Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
sábado, 17 de novembro de 2018
Maneiras
Maneiras
Ivelisse Álvarez
Na forma como se partem os galhos de árvore
Vou encontrar
a maneira de que o morto ressuscite.
Nela meu coração se sabe
O suficiente niilista
Como para dizer que a beleza
São esses momentos
Nada têm a ver as flores
Com os videogames.
Na forma como você me olha
Vou encontrar a forma
Menos desesperadora de morrer.
O Amor e a Beleza
Ando pela cidade
e encontro o amor
O amor me paga com moedas de reinos extintos
Com notas gastas de impérios arruinados
e encontro o amor
O amor me paga com moedas de reinos extintos
Com notas gastas de impérios arruinados
E mais adiante encontro a beleza.
A beleza é uma mulher de cem quilos.
E eu me caso com ela.
A beleza é uma mulher de cem quilos.
E eu me caso com ela.
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Au Revoir Bonjoir
Extrait du livre Impressions du Cinéma
Au revoir!
Ça ne devrait pas être bonjour?
la balance sur la corde
la peur de la défaite
Je veux être heureux
Quitter le monde pour la rencontrer.
Et puis tu ne me reconnais pas dans un monde différent
qui espérait trouver la paix a fait comme Jumper
Il s'est téléporté au Colisée de Rome
A marché le chemin Ape
Et assis sur le sphinx en Egypte
Donnez-moi un coup d'oeil à votre plateau, après avoir visité le village de l'empereur Hadrien
Près de rome
"La femme a besoin d'amour, alors elle le choisit
L'amour pour l'homme s'impose "
Hésiter, choisir, rester
Jusqu'à ce que vous sachiez et que vous vouliez continuer
La reconstruction de l'objet
Le désir, la force en moi
Je suis avec toi parce que je t'aime
Je t'ai choisi parce que je veux construire une relation avec toi
"Ce n'est pas le sens de la vie qui compte, c'est le sentiment de la vie-- le film
Fou de toi
Septembre 2006
Inspiré au film Reconstruction d´Amour
sábado, 5 de maio de 2018
Nota sobre a nossa greve
A
assembléia do dia 23 de abril definiu que nós, professores do estado de Minas Gerais, voltaríamos a trabalhar, mantido o
estado de greve, ou seja, poderíamos, em tese, voltar a fazer greve a qualquer momento. A companheira Elzenir Apolinário criticou essa postura, dizendo que tem experiência e isso representa o fim da greve. Há alguns dias, a PEC que estabelece o reajuste dos
professores foi aprovada na assembléia.
Nessa assembléia falou Guilherme Boulos, candidato a
presidente pelo PSOL, advindo do Movimento dos Sem-Teto. O discurso de Boulos
volta-se para temas como reforma urbana e agrária, assim como está também
ligado à libertação de Lula, sem entrar em maiores detalhes. Havia uma faixa
pedindo “Lula livre”. Outras vertentes estavam representadas: o PSOL utilizando
largamente a imagem da vereadora assassinada Marielle. Igualmente, havia um
boletim da Gazeta Revolucionária
convocando a criação de um partido para revolução e não para eleição (segundo
meu amigo Dionata Ossovsky, essa Gazeta
é trotsquista). A Gazeta explica a PEC como forma de obrigar o governo do
estado a pagar o piso federal não passaria de um golpe para acabar com a greve.
O sindicato seria derrotista segundo a
Gazeta, assim como o PT seria derrotista, pois a burocracia sindical pode
perder privilégios.
É curioso como o PSOL girou de acusador ferrenho da
corrupção do PT para a posição a favor do presidente Lula e sua libertação.
Curiosa posição. Denuncia-se escândalos de corrupção, mas quando o governo cai
–devido à sucessão de escândalos, inclusive— passa-se à posição contrária,
levando-se em conta o fato de que a direita tradicional roubou a nossa
bandeira, mas que não deixa de ser curioso. Esse giro levanta a dúvida de que
esses grupos são somente linha auxiliar do PT.
A vertente com a qual concordo e que propõe o voto nulo e
denuncia a farsa eleitoral estava presente –e notei o quanto incomoda. Propunha
a continuação da greve, mas o meu grupo da cidade de Bom Despacho definiu que
não temos condições de continuar a greve. Como algumas escolas pararam, outras
não, as paradas passaram, inclusive, a perder alunos. Perdi uma turma e perdi salário.
A PEC recentemente foi aprovada por unanimidade.
domingo, 10 de setembro de 2017
Cenas Deliciosas de Antropofagia: O Widu de Lagares
Em seu romance Widu, Muito Além do Silêncio, romance da história da
Filosofia, o especialista em hipnose, coronel da PM e mestre em aikidô Alcino Lagares enfrenta um desafio: trazer a Filosofia de uma forma
ágil e facilitada para os jovens. E é bem sucedido. O livro tem muitos
diálogos, ilustrações, adota todo um formato editorial atraente e arejado.
A narrativa conta a viagem de um
grupo de sábios brasileiros à Nova Guiné, selva selvagem onde são aprisionados
por um grupo de antropófagos. Uma vez presos, são submetidos a um desafio por
parte do sacerdote local: ou respondem o motivo pelo qual existe tudo ao invés
de existir nada ou são devorados num ritual antropófago. Essa provocação motiva
os sábios a saborosas discussões sobre o ser e o nada para não serem comidos.
Ora escrito num tom de pornochanchada
filosófica, ora história da Filosofia de uma forma ao mesmo tempo digestiva e
com sabor brasileiro, esse banquete homérico onde Alcino reina nos diverte e instrui.
Retomando indiretamente o conceito filosófico brasileiro mais bem sucedido
mundialmente (a antropofagia de Oswald de Andrade) a uma narrativa ao mesmo
tempo máscula e sexy, consegue misturar monadologia e sexo. Sendo assim, em sua prosa
gostosa aprendemos muito sobre as “mônicas”, como dizia Caio Fernando Abreu,
também ele um antropofágico escritor estudante de Filosofia. Com uma desenvoltura e irridescência tropical que surpreenderia muito o filósofo de Konigsberg, as antinomias
masturbatórias kantianas são temperadas com bastante sexo, Freud e Lord Byron.
As divagações, no entanto, não
chegam a bom termo, uma vez que surge um conflito entre o líder político e o
líder religioso dos antropófagos. O ponto aqui parece-me ser um seguinte: os
discursos se esbatem e não sabemos ao certo em que ponto finalizou a discussão,
o livro a deixa em aberto. Ou melhor: pode-se depreender que as conclusões são,
como as do filósofo platônico Russel Blade, alter
ego do Cel. Lagares, agnósticas, ou seja, não se pode dizer nem que Deus
existe ou não existe. Porém, pode-se supor que, atualmente, no embate entre
ciência e fé, a ciência e a razão estão num estágio tal que conseguem vencer a
religião.
A
meu ver, Alcino obteve sucesso em seu intento: a grande discussão que ele
focaliza é uma discussão comum entre adolescentes e jovens hoje em dia: a
oposição entre ciência e fé, entre materialismo e idealismo. E essa discussão é
que forma o clímax de seu romance, quando debatem um rabino, um cientista ateu,
um arcebispo e um professor de Filosofia agnóstico, é bem interessante, ágil e
azeitada, podendo efetivamente atrair o interesse do público que ele visa ao
escrever um livro.
O livro possibilita um interessante
confronto com Mundo de Sofia de
Jolstein Gaarder. Enquanto o Mundo de
Sofia é um livro para uma moça, Widu é masculino: há golpes de aikido,
confrontos com nativos antropófagos, viagens internacionais a um país como a
Nova Guiné, muito sexo, antropofagia e aventuras. Há muita ação, enfim,
elemento que é sacrificado em prol das discussões filosóficas em O Mundo de Sofia. Além da derrota dos
nativos com golpes de aikidô em sequências ao estilo do cinema norte-americano,
há também uma história de amor e sexo em uma ambiência como a do filme “Lagoa
Azul”. O livro tem todo um vocabulário próprio, numa mistura filosófica eclética
e trepidante.
Em suma, ao final do livro não há
como não terminar gritando: “Kakhua! Laleô!” “Kakhua, laleô”, Alcino!
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Violetas de Aleluia
Eu dividia o quarto com o meu irmão Lúcio,
7 anos mais velho que eu. Óculos fundo de garrafa, muitos graus de miopia e uma
péssima coordenação motora. Ele não tinha nenhuma aptidão para nenhum esporte e
era visto como excêntrico e desajustado pelos outros meninos do prédio em que
morávamos. Um enorme conjunto de 16 andares com 3 apartamentos por andar e dois
blocos divididos por um divertido playground no bairro Luxemburgo, em Belo Horizonte.
Foi fuçando nos cadernos de Lúcio que
encontrei “Violetas de Aleluia”, uma compilação de seus poemas impressos em
papel ofício que ele mesmo mandara encadernar. Uma linguagem complicada pra mim
naquela época. Eu tinha 12 anos, creio. As imagens que ele criava, aquela
atmosfera onírica e surreal, James Dean, necrófilo indo “passear” no cemitério.
Ou a interessante “Elegia ao Fliper Pornô”,
que falava de sexo virtual através de
máquinas de fliperama.
Tudo aquilo me fascinou, a fauna e a flora
urbana que povoavam aqueles poemas. As drogas, a rejeição, a inadequação dos
sonhos juvenis ao mundo dos adultos, o spleen, a solidão, a cultura beat, a
cultura pop, os andróides e os anjos com que Lúcio sonhava. Que eu me lembre,
foi nessa ocasião que eu tive vontade de escrever alguma coisa que fosse minha,
que não fosse uma redação de colégio ou uma coisa escrita simplesmente por
obrigação.
Desde então passei a freqüentar os
cadernos de Lúcio, copiar o seu método de escrita e, confesso, roubava às vezes
alguns versos. Fui me familiarizando também com as coisas que ele lia na época:
Allen Ginsberg, Laurence Ferligetti, Rimbaud, Jorge Mautner... Por tudo isso,
creio que a minha formação como leitor se deve muito ao Lúcio, que é escritor e estudioso de literatura e ainda
hoje me apresenta coisas novas e inusitadas quando nos encontramos.
Enfim, pra mim é inevitável remeter minha
iniciação no mundo das letras à influência de meu irmão, pela reverberação
afetiva que eu tenho da época em que ainda morávamos juntos e dividíamos o
mesmo quarto. Lúcio tinha a mania de ler deitado na cama penteando o cabelo, o
que era bastante cômico, pois ficava ali horas a fio fazendo isso, às vezes
passava o dia inteiro. Esse seu hábito era bastante conhecido por todos em casa. Nunca entendi o
que ele quis dizer com “Violetas de Aleluia”. Nunca me esqueci dessa imagem. Logo,
deixo aqui minha homenagem.
quinta-feira, 27 de julho de 2017
Fina Prosa Crítica: Uma Carta
Fina Prosa Crítica: O Paulo Lins
de Hoje é o Tito Batini de Amanhã?
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Li atentamente,
no número de dezembro de 2006 da Revista piauí,
o ensaio de Roberto Schwarz a respeito do livro de Gilda Mello e Souza. Reconheço
que Schwarz é um grande crítico literário.
Para
comentar um artigo sobre um livro que, por sua vez, trata de outros filmes e
livros, fica-se numa situação complicada, afastado das fontes primárias. Meu
ponto não é nem se o comentário chegou a ser humilhante de tão bom. O fato que
me chamou a atenção foi o comentário sobre Exercícios
de Leitura, exercícios esses que diminuem determinados filmes do Cinema
Novo, ainda que a intenção não seja essa, explicitamente. Até esse momento do
artigo, eu estava gostando, pois não vejo problema que alguém trate de moda sem
falar em nada que esteja em moda na atualidade.
Não
concordo que no mesmo artigo fale-se mal de O
Desafio e se elogie Terra em Transe.
Existem amplas
relações de continuidade entre os dois filmes e que aparentemente não foram
estabelecidas por Gilda Mello e Souza em 1981.
Vendo ambos os
filmes, pode-se notar que o personagem de Paulo Martins de Terra em Transe está intimamente ligado ao Marcelo, o personagem de
Vianinha em O Desafio. Um continua
o outro, num contexto diferente; no quarto de Marcelo, em O
Desafio, aparece um cartaz do filme de Glauber Deus e o Diabo na Terra do Sol. Paulo é Marcelo radicalizado dois anos depois,
compreendendo um pouco melhor os acontecimentos que para Marcelo ainda eram
incompreensíveis, pois, de dentro da fossa aberta em 1964, Marcelo ainda via
tudo escuro. Pode-se dizer que ambos permaneceram ainda muito ligados ao mundo
burguês que verbalmente ambicionam destruir. Paulo Martins sofre e agoniza,
atormentado pela figura de Porfírio Diaz, o traiçoeiro líder político que acaba
de dar o golpe em Eldorado, e não pelo fraco Vieira, incapaz de decisões nos
momentos oportunos, e destinado, portanto, à lata de lixo da História. Isso num
momento em que o presidente Lula, um misto do operário Jerônimo e do pragmático
Vieira, proclama a quatro ventos estar aguardando o julgamento da História.
Mas
deixemos a política de hoje em dia e voltemos para a fina prosa crítica: Gilda
trabalha com a premissa de que em Terra
em Transe não há esse mesmo dilaceramento que em O
Desafio, por achá-lo melhor resolvido ao descrever o
episódio do comício com uma visão grotesca e contraditória do povo. Ela
encontra para essas imagens nobres tradições pictóricas, enquanto em O
Desafio o diálogo seria excessivo, e o conflito, uma
falha ruim e inconsciente. No entanto, o conflito entre o que é dito e o que é
mostrado é tanto consciente quanto tematizado, em ambos os filmes. Ela deixa de
lado, em Terra em Transe, os bailes
no palácio de Diaz, quando, na sala com Danuza e o Peri da ópera, entre taças
quebradas e síncopes de jazz, Paulo
Martins velejava os chamados mares do não.
Saraceni
respondeu a várias dessas críticas a seu filme em Por
Dentro do Cinema
Novo, Minha Viagem, uma autobiografia datada de 1993. Por exemplo: “Pode-se
objetar, talvez, que a dialogação é excessiva, e que nem sempre as falas são
válidas como falas cinematográficas; mas, apesar disso, não há no filme uma só
frase que não tenha validade como idéia, como captação de um momento histórico
recente, como comportamento das personagens em relação a seu meio e a sua
classe” (p.198). “Aos que acusam o filme de superfalado, poderíamos retrucar
acusando-o, também, de supersilencioso. Se o filme tem, praticamente, dois
personagens e seu tema é o desentendimento entre um homem e uma mulher, em
função de uma circunstância política, o diálogo é a expressão necessária desse
desentendimento (...). A conversa é descontínua e o silêncio, além de imantar
impressionisticamente a ambiência, do conteúdo das falas, funciona ao mesmo
tempo como elemento de contraste e de ênfase dos diálogos” (p. 207). Não se
pode dizer também que exista dubiedade político-ideológica nesse filme: dentro
dele há um close de Maria Betânia
falando das estatísticas dos nordestinos que fugiam da fome e da seca para o
Sul do país, no espetáculo Opinião; no
final, o personagem recusa relacionar-se com o escritor cínico e sua mulher, e
o filme se encerra ao som de uma letra de Gianfrancesco Guarnieri em parceria
com Bertold Brecht, musicada por Edu Lobo, na peça Arena Conta Zumbi. Que não seja reeditada uma crítica a O Desafio sem levar em conta essas
respostas, portanto.
Para encerrar
esse comentário a respeito de Fina Prosa
Crítica falando sobre algo em moda na atualidade, lembro o último grande
feito de Roberto Schwarz: ele indicou para a publicação, pela Companhia das
Letras, o romance Cidade de Deus, do
ex-favelado Paulo Lins, um romance violento, com pouco humor e longo;
tratava-se, no mais, de um romancista iniciante, embora já acadêmico experiente
na área de Ciências Sociais. A indicação foi claramente decisiva para sua
publicação.
O
romance mostrou-se um grande sucesso, vindo a tornar-se um filme igualmente bem
sucedido em termos de público e crítica, o que é raro no país; ainda chegou a
concorrer como melhor filme estrangeiro em Hollywood,
tendo perdido a competição, mas ganhou uma boa possibilidade de divulgação em
termos mundiais. Creio que dificilmente algum outro crítico brasileiro alcançou
tão alto triunfo, tão grandes conseqüências em uma aposta alta como essa.
Faço,
então, uma associação lembrando um “caso” literário: Antonio Candido, mestre de
Schwarz, também indicou pelo menos um autor bem sucedido no passado: Tito
Batini. Tratava-se do livro de alguém de origem humilde, um “ferroviário que
queria escrever”, como dele disse Oswald. Oswald de Andrade desentendeu-se com
Batini, julgando sua obra ainda imatura, e Candido acusou Oswald de criticar
sem analisar. No entanto, seu tempo o contrariou: Batini ganhou inúmeras
críticas favoráveis, foi traduzido e incensado, como registrou Oswald em Ponta de Lança: “O seu volume foi
apadrinhado pelo guerrilheiro Rubem Braga, premiado por Diretrizes, traduzido
pelo sr. Putnam...Se houvesse prêmio Nobel, ele não escapava!”
A propósito do
tipo de iniciativa crítica que Candido fez no passado, e que Schwarz realiza
hoje em dia, deixo a pergunta: quem lê, hoje, Tito Batini? Quem sabe quem foi
ele? Por que Candido e Schwarz, que são vivos e ainda produzem, não escrevem
ensaios sobre essa figura? Será esse o destino de Paulo Lins?
Bom, por
enquanto não acho importante alongar mais essa carta. Entre a esperança e a
ânsia, aguardarei que estejamos comentando avidamente Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, lá pelo ano de 2045, assim
como estamos discutindo O Desafio
quarenta e dois anos depois de seu lançamento.
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