sábado, 29 de março de 2014

Adélia Prado é uma péssima poeta

"Homem é tão singelo. Eu sou singelo. Fica singela também". No Meio da Noite, Adélia Prado


Um amigo poeta uma vez me disse que Adélia Prado é uma péssima poeta.
Anderson Piva contou a história de que Brecht teria dito sobre os Processos de Moscou:
Quanto mais inocentes, mais deveriam morrer.
No entanto, Brecht escreveu num poema: "o povo é infalível?"
Meu amigo poeta esteve em clínicas psiquiátricas.
Esteve na torcida do Flamengo.
Esteve no PT, que dizia ser o maior partido de massas da América Latina.
Tentou suicídio com remédios,
Lançou poemas, pariu editoras sobre o universo.
Escreveu contos a respeito.
Meu amigo quis ser dominicano,
Mas não quiseram seu transtorno bipolar.
Eu disse a meu amigo para ser somente escritor.
Entre lágrimas, concordou.
Mas depois afirmou ser vocacionado jesuíta.
Desisti de meu amigo.
Mas com certeza, deve ser certo teu juízo, meu amigo.
Adélia Prado é péssima poeta.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Carta de Felipe e Resposta

Felipe disse...
Lúcio, eu enviei um comentário pro blog do Cristiano, dizendo que não podemos ter esperanças com relação à Rússia atual pelo fato dela ser uma potência imperialista emergente e ele até deixou de postar coisas abertamente favoráveis à Rússia. Mas discordo da sua opinião sobre o Glauber Rocha e o Jean Willys. O primeiro parece que era mais um nacionalista do que um socialista. Tanto que se submeteu a bajular escancaradamente o general-presidente Geisel, chamando-o de "gênio da raça" pra poder voltar ao Brasil. O segundo, recentemente numa conferência sobre mídia, disse que a ninguém fez tanto como a Globo no combate à homofobia. Aliás, esse negócio de dizer que fulano ou sicrano fazia parte do PCB me parece até aquelas pessoas que possivelmente nunca foram à uma missa e adoram se dizer católicas.
Revistacidadesol disse...

Felipe: cuidado com Cristiano! Ele tem valor, mas está cheio de vaidade e arrogância, expulsando todo mundo dos grupos do facebook, a mim inclusive, apenas porque desafiei o "império" do tzar cristiano com argumentos.

Glauber errou nesse ponto, alimentando esperanças sobre militares nacionalistas no terceiro mundo. Ele esperou um Chávez e encontrou um Geisel. Mesmo Chávez eu creio que foi muito menos do que o pCB gosta de assumir. O único consolo é que FHC odeia Geisel, note. Isso demonstra que apesar de tudo, Glauber ainda demonstrou algum acerto.

Mas sim, o PCB nunca apoiou o Cinema Novo não, sempre combateu. Isso está documentado.

Abs do Lúcio Jr.

sábado, 22 de março de 2014

Social-Fascismo e Farsa Eleitoral: alguns apontamentos


Jones Makaveli, do PCB, chamou a discussão sobre os conceitos de farsa eleitoral e social-fascismo em um artigo. Estou convencido de que agora é hora de votar nulo nas eleições, chamando o boicote à farsa eleitoral.

No entanto, não falo em nome do MEPR e não concordo com tudo o que eles propõem. Por exemplo, eu não concordo com a valorização do levante de 35 e nem com a caracterização do estado chinês como fascista. Até creio que a fala que tanto causou horror em Makaveli, de que no sistema atual todos são parecidos, até tem sentido, pois o caráter do estado torna-se determinante. Um DCE de Federal é parte do estado.

Em outros pontos, porém, divirjo de Makaveli: as últimas manifestações mostraram justamente a impossibilidade desse sistema social e econômico de dar uma resposta às demandas da população. Ao contrário do tempo das Diretas Já ou do Fora Collor, agora a classe empresarial e os quadros que gerenciam o nosso estado não podem fazer reformas no sentido exigido pela população, daí a inaudita violência com que o estado busca reprimi-la, atingindo até jornalistas e já tendo matado seis pessoas e ferido outras tantas.

Primeiramente, Makaveli, seu texto apresenta ataques à III Internacional, que você só vê como fonte de derrotas. Sua posição aproxima-se da posição apresentada recentemente pelo PCO, que fala em frente única contra o fascismo. Pelo que dá a entender, parece ser uma frente única que abrangeria até o PT, reparando o erro da III Internacional, que teria sido apontado por Trotsky, de confundir a social-democracia com o fascismo.  O PT seria essa social-democracia, então, passível de uma aliança e de uma formação de uma frente. A análise ignora que a social-democracia tinha muito mais diferenças com os comunistas do que com os nazistas e agiam de forma a combater superficialmente o nazismo, permitindo suas milícias, mas batendo forte no movimento dos trabalhadores. 

POR FIM, SOMENTE SE FOR ATACADA PELA EXTREMA-DIREITA A SOCIAL-DEMOCRACIA É UM ALIADO CONFIÁVEL DA EXTREMA-ESQUERDA.

Algo análogo acontece com o PT. Ele é mais tolerante e tem menos diferenças com o PSDB, partido com o qual tende a se fundir, do que com os movimentos populares contra a Copa e a esquerda não-petista. Recentemente vimos como tem sido ampla a coalização para criminalizar os manifestantes contra a Copa, abrangendo a grande mídia, intelectuais, partidos governistas, etc. Ora, não tem nenhum cabimento fazer frente com o PT contra o fascismo, pois o PT/PMDB é que criam excelentes condições para florescer a extrema-direita. Com suas microrreformas, na maior parte retóricas e cosméticas, atacadas com estrondo na mídia vinculada ao PSDB, o PT permite que a mídia e o PSDB seja uma espécie de poder moderador, botando sal nas reformas.

Nesse contexto, creio que quem deseja criar o poder popular não deve ocupar-se em preparar quadros para gerir esse velho estado latifundiário, especializado em entregar as riquezas para estrangeiros e em matar preto e índio. A margem de reformas é de microrreformas, muito negociadas com o "centrão" representado pelos partidos deixados pela ditadura, o PMDB e o DEMO, que agem no fundo do cenário, onde à boca de cena agem o PT e o PSDB, encenando o teatro de um projeto só que se divide em dois grupos com pequenas diferenças.

EM SUMA: OS MARXISTAS NÃO CONSEGUEM CARACTERIZAR O ESTADO COMO SENDO ESTADO DE EMPRESÁRIOS E ACABAM VALIDANDO UM JOGO DE CARTAS MARCADAS.

Nesse contexto, creio que não cabe a social-democratas verdadeiros, comunistas e mesmo a anarquistas disseminar ilusões como as que difunde seu texto, Makaveli. O exemplo da Venezuela é convocado por você justamente para disseminar a velha ilusão da transição ao socialismo pela via parlamentar. Você fala em comunas, fala como se na Venezuela já existisse o poder popular. No entanto, numa palestra no Brasil a propósito de Chávez, Zizek, que esteve lá, afirma que toda comuna lá fracassa e é sempre encampada pelo estado. É sabido também que, embora a Venezuela tenha adotado algumas das maravilhas que o PCB  propõe que os seus candidatos proponham no Brasil, tais como uma nova constituição, mesmo assim não realizou a reforma agrária nos tempos de Chávez, tendo começado apenas timidamente. Não há que estimular ilusões entre as massas a respeito da ampliação de direitos nesse estado latifundiário e privatista que temos aí.

Ficando os comunistas em minoria, serão "fritados" nas câmaras e parlamentos; isso implica, no atual contexto brasileiro, riscos para a integridade física de seus militantes; uma vez em maioria, isso demandaria um contexto totalmente diferente do atual, onde possivelmente os poderes dominantes manobrariam no sentido da mudanças das regras, dos processos, assassinatos, intimidação ou mesmo expulsão e recaída na ilegalidade como ocorreu em 1947.

Embora O Esquerdismo de Lênin dê embasamento para a participação em eleições, esse texto também recusa terminantemente vários dos pressupostos do marxismo ocidental, marxismo esse que em boa parte embasa o PCB. Para Lênin, a revolução russa é um modelo universal para a esquerda e há que aprender com ela. Suas teorias não são algo praticável apenas na Rússia --teoria para a qual Gramsci se encaminhou.

Não concordo com a famosa resposta de Herman Gorter a esse texto de Lênin, apresentando posições próximas aos anarquistas, recusando em bloco o leninismo: não seria preciso um partido, etc. Eu só observo que ele tem razão a respeito do quanto esse nosso parlamento aqui no Brasil, que data de 1823, ao contrário da Rússia, que só o teve em 1905, dissemina a profunda adesão a esse sistema parlamentar, embora da boca para fora ele seja refutado. Sabe-se, inclusive por depoimentos de dirigentes, o quanto o sucesso nas eleições sob a escravidão assalariada fascina e desperta o desejo dos comunistas. Há o exemplo de Numeriano, político do PCB expulso mecanicamente após ter proposto a aliança com o DEMO e o PSDB para eleger revolucionários. Isso não é fato isolado. Outro ex-dirigente do PCB relatou a enorme frustração que as pessoas do partido sofre quando, ao final das eleições, seus resultados são pífios. As eleições tensionam o PCB e em geral depois delas alguns acabam saindo ou sendo expulsos. Assim foi o caso de Rafael Pimenta, político do PCB no qual votei para senador e que propunha o fim do senado.


Na prática, embora as eleições sejam aceitas apenas como uma tática, em função de inúmeros condicionantes, infectam de fato, no atual estágio, com um estado de espírito oportunista e eleitoreiro. A esquerda socialista digladia-se pela cabeça de chapa, pois para um intelectual sem circulação, a divulgação de seu nome nos meios de comunicação, de outra forma muito restrita, alavanca sua carreira e granjeia oportunidades e propostas no estado e nos partidos da ordem, onde ele poderá desenvolver uma carreira mais tradicional, "perdendo suas ilusões". É visível que os candidatos sonham em melhorar socialmente ocupando esses cargos; internamente, chega-se até a forjar pesquisas falsas e ilógicas onde os candidatos socialistas atingem os primeiros lugares, fato posteriormente desmentido pelas pesquisas do sistema e pelos próprios resultados do sistema, tudo mostrando que o deslumbramento com as estruturas podres é muito maior do que em geral gosta-se de assumir.

NA PRÁTICA, NÃO SE ASSUME QUE O ESTADO É BURGUÊS E QUE ELEIÇÕES SERIAM APENAS PARA EDUCAR O POVO, POLEMIZAR, FAZER DENÚNCIAS. NA PRÁTICA, AS TEORIAS APRESENTADAS PELO PCB VALIDAM ESSE ESTADO E DÃO ESPERANÇA EM SUA AMPLIAÇÃO DEMOCRÁTICA, BASTARIA PARA ISSO ELEGER SEUS CANDIDATOS.

Isso também é visceralmente falso. Para fazer mudanças como na Venezuela seria preciso uma maioria parlamentar. E mesmo assim, sabe-se que são mudanças na superestrutura e não na estrutura, existindo, sim, uma analogia possível com o que faz o PT ao criar Lei Seca, Lei Maria da Penha, Lei da Palmada, etc.

Outro ponto, sempre esquecido, É QUE O BOLIVARIANISMO SE APOIA, COMO O PT, NUM SETOR EMPRESARIAL QUE TEM INTERESSE EM ESTRUTURAR O ESTADO, LUCRANDO A PARTIR DESSE ESTADO, MAIS DO QUE NA CONSTRUÇÃO, AINDA INCIPIENTE, DE UM PODER POPULAR.

O socialismo que propunha Chávez não era o marxista. Ele mesmo afirmou que o marxismo-leninismo estava superado em função da telemática, da informática e propôs o socialismo bolivariano, cristão. Para dar força a suas posições, evoca ninguém mais, ninguém menos do que...Fidel Castro! Castro apoiaria, claro que informalmente, essa via parlamentar, reformista, na Venezuela, na prática, abandonando o marxismo-leninismo e na prática sugerindo a aliados como Chávez o reformismo, pois o socialismo cristão conforme definido por Marx é a burguesia em evolução, burguesia reformista.

O CERNE DO REFORMISMO DE CHÁVEZ É O NACIONALISMO E NÃO PARECE HAVER HORIZONTE PARA REPETIR ALGO ASSIM NO BRASIL. DEPOIS DA MORTE DE CHÁVEZ, COM A MUDANÇA DO HORIZONTE INTERNACIONAL PARA UMA CRISE ONDE AS GRANDES POTÊNCIAS PRECISAM AUMENTAR SEUS LUCROS E A MARGEM PARA MANOBRA DOS REFORMISTAS DIMINUIU, A TENDÊNCIA DESSE REFORMISMO BOLIVARIANO É O FRACASSO, É ENCONTRAR O MESMO DESTINO DE JANGO E ALLENDE. NUM OUTRO CENÁRIO, PODE DE FATO HAVER UMA GUERRA CIVIL NA VENEZUELA.

O dilema do Brasil em 54 e 64 é que os social-democratas varguistas, para poderem aplicar um programa social-democrata, são obrigados a recorrer à violência e aproximar o país da guerra civil. Diante desse dilema, que implica em deixar sua natureza reformista, a social-democracia varguista suicidou-se, primeiro em 54, depois definitivamente em 64. Em seu lugar surgiu a social-democracia petista, que usa inúmeros disfarces e retórica radical, mas por fim associa-se ao PMDB e adota suas práticas de fazer tudo lenta e gradualmente: deixa as reformas a favor do trabalho em banho maria, enquanto aprofunda processos a favor do capital. No lugar de suicidar-se, o caminho do PT parecer ser o de transformar-se naquilo que é conveniente conforme a circunstância, ou seja, o oportunismo.

É preciso, então, afastar essa ilusão de que hoje o castrismo é revolucionário e propõe algo como o guevarismo ou a teoria do foco. Cuba, na prática, não é um bom aliado para um movimento revolucionário. Ela tem interesses nacionais e tem interesse na estabilização da América Latina.

CUBA, PORTANTO, HOJE EM DIA NÃO É UM GOVERNO REVOLUCIONÁRIO, ABANDONOU O SOCIALISMO MARXISTA E APOIA REFORMISTAS.

Outro enorme problema é cultivar o falso pluralismo e o ecletismo. Em geral, quem fala em pluralismo fala em pluralismo apenas para grupos e facções com ideias semelhantes às suas. Em geral, um grupo hegemônico observa a oposição interna e age no sentido de expulsá-la assim que possível. A ideia maoísta de que é preciso preservar as minorias e que é natural a luta entre duas linhas hoje é mais do que uma necessidade. Por isso se pode dizer que não há marxismo fora do maoísmo, pois essa forma de marxismo apresenta resposta para questões que estão em aberto até hoje.

Assim, a visão equivocada da história do socialismo desloca a reintrodução do capitalismo e o começo da desagregação da revolução russa para 1929, numa visada alinhada ao trotsquismo e não para Kruschev, ou seja, 1956; falta, então, denunciar os ataques a Stálin como desculpa para a reintrodução do capitalismo.

Toda essa confusão ideológica, que pode ser resolvida com a livre discussão, poderia ser resolvida com o virar às costas às eleições, numa chamada para o boicote.

Aliás, creio em 2014 que a população em peso votará nulo, rejeitando mais uma vez a esquerda que se vincula ao estado. Justifica-se, então, afastar-se de um estado comprometido.












sexta-feira, 21 de março de 2014

Crítica do Humanismo Proletário e Contra o Nazi-bolchevismo

Nunca imaginei que fosse me dar ao trabalho de escrever isso, mas vou ter que escrever. Marco posição ao me manifestar contra uma vertente por aí pela web, com a qual alguns estudiosos da União Soviética e mesmo do professor Grover Furr mostram-se coniventes.

Aliás, quando enviei a Furr o texto de Arthur Fillipov, autor de livro didático que provocou polêmica na Rússia, ele achou uma porcaria os termos nacionalistas burgueses russos em que o texto trata Stálin. 

O Brasil, como dizia Glauber Rocha, que além de cineasta era importante pensador do Brasil, é um país extremamente colonizado, é colonizado até no sexo. Por isso, com a crise internacional, assim como a emergência de bibliografia marxista-leninista convincente para poder demolir o paradigma Guerra Fria, surgem alguns poucos, mas aguerridos, militantes decididos a procurar a verdade. A tendência, no entanto, parece ser de recaírem em velhos equívocos, muitos já desmistificados por Oswald de Andrade e Glauber Rocha.

O primeiro é exaltar a Rússia, fato muito bem apontado por Oswald de Andrade no antigo PCB. Rezar pela União Soviética, algo também comentado por Glauber Rocha. O Brasil é um país onde a colonização é algo ainda forte demais para que alguém não corra risco de ser colonizado pela Rússia e tornar-se um russófilo. É preciso espelhar-se em Glauber Rocha, sertanejo que conquistou o mundo, assim como em Luiz da Camara Cascudo, Gilberto Vasconcellos, o grande Oswald, Gilberto Freyre, dentre outros artistas e pensadores importantes. É preciso romper com a tendência brasileira de caboclo querer ser inglês --ou ser russo.

Sendo assim, muitos querem aproveitar  a mudança de paradigma histórico da Guerra Fria e cobram que eu deveria arremeter, também, contra o que chamam pós-modernismo. Mas o que seria isso? Não me prendo a meros rótulos. Eu sempre encontro um ou outro elemento progressista ou avanço nos ditos pós-modernos. Há muito o que rejeitar em pensadores como Deleuze, Foucault, Derrida, mas há também o que preservar. O próprio Maksim Gorki admirava muito Nietzsche e Nietzsche é a base dos pós-modernos.

Sendo assim, me oponho com veemência à postura de Cristiano Alves, dono do blog Página Vermelha, em suas posições recentes. A partir da posição do governo de Putin e de jornalistas russos, posições que ele confunde com marxismo-leninismo, pois na Rússia a margem de opinião respeitável a respeito de Stálin é bem mais larga do que aqui, ele se confunde totalmente, repetindo tolices e inversões. Ele se baseia em um texto de Gorki sobre o humanismo. Numa passagem do artigo, que é até bom em linhas gerais, Cristiano reproduz uma passagem que tem, a partir da enorme repercussão negativa na esquerda, se tornado o centro enlouquecido de suas reflexões: "já se criou um provérbio sarcástico: destruam os homossexualistas e o fascismo desaparecerá". Isso seria certo acaso estivéssemos falando sobre homossexuais reprimidos como Ernest Rom, das SA nazistas, assim como Roy Cohn, perseguidor de homossexuais na Guerra Fria e que era ele, também, homossexual. Aí sim: liberem os homossexuais reprimidos e o fascismo, se não desaparecerá, perderá com certeza alguns de seus defensores.

 Cristiano, em seu entusiasmo de colonizado pela mãe Rússia, liga o governo Putin e sua relativa tolerância com estudos sobre Stálin --mas que não deixa, também, de desestalinizar como todo bom anticomunista, tendo promulgado uma legislação que visa desestalinizar e punir os funcionários públicos que estejam de alguma forma ligados a essa linha de ação e pensamento.

A partir dessa reflexão datada e hoje totalmente anacrônica, Cristiano tem feito o seu cavalo de batalha contra "o pós-modernismo". A arte abstrata foi chamada, em um comentário em seu canal no youtube, de "quadros em que só tem um risco". Ora, tem um só risco, ou seja, só uma linha, algumas vezes, para você perceba: TODO QUADRO É COMPOSTO DE RISCOS, OU SEJA, DE LINHAS, DE COR, DE TEXTURAS, ETC. O pós-modernismo foi apontado, mais do que o imperialismo, como "aquilo que está acabando com o mundo", o que é falso e confunde conceitos.

 Cristiano também se mostra conivente com uma ideologia esdrúxula, uma proposta "jovem" de misturar nazismo e bolchevismo, o tal "nazbol". É até uma tribo urbana, durante algum tempo divulgada pelo "poser" Felipe Maestrello pelo facebook afora. A União Soviética foi, desde sempre, o extremo oposto do nazismo, um estado construído por trabalhadores e camponeses. Confundir isso é disseminar a confusão ideológica.

A verdade sobre esse estado é que o socialismo foi construído por Lenin e Stalin e desmantelado por Kruschev, Brejnev e Gorbachev. O capitalismo volta a ser reintroduzido por Kruschev, Brejnev continua o trabalho (o que muitos, infelizmente, contestam) e Gorbachev, implanta um estado burguês descarado, fato já denunciado por Abimael Guzmán em uma entrevista a El Diario em 1986.

Cristiano, no entanto, ao invés de rever sua posição, cada vez mais se enterra numa posição equívoca, bradando que Bolsonaro e Jean Wyllys são abominações e, com base numa leitura um tanto quanto mecanicista de que a ditadura militar apoiou a pornochanchada porque a Embrafilme fez pornochanchadas e a Embrafilme era uma empresa estatal --ora, a Embrafilme também apoiou o Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Idade da Terra e filmes bons, como Macunaíma, que não são pornochanchada. Ora, para seu governo,a Embrafilme foi construída em CIMA DO MITO GLAUBER ROCHA, foi construída em cima desse sertanejo destemido e do Cinema Novo. Só uma leitura muito rasa da pornochanchada pode levar a uma conclusão que elas "não faziam diferença entre hetero e homossexualidade". O olhar da pornochanchada, que era uma comédia erótica, era um olhar masculino. A homossexualidade entrava de uma forma que ela é aceita dentro desse código: são comuns, nesses filmes, as bichas estereotipadas, com as quais repete-se o ato realizado pelo machão junto à mulher, o homem "afeminado". Na realidade, a "bicha" pode ser o amigo do jogador de futebol que tatua "amor eterno" em seu corpo, mas que mesmo assim pode ser capaz das maiores brutalidades contra mulheres, chegando até mesmo ao assassinato, quando pode ser alguém como Jean Wyllys, que, por mais diferenças que eu tenha com ele, tem um papel progressista e quase sempre aponta o que eu gostaria de apontar.

Cristiano parece desvairado no desejo de polemizar e alcançar fama. Chega a dizer que no tempo da ditadura militar "era comum a iniciação sexual de jovens com travestis, como contou Pelé". Ora, ora, Cristiano, Pelé contou sua iniciação sexual nos anos 50, com outro rapaz, não com travestis. Que eu saiba, a ditadura militar não começou nos anos 50.

Wyllys, certa vez, ao ser entrevistado por Jô, observou: "Jô é um conservador". É muito importante ventilar esse tipo de opinião.

O reforço da ideologia dominante está no estereótipo, no clichê. Por isso filmes como Crô, da Globo Filmes, disseminam um reforço aos poderes dominantes, assim como a maior parte dos filmes e, no geral, no material erótico que circula na web. Não acho sofisticado substituir Silas Malafaia por padres ortodoxos da "Mãe Rússia". É completamente absurdo e alienado dizer que "a ditadura fez mais pelos homossexuais do que políticos como Jean Wyllys", por Cristiano chamado, sem melhores argumentos, de "porco" e beira a insanidade bradar, agora, aos cinquenta anos do golpe, que "defender a volta da ditadura fascista é defender o homossexualismo".

E é sempre bom lembrar que, se a ditadura apoiou a pornochanchada, o PCB também a apoiou. O diretor de A Dama do Lotação, assim como alguns outros que fizeram pornochanchada e ganharam dinheiro, fazendo sucesso com o dinheiro do estado financiando filmes comerciais, era ligado ao PCB e isso foi denunciado por Glauber Rocha em várias ocasiões.

ENTÃO, MINHA POSIÇÃO É A SEGUINTE: PELA BUSCA DA VERDADE CIENTÍFICA SOBRE TODOS OS ASSUNTOS, DESDE A HISTÓRIA DO SOCIALISMO ATÉ A SEXUALIDADE HUMANA! FORA COM O RETROCESSO!!!






quinta-feira, 20 de março de 2014

Bye, Bye, Trotsquistas!


    Anos atrás, desiludido com o PT, eu conversava com um conhecido que tinha se passado para o PSB, então o partido dos petistas banidos. Meu conhecido estava no PSB e tentou me convencer a ir lá, me passando inclusive um livro de um dos téoricos do PSB na época, intitulado Bye, Bye, PT.

Estou surpreso, agora, por estar reencontrando, por no texto Aos Trotsquistas, o arrogante teórico Gilvan Rocha,  que postula a tese mirabolante de que o trotsquismo é um stalinismo. Ele chega a desafiar, com sua  tese, o hiper-trotsquista Álvaro Bianchi.

Gilvan, por trás de todas as suas falas existe uma oscilação interessante: o antileninismo. Você, na verdade, se opõe a Lênin, não simplesmente a Trotsky ou Stálin. Quando você contesta o partido de vanguarda, o centralismo democrático, os expurgos, você contesta o leninismo, embora não queria assumir, pois não é uma posição charmosa e você, no seu charlatanismo psolista, antes pesebista, é antileninista. Mas você vai mais além. Você aceita qualquer besteira anticomunista sobre Coreia do Norte, Cuba, sobre a União Soviética. Você é, em parte, um anticomunista. Você não argumentou e respondeu ao Álvaro Bianchi. Falta a você frequentar os livros.

 Masa verdade sobre Trotsky é a seguinte: ele era um menchevique. Ele criticou Lenin durante anos, fazendo esses mesmos ataques que você ou ainda mais baixos. Chamou Lenin de ditador. Depois, aliou-se ao partido bolchevique e parecia ter mudado de ideia. Desempenhou um papel de valor na revolução russa, mas como tantos outros, não foi o gênio que ele mesmo celebra. No entanto, cheio de vaidade, voltou com o fracionismo de novo, reeditou seus velhos livros, pautou a revolução permanente, ou seja, as aventuras militaristas na Europa, dentro do partido. Puro bonapartismo. Quis suceder Lênin, mas a velha guarda bolchevique, que não gostava dele e de seu falso bolchevismo (notada por Lênin em famosa carta ao congresso), o derrotou em eleições para cargos importantes. Lenin também deixou claro que julgava Trotsky um burocrata. Derrotado, insistiu e rompeu o centralismo. Ao radicalizar, foi enquadrado e banido para o Casaquistão. Ao ousar mais ainda, foi novamente enquadrado na lei e exilado. Exilado, acochambrou a teoria da revolução permanente ao que lhe tinha acontecido: a revolução degenerou, foi traída politicamente A partir daí, passou a falar tudo o que dizia contra Lenin de Stalin --e muito mais: chamou de burocrata, ditador, acusou de envenenar Lênin, chamou de Rei Sol, comparou com Hitler, enfim, deu todos os argumentos para a burguesia e muito mais. A imprensa burguesa deliciou-se com Trotsky e mesmo as universidades se abriram para eles a partir do final dos anos 50.

Antes, porém, nos anos 30, nos últimos anos que viveu, Trotsky chegou ao extremo da traição ao estimular o que restava de seu grupo na União Soviética colaborar secretamente com os nazistas e os japoneses, como prova em artigo extensamente argumentado o professor Grover Furr.

Não tenho interesse em ler o livro O Homem que Amava os Cachorros, de Alejandro Padura, amigo de Yoani Sánchez, editado no Brasil pela Boitempo. Literatura trotsquista é sempre altamente vendável, como observou George Orwell sobre a biografia de Stalin por Trotsky. Pelo que li, é um olhar que simplesmente suprime o Jacson Monard histórico, sobrepondo-o à figura do tal agente stalinista Ramon Mercader.

No debate brasileiro sobre o Homem que Amava os Cachorros, de Alejandro Padura, noto a desfaçatez de Oswald Coggiola ao comentar o filme de Losey, datado de 72, onde a trotsquista Silvia Orthof seria representada como "feia". O debate conta com Alvaro Bianchi, Breno Altman, Frei Beto e outros luminares, mas mesmo assim, com exceção de Altman, que é cognominado último stalinista pelo hiper-ultra-trotquista Alvaro Bianchi, mostrando como os trotskos gostam de desconhecer a realidade. Altman, felizmente, cita o Domenico Losurdo, ou seja, o texto Stalin, uma Lenda Negra. Altman se destaca positivamente, dando um respiro de otimismo, enquanto os demais chafurdam e demonstram repugnante corporativismo trotsquista. Beto pensa que Trotsky é um herege queimado na fogueira como Giordano Bruno.

Nesse contexto,  é nojento ver como a maioria dos trabalhos acadêmicos apenas regurgita clichês trotsquistas e da Guerra Fria, misturados a textos infestados por clichês anticomunistas, portanto ruins no nascedouro, os indefectíveis e quase obrigatórios Hobsbawn, Hannah Arendt e outros.

 O papel mais feio é o de Coggiola, que parece que sente a morte de seu guru nesse episódio e ataca gratuitamente a imagem de Orthof no filme. No entanto, Padura, acenando para um stalinismo em Cuba que provavelmente nunca existiu, escreve esse romance que, pelo que li a respeito, pelo visto não dá voz a Jacson Monard, que negou terminantemente ser um agente de Stálin e que foi torturado pela polícia mexicana. Monard sempre afirmou que matou por ter se desiludido com Trotsky. Este o proibiu de casar-se com Silvia e sugeriu que fosse aplicar atentados e sabotagem na União Soviética. Horrorizado ao notar que o que se dizia sobre o guru era verdade, contrariado em sua paixão pela trotsquista, Monard decidiu matá-lo. Foi, segundo sua versão, em boa parte um crime passional.

O filme de Losey não mostra esses argumentos e é bastante parcial desde o início. No momento em que o filme deveria mostrar esses argumentos, ou seja, a versão de Monard dos acontecimentos, ele mostra a personagem de Silvia Orthof gritando: "MENTIRA! MENTIRA!"

O que se sabe, pelo general Sudoplatov, é que de fato existiu uma ação antitrotsquista dos comunistas no México. Ele não diz que Monard estava associado a essas ações, mas Sudoplatov, escrevendo muitos anos depois do fim da União Soviética, estava ainda convicto da culpa de Trotsky, que estaria colaborando com os nazis e japoneses, fato nunca mencionado.

Aliás, Trotsky era assim: quando estava em maioria, aceitava o centralismo e buscava calar os adversários. Quando estava em minoria, gritava por liberdade. Suponho que você também deva comportar-se assim, pois os partidos como PSOL, anticentralistas, em geral fazem isso.

Felizmente, com os equívocos do PSOL e do PSTU para analisar o golpe que instalou um regime nazista na Ucrânia, finalmente fica evidente o papel do trotsquismo como instrumento vulgar do imperialismo. Oxalá que superemos essa teoria errônea para sempre. Gilvan, você e essa pelegada maluca vão levar picareta é da realidade, não de um agente que vai sair das sombras ou de alguma nebulosa.






terça-feira, 18 de março de 2014

Eu sou um passageiro do vôo da Malaysian Airlines

"Por que não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan" Drummond.



Drummond, sim,  sou eu, eu posso, como passageiro do vôo MH

Posso o vôo para paragens distantes deslocar.

Telefones tocam e não serão atendidos.

O vôo está suspenso, estamos presos junto aos elfos.

A China passa imagens no mar, o Vietnã não há.

Investigam-se os iranianos, investigam-se os passageiros, o piloto, os passaportes falsos.

Não estamos no Kazaquistão, nem no Paquistão. Não estamos à espreita  de uma torre gêmea para acertar.

Estamos mais perdidos que o trono português em 1578.

Estamos junto a Dom Sebastião, numa ilha nebulosa, nas Ilhas Afortunadas. Como perguntou o profeta Noubari Gerson: "Quem são as Ilhas Afortunadas?"

Sim, sou eu, o passageiro do voô MH.









Dois artigos polemizando sobre o novo acordo ortográfico

A Revista Piauí, recentemente, reabriu a polêmica sobre o novo acordo ortográfico, transcrevendo uma entrevista com o escritor português antiacordista Pedro Mexia, que escreve o blog malparado.blogspot.com

Seguem dois de seus artigos polemizando sobre o acordo:



O ALEIJÃO
Volto ao assunto, porque o assunto continua. Deu-se até o caso de os defensores da coisa andarem por aí mais mudos do que as consoantes a que chamam, toscamente, mudas. E depois de o Brasil ter suspendido o “acordo” ortográfico para avaliação, muita gente começou a perceber que não há inevitabilidades, nem combates perdidos à partida, apesar das traições dos académicos e da cobardia de certos políticos deste Governo, que se diziam anti-acordistas quando estavam na oposição.
Pessoas que achavam que “tanto faz” ou que era muito barulho por nada, começam a dar ouvidos a Eduardo Lourenço e a António Lobo Antunes; a Vasco Graça Moura e a José Gil; a Pacheco Pereira e a Miguel Esteves Cardoso; até a Ricardo Araújo Pereira e João Pereira Coutinho, que devem estar de acordo em poucos assuntos. E talvez essas pessoas tenham lido as seguintes notícias: a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa não aplicou o “acordo”; a Associação Portuguesa de Linguística criticou-o; o PEN Clube recusou-o; a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros distanciou-se dele; a Sociedade Portuguesa de Autores e a Associação Portuguesa de Escritores não o aceitam.
Foi-se tornando claro como água que o “acordo” ortográfico não é um acto cultural. É um acto político, como reconheceu aliás o autor moral da iniquidade, Malaca Casteleiro, em declarações a este jornal: “Isto não é uma questão linguística, é uma questão política, uma questão muito importante do ponto de vista da política de língua no âmbito da lusofonia. Esquece-se muitas vezes que, para haver lusofonia, tem de haver medidas concretas e alcance prático e esta é uma delas”. E que tal “medidas concretas e de alcance prático" como uma CPLP relevante, um Instituto Camões activo, apoios às traduções e aos leitorados, bibliotecas bem equipadas? Era mais útil, menos megalómano, menos nocivo.
Também caiu a tese, assacada em bloco aos anti-acordistas, de que o “acordo” é uma “cedência ao Brasil”. Porque entretanto multiplicaram-se as reacções hostis além-Atlântico. O dramaturgo Ariano Suassuna, por exemplo, preferiu sair dos manuais escolares a ver os seus textos republicados em “acordês”. E o grande Millôr Fernandes, antes de morrer, teve ainda tempo para declarar em bom português: “O acordo ortográfico é uma merda”. Um reputado especialista em Camilo Pessanha, Paulo Franchetti, da Universidade Estadual de Campinas, declarou: “O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano; a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o Governo apressadamente impôs como lei (…). O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa”. Não vale a pena tentar apresentar os anti-acordistas como “anti-brasileiros”, porque há bem mais brasileiros anti-acordistas.
Infelizmente, muitos portugueses pregam o aleijão como se fosse um unguento. O actual Presidente da República disse um dia que o português de Portugal se arriscava a tornar-se numa espécie de Latim, como se uma variante falada por dez milhões de indivíduos equivalesse a uma língua morta. Já a grotesca “Nota Explicativa” ao “acordo” explica que os portugueses estão “teimosamente” apegados à sua grafia, dando-nos reguadas de mestre-escola pela nossa impertinência cultural. Para acabar com tal desfaçatez, uns quantos sábios da Academia das Ciências de Lisboa impuseram aos luso-falantes a sua aberrante legislação, quando nos países onde existem Academias realmente prestigiadas vigoram recomendações não-vinculativas, dicionários excelentes, consensos transcontinentais. Mas os políticos e os académicos não se contentam com uma língua que muda espontânea, inevitável, e constantemente; querem mudanças por decreto, como déspotas iluminados que são.
Fizeram o “acordo” ignorando os pareceres técnicos divergentes e a opinião de agentes qualificados da língua. E agora assustam-se com o levantamento cívico. Perceberam que fracassaram, que nem todos nos calamos, que estivemos atentos às consequências. O “acordo” quis unificar a língua e multiplicou duplas grafias, facultatividades, cláusulas de excepção, “opting outs”. Quis simplificar o ensino e cortou as palavras da sua raiz etimológica, da sua família, dificultando uma compreensão de conjunto. Quis ser um acordo “lusófono” e pouco mais é do que um contrato luso-brasileiro, do qual os brasileiros duvidam. E agora ainda passámos pela humilhação de ter o oficioso “Jornal de Angola” a lembrar-nos que o “étimo latino” ajuda a compreender o percurso de uma palavra.
Este acordo não serve, não presta, é preciso denunciá-lo ou, no mínimo, revê-lo em profundidade. É preciso acabar com aberrações como a recessiva “receção” e o tauromáquico “espetador” e a lasciva “arquiteta”. E com a fantasia de que as consoantes que abrem as vogais são “mudas”. E com a ideia de que a escrita é uma transcrição da fonética. Introduzam o xis, o ípsilon e o zê, escrevam Janeiro e Inverno com minúscula, mas deixem em paz a língua portuguesa.

[as citações são retiradas de “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico”, de Pedro Correia, edição Guerra e Paz]



 ANTIGA ORTOGRAFIA

Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.
Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.
Não é este “acordo” que vai trazer expansão e prestígio ao português. Contenta uns “acadêmicos espertos e parlamentares obtusos”, como escreveu um colunista brasileiro, e alguns editores, que têm bom dinheiro a ganhar com esta negociata. Mas é difícil imaginar que alguém acredite que vem aí uma “unificação da língua” só porque se legislou uma “unificação da grafia”. Um brasileiro continuará a falar uma língua muitíssimo diferente do português de Portugal, diferente em termos de léxico, de sintaxe, de fonética. Um português, com um exemplar do Acordo debaixo do braço, bem pode perorar em Iraguaçu, que alguém lhe continuará a perguntar “oi?”, pois não percebeu metade. E isso não tem problema algum, a “lusofonia” não vale pela unidade mas pela diversidade, pelo facto de haver um português europeu, africano, americano e asiático. E ninguém é dono da língua: nem os brasileiros por serem mais, nem os portugueses por andarem cá há mais tempo, muito menos uns académicos pascácios que dicionarizaram “bué” e “guterrismo”.
É significativo que o próprio “acordo” reconheça o fracasso do projecto de “unificação a língua”. Dadas as flagrantes diferenças entre o português e o brasileiro, os sábios são obrigados a admitir a existência de duplas grafias, uma cá, outra lá [África, para estes iluministas, é paisagem]. Pior ainda, introduzem uma “grafia facultativa” que estabelece como termos lícitos tanto “electrónica” como “eletrónica”, “electrônica” ou “eletrónica”. O linguista António Emiliano deu-se ao trabalho de enumerar em livro os erros, contradições, imprecisões e dislates desta lei iníqua. Leiam-no. E não digam que ninguém avisou.
A minha recusa deste “acordo” não é casuísta nem temperamental. Não se trata apenas de não gostar de ver os espectadores transformados em bandarilheiros “espetadores”; de não perceber como é que os habitantes do “Egito” não são “egícios”; de ficar estupefacto com o “cor-de-rosa” com hífen e o “cor de laranja” sem hífen; de prever os imparáveis espalhanços de um “pára” do verbo “parar” que perde o acento e talvez o assento. É isso mas é mais que isso: eu discordo veementemente do critério fundamental do “acordo”: a primazia da fonética sobre a ortografia.
É verdade que todos falamos antes de sabermos ler e escrever, mas quando aprendemos essas competências sofisticadas interiorizamos uma língua diferente da falada, que nalguns casos nem tem exacta correspondência fonética mas que se liga a uma memória histórica e cultural. Quando aprendemos a ler, fixamos a forma gráfica das palavras, uma forma que memorizamos e que nos acompanha a vida toda, de modo que nunca mais lemos letra a letra, mas reconhecemos de imediato uma grafia aprendida há muito, “antiga”, sim, muito antiga. A ortografia não é uma transcrição fonética, nem podia ser, dadas as variantes do português falado. Ou nas pronúncias regionais. Como escreveu Emiliano, não vamos criar uma “ortografia do Alto Minho” só porque a pronúncia de Caminha é diferente da pronúncia de Cascais. Ou de Curitiba.
E não me digam que são pouquíssimas as palavras alteradas: procure quantas vezes neste jornal aparece ação, ator, atual, coleção, coletivo, diretor, fato, letivo, ótimo, e repare que são algumas das mais usadas. É por isso que o cavalo de Tróia das “consoantes mudas” deve ser denunciado. Em primeiro lugar porque não são mudas coisíssima nenhuma: abrem as vogais precedentes, e numa língua danada por fechar vogais. Depois, porque não são inúteis, ajudam a distinguir termos homógrafos e indicam a etimologia de palavras afins. Fazem sentido, ao contrário do “acordo”.
Dizem os acordistas que a nova ortografia “simplifica” e “facilita a aprendizagem”. Toda a gente sabe o que significa “facilitar a aprendizagem”, e os resultados que isso deu no ensino. E se a intenção é “simplificar”, que tal escrevermos todos em linguagem de telemóvel? Por mim, continuarei antigo.


domingo, 16 de março de 2014

Cartas para Revista Piauí

Outra carta (não-publicada), para a Revista Piauí:






Caros editores da Piauí:

George Orwell mentiu em suas cartas ("Espero sair com vida para escrever", Revista Piauí_81) a respeito da não-existência da conspiração trotsquifascista. A conspiração existiu, há evidências. Vejam uma prova abaixo, uma transcrição de um julgamento na Alemanha nazista:

"No início de 1938, durante a Guerra Civil Espanhola, o acusado obteve a informação, graças à sua capacidade de oficial, de que uma rebelião contra o governo local vermelho no território de Barcelona estava sendo preparado com a co-operação do serviço secreto alemão. Esta informação, com colaboração de Pöllnitz, foi transmitida por ele para a Embaixada da Rússia Soviética, em Paris. "

"Pöllnitz" foi Gisella von Pöllnitz, um recente recruta da "Orquestra Vermelha" (Rote Kapelle) anti-nazista de espionagem soviética que trabalhou para a United Press e que "empurrou o relatório através da caixa de correio da embaixada soviética" (Brysac, resistindo a Hitler: Mildred Harnack e a Orquestra Vermelha. Oxford University Press, 2000, p 237).

A prova está num livro que reúne os julgamentos no terceiro reich, de autoria de Norbert Haase: Haase, Norbert. Das Reichskriegsgericht und der Widerstand gegen die nationalsozialistische Herrschaft. Berlin: Druckerei der Justizvollzugsanstalt Tegel, 1993). O parágrafo relevante está na página 105.


Atenciosamente,

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Rua Dona Mariquinha, 30
Bom Despacho MG
356000 000


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Uma carta publicada na Revista Piauí:


Caros editores da Piauí:

Sinto que há uma burocracia trotsquista instalada na revista. Tanto na matéria Escândalos da República quanto naquela que se chama Cooperação Conturbada há referências a uma suposta "casta stalinista" e "burocracia stalinista" da Wikipedia. Não se esqueçam de que, numa de suas últimas cartas lidas em Congresso, Lênin se refere a Trotsky como alguém com preocupações meramente administrativas (ou seja, um burocrata). Lendo Stalin, um Outro Olhar, de Ludo Martens, se pode ler como o partido aumentou no tempo de Stálin, assim como ele sempre privilegiou a base em detrimento da cúpula. A respeito do período Stálin, sugiro uma matéria sobre o polêmico trabalho do professor Grover Furr, de Montclair State University.

No caso da wikipedia, na qual já tentei contribuir, o que existe é uma patota arrogante, que centraliza tudo numa cúpula, apagando ou se apropriando das contribuições dos outros. Eu contribuí com um artigo sobre o filme de Caetano Veloso, assim como sobre a maldição da família Hemingway e sobre o poeta D. A. Levy. Os artigos e notas sobre Caetano e Hemingway foram apagados, mas um dos sabidos da patota reescreveu o artigo sobre o poeta beatnik, apropriando-se dele. Suponho que é isso o que está acontecendo na Wikipedia.

Aguardo, portanto, expurgo na Piauí para poder livrar vocês de seus burocratas trotskos.

Atenciosamente,

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Rua Dona Mariquinha, 30
Bom Despacho MG
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A Outra Morte de Jacson Monard na Revista Piauí

Carta não publicada na Revista Piauí:

O artigo "Detetive Particular" (Piauí_87) de John Lee Anderson chamou-me a atenção por tocar num assunto extremamente interessante: o assassinato de Trotsky. Procurei a resenha de Yoani Sánchez sobre o livro ("Stalinismo vivo em Cuba")mencionada de passagem na matéria. Ela entra em contradição com o texto de Anderson. Yoani fala que saíram "uns trezentos exemplares do livro, dentre os quais cem atingiram o público"; enquanto Anderson comenta que, diferente dos livros de Juan Gutiérrez, "os livros de Padura estão por toda parte" (p. 47). A meu ver, Yoani, como com frequência faz a Piauí, nega que a liberdade que hoje se vive em Cuba, atendendo a obscuros propósitos ideológicos.

Ao que tudo indica, Padura foi mais um a silenciar o que Ramon Mercader (segundo o editorial do Pravda que deu a notícia em 1940, Jacson Monard) dizia a respeito de si mesmo. Mesmo sob tortura da polícia mexicana, nunca se disse agente da KGB (informação da wikipedia). Monard, um comerciante belga que, de início, ignorava Trotsky (fato mostrado no filme de Joseph Losey de 1972) sustentava que queria casar-se com a trotsquista Silvia Orthof, mas Trotsky, ao invés disso, sugeriu que ele fosse fazer atentados na URSS. Contrariado e desiludido com seus ideais, Monard matou-o.


Atenciosamente,

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Rua Dona Mariquinha, 30
Bom Despacho MG
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terça-feira, 11 de março de 2014

O Mundo Bizarro do Professor Bertone



   O professor Bertone Sousa resolveu, num momento em que o programa Mais Médicos, programa da mídia mais venal, resolve atacar Cuba e mostrar-nos o mundo por um prisma bizarro. Digo isso porque, embora Bertone tenha combatido Olavo de Carvalho apaixonadamente em uma polêmica recente, ele simplesmente resenha um livro da Editora Leya nessa postagem:

      


                                                  Super-homem bizarro



   Leya é a editora que publica livros equivocados tais como o Manual do Politicamente Incorreto do Pondé e também luminares que denunciam o mensalão e reescrevem a história de forma "politicamente incorreta" como Leandro Narloch, ou seja, por uma ótica de extrema-direita, darwinista social ou próxima ao fascismo. Na verdade, Bertone se estranhou com Olavo de Carvalho, mas ele lê Olavo e não o jornal O Vermelho, do PC do B, que para ele é radicalismo (e para mim não é nem comunista, eu vejo o PC do B como um partido integrado ao estado). De centro-direita, ele dialoga com mais proveito com a extrema-direita e não com a extrema-esquerda. Ele deve sonhar em ser publicado na nossa grande mídia. Ele já começa o texto invertendo os fatos:


 Quando a blogueira cubana Yoani Sanchez veio ao Brasil, além de ter sido esculachada por alguns militantes acéfalos, ainda foi severamente criticada por variados meios jornalísticos de esquerda que associavam suas atividades de crítica ao regime castrista à CIA e sua consequente venalidade. Nenhuma dessas pessoas e desses meios jornalísticos se deu conta de que na terra de Fidel eles não teriam a mesma liberdade de opinião e manifestação que possuem no Brasil, onde uma esquerda democrática está no poder sem nenhum projeto totalitário.

Sim, professor Bertone, Yoani sofreu protestos por parte de militantes da esquerda em geral, a não ser os do PSTU, que não protestaram porque se sentiram representados por ela. Durante sua vinda, o que se viu foi uma grande onda de apoio a ela na grande mídia. Ela foi entrevistada no Roda Viva da TV Cultura e cheguei a ver telejornais onde ela assumia posição de âncora, comentando as reformas de Raul Castro e dizendo que "são tentativas de um homem que sabe que está ficando para trás". Ninguém perguntou sobre sua formação, sua autorização para trabalhar como jornalista em empresas brasileiras, nem indagou sobre o fato de que ela é partidária, é uma ativista política. Ou seja: os nossos telejornais habitualmente comportam-se como um partido de extrema-direita, como um poder moderador que reprime e rebaixa as microreformas que o PT e o PMDB vão tentando implementar aos pouquinhos, sempre de forma negociada, lenta e gradual. Ele alega que em Cuba ninguém teria espaço para criticar. Ora, o que está fazendo Yoani, senão criticando acidamente o regime? Ela queria ter o mesmo espaço que tem na mídia ocidental também na mídia cubana? A seguir, o professor de história resolve ignorar e violentar a história:


Mas em nenhum lugar o comunismo chegou ao poder por uma revolução proletária, nem mesmo houve transferência de riquezas, mas apropriação delas pelo Estado, controlado por uma classe de burocratas que instituiu uma espécie de servidão coletiva contemporânea. O século 20 nos mostrou que as utopias não devem ser realizadas. O reino de liberdade que prometem, na prática, resulta no totalitarismo. Mas, por que o socialismo se transforma em seu oposto quando transformado em realidade social? Acontece que o socialismo não se transforma em seu oposto, apenas mostra aquilo que realmente é; isto é, a abolição das liberdades civis e da propriedade não pode se tornar outra coisa senão a emergência de um Estado regulador todo-poderoso, detentor, apenas ele, das únicas liberdades existentes e de toda a riqueza produzida em uma sociedade. Geoges Duby refletiu com muita clareza o que significa a tentativa de impor ou construir uma sociedade igualitária.


Primeiro, Bertone nega as inúmeras revoluções proletárias da história: Rússia, China, Coreia, Cuba. A seguir, nega que "houve transferência de riquezas". Para ele, "utopias não devem ser realizadas". Ele vai além de Trotsky e seu argumento da revolução ter degenerado. Ele simplesmente nega a revolução, como um reacionário pouco sofisticado, vulgar. De fato, ele tem razão ao sentir-se atraído e ao mesmo tempo sentir nojo de Olavo de Carvalho. A seguir, ele cita Georges Duby. Olhe a opinião com a qual Bertone concorda:


Considero, com efeito, que uma sociedade nivelada não dispõe de estímulos. Com muitíssima sorte, pode no máximo desfrutar de uma felicidade sem graça como a dos nambikwaras visitadas por Lévi-Strauss, uma felicidade sonolenta. Normalmente, ela mergulha no marasmo e no desespero, como demonstra uma experiência efetuada durante quarenta anos na Europa do Leste. E em todo caso, não tem mais uma história. Sou portanto decididamente elitista, desde que as elites, naturalmente, não se transformem em castas. A missão da universidade consiste precisamente em contribuir para evitar que isto aconteça, formando essas elites.

Note que uma sociedade igualitária ou é uma tribo de índios preguiçosos ou é  o "marasmo e o desespero" do Leste Europeu durante quarenta anos. E Bertone assume abertamente uma postura elitista; ele seria um professor universitário que abertamenta doutrina a favor do elitismo, formando elites que combatam o pensamento igualitário, ou seja, socialista. Nisso, Bertone tem feito muito bem o seu papel. A seguir, depois de associar-se a Popper, filósofo que teorizou na Guerra Fria a favor da sociedade liberal contra o comunismo, Bertone ainda faz observações tolas a respeito de Marx:


Marx as trouxe [as utopias] para o plano da realização histórica, da práxis social. Ele observou como os ideais da burguesia foram levadas à Europa através das guerras napoleônicas e imaginou como seria se o socialismo fosse levado ao mundo através de uma classe revolucionária, consciente de seu papel de vanguarda no cumprimento de leis da história. Marx teorizou o comunismo como numa conquista do proletariado, com a formação de um novo homem e o fim da pré-história humana.


Ora, foi Marx? E a própria experiência de Platão em Siracusa? E os socialistas utópicos e suas comunidades rurais? Pelo fragmento acima, Marx sonhava em ser uma espécie de Trotsky, um Napoleão proletário levando a revolução à Europa inteira através do exército vermelho. Depois de mais algumas considerações rasas, vai ao ponto: Cuba, a revolução proletária que não houve, segundo Bertone, mas que, por ironia da história, ainda "alguns de seus filhos ainda estão de pé", incomoda Bertone. Ele queria que Cuba estivesse de joelhos, a mesma posição dele. Pois é. Não está:


Ultimamente temos visto Cuba aparecer nos noticiários por causa do programa Mais Médicos do governo federal. O programa, cujas cláusulas contratuais são dúbias, expôs sua fragilidade quando uma médica o abandonou por causa dos baixíssimos valores que o governo cubano repassa a eles. Muitos ainda têm uma ideia muito equivocada acerca do que é a sociedade cubana sob o regime dos irmãos Castro. Ignoram o racionamento de comida, os salários abaixo de vinte reais mensais, as prisões políticas e as frequentes violações de direitos humanos. De modelo alternativo, Cuba se tornou aquilo que não queremos ser. Podemos defender seu sistema de saúde e educação confortavelmente de nossa sociedade democrática, mas sabemos que não gostaríamos de morar lá, não gostaríamos de ver nossa individualidade ser confiscada pelo Estado e nossos salários (por mais baixos que sejam) ser substituídos pelalibreta. O mito de que não há pobreza em Cuba não pode subsistir à obviedade de que todos são pobres em Cuba, exceto os altos dirigentes do partido e do governo. Mesmo as homeopáticas mudanças econômicas introduzidas por Raul Castro após assumir o poder, não podem ter impactos significativos sem a desmontagem da ditadura e do monopólio do Estado sobre a economia e a vida privada dos cidadãos.


Aqui, pode-se recolher de montão os erros: Fidel Castro não está no poder. Isso não é mencionado em momento algum por Bertone. Ninguém ignora nada disso que Bertone acha, em sua pretensão arrogante, estar nos revelando. Os telejornais e a grande mídia dizem isso todo dia. Para Bertone, só o fim do que resta de ditadura do proletariado e a diminuição do estado poderia ter um "impacto significativo". Ou seja: Bertone propõe, como receita para a pobreza cubana, a prosperidade de democracia liberal colonizada e o neoliberalismo.

Isso tudo na esteira da leitura do livro da Leya, de autoria de Humberto Fontova, um cubano de direita que assume como verdade qualquer mentira sobre o regime cubano e a ratifica em seu livro "Fidel, o Tirano mais Amado do Mundo". Bertone é suficientemente inteligente para saber que está nos repassando um lixo:


O livro de Fontova não chega a ser uma pesquisa histórica acadêmica como convencionalmente a compreendemos, mas um verdadeiro libelo anti-castrista. Contudo, é uma obra escrita por alguém que tem um conhecimento apurado do que diz e pertencente a uma família com ascendentes do partido comunista.

Olhe o descaramento onde chega o floreio retórico: não é acadêmico, é panfleto, busca doutrinar, mas tem "conhecimento apurado". Um dos motivos para esse conhecimento não é nem ter sido comunista, como alguns alegavam antigamente, agora é "ter ascendentes no partido comunista". Como num concurso de cartas marcadas para professor de História num departamento, para Bertone, ao falar sobre Cuba, o bom  é ter costas quentes, é ter alguém seu dentro do sistema.

Bertone valida qualquer lixo, desde que seja anticomunista, para poder formar as tais elites antissocialistas que idealiza Duby. Fontova chega até a desejar que a invasão yankee tivesse dado certo:

Lamenta, por exemplo, o fato de a invasão à Baía dos Porcos não ter dado certo, em consequência, segundo ele, de o governo americano ter abandonado os invasores à própria sorte.

Ah, claro, Bertone, o governo norte-americano deveria ter invadido Cuba ou bombardeado a ilha com napalm. Seria muito sensato! Seria de uma sensatez bertônica. Ora, ora, Bertone! O lixo que você resenha não nos poupa nem dos hoax, das citações falsas, muito usadas por Olavo e a extrema-direita:


 Fontova traça um Guevara muito distante do que vemos no cinema e nas propagandas de esquerda. “Isto é uma revolução. E um revolucionário precisa se tornar uma máquina assassina brutal, motivada por puro ódio”; “não tenho casa, mulher, pais, filhos ou irmãos. Meus amigos são amigos somente enquanto pensam politicamente como eu”, teria dito o guerrilheiro argentino. Mostra um Guevara admirador de Stálin, um Fidel que buscou inspiração em Hitler (“Minha Luta” era seu livro preferido na faculdade), que decretou feriado nacional quando o ditador fascista Francisco Franco morreu – Fidel o admirava por seu antiamericanismo.  Fidel também levou Rámon Mercader, assassino de Trótsky, para Cuba após ter cumprido 20 anos de prisão no México. Em Cuba, Mercader se tornou inspetor geral de prisões, função na qual comandou cerca de 15 mil fuzilamentos e 50 mil prisões em gulags.

  Che, que eu saiba, disse o contrário: o revolucionário tem que ser movido por grandes sentimentos de amor. Bom, Bertone, Fontova talvez seja um anticomunista que conte bem dinheiro, ao contrário de você, ainda um aprendiz. Mas ele alinhava frases falsas de Che, assim como busca associar Fidel a Franco e Hitler para denegrir sua imagem. Afinal, são todos ditadores e não cabe a um professor de História de uma bestial província dissociar nada. Afinal, está em causa a tarefa de doutrinar e panfletar para as elites vegetais. Mas vamos lá. Até Jacson Monard, até então colaborador de Trotsky e que supostamente matou-o depois de que Trotsky não permitiu seu casamento com Silvia Orthof, sugerindo-lhe fazer sabotagens e atentados na União Soviética, ganha um papel, por associação, de agente stalinista em "gulags" cubanos. Mas Bertone vai além em seu nojento panfletarismo, panfletarismo que ele tanto repudia nos outros, nos militantes . Ele chega a validar um livro que absolve o sórdido ditador Batista:


Ressalta que, em 1957, Cuba tinha mais professores e médicos, proporcionalmente, do que os Estados Unidos, possuía a menor taxa de mortalidade infantil da América Latina, estando à frente inclusive de países como Alemanha Ocidental, Japão, Israel e Áustria, taxa de alfabetização de 80% (a maior da América Latina também). O país possuía uma classe média que abarcava mais de um terço da população. Segundo o autor, apesar de Fulgêncio Batista ser um ditador em 1959, não regulava os currículos escolares, a vida privada ou proibia as pessoas de viajarem. Não nega os altos índices de corrupção existentes no governo de Batista e o uso da força (segundo ele, esporádica) usada contra dissidentes. Para Fontova, há uma segregação racial silenciosa em Cuba pouco divulgada na imprensa ocidental. Cem por cento de sua elite governamental é branca e oitenta por cento de sua população carcerária é negra. Para ele, Batista era mais um político do que um militar, evitava a imagem de caudilho e queria aproximar Cuba dos Estados Unidos no sentido de torná-la mais competitiva comercialmente e democrática e lembra o quanto um regime totalitário pode ser incomparavelmente pior do que ditaduras militares.

Veja só o Olavete se revelando: regime totalitário (socialista) é pior do que ditaduras militares (várias!) As ditaduras militares, ao contrário dos socialismos impertinentes, "não perturbam o ritmo habitual de trabalho e lazer, as moradias habituais nem os padrões habituais de relações familiares e pessoais" [...].

Sim, Bertone, ditaduras não perturbam. Os guerrilheiros do Araguaia, o deputado Rubens Paiva, Vladimir Herzog...Militam em paz. Na paz dos cemitérios. É muito engraçada a virada de Bertone em busca do que chamaríamos "nuances da elite". Olhem as sutilezas do maroto:

Yoani Sanchez veio nos despertar desse sono dogmático; ao invés disso, muitos não gostaram do fato de ela não trazer boas notícias do paraíso e não cansaram de vasculhar sua vida para encontrar relações com a CIA e um estilo de vida “burguês”. O antiamericanismo que ainda perpassa variados agentes da esquerda latino-americana e que teve em Hugo Chávez o caudilho desmiolado de uma esquerda capenga, é não apenas um sentimento tolo, como produz um embotamento mental análogo à crença de jornalistas da Veja no comunismo petista. Esse antiamericanismo (que alguém já chamou de ideologia oficial dos órfãos do comunismo) é um sentimento que tenta manter de pé o quixotesco romantismo por uma revolução que parou no tempo (exceto para seus dirigentes) e ficou atolada nas poças de sangue dos fuzilamentos e prisões arbitrárias.

Pós-escrito: Antes que alguém venha apressadamente “denunciar” as relações diplomáticas que o governo brasileiro mantém com Cuba, é preciso dizer também apressadamente que essa visão é um erro. De alguma forma, virtualmente todos os países violam o que compreendemos por direitos humanos. Devemos manter relações diplomáticas com Cuba como mantemos com os Estados Unidos, Irã e Israel, por exemplo. Nesse sentido, o auxílio do governo brasileiro à construção do Porto de Mariel em Cuba é uma decisão importante, especialmente porque marcará mais efetivamente a presença econômica do Brasil na região. Cuba está num processo de transição econômica, lento mas que começa a esboçar traços mais claros. Então do ponto de vista econômico e geopolítico, o Brasil tem muito a ganhar. Por outro lado, o mesmo não pode ser dito do programa “Mais Médicos”. O Programa apenas reforça o estado de semi-escravidão que caracteriza as relações trabalhistas em Cuba; a existência de desistentes evidencia o descontentamento dessa população oprimida que o Brasil, infelizmente, ajuda a reforçar. O mesmo não pode ser dito em relação à construção do Porto.

Yoani Sánchez, embora escreva somente postagens de blog e só exista com seu grupo (ela age em grupo, formado pelo marido jornalista, inclusive) é um Kant de saias que veio nos despertar do antiamericanismo capenga dos Chávez da vida, que mesmo morto assombra as elites estúpidas a quem Bertone faz preleções furibundas e falsas e tece libelos anticastristas. Ela nos trouxe a luz, em meio a linques da revista Veja e de participações dos jornalistas Reinaldo Azevedo e Sandro Vaia em seu blog, ainda que com niqueneimes e, quem sabe, de muito da imprensa brasileira em sua militância louca e luminosa para nos despertar do sono socialista tupiniquim ou chavista, para horror de nossa militância acéfala. O Brasil tem muito a ganhar: pero, médico para pobre, não pode. Porto para empresa Odebrecht, pode: são negócios. Ah, as doces sutilezas de nossas elites!!!











       
   





segunda-feira, 3 de março de 2014

No Funeral de L. M.

Como um brinquedo sem uso -- o corpo.
Atirado ali a um canto, sem risadas, enfim.
Dormindo, menino, seu sono místico.
Da mesma idade eu & ele.

Eu te olhar morto, você me olhar morto
Agora parece igual.

O que é a morte para quem, em vida, não foi trágico?
A morte de uma pessoa de minha geração.
Espelho de minha morte.
Da minha & de todas as gerações passadas...

Meu amigo, sua morte é minha morte que surge
No fundo do espelho.
Seu cadáver é enterrado, então, no fundo de meu espelhodiante
do espelho sem fim o fim do seu fim, o fim do sem fim