O meu ex-professor Rodrigo Duarte está lendo um livro de Vilém Flusser intitulado Vampirotheutis Infernalis, texto inspirado nessa Lula de olhos azuis aí da foto, que na natureza atinge grandes tamanhos.
Rodrigo comenta que Vilém parte da descrição taxonômica dessa espécie que habita as profundezas abissais para atribuir-lhe características semelhantes àquilo que, em sua filosofia da comunicação, aparece com o nome de "tecnoimagem". A principal diferença seria que espécie humana demorou milênios para produzir culturalmente o que Vampirotheutis tem impresso em sua própria natureza.
(Baseado na nota "o que eu estou lendo", da revista Cult número 142).
Salmo a la muerte ojos azules - Alberto Destephen, Honduras
La muerte está en su regazo, ojos claros, cabello blanco,en cadena de televisión entonando el nombre de dios. Vitupera el sacrificio,los corderos están en la listadel general. Magia negra, anticristo. La Democracia llora lágrimas negras, sangra en un puñal en nombre de la rosa. Mientras, la muerte esculpe su diadema. Cadena nacional, loros en alambres,máquinas en las calles color verde. Cadena nacional, se condecora al hombre ojos azules, cabello blanco. Dios , Oh Dios , Oh Jehová, Yave. Dime tu nombre verdadero. El circo esta montado; llora Pilatos y se lava las manos con agua tibia y jabón, y pin pon es un muñeco de trapo y de cartón. La muerte ojos azules se arrodilla al perdón del carde mal, al aplauso del rebaño;
todos los intrusos de vidrio cantan al unisonó:“Dios es ojos azules, cabello blanco”. Es cadena nacional Las escenas están listas, el director suena su trompeta, el general conduce los destinos. Indefensión, la muerte de la justicia, de la paz y la libertad. Cadena nacional Televisores a diez por uno…Se ofrece un canal, todas las películas de terror,con el mismo director, ojos azules, cabello blanco y actores consumados, dobles y asesinos. Y de las cinco en adelante no se moverá de su asiento, hombres verdes vigilarán las calles y escenarios. La Muerte en su escritorio enumera a sus analistas, presupuesta la planilla. Pero es el sur que tiene mar, Progresa la conciencia en tierra inmensa; David vence a Goliat. Dios ven a nosotros, Libra de todo mal a las almas puras; líbranos de todos los que nos quieren silenciar por amar la verdad, la justicia y la democracia. Auxílianos; es el juicio del fin, el círculo de los nueve y la bestia de las 128 cabezas. Venga tu Reino Señor. Danos a todos el pan de cada día, aquello por lo que luchamos, por los que resistimos; porque ahora es la hora Recemos , es la vigilia por Patria , pequeña niña…. por los siglos de los siglos. Amen.
Uma peça imaginária CENA 1 Por Gerald Thomas (A e B, dois filósofos "verdes", irlandeses, sentados numa conferência mundial, dispostos a salvar o mundo. Líderes mundiais discursam inutilidades. O diálogo abaixo acontece enquanto Tony Blair justifica, sorrindo, sua "invasão" do Iraque, com ou sem "weapons of mass destruction". A- A imaginação não dava quando dava, quilos de queijo, quilos de porcos, quilos de manteiga, e eu caminhava e rastejava uns bons bocejos quando.... (B bate mão na mesa, interrompe) B- Quando uma face na multidão surgiu e deu-lhe um Berluscão na boca e no nariz. A- Sangrou? B- Pouco. A- Hmm. A- Não o quanto deveria. B- Hmmm. A- Deveria ter escorrido rios. Já que Lindsay Kemp, na Toscana dos céus divinos, via atentamente, sentado, meditando sobre a palavra ausente... a mente ausente e o gesto presente... Berluscar! O ato de Berluscar. Mão direita no nariz e na boca PUM, e PIM e PAM, e a "g-o-t-a" de s-a-n-g-u-e! B- Nada sabem sobre o balé das gerações ou sobre o triste fim das interpretações do fim ou o FIM. A- Nada sabem de mais nada. Agora só sabem de tudo. B- O chocolate derretendo aqui em Copenhague dois centímetros a cada década. A- Para ser preciso, dois centímetros e três milímetros de chocolate derretendo a cada década em Copenhague, digo, as barras do mundo e a supremacia dos países e a imaginação morta imaginando-se capaz de incubar icebergs, e cubos imaginando-se ao quadrado. B- Em Fermanagh, até ainda... A- Chocolate? B- Sim, mas rouba-se da Páscoa até o Natal, quando nasci/ morri e me imaginei na faixa de pedestre em Hampstead, onde o Alan foi morto por um ciclista. Cinza esse dia. A- Foxrock nada tem e nada foi, a não ser a mão de meu pai, mesmo que o... B- ...O "socoBerlusco" faça com que Pozzo segure a corda de todos os escravos do mundo. A- "Taramosalata" que foi só o que os gregos nos deram e foi somente isso mesmo, somente só, nesse mundo só, onde somente estamos sós, uma breve passagem só, passando pelos hema-Thomas e outras feridas e furúnculos da pus ao pós, até o fim, só. A- Aquela alemã hoje não sabe mais distinguir o pão de um tijolo ou tijolo da areia, ou a areia de um montinho de terra. Cinza. B- Nada como ver essa tragédia de derretimento como a camada de choco-ozônio de CO2. Caminhando como estamos, sós, rastejando como vamos, iremos para o Dante escuro, nenhuma luz, nenhuma única luz, nem em diâmetro, nem em largura, somente a espessura do soco Berlusco poderá nos dizer no futuro o quão grotesco fomos aqui neste, durante este... A- (bate, interrompe)
CENA 2 Por Gabriel Villela (A e B agora juntam-se a C, D, E, F, G, H, I e J. Observam a entrada do Sr. KdeKing. Ele representa a entidade CongoOng. Coloca uma caixa de ébano sobre a mesa. Os conferencistas observam. De dentro dela, da caixa preta, e embrulhadas em papel de seda, destes que embrulham maçãs, saem duas mãos de gorila, que iniciam uma percussão. Ponto de Iansã.) Cai a luz.
A videoconferência No telão gigante, imagens ao vivo de um gorila agonizante amarrado a uma maca da Cruz Vermelha (close em seus olhos lacrimosos, depois somente a imagem de sua boca). Nota-se que faltam-lhe alguns dentes. Ele fala muito baixo, com dificuldade respiratória. De vez em quando, ele tenta erguer os braços de onde foram decepadas suas mãos.
Gorila (sussurrando)-IKÚUUUUUUUUUUUUUU-UUUUUUUUUUUUUUUUU-UUUUUUUUUUUUUUUUUU- urrrrrrrmahhhh,rooooouhuuuuummmurrrrrrrrr- rrrrrrrrrrrimahhhhharrrrrrkrafuuuuurhrrrrrrhuuuuuuu- uuAiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiqhee-doorrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!ahahahahaahaha- hahaahahahahahahahah,uhrhuruhrrhurmm- mmmmmmmOLOROGUMOGUMO GUMMMMMMMM Tradutora cor de rosa- Ele está dizendo que dói muito e pergunta se alguém aqui tem morfina para lhe dar. (quebrando a educação e gritando com as mãos do gorila) Dá pra parar um pouco? (as mãos continuam o ponto de Iansã. Homens verdes, involuntariamente, começam uma percussão com a boca, batendo e rangendo os dentes)
A morte do gorila Gorila (fazendo termo)-ARÚMMMMMMMMMMMM-MARÚMMMMMMMMMM-MMMARÚMMMM MMMM-MMMMM-YEWÁ!!!!!!!vmphlufannnnnnhhhhhhhhhhhhrossssss, ahhhhahhhhhhhaaiahhhhahahahahhhohrrohoooooohhhhorrrrrrrooo -ô-ooodooor!!!!!!!!!!!!!!.Uuuuu! Tradutora (em voz já mais controlada)- Senhor macaco, de acordo com as regras da conferência, o senhor tem mais 28 segundos para encerrar seu discurso. (atacada do sistema nervoso, ela berra) Alguém aí da organização pode controlar estas patas?! CARRRRALHO!!!!!!! (o gorila agora tampa os olhos com seus braços cortados, abre a boca, tenta pronunciar um nome... um silêncio de morte) Gorila-Ikúúú.................. ................................... Hans Christian...an-an-nder-sen! (morre) (O par de mãos aplaude freneticamente durante os sete segundos restantes. Muita luz sobre os homens verdes.)
CENA 3 Por Rubens Rusche (Forte explosão. Escuridão. Longuíssima pausa. Silêncio absoluto. Gradualmente, a luz retorna, mas muito fraca. Poeira e ruínas. Tudo cinza. Ninguém. Longa pausa. Voz em "off" de um homem muito velho, moribundo. Ritmo sempre lento, voz muito baixa, no limite do inaudível.)
Voz Loucura. (Pausa) Tudo isso. (Pausa) Loucura. (Pausa) Tudo isso aqui. (Pausa) Ter visto tudo isso aqui. (Pausa) E ouvido. (Pausa) Ter ouvido tudo isso aqui. (Pausa) Loucura. (Pausa) Visto, não. Entrevisto. Toda essa loucura. Mal visto e mal ouvido. (Longa pausa) Tudo acabado agora. (Pausa) Explodido. (Pausa) Só restaram ruínas. (Pausa) Cinzas. (Pausa) Mas o sol - (Pausa) Não tendo outra alternativa, o sol brilhou sobre o nada de novo. (Longa pausa) Loucura. (Aos poucos, nas ruínas e no meio da poeira, surge um crânio. Gradualmente, a luz vai se extinguindo, até restar apenas um foco no crânio. Longa pausa. Silêncio. Foco se extinguindo ao som de uma longa expiração. Cinco segundos. Escuridão e silêncio absolutos.)
(Cenário: terreiro de umbanda. Música: Cancro Molly, de Satanique Samba Trio. Personagens: Pózzon de Higgs, Cacilda Beckett e Preto Velho).
Preto Velho: É, Mizifi, vô vê se vai dá prá baixá o Samuer para você, tá? (Toma um gole de cachaça e dá um trago em um beck).
Pozzón: Metateatro.
Preto Velho (baixando o santo): Não.
Pózzon: intrateatro?
Preto Velho: sim.
Pózzon: O tempo...voraz monstro janusiano...o hábito e a rotina...coleiras que atam os sujeitos a seu vômito...o indivíduo como acúmulo de eus mortos...superpostos como as camadas de uma cebola...
Preto Velho: Nada é mais engraçado do que a felicidade.
Cacilda Beckett: Estamos sobre um platô. Me segura que vou dar um troço!
Pózzon(imitando o trapalhão Mussum): colisão de hádris, Cacilds!
Cacilda: Estou acabada. A bota. Não entra. Não sei se ela diminuiu ou se foi o pé que cresceu.
Preto Velho: a fornalha de luz infernal! A santa luz! Alguém está olhando para mim ainda. Olhos nos olhos.
Pózzon: eu quero a partícula Deus! Particularmente.
Cacilda: quem está no palco? O que está acontecendo?
Preto Velho: Então voltei para casa, e escrevi. É meia-noite. A chuva está batendo nas janelas. Não era meia noite. Não estava chovendo.
(Um som ao fundo: Ping! Surge uma TV sem imagem, desintonizada)
Pózzon: Vamos ao que interessa. Beckett, você morreu há vinte anos, tem algo a acrescentar? Por que você escreve?
Preto Velho: (Olha o outro em silêncio e responde lentamente): só sirvo para isso.
O artigo de César Benjamin virou um "trenzinho" repugnante: César enraba Lula que enraba o Menino do MEP que nega ter sido enrabado por Lula e que acha que é tudo uma coisa da Folha e do PSDB para enrabar o PT que enrabou Cezinha que é enrabado por Paulo Henrique Amorim onde Manoel denuncia que na Suécia fofocavam que Cezinha tinha sido enrabado na prisão e que não quer assumir que foi enrabado e por isso tenta enrabar Lula que é enrabado por Calligaris enquanto o Observatório da Imprensa de Alberto Dines enraba a Folha e por aí vai...
Ufa! Aí vai O poema citado pelo César Benjamin no polêmico artigo:
Aniversário
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
[473]
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
É perturbador ler Estranha Tribo de John Hemingway. Mas eu digo isso com a melhor das intenções. Muito da literatura em nossa história não é objeto confortável de contemplação. Strange Tribe é uma estranha trip, ou talvez, uma odisséia; uma mistura disfuncional de fracassos familiares de um homem contra sua imagem ao avesso. John, ao contrário de seu pai e avô, é um contador de histórias “normal”, sobrevivente e capaz de contar essa fascinante história de família num jeito simples e quase irônico, depois de ter vivido e visto dias e noites a si mesmo e ao pai através do espelho quebrado de um circo de horror.
É um forma irônica de explicar o que parece inexplicável. Esse livro pode até não ter o impacto conceitual no leitor que possui a vida e obra de Oscar Wilde, mas é provavelmente a primeira coisa que vem à mente, assim como os trocadilhos. Ernest Hemingway era o ideal de masculinidade para seu filho, e depois de muitas falhas em ser bem sucedido como o pai (obcecado como era com o paizão, um escritor famoso), fracassou no sentido lato da palavra. Kafka vem à mente. Sua famosa Carta ao Pai, quero dizer. Mas Strange Tribe não é certamente escrita para ser interpretada como uma tragédia ou um melodrama. Existem tantas passagens engraçadas. Eu disse engraçado? Sim, engraçado, emocionante, quente, são espantosas imagens da condição humana e, é claro, instantes das vidas (são tantas) que encontraram pela frente esse touro que era Ernest Hemingway. É difícil não notar o estresse com que John faz a descrição de seu pai Greg, sua luta contra a depressão e o próprio fato de que nascera na Grande Depressão. Culpado do suicídio de Ernest em 1961, Greg acabou trocando de sexo: outro movimento que parece fictício, uma curta história curta para uma vida tão curta. Greg Hemingway morreu como mulher.
A importância de ser doidão
Tanto desentendimento aqui em sua família, tanta natureza aqui que eu às vezes me vejo imerso no mundo de outro irlandês: mundo de Samuel Beckett e seu texto “Primeiro Amor”, que é um texto sobre o momento quando uma mão de criança toca a mão do pai, mas sem qualquer outro significado que possa ser tirado. Pai e filho apertando as mãos, claro e simples. Mas não é justifável somente pelo amor. Antes de ler o livro, eu pensava em Hemingway como um lutador de boxe, um toureiro. Um homem que tinha um relação de amor e ódio com América e amava Cuba, tendo trabalhado de repórter na Guerra Civil Espanhola. Depois de Strange Tribe, eu penso que em Greg em um trocadilho com Guernica, de Picasso: Greg-nica, com sua claustrofobia e uma solitária lâmpada pendurada através das sombras, assim como é duro perder a guerra contra seu pai. Talvez eu tenha lido o livro de cabeça para baixo. Talvez o livro seja um acerto de contas com uma luta familiar, talvez eu o tenha tomado como uma obra-prima de construção/desconstrução, assim como do desconforto que as melhores obras literárias em nossa história precisam ter.
Contardo Calligaris, em artigo a respeito da sórdida polêmica César Benjamin/Lula, citou hoje Pier Paolo Pasolini em artigo na Folha de São Paulo. O artigo é para fundamentar o argumento "a boçalidade não é prerrogativa de classe", compartilhado até por um Reinaldo Azevedo, ou melhor, desculpa para um Reinaldo Azevedo rebater críticas a Lula que seriam dirigidas a toda uma classe social.
Calligaris queria dizer que não só a burguesia é boçal, mas o operário também pode ser, ou a classe operária; Lula, apesar da origem operária, pode agir como um boçal, dizendo numa piada que, em carência sexual, traçaria qualquer um, mesmo à força, esse é o argumento de Calligaris, utilizado em diálogo com os leitores. Uma tentativa rasa de psicanalisar o episódio e ajudar a Folha a não ser "enrabada" junto aos leitores. Ao tentar tirar o seu reto da reta, Calligaris faz com que a baixaria renda ainda mais; o assunto fede. Mas precisamos enfiar a mão na merda, mas depois tem recompensa, tem poesia. Vejamos.
Aliás, o que diria Pasolini de um episódio assim? Ele poderia psicanalisar Lula. Lula queria "enrabar" simbolicamente Benjamin com essa piada, pois Benjamin é bonito e Lula não é, mas acabou, agora, muitos anos depois, "enrabado" politicamente por ele, de surpresa, em seu momento mais feliz, aquele em que ele está construindo uma estátua de si.
Para mim, o escândalo não está no fato em si, na tentativa de estupro em si, que, pesquisada, não rendeu, não se confirmou, mas no episódio particular tornado arma política. Lula merece essa "enrabada" simbólica? Talvez ele sinta agora, como um personagem de Jabor em seus filmes, "um macho canalha morrendo dentro de mim". Ou não!
Pasolini talvez dissesse que a boçalidade do burguês é algo muito mais profundo, estrutural e sistêmico do que a estupidez ou a grosseria do proletário. Lula é um espetáculo repugnante aos olhos de um olhar que tome o ponto de vista da classe operária: um ex-operário que é tão irresponsável com os interesses da classe trabalhadora quanto a crítica infeliz de César Benjamin, que só tem o mérito de abrir o debate sobre O Filme Filho do Pai dos Pobres do Brasil, mais nada.
Depois de debater esses "fragmentos de um discurso horroroso", passemos para um poema do livro citado por Calligaris:
03 Novembro 2008 pier paolo pasolini / as cinzas de gramsci
IV
O escândalo de me contradizer, de estar contigo e contra ti; contigo no coração, à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;
traidor da condição paterrna - em pensamento, numa sombra de acção – a ela me liguei no ardor
dos instintos, da paixão estética; fascinado por uma vida proletária muito anterior a ti, a minha religião
é a sua alegria, não a sua luta de milénios: a sua natureza, não a sua consciência; só a força originária
do homem, que na acção se perdeu, lhe dá a embriaguez da nostalgia e um halo poético e mais nada
sei dizer, a não ser o que seria justo, mas não sincero, amor abstracto, e não dolorida simpatia…
Pobre como os pobres, agarro-me como eles a esperanças humilhantes, como eles, para viver me bato
dia a dia. Mas na minha desoladora condição de deserdado, possuo a mais exaltante
das poses burguesas, o bem mais absoluto. Todavia, se possuo a história, também a história me possui e me ilumina:
Algumas observações sobre esses assuntos recentes. A polêmica César Benjamin versus Lula: a pior posição é a esquerda independente, dizia o Glauber Rocha: apanha da esquerda oficial e da direita.
Benjamin é esquerda independente. Há muito vem criticando o governo Lula com bons argumentos, mas agora que fez uma observação pessoal na Folha, levantando a hipótese de Lula ter tentando forçar um garoto do Movimento da Esquerda Proletária na prisão em 1979, é que ele obtém repercussão. A mídia vende é com o escândalo, a baixaria é que é comentada. Triste, mas Benjamin vai continuar como importante crítico da esquerda pela esquerda. Lula já disse absurdos sobre a luta armada, dizendo que os guerrilheiros não deram conta nem de umas muriçocas. Ninguém se importou. Agora, Cezinha fez um ataque particular que pôs em polvorosa a militância petista e a base governista; ele fez despertar o fantasma da ex-mulher de Míriam em 1989, que com seu ataque pessoal devastou a campanha de Lula, assim como arrasou Lula psicologicamente, a olhos vistos.
Pena que ele não criticou a estética do filme do Lula, totalmente devedora da Globo e de suas telenovelas. Fora o anacronismo de colocar Zezé Di Camargo e Luciano como trilha sonora de acontecimentos dos anos 70. E isso, por sugestão política de gente do PT. Enquanto Dilma bate na Globo em seu blog, chamando os jornalistas da grande rede de tucanos, o filme de Lula transmite a mensagem contrária: produto audiovisual só dá certo com o melodrama sem distanciamento crítico algum da telenovela, filme nacional só dá certo copiando a estética subroliúde da Globo. É, Lula, as imagens falam por si!
Deve-se criticar Lula e seu filme: qual o legado teórico de Lula? Existe um certo obreirismo no PT, como subsequente mitificação da figura do operário? Que valores ou antivalores Lula representa? O filme ensina ao povo o quê, objetivamente, que ensinamento ele dá às massas? Ele simplesmente apela para que se mitifique um político, mostrando-o como um super-homem, dando a entender que se deve segui-lo e eleger a Mulher Maravilha que o Superman apontar?
Para fazer essa crítica tão necessária, deve-se evitar tanto o ataque particular de Cezinha (que, pelo menos, abre o debate sobre o filme de Lula) quanto o ataque boboca e confuso de Caetano Veloso, que insiste em dizer besteiras, agora dizendo que Lula não sabe conjugar "substantivos e artigos" (deveria falar em concordância nominal, conjugação é para verbos) e o pior, em Portugal. Caetano: não são os linguistas brasileiros que idealizam a fala de Lula, é você que idealiza, com a cabeça colonizada, o português de Portugal, desejando impô-lo aos brasleiros como o mais bonito, o mais chique, o mais elegante...