e independe (quanto à apreciação) das circunstâncias que geraram. A loucura é sempre um estigma para os medíocres, e o gênio está sempre nessa faixa que precede à loucura. Pelo menos conhece essa fronteira, e viceja sempre nesse estreito lugar, mas o gênio liberta-se pela criação. A megalomania de Nietzsche seria intolerável se ele não merecesse nenhum daqueles títulos. Um superficial que se julgasse gênio mereceria sorrisos, mas um gênio, que tem consciência de sua genialidade, merece respeito.
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A finalidade de sua obra é a luta contra toda espécie de fariseísmo, de saduceísmo e de filisteísmo. Luta pela vitória da natureza contra todas as forças que se impuseram para desmerecê-la. Luta pela valorização dos nossos instinto caluniados por certos predicadores da moral; luta contra a hipocrisia. Analisando a moral, mostra toda a sua etiologia, e põe de manifesto a auto-sugestão exercida pelas nossas próprias paixões na consciência, e o perturbador influxo exercido no espírito pelo vírus fatal da má consciência, esse envenenamento milenário, esse pessimismo moral, que corrompeu as fontes da vida.
Filólogo, estudou a influência das palavras na metafísica. O homem acreditou que dando um nome às coisas havia determinado a sua essência, e pensando haver realizado uma ciência mais elevada dos seres, nada mais fez que um sistema convencional de termos. E assim acabou por definir a metafísica como “a ciência dos erros humanos, elevados à categoria de verdades fundamentais”. E tinha razão quanto à forma viciosa que a metafísica acabara assumindo na filosofia moderna.
Nietzsche estabeleceu um critério, uma orientação na filosofia, procurando libertá-la do antropomorfismo, que fala mais aos apetites e interesses que à verdadeira e desinteressada sede de verdade, de que tanto o homem afirma possuir.
O alcance dessa deshumanização é “dissipar as sombras que o homem projetou ao redor de si por efeito de suas paixões, de seus sentimentos, de sua sensibilidade”.
Por essas paixões, por esses sentimentos e por essa sensibilidade, o homem carregou-se de cadeias. Formou algemas, criou limites para sua visão, estreitou horizontes, aprisionando-se na planície de um falso objetivismo.
Nietzsche combate ferozmente esse homem objetivo, que ele situa incarnado historicamente em Sócrates, esse homem objetivo que procura, que luta “para tornar o mundo auxiliado pelos teólogos, pelos moralistas e pelos metafísicos, numa imensa escola, num laboratório ou num cárcere”.
E nesse momento de limitação para a ciência, quando assistimos que para ela se estabelece uma nova fronteira, uma fronteira mais séria que todas as que já se estabeleceram, a opinião de Nietzsche avulta de valor, quando nega a essa ciência a possibilidade de explicar o sentido da vida. Não aceita na objetividade, e sim na união das duas metades do homem: a objetiva e a subjetiva.
Essa última vive oculta, silenciada pelas imposições morais do ambiente, pelas cadeias que os homens construíram para ela. Sem a união dessas duas metades não teremos o homem integral, a totalidade do indivíduo. Toda a história humana, para ele, não tem sido mais que a luta dessa outra metade pela sua libertação, para se impor, conquistando os campos que os deuses interditaram.
“O homem tem disputado palmo a palmo aos deuses a posse do mundo e quer agora ser dono do seu destino”.
“A ciência nunca passará de nos proporcionar uma cultura dos meios e não dos fins. E com isso fica afastado o erro dos que acreditam que a filosofia nasceu da ciência e terá, afinal, de converter-se e reduzir-se à ciência”.
“... as culturas se explicam, em grande parte, pelo sentimento que ilumina ou obscurece sua vida, e se transformam pelas grandes metamorfoses desse mesmo sentimento”.
Não é isso Spengler?
Para ele o conceito de cultura compreende fatos espirituais, subjetivos, dos quais a ciência é uma pequena parte, uma disciplina intelectual, para fins práticos, a qual não absorve de maneira alguma a atividade intelectual e subjetiva do homem.
“A cultura é a plenitude da vida espiritual coletiva. A autoridade não basta para lograr esta unidade; impõe-se um pensamento latente, a ação radiante de uma vida interior, à qual ajustamos nossos passos, pela qual estão condicionadas as nossas instituições”.
E quanto à arte, é pela exaltação, pela arte como potencialização do homem, quando diz que ela não pode pretender encerrar em seus quadros o conteúdo total de uma cultura.
Apesar do “seu caráter sintético”, a arte se alimenta de estados contemplativos, desinteressados, estados esses que depuram, que selecionam, e que raramente debilitam a vida. Em regra geral ela é uma potencialização da vida, é uma interpretação, um tom de voz mais alto nesses estados contemplativos, quer objetiva, quer subjetivamente.
A unidade do mundo objetivo e subjetivo não existe na natureza, onde ele não aceita a causação unívoca do ponto de vista científico, mas no sentido do proto-fenômeno de Goethe, e de Spengler. Além disso, a unificação da vida é um ato pessoal, subjetivo. É o homem que unifica o disperso, é o homem que faz a ciência, a arte, a filosofia. Por isso, na natureza, há estética, mas só no homem há arte, porque esta é criação do homem, que vê com olhos mais profundos as coisas do mundo ou as ouve com um ouvido mais apurado. Só essa interpretação é capaz de elevar o homem além da própria humanidade. Só essa maneira de perceber as coisas do mundo, com olhos mais vivos e ouvidos mais subtis, onde exista uma hipertensão, uma hiperestesia, é capaz de elevar o homem acima da sua pequenez. É a arte, não mais com a égide e o destino infeliz, que lhe querem marcar as escolas modernas de simples arte pela arte, sem outra finalidade, mas como um fim mais elevado, como força, como criadora de potencialidades, como progresso afetivo, como meio de exarcebação de impulsos naturais, como magia e como mística.
A ciência faz-nos pesados, como ele diz, faz-nos limitados, estreitos; é a morte subjetiva do homem, pelo limite, pelo contorno. Na nova cultura ecumênica, que vem de um longo filete na história, e que se atualiza aos poucos, teremos a formação de filosofias mais livres, mais criadoras, livres de proselitismo. A libertação do homem será conquistada pela superação, de si mesmo. A nova cultura revelará o homem impondo-se à natureza, como intérprete e como reformador. É o homem dando cores onde elas existem parcas e esmaecidas, é o homem emprestando sons onde eles não se ouvem mais, criando e fugindo à objetividade unilateral, conquistando o mundo e construindo dentro de si uma nova imagem.
Difícil a caminhada dessa cultura; difícil e trágica. A visão concreta atualizando os contrários, para vivê-los e superá-los, é superior às forças de muitos, que entre os extremos não aspiram aos extremos para vencê-los, mas desejam o meio termo que lhes dê a passividade pastoril das longas e mansas planícies, levemente perturbada em sua tranqüilidade por alguma brisa suave e temerosa de vergar demais as hastes finas dos arbustos que mal emergem à flor da terra.
Amar este mundo, salvá-lo para salvar-se, este será o lema desse homem que há de vir: o novo Prometeu libertado.
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“O Homem que Nasceu póstumo” surgiu de uma série de pedidos que recebermos para apresentarmos a obra nietzscheana, juntando os aspectos contraditórios dos seus temas, e ficando as “predominantes”, a fim de permitir uma melhor inteligência. Desde logo se vê que seria impossível abordar todos os temas. Por isso escolhemos alguns, precisamente aqueles que têm oferecido maior problemática e mais polêmicas. No futuro, se tivermos a apoiar-nos a boa vontade leitor, continuaremos nossa já iniciada em “O homem que foi um campo de batalha”, que publicamos como prólogo da tradução de “Vontade de Potência”, editada pela Livraria do Globo.
Quanto àquela tradução, fundamo-nos na obra publicada por Elisabeth Foerster Nietzsche. Esperamos, no futuro, poder dar uma tradução do texto aumentado pelo “Nietzsches-Archiv”, mas acrescentado de novas notas esclarecedoras.
Aproveitamos aqui o momento para agradecer à crítica brasileira e à estrangeira que recebeu com aplausos o nosso trabalho. Apenas desejaríamos fazer uma simples anotação a alguns críticos que julgaram demasiado o número de nossas notas. Entretanto, se estivessem eles a par das inúmeras cartas que recebemos, das inúmeras perguntas que nos foram dirigidas, saberiam que aquelas notas eram ainda parcas, porque muitos aspectos da obra não são de fácil compreensão. Numa edição completa desse livro, teremos oportunidade de acrescentar ainda mais notas que corresponderão às dúvidas surgidas, e que nos foram endereçadas.
Neste livro, “O Homem que Nasceu Póstumo”, usamos uma técnica diferente. Levando em parte o terreno da ficção, fizemos Nietzasche falar sobre sua filosofia. Aproveitamos as suas idéias, muitas das suas frases para tornar inteligíveis aqueles temas mais difíceis. Basta que se lei a interpretação que se fez de sua obra, e até por grandes nomes do pensamento universal, para que se compreenda que, ao procedermos como o fizemos, nos colocamos na maneira mais acessível para a boa compreensão da mesma. Nietzsche nunca usaria o nosso método. Sua obra é fragmentária, e ele gostava de permanecer no fragmentário e entre seus símbolos, Se procuramos tornar seus temas mais claros, mais acessíveis, não se entenda por uma “vulgarização” que ofenderia ao próprio Nietzsche, pois sempre respeitamos a sua dureza, a sua implacabilidade e fidelidade de seu pensamento. Apenas suavizamos essa dureza, tanto quanto nos foi possível, no intuito de permitir que seus temas pudessem ser apresentados coordenadamente, já conciliados através das suas contradições.
Dessa forma, respondemos com antecedência à acusação fácil que nos fariam os que não compreendem que Nietzsche, para ser lido, exige esse trabalho de exegese e de ordem, sob pena de sua obra oferecer mais perigos que vantagens.
Desde que se considere que o fragmentário de sua filosofia tinha mais profundas raízes em sua constituição psicológica, compreender-se-á facilmente porque o reduzimos a uma ordem, que não é propriamente a sua, mas que em nada nega o seu pensamento, nem atenta à fidelidade.
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Atravessamos um momento crucial de nossa cultura, e estamos às portas de uma das maiores ameaças sobre a humanidade.
Colocamo-nos entre aqueles que se convenceram que o momento atual de nivelação, de especulação na baixa exige homens da montanha, que lutem por uma elevação humana, por maior dignidade.
E é dirigindo os olhos para a obra do grande solitário do século dezenove, e o anunciador alciônico de uma das maiores possibilidades humanas para o século em que vivemos, que julgamos encontrar os sinais de uma nova aurora que há de luzir, uma aurora cheia de promessas, mas uma aurora também terrível, porque ela anuncia uma imprescriptibilidade: ou segui-la ou perder-se na planície; ou ultrapassar o homem, ou abismar-se no insetismo que nos ameaça; ou caminhar pelo caminho das exceções super-humanas ou achatarmo-nos na regra de uma sub-humanidade que preferiu recuar, por não ter o brio necessário de forjar, com a sua vontade, o seu próprio destino.
Mário Ferreira dos Santos

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Nietzsche Romântico

Heraldo Barbuy

“Pois que tal é a sorte nossa: crescemos em altura, mesmo admitindo que seja este o nosso Infausto Destino: --pois que habitamos sempre mais próximos ao raio!

F. Nietzsche, Gaia Ciência, 371.

É como autor de ZARATUSTRA MORREU que venho nas linhas breves desta prefação ao “Viandante e sua Sombra”, prestar tributo leal da minha admiração ao doloroso gênio louco de ASSIM FALAVA ZARATUSTRA; quando levanto as catadupas da minha eloqüência contra Friedrich Nietzsche, é porque tomo conhecimento de que Ele existe, imóvel e soberbo nessa região tempestuosa que procuramos ambos, junto às granus profundas onde habitam os raios inquietantes da “inversão de todos os valores”: muitos deve haver, cuja existência não percebemos, pois que a extensão visual de nossos horizontes se delineia de montanhas demasiado altas para que nos sejam perceptíveis os pigmeus dessa literatice que a falência do estilo tenta impingir por literatura. Implacáveis e marmóreos, como gigantes eternamente plantados na estrada de suplícios que a humanidade percorre, há homens diante dos quais os séculos transitam humildes como rebanhos diante de pastores. Não confundamos, todavia: não são esses que apascentam o mundo acorrentando-o com o terror da desgraça eterna ou com os fetiches da eterna felicidade, os pastores verdadeiros da peregrina humanidade; o gênio não precisa engordar com promessas, nem aceita os redis da escravatura, não se nutre das carnes de suas ovelhas, nem é jamais com tosquias que se proteje dos invernos de sua miséria; os verdadeiros pastores são aqueles que SÃO e jamais os que simplesmente “parecem”. Não queremos báculos, nem custosas paramentas, nem nos arrogamos a filiação direta de divindade alguma; somos filhos da tempestade e nosso pai não tem necessidade de ministros; tantos milhares de anos passarão submissos ao pó de nós, quantos foram os milhares de anos que por sobre nós passaram opressores, na tortura dos males que nos foram inflitos; não é com seduções quiméricas que seduzimos e sim como gênio que assusta, com a lágrima que comove e com a verdade que espanta: somos heróis porque o nosso pessimismo nos faz rejeitar com desprezo a bem-aventurança dos paraísos e aceitar altivamente as amplidões do Nada, porque bem sabemos que somos nós a antítese de Tudo; de Tudo quanto há de cólera e revolta, de clamor anônimo e rebelião espetacular, de punho fechado que se eriça e de mão descarnada que se abre e suplica, de desespero, de soluço, de agonia, de tropel e conclusão; nós somos aqueles que assimilaram o passado, refletiram o presente, e projetaram a humanidade para os grandes arcanos do futuro; não foi o ventre de nossa mãe que nos engendrou e sim a Dor de Conúbio e com o Sonho. Os “outros” subiram à face da Terra e “nós” descemos a ela; eis a nossa diferença.
Nietzsche é mais do que um homem, porque é também uma catapulta; investe contra tudo, rebela-se contra todos, ergue-se sozinho como último e derradeiro marco do Grande Romantismo, calcado nos confins dum século que morre; sua luta é contra a história, contra a moral do prejuízo, contra os valores da rotina, contra os regimes de governo, contra o verbo dos profetas, contra o dogma das religiões, anárquico, rebelde, selvagem, utopista e sublime tal qual o traço psicológico da Originalidade.
É grande nas suas contradições, soberbo na sua humildade, gigantesco na sua pomposa simplicidade, filósofo na sua orgulhosa poesia, poema vivo que palpita como as cordas duma harpa ao sopro de todo vento. Sempre no antagonismo de si mesmo, impiedoso para com tudo, jamais teve piedade dos seus tormentos; amava tudo quanto odiava e arremetia contra tudo quanto amava; torturava-se e lutava contra sua própria luta, recebia as influências que recebia; Schopenhauer penetrou-lhe fundo com o todo e contingente por vezes inconcusso do seu sistema; mas Nietzsche, escudando-se na mesma Dor, em vez de pregar a “Negação da Vontade de Viver”, forja com tal suplício não sei que espantosa Alegria da Vida; tal como Beethoven transforma seu martírio em rebelião e sua rebelião em delírios diosiníacos; são gargalhadas satânicas da Alegria, mas de Alegria que dói; por isso é que frequentemente se contradizem; são prazer na forma, mas dor no conteúdo. “Forjam estrelas porque trazem um caos dentro do peito.
Friedrich Nietzsche sempre foi nas suas obras o maior inimigo de si mesmo; apologista da violência, viveu na doença e na debilidade; “humano, muito humano”, investiu contra os homens inventando o Super-Homem; sociável e carinhoso, errou pelas solidões e condenou-se ao desespero; paladino da aristocracia, viveu no desconforto e no abandono; chorava quando lia a Bíblia e acabou endereçando venenosas setas para o coração do cristianismo; teve a invulgaridade de erigir-se em “Anti-Cristo”; compreendia demais para que pudessem compreendê-lo; por isso não teve mulher, nem filhos, nem amor, nem pátria, nem fortuna, nem sossego, nem religião, exceto a si mesmo; tanto se viu detestado e repelido, solitário e incompreendido, que acabou acreditando na própria divindade; como todos os grandes homens foi dum egocentrismo que ultrajava a hipocrisia dos rebanhos medíocres. “Ecce Homo”, é um livro em que, como na Bíblia, um deus se faz elogios a si próprio; sobre o vácuo de todos os ninguéns, vinha criando o céu e as estrelas, para implantar sobre a face da terra a onipotência do seu prodigioso “Alguém”.




A Nietzsche Filósofo

Essencialmente Poeta, nunca foi, entretanto, em todo o rigor do termo, o que se deve entender por “filósofo”; o que há de soberbo na sua obra é a forma e não o conteúdo; sempre às voltas com suas dores de cabeça, com suas câimbras de estômago, sempre partindo e sempre chegando, gelando pelos invernos, matadores, perseguido pelos demônios da sua imaginação, arrastando-se continuamente por vagões de estradas de ferro, habitando trapeiras e vivendo de medicamentos, Nietzsche não teve nunca essa tranqüilidade simples, mas descuidada sem a qual não se elabora um sistema de filosofia; todos os seus livros são apaixonados, pessoais, robustos e todos, à exceção do “Renascimento da Tragédia”, são obras inacabadas; lançava mão do aforismo que não custo o sacrifício da paciência e da paz que não tinha e procura justificar-se declarando que o aforismo condensa mais sabedoria com menos palavras, mas esquece que deste modo não chegaria nunca a expor em linhas precisas e contorno que se descortinava das alturas em que vivia; e o maior de seus males devia consistir exatamente em sentir que a expressão das suas idéias sempre vária e sempre descontínua; frequentemente nublava-se, tornando-se obscuro, porque esse homem “que tinha muito de cego” possuía entretanto, olhares de lince que atingiam esse ponto longínquo do horizonte em que tudo se volve cósmico e confuso.
Contudo, nem sempre se deveu essa confusão à extensão dos panoramas abrangidos. Porque, como filósofo puro e na totalidade das suas teorias, Nietzsche não é apenas refutável como também absurdo; longe estava ele dessa precisão matemática e concisa com que, por exemplo, Kant, Fichte e Schopenhauer souberam expor suas teorias, corrigindo-se ou ampliando-se mutuamente; foi com paciência e longas meditações, cada vez mais profundas, que Schopenhauer conseguiu expor o seu admirável pessimismo, rigorosamente centrado na idéia pela qual todo mundo da forma é a objetivação da Vontade de Viver, a representação da “Idéia”, o correlativo da “coisa em si” de Kant; com segurança e raros desmaios de paixão, fechado dentro de si mesmo, na amargura das desilusões soube levar os fios da longa meada desde as catacumbas da Índia até os labirintos do Budismo e não abandonou a lógica pelo calor da poesia, nem a razão pelas “orgias de Dyonisos”. Nietzsche, ao contrário, nem se baseou como os filósofos na realidade fria dos fatos, nem soube tirar conclusões completas de suas descobertas originais. Em última análise, essa idéia do Super-Homem estava em germinação no cérebro do século criador do socialismo científico: devia ser, não apenas uma conseqüência do transformismo de Lamarck e Darwin, como também e principalmente uma reação sobre as teorias da igualdade e democracia; o Super-Homem devia ser de certo modo, uma Santa Aliança filosófica, uma reação sobre os ideais da Revolução Francesa; Nietzsche recebeu no seu consciente a necessidade dessa “reação” e preconizou o Super-Homem, sem que ele mesmo soubesse que esse decantado Fichte, outra coisa não podia ser senão o retrocesso para os regimens da tirania e do absolutismo: “tese de retorno sobre si mesma”.
O Super-Homem, como Nietzsche o pregou, vem todo envolto na linguagem poética dos estilos bíblicos, mas nunca deixou de ser uma profecia ainda mais amarga que todas as profecias catastróficas da velha filosofia da história e em particular do cristianismo, uma visão desse dia que era para o poeta da Genealogia da Moral, o “dia de amanhã” e que para nós é pura e simplesmente “o dia de hoje”.
No decurso dessa prefação, eu me sinto na contingência de responder dum só golpe a tantas inventivas lançadas a um Anti-Nietzsche da minha autoria, denominado “Zaratustra Morreu”: alhures este livro não foi recebido como no Brasil, onde não encontrou outra crítica além da linguagem despeitada de todos os que não foram capazes de compreendê-lo; ninguém soube ou ninguém quis atingir os verdadeiros fundamentos da minha teoria que é radicalmente oposta ao assim chamado Super-Homem: o fundamento da minha ética não é apenas a tese pela qual toda Moral é codificação da “utilidade social”, senão que reconhece também que essa utilidade é sempre e unicamente a utilidade da classe dominante e não é apenas o conteúdo que se contém na forma destas palavras.
Nós não podemos ter a pretensão de induzir a humanidade a regenerar-se para tal ou tal sentido, uma vez que não podemos racionalmente reconhecer fundamento algum nas teorias de livre arbítrio, inda que não fosse senão naquilo que concerne ao destino histórico da sociedade: ninguém pode traçar o destino da humanidade, senão procurar o destino para o qual a humanidade se dirige; pregar alguma cousa que dependa da livre vontade dos homens e reconhecer ao mesmo tempo que esses homens não têm liberdade de vontade, é incorrer numa contradição a que não soube esquivar-se o sublime estilista de “Assim Falava Zaratustra” –Dado que o desenvolvimento dum sistema se veja obrigado pela sua sequência a reconhecer que não é nenhum “liberum arbitrium indifferentiae” e a constatar logicamente e “inexistência do livre arbítrio”, esse sistema deve procurar o como “virá a ser” aquilo que é; proceder doutro modo é fazer religião e não filosofia. –Referimo-nos ao vir-a-ser do mundo da forma, porque bem sabemos que fora do mundo da forma, o tempo não existe, senão na sua expressão eterna que é o “presente”, o perpétuo. É, para além do princípio de individuação e do princípio da razão.
Somos os destruidores da Moral, porque reconhecemos que é a Moral que se destrói, visto que não há nada mais variável que essa Moral que vagueia ao sabor das forças que produzem a marcha histórica da sociedade humana. Toda história foi escrita pela hostilidade com que se contendem as três forças básicas de seu movimento: há uma força que procura o “retorno”, uma força que quer “permanência” e uma força que exige cegamente a transmutação e o “futuro”. Nietzsche que atacou a excessiva influência dos conhecimentos históricos, opunha-se à igualdade e tornara-se lógico quando exprimia a fatalidade da luta perpétua; mas o que Nietzsche não vislumbrou foi a possibilidade do “deslocamento do ponto em cujo derredor a luta gravita”; as leis evolutivas indicam que os homens se tornarão cada vez mais “indivíduos” e portanto, cada vez mais diferentes: --a nossa idéia de “igualdade” não repousa sobre uma simiesca coletivização do homem e sim sobre uma realidade que é o “indivíduo”; deveres iguais e direitos iguais, fora do campo econômico e administrativo, é coisa que a nossa idéia de igualdade repele, porque subentende a existência de outra coisa que do mesmo modo repelimos: isto é, a perpétua infantilidade humana, a perpétua necessidade de senhores e tiranos; a diferenciação cada vez mais sensível, age no domínio biológico da forma envolvente e elevando os códigos da Moral até sua extinção, acarretará precisamente o deslocamento desse ponto em torno do qual gira essa luta que hoje nos confrange pela insatisfação das necessidades vitais. A democracia legítima não depende nem da “piedade”, nem da bondade dos homens e sim da inexorabilidade das leis que determinam a marcha da história, que é a marcha da Evolução. O Super-homem geraria sempre a pressão, enquanto que a Super-Humanidade, tal como a expusemos, inda que de todo modo totalmente poético em nossa obra aludida, seria precisamente a inexistência de qualquer forma diretiva e coercitiva no campo da vida não econômica. Ao menos ao que me parece, tirania e anarquia mutuamente se repeliriam.
Inútil se torna refutar a “Vontade de Poder” que é o eixo sobre o qual se movem as teorias do Super-Homem e na generalidade as teorias de Friedrich Nietzsche; ele mesmo escreveu que há certos pensadores que se refutam a si mesmos; eis uma das afirmativas em que Nietzsche não se refuta, exatamente “porque se refuta”.
Do grande ciclo de livros que além de suas obras anteriores, “A Origem da Tragédia”, “As Inatuais”, o “Humano Demasiado Humano”, de que faz parte o “Viandante e sua Sombra”, a Aurora, “A Gaia Ciência”, “Além do Bem e do Mal”, “A Genealogia da Moral”, o “Crepúsculo dos Ídolos”, o “Caso Wagner” e o “Assim Falava Zaratustra”, do grande ciclo de livros que digo que deveria constituir a obra-prima científica de Nietzsche sob a denominação genérica de “A Vontade de Poder”, ele só nos deu em verdade “Anticristo” e na sua “Genealogia da Moral”, como em “O Caso Wagner” acena a um livro capital que deveria ter sido a “Fisiologia da Estética”, que ficou em mero esboço. Todo esse ciclo de obras ia desempenhar o papel de justificar suas idéia sobre a “Vontade de Poder” e a tentativa da “inversão de todos os valores”, mas infelizmente a doença e a loucura privaram o mundo desses futuros primores da arte premissa lógica que foi o Pessimismo, para chegar a uma conclusão ilógica que foi a Alegria do Poder. Schopenhauer não se deturpa quando expõe a Origem do Egoísmo com a naturalidade duma conseqüência da Vontade de Viver, que é o seu ponto de partida, o nómeno de todos os fenômenos; mas o autor do “Viandante e Sua Sombra”, para ocultar o seu pessimismo deu-lhe por máscara gaiata a Vontade do Poder e capitalizou assim uma das conseqüências de Schopenhauer fazendo-a o núcleo das variáveis doutrinas.
Mas a grandeza de Nietzsche, como homem invulgar, não repousa sobre sua pretensa irrefutabilidade e sim sobre a incomensurabilidade do seu mundo sensível, da sua Arte alemã, diante de cujo estilo o próprio Goethe recua vencido. Um dos méritos inalienáveis de Friedrich Nietzsche plasmou-se para sempre na audácia e no vigor com que soube arremeter contra Moral do Preconceito e a doentia civilização do cristianismo. Foi sozinho, na dor e no isolamento, na enfermidade e na incerteza amarga de seus dias, que se ergueu –qual novo Atlas, --suspendendo sobre os ombros uma nova ordem de coisas. –Quando não convence, comove, quando não comove, impõe. Irrompe sobre o panorama da literatura e da filosofia com o luxurioso despudor e a heróica violência das grandes vitalidades. –Estóico na vida e estóico nas intuições, sua teoria do “perpétuo Retorno”, simultaneamente formulada por Gustave Le Bon, sob a paternidade de Blanqui e de Heine, é fundamentalmente uma teoria estóica.
Como todos os homens leais e possuidores da própria consciência, não se oculta nunca sob a máscara hipócrita da moléstia e da humildade dos “Pregadores da Morte”. Tendo-se, desde a mocidade, rebelado contra a religião, erigiu o seu gênio em uma nova divindade: o Super-Homem é o produto desse gênio de cujos infinitos sofrimentos a Natureza um dia teve piedade dando-lhe a loucura. Ultrajado e desconhecido, sob o escárnio e o riso imbecil da mediocridade que reina em todos os lugares, foi preciso que Nietzsche se obumbrasse para sempre nos escuros desertos da irracionalidade, para que se visse à luz do dia seu imenso poder de raciocínio e de imaginação, sua espantosa capacidade expressiva.
--Foi sobre o ataúde dessa divindade morta que o vigésimo sexto Gautama ergueu a tristeza de sua voz sob a orquestra soturna que tangiam os devas do deserto. Doce era o crepúsculo e sonhadora a bruma que beijava os seios do horizonte. Então, vendo a “Sombra e seu Viandante” imóveis para sempre na estática postura duma estátua que mirava com vazios olhos a curva do ocidente, sobre um féretro de altura saudou-o deste modo:
---Saúdo-te, ó cordilheira minha irmã e minha inimiga, de monte em monte e de flanco em flanco; bem vês que não estremeço diante de ti e admiro-te porque tu não estremeceu diante de mim; minhas neves não foram desfeitas ainda pelo verão que sazona os frutos e tuas neves não foram desfeitas ainda pelo verão que sazona os frutos e tuas neves já foram colhidas pelo sopro de muitos ventos: eu conheço por isso a rispidez de teus rochedos e é sobre o estuário de teus rios que reflito o panorama das minhas rochas. Vê todavia como é profundo o abismo que nos separa: de tais furnas tenebrosas irromperão as grandes convulsões que hão de arremessar-nos uma sobre outra. E no fragor desta luta ouvirás ecoando pelas tuas catacumbas o claro duma Nova Humanidade.
Eu não quero o Super-Homem porque amo a Humanidade; eu quero a Super-Humanidade porque amos os homens.
Em verdade vos digo: --
Zaratustra morreu.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Blognovela revista cidade sol: crise na cia. Milkshakespeare

Blognovela revista cidade sol: crise na Cia. Milkshakespeare



(Belo Adormecido contrata uma figurinista misteriosa, Maura Hari. Ela e Belo iniciam uma amizade. Salomé, dona da lanchonete do teatro, fica com ciúmes e busca seduzir Belo, causando uma disputa entre as duas. Belo Adormecido, além de ator, é um diretor decadente em sucesso e na idade).

Belo Adormecido: precisávamos de uma figurinista como você.

Maura Hari (embevecida): Obrigado...

Voz em off (interrompendo): O fantasma de Hélio Oiticica...Waly Salomão fumava maconha em New York na casa de mamãe...Mammy morreu e nem fui ao enterro...Quando Hélio e eu nos conhecemos, eu tinha quinze anos, ele quarenta e daí....Estava com outra...corneei Fernanda...Nasceu Daniela com meu nome...Separei....Waltinho...Waltinho não pelo amor de Deus...o Chezinho do Waltinho...

Maura Hari (assustada): Nossa, acho que ouvi vozes.

Belo Adormecido: Esse teatro é assim mesmo...

Maura Hari (encantada): Você é diretor?

Belo Adormecido: Escritor, diretor, sex simbol, ator....

Maura Hari (olhos brilhando): Noossa....Quero gravar sua voz.

Voz em Off (sem querer te interromper, mas interrompendo): Fernanda Torres curou uma dor de corno com Luiz Fernando Guimarães....E Coca....dormindo sobre pizzas...não foi Beckett não...papai...Patrick...Pai-trick. Papai...Hermes, Narcissus. Briguei com papai e escolhi outro pai...

Belo Adormecido (exaltado): Cale a boca, Lúcifer! Voz chata, caipira.


Noutra cena, e estão na lanchonete do teatro e chega Salomé, a dona.


Belo Adormecido (comendo ávido com a boca cheia de coxinhas): Salomé, Salomé, você quer a cabeça de São João Batista?

Maura Hari: Poderíamos fazer uma peça sobre celular, Belo. Eu monto o figurino, você escreve e dirige.

Belo (desatento, olha as coxas de Salomé): Salomé, Salomé....

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Carta aos participantes do Ocupar BH

Meus caros participantes do Ocupar BH:

Eu deixei um comentário aqui sobre uma proposta de palestra sobre a história do socialismo e ele não foi respondido (foi apagado, suponho). Enviei também a bibliografia que estou traduzindo sobre o período Stálin para vcs e não fui respondido. Eu suponho que isso decorre do pensamento de classe média que vcs produzem, com papos furados sobre anarquismo e Cristiânia, sobre não ter líderes e hierarquias, etc. Vcs são de classe média e estão num bairro de classe média. Eu sugiro que se desloquem para a Praça da Rodoviária e evoluam para um espaço soviético de discussão de experiências socialistas passadas, com os moradores e passantes participando e solidificando um espaço de educação popular socialista, que abracem a ideologia que apresenta o ponto de vista do povo: Marx, Lênin, Stálin, Mao, Ivan Pinheiro, Gilberto Vasconcellos, Laerte Braga; senão irão dar com os burros n´água. O programa de vocês não é viável no capitalismo: a democracia possível no capitalismo é essa e o sistema financeiro não tem salvação é daí para pior, não se iludam.

Atenciosamente,

Professor Lúcio Jr.

Blog do Ocupar BH: http://ocupabh.org/2011/12/31/feliz-ano-mundo-novo/#respond

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Gerald Trotsky contra o Fantasma de Stálin

(Penumbra. Gerald Thomas faz o jogo do copo para bater um papo com o fantasma de Hitchens. Tenta baixar o espírito, mas desce o espírito de Stálin para lhe dar um esporro).



Gerald: Hit, Hitchens, sou seu fã desde os anos 70. Você é o novo Trotsky...



(voz grave em off): Não. Ele achava que Trotsky era a cara do Bob Dylan...



Gerald: Não seja modesto, Hitinho, vc sabe que te adoro...



Voz off: o fantasma...Stálin...



Gerald: Sinto interromper, but...também sempre combati Stálin.



Voz off: Orwell foi informante do governo...



Gerald: really, Orwell me informou.



Voz off: não sou Hit.



Gerald: Vc é para poucos mesmo, darling. Adorei sua postura no onze setembro. Foi beckett!



voz off: Eu sou...O FANTASMA DE S-TÁ-LIN!!!



Gerald (apavorado, grita, faz gestos de exorcismo): VADE RETRO, SATANÁS!



(cortina de fumaça.)



Surge uma mulher síria vendendo coxinhas e kibes.



Gerald: Querida, eu quero te invadir.



Síria: Deixa de ser imperialista, Gerald.



(to be continued).