segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Blognovela Penetrália: A Hora H

(Cenário: o escritório de Lúcio. Ele varre a sala e serve café, como um contínuo de si mesmo).

Lúcio: acho que fui profético quando disse que, aqui nessa blognovela, não existe diretor, cada um dirige a si mesmo, num processo self-service.

Cruz do Cruz & Sousa: Você quer tomar o poder? Parasita! Penetra!

Lúcio: é isso o que você está pensando mesmo. O poder tem a minha cara também.

Cruz: Sua blognovela é uma josta. Tá sem audiência nenhuma. Por que essa merda voltou? Quem é o diretor disso aqui? Isso aqui não passa de uma idéia plagiada do Gerald Thomas e mal realizada por esse tal “penetrália”...humpf!

Lúcio: sou eu.

Cruz: Parece caderno Mais passado na bunda. Mais usada na privada. Arquipélago Gullar....

Lúcio: E o Pinochet?

Cruz: Seu burro, eu senti, em Cuba e no Chile, o peso dessa esquerda autoritária que você romantiza aqui, você que é de uma suposta esquerda. Um dia um operário chegou na minha casa no Chile e disse que tudo aquilo ia ser dele no futuro! Ah, aqueles allendistas...tiveram o que mereciam.

Lúcio: pois aqui estamos entre Piaget e Pinochet.

Cruz: você é como o Francis que dizia sair das peças do Beckett com nada no bolso ou nas mãos. Ladrãozinho de idéias.

Lúcio: já é alguma coisa em filosofia, o nada. O nada nadifica, o tudo tudifica, não há nada como ejacular o seu nada. Nada prova nada.

John: Mas quem é diretor agora? Ninguém me fala nada...

Lúcio: Da Ópera H é o Caetano Vilela.

John: Bruce Botnick is also curious. Será que o Glass não sabe que o Gerald é brasileiro?

Lúcio: encare tudo como uma experiência prática de morte do autor.

John: death of the author?

Lúcio: autor aqui sou eu, mas a coisa seria muito melhor se o autor fosse Gerald Thomas.

Caetano Veloso (obraemprogresso.com.br): esse papo seu tá qualquer coisa.

Vamp: coisa em si?

Lúcio: John, a obra deve estar em progresso. Mas esqueceram o autor num hotel lá da Flórida, você disse...mas não era em Cuba?

John: é, o autor andava amaldiçoando a América Latina.

Cruz: vão trabalhar. Não tenho nada que acompanhar esses papos seus. Não gostei, não gostei, não gostei. GO DO YOUR THESIS! Você quer fazer do seu blog uma arena para touros brigarem, você quer sangue, quer por todo mundo uns contra os outros. Você quer que os escritores e artistas sangrem para depois vampirizar a tinta que sair. A culpa é TODA sua, Lúcio.

Lúcio: opera-ários e opera-árias de todo mundo, uni-vos em torno do libretto!

John: (...)

Gerald: (....)

Lula: eu não sei de nada, Gerald, não me culpe.

Lúcio: Cruz, você é sempre do contra. Mas não aceita sua própria cruz. O narciso dos outros é bem feio, né?

John: não quero mais saber de mistérios e não tou para botar a coroa em príncipes da esperança. Quero que alguém me informe sobre a Opera H.

Cruz (cantarola U2): it moves in mysterious ways...

A Hora H

http://www.consoantesreticentes.blogspot.com/

07 Fevereiro, 2009
A HORA H

Homero na mesa 8. Helena na mesa 12.
Homero enfim está de volta. Helena não está à espera.
Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé.
Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora.
Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada.
Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde.
Homero olha para ela. Helena finge que não vê.
Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça.
Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem.
Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido.
Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem.
Homero é reticente: Peixes. Helena é incisiva: Áries.
Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga.
Homero chama outro whisky. Helena mexe o Dry Martini.
Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou.
Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele.
Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias.
Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha.
Homero tem seu telefone. Helena não vai atender.
Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar.
Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis.
Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto.
Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater.
Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear.
Homero insinua. Helena deixa claro.
Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca.
Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata.
Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz.
Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido.
Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação.
Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista.
Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer.
Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra.
Homero recorda seus seios. Helena anseia vingança.
Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém.
Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.


© Direitos Reservados




// postado por Marcelo Pirajá Sguassábia @ 4:43 AM 11 Comentários
31 Janeiro, 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Philip Glass, Gerald Thomas, Pasquale, etc

Thanks for Patrick Grant: ele postou um excelente vídeo de Phillip Glass falando sobre Gerald Thomas. Basta entrar no blog do GT aí ao lado. Patrick sometimes is here reading this blog. Sometimes I go to myspace to hear Patrick´s wonderful music. I´ll put a link here.

Ainda não tive tempo de traduzi-lo todo, mas as primeiras frases dizem mais ou menos o seguinte (transcrio livremente):

"Muitas das peças de Gerald são paixões: paixões engraçadas, românticas, religiosas, populares, elas se colocam no limite tênue entre paixões trágicas e o ultrajante, o que para ele é confortável. Gerald é um tipo de pessoa que faz tudo no teatro, atua em várias posições enquanto encenador, ele sentiu realmente o chamado de uma vocação. Essa definição do teatro (enquanto algo entre o trágico e o ultrajante) é uma definição que serve bastante ao teatro de Gerald.

As obsessões de Gerald são sobre realizar uma vida no teatro. Ele só parece apaixonado por tudo. Toda face da vida tem ligações. E todas são...ligadas ao teatro, no caso dele. Existem ligações da vida dele ao teatro que talvez ele mesmo nem saiba que existem. (Nós) somos amigos há muito tempo numa boa convivência (...). Fizemos muitas peças. Mattogrosso foi realmente uma peça musical para teatro. Tivemos uma peça, uma orquestra e um produtor. Nós trabalhos em outras peças, Gerald também escreve as próprias peças. O mundo dele é muito próximo do de Beckett. Ele é um maravilhoso designer, ele imagina cenas maravilhosas (...). O mundo de Gerald é muito próximo do de Beckett e de um diretor de cinema. O episódio em que ele mostrou a bunda foi bem beckettiano. Foi um momento de livre-expressão e eu o apoiei. Tem também a ver com uma passagem de Molloy onde existe uma fala que trata de um bundalelê. O teatro dele é um teatro de adrenalina. Ele vive na margem da excitação. Ele quer uma reação (do público).Ele não se importa muito, ele quer uma vida com o público, com a mídia. Sua vida toda está no teatro.



Depois, passam algumas imagens (deslumbrantes) da peça Mattogrosso.

Voltarei a esse vídeo posteriormente.

Lendo a Folha Online, fico sabendo que o professor Pasquale é contra o acordo ortográfico. Pfui. De quê adianta resistir até 2012 na antiga grafia? Por que não instruir, didaticamente, aos leitores da Folha sobre o acordo e praticá-lo? No blog do Caetano, um colega responde que encontrou Pasquale em Santo Amaro e lhe perguntou sobre o acordo. Pasquale, "ameno", respondeu: "não gosto daquela política". De que política será que ele está falando? Será que ele associa o acordo ao Lula? Ou não gosta de nenhuma política que simplifique o uso do hífen, retire um elemento desnecessário tal como o trema, além de outros pontos, tais como o uso das maiúsculas, que efetivamente racionalizam e simplificam a língua escrita? A entrevista dele no uol educação começou sob o signo da confusão entre "acordo" e "reforma" que a mídia tem promovido. Ele começa dizendo que o que se passa é um acordo e não uma reforma. Ele é totalmente contra uma reforma da língua escrita no sentido de oficializar algumas formas do português brasileiro, pelo que dá a entender. É uma pena, pois o uso que ele faz da música popular e das referências cotidianas fazia esperar outra coisa. Os linguistas dizem que Pasquale, na realidade, é mais conservador do que os gramáticos da geração anterior. E estou inclinado a acreditar.

Eu vi com desconfiança a leitura que ele fez de uma canção do Caetano, Língua, na Cult de alguns anos atrás. Parece-me que, de fato, nessa canção Caetano quer falar de sua trajetória, levando suas idéias incríveis para a canção popular e não para a filosofia e deixando para esse gesto a irônica afirmação de que "está provado que só é possível filosofar em alemão". A frase foi atribuída a Heidegger, mas não pude encontrar referências a ela na biografia do Rudiger Safranski, Heidegger, o mestre da Alemanha. E, aliás, Groza, meu analista, me disse que ela foi desdita no nascedouro por Lacan.

Por que não reconhecer os benefícios para o Brasil da unificação das ortografias? Pasquale se coloca na posição da velhinha de Taubaté ou daquele japonês que ficou sozinho numa ilha achando que a guerra mundial ainda estava rolando.

Ele acabará, assim, confirmando a acusação de conservadorismo que lhe atribuem os linguistas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Zizek, Caetano, Gatão de Meia Idade, etc

Ouvi Zizek falar na TV Cultura ontem e gostei, achei muito instigante. Caetano hoje falou que nem gosta tanto de Zizek, queria mesmo é ironizá-lo ao falar dele no blog.

A Revista Piauí, há algum tempo, trouxe uma matéria com Zizek no Rio e registrou que seu discurso oscila e com frequência ele dá uma volta em torno de si mesmo, o que foi criticado, aí pela web, no meu amigo e excelente jornalista Laerte Braga. E que, normalmente, jamais faz isso: os textos dele são diretos como o punho de Cohn em The Sun Also Rises.

Zizek é lacaniano e marxista e um apaixonado intelectual e por isso ele passa paixão. Isso é importante: os alunos, ao nos verem entusiasmados ou apaixonados, correm o risco de se apaixonar, ainda que, muitas vezes, seja um risco remoto.

Estar apaixonado para mim é diferente das certezas revolucionárias vibratórias com as quais se deleitou, nos anos rebeldes, o Ferreira Gullar, por exemplo. Esquerda, volver, Gullar! Tem de ter cuidado, pois discurso conservador assim o Jorge Bornhausen também faz. E os integralistas brasileiros, que agora não usam mais a sigma verde e sim um cruzeiro do sul azul e branco. Tudo muda, até o integralismo!

O filósofo esloveno vê tudo quanto é filme, desde o Clã das Adagas Voadoras até Clube da Luta. Ele diz que, se a pessoa falar que Clube é fascista, ele é um liberal. O filme é um bom teste, segundo Zizek. E ele acha que nossas telenovelas tais como Escrava Isaura e os filmes chineses de luta mostram que "outra indústria cultural" é possível. Eu morri de rir em outra passagem, quando ele diz que, se seu pai te proibir de namorar, isso não é problema. Mas se ele te disser: que tipo de homem vc é, não pegou mulheres? Isso é meio caminho andado para vc virar impotente. Ele comenta a cena de Clube da Luta onde o protagonista se martiriza: gozar implica em algum prejuízo. Devemos lutar contra o imperativo do inconsciente de gozar, gozar sempre, pois para o Zizek a ideologia está é aí. Acho que aí é um bom ponto de vista para se analisar a indústria cultural brasileira, a Axé Music, por exemplo. Ela sempre proclama: GOZA BRASIL!

O poder é afrodisíaco. Sem tesão, como dizia Roberto Freire, não há solução.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a posição dele em relação a Stálin: ele relativiza esse comunista, que virou unanimidade entre liberais, direita, esquerda e extrema-direita: um "canalha" a quem sempre alguém se refere. No entanto, Zizek defendeu Stálin do conceito de totalitarismo de Hannah Arendt, onde cabe tudo: nazismo, comunismo, imperialismo. Edward Said, por exemplo, julga Arendt teórica do imperialismo. Francis gostava de Arendt. Há ruído aqui....Sinceramente, já escrevi um artigo para mostrar que esse conceito foi retirado do vocabulário do marxismo, para significar as filosofias da totalidade e virou algo grotesco, monstruoso: totalitarismo.

Zizek exemplifica que os prisioneiros do Gulag escreviam, obrigatoriamente, um telegrama de felicitações no aniversário de Stálin. Alguém já imaginou judeus em Auschwitz enviando um telegrama a Hitler? Dá para sentir a diferença?

E Zizek parecia estar se dirigindo a Caetano e à sua defesa da Axé Music quando falou: "detestou carnaval. O Gulag foi um grande carnaval, uma inversão da ordem. Um dia você é ministro, outro é espião, um dia você é banqueiro, outro prisioneiro mendigando comida. Eu quero ordem". Maria Rita Kehl, Vladimir Safatle e outros são brilhantes mas, a meu ver, foram ofuscados por esse intelectual brilhante que é o Zizek.

Pior do que o balaio de gatos insuportável do totalitarismo, é mania dos filósofos de chamar quem eles não concordam de irracionalista, tal como Afonso Romano de Sant´Anna a respeito dos que defendem Battisti. Ah, sim o Enigma Vazio...vou ler a resenha de Marcelo Coelho. Mas o título me parece "Elvira, a Morta Virgem". A gente já sabe quem morre no final. A arte contemporânea é um enigma, ou seja, algo que pede decifração; mas, para Afonso, não é preciso, é fátuo, decifrar essa arte. A arte contemporânea, poderia dizer ele num paradoxo wildeano, é uma esfinge sem segredo. Para fazer o que ele quer fazer, acho que o crítico deveria dizer: não gosto de Duchamp, mas gosto de Maria Martins, e a partir de agora vou lutar pela consagração e canonização de Santa Maria Martins, a escultora e mulher de um diplomata que amou Duchamp em todos os sentidos.


Caetano voltou a discutir o debate na Folha Ilustrada. Contrera falou sobre isso em seu blog: para ele, foi como ver o caderno Mais! ao vivo. Mas era a Ilustrada, Contrera! Há muito não vejo o triunvirato Cacá/Gullar/Caetano no Mais! Contrera é muito cansado e entediado para debater esse grupo de nordestinos enérgicos de maneira pertinente. Que o deixassem subir ao palco. Aí veríamos. O poder não corrompe: com ele, as pessoas se revelam...show man por show man, Ferreira Gullar é bom mas acho que prefiro Gerald Thomas. O Thomas é desvinculados da baixa política escrota do Brasil, como mostrou em sua última postagem no blog e jamais cogitaria apoiar Roseana Sarney para presidente. O encontro dos cinquenta anos de Ilustrada era mais uma celebração de quem venceu e por isso não cabia muito a crítica e a teoria de uma Maria Rita Kehl, por exemplo.

Uma crítica cultural séria no Brasil começará de onde Gilberto Vasconcellos a deixar. O insight dele de que o cinema de Glauber é uma resposta ao Adorno e suas críticas ao cinema é GENIAL. Realmente, os adornianos precisam ver e analisar Glauber: alô alô Rodrigo Duarte & Douglas Garcia!


Vi um filme de madrugada esses dias e era assim: Gatão de Meia-Idade. Há uma referência no filme ao teatro do Gerald: o cara de meia idade chama uma moça mais nova para ver um pornô, mas ela quer ir ver a peça do GT. Um diálogo memorável do filme. quando o gatão transou uma super-executiva. Transcrio livremente. Minutos antes, ele perguntara pelo "size" do pênis:

--Eu tenho que ir.
--Outro homem.
--Rodrigo. Reinaldo. José. Fábio.
--Quatro?
--Marido e três filhos.
--Você não me disse que era casada.
--Muda algo?
--Eu faria fantasias com a dissolução da família brasileira.
--Só porque sou casada, não posso trepar com qualquer um?
--Eu sou qualquer um?


Isto posto, transcrevo algumas frases que me chamaram a atenção essa semana:

"Seja a diferença que você quer ver no mundo".
"O futuro é uma velha desdentada tomando milk-shake".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Phelphes e a Diamba

Eu, se fosse o Michael Phelphes, faria desse flagra um protesto em favor da legalização da maconha.

E digo isso porque detesto maconha, não sou fã de reggae, gosto do som dos hippies, mas só do pessoal da época, os meia-oitos mesmo. Do pessoal da minha geração, quando fuma maconha, gosto de distância. Não gosto nem daquele cheiro adocicado nojento, nem do papo sussurado, as gírias, o culto em torno do prazer da droga, tudo isso me dá antipatia.

Legalizem, para que vire um cigarrinho qualquer e perca a mística. Vamos combater outras drogas, tal como o crack. O Rio, principalmente, precisa. Acabaríamos com os capitães nascimento da vida -- ou da morte. Filmeco do Padilha. Sou mais Cinema Novo e Nouvelle Vague. Literatura contemporânea até me sinto na obrigação de acompanhar, mas cinema da retomada vejo só esporadicamente. Vi Show de Bola e detestei, achei que reuniu clichês de vários outros filmes tais como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Se Linha de Passe for assim...mas Waltinho é um socialista cristão lírico. O Che dele dos Diários, um filme bom, é o cristão lírico antes da Queda na loucura da revolução, é o Waltinho...

Blogs, se bem sucedidos, são praças de touros onde desfilam egos antropofágicos em luta contra o meio que os sabem desproporcionais, pois há milhões de seres humanos no mundo e um ego sem tamanho é sempre um trambolho: ver alguém vergar sob o peso de um faz dó. Se eles são para uns poucos, como o meu, são monólogos interiores infindáveis. É o querido diário que você escreve e torce para seu colega de trabalho não encontrar. Mas ele vai encontrar.

Petição pela não extradição de Cesare Battisti

http://www.petitiononline.com/cesare07/petition.html

Os Guerrilheiros contra os herdeiros de Mussolini na Itália

Releio um artigo de José Antonio Pinheiro Machado sobre sua estadia na Itália de 1979 onde ocorreram os crimes pelos quais Battisti agora é perseguido. O contexto agora é obscuro e a tendência é de até mesmo intelectuais e jornalistas respeitáveis tais como Afonso Romano de Sant´Anna fazem discursos iguais aos de integralistas de extrema-direita a respeito desse assunto, reclamando toscamente de "irracionalismo ideológico"... Portanto, nesse momento grave é preciso algum esclarecimento.
Nos anos 70 italianos, com o PC italiano relativamente burocratizado, acomodado e participando da legalidade política, e, quem sabe, fazendo como o PC brasileiro de um Ferreira Gullar fazia nos anos 70, segundo as cartas ao mundo de Glauber Rocha: um partido arcaico que ficava negociando os dissídios da classe trabalhadora. Pasolini, por exemplo, prosseguiu naquele antro de “jogadores de bocha” insistindo para que os jovens o renovassem, daí o sentido do poema O PCI aos jovens!
O eixo do artigo de Pinheiro Machado “ a nova barbárie que invadiu a Itália” é a identificação da extrema-esquerda à extrema direita. Os atos da extrema-esquerda eram parte de uma “estratégia de tensão” que acabavam por favorecer a direita. Ele não entra em detalhes, mas a extrema-direita italiana também cometeu atos de terrorismo na Itália dos anos 70. Os principais grupos que estavam em luta armada eram as Brigadas Vermelhas e a Autonomia Operária. Os brigadistas seqüestraram o primeiro-ministro da democracia cristã Aldo Moro em 1978 e o assassinaram, o que funcionou a favor da direita. A estratégia, segundo Pinheiro Machado, seria levar o poderoso PCI de volta para os trilhos revolucionários através do fortalecimento da direita no poder. O lema dos brigadistas era “transformar a farsa eleitoral em luta de classe”, frase escrita pelos brigadistas ao destruírem com bombas a sede da DC em Roma. Num momento mais compreensivo onde deixa de simplesmente fazer invectivas contra os “novos bárbaros” e “terroristas”, Pinheiro Machado escreveu:

Os partidos de esquerda repetem sempre que há anos vem exigindo, sem resultado, a reforma e o reaparelhamento da polícia para proteção do estado democrático, e que a DC, desde o pós-guerra, tem tido o monopólio absoluto do Poder (inclusive na época em que compôs o governo de centro-esquerda, com os socialistas em situação subalterna), controlando a polícia e os serviços secretos. São mais de trinta anos de desgoverno DC, que se refletem também na polícia, opinava antes das eleições um senador comunista.

Pinheiro Machado não tratou do minúsculo grupo Proletários Armados pelo Comunismo, de Cesare Battisti, mas registrou a origem comum dos grupos mais importantes:

A Autonomia Operaria é a evolução da antiga organização, Potere Operário, surgida das lutas estudantis de 68 na Itália. Desta, teriam saído dois troncos distintos: a Autonomia e as Brigadas Vermelhas (...). O líder dos autômonos é o professor Antonio (Toni) Negri, da Universidade de Padova, autor de vários livros onde teoriza a violência das massas. Ele foi preso em abril e continuava até julho organizando a formalização do processo, por suspeita não só de ter teorizado, como também dirigido pessoalmente a operação de seqüestro e assassinato do deputado Aldo Moro.

Pinheiro Machado citou acima outro caso duvidoso, o de Antonio Negri, que é grande teórico e crítico social e também teve de seguir para o exílio numa época posterior a essa citada aí em cima (1979). Pessoalmente, penso que a luta armada em tempos de democracia liberal é algo fadado ao fracasso, mas o contexto em que a DC monopolizava o poder e a situação dos jovens levou a essa situação. Deve se levar em conta o contexto, portanto hoje a gente fica pensando como gente tão inteligente entrou numa fria daquelas. O artigo do Pinheiro que citei acima, na já finada revista Oitenta, foi especialmente moderado e identificado com as vítimas da DC, mas devemos levar em conta que em 79 o Brasil acabava de sair de experiência semelhante e igualmente traumática.