domingo, 4 de novembro de 2018

Gênero e Diversidade em Impressões de Cinema, de Alberto Coimbra

Gênero e Diversidade em Impressões de Cinema, de Alberto Coimbra
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior (doutorando em Estudos Literários/UNICAMP)

1.Introdução

Resumo

Esse texto busca fazer algumas observações críticas a respeito da Obra Literária Impressões de Cinema, de autoria de Alberto Coimbra. O texto investiga os diferentes Gêneros Literários presentes na obra, assim como a problematização que o texto faz das questões de Gênero e Diversidade. O Artigo fez a contextualização Histórica do livro, assim como a seguir trata dos Gêneros dentro do Livro, para logo em seguida associar o texto à Intervenção Cultural realizada por Alberto Coimbra em Bom Despacho, Minas Gerais. Alberto dá um passo adiante de Flávio de Carvalho ao pensar suas intervenções culturais não como extraordinárias, mas que são realizadas no cotidiano. Alberto pode ser comparado a Charles Baudelaire em Paris quando esse poeta saiu de cabelos verdes. O sentimento de Alberto frente à sua pequena cidade pode ser comparado ao sentimento dos contemporâneos do Decadentismo tais como Oscar Wilde, Rimbaud e até Lord Byron. Alberto Coimbra é Jornalista, por isso tomou a atitude de fazer com que os moradores de sua Cidade Natal percam o papo ruim que provoca Fobias e Depressão em seus moradores. Coimbra tem como objetivo que sua Cidade de Bom Despacho tenha uma qualidade de Vida e Cultural tais quais as Cidades do interior dos Estados Unidos e da França.

Palavras chave: intervenção cultural, cinema, literatura, prosa, vida, arte

Summary

This text seeks to make some critical remarks about the Literary Work Impressões de Cinema, by Alberto Coimbra. The text investigates the different Literary Genres present in the work, as well as the problematization that the text makes of the issues of Gender and Diversity. The article made the Historical contextualization of the book, as well as next deals with the Genres within the Book, to immediately next associate the text to the Cultural Intervention realized by Alberto Coimbra in Bom Despacho, Minas Gerais. Alberto takes a step forward of Flávio de Carvalho when thinking about his cultural interventions not as extraordinary, but that are realized in the quotidian. Alberto can be compared to Charles Baudelaire in Paris when this poet came out with green hair. Alberto's feeling in front of his small town can be likened to the sentiment of Decadence contemporaries such as Oscar Wilde, Rimbaud, and even Lord Byron. Alberto Coimbra is a Journalist, so he took the attitude of making the residents of his hometown lose the bad talk that causes Phobias and Depression in their residents. Coimbra aims to ensure that its City of Good Order has a quality of Life and Culture such as the cities of the interior of the United States and France.

Keywords: cultural intervention, cinema, literature, prose, life, art

A VOZ DE UM ENGENHEIRO - Evidentemente, coagido pela força bruta, vencido pelo número, vejo-me forçado a continuar o meu caminho sem chapéu. Mas esse puto (Cristo) me paga! (som de castanholas. Tumulto).
VOZES - Viva la gracia! Outro toro! Mi cago en dios! Viva o senhor do Sábado! Tira o chapéu, Flávio! Péo, péo! Fora! Não tira! Deus da burguesia! Fora! Põe o chapéu! Desacata esse veado! Fora! Fora!”
Trecho da peça O Homem e o Cavalo, de Oswald de Andrade.

O livro Impressões de Cinema de autoria de Alberto Coimbra é o retrato de sua coragem em descrever em palavras passagens de sua vida. Alberto pensa cinema. Protagonizou intervenções culturais que já transformaram o cotidiano das pessoas de Bom Despacho e que a maioria das pessoas relembram e respeito. Colocou máscara de Piu Piu e ergueu-se durante a eucaristia. Para Alberto Coimbra, a intervenção com a máscara de Piu Piu aconteceu porque Jesus, para ele, é um homem.
Outra intervenção cultural aconteceu quando ele vestia saia, blusa do Cruzeiro, chapéu e levando uma mala, dizendo que ia pegar a (inexistente) ferrovia para Pitangui.
Alberto e seu livro fazem pensar em José Agrippino de Paula: temos que viver as coisas que Oswald de Andrade escreveu. Alberto vive a Contracultura dos anos 1960 e a Semana de Arte Moderna de 1922.
O livro mistura crônicas autobiográficas em que ele insere Bom Despacho no mundo do Cinema com poemas sempre inspirados por um determinado filme. Em sua imagética somos levados a uma Bom Despacho que não existe mais, a Bom Despacho em que a biblioteca pública era ao lado do Cinema, onde eram apresentadas produções que tinham interesse tanto para os intelectuais quanto apelo para a imprensa e as massas. Alberto é profundamente marcado pela história e memória de Bom Despacho, numa verdadeira geografia sentimental: cinema, biblioteca e a Mata do Batalhão. Escrevendo de forma bela sobre sua infância em Bom Despacho nos anos 1980, ele coloca a cidade dentro do cinema. Escrever sobre cinema de certo forma é estar no cinema, é de certa forma fazer cinema. Alberto também é um pensador sofisticado.

1.    Contexto Histórico de Impressões de Cinema

Alberto nasceu nos anos 1960, sua juventude foi nos anos 1980. Foi da geração X, dos anos 1990, geração que fez a difícil transição entre a geração de 1968 e a geração do novo milênio, assim como viveu a mudança da ditadura militar para a democracia em meados dos anos 1980.
Alberto, filho de Militar e Músico, neto do Maestro José Milagre Coimbra, seu avô. Ele identifica-se com o feminino e com a esquerda. Primeiro, ele teve uma infância feliz, brincando na Mata do Batalhão atrás de sua casa e depois brincou no pasto de uma fazenda de gado no bairro Esplanada onde foi morar.
Paralelamente à chamada globalização e ao neoliberalismo, Alberto desfrutou do avanço dos costumes. Caminhando contra o vento, prosseguiu imbuído de luminosos projetos, no fim da utopia hippie, da queda do Comunismo, no tempo do fim das Grandes Narrativas.
Alberto sempre observa a realidade e pensa em melhorá-la. Na UFMG leu o livro, 1968, O Ano que Não Terminou, do jornalista Zuenir Ventura. Leu sobre religião na visão de Rubem Alves. Assistiu várias palestras de Rose Marie Muraro e Rubem Alves. Após estudar na UFMG, estudou a pós-modernidade quando o pensador Francis Fukuyama falou do fim da História. E aprendeu em Semiótica que todos os filmes já foram feitos e hoje eles passam na Sessão da Tarde.
Assim sendo, tendo atribuído esse olhar ao seu curso de Jornalismo na UFMG nos anos 1990, Alberto passou os Anos 90 esboçando Impressões de Cinema e um embrião do livro nasceu durante seu curso de jornalismo, quando ele freqüentava o Savassi Cineclube no início dos anos 1990 em Belo Horizonte.
Alberto Coimbra defende Lula, comparando-o a Juscelino Kubitschek, assim como faz o elogio de Brasília, de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Coimbra relembra a interessante reportagem que deslinda a música Ponta de Areia, pois existe uma realidade por trás dessa música: o Jornalista Emerson Penha investigou a ferrovia que existia entre Araçuaí e Ponta de Areia na Bahia. Emerson Penha foi colega de Alberto no curso de Jornalismo.   Atualmente, Emerson está fazendo um filme sobre a Ferrovia que ligava Araçuaí em Minas à Caravelas no sul da Bahia. Impressões de Cinema fala sobre questões Ambientais, Políticas, questões Humanas e mesmo sobre o Empreendedorismo: o sucesso profissional de uma pessoa depende muito mais da organização do que de inteligência.
Felipe Cunha, funcionário da Secretaria de Cultura local, disse que Alberto foi importante para Bom Despacho como Copérnico foi para a humanidade no século XVI. Depois de sua Intervenção Cultural construíram parklets nos bares de Bom Despacho.
Alberto disse a Padre Antônio que entrar na igreja de vestido e salto alto para dizer às pessoas que características masculinas e femininas são bem próximas.
Alberto disse ainda ao Padre Antônio que seu gesto foi um gesto de amor ao povo de Bom Despacho. O Padre Antônio concordou. Alberto, num encontro com seu padrinho de Batismo, o Padre Pedro Lacerda Gontijo, disse a ele que foi Funcionário Público e que dedicou sua vida aos outros. Não realizando, então, seu sonho de ser um artista pop, pois dedicou a sua vida aos outros. O Padre Pedro respondeu a ele: “você é Jesus, Alberto, agora é a vez de Maria.”
Alberto Coimbra comenta que em Bom Despacho a maioria dos padres o respeitaram e o acolheram. A vida do pobre é difícil, é preciso rezar menos e viver independente de Deus, como na religiosidade Grega, que era não-coercitiva, não existindo a figura do Sacerdote como surgiu posteriormente.
Alberto Coimbra possui um senso agudo de história. Para ele, o ottocento trouxe os elevadores, bicicletas, luz e telefone. O século XIX lia pelo prazer da leitura e os jornais traziam textos literários. A época do Decadentismo teoriza sobre a ascensão da burguesia capitalista e as conseqüências de uma nova Civilização construída sobre a Ciência e a tecnologia, assim como hoje houve o desenvolvimento Digital.
O governo Lula trouxe a ascensão das classes D e E, uma nova civilização parece, então, começar no século XXI, produzindo um novo comportamento e novas tecnologias, com a diferença que no início do século XXI há um fortalecimento das idéias de igualdade, liberdade e fraternidade. A dependência da Igreja começa a cair. A declaração dos direitos do homem completou 70 anos.
Nesse contexto, Brigitte Bardot agora protege animais. A ONG criada por Michael Jackson cuida das Crianças e Jovens no mundo inteiro. Mick Jagger teve filho com uma brasileira. Madonna tentou adotar uma criança africana afirmando que quando ela crescesse ajudaria seu país na África. O dinheiro nos últimos 30 anos mudou de mãos. Grandes artistas hoje têm grandes fortunas.
Impressões de Cinema é influenciado ao mesmo tempo pela Mitologia Grega e pelo Decadentismo do século XIX e pela Revolução Digital do século XXI. Hoje vivemos a prosperidade de uma era tecnológica nunca vista antes. Outras de suas influências: Émile Zola, Gustave Flaubert, Germinal, Madame Bovary, Bouvard e Pecouchet. O documentário Imagine sobre a vida de John Lennon também foi muito influente, bem como a Semana de Arte de 1922 e a Contracultura de 1968.
Impressões de Cinema é um livro que deseja ser a Obra de Arte Total, integrando Cinema, Poesia, Filosofia, Música e Dança. Em Você é Lindo existe a música, em Seu Nome é Rita Hayworth, Cinema, Música, dança e Sexualidade.

2.Gênero e Diversidade em Impressões de Cinema

Impressões de Cinema é um livro que mistura gêneros em muitos sentidos: tanto os gêneros ligados à sexualidade quanto os gêneros literários: é autobiografia, prosa poética, ensaio sobre cinema, e, como diz o autor, um diálogo do autor com sua homossexualidade que foi reprimida na juventude. Existe uma homossexualidade que aflorou depois de anos de repressão.
O livro Impressões de Cinema também contêm códigos sexuais. O autor descobriu-se travesti muito cedo aos treze anos, após assistir ao filme Quando Os Deuses Amam, com a atriz Rita Hayworth, chamada, nos anos 1940, de A Deusa do Amor. Seu campo de interesse volta-se para o jogo com os signos sexuais, indo além do que a sociedade define o que é homem e mulher, como ele mesmo escreve em uma passagem de Impressões de Cinema: “Pichita pega o jovem guapo e o veste de donzela e ela de belo tenente” (COIMBRA, 2017, p. 60).
Alberto pensa cinema, tem muito boa memória cinematográfica. Associa e aprecia a Semana de Arte Moderna de 1922 e a Contracultura dos anos 1960. Ele diz sobre o Documentário Imagine sobre John Lennon no texto O Artista: “Eu vou me alimentando de você. De nossos olhares. De nosso carinho. De mãos dadas no parque. Lucy no céu com diamantes. E beijos e beijos e beijos...” (COIMBRA, 2017, P. 48).
A memória cinematográfica faz com que ele veja a própria vida enquanto um filme e vice-versa, que aplique na vida o que vê nos filmes: “quando escolhemos um amor, não temos certeza do final” (COIMBRA, 2017, P. 50). Alberto utilizou-se bastante do processo do flashback, voltando às suas memórias de infância e adolescência: “roubávamos mexericas e íamos para a casa chupá-las, falar das meninas e soltar o periscópio” (COIMBRA, 2017, p. 51).
A chave para a compreensão de Impressões de Cinema está na redescoberta da identidade homossexual de Alberto Coimbra. Num dos textos, fala do Aterro do Flamengo, mas quer tratar de como sua homossexualidade ficou soterrada. A questão da sublimação da homossexualidade do autor está no poema Seu Nome, Rita Hayworth:

A partir daí, eu só tinha olhos para o bailado de Rita Hayworth a me seduzir!/Rita, Gilda, Carmen, Salomé ou a musa grega Terpsícore, da dança e da música. Como Rita fico conhecida, a atriz dançava ou melhor, saracoteava sorrindo! (...) E o meu desejo adolescente frente a um espelho real não se conteve e o estilhaçou. Realidade ou não, Rita Hayworth não morreu, adormeceu no meu coração e aqui mora (COIMBRA, 2017, P. 66).

Tanto o texto Seu Nome Rita Hayworth quanto a crônica Uma Sessão de Cinema no Cine Roxy  são uma homenagem à Atriz e Bailarina Rita Hayworth. Em 1981, seu pai, Jair Coimbra colocou a coluna de Nina Chaves do Jornal Estado de Minas, sobre a cama do quarto de televisão. Nina Chaves Conta:  A Atriz Rita Hayworth estava com 64 anos e com Mal de Alzheimer morando em Beverly Hills e sendo cuidada por sua filha Yasmin Khan. Seu pai lhe deu o recado: se você quer ser uma mulher, que seja uma interessante e elegante como Rita Hayworth. A sua identificação com essa Atriz está demonstrada no texto Seu Nome é Rita Hayworth. Está também no texto O Cine Regina e a Cidade de Bom Despacho. Igualmente, pode-se dizer que o poema Seu Nome  Rita Hayworth aborda também o momento em que Alberto fez terapia com o Psicanalista Marco Aurélio Bággio. Essa terapia o fez implodir sua homossexualidade. Ele queria ser uma mulher como Rita Hayworth. Alberto explicou em uma entrevista:

No primeiro ano de Grupo meu pai, no final do ano, me falou para enviar um cartão de Natal para minha professora Vera Couto. Enviei. Em 1988 quando eu fazia terapia com o Psicanalista Marco Aurélio Bággio descobri que a Pantera Gil do seriado As Panteras, protagonizado pela atriz Farrah Fawcett-Majors era a Dona Vera. É porque quando eu tinha onze anos eu via a Farrah Fawcett-Majors no seriado eu fiquei fã dela. Fui a banca de revista e pedi uma revista Cinemin com o pôster da atriz. Na sessão de Psicanálise com Marco Aurélio, ele me disse que meu pai me fez o pedido querendo me dizer que a Vera Couto era uma mulher que valia a pena. Mas na verdade o que eu queria aos onze anos era ser uma mulher como a Farrah. E gritei naquela sessão de Terapia em grupo: -Paaaaai! (COIMBRA, 2018).

Alberto faz, em Impressões de Cinema, uma Micro-História, uma História das Mentalidades. A Mata do Batalhão é Patrimônio da Cidade. Toda uma época desapareceu, era um footing, as pessoas ficavam andando ao redor da Igreja da Matriz na Praça central. Nos anos 1990, existia a noite dos bilhetinhos, agora tudo é pelo zap e pelo facebook, não há mais paquera como antes.
Um grande triunfo de Alberto foi ter feito análise durante quinze anos com os melhores psicanalistas de Belo Horizonte (Dr. Marco Aurélio Baggio, Dr Hélio Lauar, Dr Jarbas Campolina de Sá, Dr José Roberto Ayres e Dra Marluce Maria de Godoy e Silva). Resolveu seu trauma com seu pai e tornou-se seu amigo. Viveu sua lenda pessoal, para ele, todo mundo tem que desenvolver o seu dom e fazer o que gosta. A psicanálise nos torna melhores amigos.
O livro traz textos que ele escreveu ao longo da vida, tendo o Cinema como mediador. No poema Leolo, inspirado no filme de mesmo nome, Alberto descreve a confusão de lidar com a homossexualidade na adolescência, o que o deixou inseguro. Bianca representou seu tesão heterossexual que virou uma ruína romana. Semelhante a cena final do filme Satiricon de Federico Fellini. No filme Satiricon, na cena final, quando o jovem relembra de seu relacionamento homossexual, essa lembrança se transforma numa Ruína Grega. Só que no caso de Alberto, no poema Leolo o seu desejo por mulher se transforma numa Ruína Romana: “O meu desejo em silêncio! A Itália! (...). Grito seu nome entre ruínas romanas! Minha solidão...” (COIMBRA, 2017, p. 44).
Alberto entrou no corredor central da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Despacho durante a missa, usando roupa feminina. No entanto, ele fez isso com a intenção de mostrar às pessoas que a vida não é só rezar e a diferença entre masculino e feminino é pequena. Alberto estudou a vida de Jesus na UFMG e ele viu que aconteceram fatos e pessoas que os registros  da época pegaram esses fatos e atitudes e criaram o personagem de Jesus na Bíblia. Alberto Coimbra, surpreendido pelas palavras de seu padrinho de Batismo Padre Pedro, resolveu aceitar sua condição de vida de ser Jesus. Mas para Alberto, Jesus agora é mais Revolucionário, Jesus agora é um Travesti e trabalha para o Mundo da Moda.
Durante o filme Cléopatra, com Elizabeth Taylor, que Alberto assistiu aos onze anos de idade, quando ele viu a imagem de Cleópatra deitada na cama e a cobrinha andando no chão. Alberto ficou parado na porta da sala e ficou pensando em sua homossexualidade. Era um indício.
Alberto vivenciou sua homossexualidade nos anos 1981 e mais intensamente em 1992, pois queria ter um relacionamento sério com um homem. Alberto conta que naquela época, em 1992, os homens não o desejavam para namorar e relacionar a sério. Ficou triste e decepcionado e, para se reorganizar, leu os livros Filosofando e Iniciação à Filosofia de Marilena Chauí. Por um acontecimento do destino, apaixonou-se por uma mulher e relacionou com ela durante anos.

3. Alberto e suas Intervenções Culturais no Cotidiano da Cidade

            Os filmes que passavam na Sessão da Tarde nos anos 1980, anos da juventude de Alberto eram filmes dos anos 1930, 1940, 1950 e 1960.
O cinema serve de lente através da qual ele vê a própria vida. Ele relembra a atitude do modernista Flávio Carvalho que, nos anos 1950, saiu vestindo saias, causando choque na cidade de São Paulo. A atitude de Alberto Coimbra relembra essa atitude, buscando fazer uma intervenção no cotidiano da cidade e buscando mostrar que a vida é mais do que o labor diário pela sobrevivência. Ele tem uma filosofia de vida própria, uma filosofia aplicada aprendida no curso de Jornalismo que este deve observar o Comportamento das pessoas e a Mudança das Mentalidades.
Para Alberto Coimbra, quando Gustave Flaubert construiu Madame Bovary, ele recorreu ao seu lado mulher, à sua bissexualidade interna. Os compositores de letras de músicas, para escrever suas composições, apelam para sua bissexualidade. Outros autores que inspiram Impressões de Cinema são: Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Foucault, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Umberto Eco, os filósofos gregos, Sócrates, Aristóteles e Platão, Tchecov, Dostoiévsky, Tolstói, Kafka. O professor Tadeu Teixeira Araújo leu o livro de Alberto e disse para o autor: Anna Karenina.
Outros que o influenciaram foram: Homero, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Chico Buarque, Caetano Veloso, Os Mutantes, Ney Matogrosso, Os Novos Baianos, Milton Nascimento, Fernando Brant; além de Engenheiros do Havaí, Titãs, Barão Vermelho, Renato Russo, Cazuza. A linguagem de Alberto é jornalística como a do Escritor Norte-Americano Ernest Hemingway. As influências de literatura brasileira são: Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rachel Jardim, Rubem Braga, João do Rio, Jorge Amado, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Outras obras que influenciam são: o Romanceiro da Inconfidência. Outras obras revolucionárias são tais como Grande Sertão Veredas.
Os artistas homens recorrem a esse lado feminino para construir personagens femininos, mais do que somente a uma observação externa. Alberto deseja que suas Intervenções Culturais no cotidiano da cidade. Ele já realizou experiências tais como as de Flávio de Carvalho, andou pelas ruas de Bom Despacho de roupa feminina e se comportando muito educadamente nos ambientes. Sua intervenção cultural já acabou. Ficou para a cidade como seu legado e a sua confiança de que realmente transformará a vida social da sua Cidade. Alberto é Cruzeirense, mas foi ao estádio Inconfidência para assistir um jogo do Atlético só para ver como era a  torcida. Para isso foi vestido com uma blusa estampada com o rosto da Atriz francesa Brigitte Bardot e de salto alto. Fotografaram ele e a foto viralizou no WhatsApp por todo o Brasil. Flávio de Carvalho, ao sair de minissaia, experimentou algo semelhante:

Situação parecida se deu em outubro de 1956, porém desta vez a experiência fora premeditada e resultara de suas reflexões em torno do que definiu com Dialética da Moda. Flávio de Carvalho caminhou de saia pelo centro de São Paulo: era a Experiência n º 3. Para ele, a roupa era o fator que mais influenciava o homem "porque é aquilo que está mais perto do seu corpo e o seu corpo continua sempre sendo a parte do mundo que mais interessa ao homem". Denominou o curioso modelito que trajava de "new look" para "o novo homem dos trópicos". O "new look" era composto por saia cor-de-rosa prissada -acima dos joelhos antes de Mary Quant, camisa verde e... meia arrastão e sandália de couro cru. Portanto, a despeito de seu pensamento sobre a condição da moda, está explícita a intenção performática de chamar atenção ao corpo na ação (MACHADO, 2018).

Alberto entrou na Igreja com uma cabeça de veado. O dia em que o Padre Douglas tornou-se padre, Alberto entrou com a cabeça de um veado (estátua) e um chapéu de Bruxa, nesse mesmo dia em que o bispo da cidade também estava presente. O dia 25 de dezembro na Idade Média era o dia do Grande Veado e a Igreja Católica escolheu o dia para ser o dia do nascimento de Jesus.
Ele identifica-se com a frase de Pessoa: se você não pode escrever poemas como Baudelaire, pode ao menos pintar os cabelos de verde. A Intervenção Cultural de Alberto é como pintar os cabelos de verde, mas com uma aspiração de ir um passo além de um Flávio Carvalho. As experiências não seriam extraordinárias, o extraordinário tornou-se cotidiano. A frase, para Pessoa, está num contexto em que o poeta faz uma dura crítica aos diluidores:

A grande multidão de fascinados inferiores, incapazes de criar (...), falhos de inibição e de senso crítico, na impossibilidade de, (com razoável êxito (salvo um declarado [?] delírio de grandezas) imitar os poemas de Musset ou os de Verlaine, podem contudo, com maior aproximação, plagiar ao primeiro o copo [?] gigantesco com que se embriagava quotidianamente, e ao segundo a sua incurável vagabundagem e amoralidade de degenerado típico. Quem não pode fazer versos como Baudelaire pode, porém, tingir os cabelos de verde. A prática da pederastia, embora nem sempre fácil [...], é contudo mais fácil que a produção de uma segunda “Salomé” (PESSOA, 2018).

Alberto assume a intervenção cultural não como algo inferior, mas como fusão da arte e da vida, além de uma atitude apologética, de pioneiro, de alguém que, ao intervir no espaço público, atrai para si ouvidos que querem ouvir as verdades que têm a dizer, e também que ser um Enrustido não faz bem para a saúde física e mental de uma pessoa. No final do livro, no texto Neblina Sobre Teresópolis, ele utiliza a metáfora do desastre ocorrido na cidade como metáfora para a morte de sua Heterossexualidade e o renascimento de sua Homossexualidade. Alberto viu isso como perda de vidas e perda de vida para ele mesmo, por ter vivido anos reprimido. O poema Neblina Sobre Teresopolis, além de referir-se à frase “Diadorim é minha neblina”, uma bela passagem em Grande Sertão, Veredas:

Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros. Diadorim é minha neblina. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. O amor é a gente querendo achar o que é da gente (ROSA, 2018).

Quando era estudante de Jornalismo na UFMG, aprendeu que é importante ser Mutante na sociedade e fugir da “Normose”. Normose é um termo criado pelo Dr. Hermógenes no seu livro que Alberto leu nos anos 1980. Mutante é o termo criado por Roberto Crema, diretor da Universidade Holística de Brasília. Ser mutante para Alberto é ter um pensamento e comportamento libertário inserido no meio da sociedade. O poema Neblina Sobre Teresópolis é o encontro de um rapaz com um homem mais velho que é referência para ele:

Era o ano de 1984. Deixa-me contar direito, tenho 17 anos, um senhor se aproxima de mim sorrindo e se apresenta: --Meu nome é Edgar. Um homem de seus 36 anos. Alto, olhos bonitos. –Ei, meu jovem! Posso ajudá-lo, Sr? –Respondo. –É a primeira vez que vejo o mar, sou de Minas. –Eu também sou, Responde Edgar (COIMBRA, 2017, p. 138).

Como Jornalista, ele quer mudar Comportamentos e Mentalidades e uma das vias que escolheu é a literatura. Uma outra são as intervenções culturais no cotidiano de uma cidade do interior que Alberto protagoniza. São intervenções que remetem Baudelaire e que estão intimamente ligadas à sua produção literária:

A primeira vez que visitou o escritor Maxime Du Camp, Baudelaire foi apresentado a ele com os cabelos pintados de verde. Como o malicioso Du Camp não queria nada observar, Baudelaire gritou: “você não vê nada de anormal em mim?” E seu interlocutor impassível respondeu: “Todo o mundo tem os cabelos mais ou menos verdes; se os seus fossem azuis da cor do céu, isso poderia me surpreender: mas cabelos verdes, há muitos chapéus em Paris. A anedota, contada por Du Camp ele mesmo, é divertida. O leitor divertido pelas provocações baudelairianas descobriu outros dentro da soma biográfica consagrada ao poeta por Marie-Christine Natta. A especialista em dandismo traça o retrato de um escritor insaciável, adepto da arte aristocrática de desagradar (HAYAT, 2018).

Alberto Coimbra faz, em Bom Despacho, o papel de uma ativista da contracultura. Para Alberto, é importante mudar sua mente, mudando seu corpo. Ele acredita que é preciso rezar menos. Para ele, inspirado na Grécia Antiga, os mistérios da vida são mistérios gozosos.
Inspirado em As Bruxas de Salem, filme de Wynona Ryder, Alberto entrou na Igreja matriz de Bom Despacho com uma cabeça de veado. O dia em que o padre Douglas tornou-se padre, Alberto entrou com a cabeça de um veado como se fosse uma estátua e um chapéu de Bruxa. Nesse dia estava presente o Bispo local. Alberto remete a Flávio de Carvalho, mas dá um passo adiante: insere suas experiências no cotidiano, não as considera excepcionais e sim banais, rotineiras. Para Alberto Coimbra, devemos ser mais eróticos e não ficar rezando, pois a vida do pobre é difícil. Deveríamos ser mais eróticos, começar uma fala mais erótica junto às pessoas.
Alberto Coimbra relembra as Bruxas para poder lembrar que a sexualidade é natural e os eleitores de Bolsonaro julgam o corpo algo sujo. Alberto, em suas performances, mistura-se na multidão, ao mesmo tempo está nela como uma personalidade, como, ao mesmo tempo, ator e espectador. Alberto está à vontade no espaço público. Ele se inspira em Bruxas de Salém, A Garota da Capa Vermelha e Caça às Bruxas. Alberto Coimbra, com seu livro é tão Revolucionário quanto Grande Sertão Veredas por ocasião de seu lançamento em 1956.
Para Alberto, bem como para Baudelaire, só com o mergulho na multidão é que o poeta pode tornar-se moderno. Assim o poeta mergulha, embriagado, no outro e experimenta a comunhão universal. Inspirado nas palavras de Wagner, compositor Alemão que disse que o Teatro não é para ser feito só no Palco do Teatro e sim o Teatro deve também ser feito no nosso cotidiano.
            A linguagem jornalística de Alberto Coimbra pode ser associada a Ernest Hemingway. Antes de viver em Paris, Pamplona, Cayo Hueso e Havana, Hemingway nasceu e viveu até os seis anos em uma casa de três andares e estilo vitoriano no bairro de Oak Park, na periferia de Chicago, que o escritor costumava definir como “um lugar de jardins largos e mentes estreitas”. No bairro se encontra um pequeno museu dedicado à sua memória, na mesma rua arborizada onde está sua casa natal.
No interior do museu está exposta uma caricatura desenhada para a Vanity Fair, em 1933, em que Hemingway aparece vestido com uma tanga e jogando tônico capilar nos peitorais. Em outro mostruário está uma foto do escritor quando bebê. Aparece vestido de menina, algo comum no começo do século XX, quando os bebês eram vestidos dessa forma durante seu primeiro ano de vida. Mas sua mãe, uma pintora e cantora de ópera chamada Grace, decidiu prolongá-lo por muitos anos mais. De fato, criou Hemingway e sua irmã Marcelline, 18 meses mais velha, como se fossem gêmeos, e os vestiu indistintamente como se ambos fossem meninos ou meninas, segundo seu humor.
Para Hemingway, esse capítulo seria um grande trauma que terminaria provocando uma ansiedade que desembocou em sua exagerada virilidade, de acordo com a biografia que Kenneth S. Lynn publicou em 1987, que permitiu alterar sua imagem pública e também abrir sua obra a novas interpretações. Quando são relidos romances e contos de Hemingway, ganhador do Nobel de Literatura em 1954, sobressaem menos os super-heróis e mais os homens inseguros. Como o protagonista de A Curta Vida Feliz de Francis Macomber, envergonhado por sair correndo quando tentava atirar em um leão em um safári, muitos deles tentam alcançar um ideal de masculinidade impossível.
Outro de seus biógrafos, Paul Hendrickson, autor de Hemingway´s Boat, sobre o apego do escritor por um barco batizado como Pilar, não acredita que essa hombridade superlativa e quase paródica possa ser vista como uma atuação ao público. “A hipermasculinidade foi uma parte do que ele era. Foi real e autêntica. Talvez fosse uma máscara conveniente ao seu ego, mas não era fraudulenta”, afirma o professor da Universidade da Pensilvânia e antigo jornalista do The Washington Post. “Acho que foi homossexual, mas com muitos sentimentos contraditórios em relação ao seu gênero. Nunca encontrei a menor prova que sugerisse que se sentia atraído por outros homens”.
Hendrickson também descreve sua difícil relação com seu filho mais novo, Gregory, que praticou o transformismo por toda sua vida e acabou mudando de sexo aos 63 anos. Morreu com o nome de Gloria em uma prisão para mulheres na Flórida, na qual acabou por praticar exibicionismo em via pública. Uma vez, quando era pequeno, Hemingway o surpreendeu provando as meias-calças de sua mãe. Mais tarde lhe diria: “Você e eu viemos de uma tribo estranha”. Para Hendrickson, Gregory/Gloria realizou o que seu pai só admitia em seu foro interior e em algum texto clandestino. “Por isso existia uma relação de amor e ódio entre eles”, afirma. Dearborn diz que essa foi a cela de onde nunca conseguiria escapar: “Em um mundo melhor, Hemingway teria furado as orelhas”.
Impressões de Cinema é um livro que mistura Gêneros em muitos sentidos: tanto os Gêneros ligados à Sexualidade quanto os Gêneros Literários: é autobiografia, prosa poética, ensaio sobre cinema, e, como diz o autor, “um diálogo do autor com sua homossexualidade que foi reprimida na juventude. Existe uma homossexualidade que aflorou depois de anos de repressão.” Alberto Coimbra pretende, com seu livro Impressões de Cinema, ser tão Revolucionário quanto Grande Sertão Veredas foi em seu tempo, ao levantar, pioneiramente, a questão do Gênero e Diversidade ao tratar do amor de Riobaldo por Diadorim. Por ocasião do lançamento do livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, no ano de 1956.

4. Conclusão

            Alberto confessa que fez a intervenção cultural na cidade de Bom Despacho por ser jornalista e porque ouviu bom-despachenses reclamando do papo ruim da cidade pequena que provoca fobias e depressão em pessoas. E também porque as cidades grandes brasileiras estão esgotadas. É preciso uma Intervenção Cultural e Econômica para que cidades pequenas sejam atrativas para viver. Alberto homenageia a cidade do Rio de Janeiro como um flaneur passeando pelo seu centro histórico descrevendo lindamente locais, ruas e sua Arquitetura.
            Impressões de Cinema foi um livro pensado como obra de Arte Total, fundindo Música, Cinema, Poesia, Prosa Poética, Dança e Arquitetura. Trata-se de um livro que funde vários Gêneros Textuais e pensa Gênero e Diversidade, pois o livro trata da retomada da homossexualidade de Alberto Coimbra após um período em que ele viveu com uma mulher.
O livro não pode ser entendido sem um mergulho na vida e nas Intervenções Culturais de Alberto Coimbra, Grande Artista, Escritor e Ativista da Contracultura em Bom Despacho. Na prosa Albertiniana, Obra e Arte estão fundidas. Coimbra dá um passo adiante de Flávio de Carvalho, o famoso performer que saiu de minissaia em São Paulo em 1956. Alberto assume a posição do flaneur no Rio de Janeiro, assim como vai mais além dos cabelos verdes de Baudelaire, atitude que também o inspira em sua fusão Arte e Vida. A postura de Alberto lembra a do Alferes Tiradentes, na medida em que, Alberto Coimbra, tendo oportunidade de morar em grandes cidades, optou por morar na sua cidade natal, no interior de Minas Gerais, para fazer a sua Intervenção Cultural em Bom Despacho cujo objetivo era que Bom Despacho passasse a ter uma qualidade de vida e cultural tal qual uma cidade do interior dos Estados Unidos e da França. Coimbra incorpora em sua Prosa a Contracultura e a Semana de Arte Moderna de 1922, Cinema Mundial, Arquitetura, Música, Meio Ambiente, Política e Empreendedorismo.


5.Referências Bibliográficas:

CHAUÍ, Marilena. Iniciação à Filosofia.

COIMBRA, Alberto. Impressões de Cinema. Divinópolis: Adelante, 2017.

FRECHETTE, Alex. Experiência Número 2 de Flávio de Carvalho. <<https://www.youtube.com/watch?v=_g4S0Lc30VE>>.


PESSOA, Fernando. A Imoralidade das Biografias. <<http://arquivopessoa.net/textos/3748>>. <>.

VICENTE, Alex. Um Supermacho em Dúvida. A Face Oculta de Hemingway https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/21/cultura/1508590742_519728.html. <>.

6. Videografia:

 COIMBRA, Alberto. Impressões de Cinema. <<https://www.youtube.com/watch?v=BkfpBMGr7KY&t=360s>>. <>.

FRECHETTE, Alex. Experiência Número 2 de Flávio de Carvalho. <<https://www.youtube.com/watch?v=_g4S0Lc30VE>>. <>.

PROGRESSO, Pedro. Maria Betânia: Grande Sertão Veredas. Diadorim.<<https://www.youtube.com/watch?v=oOdGvuzQjbA>>. <>.

MENEZES, Gustavo. Top Show do Gu (Entrevista com Alberto Coimbra). <http://revistacidadesol.blogspot.com/2018/09/entrevista-com-alberto-coimbra-top-show.html

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