A telenovela Caras e Bocas, segundo seu autor Walcyr Carrasco, pretende questionar a arte contemporânea e seus "códigos fechados".
Na verdade, trata de ridicularizar qualquer código artístico que não o utilizado nela própria. Ela já fez paródia, segundo a Veja, de Vik Muniz, com o derretimento (lambança) das tais esculturas de chocolate.
Embora se pretenda inspirada num chimpanzé que pintava arte abstrata, será que a telenovela brasileira está preparada para ter seus códigos criticados? Ela, que não pratica um realismo crítico lukacsiano (de jeito nenhum!) e fornece cimento social conservador (novela sem mansão não funciona)? A novela se vende como tendo uma relaçãop privilegiada com a realidade, ou como se ela fosse o verdadeiro realismo. E tome imitação dela em teatro e cinema. É o que Zé Celso chamou "padrão classe média".
A questão é: com seus truques de folhetim (você não é minha mãe!) e melodrama, seu realismo retrógrado, a novela está em posição de criticar alguém?
Não se pode negar que a química entre a chimpanzé expressionista e o ator chimpanzé inexpressionista Marcos Pasquim é ótima (eles já fizeram amooorrr?). Aliás, o grande ator dessa novela é a chimpanzé Keith. A que ponto chegamos! Que venha a grande zoofilia global! Já pensou? "Sua mãe não é um chimpanzé!"
Fora discutir sua ética (ou ausência dela). Eu me lembro bem de que em Que rei sou eu tinha um galã de novela (Edson Celulari) disputando com um barbudinho agressivo (Cássio Gabus) o que de certa forma influenciou a disputa Collor/Lula em 1989.
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
segunda-feira, 15 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Um artigo sobre Nietzsche
Nietzsche: controverso até para os nazistas e integralistas
Li com curiosidade um artigo sobre Nietzsche de autoria de Flávio Paranhos, na última revista Filosofia, Ciência e Vida. Ele comenta sobre certa periculosidade de Nietzsche, quando em mãos inconseqüentes e cabeças de vento e sobre certa associação, para ele indelével, com o nazismo.
Paranhos, então, descreveu filmes que se inspiraram em crimes que usaram Nietzsche com justificativa. Ora, Nietzsche jamais incita ao crime nem descreve cenas de crimes. Ele apenas arremete contra a moral e o estado psicológico que permite absurdos tais como o assassinato, que para ele é o niilismo. Ele também o combate. Essas pessoas, no fim das contas, citam Nietzsche apenas como despiste. Os fatores que se unem para tornar alguém um criminoso são inúmeros, desde certa disposição biológica até mental (psicopatia), assim como um meio social favorável. A interpretação errônea de Nietzsche é apenas um álibi.
1. Interpretações de Nietzsche entre os fascistas
Mais oportuno que isso é notar que até entre os filósofos que aderiram ao nazismo Nietzsche era controverso. Até mesmo Rosenberg, teórico oficial do fascismo, afirmava que lia Nietzsche “criticamente” (!). Rosenberg considerava que “em seu nome se levou adiante a infecção da raça por sírios e negros de todas as espécies, supostamente de acordo com os seus ensinamentos. Ele caiu nos sonhos de impudicos amantes políticos, o que é pior do que cair nas mãos de uma quadrilha de bandidos”. Já para Ernest Bertram, seu colega também fascista, Nietzsche não era mais que um “revolucionário trágico”. Para Bertram, inspirado em Simmel, Nietzsche lutou contra os mistérios, mas estava intimamente vinculado ao religioso e à “obscuridade sagrada”, dando como exemplo o seu Zaratustra. Já o professor berlinense, também fascista, Alfred Baeumler recusa completamente essa ideia. Para Baeumler, Nietzsche combate ao mesmo tempo o romantismo e a Ilustração, levando uma guerra em duas frentes, iniciando com seu pensamento um novo período da humanidade. Ele o considera precursor do fascismo somente no sentido em que os fascistas igualmente combatiam ao mesmo tempo o liberalismo e o marxismo, mas condena suas tendências “positivistas”, pois para Baeumler Nietzsche não era suficientemente místico. Baeumler, assim como o escritor Franz Schauwecker, conciliam “a interioridade alemã com o poder alemão”, unindo Nietzsche, Bismarck e Wagner, alegando que era necessário fazer esse “encontro antes impossível”. Assim como Rosenberg demonstra saber que Nietzsche já tinha sido, antes do nazismo, filósofo do liberalismo, Baeumler sabe que Nietzsche, em um aforismo de Aurora, coloca Schopenhauer, Wagner e Bismarck como figuras contaminadas pela decadência. A tática de Baeumler, seu intérprete fascista, foi levar algumas passagens de Nietzsche às últimas conseqüências, tirando delas corolários políticos: ele opõe o super-homem ao funcionário da sociedade social-democrata, que seria o “último homem” comentado no Zaratustra.
2. Expurgando Nietzsche
Portanto, para se poder ler Nietzsche como fascista é preciso expurgar vários elementos de sua obra. Para expurgar a crítica de Wagner enquanto decadente, o biógrafo fascista de Nietzsche, o supracitado Ernest Bertram, afirmou que Nietzsche inspirou a crítica que fez ao maestro em um ensaio de Paul Borget, ele mesmo um escritor que Nietzsche considerava um representante típico da decadência moderna. O que os fascistas admiravam em Nietzsche foi essa crítica da modernidade e da democracia como decadência. No entanto, Nietzsche é aparentado a Wagner e entende sua filosofia como superação de seus próprios elementos decadentes; ao opor a Wagner uma pessimista aceitação da vida, seus admiradores fascistas viram nessa negação a fonte de um “realismo heróico” que eles podiam admirar.
3. Nietzsche e o integralismo de Plínio Salgado
A professora Scarlet Marton sempre comenta sobre a apropriação de Nietzsche realizada pelo integralismo de Plínio Salgado. Pode-se dizer, no entanto, que nem nesse autor a interpretação de Nietzsche é uma só.
Nietzsche aparece como inspirador dos liberais no romance O Esperado, publicado por Plínio Salgado em 1931. Personagens como Dr. Nolasco e Marcos possuem um discurso que por vezes cita literalmente Nietzsche, como quando o personagem do advogado Dr. Nolasco soltou da prisão o comunista Mano, tendo em mente Nietzsche, apenas mais um dentre outros inúmeros autores que formavam a mentalidade liberal da república velha (Tardieu, Krafft-Ebing, Lombroso): “Em todo caso, lembrava-se de Nietzsche e achava que duas educações se tornavam necessárias: a dos super-homens (Nolasco, ateu e sibarita) e a das massas (Mano, que falava na pátria e articulava o nome de Deus)” (SALGADO, p. 288). Bem diverso é o pensamento posterior de Salgado, que pretendia converter todos (elite e povo) a um nacionalismo cristão “integral” “espiritual”, ou seja, hegeliano e totalizante, que ele opunha ao materialismo do marxismo e do liberalismo “fragmentários” e “dissolventes”.
Poucos anos depois, no texto Despertemos a Nação, publicado em 1934, Salgado incorporou um aforisma de Para Além do Bem e do Mal para fazer a apologia de seu nacionalismo místico. Nietzsche comenta que existem povos masculinos, os povos que fecundam os que são fecundados. Salgado aproveita-se disso para propor que o povo brasileiro torne-se um povo ativo, “masculino”, “que fecunda”. Salgado incorpora um pensamento sem citação – e essa é a tônica de sua incorporação de Nietzsche. Ele nunca se preocupa em analisar a obra do pensador e mostrar exatamente o que rejeita e o que concorda.
4. Nietzsche: sempre controverso
A conclusão é que Nietzsche sempre foi controverso, até mesmo entre os nazistas: mesmo entre eles foi necessário suavizar contradições (o que, aliás, é próprio de qualquer interpretação unívoca).
Li com curiosidade um artigo sobre Nietzsche de autoria de Flávio Paranhos, na última revista Filosofia, Ciência e Vida. Ele comenta sobre certa periculosidade de Nietzsche, quando em mãos inconseqüentes e cabeças de vento e sobre certa associação, para ele indelével, com o nazismo.
Paranhos, então, descreveu filmes que se inspiraram em crimes que usaram Nietzsche com justificativa. Ora, Nietzsche jamais incita ao crime nem descreve cenas de crimes. Ele apenas arremete contra a moral e o estado psicológico que permite absurdos tais como o assassinato, que para ele é o niilismo. Ele também o combate. Essas pessoas, no fim das contas, citam Nietzsche apenas como despiste. Os fatores que se unem para tornar alguém um criminoso são inúmeros, desde certa disposição biológica até mental (psicopatia), assim como um meio social favorável. A interpretação errônea de Nietzsche é apenas um álibi.
1. Interpretações de Nietzsche entre os fascistas
Mais oportuno que isso é notar que até entre os filósofos que aderiram ao nazismo Nietzsche era controverso. Até mesmo Rosenberg, teórico oficial do fascismo, afirmava que lia Nietzsche “criticamente” (!). Rosenberg considerava que “em seu nome se levou adiante a infecção da raça por sírios e negros de todas as espécies, supostamente de acordo com os seus ensinamentos. Ele caiu nos sonhos de impudicos amantes políticos, o que é pior do que cair nas mãos de uma quadrilha de bandidos”. Já para Ernest Bertram, seu colega também fascista, Nietzsche não era mais que um “revolucionário trágico”. Para Bertram, inspirado em Simmel, Nietzsche lutou contra os mistérios, mas estava intimamente vinculado ao religioso e à “obscuridade sagrada”, dando como exemplo o seu Zaratustra. Já o professor berlinense, também fascista, Alfred Baeumler recusa completamente essa ideia. Para Baeumler, Nietzsche combate ao mesmo tempo o romantismo e a Ilustração, levando uma guerra em duas frentes, iniciando com seu pensamento um novo período da humanidade. Ele o considera precursor do fascismo somente no sentido em que os fascistas igualmente combatiam ao mesmo tempo o liberalismo e o marxismo, mas condena suas tendências “positivistas”, pois para Baeumler Nietzsche não era suficientemente místico. Baeumler, assim como o escritor Franz Schauwecker, conciliam “a interioridade alemã com o poder alemão”, unindo Nietzsche, Bismarck e Wagner, alegando que era necessário fazer esse “encontro antes impossível”. Assim como Rosenberg demonstra saber que Nietzsche já tinha sido, antes do nazismo, filósofo do liberalismo, Baeumler sabe que Nietzsche, em um aforismo de Aurora, coloca Schopenhauer, Wagner e Bismarck como figuras contaminadas pela decadência. A tática de Baeumler, seu intérprete fascista, foi levar algumas passagens de Nietzsche às últimas conseqüências, tirando delas corolários políticos: ele opõe o super-homem ao funcionário da sociedade social-democrata, que seria o “último homem” comentado no Zaratustra.
2. Expurgando Nietzsche
Portanto, para se poder ler Nietzsche como fascista é preciso expurgar vários elementos de sua obra. Para expurgar a crítica de Wagner enquanto decadente, o biógrafo fascista de Nietzsche, o supracitado Ernest Bertram, afirmou que Nietzsche inspirou a crítica que fez ao maestro em um ensaio de Paul Borget, ele mesmo um escritor que Nietzsche considerava um representante típico da decadência moderna. O que os fascistas admiravam em Nietzsche foi essa crítica da modernidade e da democracia como decadência. No entanto, Nietzsche é aparentado a Wagner e entende sua filosofia como superação de seus próprios elementos decadentes; ao opor a Wagner uma pessimista aceitação da vida, seus admiradores fascistas viram nessa negação a fonte de um “realismo heróico” que eles podiam admirar.
3. Nietzsche e o integralismo de Plínio Salgado
A professora Scarlet Marton sempre comenta sobre a apropriação de Nietzsche realizada pelo integralismo de Plínio Salgado. Pode-se dizer, no entanto, que nem nesse autor a interpretação de Nietzsche é uma só.
Nietzsche aparece como inspirador dos liberais no romance O Esperado, publicado por Plínio Salgado em 1931. Personagens como Dr. Nolasco e Marcos possuem um discurso que por vezes cita literalmente Nietzsche, como quando o personagem do advogado Dr. Nolasco soltou da prisão o comunista Mano, tendo em mente Nietzsche, apenas mais um dentre outros inúmeros autores que formavam a mentalidade liberal da república velha (Tardieu, Krafft-Ebing, Lombroso): “Em todo caso, lembrava-se de Nietzsche e achava que duas educações se tornavam necessárias: a dos super-homens (Nolasco, ateu e sibarita) e a das massas (Mano, que falava na pátria e articulava o nome de Deus)” (SALGADO, p. 288). Bem diverso é o pensamento posterior de Salgado, que pretendia converter todos (elite e povo) a um nacionalismo cristão “integral” “espiritual”, ou seja, hegeliano e totalizante, que ele opunha ao materialismo do marxismo e do liberalismo “fragmentários” e “dissolventes”.
Poucos anos depois, no texto Despertemos a Nação, publicado em 1934, Salgado incorporou um aforisma de Para Além do Bem e do Mal para fazer a apologia de seu nacionalismo místico. Nietzsche comenta que existem povos masculinos, os povos que fecundam os que são fecundados. Salgado aproveita-se disso para propor que o povo brasileiro torne-se um povo ativo, “masculino”, “que fecunda”. Salgado incorpora um pensamento sem citação – e essa é a tônica de sua incorporação de Nietzsche. Ele nunca se preocupa em analisar a obra do pensador e mostrar exatamente o que rejeita e o que concorda.
4. Nietzsche: sempre controverso
A conclusão é que Nietzsche sempre foi controverso, até mesmo entre os nazistas: mesmo entre eles foi necessário suavizar contradições (o que, aliás, é próprio de qualquer interpretação unívoca).
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Filme sobre Jean Charles de Menezes
Filme sobre o jovem mineiro assassinado em Londres:
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Selton Mello
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Diogo Mainardi X Glauber Rocha: Maranhão 2009
O Diogo agora implicou com o Maranhão 66, do Glauber, que ele acha favorável ao Sarney. Diogo, não "intertrepa" errado de novo, não!
Muito curioso Arnaldo Carrilho virar esquerdista modelo! Na biografia do João Carlos Teixeira Gomes, ele é extremamente crítico em relação a todo mundo que aparecia no enterro de Glauber. Ele os chama de esquerda festiva em espetáculo de mau gosto, ressaltando a solidão de Glauber no ato de montar Idade da Terra. E eles são Jabor, Zé Celso, Barreto, etc. Insinua mesmo que todos estavam, como se diz na gíria estudantil, "trepando no cadáver". E na biografia está escrito que Glauber ria do azedume de Carrilho com relação a Roland Barthes e Foucault.
Claro que o Sarney e quem é amigo dele tem direito a dizer que o filme é favorável a quem o financiou. Mas esse foi um caso anômalo de documentário encomendado que virou obra de arte. O choque entre o discurso floreado e as imagens de miséria no sertão é crítico em 66 e hoje com a miséria provocada pelo aquecimento global. Porém, acho salutar o Diogo comentar o Glauber. Ele tá de parabéns. Ele precisa mesmo se digladiar com um adversário de verdade.
DO PERSONAGEM
“Tomava eu posse no Governo do Maranhão e fiz uma ousadia que não deveria ter feito com um amigo da estatura de Glauber Rocha. Eu lhe pedira que documentasse a minha posse. Glauber fez o documentário que foi passado numa sala de cinema de arte, há 15 anos. E quando o público viu que numa sessão de cinema de arte ia ser passado um documentário que podia ter o sentido de uma promoção publicitária, reagiu como tinha que reagir. Mas aí, o documentário começou a ser passado, e quando terminaram os 12 minutos o público levantou-se e aplaudiu de pé, não o tema do documentário mas a maneira pela qual um grande artista pôde transformar um simples documentário numa obra de arte: ele não filmou a minha posse, ele filmou a miséria do Maranhão, a pobreza, filmou as esperanças que nasciam do Maranhão, dos casebres, dos hospitais, dos tipos de ruas, e no meio de tudo aquilo ele colocou a minha voz, mas não a voz do governador. Ele modificou a ciclagem para que a minha voz parecesse, dentro daquele documentário, como se fosse a voz de um fantasma diante daquelas coisas quase irreais, que era a miséria do Estado”.
Senador José Sarney, no Jornal do Brasil, (Rio de Janeiro, 25 de Agosto de 1981).
Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões.
Se Glauber estivesse vivo, acho que seria direto: diria algo como: fazer filme no Brasil é mais difícil que escrever na Veja: Mainardi, sua coluna é uma MERDA!
Muito curioso Arnaldo Carrilho virar esquerdista modelo! Na biografia do João Carlos Teixeira Gomes, ele é extremamente crítico em relação a todo mundo que aparecia no enterro de Glauber. Ele os chama de esquerda festiva em espetáculo de mau gosto, ressaltando a solidão de Glauber no ato de montar Idade da Terra. E eles são Jabor, Zé Celso, Barreto, etc. Insinua mesmo que todos estavam, como se diz na gíria estudantil, "trepando no cadáver". E na biografia está escrito que Glauber ria do azedume de Carrilho com relação a Roland Barthes e Foucault.
Claro que o Sarney e quem é amigo dele tem direito a dizer que o filme é favorável a quem o financiou. Mas esse foi um caso anômalo de documentário encomendado que virou obra de arte. O choque entre o discurso floreado e as imagens de miséria no sertão é crítico em 66 e hoje com a miséria provocada pelo aquecimento global. Porém, acho salutar o Diogo comentar o Glauber. Ele tá de parabéns. Ele precisa mesmo se digladiar com um adversário de verdade.
DO PERSONAGEM
“Tomava eu posse no Governo do Maranhão e fiz uma ousadia que não deveria ter feito com um amigo da estatura de Glauber Rocha. Eu lhe pedira que documentasse a minha posse. Glauber fez o documentário que foi passado numa sala de cinema de arte, há 15 anos. E quando o público viu que numa sessão de cinema de arte ia ser passado um documentário que podia ter o sentido de uma promoção publicitária, reagiu como tinha que reagir. Mas aí, o documentário começou a ser passado, e quando terminaram os 12 minutos o público levantou-se e aplaudiu de pé, não o tema do documentário mas a maneira pela qual um grande artista pôde transformar um simples documentário numa obra de arte: ele não filmou a minha posse, ele filmou a miséria do Maranhão, a pobreza, filmou as esperanças que nasciam do Maranhão, dos casebres, dos hospitais, dos tipos de ruas, e no meio de tudo aquilo ele colocou a minha voz, mas não a voz do governador. Ele modificou a ciclagem para que a minha voz parecesse, dentro daquele documentário, como se fosse a voz de um fantasma diante daquelas coisas quase irreais, que era a miséria do Estado”.
Senador José Sarney, no Jornal do Brasil, (Rio de Janeiro, 25 de Agosto de 1981).
Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões.
Se Glauber estivesse vivo, acho que seria direto: diria algo como: fazer filme no Brasil é mais difícil que escrever na Veja: Mainardi, sua coluna é uma MERDA!
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Mangabeira Unber, baiano e prussiano
Seja mais baiano e menos prussiano, disse Caetano a Mangabeira. Ele estava ontem na Band, debatendo. Uma frase curiosa, dita a propósito de seu encontro com Obama:
"O Brasil é o país do mundo que mais se assemelha aos Estados Unidos, embora essa semelhança não seja assumida nem aqui nem lá."
Outra dele (mais ou menos transcrita): estamos nos reunindo com BRIC, Brasil, Índia, Rússia e China. Isso está distante do terceiro-mundismo. Estamos tratando do futuro da humanidade.
"O Brasil é o país do mundo que mais se assemelha aos Estados Unidos, embora essa semelhança não seja assumida nem aqui nem lá."
Outra dele (mais ou menos transcrita): estamos nos reunindo com BRIC, Brasil, Índia, Rússia e China. Isso está distante do terceiro-mundismo. Estamos tratando do futuro da humanidade.
Carmen Miranda e Wittgenstein
Saiu o artigo sobre Carmen Miranda e Wittgenstein:
http://www.thedrillpress.com/broca/2009-06-01/broca-2009-06-01-miranda-lsanto-01.shtml
Espero que gostem.
http://www.thedrillpress.com/broca/2009-06-01/broca-2009-06-01-miranda-lsanto-01.shtml
Espero que gostem.
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Terra em Transe, Nelson Rodrigues, etc.
Contrera me pede para falar mais sobre o Glauber. OK!
Bom, o artigo do Diogo Mainardi continha uma cena do Glauber, a uma discussão entre Paulo Martins e Porfírio Diaz. Depois ele citava uma explicação do diretor sobre o filme que dizia que era uma obra sobre a metáfora, ópera e metralhadora.
Ora, pelo que me lembro, a cena entre Paulo Martins é parte da relação tempestuosa desse poeta com o político que o apoiou no início de carreira: a ruptura. Paulo, que é jornalista e poeta, queria trabalhar com ideais políticas reformistas e comunistas e para isso passou a trabalhar com o governador Vieira, traindo Diaz, traição duramente cobrada por ele com aquelas palavras: "sozinho, Paulo, sozinho". Tudo isso dá a entender que Mainardi tem o DVD de Terra em Transe, o que em si já é surpreendente, espantoso. Quem tem esse DVD aí, dentre meus leitores? Você tem, Contrera?
A jogada de Paulo se mostrou desastrosa é desse tipo de imagem dolorosa que o filme tratou: Paulo era aliado de Diaz e poeta e jornalista protegido dele. Diaz é um político oportunista que Paulo biografou em um filme (que aparece no próprio Terra em Transe) chamado Biografia de um Aventureiro, um esculacho em Diaz. Mas logo ele pagará caro: Fernández, político reformista, caiu diante do golpe de Diaz e da grande empresa Explint. Paulo saiu enlouquecido dando tiros e relembrando os últimos acontecimentos: e essa é a narrativa de Terra em Transe.
Era um filme que, em sua época, estava em cima da notícia: o golpe de 64, que a esquerda estava tentando entender melhor em 67. Curiosamente, ao ler os textos de uma coletânea da UNE de 64 a 79, vi que de início, em 65, os documentos eram bem escritos e claros, analisando a conjuntura e traçando que 64 tinha sido uma aliança do capital estrangeiro e do latifúndio. Depois, nos anos 70, passa-se a pedir apenas direitos humanos.
Mainardi diz que Nelson Rodrigues gostou só da cena em que Paulo Martins tampa a boca de Jerônimo e diz olhando para o espectador, numa cena que exercita o distanciamento crítico brechtiano: "tá vendo o que é o povo? Um ignorante, um imbecil, um despolitizado"! É um grito contra uma certa idealização do povo corrente na esquerda da época, e que até mobilizou Augusto Boal a distribuir panfletos contra o filme nas portas dos cinemas (diz a lenda). Mas, como acabo de ler no Questão de Crítica, se Boal não viu Os Inconfidentes do Joaquim Pedro então é possível. Era uma denúncia construtiva e não uma pirraça infantil como faz Mainardi: "mamãe, eu sou reaça!"
A opinião de Nelson sobre Glauber é algo muito especulado. Nunca li nas crônicas dele algo mais aprofundado sobre Glauber --existe algo sobre Terra em Transe, parece que em A Cabra Vadia. Ele diz só brevemente que Terra era um ideograma chinês de cabeça para baixo. Eu esperava encontrar um comentário muito repetido por muita gente, de que o filme era um vômito triunfal, um tabuleiro de xadrez de cabeça para baixo. Não encontrei. Mesmo Ruy Castro já disse que Nelson é mau crítico de cinema e isso recentemente foi confirmado por uma postagem engraçadíssima de Marcelo Coelho a respeito das mulheres em Antonioni comentadas pelo Nelson: ele dizia que a mulher em Antonioni era a anti-mulher, que Antonioni não gostava de mulher. Logo em seguida, Marcelo postou as deslumbrantes mulheres dos filmes do diretor italiano, a começar pela sensual Monica Vitti e sua famosa boca...
O fato é que a postura de Glauber diante do teatro brasileiro era radical: Rei da Vela era todo copiado de Terra em Transe, exagerava ele. Glauber muitas vezes provocou o teatro brasileiro, como arte que precisava se atualizar diante do cinema e acusava a classe teatral de desprezar de maneira forçada o Cinema Novo, movida por inveja. Vejam o que encontrei no Tempo Glauber:
Nelson Rodrigues fala de "Terra em Transe": ("Correio da Manhã, RJ, 16 de maio de 1967
“Durante as duas horas de projeção, não gostei de nada. Minto. Fiquei maravilhado com uma das cenas finais de Terra em Transe. Refiro-me ao momento que dão a palavra ao povo. Mandam o povo falar, e este faz uma pausa ensurdecedora. E, de repente, o filme esfrega na cara da platéia esta verdade mansa, translúcida, eterna: o povo é débil mental. Eu e o filme dizemos isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e será assim eternamente. O povo pare os gênios, e só. Depois de os parir volta a babar na gravata (...) Terra em Transe não morrera para mim (...) sentia nas minhas entranhas o seu rumor. De repente, no telefone com o Hélio Pelegrino, houve o berro simultâneo: ‘Genial!’ Estava certo o Gilberto Santeiro (...) Nós estávamos cegos, surdos e mudos para o óbvio. Terra em Transe era o Brasil. Aqueles sujeitos retorcidos em danações hediondas somos nós. Queríamos ver uma mesa bem posta, com tudo nos seus lugares, pratos, talheres e uma impressão de Manchete. Pois Glauber nos deu um vômito triunfal. Os Sertões de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda.” (cit. Por Tereza Ventura, em A Poética Polytica de Glauber Rocha. Funarte, Rio de Janeiro, 2000)
E o Rei da Vela era um horror para Nelson: Oswald detestava Nelson e o criticou violentamente sempre que pode: Oswald disse que o teatro de Nelson era um "disco voador de besteira" e o autor um "convento do Aretino" (um hipócrita). Nelson também desprezou explicitamente o teatro de Oswald, que possui o mérito de ter sido publicado -- mas não montado--dez anos antes de Vestido de Noiva e que disputa --embora não no maistream-- o título de renovador do nosso teatro.
Bom, o artigo do Diogo Mainardi continha uma cena do Glauber, a uma discussão entre Paulo Martins e Porfírio Diaz. Depois ele citava uma explicação do diretor sobre o filme que dizia que era uma obra sobre a metáfora, ópera e metralhadora.
Ora, pelo que me lembro, a cena entre Paulo Martins é parte da relação tempestuosa desse poeta com o político que o apoiou no início de carreira: a ruptura. Paulo, que é jornalista e poeta, queria trabalhar com ideais políticas reformistas e comunistas e para isso passou a trabalhar com o governador Vieira, traindo Diaz, traição duramente cobrada por ele com aquelas palavras: "sozinho, Paulo, sozinho". Tudo isso dá a entender que Mainardi tem o DVD de Terra em Transe, o que em si já é surpreendente, espantoso. Quem tem esse DVD aí, dentre meus leitores? Você tem, Contrera?
A jogada de Paulo se mostrou desastrosa é desse tipo de imagem dolorosa que o filme tratou: Paulo era aliado de Diaz e poeta e jornalista protegido dele. Diaz é um político oportunista que Paulo biografou em um filme (que aparece no próprio Terra em Transe) chamado Biografia de um Aventureiro, um esculacho em Diaz. Mas logo ele pagará caro: Fernández, político reformista, caiu diante do golpe de Diaz e da grande empresa Explint. Paulo saiu enlouquecido dando tiros e relembrando os últimos acontecimentos: e essa é a narrativa de Terra em Transe.
Era um filme que, em sua época, estava em cima da notícia: o golpe de 64, que a esquerda estava tentando entender melhor em 67. Curiosamente, ao ler os textos de uma coletânea da UNE de 64 a 79, vi que de início, em 65, os documentos eram bem escritos e claros, analisando a conjuntura e traçando que 64 tinha sido uma aliança do capital estrangeiro e do latifúndio. Depois, nos anos 70, passa-se a pedir apenas direitos humanos.
Mainardi diz que Nelson Rodrigues gostou só da cena em que Paulo Martins tampa a boca de Jerônimo e diz olhando para o espectador, numa cena que exercita o distanciamento crítico brechtiano: "tá vendo o que é o povo? Um ignorante, um imbecil, um despolitizado"! É um grito contra uma certa idealização do povo corrente na esquerda da época, e que até mobilizou Augusto Boal a distribuir panfletos contra o filme nas portas dos cinemas (diz a lenda). Mas, como acabo de ler no Questão de Crítica, se Boal não viu Os Inconfidentes do Joaquim Pedro então é possível. Era uma denúncia construtiva e não uma pirraça infantil como faz Mainardi: "mamãe, eu sou reaça!"
A opinião de Nelson sobre Glauber é algo muito especulado. Nunca li nas crônicas dele algo mais aprofundado sobre Glauber --existe algo sobre Terra em Transe, parece que em A Cabra Vadia. Ele diz só brevemente que Terra era um ideograma chinês de cabeça para baixo. Eu esperava encontrar um comentário muito repetido por muita gente, de que o filme era um vômito triunfal, um tabuleiro de xadrez de cabeça para baixo. Não encontrei. Mesmo Ruy Castro já disse que Nelson é mau crítico de cinema e isso recentemente foi confirmado por uma postagem engraçadíssima de Marcelo Coelho a respeito das mulheres em Antonioni comentadas pelo Nelson: ele dizia que a mulher em Antonioni era a anti-mulher, que Antonioni não gostava de mulher. Logo em seguida, Marcelo postou as deslumbrantes mulheres dos filmes do diretor italiano, a começar pela sensual Monica Vitti e sua famosa boca...
O fato é que a postura de Glauber diante do teatro brasileiro era radical: Rei da Vela era todo copiado de Terra em Transe, exagerava ele. Glauber muitas vezes provocou o teatro brasileiro, como arte que precisava se atualizar diante do cinema e acusava a classe teatral de desprezar de maneira forçada o Cinema Novo, movida por inveja. Vejam o que encontrei no Tempo Glauber:
Nelson Rodrigues fala de "Terra em Transe": ("Correio da Manhã, RJ, 16 de maio de 1967
“Durante as duas horas de projeção, não gostei de nada. Minto. Fiquei maravilhado com uma das cenas finais de Terra em Transe. Refiro-me ao momento que dão a palavra ao povo. Mandam o povo falar, e este faz uma pausa ensurdecedora. E, de repente, o filme esfrega na cara da platéia esta verdade mansa, translúcida, eterna: o povo é débil mental. Eu e o filme dizemos isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e será assim eternamente. O povo pare os gênios, e só. Depois de os parir volta a babar na gravata (...) Terra em Transe não morrera para mim (...) sentia nas minhas entranhas o seu rumor. De repente, no telefone com o Hélio Pelegrino, houve o berro simultâneo: ‘Genial!’ Estava certo o Gilberto Santeiro (...) Nós estávamos cegos, surdos e mudos para o óbvio. Terra em Transe era o Brasil. Aqueles sujeitos retorcidos em danações hediondas somos nós. Queríamos ver uma mesa bem posta, com tudo nos seus lugares, pratos, talheres e uma impressão de Manchete. Pois Glauber nos deu um vômito triunfal. Os Sertões de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda.” (cit. Por Tereza Ventura, em A Poética Polytica de Glauber Rocha. Funarte, Rio de Janeiro, 2000)
E o Rei da Vela era um horror para Nelson: Oswald detestava Nelson e o criticou violentamente sempre que pode: Oswald disse que o teatro de Nelson era um "disco voador de besteira" e o autor um "convento do Aretino" (um hipócrita). Nelson também desprezou explicitamente o teatro de Oswald, que possui o mérito de ter sido publicado -- mas não montado--dez anos antes de Vestido de Noiva e que disputa --embora não no maistream-- o título de renovador do nosso teatro.
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