quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Que Cena, Alberto!

O livro Impressões de Cinema (Gulliver Editora) é um retrato de Alberto Coimbra e sua cabeça. Ele pensa cinema. E protagonizou intervenções no cotidiano da cidade de Bom Despacho que já entraram para o folclore: colocou máscara de piu piu e ergueu-se durante a eucaristia; numa audiência na Câmara sobre o aeroporto, ensaiava pequenos vôos, enquanto de sua roupa voavam plumas e paetês, produzindo uma cena surreal, dentre outras performances. Eu o conheci vestindo saia, blusa do cruzeiro, chapéu e levando uma mala, dizendo que ia pegar a (inexistente) ferrovia para Martinho Campos.
Alberto e seu livro me fazem pensar em José Agrippino de Paula: temos que viver as coisas que Oswald de Andrade escreveu. Alberto vive a contracultura dos anos 60 e o modernismo de 22.
O livro mistura crônicas autobiográficas em que ele insere Bom Despacho no mundo do cinema com poemas sempre inspirados por um determinado filme. Em sua imagética somos levados a uma Bom Despacho que não existe mais, a Bom Despacho em que a biblioteca pública era ao lado do cinema e o cinema apresentava produções que tinham interesse tanto para os intelectuais quanto apelo para a imprensa e as massas. Alberto é profundamente marcado por essa geografia sentimental: cinema-biblioteca.

Escrevendo de forma bela sobre sua infância em Bom Despacho nos anos 70, ele coloca a cidade dentro do cinema. Escrever sobre cinema de certo forma é estar no cinema, é de certa forma fazer cinema.

Alberto é de esquerda e esses dias mesmo estávamos falando sobre A Chinesa de Godard, filme que termina com a bela frase: "Eu achei que tinha dado um grande salto, mas apenas realizei os primeiros passos de uma longa marcha".  Alberto também é um pensador sofisticado. Ele escreve uma passagem que me faz lembrar muito Roberto Freire:

"Por causa de vícios comportamentais e do jeito de se referirem à sexualidade, principalmente a dos outros de forma pejorativa, adquirida e passada de geração em geração, ainda levam as pessoas a ligarem a liberdade sexual com a falta de limite, perversão, tudo é sacanagem, e a de se extremarem ligando o sexo com morte, enquanto deveriam viver essa mesma liberdade como forma de aprendizagem de vida, de aprimoramento pessoal e de enriquecimento da qualidade de vida como é o prazer de comer, dormir, transar, respeitar o próximo, os animais, a natureza, enfim, o Planeta. O ser humano e o Planeta pedem uma vida melhor".

Evoé, poeta modernista! Sem tesão não há solução!











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