Eu estava comentando lá no Digestivo Cultural (o que raramente faço) quando me deparei como seguinte comentário, responde à pergunta a respeito de qual seria a opinião dos leitores sobre os "polemistas" de hoje em dia:
Talvez Gerald Thomas
Além de mim, polemista radical que vive em crise consigo mesmo, tudo em razão da tendência para discordar das próprias decisões, talvez Gerald Thomas tenha vez. Outro não vejo, pois, no Brasil de hoje, acho que por covardia, prefere-se o politicamente correto. Sim, claro, apenas para inglês ver, que por debaixo dos panos o bicho pega. [Nova Iguaçu - RJ]
por Miguel Accacio 189.106.31.237
12/2/2009 às 09h10
(+) Miguel Accacio no Digestivo...
O questionamento surgiu a propósito do relançamento do livro de entrevistas de Oswald, Os Dentes do Dragão. Júlio Daio Borges resenhou mais ou menos satisfatoriamente o livro. Eu só divirjo de dois pontos:
1) Quando Oswald apoiou Prestes, a escolha parecia lúcida (no contexto). Visto agora -- e depois da avaliação dura e honesta que Oswald fez de Prestes -- vemos o quanto Prestes errava. Depois de 45, por exemplo, deixou de ser candidato a presidente da república, deixando a chance para um tal Yedo Fiúza! Nunca mais teve chance igual.
2) Oswald não polemizou somente com pessoas hoje desconhecidas. Polemizou com Mário de Andrade, José Lins do Rego, Ledo Ivo, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Nelson Rodrigues, dentre outros. As qualificações que eles levaram são hilárias e impagáveis. Mário de Andrade foi chamado de "um Oscar Wilde, por detrás", que estava caminhando "errado com gente atrás". José Lins de "búfalo do nordeste" responsável por um "ciclo da bagaceira". Ledo Ivo foi chamado de "chulé Apolo", Guilherme de Almeida, "Marquesa de Santos", Nelson Rodrigues seria um moralista de fachada, um "convento do Aretino" e que seria duro acompanhar a queda dos "discos-voadores de besteira" que eram suas peças; Graça Aranha seria uma "Aranha sem Graça".
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Saco do Estado de Minas, Propagandas, Nietzsche, Breuer, Sex Chocolate Factory, etc.
Eu gostaria de montar uma peça inspirada na Chocolate Factory, livro infantil tornado sucesso graças a dois filmes. Seria Chocolate Factory para adultos. Seria perfeita para esse nosso tempo de crise: os empregados falariam sobre a possibilidade de serem mandados embora, por exemplo. O público seria seduzido com o queijo Minas e o doce de leite exsudando de falos e vaginas, podendo também interagir e chupar pirulitos e chupetas eróticas, enquanto o subtexto seria essa nossa nova depressão sinistra. Um misto de Abu Ghraib e Beto Carrero World, Guantánamo & Disney.
E uma cena seria especialmente interessante: os participantes brasileiros poderiam marcar seus próprios corpos com chocolate quente, com símbolos a escolher. Um cara vestido de conde Drácula ficaria servindo mapas da Suíça em forma de chocolate. Os brasileiros comeriam ao som de Taí, eu fiz tudo para você gostar de mim, vestidos de corvos ou de ovelhas negras. Tudo seria filmado e televisionado para a Suíça, para que eles possam viver sua purgação, sua encenação, seu novo affaire Dreyfus.
Há muito gostaria de comentar duas propagandas: uma é do Estado de Minas. Um cara vestido de saco comenta: eu até que tinha conteúdo, mas eu era um saco (e ele aparece com saco de papel na cabeça). Depois ele assina Estado de Minas e passa a ter contato com as novidades dos times mineiros e outras mineiridades. Mas ele continua a ser um saco! Estado de Minas, dê no saco! Diplomas não servem para nada: escrevi na Cult, caderno Pensar do Estado de Minas, Revista Discutindo Filosofia, etc. Tudo de graça. Muito obrigado a todos pela oportunidade: obrigado João Paulo, Dayse Bregantini, Mariana Berger, isso não é uma crítica, é só uma reflexão: gostaria de viver, também, de brisa.
A outra propaganda é de cerveja. Nela, o cara fantasia se as mulheres fossem diferentes...e daí elas passam a se comportar como...homens. Ah, se as mulheres fossem homens, é a mensagem que ficou no final da propaganda. É como um texto que fiz a partir do Miramar do Oswald. Num diálogo, o poeta parnasiano Fíleas comenta a respeito da personagem Rolah: "-Ah, se todos os homens e mulheres do mundo possuíssem Rolah!"
Estou lendo Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom. Ele imagina o encontro entre Joseph Breuer e Friedrich Nietzsche, romanceando o encontro (que na realidade não ocorreu no final do século XIX) entre a filosofia nietzschiana e a psicanálise. Num dado momento, Nietzsche fala para Breuer, invertendo os termos e virando o terapeuta, algo como: vocês judeus reprimem sua raiva, pois para os judeus, reprimir a raiva é questão de sobrevivência. Breuer, por sua vez, nota que o tom de Nietzsche era belicoso e estridente e pergunta para quê gritar, se sua personalidade mesmo era suave e cavalheiresca, em contraste.
E uma cena seria especialmente interessante: os participantes brasileiros poderiam marcar seus próprios corpos com chocolate quente, com símbolos a escolher. Um cara vestido de conde Drácula ficaria servindo mapas da Suíça em forma de chocolate. Os brasileiros comeriam ao som de Taí, eu fiz tudo para você gostar de mim, vestidos de corvos ou de ovelhas negras. Tudo seria filmado e televisionado para a Suíça, para que eles possam viver sua purgação, sua encenação, seu novo affaire Dreyfus.
Há muito gostaria de comentar duas propagandas: uma é do Estado de Minas. Um cara vestido de saco comenta: eu até que tinha conteúdo, mas eu era um saco (e ele aparece com saco de papel na cabeça). Depois ele assina Estado de Minas e passa a ter contato com as novidades dos times mineiros e outras mineiridades. Mas ele continua a ser um saco! Estado de Minas, dê no saco! Diplomas não servem para nada: escrevi na Cult, caderno Pensar do Estado de Minas, Revista Discutindo Filosofia, etc. Tudo de graça. Muito obrigado a todos pela oportunidade: obrigado João Paulo, Dayse Bregantini, Mariana Berger, isso não é uma crítica, é só uma reflexão: gostaria de viver, também, de brisa.
A outra propaganda é de cerveja. Nela, o cara fantasia se as mulheres fossem diferentes...e daí elas passam a se comportar como...homens. Ah, se as mulheres fossem homens, é a mensagem que ficou no final da propaganda. É como um texto que fiz a partir do Miramar do Oswald. Num diálogo, o poeta parnasiano Fíleas comenta a respeito da personagem Rolah: "-Ah, se todos os homens e mulheres do mundo possuíssem Rolah!"
Estou lendo Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom. Ele imagina o encontro entre Joseph Breuer e Friedrich Nietzsche, romanceando o encontro (que na realidade não ocorreu no final do século XIX) entre a filosofia nietzschiana e a psicanálise. Num dado momento, Nietzsche fala para Breuer, invertendo os termos e virando o terapeuta, algo como: vocês judeus reprimem sua raiva, pois para os judeus, reprimir a raiva é questão de sobrevivência. Breuer, por sua vez, nota que o tom de Nietzsche era belicoso e estridente e pergunta para quê gritar, se sua personalidade mesmo era suave e cavalheiresca, em contraste.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Paula e o espírito de manada, O Grande Inquisidor, etc
Eu estou acompanhando, interessado, as novidades do caso Paula. Li uma entrevista inacreditável com o pai de Paula, dopado, em estado de choque, sendo atacado por questionamentos apimentados, crivado de perguntas por um jornalista implacável...
Foi um show. Um advogado chumbado de remédios enfrenta o Grande Inquisidor. A mídia brasileira deu a notícia do ataque dos neonazistas a Paula em tom de denúncia para o governo fazer alguma coisa. O governo fez, mas agora a coisa se voltou contra ela. E tudo são os anônimos que fazem: uma anônima passa um ultrassom falso para a Época, um anônimo dedura numa revista suíça que Paula já confessou a auto-flagelação (!). É preciso tirar Paula de lá. Mas aqui, a imprensa furiosa quer um desmascaramento. Quer retirar a confissão de Paula, ao som dos úteros em fúria do solo da mãe cruel. Paula, em meio a uma queda de braço entre os que apoiam a política exterior do governo e os que não apoiam, entre o "partido do povo suíço" e a dura verdade: o SVP é ligado a neonazistas. Um cartaz contra o asilo político aos imigrantes, numa foto, trazia a seguinte pichação: "Asilo para Blocher no Terceiro Reich". E a sigla SVP fora pichada. Será que eles prenderam a Pivetta?
E cadê os skinheads de Zurique? Neonazistas, zuruck! Eles agora são fantasmas que ficaram invisíveis. Por que me ufano do meu chocolate com cruz gamada? Porque o cacau é da Bahia?
Agora a Paula, por ter aplicado o "golpe da barriga" na imprensa do Brazyl e do mundo, virou uma das górgones. As górgones da mídia: Medusa, Megera, Medéia e a Mocréia da Paula...
Será que o bispo católico-fascista-barroco argentino acredita que morreram somente cem mil judeus mesmo? Ele deve achar que quem diz que foram seis milhões é que são delirantes. O mundo está em delírio, deve pensar ele, precisamos discutir os números da morte. E por que Bento XVI se apressa em perdoar? Será que ele também gosta de pensar que "é puro ecstasy", como canta o Skankamlet, aliás uma forte maconha sueca...Minas deve bem sucedido grupo musical à maconha escandinava e eles nos devem a revolução industrial inglesa, como via Marx no porto de Liverpool em Das Kapital.
O temor dos conservadores tem fundamento: a shoah pode ser posta na conta do capitalismo imperialista. Foi extensamente documentada, filmada. Isso foi essencial. O Gulag soviético não deixou quase nenhum registro imagético. Numa sociedade que exige registros imagéticos, o Gulag e os massacres stalinistas não possuem o mesmo peso. Os soviéticos não queimaram o filme...Tem gente que garante que o holocausto é tudo fake, tudo uma gigantesca "instalação" coletiva judaico-alemã. Será então que o que a Paula fez foi "body-art"?
E Nietzsche pende como uma bisteca no azougue existencial. O Brasil vira um falo-estaca no coraçao do Vampiro da falta lacaniana/calligariana. Nas escolas de samba, conflitos entre travestis e homens fazem nascer um terceiro banheiro. O terceiro sexo? Banheiro transgêneros? Se fossem conflitos entre brancos e negros e se criasse o banheiro dos negros e mestiços, diriam: já começou a segregação. Mário de Andrade dizia: "I´ll never be in color line land..."
Eu gostaria de entrevistar o Alberto Dines dopado e depois de ver umas cem horas de filmes sobre a shoah num quarto branco, para citar as sacanagens que Boninho & Bial estão fazendo com os participantes do Big Bode Brasil Nove.
Foi um show. Um advogado chumbado de remédios enfrenta o Grande Inquisidor. A mídia brasileira deu a notícia do ataque dos neonazistas a Paula em tom de denúncia para o governo fazer alguma coisa. O governo fez, mas agora a coisa se voltou contra ela. E tudo são os anônimos que fazem: uma anônima passa um ultrassom falso para a Época, um anônimo dedura numa revista suíça que Paula já confessou a auto-flagelação (!). É preciso tirar Paula de lá. Mas aqui, a imprensa furiosa quer um desmascaramento. Quer retirar a confissão de Paula, ao som dos úteros em fúria do solo da mãe cruel. Paula, em meio a uma queda de braço entre os que apoiam a política exterior do governo e os que não apoiam, entre o "partido do povo suíço" e a dura verdade: o SVP é ligado a neonazistas. Um cartaz contra o asilo político aos imigrantes, numa foto, trazia a seguinte pichação: "Asilo para Blocher no Terceiro Reich". E a sigla SVP fora pichada. Será que eles prenderam a Pivetta?
E cadê os skinheads de Zurique? Neonazistas, zuruck! Eles agora são fantasmas que ficaram invisíveis. Por que me ufano do meu chocolate com cruz gamada? Porque o cacau é da Bahia?
Agora a Paula, por ter aplicado o "golpe da barriga" na imprensa do Brazyl e do mundo, virou uma das górgones. As górgones da mídia: Medusa, Megera, Medéia e a Mocréia da Paula...
Será que o bispo católico-fascista-barroco argentino acredita que morreram somente cem mil judeus mesmo? Ele deve achar que quem diz que foram seis milhões é que são delirantes. O mundo está em delírio, deve pensar ele, precisamos discutir os números da morte. E por que Bento XVI se apressa em perdoar? Será que ele também gosta de pensar que "é puro ecstasy", como canta o Skankamlet, aliás uma forte maconha sueca...Minas deve bem sucedido grupo musical à maconha escandinava e eles nos devem a revolução industrial inglesa, como via Marx no porto de Liverpool em Das Kapital.
O temor dos conservadores tem fundamento: a shoah pode ser posta na conta do capitalismo imperialista. Foi extensamente documentada, filmada. Isso foi essencial. O Gulag soviético não deixou quase nenhum registro imagético. Numa sociedade que exige registros imagéticos, o Gulag e os massacres stalinistas não possuem o mesmo peso. Os soviéticos não queimaram o filme...Tem gente que garante que o holocausto é tudo fake, tudo uma gigantesca "instalação" coletiva judaico-alemã. Será então que o que a Paula fez foi "body-art"?
E Nietzsche pende como uma bisteca no azougue existencial. O Brasil vira um falo-estaca no coraçao do Vampiro da falta lacaniana/calligariana. Nas escolas de samba, conflitos entre travestis e homens fazem nascer um terceiro banheiro. O terceiro sexo? Banheiro transgêneros? Se fossem conflitos entre brancos e negros e se criasse o banheiro dos negros e mestiços, diriam: já começou a segregação. Mário de Andrade dizia: "I´ll never be in color line land..."
Eu gostaria de entrevistar o Alberto Dines dopado e depois de ver umas cem horas de filmes sobre a shoah num quarto branco, para citar as sacanagens que Boninho & Bial estão fazendo com os participantes do Big Bode Brasil Nove.
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Blackout
Blackout (Magazine, O Tempo, 17/11/99)
Estou compilando alguns textos e encontrei esse recorte de jornal intitulado Blackout (2). Foi uma participação minha na seção blequitude, coluna do poeta e jornalista Ricardo Aleixo.
Ele transcreveu uma carta minha, mandada por e-mail, numa fase em que eu estava particularmente tomado pela influência dos filmes e textos de Glauber Rocha. Ele reproduziu, com muita honestidade, a carta na íntegra, o que me deixou muito feliz:
Meu caro Rick: Pra começo de conversa, que papo é esse de brankolandya? Tomara que você não diga, como o autor de ´From Coal to Cream´, que no Brasil não há democracia racial, pois os EUA é que são um ´melting pot´...um cadinho de raças...Que coisa! Mas se o afro-norte-americano protege os valores nacionais, por que você não faz o mesmo? Por que segue a lógica do mazombismo? Mais respeito com o mestre de Apipucos! Ele realizou o primeiro congresso afro-brasileiro e sua visão incluía a todos. Por falar em exclusão, por que você nunca combateu Paulo Francis, que escrevia aí no jornal? Medo de se indispor com a Casa Grande de Toninho Siúves? Pelo contrário, você se referiu a Paulo Francis como um interlocutor ameno, que confirma o que você diz...Bem que o Glauber dizia que essa coisa de Black Power é o programa do departamento cultural da CIA para o Brasil. Na sua coluna só cabem Caetano, Haroldão, a patota,o ambivalente “Gargalito” e os medalhões de sempre. Cadê os índios e seus festivais na Serra do Cipó, companheiro? Bem que o professor Fábio Lucas falou que essa moda de separar tudo em guetos é só modismo estrangeiro, segmentação de público consumidor...Olha, tá reclamando do Brasil? Tou achando que és agente da ´Blekland Yankee!´.
Logo em seguida, tentei manter contato com o Ricardo, mas ele disse preferir manter distância (entendo suas razões, essa carta foi mesmo agressiva). Em seguida, também, ele citou o professor Fábio Lucas aprovando sua coluna (o Fábio deve ter entrado em contato para dizer que não tinha nada a ver com o ataque e que aprovava o Rick).
Estou compilando alguns textos e encontrei esse recorte de jornal intitulado Blackout (2). Foi uma participação minha na seção blequitude, coluna do poeta e jornalista Ricardo Aleixo.
Ele transcreveu uma carta minha, mandada por e-mail, numa fase em que eu estava particularmente tomado pela influência dos filmes e textos de Glauber Rocha. Ele reproduziu, com muita honestidade, a carta na íntegra, o que me deixou muito feliz:
Meu caro Rick: Pra começo de conversa, que papo é esse de brankolandya? Tomara que você não diga, como o autor de ´From Coal to Cream´, que no Brasil não há democracia racial, pois os EUA é que são um ´melting pot´...um cadinho de raças...Que coisa! Mas se o afro-norte-americano protege os valores nacionais, por que você não faz o mesmo? Por que segue a lógica do mazombismo? Mais respeito com o mestre de Apipucos! Ele realizou o primeiro congresso afro-brasileiro e sua visão incluía a todos. Por falar em exclusão, por que você nunca combateu Paulo Francis, que escrevia aí no jornal? Medo de se indispor com a Casa Grande de Toninho Siúves? Pelo contrário, você se referiu a Paulo Francis como um interlocutor ameno, que confirma o que você diz...Bem que o Glauber dizia que essa coisa de Black Power é o programa do departamento cultural da CIA para o Brasil. Na sua coluna só cabem Caetano, Haroldão, a patota,o ambivalente “Gargalito” e os medalhões de sempre. Cadê os índios e seus festivais na Serra do Cipó, companheiro? Bem que o professor Fábio Lucas falou que essa moda de separar tudo em guetos é só modismo estrangeiro, segmentação de público consumidor...Olha, tá reclamando do Brasil? Tou achando que és agente da ´Blekland Yankee!´.
Logo em seguida, tentei manter contato com o Ricardo, mas ele disse preferir manter distância (entendo suas razões, essa carta foi mesmo agressiva). Em seguida, também, ele citou o professor Fábio Lucas aprovando sua coluna (o Fábio deve ter entrado em contato para dizer que não tinha nada a ver com o ataque e que aprovava o Rick).
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Uma Carta sobre uma Carta
John:
Encontrei a carta da qual te falei há alguns meses atrás. É uma carta de Hemingway para Mary Welsh. A passagem à qual eu me referi foi a seguinte:
Pickle: um sexteto ou octeto de vampiros: Belden, etc. e inclusive Carson, virão para ficar uns vinte minutos e depois irão ao regimento e receberão um relatório dramático e falso que florescerá em suas mãos como uma dessas varas chinesas que se transformam em dragões quando a gente põe água nelas (lembra) mas vivemos aqui -- e eu sou tão temerário que me surpreendo -- e temos que ir ao teatro de marionetes e assustar-nos juntos comodamente. Agora há muito bum-bum. Te amo, meu amor, queridíssimo e amado (...).
Gostaria de saber sua opinião sobre essa carta.
Abraços do Lúcio Jr.
Encontrei a carta da qual te falei há alguns meses atrás. É uma carta de Hemingway para Mary Welsh. A passagem à qual eu me referi foi a seguinte:
Pickle: um sexteto ou octeto de vampiros: Belden, etc. e inclusive Carson, virão para ficar uns vinte minutos e depois irão ao regimento e receberão um relatório dramático e falso que florescerá em suas mãos como uma dessas varas chinesas que se transformam em dragões quando a gente põe água nelas (lembra) mas vivemos aqui -- e eu sou tão temerário que me surpreendo -- e temos que ir ao teatro de marionetes e assustar-nos juntos comodamente. Agora há muito bum-bum. Te amo, meu amor, queridíssimo e amado (...).
Gostaria de saber sua opinião sobre essa carta.
Abraços do Lúcio Jr.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Um Conto: Diário de uma macumba no Brasil
Diário
2/07/01
Albert chegará hoje aqui em casa com dois amigos, Jean-Luc e Bernard. Todos vindos de Toulouse, França. Daqui iremos para Bom Despacho, cidade próxima, onde eles, com formação em antropologia, querem ver a festa de Reinado e visitar um Centro Espírita Umbandista, algo que nós conhecemos como terreiro de macumba. Albert veio rever uma moça que namorou na França, uma franco-brasileira chamada Julie.
3/07/01
Saímos de carro. Jean-Luc foi dirigindo com a carteira francesa mesmo, pois é muita burocracia que existe para traduzir a carteira para o português, além de ser caro. Antes, vamos passar em Congonhas e Ouro Preto. Bernard morou muito tempo em Paris e se considera parisiense. Albert e Jean-Luc detestam Paris. “Lá vive uma super-elite. Paris, “faisse la gorge!”, diz Albert, que seria algo como “Paris, todo mundo com cara de bunda”. Albert não suporta, especialmente, o fato dos parisienses chamarem os demais departamentos de “province”. A discussão entre Paris e province se prolonga interminavelmente e eu fico um pouco à parte na discussão. Para encerrá-la, improvisou um verso com uma canção francesa antiga: “Douce France, Il y a beaucoup de conflits entre Paris et la province”. Bernard ri, os outros ficam sérios. Há muito eu não tinha notícias de Julie, que é filha de um barão francês que se mudou para Belo Horizonte. Agora que Albert chegou, soube que Julie namora Albert e um argentino pelo computador, usando uma tecnologia chamada I seek you. A tecnologia se desenvolve e as fofocas se internacionalizam. Estou lendo um livro de contos chamado L´Exile et le Royaume de Albert Camus.
4/07/01
Ouro Preto foi um caos. Julie disse estar ocupada com um trabalho sobre o português de Cabo-Verde e não nos acompanhou até Ouro Preto. Minha namorada, Ludmila, amiga da Julie, ficou enciumada com minha atenção aos franceses e negou-se a viajar para Bom Despacho, cidade onde ela já foi e detesta, pois a faz lembrar da infância proletária na periferia de uma cidade do interior e de um irmão gay (?). Ela curte filósofos franceses pós-modernos, frente aos quais se sente insegura (Derrida, Deleuze, Barthes), jazz e bossa nova. Albert me alerta que Julie e Ludmila tomam banho juntas e me pede para que as impeça. Eu respondo que não quero brigar com Lúdi, pois já ficamos noivos e desfizemos a relação. Albert se espanta. Eu próprio me espanto em ter continuado a namorar alguém sem projeto, mas Lúdi está tratando uma depressão e eu tenho esperanças que ela melhore. Nesse meio tempo, nosso namoro esfriou. Falar nisso, em Ouro Preto passamos frio e Bernard está espirrando muito e tossindo. A variação de temperatura parece que acabou com ele. Fora que a viagem foi complicada por meu francês: eu confundo as direções. “Droit” é direita, “tout droit” é “em frente”, “gauche”, esquerda. Quando Jean-Luc fala rapidamente, só escuto o “droit?” E ele de fato está me perguntando se devemos ir pela direita, respondo que sim, mas muitas vezes ele quer perguntar é se devemos ir em frente. Com isso, erramos o caminho muitas vezes. Eu nem sabia que havia um show gratuito do Skank em Ouro Preto. O resultado é que nem vimos o show, chegamos atrasados à cidade, no momento exato em que muitos carros, saindo ao mesmo tempo da Praça Tiradentes, quase nos sufocaram com sua fumaça. “Cyclon B”, disse Bernard, referindo-se aos gases tóxicos de Auschwitz. Ele é judeu, sua infância foi no Marrocos, é um pied noir: todos os três o são. Num bar da estrada, peguei um pé de boi preto, um souvenir que eles vendem por aqui e apresentei-lhes: “voici un vrai pied noir”. Rimos. Jean-Luc começa um longo papo sobre a revolta da base de Krondstadt e os bolchevistas. Em Ouro Preto, nos sentamos numa cachaçaria chique. Conversamos somente em francês. Uma mesa de brasileiros ao nosso lado começa a nos criticar. Minutos antes, tolerei sem reclamar um papo nojento que eles estavam tendo, aos gritos, sobre alguém que fez sexo anal e terminou com pedaço de couve envolto no pênis. Voltando a atenção para nós, em voz alta, uma brasileira enfezada comenta que na França eles não falam em português com a gente. “Que complexo de inferioridade nacional mais chato!” comenta Albert, que sabe português, em voz alta. Ouro Preto pesadelo: sem uma cerveja sequer nos bares, sem lugar onde dormir, sem comida, tinha recebido mais gente do que o número total de habitantes. Voltamos a BH, pois o lugar que arranjamos para dormir tinha um teto rebaixado kafkiano e os rapazes não quiseram passar noite de processo.
5/07/01/
Chegamos a Bom Despacho em plena festa do Reinado. Os rapazes tiram fotos, entrevistam os capitães dos grupos que dançam (que aqui são chamados cortes), tudo a muito custo, pois não falam português e eu tenho que ficar como intérprete do francês. Bernard gosta de escutar um cantor francês chamado Bernard Lavillers. O cantor foi caminhoneiro no Brasil e depois virou cantor francês de certo sucesso. Ele diz que Nanard realmente foi muito corajoso em ser caminhoneiro aqui e eu concordo, foi muito gosto pela aventura mesmo. Lavillers descobriu e imitou a bossa nova, pois faz chanson française com influências do jazz. Eu falo com Bernard sobre o Manu Chao, o Lavillers da nossa geração, trazido por um francês chamado Paco Pigalle para tocar até em Belo Horizonte & comer bife de fígado & beber cerveja no Mercado Central. Os rapazes já o conhecem da fama na França: Manu Chao, que antes tocava na Manu Negra, toca no rádio direto na França. Albert me pediu para evitar falar tanto sobre filósofos franceses e que a sociedade francesa é piramidal, não tendo eles acesso ao topo da pirâmide: esses conhecidos são muito elevados. Conto a eles o que ouvi falar sobre o filme Week-end, do Godard. Eu não vi, mas gostaria de ter visto esse filme. Eu comento Romance X, um da Caterine Breillat com Rocco, ator pornô. Albert toma a palavra e me disse que o filme foi ruim, cheio de estereótipos, mas Rocco e a atriz transaram mesmo. Eles dizem que Godard é “abscons” (absconso, obscuro) e não viram Week-end, não. Eu provoco: “Maio de 68 foi o caminho francês para a América?” Eles dizem que não, o fato é que os partidos e sindicatos eram uma merda. E que o Partido Comunista Francês, como não podia dominar a rebelião, não a apoiava. Eu me saio até bem lembrando alguns nomes importantes em 68: Geismar aderiu a um governo recente, Débray virou gaullista, uma vergonha, Cohn-Bendit, um palhaço.
6/07/01
Na manhã seguinte, os rapazes me contam como foi a viagem ao Rio, de onde chegaram há pouco. No caminho para o Corcovado, subiam a pé para ver a vista, mas de repente encontraram, na trilha, um casal transando. Voltaram para trás e deram um tempo. Pouco depois, recomeçaram a subida e encontraram o casal lá em cima, no mirante, também admirando a vista. Conversaram amigavelmente. Esse país não é sério, repete a respeito do episódio o Jean-Luc, que é o que tem o estopim mais curto dentre os três. Jean-Luc fica horas no chuveiro tomando banho. Eu o ironizei: “arrête le branlet, Jean-Luc”. É uma frase grosseira que peguei numa conversa deles sobre a polícia de lá, a CRS, que eles falam que é meio facistona. Seria algo como: “vamos parar com a punheta!” Jean-Luc não gostou nada. Só Albert tem namorada aqui no Brasil, os outros falam somente um pouco de espanhol e seus flertes são um desastre. Eu converso por telefone com Lúdi, mas ela me faz pensar em Caroline Says, aquela canção fria de Lou Reed. Nessa noite fomos ao Centro Espírita. A dona do centro umbandista, Tia Tilde, me pareceu simpática e esclareceu que sou filho de Ogum. Ao entrar, repeti interiormente, como um personagem de Dostoiévski: apesar da tradição de séculos, charlatanismo e absurdo. Contei posteriormente isso aos franceses, que me disseram somente: quem decide sobre um país são suas classes dirigentes. Eles são trotsquistas, mais do que antropólogos. Acharam que meu sentimento foi coisa de pequeno-burguês intéllo, gíria que quer dizer algo como intelectualóide. Tia Tilde é gentil, o centro é muito bonito, decorado com bandeirolas coloridas, cheio de imagens de pretos velhos ao lado de cristais e velas multicores. No entanto, ao abrir uma porta, Dona Tilde deixa cair pequenas caveiras de plástico, velas pretas e vermelhas e outros acessórios um tanto quanto macabros. Ela me fala para escrever o nome de meus inimigos num papel para que ela queime uma vela sobre ele, afastando os invejosos. Eu o faço. Mais tarde, à noite, tomando cerveja num bar, fomos abordados por um psicólogo da cidade, longos cabelos brancos, poeta marginal, hippie sem tempo: ele, já chumbado, perguntava aos franceses se o sol poderia fazer alguém matar, “como no romance O Estrangeiro de Camus”. Bernard, ao ouvir minha tradução em francês pourri da conversa psicanalítica-maluca do psicólogo, tem praticamente uma crise de riso diante do psicólogo, que imediatamente o rotula de louco histérico. Bernard então entende, mas continua rindo. Eu desconverso e peço a conta, pois o psicólogo é amigo da família de minha mãe.
8/07/01
Lúdi e Julie chegaram a Bom Despacho e nós nos deslocamos da casa dos meus pais, no centro, para o sítio, para que todos pudessem ficar alojados confortavelmente. O sítio, no entanto, está um caos, graças ao desleixo de meus pais. Julie tem gostos e exigências enormes e fica horrorizada com a piscina cheia de enormes sapos e alguns ratos mortos. Ela canta: “ó minha rana baby...” Elas chegaram até com seus maiôs, coitadas. Numa outra casa, Lúdi resolveu fazer camarão na moranga. Julie uniu-se a ela na cozinha, trouxe vinho, tudo parece encaminhar-se para o melhor. A criada de meus pais negou-se a ajudá-las, pois para ela comer camarão é como comer uma barata. Eu a dispensei. No entanto, um enxame de abelhas invadiu a cozinha em busca da amarela moranga de Lúdi. Pavor e choque. Consolei Lúdi: as abelhas só enxergam bem a cor amarela. Ela explode e me acusa de ser negligente como meus pais. Talvez ela tenha razão, mas não tenho voz ativa junto a meus pais. Para melhorar a situação, a cozinha também conta com um estoque de lagartixas e o banheiro está equipado com pequenas pererecas. As garotas gritam a cada novo encontro com um bicho, apavoradas. A comparação com o sítio de Julie em Tiradentes é inevitável e me deixa morrendo de vergonha. Resolvemos mudar para outra das casas do sítio, mas nela encontramos uma caixa de marimbondos do tamanho de uma bola de discoteca pendendo da sala. Albert, Bernard e Jean-Luc não querem deixar o Brasil antes de passarem num acampamento de sem-terra numa cidade vizinha daqui, Pompéu.
9/07/01
Hoje Albert, Jean-Luc e Bernard saíram de novo a campo para terminarem de recolher o material da pesquisa sobre o Reinado. Estou escrevendo cansado, mas o que mais me aborreceu é que as meninas já voltaram para Belo Horizonte. Durante a noite, elas me acordavam pedindo que retirasse o vaga-lume que estava dentro do quarto. Estavam temendo os bichos e não dormiram. Quando o dia já tinha amanhecido e eu já tinha me levantado umas dez vezes, descobri que o tal vaga-lume era a luz verde do celular da Lúdi. Após isso, Julie foi tomar banho na casa do caseiro, quem sabe esperando que ela estivesse mais limpa e civilizada. Mas não: quando Julie entrou no chuveiro, saíram formigas do ralo, numerosas com num filme de cinema catástrofe. Lúdi queria tomar banho com a amiga, mas vetei. Lúdi parece estar numa crise de identidade sexual e me transtorna profundamente. Julie e Albert também não estão bem.
11/07/01
De volta a Belo Horizonte. Julie me liga para dizer que terminou com Albert e que ele bateu nela. Eu tento tranqüilizá-la. Vou falar com Albert, que esteve em casa dela nos últimos dois dias. Ele diz que foi um jogo sexual entre ambos e que Julie é obcecada com o estupro. Ambos fingiam um estupro quando a mãe de Julie os pegou aos berros. A solução de Julie diante da mãe ultra-feminista foi atacar Albert. Isso me parece verdade. Para amenizar o papo barro pesada, digo a Albert que Jorge Amado escreveu, em seu primeiro romance, que alguém só se sente brasileiro quando bate na mulher e dança o carnaval. E que Albert, já tinha feito o mais difícil. Albert fica angustiado e diz: “então você acredita nela”? Eu digo a ele que perco o amigo, mas não perco a piada.
13/07/01
Julie combinou uma saída comigo e com Lúdi, mas logo que nos encontramos elas anunciam a ruptura de Julie com Albert, agora excomungado. E Julie me apresenta Joaquín, argentino belo, alto e com longos cabelos grandes. Albert dançou, mas eu me recusei a apoiar a troca de Julie, afinal Albert é meu amigo.
16/07/01
Minha relação com Ludmila desmoronou após uma noite em que ela dormiu assistindo Os Fuzis, filme de Rui Guerra, após termos tentado fazer sexo enquanto o personagem do cego no filme dava gritos roufenhos, horríveis, broxantes. Recebi uma ligação com uma proposta de trabalho: querem que eu trabalhe como professor numa universidade que está começando em Bom Despacho. Eu topo porque o diretor lá será o psicólogo que conversou conosco na noite anterior. Eu e ele conversamos longamente sobre Oswald de Andrade, autor do qual ele já leu Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar.
18/07/01
Rompidos com Lúdi e Julie, fazemos uma grande festa em meu sítio em Bom Despacho. Dentro de dois dias, meus pais irão chegar de viagem. Fomos a um bar combinar a ida ao acampamento dos sem-terra. Na verdade, nesse lugar, em Pompéu, eles já foram assentados. Existe risco quando ainda é acampamento, pois por vezes, os fazendeiros chegam atirando e com muitos capangas, indiferentes à presença de velhos, mulheres e crianças. Eles só invadem fazendas grandes e improdutivas, como era essa fazenda de Pompéu que visitamos. Eu só não gosto muito do discurso moralista católico contra a bebida que um dos sem-terra nos fez e do ritual de mística que eles fazem, dizendo palavras de ordem e erguendo os punhos em gestos comunistas. Achei teatral demais. O moralismo caiu como uma luva para nós, que viramos a noite bebendo e chegamos ao acampamento de manhã. Jean-Luc adorou e os achou verdadeiros “gauchistes”.
20/07/01
De volta a Belo Horizonte, fomos tomar cerveja em um bar, mas quando chegou a hora de pagar, ninguém tinha trazido dinheiro. Acontece que todos estavam fazendo gentileza uns para os outros nos dias anteriores. Eu ia me levantar para conversar com o dono do bar e perguntar se ele aceitava meu cartão. Nesse momento, um carro desceu a rua numa grande velocidade. Atrás, o carro da polícia desceu atirando. Todos no bar se levantaram e nós deixamos nossa mesa sem pagar: os moradores da favela, furiosos com os consumidores de cocaína que segundo eles se reuniam naquele bar, desceram revoltados, mas só chegam a dizer algumas palavras agressivas a Albert, que conseguiu acalmá-los falando que é gringo, mas é ateu marxista, estudante de antropologia, coisa e tal.
25/07/01
Fizemos uma grande festa de despedida para os franceses aqui em minha casa em Belo Horizonte. Eles viajam amanhã de avião. Em setembro irei começar a lecionar numa pequena faculdade em Bom Despacho. Reuni meus amigos de Belo Horizonte, bebemos muito e até tarde. Eu combinei de visitar a França em breve e ficar em casa deles.
11/09/01
Vi o desastroso atentado terrorista nas Torres Gêmeas. O horizonte de New York, esfumaçado, ferido, parecia anunciar o dia do juízo final. Ao ver aquilo, foi como se muitos anos se passassem. E eu nunca fui à França.
Ouro Preto
© Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior 2008
2/07/01
Albert chegará hoje aqui em casa com dois amigos, Jean-Luc e Bernard. Todos vindos de Toulouse, França. Daqui iremos para Bom Despacho, cidade próxima, onde eles, com formação em antropologia, querem ver a festa de Reinado e visitar um Centro Espírita Umbandista, algo que nós conhecemos como terreiro de macumba. Albert veio rever uma moça que namorou na França, uma franco-brasileira chamada Julie.
3/07/01
Saímos de carro. Jean-Luc foi dirigindo com a carteira francesa mesmo, pois é muita burocracia que existe para traduzir a carteira para o português, além de ser caro. Antes, vamos passar em Congonhas e Ouro Preto. Bernard morou muito tempo em Paris e se considera parisiense. Albert e Jean-Luc detestam Paris. “Lá vive uma super-elite. Paris, “faisse la gorge!”, diz Albert, que seria algo como “Paris, todo mundo com cara de bunda”. Albert não suporta, especialmente, o fato dos parisienses chamarem os demais departamentos de “province”. A discussão entre Paris e province se prolonga interminavelmente e eu fico um pouco à parte na discussão. Para encerrá-la, improvisou um verso com uma canção francesa antiga: “Douce France, Il y a beaucoup de conflits entre Paris et la province”. Bernard ri, os outros ficam sérios. Há muito eu não tinha notícias de Julie, que é filha de um barão francês que se mudou para Belo Horizonte. Agora que Albert chegou, soube que Julie namora Albert e um argentino pelo computador, usando uma tecnologia chamada I seek you. A tecnologia se desenvolve e as fofocas se internacionalizam. Estou lendo um livro de contos chamado L´Exile et le Royaume de Albert Camus.
4/07/01
Ouro Preto foi um caos. Julie disse estar ocupada com um trabalho sobre o português de Cabo-Verde e não nos acompanhou até Ouro Preto. Minha namorada, Ludmila, amiga da Julie, ficou enciumada com minha atenção aos franceses e negou-se a viajar para Bom Despacho, cidade onde ela já foi e detesta, pois a faz lembrar da infância proletária na periferia de uma cidade do interior e de um irmão gay (?). Ela curte filósofos franceses pós-modernos, frente aos quais se sente insegura (Derrida, Deleuze, Barthes), jazz e bossa nova. Albert me alerta que Julie e Ludmila tomam banho juntas e me pede para que as impeça. Eu respondo que não quero brigar com Lúdi, pois já ficamos noivos e desfizemos a relação. Albert se espanta. Eu próprio me espanto em ter continuado a namorar alguém sem projeto, mas Lúdi está tratando uma depressão e eu tenho esperanças que ela melhore. Nesse meio tempo, nosso namoro esfriou. Falar nisso, em Ouro Preto passamos frio e Bernard está espirrando muito e tossindo. A variação de temperatura parece que acabou com ele. Fora que a viagem foi complicada por meu francês: eu confundo as direções. “Droit” é direita, “tout droit” é “em frente”, “gauche”, esquerda. Quando Jean-Luc fala rapidamente, só escuto o “droit?” E ele de fato está me perguntando se devemos ir pela direita, respondo que sim, mas muitas vezes ele quer perguntar é se devemos ir em frente. Com isso, erramos o caminho muitas vezes. Eu nem sabia que havia um show gratuito do Skank em Ouro Preto. O resultado é que nem vimos o show, chegamos atrasados à cidade, no momento exato em que muitos carros, saindo ao mesmo tempo da Praça Tiradentes, quase nos sufocaram com sua fumaça. “Cyclon B”, disse Bernard, referindo-se aos gases tóxicos de Auschwitz. Ele é judeu, sua infância foi no Marrocos, é um pied noir: todos os três o são. Num bar da estrada, peguei um pé de boi preto, um souvenir que eles vendem por aqui e apresentei-lhes: “voici un vrai pied noir”. Rimos. Jean-Luc começa um longo papo sobre a revolta da base de Krondstadt e os bolchevistas. Em Ouro Preto, nos sentamos numa cachaçaria chique. Conversamos somente em francês. Uma mesa de brasileiros ao nosso lado começa a nos criticar. Minutos antes, tolerei sem reclamar um papo nojento que eles estavam tendo, aos gritos, sobre alguém que fez sexo anal e terminou com pedaço de couve envolto no pênis. Voltando a atenção para nós, em voz alta, uma brasileira enfezada comenta que na França eles não falam em português com a gente. “Que complexo de inferioridade nacional mais chato!” comenta Albert, que sabe português, em voz alta. Ouro Preto pesadelo: sem uma cerveja sequer nos bares, sem lugar onde dormir, sem comida, tinha recebido mais gente do que o número total de habitantes. Voltamos a BH, pois o lugar que arranjamos para dormir tinha um teto rebaixado kafkiano e os rapazes não quiseram passar noite de processo.
5/07/01/
Chegamos a Bom Despacho em plena festa do Reinado. Os rapazes tiram fotos, entrevistam os capitães dos grupos que dançam (que aqui são chamados cortes), tudo a muito custo, pois não falam português e eu tenho que ficar como intérprete do francês. Bernard gosta de escutar um cantor francês chamado Bernard Lavillers. O cantor foi caminhoneiro no Brasil e depois virou cantor francês de certo sucesso. Ele diz que Nanard realmente foi muito corajoso em ser caminhoneiro aqui e eu concordo, foi muito gosto pela aventura mesmo. Lavillers descobriu e imitou a bossa nova, pois faz chanson française com influências do jazz. Eu falo com Bernard sobre o Manu Chao, o Lavillers da nossa geração, trazido por um francês chamado Paco Pigalle para tocar até em Belo Horizonte & comer bife de fígado & beber cerveja no Mercado Central. Os rapazes já o conhecem da fama na França: Manu Chao, que antes tocava na Manu Negra, toca no rádio direto na França. Albert me pediu para evitar falar tanto sobre filósofos franceses e que a sociedade francesa é piramidal, não tendo eles acesso ao topo da pirâmide: esses conhecidos são muito elevados. Conto a eles o que ouvi falar sobre o filme Week-end, do Godard. Eu não vi, mas gostaria de ter visto esse filme. Eu comento Romance X, um da Caterine Breillat com Rocco, ator pornô. Albert toma a palavra e me disse que o filme foi ruim, cheio de estereótipos, mas Rocco e a atriz transaram mesmo. Eles dizem que Godard é “abscons” (absconso, obscuro) e não viram Week-end, não. Eu provoco: “Maio de 68 foi o caminho francês para a América?” Eles dizem que não, o fato é que os partidos e sindicatos eram uma merda. E que o Partido Comunista Francês, como não podia dominar a rebelião, não a apoiava. Eu me saio até bem lembrando alguns nomes importantes em 68: Geismar aderiu a um governo recente, Débray virou gaullista, uma vergonha, Cohn-Bendit, um palhaço.
6/07/01
Na manhã seguinte, os rapazes me contam como foi a viagem ao Rio, de onde chegaram há pouco. No caminho para o Corcovado, subiam a pé para ver a vista, mas de repente encontraram, na trilha, um casal transando. Voltaram para trás e deram um tempo. Pouco depois, recomeçaram a subida e encontraram o casal lá em cima, no mirante, também admirando a vista. Conversaram amigavelmente. Esse país não é sério, repete a respeito do episódio o Jean-Luc, que é o que tem o estopim mais curto dentre os três. Jean-Luc fica horas no chuveiro tomando banho. Eu o ironizei: “arrête le branlet, Jean-Luc”. É uma frase grosseira que peguei numa conversa deles sobre a polícia de lá, a CRS, que eles falam que é meio facistona. Seria algo como: “vamos parar com a punheta!” Jean-Luc não gostou nada. Só Albert tem namorada aqui no Brasil, os outros falam somente um pouco de espanhol e seus flertes são um desastre. Eu converso por telefone com Lúdi, mas ela me faz pensar em Caroline Says, aquela canção fria de Lou Reed. Nessa noite fomos ao Centro Espírita. A dona do centro umbandista, Tia Tilde, me pareceu simpática e esclareceu que sou filho de Ogum. Ao entrar, repeti interiormente, como um personagem de Dostoiévski: apesar da tradição de séculos, charlatanismo e absurdo. Contei posteriormente isso aos franceses, que me disseram somente: quem decide sobre um país são suas classes dirigentes. Eles são trotsquistas, mais do que antropólogos. Acharam que meu sentimento foi coisa de pequeno-burguês intéllo, gíria que quer dizer algo como intelectualóide. Tia Tilde é gentil, o centro é muito bonito, decorado com bandeirolas coloridas, cheio de imagens de pretos velhos ao lado de cristais e velas multicores. No entanto, ao abrir uma porta, Dona Tilde deixa cair pequenas caveiras de plástico, velas pretas e vermelhas e outros acessórios um tanto quanto macabros. Ela me fala para escrever o nome de meus inimigos num papel para que ela queime uma vela sobre ele, afastando os invejosos. Eu o faço. Mais tarde, à noite, tomando cerveja num bar, fomos abordados por um psicólogo da cidade, longos cabelos brancos, poeta marginal, hippie sem tempo: ele, já chumbado, perguntava aos franceses se o sol poderia fazer alguém matar, “como no romance O Estrangeiro de Camus”. Bernard, ao ouvir minha tradução em francês pourri da conversa psicanalítica-maluca do psicólogo, tem praticamente uma crise de riso diante do psicólogo, que imediatamente o rotula de louco histérico. Bernard então entende, mas continua rindo. Eu desconverso e peço a conta, pois o psicólogo é amigo da família de minha mãe.
8/07/01
Lúdi e Julie chegaram a Bom Despacho e nós nos deslocamos da casa dos meus pais, no centro, para o sítio, para que todos pudessem ficar alojados confortavelmente. O sítio, no entanto, está um caos, graças ao desleixo de meus pais. Julie tem gostos e exigências enormes e fica horrorizada com a piscina cheia de enormes sapos e alguns ratos mortos. Ela canta: “ó minha rana baby...” Elas chegaram até com seus maiôs, coitadas. Numa outra casa, Lúdi resolveu fazer camarão na moranga. Julie uniu-se a ela na cozinha, trouxe vinho, tudo parece encaminhar-se para o melhor. A criada de meus pais negou-se a ajudá-las, pois para ela comer camarão é como comer uma barata. Eu a dispensei. No entanto, um enxame de abelhas invadiu a cozinha em busca da amarela moranga de Lúdi. Pavor e choque. Consolei Lúdi: as abelhas só enxergam bem a cor amarela. Ela explode e me acusa de ser negligente como meus pais. Talvez ela tenha razão, mas não tenho voz ativa junto a meus pais. Para melhorar a situação, a cozinha também conta com um estoque de lagartixas e o banheiro está equipado com pequenas pererecas. As garotas gritam a cada novo encontro com um bicho, apavoradas. A comparação com o sítio de Julie em Tiradentes é inevitável e me deixa morrendo de vergonha. Resolvemos mudar para outra das casas do sítio, mas nela encontramos uma caixa de marimbondos do tamanho de uma bola de discoteca pendendo da sala. Albert, Bernard e Jean-Luc não querem deixar o Brasil antes de passarem num acampamento de sem-terra numa cidade vizinha daqui, Pompéu.
9/07/01
Hoje Albert, Jean-Luc e Bernard saíram de novo a campo para terminarem de recolher o material da pesquisa sobre o Reinado. Estou escrevendo cansado, mas o que mais me aborreceu é que as meninas já voltaram para Belo Horizonte. Durante a noite, elas me acordavam pedindo que retirasse o vaga-lume que estava dentro do quarto. Estavam temendo os bichos e não dormiram. Quando o dia já tinha amanhecido e eu já tinha me levantado umas dez vezes, descobri que o tal vaga-lume era a luz verde do celular da Lúdi. Após isso, Julie foi tomar banho na casa do caseiro, quem sabe esperando que ela estivesse mais limpa e civilizada. Mas não: quando Julie entrou no chuveiro, saíram formigas do ralo, numerosas com num filme de cinema catástrofe. Lúdi queria tomar banho com a amiga, mas vetei. Lúdi parece estar numa crise de identidade sexual e me transtorna profundamente. Julie e Albert também não estão bem.
11/07/01
De volta a Belo Horizonte. Julie me liga para dizer que terminou com Albert e que ele bateu nela. Eu tento tranqüilizá-la. Vou falar com Albert, que esteve em casa dela nos últimos dois dias. Ele diz que foi um jogo sexual entre ambos e que Julie é obcecada com o estupro. Ambos fingiam um estupro quando a mãe de Julie os pegou aos berros. A solução de Julie diante da mãe ultra-feminista foi atacar Albert. Isso me parece verdade. Para amenizar o papo barro pesada, digo a Albert que Jorge Amado escreveu, em seu primeiro romance, que alguém só se sente brasileiro quando bate na mulher e dança o carnaval. E que Albert, já tinha feito o mais difícil. Albert fica angustiado e diz: “então você acredita nela”? Eu digo a ele que perco o amigo, mas não perco a piada.
13/07/01
Julie combinou uma saída comigo e com Lúdi, mas logo que nos encontramos elas anunciam a ruptura de Julie com Albert, agora excomungado. E Julie me apresenta Joaquín, argentino belo, alto e com longos cabelos grandes. Albert dançou, mas eu me recusei a apoiar a troca de Julie, afinal Albert é meu amigo.
16/07/01
Minha relação com Ludmila desmoronou após uma noite em que ela dormiu assistindo Os Fuzis, filme de Rui Guerra, após termos tentado fazer sexo enquanto o personagem do cego no filme dava gritos roufenhos, horríveis, broxantes. Recebi uma ligação com uma proposta de trabalho: querem que eu trabalhe como professor numa universidade que está começando em Bom Despacho. Eu topo porque o diretor lá será o psicólogo que conversou conosco na noite anterior. Eu e ele conversamos longamente sobre Oswald de Andrade, autor do qual ele já leu Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar.
18/07/01
Rompidos com Lúdi e Julie, fazemos uma grande festa em meu sítio em Bom Despacho. Dentro de dois dias, meus pais irão chegar de viagem. Fomos a um bar combinar a ida ao acampamento dos sem-terra. Na verdade, nesse lugar, em Pompéu, eles já foram assentados. Existe risco quando ainda é acampamento, pois por vezes, os fazendeiros chegam atirando e com muitos capangas, indiferentes à presença de velhos, mulheres e crianças. Eles só invadem fazendas grandes e improdutivas, como era essa fazenda de Pompéu que visitamos. Eu só não gosto muito do discurso moralista católico contra a bebida que um dos sem-terra nos fez e do ritual de mística que eles fazem, dizendo palavras de ordem e erguendo os punhos em gestos comunistas. Achei teatral demais. O moralismo caiu como uma luva para nós, que viramos a noite bebendo e chegamos ao acampamento de manhã. Jean-Luc adorou e os achou verdadeiros “gauchistes”.
20/07/01
De volta a Belo Horizonte, fomos tomar cerveja em um bar, mas quando chegou a hora de pagar, ninguém tinha trazido dinheiro. Acontece que todos estavam fazendo gentileza uns para os outros nos dias anteriores. Eu ia me levantar para conversar com o dono do bar e perguntar se ele aceitava meu cartão. Nesse momento, um carro desceu a rua numa grande velocidade. Atrás, o carro da polícia desceu atirando. Todos no bar se levantaram e nós deixamos nossa mesa sem pagar: os moradores da favela, furiosos com os consumidores de cocaína que segundo eles se reuniam naquele bar, desceram revoltados, mas só chegam a dizer algumas palavras agressivas a Albert, que conseguiu acalmá-los falando que é gringo, mas é ateu marxista, estudante de antropologia, coisa e tal.
25/07/01
Fizemos uma grande festa de despedida para os franceses aqui em minha casa em Belo Horizonte. Eles viajam amanhã de avião. Em setembro irei começar a lecionar numa pequena faculdade em Bom Despacho. Reuni meus amigos de Belo Horizonte, bebemos muito e até tarde. Eu combinei de visitar a França em breve e ficar em casa deles.
11/09/01
Vi o desastroso atentado terrorista nas Torres Gêmeas. O horizonte de New York, esfumaçado, ferido, parecia anunciar o dia do juízo final. Ao ver aquilo, foi como se muitos anos se passassem. E eu nunca fui à França.
Ouro Preto
© Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior 2008
Colóquios sobre a morte da arte e arte da morte
O escritor Dênis Reis, cujo livro de contos O Vendedor de Batatas é objeto de uma resenha que estou fazendo, escreveu em um conto sobre os colóquios da morte da arte e perguntou sobre os da arte da morte. Morrer pode ser uma arte e o assassinato, uma das belas-artes? Não sei.
Minha professora de origem genebrina, Jeanne Marie Gagnebin de Bons, lá da UNICAMP, disse a alguém, que perguntava muito sobre a Suíça, após a aula: "eles são devagar demais..." Não sei a que se referia, mas talvez ao fato da Suíça ter sido um dos últimos países a conceder o voto às mulheres (teve cantão que foi só em 1972. No Brasil, para que seja feita uma comparação, foi em 1934!)
O fato é que, quem ama, mata. Quem está tomado de paixão, das fúrias e das erínias é realmente capaz de matar. Ele (Denis) tem provocações ótimas. Reis cita James Joyce em Finícius Revém (Finnegans Wake), numa citação bem escolhida e hilária:
Sua visão pode ser reta e romana
Mas sua bunda é que é uma dis-grécia
Já a morte da arte...Nunca vi um colóquio sobre a morte da filosofia, mas os artistas precisam urgentemente fazer, para o Rodrigo Duarte e seus seguidores na UFMG, adornianos, debaterem, o que seria sumamente interessante --mesmo se não houvesse tradução simultânea em alemão. Hegel deseja uma filosofia que pense a totalidade, mas, segundo li em Iser, não acredita que a arte seja capaz de apreender a totalidade. Já a teoria serviu perfeitamente para Adorno: a crítica dele substituiria a arte, arte essa já morta: por mais que a arte buscasse estratégias para fugir, cairia sempre no abismo da indústria cultural.
Eu, por mim, quero mais é ver Moses and Aron do Gerald Thomas (vimeo Patrick Grant no blog dele) e debater Kandinsky, Koons, Pollock, Hirst, Habacuc Vargas e outros grandes artistas. Em BH tem uma exposição refazendo a primeira exposição modernista na cidade em 1943, quando estávamos enfim nos emancipando e inventando a Pampulha & Brasília com JK. Oswald narrou essa exposição em crônicas. Disse que os paulistas chegavam a BH depois de dois dias de trem, davam palestra e voltavam para a Paulicéia no dia seguinte, para desvairarem. Não podiam perder tempo! Ele concluiu que os paulistas querem mesmo trabalhar duro, respirar poluição, gripar. Reclamam, reclamam, mas não largam a cidade.
Quem sabe um dia o Aécio Neves, nesse ímpeto modernizador, traz também a Cosmococa do Hélio Oiticica e os Travestis de Stoppard da Ópera Seca? Pelo menos gosto para atores o Aécio tem: já colocou o Nanini para fazer propaganda do governo dele. Aécio seria uma boa para quebrar a hegemonia paulista na política e que traduz a hegemonia econômica. Precisamos quebrar o determinismo da estrutura sobre a superestrutura no Brasil.
Se o marxismo levou Gullar a escrever o "extremamente populista" Violão de Rua, que agora ele renega como bobagem, a vanguarda tem culpa disso? O fato é que esse conceito de populismo está mal empregado e Gullar anda jogando para a assistência. Não deveria ridicularizar as próprias obras, deveria deixar isso para a crítica, para nós, para mim...E outra: na época em que ele escreveu Violão de Rua, em 1963, Paulo Francis era cronista do jornal varguista Última Hora e os irmãos Campos faziam poemas rimando Coca-cola e cloaca, em ritmo de salto participante. Só para contextualizar, ele não estava numa de ultra-populismo e sim estava acompanhando a vanguarda de seu tempo, até mesmo de seu grupo neoconcreto.
No fim das contas, acho que os filósofos querem provocar os artistas e essa é a finalidade principal dessa teoria (da morte da arte).
Minha professora de origem genebrina, Jeanne Marie Gagnebin de Bons, lá da UNICAMP, disse a alguém, que perguntava muito sobre a Suíça, após a aula: "eles são devagar demais..." Não sei a que se referia, mas talvez ao fato da Suíça ter sido um dos últimos países a conceder o voto às mulheres (teve cantão que foi só em 1972. No Brasil, para que seja feita uma comparação, foi em 1934!)
O fato é que, quem ama, mata. Quem está tomado de paixão, das fúrias e das erínias é realmente capaz de matar. Ele (Denis) tem provocações ótimas. Reis cita James Joyce em Finícius Revém (Finnegans Wake), numa citação bem escolhida e hilária:
Sua visão pode ser reta e romana
Mas sua bunda é que é uma dis-grécia
Já a morte da arte...Nunca vi um colóquio sobre a morte da filosofia, mas os artistas precisam urgentemente fazer, para o Rodrigo Duarte e seus seguidores na UFMG, adornianos, debaterem, o que seria sumamente interessante --mesmo se não houvesse tradução simultânea em alemão. Hegel deseja uma filosofia que pense a totalidade, mas, segundo li em Iser, não acredita que a arte seja capaz de apreender a totalidade. Já a teoria serviu perfeitamente para Adorno: a crítica dele substituiria a arte, arte essa já morta: por mais que a arte buscasse estratégias para fugir, cairia sempre no abismo da indústria cultural.
Eu, por mim, quero mais é ver Moses and Aron do Gerald Thomas (vimeo Patrick Grant no blog dele) e debater Kandinsky, Koons, Pollock, Hirst, Habacuc Vargas e outros grandes artistas. Em BH tem uma exposição refazendo a primeira exposição modernista na cidade em 1943, quando estávamos enfim nos emancipando e inventando a Pampulha & Brasília com JK. Oswald narrou essa exposição em crônicas. Disse que os paulistas chegavam a BH depois de dois dias de trem, davam palestra e voltavam para a Paulicéia no dia seguinte, para desvairarem. Não podiam perder tempo! Ele concluiu que os paulistas querem mesmo trabalhar duro, respirar poluição, gripar. Reclamam, reclamam, mas não largam a cidade.
Quem sabe um dia o Aécio Neves, nesse ímpeto modernizador, traz também a Cosmococa do Hélio Oiticica e os Travestis de Stoppard da Ópera Seca? Pelo menos gosto para atores o Aécio tem: já colocou o Nanini para fazer propaganda do governo dele. Aécio seria uma boa para quebrar a hegemonia paulista na política e que traduz a hegemonia econômica. Precisamos quebrar o determinismo da estrutura sobre a superestrutura no Brasil.
Se o marxismo levou Gullar a escrever o "extremamente populista" Violão de Rua, que agora ele renega como bobagem, a vanguarda tem culpa disso? O fato é que esse conceito de populismo está mal empregado e Gullar anda jogando para a assistência. Não deveria ridicularizar as próprias obras, deveria deixar isso para a crítica, para nós, para mim...E outra: na época em que ele escreveu Violão de Rua, em 1963, Paulo Francis era cronista do jornal varguista Última Hora e os irmãos Campos faziam poemas rimando Coca-cola e cloaca, em ritmo de salto participante. Só para contextualizar, ele não estava numa de ultra-populismo e sim estava acompanhando a vanguarda de seu tempo, até mesmo de seu grupo neoconcreto.
No fim das contas, acho que os filósofos querem provocar os artistas e essa é a finalidade principal dessa teoria (da morte da arte).
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