terça-feira, 21 de maio de 2024

Karl Marx: "Símon Bolívar"

Karl Marx: "Símon Bolívar" Simón, o “Libertador” da Colômbia nasceu em 24 de julho de 1783 em Caracas e morreu em San Pedro, perto de Santa Marta, em 17 de dezembro de 1830. Descendia de uma das famílias mantuanas, que na época da dominação espanhola constituíam a nobreza criolla na Venezuela. Conforme um costume dos americanos abastados da época, foi enviado para a Europa com a tenra idade de 14 anos. Da Espanha passou para a França e residiu durante alguns anos em Paris. Em 1802 casou-se em Madri e regressou à Venezuela, onde sua esposa faleceu repentinamente de febre amarela. Depois desse acontecimento, transferiu-se em seguida, pela segunda vez, para a Europa e assistiu em 1804 a coroação de Napoleão como imperador, também estando presente quando Bonaparte cingiu a coroa de ferro da Lombardia. Em 1809 retomou à sua pátria, e apesar das insistências de seu primo José Félix Ribas, recusou-se a aderir à revolução que estoura em Caracas a 19 de abril de 1810. Porém, posteriormente a este acontecimento, aceitou a missão de ir à Londres para comprar armas e negociar a proteção do governo britânico. O Marquês de Wellesley, na época Ministro das Relações Exteriores, aparentemente lhe deu boa acolhida, mas Bolívar não obteve mais que a autorização de exportar armas pagando à vista e pagando pesados tributos. Quando regressou de Londres, retirou-se para a vida privada, até que em setembro de 1811 o general Miranda, então comandante em chefe das forças insurretas de mar e terra, persuadiu-o a aceitar o posto de tenente-coronel no Estado-Maior e o comando de Puerto Cabello, a principal praça forte da Venezuela. Quando os prisioneiros de guerra espanhóis, que Miranda enviava regularmente a Puerto Cabello para mantê-los presos na cidadela, conseguiram atacar de surpresa a guarda e a dominaram, apoderando-se da cidadela, Bolívar, embora os espanhóis estivessem desarmados, enquanto ele dispunha de uma forte guarnição e de um grande arsenal, embarcou precipitadamente à noite com oito dos seus oficiais, sem informar o que ocorria às suas próprias tropas, chegou ao amanhecer a La Guaira, e de lá se retirou para a sua fazenda de San Mateo. Quando a guarnição se inteirou da fuga do seu comandante, abandonou ordenadamente a praça, que foi logo ocupada pelos espanhóis sob o comando de Monteverde. Este acontecimento inclinou a balança a favor da Espanha e forçou Miranda a subscrever a 26 de julho de 1812, por incumbência do Congresso, o tratado de La Victoria, que submeteu novamente a Venezuela ao domínio espanhol. Em 30 de julho chegou Miranda a La Guaira, com a intenção de embarcar num navio inglês. Enquanto visita o coronel Manuel Maria Casas, comandante da praça, encontrou-se com um numeroso grupo, no qual estavam dom Miguel Pefía e Simón Bolívar, que o convenceram a ficar, pelo menos uma noite, na residência de Casas. As duas da madrugada, encontrando-se Miranda dormindo profundamente, Casas, Pefía e Bolívar se introduziram em seu quarto com quatro soldados armados, se apoderaram precavidamente de sua espada e de sua pistola, despertaram-no rudemente, ordenando-lhe que se levantasse e se vestisse, após o que foi agrilhoado e entregue a Monteverde. O chefe espanhol remeteu-o para Cádiz, onde Miranda, acorrentado, morreu depois de vários anos de cativeiro. Este ato, para cuja justificação recorreu-se ao pretexto de que Miranda havia traído o seu país com a capitulação de La Victoria, valeu a Bolívar o especial favor de Monteverde, a tal ponto que quando o primeiro solicitou seu passaporte, o chefe espanhol declarou: “Deve-se atender o pedido do coronel Bolívar, como recompensa pelo serviço prestado ao rei da Espanha com a entrega de Miranda”. Autorizou-se assim que Bolívar embarcasse com destino a Curazao, onde permaneceu seis semanas. Em companhia do seu primo Ribas se transferiu logo para a pequena república de Cartagena. Antes de sua chegada a Cartagena havia fugido para lá uma grande quantidade de soldados, ex-combatentes que estiveram sob a ordem do general Miranda. Ribas lhes propôs empreender uma expedição contra os espanhóis na Venezuela e a reconhecer Bolívar como comandante em chefe. A primeira proposta teve uma acolhida entusiasmada; à segunda houve resistência, ainda que finalmente aceitassem, com a condição de que Ribas fosse o lugar-tenente de Bolívar. Manuel Rodriguez Torias, o presidente da república de Cartagena agregou aos 300 soldados assim recrutados para Bolívar outros 500 homens sob o comando de seu primo Manuel Castillo. A expedição partiu no começo de janeiro de 1813. Produzindo-se divergências entre Bolívar e Castillo sobre quem tinha o comando supremo, o segundo se retirou subitamente com seus granadeiros. Bolívar, por sua vez, propôs seguir o exemplo de Castillo e regressar a Cartagena, mas, no final, Ribas pôde persuadi-lo a prosseguir, ao menos a rota até Bogotá, onde tinha então, sua sede o Congresso de Nova Granada. Foram ali muito bem acolhidos, apoiados de mil maneiras e o congresso os promoveu ao posto de generais. Depois de dividirem seu pequeno exército em duas colunas, marcharam por diferentes caminhos para Caracas. Quanto mais avançavam, mais reforços recebiam; os cruéis excessos dos espanhóis desempenhavam o papel de recrutadores para o exército da independência. A capacidade de resistência dos espanhóis estava alquebrada; de um lado porque três quartas partes de seu exército se compunham de nativos, que em cada encontro passavam para o lado inimigo; do outro devido à covardia de generais como Tízcar, Cajigal e Fierro, que na menor oportunidade abandonavam suas próprias tropas. De tal sorte ocorreu que Santiago Mariño, um jovem sem formação, conseguiu expulsar das províncias de Cumaná e Barcelona os espanhóis, ao mesmo tempo em que Bolívar ganhava terreno nas províncias ocidentais. A única resistência séria opuseram-na os espanhóis contra a coluna Ribas, que derrotou o general Monteverde em Los Taguanes e obrigou-o a refugiar-se em Puerto Cabello com o resto de suas Tropas. Quando o governador de Carácas, general Fierro, teve notícias de que Bolívar se aproximava, enviou-lhe emissários para propor capitulação, que foi assinada em La Victoria. Porém Fierro, tomado por um pânico repentino e sem aguardar o regresso de seus próprios emissários, fugiu secretamente à noite e deixou mais de 1.500 espanhóis à mercê do inimigo. A Bolívar se tributou então uma entrada apoteótica. De pé, em um carro de triunfo, puxado por doze donzelas vestidas de branco e enfeitadas com as cores nacionais, escolhidas entre as melhores famílias de Caracas, Bolívar, com a cabeça descoberta e agitando um pequeno bastão na mão, foi levado em meia hora desde a entrada da cidade até sua residência. Proclamou-se “Ditador e Libertador das Províncias Ocidentais da Venezuela” — Mariño havia adotado o título de “Ditador das Províncias Orientais” — criou a “Ordem do Libertador”, formou umm corpo de tropas escolhidas que denominou sua guarda pessoal e se rodeou da pompa própria de uma corte. Porém, como a maioria de seus compatriotas, era incapaz de qualquer esforço de grande envergadura, e sua ditadura degenerou logo em uma anarquia militar, na qual os assuntos mais importantes ficavam em mãos de favoritos, que arruinavam as finanças públicas e depois recorriam a meios odiosos para reorganizá-las. Deste modo, o recente entusiasmo popular se transformou em descontentamento, e as dispersas forças do inimigo dispuseram de tempo para reorganizar-se. Enquanto no começo de agosto de 1813 Monteverde estava trancado na fortaleza de Puerto Cabello, e ao exército espanhol só restasse uma estreita faixa de terra no noroeste da Venezuela, apenas três meses depois o Libertador havia perdido seu prestígio e Caracas se achava ameaçada pela súbita aparição, em suas vizinhanças, dos espanhóis vitoriosos, sob o comando de Boves. Para fortalecer seu poder cambaleante, Bolívar reuniu, em 1º de janeiro de 1814, uma junta, constituída pelos vizinhos de Caracas mais influentes, e manifestou-lhes que não desejava suportar mais tempo o fardo da ditadura. Hurtado de Mendoza, por seu lado, fundamentou em um prolongado discurso “a necessidade de que o poder supremo se mantivesse nas mãos do general Bolívar até que o Congresso de Nova Granada pudesse se reunir e a Venezuela unificar-se sob um só governo. Aprovou-se esta proposta e desta forma a ditadura recebeu um reconhecimento legal. Durante algum tempo se deu continuidade à guerra contra os espanhóis, sob a forma de escaramuças, sem que nenhum dos contendores obtivesse vantagens decisivas. Em junho de 1814, Boves, depois de concentrar suas tropas marchou de Calabozo até La Puerta, onde os dois ditadores, Bolívar e Mariño haviam juntado suas forças. Boves encontrou-as ali e ordenou que suas unidades as atacassem sem demora. Após uma breve resistência, Bolívar fugiu para Caracas, enquanto que Mariño escapulia para Cumaná. Puerto Cabello e Valença caíram nas mãos de Boves, que destacou duas colunas (uma delas sob o comando do coronel González) rumo a Caracas, por rotas distintas. Ribas tentou conter em vão o avanço de González. Depois da rendição de Caracas a este chefe, Bolívar evacuou La Guaira, ordenou aos barcos ancorados no porto que zarpassem para Cumaná e se retirou com o resto de suas tropas para Barcelona. Após a derrota que Boves infligiu aos insurretos em Arguita, em 8 de agosto de 1814, Bolívar abandonou furtivamente suas tropas nesta mesma noite, para dirigir-se apressadamente, e por atalhos até Cumaná, de onde, apesar dos irados protestos de Ribas, embarcou de imediato no navio “Bianchi”, junto com Mariño e outros oficiais. Se Ribas, Paez e os demais generais houvessem seguido os ditadores na sua fuga, tudo se teria perdido. Tratados como desertores em sua chegada em Juan Griego, ilha Margarita, pelo general Arismendi, que exigiu sua partida, levantaram âncoras novamente até Carúpano, sendo ali recebidos de maneira análoga pelo coronel Bermúdez, se fizeram ao mar rumo a Cartagena. Ali, afim de coonestar sua fuga, publicaram uma memória de justificação, recheada de frases altissonantes. Havendo-se juntado Bolívar a uma conspiração para derrubar o governo de Cartagena, teve que abandonar essa pequena república e seguir viagem até Tunja, onde estava reunido o Congresso da República Federal de Nova Granada. A província de Cundinamarca, neste tempo estava à testa das províncias independentes que se negavam a subscrever o acordo federal neogranadino, enquanto Quito, Pasto, Santa Marta e outras províncias ainda se achavam em mãos espanholas. Bolívar, que chegou a 22 de novembro de 1814 em Tunja, foi designado, pelo Congresso, comandante­em-chefe das forças armadas federais e recebeu a dupla missão de obrigar o presidente da província de Cundinamarca a que reconhecesse a autoridade do Congresso e a marchar depois para Santa Marta, o único porto de mar fortificado granadino – ainda em mãos dos espanhóis. Não apresentou dificuldades o cumprimento do primeiro encargo, posto que Bogotá, a capital da província rebelde carecia de fortificações. Embora a cidade tivesse capitulado, Bolívar permitiu que seus soldados, durante 48 horas, a saqueassem. Em Santa Marta o general espanhol Montalvo, que dispunha somente de uma fraca guarnição de 200 homens e de uma praça forte em péssimas condições defensivas, tinha contratado um barco francês para assegurar sua própria fuga; os vizinhos, de seu lado, enviaram uma mensagem para Bolívar participando-lhe que, nem bem aparecesse, abririam as portas da cidade e expulsariam a guarnição. Mas, em vez de marchar contra os espanhóis de Santa Marta, tal como lhe havia ordenado o Congresso, Bolívar deixou-se arrastar por seu ódio contra Castillo, o comandante de Cartagena, e atuando por sua própria conta conduziu suas tropas contra esta última cidade, parte integrante da República Federal. Rechaçado, acampou em La Popa, uma colina situada aproximadamente a um tiro de canhão de Cartagena. Como bateria colocou um pequeno canhão, contra uma fortaleza munida com umas 80 peças. Passou logo do assédio ao bloqueio, que durou até começo de maio, sem mais resultados do que a diminuição de seus efetivos, por deserção ou doença, de 2.400 para uns 700 homens. Neste meio tempo, uma grande expedição espanhola, comandada pelo general Morillo e procedente de Cádiz, chegou à ilha de Margarita, em 25 de março de 1815. Morillo destacou de imediato poderosos reforços para Santa Marta e pouco depois suas forças se apoderaram de Cartagena. Antes, porém, em 10 de maio de 1815, Bolívar havia embarcado com uma dúzia de oficiais em um bergantim artilhado, de bandeira britânica, rumo a Jamaica. Uma vez chegado a este ponto de refúgio, publicou uma nova proclamação, em que se apresentava como a vítima de alguma facção ou inimigo secreto e defendia sua fuga dos espanhóis como se fosse uma renúncia ao comando, efetuada em benefício da paz pública. Durante sua permanência de oito meses em Kingston, os generais que havia deixado na Venezuela e o general Arismendi na ilha Margarita apresentaram uma tenaz resistência às armas espanholas. Mas depois que Ribas, a quem Bolívar devia seu renome, caísse fuzilado pelos espanhóis após a tomada de Maturin, ocupou seu lugar um homem de condições militares ainda mais relevantes. Não podendo desempenhar, por sua qualidade de estrangeiro, um papel autônomo na revolução sul-americana, este homem decidiu entrar a serviço de Bolívar. Tratava-se de Luis Brion. Para prestar auxílio aos revolucionários, viajara de Londres, rumo a Cartagena, com uma corveta de 24 canhões, equipada em grande parte às suas próprias custas e carregada de 14.000 fuzis, e de uma grande quantidade de outros apetrechos. Havendo chegado demasiado tarde e não podendo ser útil aos rebeldes, rumou até Los Cayos, no Haiti, onde muitos emigrados patriotas haviam fugido depois da capitulação de Cartagena. Nesse ínterim Bolívar se havia transladado também para Porto Príncipe, onde, em troca de sua promessa de libertar os escravos, o presidente do Haiti, Pétions, lhe ofereceu um grande apoio material para uma nova expedição contra os espanhóis da Venezuela. Em Los Cayos se encontrou com Brion e outros emigrados e, em uma junta geral, propôs a si mesmo como chefe de uma nova expedição, sob a condição de que até a convocató-ria de um Congresso Geral ele reuniria em suas mãos os poderes tanto civil como militar. A maioria tendo aceito esta condição, os expedicionários lançaram-se ao mar em 16 de abril de 1816 com Bolívar como comandante e Brion na qualidade de almirante. Em Margarita, Bolívar conseguiu ganhar Arismendi para sua causa, o comandante da ilha, quem havia repelido os espanhóis a tal ponto que a estes só restava um único ponto de apoio. Pampatar. Com a promessa formal de Bolívar de convocar um congresso nacional na Venezuela tão logo se apoderasse do país, Arismendi reuniu uma junta na catedral de Villa del Norte e proclamou publicamente Bolívar como chefe supremo das Repúblicas da Venezuela e Nova Granada. Em 31 de maio de 1816, desembarcou Bolívar em Carúpano, porém não se atreveu a impedir que Mariño e Piar se afastassem dele e efetuassem, por sua própria conta, uma campanha contra Cumaná. Debilitado por esta separação e seguindo os conselhos de Brion, velejou rumo a Ocumare (de la Costa), onde chegou a 3 de julho de 1816 com 13 barcos, dos quais somente 7 estavam artilhados. Seu exército se compunha tão somente de 650 homens, que aumentaram para 800 com o recrutamento de negros, cuja libertação havia proclamado. Em Ocumare divulgou um novo manifesto, em que ele prometia “exterminar os tiranos” e “convocar o povo para que designe seus deputados no congresso. Ao avançar em direção a Valença, topou, não distante de Ocumare, com o General espanhol Morales, à testa de 200 soldados e 100 milicianos. Quando os caçadores de Morales dispersaram a vanguarda de Bolívar, este, segundo testemunha ocular, perdeu “toda presença de espírito e, sem pronunciar palavra, num instante voltou atrás e fugiu, desabaladamente, para Ocumare, atravessou o povoado, a toda pressa, e chegou até a baía próxima, saltou do cavalo, entrou num bote e subiu a bordo do “Diana”, dando ordem a toda esquadra de que o seguisse até a pequena ilha de Bonaire, deixando todos seus companheiros privados de qualquer auxílio. As reprovações e exortações de Brion o induziram a reunir-se com os demais chefes na costa de Cumaná; entretanto, como o recebessem inamistosamente, e Piar o ameaçasse submetê-lo a um conselho de guerra por deserção e covardia, sem demora rumou para Los Cayos. Após meses e meses de esforços, Brion finalmente conseguiu persuadir a maioria dos chefes militares venezuelanos – que sentiam a necessidade de que houvesse um centro, ainda que fosse apenas nominal – de que chamassem uma vez mais Bolívar como comandante-em-chefe, sob a condição expressa de que convocaria o Congresso e não se imiscuiria na administração civil. Em 31 de dezembro de 1816, Bolívar chegou a Barcelona com armas, munições e apetrechos proporcionados por Pétion. Em 2 de janeiro de 1817 Arismendi juntou-se a ele e no dia 4 Bolívar proclamou a lei marcial e anunciou que todos os poderes estavam em suas mãos. Porém, 5 dias depois, Arismendi sofreu um contratempo em uma emboscada que lhe armaram os espanhóis, e o ditador fugiu para Barcelona. As tropas se concentraram novamente nesta localidade, onde Brion enviou-lhe tanto armas como novos reforços, de tal maneira que logo Bolívar dispôs de uma nova força de 1.100 homens. Em 5 de abril, os espanhóis tomaram a cidade de Barcelona e as tropas dos patriotas recuaram até a Casa de Misericórdia, um edifício situado fora da cidade. Por ordem de Bolívar cavaram-se algumas trincheiras, porém de maneira inadequada, para defender de um ataque sério uma guarnição de 1.000 homens. Bolívar abandonou a posição na noite de 5 de abril, após comunicar o coronel Freitas, a quem delegou o comando, que buscaria tropas de reforço e voltaria em breve. Freitas recusou uma oferta de capitulação, confiando na promessa e depois do ataque foi degolado pelos espanhóis, junto com toda sua guarnição. Piar, um homem de cor originário de Curazao, concebeu e pôs em prática a conquista da Güiana, com o apoio do almirante Brion e suas canhoneiras. Em 20 de julho, com todo o território livre dos espanhóis, Piar, Brion, Zea, Mariño, Arismendi e outros convocaram, em Angostura, um congresso das províncias e puseram chefiando o executivo um triunvirato; Brion, que detestava Piar e se interessava profundamente por Bolívar, já que no êxito deste havia posto em jogo sua grande fortuna pessoal, conseguiu que se designasse Bolívar como membro do triunvirato, apesar da sua ausência. Ao inteirar-se disto, Bolívar abandonou seu refúgio e se apresentou em Angostura, onde, estimulado por Brion, dissolveu o congresso e o triunvirato e substituiu-os por um “Conselho Supremo da Nação”, do qual se nomeou chefe, enquanto que Brion e Francisco Antonio Zea assumiram, o primeiro a seção militar, o segundo a seção política. Todavia, Piar, o conquistador da Guiana, que outrora havia ameaçado submeter Bolívar a um conselho de guerra por deserção, não poupava sarcasmos contra o “Napoleão dos recuos”. Bolívar, por sua vez, aprovou um plano para eliminá-la. Sob as falsas imputações de haver conspirado contra os brancos, atentado contra a vida de Bolívar e aspirado ao poder supremo, Piar foi submetido a um conselho de guerra presidido por Brion; condenado à morte, foi fuzilado em 16 de outubro de 1817. Sua morte encheu Mariño de pavor. Plenamente consciente de sua própria insignificância, ao não poder contar com a ajuda de Piar, Mariño, em uma carta abjetíssima, caluniou publicamente seu amigo vitimado, se lamentou de sua própria rivalidade com o Libertador e apelou para a inesgotável magnanimidade de Bolivar. A conquista da Guiana por Piar havia dado uma reviravolta total na situação, a favor dos patriotas, pois só esta província lhes proporcionava mais recursos que as outras sete províncias venezuelanas juntas. Daí todo o mundo confiar em que a nova campanha anunciada por Bolívar, em uma nova proclama, conduziria à expulsão definitiva dos espanhóis. Este primeiro boletim, segundo o qual as pequenas partidas espanholas, cujos soldados buscavam pasto para os cavalos ao retirarem-se de Calabozo, eram “exércitos que fugiam ante nossas tropas vitoriosas”, não tinham por objetivo dissipar tais esperanças. Para fazer frente a 4.000 espanhóis, que Morillo ainda não havia podido concentrar, dispunha Bolívar de mais de 9.000 homens, bem armados e equipados, abundantemente providos com todo o necessário para a guerra. Não obstante, em fins de maio de 1818, Bolívar havia perdido umas doze batalhas e todas as províncias situadas ao norte do Orenoco. Como dispersava suas forças, numericamente superiores, estas sempre eram batidas em separado, Bolívar deixou a direção da guerra em mãos de Páez e seus demais subordinados e se retirou para Angostura. A cada derrota se seguia outra, e tudo parecia encaminhar-se para um descalabro total. Neste momento extremamente crítico, uma conjunção de acontecimentos fortuitos modificou novamente o curso das coisas. Em Angostura, Bolívar encontrou Santander, natural de Nova Granada, que lhe solicitou elementos para uma invasão neste território, já que a população local estava pronta para levantar-se em massa contra os espanhóis. Bolívar satisfez, até certo ponto, este pedido. Neste ínterim, chegou da Inglaterra uma forte ajuda sob forma de homens, navios e munições, e oficiais ingleses, franceses, alemães e poloneses afluíram de toda parte para Angostura. Finalmente o doutor (Juan) Germán Roscio, consternado com a estrela decadente da revolução sul-americana, fez sua entrada em cena, conseguiu a aprovação de Bolívar e o induziu a convocar, para 15 de fevereiro de 1819, um congresso nacional, que a sua única menção, demonstrou ser suficientemente poderosa para por em pé um novo exército de aproximadamente 14.000 homens, com o qual Bolívar pôde novamente passar à ofensiva. Os oficiais estrangeiros aconselharam-no que desse a entender que projetava um ataque contra Caracas para libertar a Venezuela do jugo espanhol, induzindo assim Morillo a retirar suas forças de Nova Granada e concentrá-las para a defesa daquele país, após o que Bolívar devia se dirigir subitamente para oeste, unir-se às guerrilhas de Santander e marchar sobre Bogotá. Para executar este plano, Bolívar saiu em 24 de fevereiro de 1819 de Angostura, depois de designar Zea presidente do Congresso e vice-presidente da república durante sua ausência. Graças às manobras de Páez, os revolucionários bateram Morillo e La Torre em Achaguas, e os teriam aniquilado completamente se Bolívar houvesse somado suas tropas às de Páez e Mariño. De todo modo, as vitórias de Páez, tiveram como resultado a ocupação da província de Barinas, deixando livre assim a rota para Nova Granada. Como aqui tudo estava preparado por Santander, as tropas estrangeiras, compostas fundamentalmente por ingleses, decidiram o destino de Nova Granada graças às vitórias sucessivas alcançadas em 1º e 23 de julho e 7 de agosto na província de Tunja. Em 12 de agosto, Bolívar entrou triunfalmente em Bogotá, enquanto os espanhóis, contra os quais se haviam sublevado todas às províncias de Nova Granada, se entrincheiraram na cidade fortificada de Monpós. Depois de deixar funcionando o congresso granadino e o general Santander como comandante-em-chefe, Bolívar marchou até Pamplona, onde passou mais de dois meses em festejos e saraus. Em 3 de novembro chegou a Mantecal, Venezuela, ponto que havia fixado aos chefes patriotas para que se lhes reunissem com suas tropas. Com um tesouro de 2.000.000 dólares, obtidos dos habitantes de Nova Granada, mediante contribuições forçadas, e dispondo de uma força de aproximadamente 9.000 homens, um terço dos quais eram ingleses, irlandeses, hanoverianos, e outros estrangeiros bem disciplinados, Bolívar devia fazer frente a um inimigo privado de toda classe de recursos, cujos efetivos se reduziam a 4.500 homens, duas terças partes dos quais eram nativos e mal podiam, portanto, inspirar confiança aos espanhóis. Tendo se retirado Morillo de San Fernando de Apure em direção a São Carlos, Bolívar o perseguiu até Calabozo, de modo que os dois Estados-Maiores inimigos se encontravam apenas a dois dias de marcha um do outro. Se Bolívar houvesse avançado com resolução, só suas tropas européias teriam bastado para aniquilar os espanhóis. Porém preferiu prolongar a guerra cinco anos mais. Em Outubro de 1819, o Congresso de Angostura havia forçado a renúncia de Zea, designado por Bolívar, e elegeu em seu lugar Arismendi. Assim que recebeu esta notícia, Bolívar marchou com sua legião estrangeira sobre Angostura, pegando desprevenido Arismendi, cuja força se reduzia a 600 nativos, deportou-o para a ilha Margarita e investiu novamente Zea em seu cargo e dignidades. O Dr. Roscio, que havia fascinado Bolívar com as perspectivas de um poder central, persuadiu-o a proclamar Nova Granada e Venezuela como “República da Colômbia”, a promulgar uma constituição para o novo Estado — redigida por Roscio — e a permitir a instalação de um Congresso comum aos dois países. Em 20 de janeiro de 1820, Bolívar se encontrava de regresso a San Fernando de Apure. A súbita retirada de sua legião estrangeira, mais temida pelos espanhóis do que um número dez vezes maior de colombianos, deu a Morillo uma nova oportunidade de concentrar reforços. De outro lado, a noticia de que uma poderosa expedição, sob as ordens de O’Donnell, estava prestes a partir da Península, elevou o abatido ânimo do partido espanhol. Apesar de dispor de forças folgadamente superiores, Bolívar achou uma forma de nada conseguir durante a campanha de 1820. Enquanto isso, chegou da Europa a noticia de que a revolução na ilha de Leon havia posto violento fim à programada expedição de O’Donnell. Em Nova Granada, 15 das 22 províncias haviam aderido ao governo da Colômbia, e aos espanhóis só lhes restavam a fortaleza de Cartagena e o istmo de Panamá. Na Venezuela, 6 das 8 províncias se submeteram às leis colombianas. Esse era o estado de coisas quando Bolívar deixou-se seduzir por Morillo, e entrou com ele em conversações que tiveram por resultado, em 25 de novembro de 1820, a celebração do convênio de Trujillo, pelo qual se estabelecia uma trégua de seis meses. No acordo de armistício não figurava uma única menção sequer à República da Colômbia, apesar de que o congresso havia proibido, expressamente, a conclusão de qualquer acordo com o chefe espanhol se este não reconhecesse previamente a independência da república. Em 17 de dezembro, Morillo, ansioso por desempenhar um papel na Espanha, embarcou em Puerto Cabello e delegou o comando supremo para Miguel de Latorre; em 10 de março de 1821, Bolívar escrever a Latorre participando-lhe que as hostilidades se reiniciariam dentro de um prazo de 30 dias. Os espanhóis ocupavam uma sólida posição em Carabobo, uma aldeia situada aproximadamente na metade do caminho entre San Carlos e Valencia; porém, em vez de reunir ali todas as suas forças, Latorre só havia concentrado sua primeira divisão, 2.500 infantes e uns 1.500 cavalarianos, enquanto que Bolívar dispunha de aproximadamente 6.000 infantes, entre eles a legião britânica, integrada por 1.100 homens, e 3.000 llaneros (habitantes da planície) a cavalo, sob o comando de Páez. A posição do inimigo pareceu tão imponente a Bolívar, que propôs a seu conselho de guerra a realização de uma nova trégua, idéia que, no entanto, seus subalternos repeliram. À frente de uma coluna constituída fundamentalmente pela legião britânica, Páez, seguindo um atalho, envolveu a ala direita do inimigo; frente esta bem executada manobra, Latorre foi o primeiro dos espanhóis a fugir em disparada, não se detendo até chegar a Puerto Cabello, onde se trancou com o resto de suas tropas. Um rápido avanço do exército vitorioso teria produzido, inevitavelmente, a rendição de Puerto Cabello, porém Bolívar perdeu seu tempo fazendo-se homenagear em Valenda e Caracas. Em 21 de setembro de 1821, a grande fortaleza de Cartagena capitulou frente a Santander. Os últimos combates armados na Venezuela — o combate naval de Maracaibo, em agosto de 1823, e a forçada rendição de Puerto Cabello em julho de 1824 — foram ambos obra de Padilla. A revolução na ilha de León, que tornou impossível a partida da expedição de O’Donnell, e o concurso da legião britânica, haviam virado, evidentemente, a situação a favor dos colombianos. O Congresso da Colômbia inaugurou suas sessões em janeiro de 1821 em Cúcuta; em 30 de agosto promulgou a nova constituição e tendo Bolívar ameaçado uma vez mais renunciar, prorrogou os plenos poderes do Libertador. Uma vez que este assinou a nova carta constitucional, o Congresso autorizou-o a empreender a campanha de Quito (1822), para onde se haviam retirado os espanhóis depois de serem desalojados do istmo do Panamá, por um levantamento geral da população. Esta campanha, que finalizou com a incorporação de Quito, Pasto e Guaiaquil à Colômbia, se efetuou sob a direção nominal de Bolívar e do general Sucre, porém os poucos êxitos alcançados pelo corpo do exército, se devem integralmente aos oficiais britânicos, e em particular ao coronel Sands. Durante as campanhas contra os espanhóis no Baixo e Alto Peru - 1823-1824 — Bolívar já não considerou necessário representar o papel de comandante­em-chefe, delegando ao general Sucre a condução dos assuntos militares e restringiu suas atividades às entradas triunfais, aos manifestos e à proclamação de constituições. Através de seu corpo de tropa colombiano manipulou as decisões do Congresso de Lima, que em 10 de fevereiro de 1823, encomendou-lhe a ditadura; graças a um novo simulacro de renúncia, Bolívar assegurou sua reeleição como presidente da Colômbia. Enquanto isso sua posição se havia fortalecido, em parte pelo reconhecimento oficial do novo Estado pela Inglaterra, em parte pela conquista das províncias do Alto Peru por Sucre, que unificou as últimas em uma república independente, a da Bolívia. Neste país, submetido às baionetas de Sucre, Bolívar deu livre curso a sua tendência ao despotismo e proclamou o Código Boliviano, arremedo do Código Napoleônico. Projetava transplantar este código da Bolívia para o Peru, e deste para Colômbia, e manter submetidos os dois primeiros Estados por meio de tropas colombianas, e este último mediante a legião estrangeira e tropas peruanas. Valendo-se da violência e também da intriga, logo conseguiu impor, ainda que por umas poucas semanas, seu código ao Peru. Como presidente e libertador da Colômbia, protetor e ditador do Peru e padrinho da Bolívia havia alcançado o ápice da glória. Porém, na Colômbia havia surgido um sério antagonismo entre os centralistas, ou bolivistas, e os federalistas, (sob esta última denominação os inimigos da anarquia militar se haviam associado aos rivais militares de Bolívar). Quando o Congresso da Colômbia, às instâncias de Bolívar, formulou uma acusação contra Páez, vice-presidente da Venezuela, este último respondeu com uma revolta aberta, que contava secretamente com o apoio e o alento do próprio Bolívar; este, com efeito, necessitava de sublevações como pretexto para abolir a constituição e reimplantar a ditadura. Em seu regresso do Peru, Bolívar trouxe, além de seu corpo de tropa, mais 1.800 soldados peruanos, presumivelmente para combater os federalistas exaltados. Porém, ao encontrar Páez em Puerto Cabello, não só o confirmou como máxima autoridade na Venezuela, não só como proclamou anistia para os rebeldes, como tomou partido abertamente por eles e vituperou os defensores da constituição; o decreto de 23 de novembro de 1826, promulgado em Bogotá, lhe concede poderes ditatoriais. No ano de 1876, quando seu poder começava a declinar, conseguiu reunir um congresso no Panamá, com o objetivo aparente de aprovar um novo código democrático internacional. Chegaram plenipotenciários das Colômbia, Brasil, La Plata, Bolívia, México, Guatemala, etc. A intenção real de Bolívar era unificar toda a América do Sul em uma república federal, cujo ditador seria ele mesmo. Enquanto dava este amplo vôo a seus sonhos de ligar meio mundo a seu nome, o poder efetivo lhe escapava rapidamente das mãos. As tropas colombianas destacadas no Peru, ao ter notícias dos preparativos que realizava Bolívar para introduzir o Código Boliviano, desencadearam uma violenta insurreição: Os peruanos elegeram o general Lamar presidente de sua república, ajudaram os bolivianos a expulsar do país as tropas colombianas e empreenderam inclusive uma guerra vitoriosa contra a Colômbia, finalizada por um tratado que reduziu este país a seus limites primitivos, estabeleceu igualdade de ambos os países e separou as dívidas públicas de cada um. A Convenção de Ocaña, convocada por Bolívar para reformar a constituição, de modo que seu poder não encontrasse limite, começou em 2 de março de 1828, com a leitura de uma mensagem cuidadosamente redigida, em que se realçava a necessidade de outorgar novos poderes ao executivo. Evidenciando-se, no entanto, que o projeto de reforma constitucional iria diferir do previsto no inicio, os amigos de Bolívar abandonaram a convenção deixando-a sem quorum, com o qual as atividades da Assembléia chegaram ao fim. Bolívar, de sua casa de campo, situada a algumas milhas de Ocaña, publicou um novo manifesto em que pretendia estar irritado com os passos dados por seus partidários, porém ao mesmo tempo atacava o Congresso, exortava as províncias a que adotassem medidas extraordinárias e se declarava disposto a tomar sobre si a carga do poder se esta lhe caísse em seus ombros. Sob a pressão de suas baionetas, Assembléias abertas, reunidas em Caracas, Cartagena e Bogotá, para onde havia viajado Bolívar, o investiram novamente de poderes ditatoriais. Uma tentativa de assassiná-lo, em seu próprio quarto, em Bogotá, da qual só se safou porque pulou por uma janela, em plena noite, e permaneceu escondido debaixo de uma ponte, permitiu-lhe exercer durante algum tempo uma espécie de terror militar. Bolívar, porém, evitou pôr a mão sobre Santander, apesar de que este participara da conjura, enquanto mandou matar o general Padilla, cuja culpabilidade não havia sido demonstrada em absoluto, mas pelo fato de ser homem de cor, não podia oferecer resistência alguma. Em 1829, a encarniçada luta entre as facções dilacerava a república e Bolívar, em um novo apelo à cidadania, exortou-a a expressar sem receios seus desejos a respeito de possíveis modificações na constituição. Como resposta a este manifesto, uma Assembléia de notáveis, reunida em Caracas, reprovou publicamente suas ambições, pôs a descoberto as deficiências de seu governo, proclamou a separação da Venezuela em relação à Colômbia, e colocou à frente da primeira o general Páez. O Senado da Colômbia apoiou Bolívar, porém novas insurreições estouraram em diversos lugares. Após demitir-se pela quinta vez, em janeiro de 1830, Bolívar aceitou de novo a presidência e abandonou Bogotá para guerrear contra Páez em nome do congresso colombiano. Em fins de março de 1830 avançou à frente de 8.000 homens, tomou Caracuta, que havia se sublevado, e se dirigiu até a província de Maracaibo, onde Páez o esperava com 12.000 homens fortemente posicionados. Assim que Bolívar soube que Páez projetava combater seriamente, fraquejou. Por um momento, inclusive, pensou em submeter-se a Páez e pronunciar-se contra o Congresso. Porém decresceu a ascendência de seus partidários e Bolívar se viu obrigado a apresentar sua demissão, já que se lhe deu a entender que desta vez teria que manter sua palavra e que, com a condição de que se retirasse para o estrangeiro, ser-lhe-ia concedida uma pensão anual. Em 27 de abril de 1830, por conseguinte, apresentou sua renúncia ao Congresso. Com a esperança, porém, de recuperar o poder graças à influência de seus adeptos, e devido ao fato de que já se iniciara um movimento de reação contra Joaquim Mosquera, o novo presidente da Colômbia, Bolívar foi postergando sua partida de Bogotá e arrumou um jeito de prolongar sua estada em San Pedro até fins de 1830, momento em que faleceu repentinamente. Ducoudray-Holstein deixou-nos de Bolívar o seguinte retrato: “Simón Bolívar mede cinco pés e quatro polegadas de altura (1,63m), seu rosto é magro, de faces cavadas, e sua pele pardacenta e lívida; seus olhos nem grandes nem pequenos se afundam marcadamente nas órbitas; seu cabelo é ralo. O bigode lhe dá um aspecto sombrio e feroz, particularmente quando se irrita. Todo seu corpo é magro e descarnado. Seu aspecto é o de um homem de 65 anos. Ao caminhar agita incessantemente os braços. Não pode andar muito a pé e se cansa logo. Agrada-lhe se esticar ou sentar na rede. Tem freqüentes e súbitos acessos de ira, e aí fica como louco, se lança na rede e desanda em palavrões e maldições contra todos quanto o rodearem. Gosta de proferir sarcasmos contra os ausentes, não lê senão literatura francesa de caráter leviano, é um ginete consumado e dança valsa com paixão. Agrada-lhe ouvir-se falar, e pronunciar brindes o deleita. Na adversidade e quando está privado de ajuda exterior torna-se completamente isento de paixões e ataques temperamentais. Então se torna aprazível, paciente, afável e até humilde. Oculta magistralmente seus defeitos sob a urbanidade de um homem educado no chamado beau monde, possui um talento quase asiático para a dissimulação e conhece muito melhor os homens do que a maior parte de seus compatriotas”. Por um decreto do Congresso de Nova Granada, os restos mortais de Bolívar foram transladados em 1842 para Caracas, onde se erigiu um monumento em sua memória.

domingo, 5 de maio de 2024

As Três vias de desenvolvimento do Capitalismo Marechal Kota Zhu De

As Três vias de desenvolvimento do Capitalismo Marechal Kota Zhu De Marechal Kota Zhu De · Follow 10 min read · Apr 9, 2024 1 Abraham Lincoln — representante da via de desenvolvimento revolucionária do capitalismo Otto Von Bismarck — representante da via de desenvolvimento reformista do capitalismo Getúlio Vargas — representante da via de desenvolvimento burocrática do capitalismo Introdução O capitalismo de maneira alguma se desenvolveu de forma unitária para todos os países do mundo. Pelo contrário, dependendo de como se desenvolvia as sociedades, a relação entre as classes sociais existentes e seu papel de liderança e aliança em seus processos de implementação do capitalismo, acabaram por gerar formas diferentes de desenvolvimento do capitalismo. O próprio Grande Lenin, A Chefatura da Grande Revolução Socialista de Outubro da Rússia, descreveu em seu texto “O programa agrário da socialdemocracia na Revolução Russa” que havia duas formas de desenvolvimento capitalista: a via de desenvolvimento do capitalismo agrário do tipo prussiano e a via de desenvolvimento do capitalismo agrário do tipo norte-americano. Na primeira forma, o capitalismo agrário do tipo prussiano se desenvolve de forma muito lenta, onde o senhor feudal lentamente se transforma em um capitalista e há decênios de humilhação, ignorância e miséria do campesinato. Na segunda forma, por outro lado, há uma varredura da propriedade latifundiária, logo, o agricultor na terra livre, limpa de todos os restos feudais, se converte na base da agricultura capitalista. Essa é forma de desenvolvimento do capitalismo agrário do tipo norte-americano, reconhecida por Lenin, como “O MAIS RÁPIDO DESENVOLVIMENTO DAS FORÇAS PRODUTIVAS nas condições mais favoráveis para a massa do povo dentro dos marcos do capitalismo.” [1] Há ainda, no entanto, uma terceira via, que por sua vez tem suas origens Presidente Mao Tsé-Tung e o Presidente Gonzalo, ambos componentes da espada do Maoismo, que, por sua vez, analisaram e explicaram uma forma de capitalismo qualitativamente diferente das já citadas, o capitalismo burocrático, o qual, aliás, é presente inclusive em todos os países do Terceiro Mundo. E, além disso, levando sua forma de implementação e como este se desenvolve, podemos dizer que é uma terceira de via de desenvolvimento do capitalismo, a via burocrática. Tendo dito tudo isso, vamos agora começar de fato o artigo, explicando todas as três vias de desenvolvimento do capitalismo. A Via Revolucionária de Desenvolvimento do Capitalismo A via revolucionária ou também conhecida como “via norte-americana” é a via de desenvolvimento do capitalismo que foi implementada principalmente nos EUA e na França. Nessa via de desenvolvimento do capitalismo, a Burguesia enquanto classe revolucionária se alia ao campesinato como aliado principal e conduz um processo de Revolução Agrária, onde há a liquidação e destruição do feudalismo e o acesso à terra democratizado, isto é, a terra dada aos camponeses. Aqui a Burguesia constituiu seu regime político, ou seja, a ditadura da burguesia e propriamente o capitalismo. Essa via de desenvolvimento do capitalismo gera um rápido desenvolvimento produtivo e condições mais favoráveis ao bem-estar das massas (dentro dos marcos possíveis dentro do capitalismo). E, além disso, representa um período histórico em que a Burguesia ainda era uma classe revolucionária, a qual se levantava contra a Velha Ordem Feudal. A Via Reformista de Desenvolvimento do Capitalismo A via reformista ou via prussiana é a via de desenvolvimento do capitalismo que se expressou principalmente na Alemanha, na Itália e no Japão. Ao contrário da via revolucionária, onde a Burguesia se unia ao campesinato para fazer a Revolução Agrária, agora a Burguesia se une aos Latifundiários e demais classes dominantes e impõe uma repressão pesada ao campesinato, mantendo principalmente o regime de servidão no campo e o senhor feudal como seu proprietário. Além disso, paulatinamente os laços feudais vai se convertendo em uma propriedade capitalista através dos Junkers, os grandes proprietários de terras. Essa via de implementação do capitalismo gera condições de vida muito piores (se comparado com a primeira via) para as massas e há lento desenvolvimento produtivo. Ademais, vale salientar que essa via representa um processo de reacionarização da burguesia, quando ela já deixava de ser revolucionária, como já demonstrado em 1848 com a Primavera dos Povos, principalmente na Contrarrevolução na Prússia causada pela traição da burguesia. A Via Burocrática de Desenvolvimento do Capitalismo Há um terceiro caminho de desenvolvimento do capitalismo que, de maneira nenhuma é igual ao caminho de desenvolvimento do capitalismo do tipo norte-americano, isso porque não há uma Revolução Agrária dirigida pela Burguesia aliada ao campesinato contra a Velha Ordem Feudal e, mesmo que tenha certas semelhanças com a via reformista ou a via prussiana de desenvolvimento do capitalismo, não é impulsionada pelas forças sociais internas, isto é, pela sua própria burguesia, mas sim por uma país imperialista, com seu capital imperialista se fundindo com o capital feudal, gerando o capital burocrático. Essa via burocrática de desenvolvimento do capitalismo está vigente em todos os países do Terceiro Mundo (incluindo o Brasil). Agora, explicando de fato o que é o capitalismo burocrático, o Presidente Gonzalo, em seu documento a “Linha da Revolução Democrática (PCP)” descreveu o capitalismo burocrático da seguinte forma: “Tomar a tese do presidente Mao nos ensina que ele [o capitalismo burocrático] tem cinco características: 1) é o capitalismo que o imperialismo desenvolve em países atrasados, que compreende capitais dos latifundiários, dos grandes banqueiros e dos magnatas da grande burguesia; 2) explora o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia e restringe a burguesia média; 3) passa por um processo pelo qual o capitalismo burocrático é combinado com o poder do Estado e se torna um capitalismo monopolista estatal, comprador e feudal, do qual deriva que, a princípio, ele se desenvolve como grande capital monopolista não estatal e, em um segundo momento, quando combinado com o poder do Estado, ele se desenvolve como um capitalismo monopolista estatal; 4) amadurece as condições da revolução democrática ao atingir o ponto culminante de seu desenvolvimento; e 5) confiscar o capitalismo burocrático é chave para concluir a revolução democrática e para avançar à revolução socialista. Ao aplicá-lo, ele concebe que o capitalismo burocrático é o capitalismo gerado pelo imperialismo em países atrasados, vinculado à feudalidade já caduca e submetido ao imperialismo, que é a última fase do capitalismo, que não serve às maiorias, mas aos imperialistas, à grande burguesia e aos latifundiários (…) conformam, portanto, um capitalismo burocrático que oprime e explora o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia, e que restringe a burguesia média. Por quê? Porque o capitalismo que se desenvolve nesses países é um processo tardio e só consente uma economia aos interesses imperialistas. É um capitalismo que representa a grande burguesia, os latifundiários e campesinato rico do velho tipo, classes que constituem uma minoria e exploram e oprimem as grandes maiorias, as massas.” [2] Em síntese, o capitalismo burocrático é a forma de capitalismo gerado pelos países imperialistas nos países semicoloniais e coloniais, o qual se aproveita das relações das antigas relações feudais e as aprofunda junto com o desenvolvimento de um capitalismo atrasado, impedindo também o desenvolvimento autônomo da economia nacional. Isso porque se sustenta na subjugação estrangeira e na dominação do latifúndio no campo. Dessa forma, o capitalismo burocrático já nasce atado a semifeudalidade e, por causa disso, desenvolver o capitalismo não acabará por limpar as relações semifeudais aqui existentes. Agora vamos para outra questão: que classes compõem um país do tipo capitalista burocrático? Podemos dizer que em todo país capitalista burocrático há: A Grande Burguesia Burocrática, com suas frações do tipo propriamente burocrática e a compradora. A propriamente burocrática representa principalmente os grandes industriais que prestam serviços ao Estado Burguês-Latifundiário. Já a compradora representa os Grandes Barões do Comércio (Banqueiros e Grandes comerciantes) geralmente ligados a monopólios privados e internacionais; Os Latifundiários feudais, os quais representam a aplicação das relações servis no campo, prendendo os homens à terra (camponeses) e tendo a propriedade fundiária da terra para sustentar seu poder; O campesinato, com seu conjunto (principalmente pobre) e médio e rico campesinato, representando os homens presos à terra e que possuem contradições principalmente com os Latifundiários, classe dominante no campo responsável pela servidão dos camponeses, que se aproveitam de modalidades feudais para explorar os camponeses, como por exemplo, o regime de barracão1; O Proletariado, a última classe da história e a única que tem possibilidade de dirigir a revolução, que vende de sua força de trabalho em troca de um salário, que nada mais é uma parte do valor que o mesmo produz no seu trabalho, o qual é extraído em forma de mais-valia pelo capitalista; O Semiproletariado, que ainda possui parte dos meios de trabalho (constituindo-se em um setor arruinado que oscila entre pequena burguesia e proletariado, em acelerada proletarização). Aqui se pode citar como exemplo, os motoristas de Uber; A Pequena burguesia, uma classe com muita energia, que está entre a Grande Burguesia e o Proletariado. Pode se dar o exemplo artesãos, trabalhadores autônomos e pequenos proprietários no geral como representantes dessa classe. Além disso, se pode dizer que essa classe há já uma mencionada grande energia, mas que pode se desviar tanto para direita como para esquerda, isto é servir à burguesia ou ao proletariado; A Burguesia Genuinamente nacional, que é uma classe exploradora objetivamente, no entanto, possui contradições com as demais classes dominantes e principalmente com o imperialismo e, ademais possui pouco ou nenhum espaço no Estado Burguês e suas empresas são destinadas genuinamente à produção nacional, sem se abrir de fato para monopólios estrangeiros. Ademais, há as “Três Linhas do Capitalismo Burocrático”, ou seja, TrêS formas de manifestação do capitalismo burocrático, as quais foram descritas pelo Presidente Gonzalo: “Introduz a linha latifundiária no campo mediante leis agrárias expropriatórias que não apontam a destruir a classe latifundiária feudal e sua propriedade senão evoluí-las progressivamente mediante a compra e pagamento da terra pelos camponeses. A linha burocrática na indústria aponta a controlar e a centralizar a produção industrial, no comércio, etc., pondo-os cada vez mais em mãos monopolistas a fim de propiciar uma acumulação mais rápida e sistemática do capital, em detrimento da classe operária e demais trabalhadores, naturalmente, e em benefício dos maiores monopólios do imperialismo em consequência; neste processo tem grande importância a poupança forçosa a que se submete aos trabalhadores, como se vê na lei industrial. A linha burocrática no ideológico consiste no processo para moldar a todo o povo, mediante meios massivos de difusão, especialmente, na concepção e ideias políticas, particularmente, que sirvam ao capitalismo burocrático; a lei geral de educação é a expressão concentrada desta linha, e uma das constantes desta linha é seu anticomunismo, seu antimarxismo aberto ou solapado.” [4] Vamos analisar como essas três linhas se manifestam no nosso país. A linha latifundiária no Brasil se manifesta no campo a partir de leis agrárias expropriatórias, que são propagandeadas como “Reforma Agrária”, que longe destruir o latifúndio, acabam por o alongar, deixando basicamente os trabalhadores rurais em uma condição precária, sem condição de plantar, tendo que vender a sua força de trabalho para o latifúndio depois e inclusive suas terras. A linha burocrática na Indústria no Brasil aparece a partir da tendência da centralização e da monopolização de toda a produção nacional, a fim de aumentar do capital burocrático e precarizar cada vez mais a vida das massas. A linha burocrática no ideológico no Brasil se manifesta a partir da defesa do capitalismo burocrático por meios de comunicação, da educação e da cultura. Isso é notável, por exemplo, na clássica propaganda da Globo “AGRO É POP”, no próprio projeto do “Novo Ensino Médio”, que substituiu disciplinas científicas por disciplinas farsantes, além de aumentar o abismo entre as escolas, precarizando assim a educação pública. E, como o último exemplo, podemos citar o clássico exemplo vindo de muitos direitistas que é a demonização do principal inimigo do capitalismo burocrático: o marxismo. O Caminho da Revolução nos Países Capitalistas Burocráticos Diante do exposto, ainda falta uma última pergunta a ser respondida: qual é o caminho que deve ser tomado para engendrar a Revolução, ou melhor, qual é a forma e o conteúdo da Revolução em países do tipo Capitalista Burocrático? De maneira alguma poderá ser tomado o caminho de uma Revolução Socialista de imediato, uma vez que a principal contradição não está entre proletariado e burguesia, mas sim entre o campesinato pobre e o sistema latifundiário, o que exige uma tarefa democrática. Ao mesmo tempo que não se pode falar de uma Revolução Democrático-Burguesa, uma vez que a nossa Grande Burguesia é reacionária e vive do capitalismo burocrático. E, mesmo que a pequena burguesia e média burguesia tenham pretensões progressistas, não possuem forças pra dirigir a Revolução, pois tem medo do comunismo. Ora, então “O que Fazer?” A isso, o Presidente Mao Tsé-Tung responde com a Revolução Democrática de Novo Tipo ou Revolução de Nova Democracia Ininterrupta ao Socialismo. [4] Em síntese, cabe ao Proletariado em formada aliança operário-camponesa por meio do Partido Comunista junto com uma aliança com as demais classes oprimidas, conduzir uma Revolução Democrática cujo eixo central é a Revolução Agrária, uma vez que a contradição principal é entre Camponeses x Latifundiários e, sendo assim, barra a condição semicolonial e semifeudal, destruindo-as e assim avança ininterruptamente para o socialismo. Escrito por Kota Notas 1 — O regime de barracão funciona assim, nesse caso, o semiproletário do campo, levado à fazenda como assalariado devido a um longo processo de expropriação pelo latifúndio feudal-burguês, é convertido rapidamente em servo. Ele, aparentemente assalariado, é obrigado a comprar com o senhor os bens de consumo a preços hiperinflacionados, forma através da qual o senhor, na prática, toma-lhe o “salário” que lhe pagou. Na prática, o camponês pobre sem nenhuma terra trabalha na terra do senhor, entregando-lhe a renda-dinheiro, trabalho gratuito, torna-se preso à terra. Bibliografia: [1] El programa agrário de la socialdemocracia russa em la primera revolución rusa de 1905–1907 — Lenin, 1908 [2] Como o marxismo-leninismo-maoismo compreende o capitalismo burocrático — Movimento Popular Peru (Comitê de Reorganização). Publicado na Revista o Maoista n 1 (setembro de 2016). Disponível em: https://serviraopovo.com.br/2020/02/25/como-o-marxismo-leninismo-maoismo-compreende-o-capitalismo-burocratico/ [3] A problemática nacional — Presidente Gonzalo, 1974. Disponível em: https://serviraopovo.wordpress.com/2021/10/10/a-problematica-nacional-presidente-gonzalo-1974/ [4] Sobre a Democracia Nova — Mao Tsé-tung, janeiro de 1940. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mao/1940/01/democracia.htm

O Uso Oportunista da obra “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo

O Uso Oportunista da obra “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” 1-Introdução A obra “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo” [1], é uma obra escrita pelo Camarada Lenin, a qual polemizava com diferentes esquerdistas de seu tempo, dos aventureiristas pequeno-burgueses até os seus camaradas bolcheviques. Essa obra merece ser lida e analisada minuciosamente. Isso porque mais do que nunca ela vem sendo invocada como um mantra pelos oportunistas, de forma desconexa e caricata, tergiversando os sólidos e corretos ensinamentos do Grande Lenin, e endossando ao mais vil cretinismo parlamentar, o qual Lenin combateu de forma indubitável. Justificando as mais hediondas alianças com o que há de mais reacionário no parlamento burguês, vemos essa obra sendo usada pelos oportunistas dos já partidos revisionistas como PCB, PCdoB, PCR, UP e etc. O objetivo primordial deste artigo é refutar e desmascarar os oportunistas que utilizam a obra de Lenin para o endossar o mais vil cretinismo parlamentar. Sendo assim nós demonstraremos como é o pensamento de Lenin sobra a questão das eleições em sua essência. 2- O aventureirismo dos socialistas revolucionários O esquerdismo, antes de tudo, se configura como posturas excessivamente radicais ou aparente extremas, mas que são inaptas à revolução. Podemos citar desde terrorismo individual às posturas sectárias que causem o isolamento das massas. Voltando agora a obra de Lenin, nela o nosso camarada travou incessantes debates com uma linha esquerdista que daremos atenção especial no momento, os socialistas revolucionários. Os socialistas revolucionários são descritos por Lenin como tendo tendências pequeno-burguesas que negavam o marxismo e tinham flerte pelo anarquismo. Eram aventureiristas e praticavam ações terroristas individuais, sem se preocupar com a mobilização das massas em suas ações, e longe de suas ações atraírem as massas para si, acabavam na verdade as alienando da luta. Ademais, ao mesmo tempo que riam dos oportunistas da II Internacional, se aliavam com esses para atacar os bolcheviques em sua política agrária e a defesa da ditadura do proletariado. Em síntese, assim como o anarquismo, os socialistas revolucionários tinham uma ideologia pequeno-burguesa, furiosa contra o capitalismo, mas incapaz de o compreender de forma profunda e construir uma organização sólida e de massas, se lançando assim em ações de maneira imprudente. Diante do exposto, temos aqui de fato a correta definição de “Esquerdismo”, a qual não é aplicada de maneira nenhuma aos legítimos democratas, estudantes do marxismo-leninismo-maoismo e comunistas de fato. 3- A opinião de Lenin acerca dos boicotes e das traições disfarçadas de “estratégias” A participação no parlamente burguês e o uso do boicote sempre foram questões táticas para o Camarada Lenin. Em nenhum momento de sua obra ele vai defender incondicionalmente uma das opções, muito pelo contrário, ele se esforça para deixar claro que o uso dependia do momento. Sobre o boicote dos bolcheviques que Lenin definiu como justo, ele disse o seguinte: “”O boicote dos bolcheviques ao “parlamento” em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário com uma experiência política extraordinariamente preciosa, mostrando que, na combinação das formas de luta legais e ilegais, parlamentares e extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até obrigatório saber renunciar às formas parlamentares.” Mas também destacou que: “transportar cegamente, por simples imitação, sem espírito crítico, essa experiência a outras condições, a outra situação, é o maior dos erros.” Sendo assim podemos ter a plena convicção da posição tática de Lenin sobre o parlamento, não sendo o boicote, como dizem nossos incautos oportunistas, natureza “esquerdista”. Assim Lenin propunha usar o boicote e o parlamento, trabalho ilegal e legal conforme servisse ao progresso do Partido. Alguns refugos tais como os nossos, diziam que “se Lenin fez aliança com os imperialistas alemães tudo é válido” …logo estava liberado qualquer aliança com qualquer lixo com o pretexto de estar sendo “tático”, Lenin em seu livro ataca impiedosamente esses senhores: “(…) os mencheviques e os social-revolucionários na Rússia, os partidários de Scheidemann (e, em grande parte, os kautskistas) na Alemanha, Otto Bauer e Friedrich Adler (sem falar dos Srs. Renner e outros) na Áustria, os Renaudel, Longuet & Cia. na França, os fabianos, os “independentes” e os “trabalhistas”(9) na Inglaterra assumiram, com os bandidos de sua própria burguesia e, às vezes, da burguesia “aliada”, compromissos dirigidos contra o proletariado revolucionário de seu próprio país, esses senhores agiram como cúmplices dos bandidos. A conclusão é clara: rejeitar os compromissos “por princípio”, negar a legitimidade de qualquer compromisso, em geral, constitui uma infantilidade que é inclusive difícil de se levar a sério. O político que queira ser útil ao proletariado revolucionário deve saber distinguir os casos concretos de compromissos que são mesmo inadmissíveis, que são uma expressão de oportunismo e de traição, e dirigir contra esses compromissos concretos toda a força da crítica, todo esforço de um desmascaramento implacável e de uma guerra sem quartel, não permitindo aos socialistas, com sua grande experiência de “manobristas”, e aos jesuítas parlamentares que se livrem da responsabilidade através de preleções sobre os compromissos em geral”. Os senhores “chefes” das trade-unions inglesas, assim como os da Sociedade Fabiana e os do Partido Trabalhista “Independente”, pretendem, exatamente desse modo, eximir-se da responsabilidade da traição que cometeram, por haver assumido semelhante compromisso que, na realidade, nada mais é que oportunismo, defecção e traição da pior, espécie. Há compromissos e compromissos. É preciso saber analisar a situação e as circunstâncias concretas de cada compromisso, ou de cada variedade de compromisso. É preciso aprender a distinguir o homem que entregou aos bandidos sua bolsa e suas armas para diminuir o mal causado, por eles e facilitar sua captura e execução, daquele que dá aos bandidos sua bolsa e suas armas para participar da divisão do saque. Em política, isso está muito longe de ser sempre assim tão difícil como nesse pequeno exemplo de simplicidade infantil. Seria, porém, um simples charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma fórmula que, antecipadamente, apresentasse soluções adequadas para todas as circunstâncias da vida, ou aquele que prometesse que na política do proletariado nunca surgirão dificuldades nem situações complicadas. “ Além disso, vale destacar que o acordo que o Camarada Lenin fez com os imperialistas alemães, serviu justamente com o objetivo de se evitar um verdadeiro banho de sangue. Isso porque com a Intervenção da Entente que veio na Guerra Civil Russa acabou causando pesadas baixas aos civis em um país que ousou resistir e lutar contra a velha ordem. Agora, no que concerne à prática social do Partido Comunista Bolchevique, a sua atuação em diversas situações na Revolução Russa são a comprovação de que esse sempre esteve ao lado do proletariado e da revolução socialista. Em relação aos que tentam se equiparar ao Lenin com suas práticas torpes de aliança com o imperialismo e latifúndio, não só traem princípios como nunca fizeram nada pela classe trabalhadora. 4-A Estratégia de Lenin nada tem em comum com a “estratégia” dos oportunistas O Camarada Lenin em nenhum momento de sua obra usa abstrações politizadas ou antimaterialistas como “votar no menos pior”, “rouba, mas faz” ou “votar em x para barrar o imperialismo”. Lenin anda mantinha a mesma convicção do fracasso do parlamentarismo burguês e sua necessidade de derrubá-lo. E, usando do materialismo histórico e do materialismo dialético, compreendia que, os sindicatos e partidos socialdemocratas, representavam um marco histórico na luta operária, sendo as primeiras formas de organização da luta trabalhista e socialista reuniam milhares em seu entorno que acreditavam fielmente nas promessas do reformismo, como esses partidos ainda estavam galgando espaços para chegar ao poder no parlamento das nações da Europa, havia a necessidade de lançar os partidos burgueses social-democratas e trabalhistas ao poder, para depois, os denunciar pela suas políticas oportunistas, evidenciando suas limitações, seu caráter reacionário e assim os atacar de forma devastadora. Lenin disse o seguinte aos “Comunistas de Esquerda” da Inglaterra: “Pelo contrário, do fato de a maioria dos operários da Inglaterra ainda seguir os Kerenski e os Scheidemann ingleses de não ter passado “ainda pela experiência de um governo formada por esses homens — experiência que foi necessária tanto na Rússia como na Alemanha para que os operários se passassem em massa para o comunismo deduz-se de modo infalível que os comunistas ingleses devem participar do parlamentarismo, devem ajudar a massa operária de dentro do parlamento a ver na prática os efeitos do governo dos Henderson e dos Snowden, devem ajudar os Henderson e Snowden a derrotarem a coalizão de Lloyd George e Churchill. Proceder de outro modo significa dificultar a marcha da revolução, pois se não se produz uma modificação nas opiniões da maioria da classe operária, a revolução torna-se impossível; e essa modificação se consegue através da experiência política das massas, e nunca apenas com a propaganda. A palavra de ordem: “Avante sem compromissos, sem desviar-se do caminho!” é claramente errada, se quem a propala é uma minoria evidentemente impotente de operários que sabe (ou, pelo menos, deve saber) que dentro de pouco tempo, no caso de, Henderson e Snowden triunfarem sobre Lloyd George e Churchill, a maioria perderá a fé — em seus chefes e apoiará o comunismo (ou, em todo caso, adotará uma atitude de neutralidade e, em sua maioria, de neutralidade simpática em relação aos comunistas). É a mesma coisa que se 10.000 soldados se lançassem ao combate contra 50.000 inimigos no momento em que é necessário “deter-se”, “afastar-se do caminho”, e até concertar um “compromisso” para esperar a chegada de um reforço prometido de 100.000 homens, que não podem entrar em ação imediatamente. É uma infantilidade própria de intelectuais e não uma tática séria da classe revolucionária. “ O Pensamento Leninista é claro: não adianta os comunistas saberem que o Parlamento e os partidos burgueses eram reacionários, isso não mudaria a crença que milhares de operários tinham acerca dos partidos burgueses. Era necessário demonstrar a inevitabilidade da política reacionária burguesa presente nos socialdemocratas, revelar sua incapacidade de gerir os anseios das massas populares. Avançando, o Camarada Lenin disse: “(…) em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razão, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência; e, em terceiro lugar, antecipar o momento em que, sobre a base da desilusão produzida pelos Henderson na maioria dos operários, se possa, com grandes probabilidades de êxito, derrubar de golpe o governo dos Henderson.” Dessa forma a ajuda dos comunistas na verdade era do tipo “dar a corda para os reformistas se enforcarem”: “ (…) como também por que eu gostaria de sustentar Henderson com meu voto do mesmo modo que a corda sustenta o enforcado; que a aproximação dos Henderson a um governo formado por eles mesmos demonstrará a minha razão, atrairá as massas para o meu lado e acelerará a morte política dos Henderson e Snowden, exatamente como aconteceu com seus correligionários na Rússia e na Alemanha.” Em síntese, Lênin pregava o apoio tático não como ilusão parlamentar, mas para desmascarar os novos eleitos, acelerar a inevitável decomposição do Estado Burguês, aprofundar sua crise que, independe da vontade de um gestor de turno, mas é uma lei natural do capitalismo. Diante do cenário de total descrédito e falência das instituições do Estado, se aprofundaria a agudização da luta de classes e o desencadeamento da revolução proletária: “ (…) a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores) (…) em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação do número de homens aptos para a luta política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência (…)” Diante do exposto é possível concluir que a tática de Lênin em nada se assemelha com aqueles que seguem se iludindo e iludindo as massas. PCdoB, PCR, PCB, PSTU e PCO defenderam o projeto do PT por fé e não estratégia. Nunca tiveram em mente à bancarrota do PT para expor suas contradições e afastar as massas do atraso em apoio à sua política. Ainda que de fato a tática de apenas participar do parlamento para o denunciar já tenha caducado historicamente. Será exposto o porquê no próximo tópico. 5- Boicote eleitoral: de tática circunstancial para uma tática universal Conforme o tempo foi passando e a Revolução Proletária Mundial avançando, os estados burgueses desde os imperialistas até os capitalistas burocráticos passaram por grandes processos de reacionarização. Sendo assim eles aumentaram o grau e número de repressão e empurraram cada vez mais os revolucionários para a ilegalidade. Em síntese, a própria participação no Parlamento Burguês apenas para a denúncia e propaganda revolucionária se tornou insustentável tanto pelo fato da estrutura parlamentar não permitir que isso aconteça, como também já se vê uma ineficácia de tal tática. Isso porque as massas estão desiludidas e possuem uma ojeriza quase natural às eleições. Se falarmos do Brasil então, se vê de forma muita clara nas últimas eleições (2022) que as massas tem de fato essa ojeriza às eleições[2], já que nesse ano teve o maior número de abstenções desde 1988 e os que votaram em Lula e Bolsonaro o fizeram na lógica de tentar impedir um ou outro de ganhar (Lula e Bolsonaro). Ademais, outra coisa que é importante comentar é que praticamente 1/3 da população não votou (brancos, nulos e abstenção). Sendo assim, de nada vale sequer a participação no parlamento para denunciar os já putrefatos oportunistas dos partidos burgueses, como o PT.[3] Falando agora sobre o boicote eleitoral em si, ele já foi aplicado e continua o sendo em outros países, como na Índia. Nesse país, essa tática foi defendida [N.T: como sendo universal) inicialmente pelo Grande Chefe do Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista), o camarada Charu Mazumdar, que diz o seguinte sobre a via parlamentar, a revolução mundial e o boicote: “Na presente época, quando o imperialismo está caminhando para um colapso total, a luta revolucionária em cada país assumiu a forma de luta armada; e o Revisionismo soviético, incapaz de manter a sua máscara do socialismo, foi forçado a adotar táticas imperialistas; A revolução mundial entrou em uma nova fase superior; e o socialismo está marchando irrepressível frente para a vitória — em tal época, levar a luta para o caminho parlamentar, é parar esta marcha progressiva da revolução mundial. Hoje, os revolucionários marxista-leninistas não podem optar pela via parlamentar. Isto é verdade não só para os países coloniais e semi-coloniais, mas para os países capitalistas também. Nesta nova era da revolução mundial quando a vitória foi alcançada na Grande Revolução Cultural Proletária na China, tornou-se a principal tarefa dos marxistas-leninistas de todo o mundo para estabelecer bases em áreas rurais e para construir, de uma base sólida, a unidade dos trabalhadores, camponeses e todos os povos que labutam através da luta armada. Assim, a campanha de “boicotar as eleições”, estabelecer bases rurais e criar a luta armada que os revolucionários marxistas-leninistas têm avançado, permanece válidos para a era inteira. Ao aderir à via parlamentar os revolucionários de todo o mundo tem permitido uma dívida de sangue formidável a acumular ao longo dos tempos. O tempo chegou para resolver esta dívida de sangue. Centenas de milhares de mártires caídos apelam aos revolucionários: “Destruam o imperialismo e eliminem-no da face da terra!” É hora de reconstruir o mundo de uma nova maneira! Nossa vitória nesta luta é o certo!” [4] Basicamente ele explica que aderir à via parlamentar é fundamentalmente parar o avanço da revolução mundial. Isso porque naquele contexto o maior defensor da via parlamentar era exatamente o revisionismo soviético. Ademais, ele também defende que isso é uma verdade tanto para os países capitalistas (provavelmente está se referindo neste caso aos países imperialistas) e quanto para os países semicoloniais (capitalistas burocráticos) e propõe no fim o boicote às eleições. Sobre as eleições, o Presidente Gonzalo, a Chefatura do Partido Comunista do Peru e aquele que definiu o Maoismo “como terceira, nova e superior fase do marxismo-leninismo”, disse o seguinte: “Se me permitirem, lhes diria que o principal das eleições é boicotá-las e, se possível, impedi-las. Por que propomos isto? Que vai ganhar o povo? Nada. Nada vai ganhar com a renovação eleitoral, creio que isso é uma coisa muito clara na história do país. No documento ‘Desenvolver a Guerra Popular servindo à Revolução Mundial’ fizemos ver, demonstramos, e ninguém o desmentiu, demonstramos como a porcentagem da IU é a situação que impediu que a maioria se expressasse contra as eleições. Creio que isso ficou demonstrado. Portanto, temos defendido, e os fatos demonstram, que a tendência no Peru é a de não esperar nada das eleições, nem de um novo governo, a tendência é rechaçar as eleições.”[5] Somos da mesma opinião do camarada Gonzalo, o povo não ganhará nada com as eleições. Eis a tarefa de as boicotar! 6- Conclusão Caros companheiros, tendo em vista tudo o que foi exposto nesse artigo podemos concluir que a tática de Lenin em nada se assemelha com os oportunistas dos já rebotalhos partidos revisionistas de nosso país. Ademais, tendo em vista, que a revolução mundial já entrou há muito tempo em uma fase superior, como já foi citado pelo Camarada Charu Mazumdar, aderir ao caminho parlamentar não faz avançar a revolução mundial. Muito pelo contrário, ao aderir à via parlamentar se permite acumular uma dívida de sangue formidável, mais do que ela já está acumulada. Como o Presidente Gonzalo disse [N.T: O POVO]“Nada vai ganhar com a renovação eleitoral”. O certo é erguer o lema e o cumprir de fato em forma de ação “Eleições não! Guerra Popular sim!”. Tendo dito tudo isso, terminamos aqui o artigo e fechamos com uma frase proferida pelo camarada Lenin: “A luta contra o imperialismo é uma frase vazia e falsa se não estiver indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo” — Lenin Bibliografia: [1]Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo — Lenin, 1920. Disponível em:https://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/esquerdismo/ [2] — RO: Massas rechaçam farsa eleitoral — Gabriel Artur, 2022. Disponível em:https://anovademocracia.com.br/massas-rechacam-farsa-eleitoral-no-interior-de-rondonia/ [3] — A crescente de abstenções, votos brancos e nulos — Bernardo Caram e Renan Ramalho, 2016. Disponível em:https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/noticia/2016/10/abstencoes-votos-brancos-e-nulos-somam-326-do-eleitorado-do-pais.html [4] — “Boicotar as Eleições!” — Importante Campanha Internacional — Charu Mazumdar, 1968. Disponível em: "Boicotar as eleições!" - Importante Campanha internacional Primeira Edição: Liberation, dezembro de 1968 Fonte: Servir ao Povo de todo Coração … www.marxists.org [5] LA ENTREVISTA DEL PRESIDENTE GONZALO, 1988. Disponível em: https://www.verdadyreconciliacionperu.com/admin/files/libros/600_digitalizacion.pdf Antirrevisionismo Maoismo Antielectoralism Brazilian 1

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Pedro Pomar: Um Maoista Necessário no Século XXI Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior (Mestre em Estudos Literários/UFMG)

Pedro Pomar: Um Maoista Necessário no Século XXI Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior (Mestre em Estudos Literários/UFMG) Essa coletânea de textos de Pedro Pomar, jornalista e militante comunista assassinado em 1976 pela ditadura brasileira na Chacina da Lapa, demonstra mais uma vez mostra a potência desse pensador engajado. Sendo assim, é com satisfação que disponibilizamos essa reunião de seus artigos e discursos, muitos de difícil acesso, outros há muito tempo inéditos. Ele faz o atualíssimo elogio de Stálin e suas contribuições à ciência militar, num momento histórico em que Stálin está sendo justamente revalorizado enquanto pensador. Compreender o pensamento e a contribuição teórico/prática de Stálin tem sido premente e, dia após dia, Stálin retorna ao lugar de onde não deveria ter saído no pensamento marxista-leninista. Pomar utiliza corretamente o termo, usando a expressão marxismo-leninismo-stalinista; o uso do termo “stalinismo” historicamente foi rejeitada pelo próprio Stálin, que ressaltou ser apenas um aplicador de Lênin, mas esse uso que Pomar consagra é um uso correto, assim o pensamento é encadeado de forma indissociável do leninismo. Outro momento em que esse livro coleta um documento necessário é a Carta dos 100, documento que mostra como o atual PCB de José Paulo Netto e de outros trotsko-lukacsianos já nasceu com as características que reaparecem hoje, no racha entre os “jonesianos do RR” e os “Bezerras do Comitê Central”: autoritarismo da cúpula (deturpação de diretrizes de forma autoritária, sem passar por Congresso), revisionismo no sentido de tirar tudo o que é revolucionário em prol de se ligar ao estado, oportunismo eleitoral indissociável da suicida via pacífica como caminho das concessões. Ou seja: o DNA autoritário do PCB existiu desde o seu nascimento em 1962, aliás, esse documento comprova que o degenerado PC de Iasi, Manzano e Netto nasceu ali, devendo o próprio nome a uma concessão à exigência dos “patridiotas” de então de um partido comunista “brasileiro”. Igualmente, Pomar registrou o momento exato em que Prestes começou a degenerar, corretamente atribuindo a ele o papel de líder do kruschevismo no Brasil. Esse papel nefasto de Prestes enquanto revisionista não foi processado até hoje. A direita o execrou como comunista e o a esquerda o preserva como cavaleiro da esperança. Nesse ponto, mais uma vez quem devemos consultar, quem tem razão é Pedro Pomar. Muitos textos guardam grande atualidade e sintonia com as interpretações atuais. Mais do que nunca é preciso desmascarar o falso patriotismo dos militares, infelizmente, serviçais dos piores inimigos da pátria. Pomar denunciou isso no texto O Povo Conquistará sua Verdadeira Independência. A conclusão de Pomar é que 1817 é que foi o marco da nossa independência, posição na qual Pomar converge com Nildo Ouriques, é muito lúcida. Como a revolução republicana estava para acontecer, o império organizou o arranjo conservador de 1822, mantendo toda a malha feudal e colonial. Igualmente, Pomar foi profético quando ressaltou que, quando um revisionista vomita o asqueroso slogan “socialismo e liberdade” é para disfarçar que quem fala nisso quer abolir a liberdade de debate, por exemplo, sobre Stálin; via de regra, quem fala em socialismo e liberdade é sempre muito mais autoritário do que qualquer seguidor de Mao, Stálin ou Pol Pot. Suas reflexões, sejam sobre a Grande Revolução Proletária, o momento histórico trágico em 1972 ou o Araguaia, são agora, quando a esquerda revolucionária renasce das cinzas, mais atuais e prementes do que nunca.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Guevara, Debray e o Revisionismo Armado Che Guevara com Josip Broz Tito1 , julho de 1959 – (Che Guevara, Photo: Museum of the History of Yugoslavia) 1Josip Broz Tito foi o presidente da Iugoslávia de 1943 até sua morte em 1980. No que se diz respeito a Tito, este foi o primeiro a introduzir a primeira forma de revisionismo que tomou o poder de um estado outrora democracia popular. Josip Broz Tito também possuía uma política externa de “não-alinhamento”, a qual na prática era uma mentira, pois Tito se associou ao imperialismo estadunidense pelo Plano Marshall e se tornou uma semicolônia que servia de ponta de lança do imperialismo contra a URSS e as Democracias Populares do Leste Europeu. Sobre seu governo, ele foi marcado pela adoção de uma linha político-econômica revisionista, isto é, a negação do marxismo sob a sua própria bandeira, introduzindo uma teoria chamada “socialismo autogestionário”, a qual na verdade era de natureza de capitalismo estatal de um tipo especial. Não se tratava de um capitalismo de Estado nas condições da ditadura do proletariado, e sim de um capitalismo de Estado nas condições em que a camarilha de Tito fez degenerar a ditadura do proletariado em ditadura burguesa burocrático-compradora. Os meios de produção das empresas sob “auto-administração operária” não pertencem a um ou mais capitalistas privados, e sim, na realidade, pertencem à nova burguesia burocrática e compradora da Iugoslávia, que inclui os burocratas e diretores e é representada pela camarilha de Tito. Usurpando o nome do Estado, dependendo do imperialismo norte-americano e disfarçando-se com a capa do “socialismo”, esta burguesia se apropriou pela força dos bens que pertenciam ao povo trabalhador. A chamada “auto-administração operária” é, na realidade, um sistema de exploração cruel sob o domínio do capital burocrático e comprador. – Nota do Kota Escrito por Lenny Wolff Traduzido para o português brasileiro por Kota [Este artigo apareceu na revista Revolution, no 53, inverno/primavera de 1985, publicada pelo Revolutionary Communist Party, EUA. Também está disponível em um panfleto impresso da Revolution Books, encomendado on-line em: http://revolutionbookscamb.org/ ] Esse desvio revisionista assumiu, no passado, uma forma tanto de "esquerda" quanto abertamente de direita. Os revisionistas modernos pregavam, especialmente no passado, a "transição pacífica para o socialismo" e promoviam a liderança da burguesia na luta pela libertação nacional. No entanto, esse revisionismo de direita, abertamente capitulacionista, sempre correspondeu a um tipo de revisionismo armado de "esquerda", promovido às vezes pela liderança cubana e outros, que separava a luta armada das massas e pregava uma linha de combinação de estágios revolucionários em uma única revolução "socialista", e que de fato significava apelar para a revolução socialista, o que, na verdade, significava apelar para os trabalhadores nas bases mais restritas e negar a necessidade de a classe trabalhadora liderar o campesinato e outros na eliminação completa do imperialismo e das relações econômicas e sociais atrasadas e distorcidas nas quais o capital estrangeiro prospera e reforça. Atualmente, essa forma de revisionismo é um dos principais pilares da tentativa social-imperialista de penetrar e controlar as lutas de libertação nacional." (Revolutionary Internationalist Movement [RIM] 1984, 33) Mais de 15 anos após seu assassinato por soldados treinados pela CIA, a imagem de Che Guevara mantém um certo poder entre os revolucionários. Para muitos, ele ainda parece ser o homem de ação que cortou as intermináveis desculpas e equívocos dos partidos revisionistas da velha linha na América Latina. Muitos afirmam ver diferenças importantes entre Guevara e Fidel Castro, que, no período após a morte de Guevara, conduziu Cuba cada vez mais firmemente para um abraço aberto e apaixonado pela União Soviética. Outros até mesmo comparam Guevara a Mao Tsé-tung*. E com a influência de Guevara, também se vai a influência do foquismo, a doutrina militar e política que ele desenvolveu e tentou implementar, e que foi sistematizada no livro Revolution in the Revolution? pelo antigo acólito de Guevara, Régis Debray. No entanto, a aparência e a essência estão em desacordo em Che Guevara. Sempre pronto para criticar e denunciar o revisionismo em fóruns públicos, ele baseou todo o seu projeto no apoio dos partidos revisionistas e da União Soviética; constantemente chamando a atenção para a vulnerabilidade dos EUA às iniciativas revolucionárias, ele resistiu a reunir as forças revolucionárias mais massivas e potencialmente poderosas do continente latino-americano. De fato, no final, Guevara se colocou em oposição à revolução internacional. Pelo fato de Guevara estar associado ao levante revolucionário da década de 1960 e por ter caído das balas dos agentes do imperialismo norte-americano, essa afirmação certamente evocará emoção. No entanto, a emoção e o sentimento devem ser deixados de lado. O guevarismo mantém sua influência como linha política e, embora os soviéticos (e os cubanos) internacionalmente tendam a confiar mais em elementos das forças armadas para executar sua estratégia de revisionismo armado, eles prestam muita atenção às orientações e atividades dos grupos neoguevaristas. Especialmente em situações de crise política aguda, são feitos esforços para promover essas forças neoguevaristas e trazê-las mais firmemente para o projeto revisionista geral. Por causa de tudo isso, o guevarismo (e o próprio Guevara) deve ser avaliado cientificamente em termos de seu papel social objetivo. Este artigo examinará a linha militar e política do guevarismo, sua concepção de revolução e suas raízes sociais e materiais. O ponto central será desvendar o paradoxo de Che Guevara - o inimigo do revisionismo que o difama para melhor confiar nele. CAPÍTULO I No início de 1966, Castro e Guevara levaram Régis Debray [*] a Cuba para discussões sobre a guerra de guerrilha. Os cubanos pediram a Debray que preparasse uma polêmica que sintetizasse as experiências da Revolução Cubana em uma doutrina militar e em uma linha política distintamente adequadas às condições latino-americanas. O produto final dessas discussões - o livro de Debray, Revolution in the Revolution? - é a exposição mais concentrada do guevarismo. As teses centrais do guevarismo são mais ou menos assim: (1) A revolução na América Latina foi atrasada porque os revolucionários permaneceram presos a uma ou outra linha errada ou "equívoco importado"; (2) O modelo maoista de uma guerra popular - que em vastas áreas do Terceiro Mundo inclui como elemento crucial a dependência das massas camponesas e a utilização de áreas de base para travar a luta militar - simplesmente não se aplica à América Latina devido a diferentes condições objetivas, principalmente o estado mais desenvolvido do campo e o caráter mais esparso e supostamente mais passivo do campesinato; (3) Ao mesmo tempo, os pontos de vista dos PCs influenciados por Moscou (que só usavam a luta armada como um complemento de suas manobras legalistas/parlamentares) e dos trotskistas (que seguiam uma linha anarco-sindicalista de autodefesa dos trabalhadores) não são melhores, já que, após décadas de sua implementação, não levaram à revolução; (4) A verdadeira chave para a revolução no continente latino-americano está no estudo do exemplo cubano, em que um pequeno grupo de homens construiu uma unidade armada no campo, independente do campesinato, e cresceu ao enfrentar o exército do regime em batalha. Esses focos militares podiam e precisavam ser reproduzidos em toda a América Latina. Nas palavras de Debray, essa linha deu uma "resposta concreta à pergunta: Como derrubar o poder do Estado capitalista? A Revolução Cubana oferece uma resposta aos países latino- americanos irmãos que ainda precisa ser estudada em seus detalhes históricos: por meio da construção mais ou menos lenta, por meio da guerra de guerrilha realizada em zonas rurais adequadamente escolhidas, de uma força estratégica móvel, um núcleo de um exército popular e de um "futuro Estado socialista" (Debray 1967, 24). Revolution in the Revolution? concentrou seu principal ataque na linha militar contra a concepção de Mao Tsé-tung sobre a guerra popular, particularmente a ênfase de Mao na mobilização do campesinato e na construção de áreas de base a partir das quais travar a guerra. (No fundo, há uma diferença mais fundamental com relação ao papel das massas na guerra revolucionária). Vamos começar examinando os principais argumentos apresentados sobre esse ponto. O papel do Campesinato Conforme observado, a linha do foco implicava uma rejeição básica de qualquer orientação para o campesinato como uma força revolucionária crucial. Debray insistiu nesse ponto. A experiência revolucionária na China e no Vietnã também foi rejeitada. Lá, escreveu Debray, "a alta densidade da população camponesa, a superpopulação das vilas e cidades e a predominância marcante do campesinato sobre a população urbana permitem que os propagandistas revolucionários se misturem facilmente com o povo, 'como peixes na água'". Na América Latina, por outro lado, Os focos guerrilheiros, quando iniciam suas atividades, estão localizados em regiões de população altamente dispersa e relativamente esparsa. Ninguém, nenhum recém-chegado, passa despercebido em um vilarejo andino, por exemplo. Acima de tudo, um estranho inspira desconfiança. Os camponeses quíchuas ou cakchiquel (maias) têm bons motivos para desconfiar do "forasteiro", do "homem branco". Eles sabem muito bem que palavras bonitas não podem ser comidas e não os protegerão de bombardeios. O camponês pobre acredita, antes de tudo, em qualquer pessoa que tenha certo poder, a começar pelo poder de fazer o que ele diz. O sistema de opressão é sutil: ele existe desde tempos imemoriais, é fixo, entrincheirado e sólido. O exército, a guarda rural, a polícia privada do latifundiário ou, atualmente, os "Boinas Verdes" e os Rangers, gozam de um prestígio ainda maior por serem subconscientes. Esse prestígio constitui a principal forma de opressão: ele imobiliza os descontentes, silencia-os, leva-os a engolir afrontas à simples vista de um uniforme. (Debray 1967, 50-51) O desprezo que escorre dessa passagem é quase inacreditável - desprezo tanto pelo campesinato quanto pela história. Ao ler essa passagem, você nunca saberia que existe uma rica tradição de rebeliões camponesas na América Latina. A própria província natal de Castro, o Oriente (que também era o reduto do exército rebelde), havia registrado mais de 20 rebeliões camponesas entre 1900 e 1959. Na Bolívia (para onde Guevara estava direcionando seus pensamentos), a revolta camponesa havia constituído a principal força de combate da Revolução de 1952-53. Voltando um pouco mais atrás, é claro, houve a insurgência liderada por Sandino na Nicarágua na década de 30, as rebeliões camponesas em El Salvador no mesmo período (em que 30.000 camponeses foram assassinados na repressão que se seguiu), a série de revoluções no México no início do século predominantemente lutadas pelo campesinato, etc. [†] Para o guevarismo, a falta de aptidão do campesinato para a luta revolucionária não é uma questão menor. Ela está no cerne de sua linha política, e Debray voltou a ela repetidamente. Debray cita as "três regras de ouro" de Guevara como "vigilância constante, desconfiança constante, mobilidade constante" e continua dizendo que Várias considerações de senso comum exigem cautela em relação à população civil e a manutenção de um certo distanciamento. Por sua própria situação, os civis estão expostos à repressão e à presença e pressão constantes do inimigo, que tentará comprá-los, corrompê-los ou extorquir deles com violência o que não pode ser comprado. Por não terem passado por um processo de seleção ou treinamento técnico, como os combatentes da guerrilha, os civis de uma determinada zona de operações são mais vulneráveis à infiltração ou à corrupção moral do inimigo. (Debray 1967, 43) Debray e Guevara, então, simplesmente construíram uma calúnia do campesinato sem absolutamente nenhuma base de fato? Dificilmente. A disseminação de ideias retrógradas, o terror desencadeado contra aqueles que resistem, o legado e o poder contínuo das relações feudais são muito reais. Mas seja por tendenciosidade ou devido a problemas com o pensamento mecânico e não dialético, Guevara e Debray se apoderaram de um aspecto da verdade apenas para apagar o que está na essência da questão - o potencial revolucionário do campesinato - o potencial revolucionário do campesinato (cujo reconhecimento, aliás, tem sido historicamente um ponto que demarca o leninismo da social-democracia, do trotskismo e do revisionismo). Mao, em particular, utilizou a dialética para distinguir entre os diferentes estratos do campo e compreender seu movimento e potencial contraditório. Ele desenvolveu a abordagem de confiar nos camponeses pobres e, ao mesmo tempo, lutar para conquistar os elementos mais intermediários e neutralizar (ou, em diferentes cenários, conquistar) os camponeses ricos. (E quem pensa que Mao era um idealista de olhos estrelados, sem compreensão das dificuldades de despertar o campesinato e elevar sua consciência política, só precisa ler seus ensaios sobre o assunto). A questão foi, e continua sendo, tão crucial devido à persistência de relações e sobrevivências feudais e semifeudais na América Latina e à consequente importância da revolução agrária para a revolução como um todo nos países dessa região. Isso é verdade apesar da transformação significativa da agricultura feudal que ocorreu lá desde a Segunda Guerra Mundial [‡]. O ponto crucial a ser compreendido aqui é que as sociedades em questão são nações oprimidas, integradas em uma relação subordinada com os países imperialistas. A agricultura, tanto em suas formas feudais/semifeudais quanto "capitalistas" nas nações oprimidas, está integrada (juntamente com a indústria) à matriz de acumulação internacional, que é fundamentalmente controlada pelo capital financeiro enraizado nas nações imperialistas. Disso resulta a grotesca distorção e desarticulação dos setores agrícolas desses países, nos quais certas áreas são desenvolvidas pelo capital financeiro (seja por meio de investimento direto ou, mais frequentemente, por meio de empréstimos, ajuda estatal etc., canalizados por meio dos capitalistas-burocratas locais do setor estatal e/ou dos grandes proprietários de terras feudais), enquanto outras são deixadas para estagnar e apodrecer. E mesmo nas áreas que estão integradas ao circuito de acumulação do capital financeiro, muitas vezes as propriedades feudais são mantidas e apoiadas, enquanto a exploração do campesinato é intensificada para satisfazer as demandas do mercado mundial. Assim, os campos da América Latina muitas vezes parecem ser um mosaico de diferentes tipos de relações de produção: há plantações que dependem de minifúndios, latifúndios antigos, proprietários livres do tipo kulak, fazendas corporativas e fazendas que produzem para o mercado internacional, mas que ainda são detidas por antigos senhores feudais. O campesinato é frequentemente subjugado de uma maneira pouco diferente da anterior. As classes feudais proprietárias de terras normalmente mantêm seu domínio despótico sobre grande parte do campo, aterrorizando o campesinato com as guardas rurais e a polícia local; mesmo onde as relações foram parcialmente transformadas em capitalistas, essa tradição feudal foi mantida e, muitas vezes, intensificada para conter a agitação social decorrente da transformação ocorrida. A contínua e severa opressão das mulheres no campo e a opressão bárbara exercida contra os povos indianos expressam claramente a persistência dessas relações feudais e semifeudais, tanto na base quanto na superestrutura (assim como o poder contínuo das classes feudais nas principais instituições do Estado e da vida política, incluindo o exército). Enquanto isso, um campesinato sem-terra e um proletariado rural surgem lado a lado com os agricultores arrendatários remanescentes e os agricultores de subsistência semi-independentes. O material politicamente combustível se acumula no campo, e a demanda por terra - mesmo entre o campesinato expropriado no início do processo de proletarização - pode ser explosiva, como evidenciado pelo importante movimento de posseiros nos distritos açucareiros relativamente altamente capitalistas da província de Oriente, em Cuba, durante a década de 1950. Tudo isso aponta para a importância contínua da revolução agrária em quase todos os países latino-americanos e para a base objetiva de contar com as massas rurais e liberá-las como o principal aliado estratégico (e, em muitos casos, a principal força de combate) da revolução. E aponta também para o vínculo inextricável entre a luta revolucionária contra as relações e sobrevivências feudais e semifeudais e a luta pela libertação nacional: as duas são inseparáveis. Quanto à observação de Debray sobre a baixa densidade populacional em muitas áreas rurais latino-americanas e sobre a alta porcentagem - em alguns casos - da população localizada nas cidades: embora muito importante, com poucas exceções, isso não elimina a necessidade de mobilizar as massas camponesas e levar adiante a revolução agrária. A Declaração do Movimento Internacionalista Revolucionário observa, com relação a isso, que O peso relativo das cidades em relação ao campo, tanto política quanto militarmente, é uma questão extremamente importante que é colocada pelo crescente desenvolvimento capitalista de alguns países oprimidos. Em alguns desses países, é correto começar a luta armada lançando insurreições na cidade e não seguir o modelo de cercar as cidades pelo campo. Além disso, mesmo em países em que o caminho da revolução é o de cercar a cidade pelo campo, podem ocorrer situações em que um levante em massa leva a revoltas e insurreições nas cidades, e o partido deve estar preparado para utilizar essas situações em sua estratégia geral. Entretanto, em ambas as situações, a capacidade do partido de mobilizar os camponeses para participarem da revolução sob a liderança proletária é fundamental para seu sucesso. (RIM 1984, 36-37) Mas essa verdade central sobre a importância do campesinato foi ignorada e/ou combatida por Guevara e Debray. O quanto a posição deles em relação ao campesinato era errônea e antirrevolucionária fica evidente em sua linha sobre a questão nacional indígena na sociedade latino-americana. Debray trata desse assunto mais ou menos de passagem, mas (como pode ser visto em sua passagem citada anteriormente sobre o atraso do campesinato) é evidente que ele vê a presença de populações indígenas grandes e cruelmente reprimidas nos campos (especialmente) da Guatemala e das nações andinas como obstáculos à revolução. (A prática de Guevara na Bolívia, que será abordada mais adiante, refletia essa mesma visão). Isso parece ser um reflexo, ou pelo menos uma adaptação, da perspectiva das forças burguesas reprimidas na América Latina que, às vezes, resistem à opressão nacional que sofrem nas mãos dos EUA (e de outros imperialistas), mas tentam simultaneamente evitar que as massas realmente oprimidas fiquem "fora de controle" e manter seus próprios privilégios nacionais em relação a essas massas. (Na verdade, eles utilizarão essa opressão nacional se conseguirem substituir os compradores contra os quais lutam). Sem retratar os indígenas como uma espécie de força revolucionária ideal, deve- se observar que, na maioria dos países da América Latina que testemunharam levantes guerrilheiros significativos durante a década de 1960, incluindo Peru, Guatemala e Colômbia, a questão indígena era extremamente importante e os indígenas geralmente constituíam uma base social importante e uma grande porcentagem da força de combate. Nenhuma revolução genuína contra as relações sociais predominantes poderia negar essa importante questão ou se dar ao luxo de ficar distante desse importante setor das massas e de suas lutas. A visão de Debray em relação aos índios é um produto e um reflexo de toda a linha guevarista, na medida em que essa linha resiste à mobilização do campesinato e se opõe a atacar as relações semifeudais atrasadas (incluindo a opressão nacional na sociedade latino-americana). Resumindo: a dominação do imperialismo está ligada ao caráter desarticulado da agricultura nas nações oprimidas, incluindo a persistência de várias formas de relações e sobrevivências feudais. Da mesma forma, a desarticulação contínua, as sobrevivências feudais, etc., servem para reproduzir e reforçar essas relações de dominação. Por outro lado, essa opressão severa inevitavelmente gera resistência entre o campesinato, o proletariado agrícola e o semiproletariado - resistência que deve ser canalizada e conduzida à revolução pelo proletariado. Tentar ignorar o fato de despertar e liderar as massas camponesas para realizar uma revolução agrária significa deixar essa dominação intacta. Mesmo que um novo regime chegue ao poder, a forma pode mudar - burocratas do Estado e ex-guerrilheiros podem substituir aqueles que anteriormente administravam as fazendas mais lucrativas - mas o imperialismo continuará a dominar. Os setores menos lucrativos da agricultura continuarão estagnados, as massas serão espremidas e os padrões e a estrutura da produção, do comércio etc. permanecerão os mesmos. Isso é, com algumas variações, exatamente o que aconteceu em Cuba e, mais tarde, na Etiópia e em Angola (mais sobre isso adiante). Quando aqueles que querem encurtar o caminho para mobilizar as massas, especialmente o campesinato, para a guerra popular falam de revolução, na verdade eles só podem estar se referindo à sua própria ascensão ao poder, e somente a isso; e isso é assim mesmo se for feito em nome de uma insurgência mais rápida, como Debray e Guevara tentaram fazer. A transformação real das relações sociais, o "surgimento da sociedade no ar", na frase de Marx, é evidentemente irrelevante para seus cálculos. Há uma outra implicação em toda essa linha sobre o campesinato. Se alguém postula que uma força armada no campo existe sem o apoio ativo do campesinato - de fato, se alguém está argumentando vigorosamente contra a ousadia de mobilizar politicamente essas massas - em quem, então, se deve confiar? Embora Debray e Guevara nunca tenham chegado a explicitar seus planos nesse ponto, argumentaremos mais adiante que eles imaginavam seus focos marchando à frente de uma coalizão dos partidos revisionistas e dos democratas burgueses (e pequeno-burgueses) radicais. Essas forças, segundo Guevara, poderiam ser unidas para derrotar os antigos regimes, tomar o poder, conceder reformas em nome das massas e, em seguida, prosseguir com a consolidação política. Bases de Apoio Debray dedica uma seção significativa de seu livro a uma polêmica contra o objetivo estratégico de construir bases de apoio para as forças revolucionárias no campo, pelo menos até que as forças rebeldes estejam prestes a tomar o poder político nacional. Ele atribuiu o fracasso de várias tentativas de guerrilha rural no início dos anos 60 na América Latina à construção prematura de áreas de base. Para começar, embora as forças evidentemente mencionadas por Debray possam ter tentado mobilizar de fato as massas e possam, talvez, ter sido influenciadas por Mao, não é correto agir como se fossem forças maoístas tentando colocar em prática os conceitos de Mao. (Mesmo que fossem, isso por si só não provaria necessariamente a incorreção da linha; como o próprio Mao escreveu: "Na luta social, as forças que representam a classe avançada às vezes são derrotadas, não porque suas ideias estejam incorretas, mas porque, no equilíbrio das forças engajadas na luta, elas não são tão poderosas no momento quanto as forças da reação; portanto, são temporariamente derrotadas, mas estão fadadas a triunfar mais cedo ou mais tarde" [Mao 1971, 503]). As bases de apoio, conforme concebidas e colocadas em prática pelo Partido Comunista Chinês sob a liderança de Mao, têm o objetivo de servir como "grandes bastiões militares, políticos, econômicos e culturais da revolução para combater os inimigos cruéis que estão usando as cidades para atacar os distritos rurais. . ." (Mao 1967, 2: 316-317). Embora as condições e as características dessas áreas de base tenham variado muito historicamente (mesmo dentro da própria Revolução Chinesa), sua marca registrada é o estabelecimento do poder político das massas por meio da luta armada. Com base nesse fundamento político, as forças revolucionárias utilizam essas áreas de base como trampolins para aniquilar ainda mais as tropas inimigas, expandir as zonas liberadas e preparar a tomada do poder em nível nacional. O estabelecimento do poder político das massas (e o concomitante início da revolução agrária tanto na esfera econômica quanto na superestrutura) distingue as áreas de base como conceito estratégico das formas mais frouxas de apoio (e até mesmo da divisão de terras etc.) entre as massas rurais observadas, por exemplo, na Revolução Mexicana, na luta de Sandino nos anos 20 e 30 e, na verdade, na própria Revolução Cubana. Ela marca a transformação da espontaneidade em consciência. Não há dúvida de que esse importante conceito de Mao precisa ser ajustado às condições e tarefas específicas da América Latina; conforme observado, mesmo na própria China, as condições caleidoscopicamente2 mutáveis da revolução durante seus 22 anos deram origem a uma variedade de expressões, e o próprio Mao pediu aos revolucionários latino-americanos durante a década de 1960 que evitassem tentativas de transpor ou copiar mecanicamente o que parecia "funcionar" em outros lugares para suas próprias condições. Como lidar com a infraestrutura geralmente mais desenvolvida encontrada em muitos países latino-americanos, qual é o caráter dos órgãos de poder apropriados para as zonas liberadas, como lidar com a relação mais próxima com a luta urbana necessária (e proporcionada) pela maior urbanização, como, nas condições atuais, levar em conta e lidar com a ameaça iminente de uma guerra interimperialista: tudo isso representa (e representava na época) desafios urgentes tanto para a teoria quanto para a prática no continente. 2Caleidoscopicamente (Kaleidoscopically em inglês) é um advérbio que se refere a algo que ocorre de uma maneira semelhante à de um caleidoscópio. Isso significa que está em constante mudança, exibindo uma variedade de padrões ou cores, ou apresentando uma variedade de características ou aspcetos. – Nota do Kota. E, para deixar claro, o estabelecimento de áreas de base não deve ser visto como o primeiro passo absoluto na guerra popular; muito menos a capacidade de mantê-las desde o início deve ser vista como um pré-requisito cuja ausência impediria o início de tal guerra. Em muitos casos, talvez na maioria deles, pode ser necessário que as forças revolucionárias se envolvam em um período de guerra de guerrilha com as tropas inimigas antes de estabelecer uma área de base; de fato, Mao deu grande atenção às "zonas de guerrilha contestadas", áreas nas quais as forças rebeldes ainda não podiam estabelecer o poder político, mas nas quais havia apoio suficiente entre as massas para permitir que elas operassem contra o inimigo de forma guerrilheira. Mas Mao também considerou necessário trabalhar para transformar essas zonas em áreas de base assim que as condições permitissem. E essas áreas de base são um importante objetivo estratégico da luta armada. De fato, parece haver uma diferença importante quanto ao que exatamente se entende por áreas de base. Uma certa confusão parece evidente em Debray quando, por exemplo, ele admite o valor das áreas de base depois que as forças rebeldes atingem um determinado ponto. Ele tira uma lição de cautela da experiência cubana, descrevendo a tentativa de Che, no final de 1957, de estabelecer uma base em Sierra Maestra. "Ele montou um acampamento permanente, construiu um forno de pão, uma oficina de conserto de sapatos e um hospital. Mandou enviar uma máquina de mimeógrafo, com a qual publicou os primeiros números do El Cubano Libre; e, de acordo com suas próprias palavras, começou a fazer planos para uma pequena usina elétrica no rio do vale." Mas os planos de Guevara foram destruídos quando as forças do governo atacaram. Somente mais tarde, escreve Debray, os guerrilheiros puderam estabelecer uma base que pudesse ser protegida, o que aconteceu em abril de 1958: "O pequeno território básico então liberado era o terreno no qual se encontravam o hospital de campanha, pequenas indústrias de artesanato, oficinas de reparos militares, uma estação de rádio, um centro de treinamento para recrutas e o posto de comando. Essa pequena base permitiu que os rebeldes resistissem à ofensiva geral de verão de 1958 a partir de posições entrincheiradas" (Debray 1967, 63-64). O que é impressionante na discussão de Debray aqui é sua fixação nas funções puramente militares das áreas de base (e mesmo nessa esfera sua concepção é limitada!). Onde está a mobilização das massas aqui? Onde estão os órgãos de poder político? Que experiência política foi acumulada nesse sentido? Deixando de lado a explicação de Debray sobre o motivo pelo qual a área de base pôde ser estabelecida quando foi - à qual retornaremos -, não há realmente nada aqui que conecte a concepção das áreas de base ao poder político vermelho que deve ser desenvolvido pelas forças revolucionárias, à revolução que deve ser desencadeada no campo, etc. De fato, ele parece ter confundido o conceito de áreas de base com a noção de um acampamento base permanente! Em suma, o objetivo de Debray ao abordar a questão das áreas de base dificilmente era explorar os problemas e desafios reais, mas sim deduzir sua suposta impossibilidade a partir de alguns casos dispersos na América Latina e apresentar essa "impossibilidade" como mais um argumento contra uma guerra de massas. À luz dos argumentos de Debray sobre a total inaplicabilidade da teoria de Mao à América Latina, a prática atual do Partido Comunista do Peru é de interesse mais do que passageiro. Seus sucessos iniciais na aplicação da linha e da orientação maoista são altamente significativos; até o momento em que este artigo foi escrito, eles travaram uma guerra de guerrilha contra o governo por quatro anos com intensidade crescente, e os observadores burgueses agora são forçados a admitir que os revolucionários têm apoio significativo entre as massas e que a crise do regime peruano está se aprofundando. A base objetiva e subjetiva dessa luta deve ser observada. Para começar, o partido peruano se consolidou firmemente em torno de uma linha política correta, estabelecendo assim a força capaz de liderar o exército revolucionário. Em seguida, realizou uma intensa investigação e trabalho político e análise das áreas em que iniciou a luta armada. Além disso, há divisões importantes na classe dominante peruana atualmente, particularmente entre elementos pró-EUA entre as classes dominantes tradicionais e forças pró-soviéticas em partes das forças armadas. Essa fissura, ao mesmo tempo, foi bastante agravada pela própria insurgência. Por fim, o Peru está em profunda crise econômica, inclusive suportando um fardo esmagador de dívidas com os países imperialistas, o que resulta em severas dificuldades para as massas e em contínua instabilidade política. Esse tipo de situação não é atípica ou anômala na América Latina, nem é um mero ponto difícil temporário que provavelmente será superado em breve pelos governantes do Peru. Ao contrário, ela é sintomática do tipo de oportunidades oferecidas no período atual. Ao contrário de Guevara, o Partido Comunista do Peru se baseia na mobilização das massas para a guerra popular. E, em contraste ainda mais acentuado com a orientação de Guevara - como veremos - a revolução peruana não está tentando se vincular e/ou atrair o apoio dos soviéticos ou de seus partidos locais. Em vez disso, enquanto utiliza as contradições interimperialistas, está promovendo a luta independente do proletariado na liderança do campesinato. CAPÍTULO II Não é como se pelo menos alguns dos pontos anteriores, de uma forma ou de outra, nunca tivessem sido levantados contra a linha de Guevara/Debray. Mas Debray achava que poderia superar qualquer objeção com o que ele claramente acreditava ser o melhor argumento de todos a favor do foquismo: "funcionou em Cuba". Ele começa o livro inteiro argumentando contra a frase "a Revolução Cubana não pode mais ser repetida na América Latina" e, em pontos-chave, reforça seu argumento com ilustrações da Revolução Cubana. Certamente não é errado examinar a nova prática revolucionária e extrair dela uma nova teoria, e também é verdade (e muito bom!) que o processo geralmente leva a um reexame - de fato, muitas vezes a uma ruptura - de parte do que pode ter se tornado "sabedoria convencional" no movimento marxista. A questão aqui é o que a prática da Revolução Cubana realmente prova, e se Debray e Guevara tiraram suas conclusões corretamente. Debray e Guevara acreditavam que o exército revolucionário não precisava - na verdade, não deveria - realizar trabalho político entre as massas. Ao polemizar, por exemplo, contra a "propaganda armada" (a tática de dividir as forças armadas em pequenas unidades para tomar temporariamente vilarejos, executar tiranos locais e realizar breves comícios políticos), ele primeiro observou o maior efeito político de engajamentos militares decisivos com as forças armadas inimigas: "A destruição de um caminhão de transporte de tropas ou a execução pública de um torturador da polícia é uma propaganda mais eficaz para a população local do que uma centena de discursos." Em seguida, ele apresenta o que considera seu argumento decisivo: "Um detalhe significativo: Durante dois anos de guerra, Fidel não realizou um único comício político em sua zona de operações" (Debray 1967, 53-54). A primeira coisa que você se pergunta ao ler isso é por que Debray estabeleceu essa dicotomia entre militar e política de forma tão carregada. Aqueles que seguiram a linha maoista realizaram a ação militar e a mobilização política em conjunto. É verdade, é claro, que quando as forças revolucionárias chegarem a um ponto em que possam de fato disputar o poder ou até mesmo infligir algumas derrotas militares ao exército burguês, muitas massas que até então vacilavam ou até mesmo se recusavam a considerar a possibilidade de revolução despertarão politicamente. Mas parece claro, pelo contexto, que Debray tinha em mente algo na natureza de acrobacias espetaculares, em vez do processo prolongado de aniquilar as tropas inimigas e construir áreas de poder político. Além disso, se qualquer sucesso militar não for colocado a serviço e liderado por uma linha e um programa revolucionários genuínos, e se não houver um partido para elevar a atenção das massas quando elas entrarem em ação, então a orientação debrayista degenerará em uma justificativa para o desenvolvimento de tropas de choque para uma ou outra facção burguesa ou patrono imperialista, incluindo o social-imperialista - e isso, de fato, tem acontecido repetidamente. Quanto ao ponto militar envolvido na divisão das forças, é verdade que o exército popular deve concentrar suas forças principalmente em batalhas de aniquilação contra o inimigo. Entretanto, Mao também aponta para o papel (secundário, mas importante) de dividir as forças às vezes para despertar as massas. Toda essa questão não é uma proposição de uma coisa ou outra, como Debray tenta fazer, mas uma questão de compreender dialeticamente a relação entre os aspectos principais e secundários de relações contraditórias (entre trabalho militar e político, concentração de forças e divisão delas etc.). Debray, no entanto, continua tentando analisar as raízes "desse conceito que reduz o guerrilheiro a um mero agitador armado". O que explica isso? Uma leitura equivocada da Revolução Cubana - uma revolução bem conhecida em seus detalhes externos, mas cujo conteúdo interno ainda não foi suficientemente estudado - também pode ter desempenhado seu papel.... Uma centena de homens incita a população das montanhas com discursos; o regime, aterrorizado, cai ao som de vaias; e os barbudos são aclamados pelo povo. Dessa forma, confunde-se um foco militar - uma força motora de uma guerra total - com um foco de agitação política. Parece ter sido simplesmente esquecido que os cubanos do "26 de julho" começaram uma guerra sem uma única trégua unilateral; que durante apenas alguns meses de 1958, o Exército Rebelde se envolveu em mais batalhas do que em outras frentes americanas durante um ou dois anos; que em dois meses os rebeldes interromperam a última ofensiva de Batista; e que 300 guerrilheiros repeliram e derrotaram 10.000 homens. Seguiu- se uma contraofensiva geral. (Debray 1967, 57) Mas o próprio Debray é culpado de uma "leitura errônea", de uma simplificação exagerada e egoísta. É verdade, é claro, que as colunas de Castro foram a força militar decisiva na derrubada de Batista; mas a crise enfrentada pelo regime de Batista era mais profunda do que o desafio representado pelo foco castrista e suas atividades militares. Batista havia tomado o poder em 1952 por meio de um golpe de Estado, e nenhum dos principais partidos políticos de Cuba - o Ortodoxo ou o Autêntico - apresentou resistência real. Após o golpe, as oportunidades de investimento para a burguesia cubana diminuíram drasticamente, ao passo que os novos investimentos dos EUA na ilha aumentaram rapidamente. Setores da aspirante burguesia cubana foram excluídos, e o problema foi ainda mais exacerbado para a relativamente grande pequena burguesia cubana. O panfleto Cuba: The Evaporation of a Myth (Cuba: A Evaporação de um Mito), descreve tanto seu dilema quanto sua posição política: Na década de 1950, a pequena burguesia havia se tornado a classe mais volátil de Cuba. Os grupos políticos que surgiram a partir dela eram os mais bem organizados para lutar por seus interesses. O Movimento 26 de Julho de Castro veio da pequena burguesia urbana, 25% da população de Cuba - as dezenas de milhares de empresários sem negócios, vendedores sem vendas, professores sem ninguém para ensinar, advogados e médicos com poucos pacientes e clientes, arquitetos e engenheiros com pouco trabalho, e assim por diante. Em seu "Manifesto do Programa" de 1956, ele se definiu como "guiado pelos ideais de democracia, nacionalismo e justiça social ... [da] democracia jeffersoniana", e declarou que "a democracia não pode ser o governo de uma raça, classe ou religião, deve ser um governo de todas as pessoas". O golpe de Batista havia encerrado qualquer chance de essas forças se movimentarem politicamente para obter concessões. A pressão aumentou. Castro agiu pela primeira vez contra Batista com seu ataque ao quartel do exército de Moncada, em julho de 1953, e aproveitou a ocasião de seu julgamento para fazer seu conhecido discurso "A história me absolverá". De fato, o discurso parece quase um documento democrata-cristão, com pouca menção ao papel dos EUA na situação cubana e um grande foco na corrupção de Batista, na ilegitimidade do regime, nas violações da legalidade e da Constituição, etc. Mas o incidente de Moncada, juntamente com seu discurso, transformou Castro em uma figura nacional e, alguns meses depois, ele foi libertado da prisão e enviado para o exílio no México. Da mesma forma, sua intenção abertamente declarada do México de lançar a revolução em 1956, embora tenha levado a um desastre militar, fez de Castro um polo de atração política ainda maior para a crescente oposição antibatista que estava começando a se desenvolver. Mas essa oposição, independente de Castro, estava crescendo de qualquer forma: lutas estudantis generalizadas ocorreram em Havana em 1955 e 1956; uma organização conhecida como Direção Revolucionária atacou militarmente o palácio presidencial em março de 1957; outras frentes foram abertas por diferentes grupos nas montanhas de Escambray e em Pinar del Rio; e uma greve geral malsucedida chegou a ser tentada por uma coalizão de forças (incluindo o movimento de Castro, embora não o PC de Cuba). Em outras palavras, não se tratava apenas de 300 guerrilheiros contra 10.000 soldados de Batista. Isso também é importante para entender por que Castro pôde estabelecer uma área de base - ou melhor, para sermos precisos, um acampamento permanente - alguns meses após o fracasso de Guevara, um ponto mencionado anteriormente por Debray. Embora Debray nunca explique esse fato, ele dá a entender que o peso da luta acumulada foi o principal responsável. Ele deixa de fora a crise geral que, a essa altura, envolveu a sociedade cubana e que, cada vez mais, negava a Batista a liberdade de concentrar suas tropas no campo (para que Havana não entrasse em erupção), ou mesmo de contar com elas para enfrentar as forças rebeldes. Além disso, há também o caráter do próprio Oriente, onde a principal força das tropas de Castro estava localizada. Mais adiante no livro, quando Debray quer convencer o leitor de que, quando a luta militar se tornar favorável, as massas cairão mais ou menos no colo da revolução, ele cita uma carta de 1956 em que Castro escreveu Agora eu sei quem são as pessoas: Eu o vejo naquela força invencível que nos cerca por toda parte, eu o vejo nos bandos de 30 ou 40 homens, iluminando seu caminho com lanternas, que descem as encostas lamacentas às duas ou três da manhã, com 30 quilos nas costas, para nos fornecer comida. Quem os organizou de forma tão maravilhosa? Onde eles adquiriram tanta habilidade, astúcia, coragem e abnegação? Ninguém sabe. É quase um mistério. (Debray 1967, 113) Na verdade, não era tão misterioso assim. Os camponeses do Oriente eram alguns dos mais experientes politicamente do mundo. Eles haviam lutado e defendido os sovietes rurais nos anos 30. No final dos anos 50, quando Castro e seus homens chegaram lá, eles estavam envolvidos em uma volátil luta de posseiros. É importante refletir por um momento sobre o quadro apresentado pelo Oriente. Local da maior parte dos combates e do maior apoio da revolução, ele continha as maiores fazendas de cana-de-açúcar de Cuba, cultivadas por um proletariado e semiproletariado rural, bem como metade das pequenas propriedades camponesas de Cuba. Mas os camponeses eram inseguros e frequentemente expulsos de suas terras, e houve nada menos que vinte revoltas camponesas significativas entre 1902 e 1958. Um historiador observa que Os posseiros de Sierra Maestre estavam há algum tempo organizados em bandos para se protegerem dos proprietários que tentavam expulsá-los. O bandido social, uma mistura de fora da lei e manifestante, era a forma que a organização social e política dos camponeses havia assumido. Quando o bando de Castro apareceu na área, foi quase imediatamente acompanhado por esses bandos de camponeses, que sem dúvida reconheceram os guerrilheiros como aliados. (Dominguez 1978, 436-437) Dois outros observadores, escrevendo em crítica a Debray em 1967 em Cuba, observam que, quando Castro chegou ao Oriente, já havia "um confronto direto entre o exército e os camponeses, no qual o exército apoiava os grandes proprietários de terras (governo por facão, despejos, violência contra as massas camponesas)... Os confrontos políticos já haviam assumido a forma de confrontos diretos entre o exército e o campesinato" (Huberman e Sweezy 1967, 56). Parece que talvez uma lição da Revolução Cubana esteja no potencial de explosividade política e militar do campesinato das nações oprimidas, mesmo em Cuba, em 1959, onde houve capitalização em larga escala da agricultura e urbanização de metade da população - Debray e os neoguevaristas de hoje não concordam com isso. Na medida em que a Revolução Cubana prova alguma coisa, certamente não é o modelo de Debray de um foco, divorciado do campesinato, causando por si só uma crise profunda e derrotando o governo mais ou menos sozinho. Mais do que isso, o que parece indicar é o poderoso papel que uma força armada revolucionária pode desempenhar na presença de uma crise política e de um campesinato (juntamente com um proletariado agrícola e um semiproletariado) ansioso para pegar em armas contra seus opressores; ou melhor ainda, indica a interação dialética entre o que é subjetivo (a força militar, nesse caso) e o que é objetivo (a crise do regime e os sentimentos e a luta das massas). Isso não quer dizer que a força armada revolucionária não tenha um papel a desempenhar no desencadeamento, no recrudescimento e no aprofundamento de uma crise política; tampouco é verdade que só se pode ou se deve lançar a luta armada nas nações oprimidas quando essas condições já estiverem plenamente presentes (embora, em geral, elas devam estar presentes para que uma conclusão vitoriosa seja levada a cabo). Mas o guevarismo tenta negar totalmente a importância da situação objetiva para todas as fases da luta armada e, em vez disso, prefere agir como se a situação objetiva estivesse "definida" e tudo o que faltasse fosse a coragem e as táticas sólidas dos revolucionários. A Declaração do Movimento Internacionalista Revolucionário trata essa questão da seguinte forma: Nos países oprimidos da Ásia, África e América Latina, geralmente existe uma situação revolucionária contínua. Mas é importante entender isso corretamente: a situação revolucionária não segue uma linha reta; ela tem seus fluxos e refluxos. Os partidos comunistas devem ter em mente essa dinâmica. Eles não devem cair na unilateralidade de afirmar que o início e a vitória final da guerra popular dependem totalmente do fator subjetivo (os comunistas), uma visão frequentemente associada ao "Lin Piaoísmo". Embora em todos os momentos alguma forma de luta armada seja geralmente desejável e necessária para realizar as tarefas da luta de classes nesses países, durante certos períodos a luta armada pode ser a principal forma de luta e em outros momentos pode não ser. (RIM 1984, 34) O que ajuda a tornar esse problema específico tão complicado - e o que aumenta o apelo de Che Guevara para aqueles que realmente querem fazer uma revolução - é que muitos sentimentos e iniciativas revolucionárias foram sufocados pelo revisionismo convencional sob a rubrica de "condições objetivas". No entanto, não será suficiente se opor a isso negando a importância crucial da situação objetiva e, essencialmente, jogando o materialismo pela janela. Em vez disso, os revolucionários devem se opor ao método mecânico- materialista utilizado pelo revisionismo com a dialética materialista. Lenin, em um ensaio sobre Karl Marx, fez essa distinção muito bem: Somente uma consideração objetiva da soma total das relações recíprocas de todas as classes de uma determinada sociedade, sem exceção, e, consequentemente, uma consideração do estágio objetivo de desenvolvimento dessa sociedade e das relações recíprocas entre ela e outras sociedades, pode servir como base para as táticas corretas da classe avançada. Ao mesmo tempo, todas as classes e todos os países são vistos não de forma estática, mas dinâmica, ou seja, não em um estado de imobilidade, mas em movimento (cujas leis são determinadas pelas condições econômicas de existência de cada classe). O movimento, por sua vez, é considerado não apenas do ponto de vista do passado, mas também do ponto de vista do futuro e, ao mesmo tempo, não de acordo com a concepção vulgar dos "evolucionistas", que veem apenas mudanças lentas, mas dialeticamente: "Em desenvolvimentos de tal magnitude, vinte anos não são mais do que um dia", escreveu Marx a Engels, "embora mais tarde possam surgir dias em que vinte anos estejam concentrados". (Lênin 1970, 40-41) E, com base exatamente nesse entendimento, Bob Avakian tem enfatizado, nos últimos anos, a necessidade de um partido de vanguarda verificar, basear- se e desenvolver os "elementos revolucionários" em qualquer situação. A dialética envolvida é a de fazer o máximo para se preparar para a insurreição revolucionária (ou, no caso das nações oprimidas, onde a luta armada pode já ter sido iniciada, para uma ofensiva estratégica completa e decisiva) enquanto - como Mao disse - "apressa ou aguarda as mudanças na situação internacional e o colapso interno do inimigo" (Mao 1967, 2:126). O voluntarismo que sustenta o método de Guevara e Debray, por tentar refutar o materialismo mecânico com o idealismo subjetivo, [§] acaba caindo em alguns dos mesmos erros de passividade tipicamente associados ao materialismo mecânico. Isso se manifesta, por exemplo, no exame de Debray sobre as maneiras pelas quais a revolução cubana foi excepcional, ou "nunca mais será repetida". Ele observa, por exemplo, que a incerteza e a frouxidão dos EUA em relação às intenções dos revolucionários eram altamente improváveis de serem repetidas em outros lugares da América Latina. No entanto, embora a Revolução Cubana certamente tenha tornado os EUA muito mais cautelosos, não é verdade que os EUA sempre puderam ou podem fazer o que quiserem para esmagar revoluções, mesmo quando as intenções dos revolucionários são inequivocamente claras - como foi o caso da China e do Vietnã! Mesmo na América Central, o autodenominado "quintal" dos EUA, operam restrições que vão além até mesmo da força das massas; por exemplo, Alexander Haig afirma em suas memórias recentes que Weinberger e outros no governo Reagan rejeitaram sua proposta de 1981 de intervir decisivamente em El Salvador e na Nicarágua, por medo de que isso entrasse em conflito com o que eles consideravam a prioridade principal: preparar as forças armadas dos EUA (e a opinião pública dos EUA) para uma guerra global contra os soviéticos. Mas o voluntarismo de Debray o leva não apenas à negação da importância das condições objetivas para os revolucionários, mas também à cegueira em relação às restrições reais que elas também impõem aos imperialistas. Esse método o levará a perder de vista ou ignorar importantes fraquezas potenciais no campo inimigo. Por outro lado, Debray não leva em consideração outros fatores. Batista, por exemplo, foi forçado, devido ao potencial explosivo de Havana e às divisões entre a burguesia cubana, a adotar uma "estratégia de enclave", o que significa que ele concentrou suas tropas em alguns locais seguros em vez de enviá-las em missões de busca e destruição. Isso permitiu que as tropas rebeldes tivessem tempo para descansar e treinar. No entanto, seria muito insensato para as forças revolucionárias contar com o desenvolvimento de uma situação como essa em todos os casos. Isso pode acontecer, mas está longe de ser automático e, em geral, é preciso se preparar para combates intensos e prolongados. Além disso, como os EUA não tinham clareza sobre os objetivos da revolução e como o grupo líder não estava de fato comprometido com uma revolução completa (ou mesmo, naquele momento, com uma ruptura de qualquer tipo com os EUA), houve pouquíssima destruição e nenhuma guerra civil real na Revolução Cubana. Isso marca um nítido contraste com o que ocorreu na Rússia, na China e no Vietnã e deve ser considerado altamente atípico (pelo menos em relação às revoluções que realmente visam romper com o imperialismo e transformar as relações sociais). Portanto, até mesmo as lições importantes da Revolução Cubana (por exemplo, o papel do campesinato e do proletariado agrícola, a volatilidade política da pequena burguesia urbana etc.) devem ser cuidadosamente analisadas em relação ao seu possível significado universal. Debray extrai apenas as lições que se encaixam no modelo de foco que ele estava promovendo na época, e depois absolutiza sua relevância. E, novamente, qual era esse modelo? Um pequeno grupo se baseia em táticas militares astutas para derrotar um exército apoiado pelo imperialismo, com a mobilização política das massas supostamente seguindo o rastro de um sucesso militar dramático. As medidas associadas à guerra popular - incluindo a mobilização e a dependência do campesinato, o estabelecimento de áreas de base como um objetivo importante da luta militar, o início da revolução agrária - são negadas, e até mesmo combatidas com amargura, por serem inaplicáveis à América Latina. O campesinato é visto não como um reservatório de forças para a revolução, mas como uma massa de informantes em potencial. As áreas de base são vistas como pouco mais do que acampamentos militares permanentes e, na verdade, são descartadas como um desvio perigoso. A revolução agrária é simplesmente ignorada e, portanto, negada. Mas vamos, mesmo para fins de debate, conceder ao guevarismo seu argumento central aqui: que um bando de guerrilheiros, mantendo-se distante do campesinato até o fim, pode catalisar uma derrubada revolucionária do antigo regime. Mesmo admitindo o exagero encontrado em Revolution in the Revolution?, não há, de fato, alguma verdade nisso? Castro não liderou essencialmente seu punhado inicial de homens para fazer uma revolução em Cuba? O guevarismo não funcionou em Cuba? Isso depende, em última análise, do que você quer dizer com "trabalhar". É verdade que Castro conseguiu tomar o poder, que o regime de Batista foi derrubado e que ocorreram grandes mudanças na sociedade cubana. Mas no que diz respeito aos problemas básicos e subjacentes da sociedade cubana - e com isso queremos dizer seu status nas relações mundiais como uma nação oprimida e dependente, com todas as ramificações consequentes - a mudança foi mais de forma do que de conteúdo. Concentrando-se especificamente na questão da terra, pode-se dizer que o regime de Castro basicamente concluiu o processo iniciado por Batista: eles transformaram a agricultura cubana em uma operação maciça e proletarizada dedicada à produção de açúcar. As antigas fazendas, de propriedade direta de corporações norte-americanas ou de compradores cubanos, foram colocadas nas mãos do Estado, sim. Mas o papel das massas na agricultura como proletários sem controle sobre seu trabalho, a estrutura monocultura da produção agrícola cubana (a maior parte da produção destinada à única safra de exportação de açúcar) e, acima de tudo (e definindo os termos para as outras condições), a integração da produção de açúcar cubana às exigências e ritmos do capital imperialista (mesmo que imperialista soviético) - tudo isso permanece essencialmente o mesmo. A diferença está nas barbas e fardas (inicialmente) usadas pela nova safra de administradores e na linguagem em que o novo conjunto de senhores imperialistas dá suas ordens. A experiência de Cuba (e aqui, mais uma vez, pedimos ao leitor que consulte A evaporação de um mito para uma análise mais profunda e documentação adicional) aponta novamente para o fato de que, na maioria das nações oprimidas, o imperialismo não pode ser finalmente expulso sem mobilizar o campesinato (juntamente com os proletários e semiproletários rurais) para arrancar as raízes do legado opressivo no campo e reestruturar a agricultura passo a passo, de baixo para cima, de modo a romper as cadeias de dependência e servir à revolução mundial. A questão da terra nesses países é essencial demais e está integrada demais a toda a estrutura de dominação imperialista para ser, de alguma forma, subjugada ou tratada principalmente por meio da nacionalização das grandes fazendas. Portanto, mesmo que se concorde com todos os argumentos (duvidosos) do guevarismo, mesmo que se ignore o papel potencialmente explosivo do campesinato (em favor da aliança com seus possíveis novos patrões), mesmo que se deixem de lado facetas importantes do que aconteceu em Cuba entre 1953 e 1959, o fato é que esse caminho não pode levar à emancipação genuína. Há um atalho oferecido aqui. Você só precisa ter coragem, rever as táticas militares e enfrentar o inimigo. Essa mentalidade de atalho se estende também a outro componente crucial do guevarismo: sua visão do papel do partido na guerra revolucionária, da relação entre o partido e o exército. Algo mais também começa a surgir ao estudar essa área: o plano real que orienta Guevara, Castro e Debray, sua resposta oculta à pergunta: se não for o campesinato liderado pelo proletariado, então quem? CAPÍTULO III Ao examinar a linha guevarista sobre a relação do partido com o exército, surgem mais perguntas, enquanto a base para responder a outras começa a aparecer. Guevara e Debray sustentavam que o foco guerrilheiro deveria ser totalmente autônomo em relação ao controle do partido. Eles argumentaram que, como a luta armada ocorre no campo, a liderança também deve estar baseada no campo, tanto para orientar melhor essa luta quanto para evitar a captura pela polícia. Além disso, insistiam que a luta e o treinamento ideológico e político dentro das fileiras do exército rebelde eram, na melhor das hipóteses, uma distração irrelevante e, na pior, uma diversão fatal. De acordo com Debray, a unidade política necessária será forjada na fornalha da batalha, e a estratégia e as táticas necessárias para a vitória serão extraídas das lições proporcionadas por cada engajamento militar com o inimigo. O guevarismo está apenas defendendo uma variação da linha espontaneísta clássica aqui - minimizando o papel fundamental e de liderança do partido? Embora essa seja a forma, e embora existam alguns elementos comuns, algo um pouco diferente está de fato em ação: uma proposta de modus vivendi com os partidos revisionistas estabelecidos. Para entender isso, no entanto, primeiro é necessário abordar os principais pontos de Debray sobre a relação entre o partido e o exército em seu próprio direito. Debray pretende resumir a experiência das revoltas guerrilheiras fracassadas do início dos anos 60 e atribui muitos dos problemas ao fato de não se permitir a autonomia do foco. Por exemplo, um grande problema nessas insurgências foi a captura e/ou o assassinato dos líderes. Debray aponta para as perigosas viagens realizadas por esses líderes às cidades para obter instruções e ajuda política. Por outro lado, de acordo com Debray, enquanto os guerrilheiros permanecerem nas montanhas, a captura "é praticamente impossível.... Tudo o que a polícia e seus conselheiros norte-americanos podem fazer é esperar em sua terra natal até que os líderes da guerrilha cheguem à cidade" (Debray 1967, 69). Além disso, ele argumenta que "a falta de poder político [referindo-se, nesse contexto, ao poder do foco de determinar sua própria linha política e militar] leva à dependência logística e militar das forças da montanha em relação à cidade. Essa dependência geralmente leva ao abandono da força guerrilheira pela liderança da cidade" (Debray, 69). Debray relata a experiência de um movimento anônimo na América Latina que recebia apenas US$ 200 por ano de sua liderança urbana para comprar armas, suprimentos, etc. Uma crítica oblíqua ao PC venezuelano, que em 1965 abandonou e renunciou a um movimento guerrilheiro do qual fazia parte, pode ter sido intencional aqui. E Debray também criticou os partidos que utilizavam seus braços armados apenas em subordinação a várias manobras parlamentares. Mais uma vez, percebe-se uma crítica implícita aos PCs latino-americanos que, naquele momento, ainda estavam envolvidos em algum tipo de luta armada. Em grande parte dessa argumentação, Debray articula o desgosto de muitas forças revolucionárias honestas com os partidos revisionistas estultificados, que participavam da luta armada (se é que participavam), ao que parece, apenas para retê-la. Essa aversão ao revisionismo - pelo menos em sua encarnação parlamentar clássica, de terno e gravata - logo se transforma, no entanto, em uma oposição a qualquer tipo de treinamento político. Debray se opõe fortemente à presença de comissários políticos em unidades militares e escolas de treinamento para quadros militares. Ele cita Castro: "Para aqueles que demonstram habilidade militar, dêem também responsabilidade política" (Debray 1967, 90). Várias contradições diferentes foram misturadas aqui, incluindo a contradição entre a cidade e o campo durante o período de guerra, a contradição entre o partido e o exército e a contradição entre as formas de luta parlamentar e armada. Vamos tentar desembaraçar essa bagunça brevemente. Primeiro, onde o partido deve se basear durante o período de guerra de guerrilha? Se ele estiver sediado no campo, como deve ser e como de fato foi durante a guerra revolucionária da China, então as objeções guevaristas quanto às desvantagens de o braço militar estar subordinado ao político - pelo menos aquelas relativas à segurança dos comandantes militares, à incapacidade do quadro da cidade de compreender "a importância de uma libra de graxa de arma ou um metro quadrado de náilon" etc. - não começam a desaparecer? - começam a se dissolver? Debray basicamente argumenta que o partido (que se supõe ser de base urbana) e o foco devem ter permissão para fazer suas próprias coisas. Por que ele é tão resistente a travar uma luta ideológica e política sobre qual deveria ser o verdadeiro foco do trabalho do partido - ou seja, travar ou se preparar para travar uma guerra revolucionária? Quanto à contradição entre o partido e o exército: Debray observa que está argumentando contra "toda uma gama de experiências internacionais", incluindo a Revolução Russa e as prolongadas guerras populares da China e do Vietnã, com sua oposição à liderança do partido sobre os militares. Mas ele se recusa a abordar as razões pelas quais o marxismo internacional chegou a essa conclusão. Isso tem tudo a ver com a forma como se concebe o papel do partido e as tarefas do proletariado na revolução. O partido deve atuar como a vanguarda revolucionária do proletariado em todas as esferas. Isso inclui a realização de uma análise básica da situação internacional e das classes no país em questão, o desenvolvimento de um programa e de uma estratégia para a revolução com base nisso, a educação das massas sobre o objetivo da luta e o caminho para a vitória, o desenvolvimento de uma linha militar correta e a formação do aparato militar para liderar de fato a luta armada. Mas essa última tarefa, por mais crucial que seja, não pode ser realizada de forma correta sem a análise básica das classes e da situação internacional, sem o desenvolvimento de uma estratégia e de um programa. E a menos que as massas sejam mobilizadas no decorrer da guerra e, além disso, a menos que sua consciência seja elevada, então, afinal, por que a guerra será travada? Como as massas estarão preparadas para exercer o poder político? A Declaração do Movimento Internacionalista Revolucionário resume com precisão a experiência histórica sobre esses pontos, conforme se aplica às nações oprimidas: A chave para a realização de uma revolução de nova democracia é o papel independente do proletariado e sua capacidade, por meio de seu partido marxista-leninista, de estabelecer sua hegemonia na luta revolucionária. A experiência tem demonstrado repetidamente que, mesmo quando uma seção da burguesia nacional se junta ao movimento revolucionário, ela não vai e não pode liderar uma revolução de nova democracia, para não falar em levar essa revolução até o fim. Da mesma forma, a história demonstra a falência de uma "frente anti-imperialista" (ou "frente revolucionária" semelhante) que não seja liderada por um partido marxista-leninista, mesmo quando essa frente ou as forças dentro dela adotam uma coloração "marxista" (na verdade, pseudo- marxista). Embora essas formações revolucionárias tenham liderado lutas heroicas e até mesmo desferido golpes poderosos contra os imperialistas, elas provaram ser ideológica e organizacionalmente incapazes de resistir às influências imperialistas e burguesas. Mesmo nos casos em que essas forças tomaram o poder, elas foram incapazes de realizar uma transformação revolucionária completa da sociedade e acabaram, mais cedo ou mais tarde, sendo derrubadas pelos imperialistas ou se tornando, elas próprias, um novo poder governante reacionário em aliança com os imperialistas.... O partido marxista-leninista deve armar o proletariado e as massas revolucionárias não apenas com a compreensão da tarefa imediata de levar a cabo a revolução de nova democracia e o papel e os interesses conflitantes das diferentes forças de classe, tanto amigas quanto inimigas, mas também com a necessidade de preparar a transição para a revolução socialista e o objetivo final do comunismo mundial. (RIM 1984, 32) Nada disso implica minimizar a necessidade de o partido enfatizar as questões militares. Basta observar os extensos escritos militares de Mao (que, de fato, desenvolveu a primeira doutrina militar marxista realmente integral e abrangente). De fato, a luta pela linha militar, finalmente vencida por Mao na conferência de Tsunyi em 1935, concentrou as lutas pela linha geral no Partido Comunista Chinês naquele momento, e isso não foi por acaso: a arma era a principal arma de luta e, nessa situação, a linha militar se torna a expressão concentrada da linha política. Debray, no entanto, retrata a luta pela linha política como uma distração, nada mais do que uma desculpa para evitar o assunto em questão: lançar uma insurgência. Sem dúvida, mais do que alguns revisionistas forneceram a base para essa caricatura. Mas Debray tenta encobrir o que Mao enfatizava continuamente: se uma linha não conduz, então outra certamente o fará. E a linha proletária nunca lidera sem uma luta aguda. Isso também foi enfatizado por Lênin e está na base de "What Is To Be Done?" (O que deve ser feito?), seu trabalho que define a relação do partido com o movimento revolucionário e a preparação para a insurreição armada. Lá ele escreveu: Como não se pode falar de uma ideologia independente sendo desenvolvida pelas massas dos próprios trabalhadores no processo de seu movimento, a única escolha é: ou a ideologia burguesa ou a ideologia socialista. Não há meio- termo (pois a humanidade não criou uma "terceira" ideologia e, além disso, em uma sociedade dilacerada por antagonismos de classe, nunca poderá haver uma ideologia não-classe ou acima da classe). Portanto, depreciar a ideologia socialista de alguma forma, afastar-se dela no mínimo grau significa fortalecer a ideologia burguesa.... Mas por que, perguntará o leitor, o movimento espontâneo, o movimento ao longo da linha de menor resistência, leva à dominação da ideologia burguesa? Pela simples razão de que a ideologia burguesa é muito mais antiga em sua origem do que a ideologia socialista; porque está mais plenamente desenvolvida e porque possui incomensuravelmente mais oportunidades de ser disseminada. (Lênin 1975, 48-51). De passagem, devemos falar sobre a rejeição de Debray ao treinamento político dos soldados. Não se trata, na verdade, de um plano para usar as massas como bucha de canhão? A noção irrefletida de que as "massas saberão pelo que estão lutando" ignora uma história amarga de novas forças burguesas que se aproveitam, para seus próprios interesses mesquinhos, da ânsia das massas de pegar em armas contra a opressão. Até mesmo Debray, na época em que escreveu, teria argumentado que isso era verdade em relação à Argélia, por exemplo, e a história também fornece outros exemplos, sendo o Irã e a Nicarágua apenas os mais recentes. Manter intencionalmente vagos os objetivos e a postura da revolução, negar às massas as ferramentas teóricas necessárias para sua emancipação, só pode restringir sua iniciativa e aumentar a daqueles que aspiram ser seus salvadores - e novos (se "iluminados") governantes. Como a ênfase dada por Lênin e Mao a um partido centralizado se relaciona com a necessidade de os comandantes locais terem um certo grau de autonomia? Guevara e Debray não estão errados ao enfatizar esse aspecto da autonomia, mas ela não é necessariamente antagônica a um partido forte; o próprio Mao atribuía grande importância a ela. A iniciativa é fundamental na guerra, e os comandantes locais dificilmente conseguirão se apoderar dela se tiverem de checar e rechecar todos os planos. No entanto, a questão é saber qual é a base para essa autonomia. Para que essa autonomia alimente a luta militar geral, os comandantes devem estar firmemente unidos em torno da linha militar básica do partido, dos princípios de operação forjados para o partido, dos conceitos estratégicos específicos em várias áreas etc. E tudo isso deve se basear, em última instância, na linha política e nos objetivos do partido. Caso contrário, as ações de guerrilha se tornarão inúteis, riachos que não levam a nenhum riacho e acabam secando. Mas Guevara e Debray abordaram a falta de ênfase na luta militar exigindo autonomia para o exército e, nesse processo, negaram totalmente a importância da liderança e da consciência política. Por que, em vez disso, eles não falaram sobre a questão de que tipo de partido deveria ser criado para realmente liderar a luta armada? Por fim, há a questão política da relação entre a luta parlamentar e a militar. Os PCs revisionistas da América Latina, mesmo quando empreendiam a luta militar, geralmente a viam - naquele momento da história - como um complemento de várias manobras parlamentares[**]. A isso Debray e Guevara se opuseram. No entanto, sua solução (autonomia do foco) está novamente errada, e novamente perguntamos: por que não uma luta dentro das fileiras revolucionárias sobre o caminho correto a seguir? Por que apenas uma orientação do tipo "você faz o que quer e nós fazemos o que queremos"? Afinal de contas, se os partidos da América Latina apresentavam falhas graves - e os PCs revisionistas, àquela altura, não eram tão falhas quanto estavam irremediavelmente corroídos e contrarrevolucionários -, então por que não realizar uma luta e uma ruptura completa nas esferas da ideologia, política, organização e militar e, com base nisso, forjar um novo partido de vanguarda? Na verdade, exatamente essa luta estava sendo travada, internacionalmente e no continente latino-americano, pelas forças marxistas-leninistas que apoiavam Mao. Mas Guevara e Debray se opuseram amargamente a ela. Por quê? Por um lado, como já foi dito, eles simplesmente não tinham em mente o tipo de revolução completa que exige uma vanguarda leninista genuína. O objetivo deles era "fazer alguma coisa funcionar" - ser o "pequeno motor que dá partida no grande motor", diz Debray em um determinado momento - e depois seguir em frente. A orientação é causar uma crise dentro do regime governista, tentar fazer um acordo com outras forças burguesas, desencadear - até certo ponto - um levante em massa e levá-lo ao poder ou a um papel em um governo de coalizão. Esse era o verdadeiro "modelo cubano" que essas forças tinham em mente. Se você não está tentando despertar as massas para realmente erradicar as velhas relações sociais e transformar conscientemente a sociedade, se você não está esperando a guerra prolongada que quase certamente acompanhará essa orientação, então, realmente, que necessidade você tem de um partido leninista? Em segundo lugar, e obviamente relacionado a isso, o programa e a estratégia específicos que eles estavam defendendo, a maneira como viam as forças se alinhando na América Latina (e internacionalmente), excluíam qualquer tentativa de forjar um novo partido em oposição aos PCs revisionistas. Sim, eles lutariam pela autonomia e até mesmo levantariam a questão da hegemonia em alguns momentos, mas teriam de ser muito cuidadosos para não correr o risco de perturbar completamente o jogo revisionista. E isso fica mais claro ao considerarmos a situação internacional da época e como Guevara e Debray (e, é claro, Castro acima de tudo) viam suas opções dentro dela. CAPÍTULO IV O guevarismo surgiu em uma situação internacional específica, e seu conteúdo é condicionado pela dinâmica dessa situação. Durante toda a década de 1960, o ímpeto do imperialismo (liderado pelos EUA) de explorar mais profundamente as nações oprimidas do Terceiro Mundo enfrentou a resistência das massas desses países, e isso constituiu a principal contradição no mundo naquela época. Isso definiu os termos políticos de uma década. Exemplificada pela resistência indomável dos vietnamitas contra a agressão dos EUA, essa contradição alcançou uma amplitude e intensidade durante esse período que foi literalmente sem precedentes. Entretanto, essa não foi a única contradição que moldou os eventos mundiais. A rivalidade entre os EUA e a União Soviética tinha um caráter particular durante esse período: os soviéticos buscavam seus interesses imperialistas por meio de uma política de conluio (em sua maior parte) com o imperialismo norte- americano. A necessidade impôs a eles a tática de tentar garantir bolsões significativos de influência - até mesmo de dominação - em governos específicos do Terceiro Mundo, evitando, ao mesmo tempo, um confronto decisivo com os EUA, cuja superioridade militar era inquestionável na época. Tudo isso era uma forma de se preparar para um confronto mais agressivo com os EUA mais tarde, quando as mudanças nas condições proporcionariam novas oportunidades (e uma necessidade ainda maior). Mas, na situação dos anos 60, isso significava que as forças oposicionistas e revolucionárias de diferentes classes não eram tão atraídas como hoje pelo revisionismo soviético e tendiam a olhar para a China socialista ou para seus próprios dispositivos (ou ambos) para encontrar os meios de se levantar em armas contra o imperialismo dos EUA. Isso, por sua vez, aponta para a importante contradição entre a então China socialista e cada um dos dois blocos imperialistas. Os EUA mantiveram sua postura agressivamente hostil em relação à China durante toda a década de 50 e início dos anos 60, e a recusa da China em ceder inspirou inúmeros milhões de pessoas em todo o mundo. Os soviéticos, durante o final dos anos 50 e início dos anos 60, também tentaram dominar a China: isso assumiu a forma de sabotagem econômica, patrocinando forças antimaoístas dentro da liderança chinesa e tentando isolar a China, alegando que sua posição firme contra os EUA aumentava os perigos de uma guerra mundial. (No final da década de 60, os soviéticos realmente lançaram ataques militares contra as fronteiras da China e fizeram planos para um ataque nuclear preventivo contra suas cidades). Tudo isso levou a uma situação em que a China "competia" com os soviéticos para ajudar as lutas de libertação contra o imperialismo (principalmente dos EUA) e tentava influenciá-las em uma direção genuinamente marxista-leninista. Essas contradições internacionais entrelaçadas - nas quais, mais uma vez, a contradição entre as nações oprimidas e o imperialismo, que se expressou na poderosa onda de lutas de libertação nacional, foi o principal fator - constituíram o terreno sobre o qual surgiu o guevarismo, como uma resposta política (e ideológica) específica de uma determinada classe. Analisando a América Latina em particular, onde o Guevarismo surgiu e exerceu sua maior influência, é preciso entender o efeito politicamente galvânico da Revolução Cubana, tanto sobre as massas em geral quanto, em particular, sobre as burguesias nacionais e as pequenas burguesias do continente. Os EUA responderam à Revolução Cubana com invasão, espionagem e tentativas de isolar diplomaticamente o regime de Castro, preparando a ação militar. Todos os governos latino-americanos foram pressionados a romper os laços; a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos foi apenas o caso mais dramático (e politicamente explosivo). Mas tudo isso tendeu a gerar uma simpatia generalizada por Cuba entre as massas e entre uma camada significativa dos democratas burgueses revolucionários do continente. A submissão dos regimes compradores da América Latina às exigências dos EUA para punir o único país que estava enfrentando a besta - que, de fato, a havia derrotado militarmente - enojou muitos dos que poderiam ser considerados forças democrático-burguesas revolucionárias e/ou radicais. À medida que as coisas se polarizavam, essas forças lançaram guerras revolucionárias em vários países latino-americanos. A Venezuela, por exemplo, viu nascer em 1962 um movimento guerrilheiro liderado pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), que havia se separado do partido governista em 1960. Suas fileiras foram ainda mais ampliadas por militares que se rebelaram em fevereiro de 1963. A Guatemala também foi palco de um movimento guerrilheiro, iniciado em 1962, e esse movimento tinha raízes ainda mais significativas no exército burguês: dois de seus principais membros, Yon Sosa e Luis Turcios, haviam participado da revolta do exército em novembro de 1960 contra a presença de uma base de treinamento da CIA que preparava exilados cubanos para a invasão da Baía dos Porcos. No Peru, as guerrilhas surgiram alguns anos mais tarde, e os líderes vieram principalmente de outra organização chamada MIR, que se separou do partido governista APRA; na Colômbia, o Ejercito de Liberación Nacional tirou sua principal força dos membros dissidentes do Partido Liberal burguês. Ao mesmo tempo, os partidos revisionistas da América Latina estavam passando por uma grande turbulência. Por um lado, vários desses partidos haviam sido proscritos ou submetidos a uma repressão incomum na esteira da Revolução Cubana, inclusive os partidos da Venezuela e da Colômbia. Por outro lado, o sucesso da Revolução Cubana em um cenário de 40 anos de impotência e reformismo do PC levantou grandes questões entre as massas e exerceu uma enorme pressão sobre os revisionistas. Os jovens, em particular, exigiam ação. Por fim, setores significativos desses partidos foram influenciados pela polêmica chinesa contra a ênfase soviética nos "três pacíficos" (coexistência pacífica, transição pacífica para o socialismo nos países capitalistas e vitória competitiva pacífica do socialismo sobre o capitalismo em escala mundial). Essa grave tensão interna ocorreu em um contexto em que, por alguns anos, do início a meados da década de 1960, especialmente durante as fases iniciais das revoltas na Venezuela e na Guatemala, pelo menos alguns setores da liderança soviética achavam que revoluções do tipo cubano poderiam ocorrer em outros países latino-americanos. Essa linha se tornou mais pronunciada por um breve período após a queda de Khrushchev. Portanto, esses partidos foram fortemente pressionados a participar das lutas armadas que estavam surgindo na América Latina. Mas, em 1965, as coisas tomaram outro rumo no continente. Os EUA lançaram uma iniciativa importante e abrangente, que incluía não apenas a Aliança para o Progresso, mas também o treinamento em larga escala de oficiais militares, a enorme expansão das atividades da CIA e a direção virtual do movimento democrata-cristão. O golpe de 1964 no Brasil contra Goulart (coordenado abertamente pela CIA) e a invasão da República Dominicana pelos EUA um ano depois deixaram brutalmente claro que os EUA estavam prontos para usar seu poderio contra qualquer iniciativa nacionalista, mesmo que moderada (quanto mais um desafio revolucionário completo). Enquanto isso, e associado a isso, os movimentos de guerrilha começaram a ter problemas. As insurgências na Guatemala e na Colômbia estagnaram; os revolucionários peruanos foram brutalmente esmagados; na Venezuela, o movimento pouco avançou. Fabricio Ojeda e Camilio Torres foram assassinados, Luis de la Puente foi preso e condenado a 20 anos de prisão, outros líderes democrático-revolucionários (por exemplo, Domingo Rangel, o líder mais importante do MIR na Venezuela) capitularam e abandonaram a luta armada. Os soviéticos consideraram que os tempos não eram mais tão promissores e fizeram uma mudança na política. Eles decidiram manter laços diplomáticos e econômicos com os regimes do continente, considerando essa uma forma de penetração mais promissora do que apoiar revoluções que não pareciam mais ter grandes chances de vitória e que, mesmo que vencessem, poderiam ser proibitivamente difíceis (do ponto de vista da realpolitik soviética) de defender e apoiar contra um imperialismo dos EUA que operava com uma raiva renovada. Também é verdade que, a essa altura, a divisão soviético-chinesa havia se tornado irrevogável e muitos dos partidos latino-americanos também haviam se dividido; talvez não parecesse mais tão necessário para os soviéticos apoiar, pelo menos parcialmente, algumas lutas revolucionárias na esperança de manter esses partidos unidos, uma vez que as divisões já haviam ocorrido. Todos esses fatores - juntamente, sem dúvida, com as novas ofertas de anistia para os PCs revisionistas - levaram quase todos esses partidos a renunciar à luta armada em 1965. Isso se concentrou mais na Venezuela, onde a luta havia sido a mais avançada e o papel do PC era o maior. Lá, a decisão da liderança, em abril de 1965, de se retirar da frente guerrilheira e abandonar a luta armada levou a uma séria cisão, com o líder do PC Douglas Bravo deixando o partido. Durante esse período de 1961-65, Cuba desempenhou um papel relativamente pequeno na tentativa de liderar essas lutas. Foi dado apoio e refúgio, foram oferecidos conselhos e até mesmo algum treinamento, mas Cuba não fez nenhuma tentativa real de formar um centro para a revolução no continente. Guevara, que deixou Cuba em 1964, não viajou inicialmente para outro país latino-americano, mas foi para o Congo, onde tentou se unir ao movimento guerrilheiro que estava ocorrendo. Mas isso também mudou em 1965-66. Quando Guevara foi chamado de volta a Havana, o objetivo era reacender as chamas revolucionárias na América Latina. No início de 1966, Cuba realizou a primeira conferência da Organização de Solidariedade Latino-Americana (OLAS). Embora os partidos revisionistas da América Latina tenham sido convidados, os cubanos a conceberam mais como um centro para as forças radicais-democráticas não pertencentes ao PC interessadas em lançar a luta armada. (Quase todos os partidos e forças pró- maoístas foram excluídos da conferência por Cuba - uma exclusão que se tornará mais compreensível mais tarde). Ao mesmo tempo, Debray foi levado a Havana para escrever seu livro, e Guevara iniciou os preparativos para a missão boliviana de 1966-67. Por que essa mudança? Castro também atribuiu grande importância aos eventos de 1965, a partir de seus próprios interesses e ângulos particulares. Quando os EUA começaram a bombardear o Vietnã do Norte (em fevereiro de 1965), Castro analisou com atenção as promessas soviéticas de tratar Cuba como uma "parte inviolável do campo socialista" caso os EUA desembarcassem em Havana. Afinal de contas, o Vietnã do Norte não só era inviolável como também estava mais do que um pouco mais próximo da esfera de influência soviética! Juan Bosch, ele próprio uma vítima política da invasão da República Dominicana pelos EUA, comentou em sua resenha do livro de Debray que é preciso primeiro entender o fato de que Fidel Castro está esperando por um ataque dos Estados Unidos. Ele espera por isso dia após dia e teme que, quando isso acontecer, a Rússia não lutará por Cuba. Fidel Castro não espera transformar os nacionalistas cubanos fervorosos em comunistas mundiais e talvez não confie totalmente no nacionalismo dos comunistas cubanos. Fidel Castro, de acordo com o que pode ser deduzido do que ele diz e faz, parece depender mais da juventude nacionalista da América Latina do que dos partidos comunistas da região. Ele vê que os partidos comunistas estão negando apoio às guerrilhas que se organizam em todo o continente e, sem dúvida, teme que esses partidos, formados durante os dias stalinistas de lealdade à Rússia, possam seguir a linha russa de coexistência com os Estados Unidos. Se o ataque norte-americano ocorrer, eles não farão nenhum esforço sério para evitar uma derrota cubana. (Huberman e Sweezy 1967, 104) Essa visão estratégica encontra expressão na avaliação de Guevara sobre a situação internacional, ironicamente em sua mensagem que contém o famoso apelo por "dois, três, muitos Vietnãs". Embora Guevara tenha identificado corretamente a principal contradição como sendo aquela entre o imperialismo liderado pelos EUA e as nações oprimidas, e tenha se concentrado na guerra do Vietnã dentro dessa contradição, ele o fez de uma maneira peculiar: Esta é a triste realidade: O Vietnã - uma nação que representa as aspirações e as esperanças de todo um mundo de povos esquecidos - está tragicamente sozinho. Essa nação precisa suportar os ataques furiosos da tecnologia dos EUA, praticamente sem possibilidade de represálias no Sul e apenas com alguma possibilidade de defesa no Norte - mas sempre sozinha. A solidariedade de todas as forças progressistas do mundo com o povo do Vietnã é hoje semelhante à agonia amarga dos plebeus que incitavam os gladiadores na arena romana. Não se trata de desejar sucesso à vítima de agressão, mas de compartilhar seu destino; é preciso acompanhá-la até a morte ou até a vitória. Quando analisamos a situação solitária do povo vietnamita, somos tomados pela angústia diante dessa situação ilógica em que a humanidade se encontra. (Bonachea e Valdés 1969, 172) Embora a luta dos vietnamitas tenha sido certamente complicada e dificultada, para subestimar o caso, pela reversão do socialismo na União Soviética e sua consequente política de vender as lutas de libertação nacional, foi errado, e profundamente errado, que Guevara tenha visto o Vietnã como "tragicamente isolado". Por um lado, o Vietnã era apoiado diretamente pela China, que havia se comprometido a ser uma área de retaguarda; por outro lado, havia talvez uma dúzia de outras lutas de libertação em andamento no mundo naquela época (bem como um despertar revolucionário começando nas cidadelas imperialistas, principalmente nas rebeliões do povo negro nos EUA). Se nenhuma dessas lutas atingiu ainda (ou chegou a atingir, naquela espiral) o auge do Vietnã, isso certamente não pode negar os golpes reais que foram desferidos contra o imperialismo e o potencial real para golpes ainda mais sérios se o movimento revolucionário estivesse em uma posição mais forte - uma falha pela qual Guevara e Castro têm grande responsabilidade. Mesmo quando Guevara toma nota de outras lutas, ele as usa a serviço de sua linha de pensamento "tragicamente isolada": a "luta de libertação contra os portugueses deve terminar vitoriosamente", escreve ele, apenas para imediatamente descartar sua importância, acrescentando: "mas Portugal não significa nada no campo imperialista" (Bonachea e Valdés, 1969, p. 176). A declaração de Guevara castiga tanto a União Soviética quanto a China por negligência em seus deveres internacionalistas: os soviéticos por não ousarem confrontar os EUA em relação ao bombardeio do Vietnã do Norte, e os chineses por continuarem suas polêmicas contra os soviéticos (e, portanto, supostamente dividindo o "campo socialista"). Com relação à crítica aos soviéticos, ela refletia, acima de tudo, a preocupação cubana com a confiabilidade das garantias soviéticas da soberania cubana, que os soviéticos alegavam ter extraído de Kennedy em troca de sua capitulação na crise dos mísseis de 1962. Trata-se, acima de tudo, de um apelo para que os soviéticos atuem de forma mais agressiva na busca de seus interesses imperialistas (que é uma das razões pelas quais Castro acolheu a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968). Trataremos da motivação dos ataques à China em breve. Para a liderança cubana, a questão era urgente - em sua opinião, sua sobrevivência poderia depender do renascimento dos movimentos guerrilheiros. É importante entender que foi principalmente essa estrutura nacionalista restrita que os levou a promover a iniciativa de Guevara [‡‡]. Se um dos movimentos tomasse o poder, Cuba teria um aliado no continente e, mesmo que não vencesse imediatamente, se pelo menos uma ameaça crível pudesse ser montada, os EUA poderiam ser imobilizados, talvez em vários lugares ao mesmo tempo, aliviando assim parte da pressão sobre Cuba. Além disso, também existia a possibilidade de barganhar esses movimentos em troca de concessões de segurança dos EUA para Cuba. (Se essa última possibilidade parece atribuir muito cinismo a um movimento que constantemente propagandeia seu próprio idealismo, basta observar o profundo silêncio de Castro durante o assassinato de centenas de estudantes pelo governo mexicano durante as rebeliões de 1968; o México era o único governo latino-americano com vínculos com Cuba naquela época). Guevara imaginou a construção desses movimentos a partir das forças democrático-burguesas radicais e dos apoiadores dos partidos revisionistas. Essas eram as únicas forças que poderiam ser mobilizadas em curto prazo para assumir esse novo projeto concebido e dirigido em nível continental. E a rapidez era fundamental do ponto de vista cubano, pois eles sentiam a ameaça dos EUA como imediata. Como essa coalizão deveria ser formada? Para atrair os democratas burgueses radicais, eram necessárias algumas coisas. Primeiro, era preciso fazer um resumo do período anterior das lutas de guerrilha. Em segundo lugar, os radicais estavam bem familiarizados com a traição do PC, e era necessário algum tipo de garantia de que os partidos revisionistas seriam mantidos sob rédea curta. Isso não significava uma ruptura total; na verdade, essas forças geralmente viam a ajuda soviética como necessária para qualquer tentativa de romper com os EUA (ou para qualquer tentativa de obter uma melhor posição de barganha em relação aos EUA) e achavam que se os PCs revisionistas da América Latina pudessem ser atraídos para uma aliança, essa ajuda seria mais provável. Deve- se considerar também que a garantia de que os cubanos experientes passariam a liderar diretamente a batalha militar (incluindo o comando pessoal de Guevara) também afetou essas forças. Quanto aos PCs, os cubanos esperavam gerar pressão suficiente para, pelo menos, neutralizá-los e, com sorte, forçá-los a fornecer apoio logístico nos termos dos guerrilheiros. Assim, os ataques públicos vitriólicos de Castro ao PC venezuelano, as declarações nas várias conferências da OLAS, que criticavam os partidos revisionistas da velha linha, e a fanfarra proporcionada pelo próprio livro de Debray foram todos planejados para criar um certo grau de destruição na base social e nas fileiras desses partidos. Por outro lado, Castro esperava que as ofertas de ajuda (US$ 25.000 foram fornecidos antecipadamente ao líder do PC boliviano, por exemplo), juntamente com visões de vitória rápida, também pudessem, do outro lado, ajudar a formar essa aliança. Tudo isso torna mais fácil entender por que Guevara e Debray não estavam pressionando por uma luta ideológica contra os velhos partidos, mas, em vez disso, preferiam o que equivalia à luta por um quid pro quo com eles. A luta ideológica poderia significar rupturas definitivas, mas isso tornaria impossível o que os guevaristas tanto precisavam dos revisionistas da velha linha. A esperança deles, mais uma vez, não era destruir esses partidos, nem fazê-los mudar de orientação; o que Guevara queria deles era basicamente uma rede urbana com a qual as guerrilhas pudessem contar e alguma capacidade de atrair setores de seus grupos de jovens para as tropas guerrilheiras (sob sua hegemonia). (Guevara também pode ter esperado que as conexões do PC com os governos burgueses pudessem ser úteis na promoção de um golpe favorável aos interesses cubanos - na Bolívia, por exemplo, um líder de alto escalão do PC tinha um irmão no alto escalão da força aérea e era rotineiramente utilizado pelo governo como uma espécie de pivô em uma conexão Washington-Moscou- La Paz. De qualquer forma, esse aspecto específico ganhou mais destaque nos anos seguintes, especialmente após o golpe peruano de 1969, que aumentou muito a influência dos soviéticos na terra de Cuba). Entretanto, havia um motivo ainda mais preponderante, que dizia respeito às intrincadas relações entre Cuba e a URSS. As denúncias verbais de Castro sobre a União Soviética durante o período de 1965-67 refletiam algumas contradições reais subjacentes. Cuba, conforme observado, preocupava-se com a profundidade do compromisso soviético de defendê-los em caso de ataque e estava disposta a constranger publicamente os soviéticos como forma de forçá- los a afirmar e cumprir tal compromisso; Castro, por exemplo, recusou-se a assinar um comunicado conjunto com Kosygin quando este passou por Cuba após sua visita ao presidente dos EUA, Johnson, em Glassboro, Nova York, em 1967. Também não gostaram da virada de Moscou para a busca de laços diplomáticos, econômicos e militares com os regimes latinos estabelecidos (e anticubanos) e seu concomitante "conselho" aos seus partidos para que se retirassem da luta armada e levassem adiante suas tradições e inclinações parlamentares cretinistas ainda mais intensamente do que antes. Mas com todas essas iniciativas (centradas em 1965-67), Cuba não estava buscando uma ruptura básica com a dependência dos soviéticos gerada por suas políticas anteriores, mas apenas melhores termos do acordo. Os soviéticos, por sua vez, tolerariam muito do regime de Castro, e por vários motivos. Primeiro, não havia muito que eles pudessem fazer a respeito - naquele momento. As respostas soviéticas abertas aos ataques e quase-heresias cubanos iriam contra os esforços soviéticos para consertar o que restava de seu movimento internacional após a separação com a China e provavelmente teriam o efeito de afastar ainda mais Cuba da posição soviética e colocar em risco seus laços de maneiras imprevisíveis. A pressão econômica, que de fato viria a ser exercida mais tarde,[***] também foi considerada prematura - era melhor esperar até que Cuba começasse a sentir os resultados dos esquemas malucos de Castro e que as promessas malucas tivessem virado pó. Em uma palavra, os soviéticos queriam e precisavam de mais influência. Em segundo lugar, desde que fosse mantido dentro dos limites, o "renascimento revolucionário" altamente divulgado em Havana beneficiou a União Soviética mais do que a prejudicou. Para os soviéticos, a principal questão com relação ao movimento internacional ainda se concentrava na China e em como isolá-la. Preocupações estratégicas maiores, naquele momento, determinavam que os soviéticos não desafiassem os EUA por meio do apoio a movimentos revolucionários em locais de influência americana, mas isso abriu espaço para uma influência chinesa substancial em áreas importantes como a Palestina, o Golfo Pérsico, partes da África e quase toda a Ásia. O fato de Cuba se estabelecer como mais um centro revolucionário, até mesmo se posicionando à esquerda e atacando raivosamente a China, não apenas reduziu a influência do maoismo, mas também proporcionou aos soviéticos um importante canal para esses movimentos (e essas camadas) em todo o mundo. Parte da barganha - e, como veremos, os cubanos certamente mais do que cumpriram sua parte - seja de forma tácita ou mais explícita, era que os cubanos dirigissem seu fogo principal contra os maoístas e que o projeto guevarista tentasse isolá-los totalmente. Assim, a exclusão de Castro dos partidos maoístas, embora não os pró-soviéticos, da OLAS e outras conferências semelhantes; a promessa feita por Guevara de não trabalhar com os maoístas na Bolívia; e o ataque de Che às polêmicas em sua declaração à Tricontinental. Isso é levado para o livro de Debray, onde a tendência maoista na América Latina é difamada como sendo composta de "cérebros dispersos e até mesmo renegados" - o argumento é claramente que os revisionistas têm seus problemas, mas esses revolucionários estão além do limite. Não estamos argumentando que esse antagonismo em relação aos maoístas foi algo imposto aos cubanos pelos soviéticos. Duas concepções opostas de revolução estavam em conflito e lutando pela hegemonia. Para que Guevara levasse a cabo seu conceito, seria necessário lutar contra a linha revolucionária proletária defendida pelo maoismo internacionalmente. Ao mesmo tempo, não se pode separar a noção de revolução de Guevara do papel que ele imaginava para a União Soviética, as ações que ele exigia dela e as concessões que ele estava disposto a fazer com ela. Os soviéticos, então, esperaram seu tempo. Em vez de atacar abertamente Guevara ou responder aos insultos de Castro, eles abriram suas revistas para os partidos revisionistas mais ortodoxos da América Latina, que estavam mais do que dispostos a responder aos ataques de Castro a eles e a retribuir com o mesmo nível de violência. O fato de Guevara ter defendido uma ruptura aberta com esses partidos em linhas ideológicas era inconcebível por vários motivos. Em primeiro lugar, no fundo, a ideologia de Castro e dos soviéticos não era tão oposta assim: na versão da revolução e do socialismo que cada um deles propunha, havia uma visão comum das massas como objetos a serem manipulados por uma elite habilidosa ou por demagogos, dependendo do caso. Isso encontra eco na estratégia de revolução de Debray/Guevara, na qual tudo depende da ousadia e da habilidade de um pequeno grupo de heróis. Além desse motivo fundamental, havia também o fato de que essa ruptura teria ido totalmente contra o plano de revolução de Guevara (no qual os revisionistas ainda tinham um grande papel a desempenhar), bem como o perigo de que esse tipo de iniciativa corresse o risco de ser a gota d'água que forçaria a União Soviética a finalmente bater o pé, e com força. O fato de os soviéticos permitirem que a liderança cubana, com a qual haviam se comprometido tão plenamente, tentasse destruir os partidos que os haviam servido tão fielmente - e por uma "revolução" que os soviéticos consideravam quimérica - teria prejudicado os soviéticos com as forças com as quais contavam no movimento internacional e em toda uma série de tarefas na busca de manobras políticas estratégicas e táticas em vários países. Por fim, esse apelo ao combate ideológico poderia ter acabado por alimentar a tendência maoista; uma vez iniciados esses combates, não está predeterminado como eles terminarão. Algumas das forças naquele momento atraídas para o polo guevarista poderiam, no curso da luta ideológica livre, ter sido puxadas para o genuíno marxismo-leninismo-pensamento Mao Tsé-tung. Ao mesmo tempo, o fato de ter solicitado a formação de um novo partido com base na unidade ideológica teria impossibilitado a união com os democratas radicais da maneira desejada por Guevara. Essas forças não queriam o domínio do PC sobre os movimentos de libertação, mas, na maioria dos casos, nem mesmo eram declaradamente marxistas e, portanto, não tinham interesse em um conflito com o PC sobre o conteúdo do marxismo genuíno. Muitos que talvez pudessem se unir em curto prazo para pegar a arma podem ter sido expulsos por essa luta. De fato, parte do argumento de venda para essas forças era a possibilidade de um ato de equilíbrio bem-sucedido - ser capaz de utilizar os PCs sem ser engolido por eles, graças à suposta hegemonia dos guevaristas. Os ataques de Debray aos partidos revisionistas em termos francamente tradicionais e anticomunistas - "concepções importadas", "desconhecimento das condições da América Latina" etc. - talvez tenham sido planejados, pelo menos em parte, para que o Partido Comunista da América Latina pudesse se beneficiar da influência do Partido Comunista. - talvez tenham sido planejados, pelo menos em parte, para provar ainda mais a boa-fé nacionalista de Guevara & Cia. e para ganhar a confiança dos democratas radicais para o que parecia ser uma aliança possivelmente perigosa e duvidosa. (É importante observar aqui que, se, contra todas as probabilidades, a insurgência guevarista tivesse pegado fogo, os soviéticos não teriam necessariamente sido incapazes de encontrar um uso para esse movimento. Entretanto, o destino final dos guevaristas, mesmo nesse caso, pode ser questionado. Alguns anos após a morte de Guevara, Cayetano Carpio deixou o PC de El Salvador para lançar uma insurgência nas montanhas. Depois de alguns anos de luta e algumas mudanças importantes na situação internacional e na América Central, surgiu um momento em que uma aliança semelhante - entre, nesse caso, os revisionistas, os reformistas sob uma bandeira social- democrata, os nacionalistas e as forças neoguevaristas de Carpio - tornou-se real e, inicialmente, Carpio teve a vantagem. No entanto, a resistência de Carpio às negociações a serviço da estratégia soviética de compromisso histórico em El Salvador levou a um esforço conjunto para minar sua liderança e, de acordo com a história oficial da Nicarágua, ao assassinato de Carpio de um dos principais quadros pró-soviéticos de sua organização e seu suposto suicídio posterior. Se suas esperanças estão em fazer algo funcionar de modo a atrair um patrono poderoso, não se surpreenda quando o patrono decidir que seu empreendimento será melhor servido com sua ausência). A abordagem antiteórica de Debray foi um elo fundamental na união de ambos os elementos dessa esperada coalizão - os PCs revisionistas com os democratas burgueses mais tradicionalmente nacionalistas. Sua recusa em polemizar pela liderança de partidos marxistas-leninistas genuínos serviu a essa aliança. Mas foi errado tentar se unir a esses democratas burgueses? Para responder a essa pergunta, é preciso primeiro fazer uma distinção entre unir-se a eles e contar com eles. Essas forças de classe têm, de fato, uma séria contradição com o imperialismo e, dependendo da situação, muitas vezes podem ser unidas no esforço para expulsar o imperialismo. Mas se dependermos totalmente delas, como Guevara pretendia fazer, a revolução, sem dúvida, refletirá seus interesses de classe, que são essencialmente os sonhos de uma burguesia oprimida e aspirante a dominar o mercado nacional, etc., e desenvolver o país como um país capitalista autônomo e integral. Mesmo quando o partido consegue reunir o proletariado e forjar a aliança operário-camponesa como a espinha dorsal e a base do movimento revolucionário, os problemas apresentados pelas seções revolucionárias da burguesia nacional - como se unir na medida do possível sem sacrificar de forma alguma a integridade do programa do partido comunista, como estabelecer a base para o futuro avanço ao socialismo dentro do estágio de uma revolução de nova democracia, como reunir a força independente necessária (política e militar) para mais ou menos "forçar" essas seções a "deixar" o proletariado liderar - têm sido mais do que um pouco complexos. De fato, na maioria das vezes, isso foi resolvido seguindo a burguesia nacional. (Com Debray e Guevara, apesar da frase "de esquerda", essa perseguição continuou, como discutiremos em breve). Isso, conforme observado anteriormente, enfatiza ainda mais a necessidade de um partido ideologicamente sólido. Guevara tentou contornar esse problema com uma mistura de dois em um dos estágios de nova democracia e socialista da revolução e com um ataque aparentemente de esquerda às burguesias nacionais. A revolução teria de ser pelo socialismo desde o início, declarou Debray em seu livro, e teria de romper com a noção de que a burguesia nacional tinha algum papel a desempenhar contra o imperialismo. Mas que visão do socialismo estava sendo apresentada aqui? Essencialmente o socialismo goulash popularizado por Khrushchev, o apelo aos trabalhadores para que apoiassem um regime que lhes proporcionasse - ou pelo menos prometesse - certos benefícios econômicos e reformas sociais em troca de passividade política. O modelo era Cuba, onde, mesmo no auge dos "incentivos morais", o próprio Guevara estava prometendo um padrão de vida comparável ao da Suécia no final dos anos 60 - se apenas as massas trabalhassem voluntariamente agora. Porém, o mais importante é que essa visão do socialismo foi projetada para atrair uma parte da pequena burguesia nacional, na qual eles se tornariam os controladores de um enorme setor estatal. Mais uma vez, isso aconteceu em Cuba (especialmente durante o período em que os veteranos do 26 de Julho compartilhavam o poder com o aparato do PC; depois do desastre dos Dez Milhões de Toneladas, o PC tornou-se totalmente dominante, e muitos dos chamados experimentos de Cuba, nos quais a pequena burguesia foi "colocada de cabeça para baixo", foram encerrados). (Debray, por sua vez, tentou redefinir essas forças a partir da burguesia e da pequena burguesia, afirmando em vários momentos que a participação na guerra de guerrilha, por si só, dissolvia as diferenças de classe, etc.) O direitismo dessa fórmula também se manifesta na tentativa de contornar o novo estágio democrático da revolução, com seu forte componente antifeudal. Em Cuba, o setor estatal assumiu e administrou diretamente a grande maioria das grandes fazendas logo após a revolução e, logo em seguida, passou a assumir a maioria das fazendas de médio porte. Isso foi proclamado pelos admiradores de Debray e Guevara como o programa fundiário mais radical da história; na verdade, a mudança no conteúdo da agricultura cubana foi pouco mais do que formal: os trabalhadores rurais tinham um chefe diferente que lhes dizia quando e como colheriam o açúcar, e a maior parte da colheita seria enviada para a União Soviética em vez de para os EUA. O proletariado rural e o campesinato não foram liberados para, passo a passo, arrancar, superar e transformar as relações e o legado do imperialismo, limpando o terreno e reestruturando totalmente a agricultura; eles foram instruídos e, mais tarde, forçados a trabalhar mais. Conforme mencionado anteriormente, o legado do imperialismo nas nações oprimidas não pode ser reduzido a algo tão simples (e tão enraizado na distribuição) como a troca desigual. Ele se estende à própria estrutura da agricultura, incluindo o que é produzido, às formas pelas quais o feudalismo foi transformado (a serviço do capital financeiro) e aos elementos nada insignificantes do feudalismo que foram mantidos (novamente a serviço do capital financeiro). Nessas situações, pode muito bem ser necessário dar um passo para trás para realmente avançar, passar de grandes fazendas estatais ou corporativas para algumas (inicialmente) propriedades de menor escala nas mãos dos camponeses e dos trabalhadores rurais recentemente proletarizados como parte de um plano geral para romper a agricultura com os padrões e a estrutura da dominação imperialista e conduzir o campesinato pelos estágios de cooperação, coletivização e, finalmente, propriedade estatal, em uma base qualitativamente diferente. No entanto, isso só pode ser feito por um campesinato politicamente desperto, liderado por um proletariado forte e consciente, com uma vanguarda forte. E isso - a reestruturação completa da agricultura longe da dominação imperialista, o despertar político do campesinato e, ainda mais, o fortalecimento da liderança do proletariado e de seu partido - é um anátema para os guevaristas. Assim, quanto à questão da união com a burguesia nacional, a resposta deve ser que, embora a base exista devido ao antagonismo entre seções dela e o imperialismo, isso só pode ser feito com sucesso quando o proletariado tiver clareza de que essa unidade traz consigo a luta por muitas questões fundamentais dos objetivos, da direção e da estratégia da revolução, em cada estágio da revolução. Com relação aos revisionistas e à tentativa de se unir a eles: essa é uma questão complexa, mas há princípios revolucionários claros que o guevarismo atropela no interesse de sua união com o revisionismo. Os partidos revisionistas representam diretamente os interesses dos imperialistas (especificamente o social-imperialismo) dentro das fileiras do movimento revolucionário. Isso os torna (diferentemente da burguesia nacional) não potencialmente parte das forças populares do novo estágio democrático da revolução liderada pelo proletariado, mas sim parte do inimigo desse estágio. Assim, eles não podem de forma alguma ser considerados aliados estratégicos e, certamente, a fusão imaginada por Debray está errada em qualquer caso. No entanto, como na maioria das vezes é verdade que nos países coloniais e dependentes a luta revolucionária deve ser dirigida, em um sentido imediato, contra uma potência ou bloco imperialista e seus agentes, uma certa forma de aliança pode, às vezes, ser necessária. Isso é mencionado nos Princípios Básicos para a Unidade dos Marxistas-Leninistas e para a Linha do Movimento Comunista Internacional: Em certas condições específicas, particularmente, por exemplo, quando uma potência imperialista (ou bloco) realmente realiza uma invasão e tenta ocupar um determinado país colonial ou dependente, pode ser necessário e correto não apenas direcionar a ponta de lança da luta contra essa potência (ou bloco) em particular, mas até mesmo aliar-se ou, pelo menos, procurar neutralizar - "deixar de lado" - certas forças reacionárias domésticas que são dependentes e servem a outros imperialistas (em particular, o bloco imperialista rival). No entanto, os Princípios Básicos continuam imediatamente a enfatizar que ... nesses casos, é ainda mais importante expor a natureza e os interesses de classe e as conexões imperialistas de tais forças; combater e derrotar resolutamente sua traição na luta e, particularmente, suas tentativas de suprimir as massas; insistir e estabelecer por meio da luta o papel de liderança do proletariado e a independência e iniciativa de seu partido; Continuar a política de recusar-se a se unir ou apoiar qualquer potência ou bloco imperialista; e ter claramente em mente e liderar o proletariado e as massas populares em direção à meta de vitória não apenas no estágio (ou subestágio) imediato, mas na revolução democrática anti-imperialista como um todo e, por meio dela, na revolução socialista, em unidade com o proletariado internacional e a luta mundial. (RCP do Chile e RCP dos EUA, 1981, p. 43) Mas essas são exatamente as questões - o caráter da situação internacional, o caráter de classe da União Soviética, as tarefas da revolução em relação ao imperialismo, a análise de classe da nação, um esboço da relação entre os dois estágios da revolução - com as quais é preciso ter um partido comunista com uma base ideológica clara e sólida para lidar. A linha guevarista sobre o partido e, em particular, a oposição obstinada à luta por princípios básicos - princípios que colocam o marxismo revolucionário contra o revisionismo - representou uma tentativa de abortar o processo necessário de encontrar respostas para essas questões. Eles tinham, é claro, suas próprias respostas - especificamente, sua aliança com os PCs revisionistas e seções da burguesia nacional para transferir o país, por meio da luta armada, para o campo soviético - mas não estavam dispostos a colocá-las claramente, para não desencadear a própria luta ideológica que desejavam evitar e expulsar algumas das forças democráticas radicais mais ingênuas e/ou honestas de seu campo. Em suma, o guevarismo não era e não é uma maneira diferente de combater a guerra popular: é uma estratégia que se opõe à guerra popular e, além disso, se opõe ao tipo de revolução necessária nas nações oprimidas. A Declaração do Movimento Internacionalista Revolucionário resume tanto a essência dessa revolução quanto sua relação com a estratégia da guerra popular: O alvo da revolução em países desse tipo é o imperialismo estrangeiro e a burguesia comprador-burocrata e os feudais, que são classes intimamente ligadas ao imperialismo e dependentes dele. Nesses países, a revolução passará por dois estágios: um primeiro, a revolução de nova democracua, que leva diretamente ao segundo, a revolução socialista. O caráter, o objetivo e as tarefas do primeiro estágio da revolução permitem e exigem que o proletariado forme uma ampla frente unida de todas as classes e camadas que possam ser conquistadas para apoiar o programa da nova democracia. No entanto, ele deve fazer isso com base no desenvolvimento e no fortalecimento das forças independentes do proletariado, incluindo, nas condições apropriadas, suas próprias forças armadas e estabelecendo a hegemonia do proletariado entre as outras seções das massas revolucionárias, especialmente os camponeses pobres. A pedra angular dessa aliança é a aliança operário-camponesa, e a realização da revolução agrária (ou seja, a luta contra a exploração semifeudal no campo e/ou o cumprimento do slogan "terra para o agricultor") ocupa uma parte central do programa da nova democracia. Nesses países, a exploração do proletariado e das massas é severa, os ultrajes da dominação imperialista são constantes, e as classes dominantes geralmente exercem sua ditadura de forma nua e crua e, mesmo quando utilizam a forma democrático-burguesa ou parlamentar, sua ditadura é apenas muito pouco velada. Essa situação leva a frequentes lutas revolucionárias por parte do proletariado, dos camponeses e de outros setores das massas, que muitas vezes assumem a forma de luta armada. Por todas essas razões, incluindo o desenvolvimento desequilibrado e distorcido nesses países, que muitas vezes dificulta que as classes reacionárias mantenham um governo estável e consolidem seu poder em todo o Estado, é comum que a revolução assuma a forma de uma guerra revolucionária prolongada, na qual as forças revolucionárias conseguem estabelecer áreas de base de um tipo ou de outro no campo e executar a estratégia básica de cercar a cidade pelo campo (RIM, 1984, p. 31) O guevarismo, no entanto, tem como princípio evitar a mobilização do campesinato e despreza a capacidade de luta do proletariado. A aliança de classe que ele busca reunir e na qual se apoia consiste naqueles mobilizados sob a bandeira dos revisionistas e dos democratas burgueses radicais. Os guevaristas não realizam a revolução agrária no campo nem atraem o proletariado para a luta sobre as questões fundamentais da época, de modo a transformá-lo na classe dirigente; em vez disso, há apenas o esquema para chegar rapidamente ao poder e tomar as rédeas de um setor estatal (capitalista) em rápida expansão, em nome do povo. Seu internacionalismo, no fim das contas, consiste em apelar para as aspirações revolucionárias das massas apenas para utilizá-las como bucha de canhão para o lado soviético no conflito interimperialista entre os dois blocos. (No caso do próprio Che, tratava-se de tentar moldar o movimento revolucionário do ponto de vista dos estreitos interesses nacionais cubanos). A revolução que ele promete não é revolução alguma - não, pelo menos, no sentido de uma mudança fundamental nas relações sociais - mas é, no máximo, a instituição de algumas reformas sob a égide soviética. E, de acordo com tudo isso, as tarefas da própria vanguarda de liderar as massas para refazer conscientemente toda a sociedade, não apenas para derrubar os capitalistas, mas para avançar para a revolução contínua sob a ditadura proletária e a transição para o comunismo, são negadas. Em seu lugar, é colocada a vontade de um pequeno grupo, apoiada pelo patrocínio de uma grande potência imperialista. Epílogo boliviano A teoria de Debray, Guevara e Castro encontrou expressão na Bolívia, logo após a publicação de Revolution Within the Revolution? Um núcleo de bolivianos, simpatizantes da linha guevarista, começou em 1966 a estabelecer uma base guerrilheira na região montanhosa do país e, no outono daquele ano, Guevara, juntamente com vários membros do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, chegou à Bolívia. O plano era recrutar bolivianos para a força e treinar argentinos e peruanos por meio da prática da batalha para formar os núcleos dos focos em seus países. A esperança era desenvolver uma insurgência na Bolívia e, em um prazo mais ou menos curto, partir dali para os países vizinhos. Como se sabe, o projeto foi um desastre quase total. O foco guerrilheiro foi derrotado depois de seis meses no campo, perseguido e caçado pelos Rangers bolivianos treinados e dirigidos pela CIA, com apenas um único confronto. O foco estava preocupado com a luta pela comida e pelo abrigo e, em fevereiro, Guevara estava anotando com pesar em seu diário as brigas por comida no acampamento e o colapso moral de alguns dos principais homens do PC cubano. Enquanto isso, o diário de Guevara não registrava quase nenhuma discussão ou educação política entre o foco e nenhum pensamento político seu durante toda a campanha. Em abril, Debray, que estava com o foco, julgou ser a melhor parte da coragem deixar as tropas para organizar apoio na Europa. Capturado quase que imediatamente, ele, que tão alegremente rotulava os revolucionários de "renegados", revelou informações aparentemente úteis às autoridades sobre a natureza do foco ("o francês fala mais do que o necessário", observou Guevara em seu diário). Em junho, a Bolívia foi assolada por uma crise política. Os mineiros de estanho entraram em greve e, em 24 de junho, o exército entrou em ação para ocupar as minas. O confronto resultante deixou cerca de 100 mineiros mortos e deixou a Bolívia em polvorosa, especialmente nas cidades e nos camposs. Em uma declaração aos mineiros, Guevara chamou a ação do exército de "vitória completa" e conclamou os mineiros a comparecerem ao foco. Embora possa não ter sido errado fazer esse apelo (supondo, por um momento, que o exército guerrilheiro tenha sido guiado por uma orientação e uma linha basicamente corretas em sua luta), o que estava faltando era uma compreensão de como utilizar a crise política que assolava o governo boliviano, como levar adiante e desviar para o movimento revolucionário o que havia eclodido entre as massas. De qualquer forma, apesar da simpatia generalizada pelo foco, o levante e o próprio foco permaneceram em dois caminhos diferentes. Nenhum boliviano se apresentou para participar. Durante todo o verão, o foco esteve repleto de doenças, deserções e mortes por acidente e fogo inimigo. Em outubro, Guevara foi capturado e depois assassinado sob custódia, aparentemente sob a supervisão de um homem da CIA. Essa derrota não pode e não prova, por si só, que a linha de Guevara era fundamentalmente incorreta. Nenhuma teoria política pode se erguer ou cair com base em uma única experiência prática e, além disso, pode-se argumentar de forma plausível que a Bolívia não representa o melhor caso de guevarismo e que, em vez disso, é preciso olhar para Cuba. Embora isso possa ser verdade, a experiência boliviana contém, no entanto, algumas lições importantes. Primeiro, ela mostra que a visão de Guevara sobre a guerra insurrecional dependia da relação complicada que ele estava tentando estabelecer com o PC revisionista (e, por fim, com a União Soviética). Os cubanos nunca informaram ao PC boliviano que o próprio Guevara desembarcaria na Bolívia para comandar um movimento de libertação nacional. Em vez disso, no início de 1966, Castro se reuniu com seu líder, Mario Monje, para sondá-lo sobre as perspectivas de uma luta de libertação nacional e lhe deu US$ 25.000 com a promessa bastante vaga de iniciar os preparativos. Evidentemente, a esperança era comprar a concordância de Monje para fornecer uma espécie de rede de apoio urbano e permitir que os quadros se juntassem aos guerrilheiros. Quando Monje foi finalmente informado oficialmente da presença de Guevara, em uma reunião de Ano Novo no acampamento da guerrilha em 1967, ele se recusou a cooperar a menos que Guevara entregasse o comando a ele, Monje. Quando esse apoio não veio, Guevara literalmente não tinha mais a quem recorrer [†††]. O segundo ponto, e relacionado a ele, diz respeito à visão guevarista em relação às massas. Guevara entrou na Bolívia em novembro de 1966 para iniciar os preparativos diretos para a guerra de guerrilha. Mas ele concebeu essa preparação apenas em termos de aprendizado do terreno físico, escavação de cavernas e preparação de esconderijos, longas marchas de treinamento, etc. Nenhum estudo real da Bolívia foi realizado, nem mesmo a análise de classe mais rudimentar foi feita. As massas estavam tão completamente ausentes de seus cálculos que até mesmo o curso superficial dado aos guerrilheiros no idioma quechuan era inútil, já que os índios da região falavam um idioma totalmente diferente do quechuan! E, embora o terreno não deixe de ser importante, o principal (como Mao sempre observou, e como a experiência cubana, de fato, testemunhou) é o caráter político de uma área - o nível de compreensão e experiência de luta das massas, a estabilidade política dos governantes locais e outros fatores semelhantes. No fim das contas, até mesmo o terreno físico era militarmente desfavorável para os guerrilheiros, o que, por si só, é um testemunho amargo dos problemas de uma abordagem puramente militar da revolução, mesmo em assuntos militares. Sob esse ponto de vista, os analistas que atribuem o ar quase palpável de depressão nos diários de Guevara ao seu fracasso em reunir as massas provavelmente estão lendo suas próprias suposições. Nos próprios diários, a preocupação é muito mais com a desmoralização das tropas; as massas dificilmente são mencionadas. E, em minha opinião, é à medida que o sucesso de Monje em reter o apoio se torna claro que a quase total falta de direção e de élan começa a se afirmar nos escritos de Guevara. Esses pontos indicam uma diferença fundamental entre a derrota de Guevara na Bolívia e as tentativas genuínas de lançar uma guerra popular durante esse período, muitas das quais também foram derrotadas. Ao contrário de Guevara, essas outras forças estavam indo diretamente contra o revisionismo - ideologicamente, politicamente, organizacionalmente e (muitas vezes) militarmente - e tentando levar as massas a fazer uma revolução que se oporia a ambos os blocos imperialistas. Guevara, conforme observado anteriormente, dava importância ao uso dos movimentos revolucionários para levar os soviéticos a uma posição mais "revolucionária" (leia-se: mais agressivamente imperialista); suas diferenças com os soviéticos eram, no máximo, táticas. As forças genuinamente marxistas-leninistas que seguiram Mao, por outro lado, pegaram em armas para livrar o mundo de todo o imperialismo, independentemente de suas embalagens políticas. Além disso, e novamente em contraste com Guevara, essas outras tentativas mobilizaram genuinamente as massas, elevando sua consciência política e levando-as a começar a erradicar as relações retrógradas sustentadas e geradas pela dominação imperialista. Em outras palavras, as próprias massas foram reunidas e convocadas para assumir conscientemente o palco político, com as armas na mão. Por todas essas razões, independentemente de suas deficiências, as tentativas maoístas de travar a guerra popular naquele período se enquadram em um campo qualitativamente diferente da aventura guevarista na Bolívia. A Declaração observa que: Em vários países, as forças marxistas-leninistas conseguiram reunir setores consideráveis da população em torno da bandeira revolucionária e manter o partido marxista-leninista e as forças armadas das massas, apesar da selvagem repressão contrarrevolucionária. Era inevitável que essas tentativas iniciais de construir novos partidos marxistas-leninistas e de lançar a luta armada fossem marcadas pela primitividade e que as fraquezas ideológicas e políticas se manifestassem, e não é de surpreender, é claro, que os imperialistas e os revisionistas se aproveitassem desses erros e fraquezas para condenar os revolucionários como "ultraesquerdistas" ou coisa pior. No entanto, essas experiências devem, em geral, ser mantidas como uma parte importante do legado do movimento marxista-leninista, que ajudou a estabelecer a base para novos avanços. (RIM 1984, 34) * * * * * Os soviéticos marcaram a derrota de Guevara sem comentários, ao mesmo tempo em que liberaram as partes sob seu domínio para se vangloriarem (os húngaros, por exemplo, chamaram todo o caso de "patético"). Para eles, a morte de Guevara trouxe uma série de benefícios. Por um lado, fortaleceu a mão dos partidos revisionistas da velha linha; na esteira da Bolívia, deve-se notar, a estratégia soviética de "compromisso histórico" - resumidamente, a tentativa de conquistar um ponto de apoio em estados na esfera de influência dos EUA penetrando nas coalizões dominantes do governo como parceiros subordinados - veio à tona na América Latina. O golpe peruano de 1969, no qual os soviéticos ganharam influência por meio de laços importantes com os militares, e a eleição de Salvador Allende no Chile em 1970, marcada pelas manobras do PC chileno dentro do novo governo, foram promovidos como novos exemplos para a América Latina, e por ninguém menos que o próprio Castro. Quanto a Castro, sua visão real da missão de Guevara é questionável. Alguns afirmam que ele armou uma cilada para Guevara e citam o fato de ele não ter anunciado a presença de Guevara na Bolívia, apesar do que Guevara parecia pensar (em seus diários) que eram planos pré-estabelecidos para isso. Também é possível que Castro tenha percebido logo no início que o esquema de Guevara estava caminhando para o fracasso e não viu sentido em expor Cuba ao que ele temia que pudesse ser uma represália militar dos EUA contra Cuba apoiada pela OEA. De qualquer forma, a derrota na Bolívia marcou o início do fim do breve e falso motim de Castro contra os soviéticos. Em 1968, ele estava dando as boas- vindas à invasão soviética da Tchecoslováquia, em 1969, Cuba estava participando de importantes conferências soviéticas contra a China e, em 1971 - após o fiasco dos Dez Milhões de Toneladas - os soviéticos haviam colocado a economia e o aparato político cubanos em uma situação de quase recuperação judicial. Para as massas revolucionárias, no entanto, só pode haver uma conclusão final: não a rejeição da luta armada (pois as oportunidades para essa luta estão se abrindo ainda mais hoje e o farão em uma escala verdadeiramente sem precedentes nos próximos anos), mas a ruptura com os atalhos ilusórios da liga com o revisionismo. Esses atalhos - e essa é a lição mais nítida do guevarismo - são atalhos apenas para uma dominação imperialista renovada e reformulada, mas essencialmente semelhante. Referências Bonachea, Rolando E. e Nelson P. Vaidés, orgs. 1969. Che: Selected Works of Ernesto Guevara. Cambridge, MA: MIT Press. Debray, Régis. 1967. 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[Debray, é claro, não mantém mais as posições que expôs em seu livro. No entanto, como é a exposição mais concentrada e influente do guevarismo, grande parte desta polêmica necessariamente abordará os argumentos de seu livro, Revolution in the Revolution? Observamos, de passagem, que o Sr. Debray atualmente atua como uma figura importante no regime de Mitterrand - tendo viajado recentemente à Nicarágua para "expressar preocupação com as violações do processo democrático pelo governo sandinista" em nome do Sr. Mitterrand. O último livro de Debray é uma celebração do papel progressista do nacionalismo francês no mundo atual. [Em outro lugar, Debray menciona de passagem a mobilização militar do campesinato colombiano durante "La Violencia", a sangrenta guerra quase civil do final dos anos 40 e início dos anos 50, e se refere em outro ponto ao levante indígena original contra os espanhóis no Peru, liderado por Tapac Amaru II. Mas até mesmo esses exemplos solitários são descartados de forma unilateral, mostrando a inadequação da guerra camponesa à libertação na América Latina, uma vez que, obviamente, não levaram à emancipação. [‡] Essas transformações levaram alguns - inclusive alguns dos neoguevaristas atuais - a afirmar que a agricultura é agora quase inteiramente capitalista na América Latina e a apresentar esse fato como mais um argumento contra a guerra revolucionária baseada no campesinato. Nem Debray nem Guevara levantaram esse argumento específico, embora traços dele possam ser vistos no livro de Debray. O caráter direitista dessa linha aparece ao vincular a negação das relações feudais e/ou semifeudais à oposição direta à guerra revolucionária das massas no campo, quando elas a empreendem; veja, por exemplo, "Capitalist Democracy in Peru", de Petras, Morely e Havens, na New Left Review no 142, em que os autores atacam a luta armada liderada pelo Partido Comunista do Peru por "restringir as oportunidades da esquerda e [talvez levar] a uma tomada militar, independentemente do desdém popular pelas forças armadas". [O idealismo subjetivo sustenta que as ideias ou crenças do indivíduo dão origem à realidade material ou, em geral, determinam mais o caráter dessa realidade do que vice-versa. Embora as ideias desempenhem um papel poderoso e possam ser transmutadas em uma força material poderosa, isso se baseia na medida em que elas refletem a realidade objetiva e elucidam as leis subjacentes que determinam seu movimento e desenvolvimento. [Hoje, na América Latina, ele também é visto por esses revisionistas como um prelúdio ou posicionamento para negociações sobre o compartilhamento de poder com vários governos neocoloniais ligados aos EUA.