sábado, 25 de fevereiro de 2023

Feto de Gerald Thomas: Nelson Rodrigues Jumps The Gun!

 

Feto de Gerald Thomas: Nelson Rodrigues Jumps The Gun!

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

 

Resumo

 

Esse ensaio busca investigar a adaptação realizada por Gerald Thomas da peça Doroteia de Nelson Rodrigues. Gerald fez uma releitura onde sobressai o seu estilo, mais do que o de Nelson. Doroteia, mais do objeto de uma montagem, é “montada” por uma personagem travesti, Doroteia é um homem trans. A encenação de Gerald Thomas, altamente autoral, retoma apenas fiapos narrativos do texto e atêm-se ao entorno. Gerald faz de Doroteia uma obra em progresso. O que é detalhe no texto de Nelson, como o leque, é um signo hipertrofiado e hiperbólico no “ensaio” de Gerald. Gerald toma Duchamp e o ready made com um caminho para tornar ampliar e tornar hiperbólicas as tendências vanguardistas contidas nesse texto de Nelson Rodrigues.

 

            Palavra-chave: Doroteia, vanguarda, Nelson, teatro, Gerald Thomas

 

1.Introdução

 

“Nelson Rodrigues é só pornográfico. Dias Gomes é pornográfico e subversivo”              Carlos Lacerda

 

            No ano que passou de 2022, autor e encenador Gerald Thomas conseguiu realizar o sonho de adaptar Nelson Rodrigues, obtendo o direito de adaptar a peça Doroteia. Gerald intitulou-a Estudos de Doroteia Subindo a Escada, inspirado no Nu Descendo a Escada, de Duchamp. O título reforça a ideia de que Doroteia é uma obra que apresenta-se como obra que pretende mostrar suas próprias engrenagens enquanto é exibida.

            Curiosamente, o clima presente nas obras de Thomas, do mundo depois da catástrofe, tornou-se incrivelmente rotineiro nesse Brasil de 2023. Após três anos em que as pestes bíblicas parecem ter vindo ao mesmo tempo e não uma de cada vez, com a peste do fascismo, pandemia de coronavírus e crise econômica mundial vieram conjugadas. Somaram-se a isso episódios como a queima do pantanal, genocídio e devastação na Amazônia, desastres ambientais ligados ao petróleo e a rejeitos de mineração. Como se tudo fosse pouco, houve a repetição colonizada da invasão do Capitólio por militantes de extrema-direita, causando quase uma guerra civil entre PM e exército, bem como milhões de prejuízo ao patrimônio público.

            A peça mostrou a volta de uma mulher que não respeitava a moral patriarcal (Doroteia) para junto de sua família, que a considera morta para elas, morta para essa moral. As irmãs a punem por sua beleza e por sua rebeldia  contra as regras sociais que elas seguem. Um dos traumas que ela traz é a perda de um filho nascido pré-maturo, “um feto”, morte essa que a persegue.

            Muitos anos atrás, ao tempo de Flash and Crash Days, o crítico de teatro norte-americano David George já tinha observado a relação existente entre a peça com a mãe e a filha e as peças de Nelson Rodrigues. E tinha sugerido a Gerald adaptar uma peça de Nelson ao seu estilo, sem palavras, numa “antropofagia wagneriana”. Gerald, no entanto, não obteve, nos anos 90, direitos sobre Doroteia e, agora, ao obtê-los, adaptou a peça com ajuda do mesmo David George.

 

2. Dissecar o Embrião de uma Peça: Chega de Beckett?

 

Para Fernando Peixoto, em Teatro em Movimento, quem sabe Vestido de Noiva foi a ascensão da burguesia no teatro brasileiro, entendendo-se “burguesia” no sentido de negação de valores nacionais-populares que outras peças vinham desenvolvendo, dando, daí por diante, no ecletismo burguês do TBC. Ora, se Vestido de Noiva foi a ascensão, o teatro de Gerald Thomas é sua apoteose. A partir dos anos 90, o teatro de Gerald Thomas não é mais o ponto de chegada do teatro brasileiro, mas sim passa a ser ponto de partida, algo a ser revisto e superado. Nota-se, por exemplo, o claro diálogo com sua estética, num aproveitamento narrativo, na peça O Vampiro de Curitiba, de Felipe Hirsch. O encenador curitibano inspira-se no teatro de Gerald Thomas e no teatro dos anos 80 e 90 em geral, buscando ser a sua superação histórico-concreta. Hirsch retoma a narrativa de Dalton Trevisan e coloca a estética dark pós-moderna a serviço dela, abandonando a fragmentação esquizofrênica.

Caetano Veloso contou que, no exílio, escutava a canção Hapiness is a Warm Gun, dos Beatles, da seguinte forma: Nelson Rodrigues jumps the gun. Podemos dizer que Gerald faz um processo semelhante, é como a lagosta alucinatória da qual Nelson Rodrigues fala.


Na peça, segundo Ana Gaebler, "não havia necessariamente esse lugar do personagem rodriguiano, mas se fizermos essa analogia, o Rodrigo era Doroteia, Fabi a Dona Flávia, eu era Dona Maura, Carmelita era Raul, das Dores é Lisa, Dona Assunta é Beatrice".


O teatro de Gerald Thomas, mais do que nunca, em Feto, introduz o tema da Segunda Guerra Mundial, intertexto ausente no texto do autor carioca, mas de fato necessário: é importante contextualizar historicamente, bem como introduzir temas sociais e políticos a essa dramaturgia, pois disso ela é carente. A imagem do Feto é tirada de um quadro de Iberê Camargo, continuando o diálogo do diretor com as artes plásticas. Ele traz a pintura para o palco, ele que é também pintor. Ainda segundo Gabriela Mellão:

 

Em F.E.T.O., além do quadro Nu descendo a escada no nome, Duchamp está presente com uma reprodução ampliada de Roda de bicicleta e alusões a O grande vidro, sua última pintura. O universo de sentidos deslizantes do dadaísmo combina-se com uma paisagem onírica, acentuada pela dança aérea de Lisa Giobbi. Bonecos com a forma de um feto saído do quadro No tempo e na terra I, de Iberê Camargo, fazem parte dos objetos de cena (MELLÃO, 2022).

 

            Gerald Thomas traz o tema do feto e de um Brasil que parece ainda não ter nascido numa conjuntura histórica em que o Brasil pautou o tema do aborto, em campanha eleitoral, da pior maneira possível, ou seja, o pânico moral. E pior: possivelmente, a extrema-direita brasileira está imitando os extremistas norte-americanos, cuja agenda conservadora avança, mesmo sem Trump, ao conseguir ilegalizar o aborto em alguns estados norte-americanos.

            De fato, Gerald Thomas fez uma adaptação que vai além de uma mera distorção de Nelson Rodrigues, é bem uma sobreposição por parte do autor/encenador. Tanto Nelson Rodrigues como Gerald Thomas utilizam a voz em off. No texto Teatro Desagradável, Nelson Rodrigues comentou o choque que causou, em Mulher Sem Pecado, a ousadia vanguardista de colocar uma atriz que não utilizava palavras em cena, bem como apenas enrolando um paninho. Gerald Thomas, em seu teatro, levou esses procedimentos ao máximo: movimentos repetitivos e nervoso dos atores, ações sem palavras.

A frase: “todos artistas são o mesmo” parece responder à indagação que fazemos a respeito do texto de Nelson ter praticamente desaparecido: foi reduzido a fiapos narrativos. Como explicou Gabriela Mellão:

 

Em sua primeira incursão na obra de Nelson Rodrigues, o diretor faz renascer apenas o DNA do clássico da dramaturgia brasileira. Estilhaça o texto compondo quadros vivos autônomos entre si que conservam pouco mais do que o deboche da obra original em relação à sociedade de seu tempo. A fidelidade de Gerald não é literal, textual, mas conceitual. Centra-se na visão social e política de Nelson e sua Doroteia (1949). “Esta não é uma ave de cunho psicológico”, avisa Fabiana Gugli em cena cacarejando abraçada a uma ave decepada, para não deixar dúvidas sobre o caráter anárquico da releitura (MELLÃO, 2022).

 

E, aliás, Nelson guardou um impasse: ele gostou de tragédia, mas a tragédia pediu uma moral, a moral que ele afirma como solução é a moral patriarcal, embora ele rompeu com ela em suas obras de arte. Já Nelson Rodrigues, figura pública, era um homem conservador, que propôs como solução para a decadência da moral patriarcal uma volta ao passado, a um passado idealizado em que a moral patriarcal funcionava, o que, visão de mundo ideológica que, além de ser altamente reacionário, é o fundamento de todo reacionarismo até hoje. Gerald Thomas, como Nelson Rodrigues, é altamente inconformista em sua arte, mas sua persona pública é bem mais ambivalente. Em certos momentos defende as pessoas trans, em outras faz propaganda do imperialismo americano, sendo considerado “inventor do FMI no teatro brasileiro”. Ao mesmo tempo em que adota o programa do partido democrata norte-americano, Gerald Thomas recusou com veemência Lula e o PT.

            Como Gerald confronta a moral patriarcal, ele colocou Doroteia como sendo um travesti, daí o fato de ter sido rejeitada pelas irmãs, daí sua “morte” simbólica para o universo das mulheres que seguem a moral patriarcal.

            A peça constitui-se de várias cenas que não se ligam necessariamente em termos de ação ou narrativa: a primeira, um monólogo feminino; a seguir, na segunda  a imagem do feto, inspirada em Iberê Camargo. Na terceira, surge Lisa Giobbi pendura no teto e a voz em off de Gerald Thomas dizendo um texto sobre a ave psicológica que foi morta e a falta de paz para o mundo trans, o que possivelmente justifica a ideia de uma Doroteia representada por Rodrigo Pandolfo, ou seja, um homem. A cena alonga-se, com Lisa fazendo acrobacias e danças. A quarta cena já é a das imagens da guerra, com sons de tiros e a imagem de uma bomba que sobrevoa o palco, acompanhada do choro de uma criança.

            A quinta cena é de uma das irmãs de Doroteia, vestida de preto, confrontando-se com uma vassoura que a persegue, em meio a uma trilha sonora dramática composta, inclusive, de gritos. O fundo é a roda de bicicleta de Duchamp. A sexta é um futebol imaginário entre duas irmãs, que é bastante curioso, pois é peça para rir, algo que, para Nelson Rodrigues, seria como a missa cômica, missa em que o padre equilibrasse bolas no nariz, entrassem focas, etc.

A sétima é marcada pelos gritos de Fabi Gugli com uma ave de cabeça decepada no colo e o choro de bebê que perpassa toda a peça. A sétima aparenta ser um ensaio da própria obra onde o diretor chama os nomes dos atores, que estão lendo textos. Volta a música dramática. A oitava é o choque metafórico entre Doroteia e Fabi Gugli, tendo ao fundo suas irmãs tensas. A nona é o diálogo entre a voz off de Gerald e Rodrigo, Gerald e Beatrice. Rodrigo apresenta-se como Doroteia e é interrompido pelo diretor. O diretor corrige Rodrigo, pois explica que não é aquilo, ele está saindo do texto. No entanto, é humor, pois o texto da peça não é o texto de Nelson Rodrigues.

            A oitava cena quebra o drama anterior: ao som de I Feel Good, de James Brown, as personagens dançam, a luz e a música tornam-se praticamente protagonistas também.

            Na nona cena, o leque serve de motivo-guia estético, tais como serviam os guarda-chuvas quebrados em Dilúvio. Flávia (Fabiana Gugli) levita ao utilizar o leque.

            Na décima cena, Doroteia/Rodrigo é possuído pelo espírito da volúpia, depois de que todas as mulheres (e homens) sentem a náusea do homem. Quando Rodrigo/Doroteia avisa que seu texto acabou, entra a voz off de Gerald Thomas explicando que naquela peça não existirá sexo, dentre outras especulações e citações.

            A décima primeira cena é um monólogo dramático da travesti Doroteia, que chora, fuma e fala de sua dificuldade em adaptar-se à família. A décima segunda é uma das irmãs de Doroteia dançando com algo semelhante a um parangolé ao som de um texto recitado em português de Portugal que fala “dessa língua subterrânea”, opondo-a ao “totalitarismo de fala”. A cena seguinte (décima terceira) é uma cena em que uma das irmãs de Doroteia dubla uma voz de mulher em off que diz que “não é feminista e nem machista”.

            A décima quarta é a cena em que o próprio diretor, Gerald Thomas, aparece tocando uma percussão, enquanto Fabi Gugli aparece dando terríveis e agudos gritos, sincronizados repetidamente com a percussão: “Minha ave, minha ave, ela decepou a minha ave”, bem como “esse não é um frango de cunho psicológico”. Se antes vimos a luz e a música criarem drama e clima, praticamente como protagonistas, aqui o diretor em si vira personagem e o texto vira música improvisada.

            A décima quinta mostra os atores como se peça tivesse terminado. Há um relaxamento aparente: onde colocar a imagem do feto, pergunta Doroteia/Rodrigo. Logo em seguida, no entanto, a voz do diretor entra novamente, provocando um novo tensionamento, com música dramática.

            A luz e a música são praticamente personagens da peça de Gerald Thomas. Feto, podemos dizer, é uma obra em processo que nos é apresentada como peça acabada. As cenas apresentam uma sucessão, tal como no circo surge um mágico, uma acrobata, sem interligação necessária entre elas. Como explicou Lucas Neves:

 

O coquetel vem embalado em algumas das marcas registradas do “método Thomas”: texto hiperfragmentado, palco envolto em fumaça de gelo seco, uso recorrente da voz do diretor em off, intrincado desenho de luz, superposição de imagens na superfície desconexas… e doses sadias de autodepreciação. Uma das melhores cenas do espetáculo envolve um monólogo hilário (e improvisado) da atriz Ana Gabi sobre esse arsenal de ferramentas do encenador, nascido em Nova York e criado entre a metrópole estadunidense, Rio e Londres (NEVES, 2022)

 

            Gerald Thomas usa imagens para substituir a palavra, utilizando também, dentro da mesma peça, às vezes, palavras para acompanhar as imagens. Márcio Tito analisou que Duchamp combina perfeitamente com Nelson Rodrigues, como explicou:

 

Duchamp em Nelson. Agora que dito, como sempre ocorre com as grandes ideias, passa a ser impossível descolar uma camada da outra. Duchamp e seu programa de leitura que, em grosseiro resumo, se dá pela leitura total e material dos objetos de arte, para muito além da primeira dimensão, parece muito bem adequado ao aparato rodriguiano que, em simétrico equivalente, também sobrevive do expediente que transmuta silêncios em solilóquios e solilóquios em silêncios (TITO, 2022).

 

            Tito acima tocou num ponto importante: a abordagem não-dramatúrgica de Gerald Thomas, que acontece mesmo quando houve dramaturgia a adaptar.

            Supõe-se, então, que a ideia do ready-made foi bem realizada na peça de Nelson Rodrigues. Isto se deve ao fato de que Nelson continha, em germe, expedientes simétricos de vanguarda que Gerald aproveitou e desenvolveu ao máximo. Portanto, Gerald utilizou-se de uma obra que ele não fez para realizar a sua, dando para a obra já pronta um destaque em sua obra. Gerald Thomas explicou a natureza de seu olhar:

 

 Na verdade, quis olhar para Nelson como uma criança. Tem vassoura passando em cena, um zepelim, um palhaço. É como se fosse Alice in Wonderland (Alice no país das maravilhas), só que em Auschwitz. Uma criança vendo Nelson Rodrigues em Auschwitz, no meio de uma guerra. Esse é o setting, o ponto de partida. Como uma criança não lida tanto com palavras, surgem essas imagens encantadas e macabras. E o humor vem do fato de o teatro ser uma bobeira, uma bobagem, séria, mas ainda assim bobagem (THOMAS, 2022).

 

            Aqui acima temos um enfoque curioso: Gerald deseja, com essa peça com tantos estilemas de vanguarda, apenas entreter, como se fosse um certo tipo de teatro infantil ou “besteirol de luxo”.

Pode-se dizer que alguns signos do texto de Doroteia permanecem, tais como os leques, mas o ambiente tem o clima de mundo depois da catástrofe presente em Dilúvio. Como explicou Gina Mage do Amaral:

 

Assim, Thomas concretiza o parecer moderno em seu espetáculo teatral, interagindo com elementos de outro artista, fazendo o cenário ser parte da obra tal como um personagem, muito além de ser, unicamente, parte visual. Isso concorda exatamente com a noção de Marcel Duchamp e do ready-made, conforme veremos a seguir (AMARAL, 2023).

 

Gerald compõe a partir do texto de Nelson Rodrigues, mas juntando aqui e ali referências aparentemente aleatórias de diversas obras de outros autores e áreas da arte (Duchamp, Iberê, Wagner, Eduardo Agni). E as reúne e orquestra em termos musicais, buscando a obra do acaso total. Como explicou Gabriela Mellão:

 

Com F.E.T.O., Thomas constrói seu ready-made. Um ready-made irreverente e iconoclasta, alerta sobre a necessidade da reinvenção da sociedade e a cultura de seu tempo, no melhor estilo rodriguiano. Assim como o protagonista de Borges, o espectador é sugado por um buraco negro de imagens, sons e temporalidades diversas. Ao menos três tempos históricos coexistem nos cem minutos do espetáculo: a efervescente cena cultural do início do século XX, quando Duchamp quebrava os cânones do fazer artístico, realizando o que os impressionistas não tiveram coragem fazer; o cenário bélico e desesperançado do pós-guerra em meados do século passado, período em que Nelson Rodrigues escreveu Dorotéia e que Samuel Beckett produziu suas obras mais icônicas; e o mundo pós-pandêmico que estamos compulsoriamente imersos (MELLÃO, 2023).

 

            A análise de Gabriela Mellão acima é muito arguta: são quinze cenas que apresentam três tempos históricos: a vanguarda das primeiras décadas do século vinte, o tempo em que transcorre a peça (anos 40) e o tempo atual, 2023, o mundo pós-pandemia.

            Além da provocativa postura de colocar um travesti no papel de Doroteia e confrontar a moral patriarcal do texto de Nelson Rodrigues, o figurino também acompanhou essa linha de pensamento, rompendo com a ideia de vestir as personagens com roupas pretas e que escondem a sensualidade. A sensualidade, mantidas as roupas pretas, apresenta as formas voluptuosas de Fabiana Gugli.

Thomas fez uma releitura de Nelson Rodrigues onde a verve moralista do dramaturgo é totalmente anulada. Gerald negou a moral patriarcal do dramaturgo frontalmente ao colocar um homem no papel de Doroteia (Rodrigo Pandolfo). A intenção de subverter a peça original foi bastante explícita nesse sentido. Igualmente, adaptou o entorno da peça, exibindo muito mais uma obra em progresso do que o texto da peça propriamente dita. Foi sua ideia “mostrar os andaimes”, ou seja, conversar com o ator que representa Doroteia sob a forma de voz em off, bem como mostrar a peça acabando antes de quando ela efetivamente acabou, com os atores conversando sobre a apresentação.

A peça constituiu-se de quinze cenas que não são interligadas por uma narrativa propriamente dita. São ações organizadas em torno dos seis personagens da peça original, mas não são as ações do texto de Nelson Rodrigues e sim outras, organizadas conforme cenas em um circo, tendo não necessariamente uma ligação entre  uma e outra. A passagem de uma cena em geral é feita por luz ou música, mais do que dos entrecortados monólogos, uma vez que há mais monólogos superpostos do que diálogos.

Tanto Nelson quanto Thomas demonstram inconformismo formal, mas assumiram posições políticas reacionárias em determinadas conjunturas. Não levam, então, seu inconformismo de forma consequente e não se tornam subversivos e nem revolucionários. Recusam a moral patriarcal, mas ao mesmo tempo conciliam-se com ela.

A peça finalizou com uma carta que é uma canção de amor ao teatro, por parte do diretor Gerald Thomas. De fato, o teatro possibilita a ele realizar entregar-se a fantasias vanguardistas, expor e impor sua subjetividade extrema de forma por vezes autoritária (como se impôs como autor sobre o texto do autor Nelson Rodrigues) e assim mesmo ser visto, consumido, ouvido, entrevistado, celebrado. Fez, incrivelmente, teatro não-dramatúrgico a partir de uma dramaturgia e mesmo assim foi aceito. Sem dúvida, é um vitorioso.

 

            3.Conclusão

 

            Desde 2003, Gerald Thomas não dirigia obras de outros autores. Naquele ano, foi marcado pela experiência de Tristão e Isolda. Foi a partir daí que tomou uma decisão de dirigir e escrever as próprias peças. E nesse ano de 2022 ele conseguiu realizar um antigo sonho: dirigir Doroteia de Nelson Rodrigues. No entanto, podemos dizer que Gerald fez uma sobreposição, um improviso a partir de Nelson Rodrigues.

            Para adaptar Nelson Rodrigues, Gerald Thomas introduziu traços de seu estilo, tais como fumaça de gelo seco, fragmentação, música e luz como protagonistas, ausência de diálogos e sim falas entrecortadas, gritos elevados à categoria de texto e de música. Fora o clima sombrio de teatro germânico. E tal foi acentuado pela conjuntura histórica: a peça, datada de 1949, passou a ter referências à Segunda Guerra Mundial, importantes para um autor judeu como Gerald, mas inexistentes na obra de Nelson Rodrigues cuja encenação foi tematizada aqui.

            De certa forma, Gerald fez teatro não-dramatúrgico a partir de uma dramaturgia já consolidada. Ele o fez, então, acentuando as características vanguardistas da peça. Um leque, por exemplo, tornou-se um signo comparável aos guarda-chuvas de Dilúvio.

De forma totalmente oposta ao que disse Nelson da presença excessiva do diretor, Gerald Thomas enquanto diretor é onipresente, fazendo teatro não-dramatúrgico com a dramaturgia de Nelson Rodrigues, reduzindo sua narrativa a fiapos.

Ele assume totalmente a presença como diretor, interferindo sob a forma de voz off e até mesmo aparecendo diretamente como personagem dentro da peça do dramaturgo, peça essa que já tinha uma dinâmica, temas e personagens e até tradição de montagem, tendo sido escrita em 1949.

 

4.Bibliografia:

 

AMARAL, Gina Mage. A Apropriação Por Gerald Thomas das Obras de DUCHAMP <<http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/17186/1/CT_CENOG_II_2015_05.pdf>> <<Acesso em 15/02/2023>>.

 

MELLÃO, Gabriela. Gerald Thomas compõe seu “ready-made” rodriguiano. <http://www.questaodecritica.com.br/2022/08/feto/#:~:text=Com%20F.E.T.O.%2C%20Thomas%20constroi%20seu,diretora%20de%20teatro%20e%20cr%C3%ADtica>>.<<Acesso em 15/02/2023>>.

 

NEVES, Lucas. A Saída Tem que Ser a Mulher, Diz Gerald Thomas. <<https://elle.com.br/cultura/geraldthomas>>.<<Acesso em 15/02/2023>>.

 

PEIXOTO, Fernando. Teatro em Movimento. São Paulo: Hucitec, 1985.

 

RODRIGUES, Nelson. Teatro Desagradável. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

 

THOMAS, Gerald. Palestras Comentadas. <https://www.youtube.com/watch?v=iyR62ddXR-Y&t=83s&ab_channel=FestivaldeCuritiba>.><<Acesso em 15/02/2023>>.

 

TITO, Marcos. F.E.T.O – Estudo para Dorotéia Nua Descendo a Escada  <https://deusateucombr.wordpress.com/2022/08/28/f-e-t-o-estudo-para-doroteia-nua-descendo-a-escada-por-marcio-tito/>>.<<Acesso em 15/02/2023>>.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

REVISÃO DE 1984

 REVISÃO DE 1984


Por Isaac Asimov
 

Escrevo um artigo de quatro partes para o Field Newspaper Syndicate no
início de cada ano há vários anos e, em 1980, ciente da
aproximação do ano de 1984, a FNS me pediu para escrever uma crítica completa do
romance de George Orwell , 1984 .
   Eu estava relutante. Não me lembrava de quase nada do livro e disse isso -
mas Denison Demac, a adorável jovem que é meu contato na FNS, simplesmente
me enviou uma cópia e disse: 'Leia.'
   Então eu li e fiquei absolutamente surpreso com o que li. Eu
me perguntei quantas pessoas que falavam sobre o romance com tanta loquacidade já
o haviam lido; ou se tivessem, se eles se lembravam disso.
   Eu senti que teria que escrever a crítica apenas para esclarecer as pessoas.
(Sinto muito; adoro esclarecer as pessoas.)

A. A ESCRITA DE 1984
Em 1949, um livro intitulado 1984 foi publicado. Foi escrito por Eric Arthur
Blair sob o pseudônimo de George Orwell.
   O livro tentou mostrar como seria a vida em um mundo de
maldade total, no qual aqueles que controlavam o governo se mantinham no poder pela
força bruta, distorcendo a verdade, reescrevendo continuamente a história,
hipnotizando as pessoas em geral.
 Este mundo maligno foi colocado apenas trinta e cinco anos no futuro, de modo que
mesmo os homens que já estavam na meia-idade na época em que o livro foi
publicado poderia viver para vê-lo se eles vivessem uma vida normal.
   Eu, por exemplo, já era um homem casado quando o livro apareceu e, no entanto,
aqui estamos a menos de quatro anos daquele ano apocalíptico (pois '1984'
se tornou um ano associado ao pavor por causa do livro de Orwell),
e eu muito provavelmente viverei para vê-lo.
   Neste capítulo, discutirei o livro, mas primeiro: quem foi Blair/Orwell
e por que o livro foi escrito?
   Blair nasceu em 1903 com o status de cavalheiro britânico. Seu pai
estava no serviço público indiano e o próprio Blair viveu a vida de um
oficial imperial britânico. Ele foi para Eton, serviu na Birmânia e assim por diante.
   No entanto, ele não tinha dinheiro para ser um cavalheiro inglês ao máximo.
Além disso, ele não queria gastar seu tempo em trabalhos chatos de escritório; ele queria
ser escritor. Em terceiro lugar, ele se sentia culpado por seu status na classe alta.
   Então ele fez no final da década de 1920 o que tantos jovens americanos prósperos
fizeram na década de 1960. Em suma, ele se tornou o que teríamos chamado de 'hippie'
posteriormente. Ele viveu em condições de favela em Londres e Paris,
associado e identificado com moradores de favelas e vagabundos, conseguiu
aliviar sua consciência e, ao mesmo tempo, reunir material para seus
primeiros livros.
   Ele também virou de esquerda e se tornou um socialista, lutando com o
legalistas na Espanha na década de 1930. Lá ele se viu envolvido nas
lutas sectárias entre as várias facções de esquerda e, como
acreditava em uma forma cavalheiresca de socialismo inglês, estava inevitavelmente do
lado perdedor. Opondo-se a ele estavam apaixonados anarquistas, sindicalistas e comunistas espanhóis
, que se ressentiam amargamente do fato de que as
necessidades de lutar contra os fascistas de Franco atrapalhavam a luta
entre eles.
Os comunistas, que eram os mais bem organizados, venceram e Orwell teve que deixar
a Espanha, pois estava convencido de que, se não o fizesse, seria morto
   .
guerra contra os comunistas, determinado a vencer em palavras a batalha que havia perdido
em ação.
   Durante a Segunda Guerra Mundial, na qual foi rejeitado para o serviço militar, ele
foi associado à ala esquerda do Partido Trabalhista britânico, mas não
simpatizava muito com suas opiniões, pois mesmo sua versão imprudente do
socialismo parecia muito bem organizada para ele. .
   Ele não foi muito afetado, aparentemente, pelo tipo de
totalitarismo nazista, pois não havia espaço dentro dele exceto para sua guerra particular
com o comunismo stalinista. Consequentemente, quando a Grã-Bretanha estava lutando por
sua vida contra o nazismo, e a União Soviética lutou como aliada na
luta e contribuiu muito mais do que sua parcela em vidas perdidas e em
coragem resoluta, Orwell escreveu Animal Farm que era uma sátira da
Revolução Russa e o que se seguiu, retratando-a em termos de uma revolta de
animais de curral contra mestres humanos.
   Ele completou Animal Farm em 1944 e teve problemas para encontrar um editor
, já que não era um momento particularmente bom para perturbar os soviéticos. Assim
que a guerra acabou, no entanto, a União Soviética foi um jogo justo e
Animal Farm foi publicado. Foi recebido com muita aclamação e Orwell
tornou-se suficientemente próspero para se aposentar e se dedicar à sua
obra-prima, 1984 .
   Esse livro descrevia a sociedade como uma vasta extensão mundial da filosofia stalinista.
A Rússia na década de 1930, retratada com o veneno de um sectário de esquerda rival.
Outras formas de totalitarismo desempenham um papel pequeno. Há uma ou duas
menções aos nazistas e à Inquisição. Logo no início, há uma
ou duas referências aos judeus, quase como se eles fossem se provar
objetos de perseguição, mas isso desaparece quase imediatamente, como se Orwell
não quisesse que os leitores confundissem os vilões com nazistas.
   A imagem é do stalinismo, e apenas do stalinismo.
   Quando o livro foi lançado em 1949, a Guerra Fria estava no auge.
O livro, portanto, provou ser popular. Era quase uma questão de patriotismo no
Ocidente comprá-lo e falar sobre ele, e talvez até ler partes dele,
embora seja minha opinião que mais pessoas o compraram e falaram sobre ele
do que o leram, pois é um livro terrivelmente enfadonho - didático, repetitivo e
quase imóvel.
   A princípio, foi mais popular entre as pessoas que se inclinavam para o
lado conservador do espectro político, pois era claramente uma
polêmica anti-soviética, e a imagem da vida que projetava na Londres de
1984 era muito parecida com a que os conservadores imaginavam a vida na década de 1980. Moscou de 1949 para
ser.
   Durante a era McCarthy nos Estados Unidos, 1984 tornou-se cada vez mais
popular entre aqueles que se inclinavam para o lado liberal do
espectro político, pois lhes parecia que os Estados Unidos do início dos anos 1950
estava começando a se mover na direção do controle do pensamento e que toda a
crueldade que Orwell havia descrito estava a caminho de nós.
   Assim, no posfácio de uma edição publicada em brochura pela New
American Library em 1961, o psicanalista e filósofo liberal Erich
Fromm concluiu o seguinte:
   “Livros como o de Orwell são avisos poderosos, e seria
lamentável se o leitor presunçosamente interpretasse 1984 como outra descrição da
barbárie stalinista, e se ele não perceber que isso significa nós também'.
   Mesmo que o stalinismo e o macarthismo sejam desconsiderados, no entanto, mais e mais
americanos estavam se conscientizando de quão 'grande' o governo estava ficando;
quão altos eram os impostos; como cada vez mais regras e regulamentos permeavam
os negócios e até a vida cotidiana; como as informações relativas a todas as facetas da
vida privada estavam entrando nos arquivos não apenas dos escritórios do governo, mas também dos
sistemas de crédito privados.
   1984, portanto, passou a representar não o stalinismo, nem mesmo a
ditadura em geral - mas apenas o governo. Até mesmo o paternalismo governamental
parecia "1984" e a frase de efeito "O Grande Irmão está de olho em
você" passou a significar tudo o que era grande demais para o controle individual.
Não foi apenas o grande governo e as grandes empresas que foram um sintoma de 1984,
mas também a grande ciência, o grande trabalho, grande qualquer coisa.
   Na verdade, a 1984-ofobia penetrou tão profundamente na consciência de
muitos que não leram o livro e não têm noção do que ele contém, que
alguém se pergunta o que acontecerá conosco depois de 31 de dezembro de 1984. Quando
chega o dia de Ano Novo de 1985 e os Estados Unidos ainda existem e enfrentam
muitos dos problemas que enfrentam hoje, como vamos expressar nossos medos de
qualquer aspecto da vida que nos enche de apreensão? Que nova data podemos
inventar para substituir 1984?
   Orwell não viveu para ver seu livro se tornar o sucesso que teve. Ele não
testemunhou a maneira como transformou 1984 em um ano que assombraria toda uma
geração de americanos. Orwell morreu de tuberculose em um hospital de Londres em
janeiro de 1950, apenas alguns meses após a publicação do livro, aos
46 anos. Sua consciência da morte iminente pode ter aumentado a amargura
do livro.

B. A FICÇÃO CIENTÍFICA DE 1984
Muitas pessoas pensam em 1984 como um romance de ficção científica, mas quase o único
item sobre 1984 que levaria alguém a supor que isso é o fato de que ele está
supostamente situado no futuro. Não tão! Orwell não tinha noção do futuro,
e o deslocamento da história é muito mais geográfico do que temporal.
A Londres em que a história se passa não se moveu tanto trinta e cinco
anos à frente no tempo, de 1949 a 1984, quanto se moveu mil milhas.
leste no espaço para Moscou.
   Orwell imagina que a Grã-Bretanha passou por uma revolução semelhante
à Revolução Russa e passou por todos os estágios que
o desenvolvimento soviético passou. Ele quase não consegue pensar em variações sobre o tema.
Os soviéticos tiveram uma série de expurgos na década de 1930, então o Ingsoc (
socialismo inglês) teve uma série de expurgos na década de 1950.
   Os soviéticos converteram um de seus revolucionários, Leon Trotsky, em um
vilão, deixando seu oponente, Joseph Stalin, como um herói. O Ingsoc,
portanto, transforma um de seus revolucionários, Emmanuel Goldstein, em
vilão, deixando seu adversário, de bigode igual ao de Stalin, em herói.
Não há capacidade de fazer pequenas alterações, mesmo. Goldstein, como Trotsky,
tem "um rosto judeu magro, com uma grande auréola felpuda de cabelos brancos e um
pequeno cavanhaque". Orwell aparentemente não quer confundir a questão dando a
Stalin um nome diferente, então ele o chama apenas de 'Grande Irmão'.
   Logo no início da história, fica claro que a televisão
(que já existia na época em que o livro foi escrito) servia como
um meio contínuo de doutrinação do povo, pois os aparelhos não podem ser
desligados. (E, aparentemente, em uma Londres decadente em que nada
funciona, esses conjuntos nunca falham.)
   A grande contribuição orwelliana para a tecnologia futura é que o
aparelho de televisão é bidirecional, e que as pessoas que são forçadas a ouvir e
ver a tela da televisão podem ser ouvidas e vistas em todos os momentos e
estão sob supervisão constante, mesmo enquanto dormem ou no banheiro.
Daí o significado da frase 'Big Brother está de olho em você'.
Este é um sistema extraordinariamente ineficiente para manter todos sob
controle. Ter uma pessoa sendo observada o tempo todo significa que outra
pessoa deve estar observando o tempo todo (pelo menos na
sociedade orwelliana) e deve estar fazendo isso de forma muito restrita, pois há um grande
desenvolvimento da arte de interpretar o gesto. e expressão facial.
   Uma pessoa não pode observar mais de uma pessoa em concentração total, e
só pode fazê-lo por um tempo comparativamente curto antes que a atenção comece a
divagar. Devo supor, em suma, que deve haver cinco observadores
para cada pessoa observada. E então, é claro, os observadores devem
ser observados, já que ninguém no mundo orwelliano está livre de suspeitas.
Consequentemente, o sistema de opressão da televisão bidirecional simplesmente não funcionará
.
   O próprio Orwell percebeu isso limitando seu funcionamento aos
membros do Partido. Os 'proles' (proletariado), pelos quais Orwell não consegue esconder seu
desprezo pela classe alta britânica, são deixados em grande parte entregues a si mesmos como subumanos. (Em um
ponto do livro, ele diz que qualquer prole que mostre habilidade é morto - um
folha tirada do tratamento espartano de seus hilotas
há 2.500 anos.)
   Além disso, ele tem um sistema de espiões voluntários no qual as crianças relatam
sobre seus pais e os vizinhos uns sobre os outros. Isso não pode funcionar
bem, pois eventualmente todos denunciam todos os outros e tudo tem que ser
abandonado.
   Orwell era incapaz de conceber computadores ou robôs, ou teria
colocado todos sob vigilância não-humana. Nossos próprios computadores até certo
ponto fazem isso no IRS, em arquivos de crédito e assim por diante, mas isso não
nos leva a 1984 , exceto em imaginações febris. Computadores e tirania
não andam necessariamente de mãos dadas. As tiranias funcionaram muito bem sem
computadores (considere os nazistas) e as nações mais computadorizadas do mundo de hoje
também são as menos tirânicas.
   Orwell não tem capacidade de ver (ou inventar) pequenas mudanças. Seu herói
acha difícil em seu mundo de 1984 conseguir cadarços ou lâminas de barbear. Eu também faria isso
no mundo real da década de 1980, pois muitas pessoas usam sapatos sem cadarço
e barbeadores elétricos.
   Além disso, Orwell tinha a fixação tecnofóbica de que todo
avanço tecnológico é uma ladeira abaixo. Assim, quando seu herói escreve, ele 'encaixou uma ponta
no porta-canetas e chupou para tirar a graxa. Ele faz isso 'porque
de uma sensação de que o belo papel cremoso merecia ser escrito com
uma pena real em vez de ser riscado com um lápis de tinta'.
   Presumivelmente, o 'lápis de tinta' é a caneta esferográfica que estava sendo
usada na época em que 1984 estava sendo escrito. Isso significa que Orwell
descreve algo como sendo escrito 'com uma pena real, mas sendo 'riscado'
com uma esferográfica. Isto é, no entanto, precisamente o inverso da verdade. Se
você tem idade suficiente para se lembrar das canetas de aço, vai se lembrar de que elas
arranhavam terrivelmente, e você sabe que as esferográficas não.
   Isso não é ficção científica, mas uma nostalgia distorcida de um passado que
nunca foi. Estou surpreso que Orwell tenha parado com a caneta de aço e que
não tenha Winston escrevendo com uma bela pena de ganso.
   Tampouco Orwell foi particularmente presciente nos aspectos estritamente sociais do
futuro que estava apresentando, com o resultado de que o mundo orwelliano de
1984 é incrivelmente antiquado quando comparado com o mundo real dos
anos 1980.
   Orwell não imagina novos vícios, por exemplo. Seus personagens são todos
viciados em gim e tabaco, e parte do horror de sua foto de 1984 é
sua descrição eloquente da baixa qualidade do gim e do tabaco.
   Ele não prevê novas drogas, nem maconha, nem alucinógenos sintéticos. Não
espera-se que um escritor de FC seja preciso e exato em suas previsões, mas
certamente se espera que ele invente algumas diferenças.
   Em seu desespero (ou raiva), Orwell esquece as virtudes que os seres humanos possuem.
Todos os seus personagens são, de uma forma ou de outra, fracos ou sádicos, ou desprezíveis,
ou estúpidos, ou repulsivos. Pode ser assim que a maioria das pessoas é, ou como Orwell
quer indicar que todos estarão sob a tirania, mas parece-me que
mesmo sob as piores tiranias, até agora, houve homens e mulheres corajosos
que resistiram aos tiranos até o fim. morte e cujas histórias pessoais são
chamas luminosas na escuridão circundante. Mesmo porque não há
indícios disso em 1984, não se parece com o mundo real dos anos 1980.
   Tampouco previu diferença no papel da mulher ou enfraquecimento
do estereótipo feminino de 1949. Há apenas duas personagens femininas importantes
Uma é uma mulher 'prole' forte e sem cérebro que é uma
lavadeira interminável, cantando sem parar uma canção popular com palavras do tipo
familiar nas décadas de 1930 e 1940 (na qual Orwell estremece meticulosamente como
'lixo', em feliz não antecipação de duras pedra).
   A outra é a heroína, Julia, que é sexualmente promíscua (mas pelo
menos ganha coragem por causa de seu interesse por sexo) e não tem cérebro.
Quando o herói, Winston, lê para ela o livro dentro de um livro que explica
a natureza do mundo orwelliano, ela responde adormecendo - mas então
como o tratado que Winston lê é estupidamente soporífico, isso pode ser uma
indicação do bom senso de Julia, e não o contrário.
   Resumindo, se 1984 deve ser considerado ficção científica, então é uma
ficção científica muito ruim.

C. O GOVERNO DE 1984 O 1984
de Orwell é um retrato de um governo todo-poderoso e ajudou a tornar a noção de "grande governo" muito assustadora.    Devemos lembrar, porém, que o mundo do final da década de 1940, durante o qual Orwell estava escrevendo seu livro, era um mundo em que havia, e ainda há, grandes governos com verdadeiros tiranos - indivíduos cujas




desejo, por mais injusto, cruel ou vicioso, era lei. Além do mais, parecia
que tais tiranos eram inamovíveis, exceto pelo acaso da força externa.
   Benito Mussolini da Itália, após vinte e um anos de governo absoluto, foi
derrubado, mas isso só porque seu país estava sofrendo uma derrota na
guerra.
   Adolf Hitler da Alemanha, um tirano muito mais forte e brutal, governou
com mão de aço por doze anos, mas mesmo a derrota não
trouxe, por si só, sua derrubada. Embora a área sobre a qual ele governou encolhesse e
encolhesse e encolhesse, e mesmo que os exércitos esmagadores de seus adversários
se aproximassem do leste e do oeste, ele permaneceu um tirano absoluto sobre qualquer coisa.
área que ele controlava - mesmo quando era apenas sobre o bunker em que ele
cometeu suicídio. Até que ele se removesse, ninguém ousaria removê-lo. (
Havia conspirações contra ele, com certeza, mas nunca funcionavam, às vezes por
caprichos do destino que pareciam explicáveis ​​apenas supondo que alguém lá embaixo
gostasse dele.)
   Orwell, entretanto, não tinha tempo para Mussolini ou Hitler. Seu inimigo
era Stalin e, na época em que 1984 foi publicado, Stalin havia governado a
União Soviética em um abraço de urso por vinte e cinco anos, havia sobrevivido a uma
guerra terrível na qual sua nação sofreu enormes perdas e, no entanto, agora estava
mais forte do que nunca . Para Orwell, deve ter parecido que nem o tempo nem
a fortuna poderia mover Stalin, mas que ele viveria para sempre com
força cada vez maior. - E foi assim que Orwell imaginou o Big Brother.
   Claro, não era assim que realmente era. Orwell não viveu o
suficiente para ver isso, mas Stalin morreu apenas três anos após a publicação de 1984,
e não muito depois disso seu regime foi denunciado como uma tirania
por - adivinhe quem - a liderança soviética.
   A União Soviética ainda é a União Soviética, mas não é stalinista, e
os inimigos do estado não são mais liquidados (
em vez disso, Orwell usa 'vaporizado', essas pequenas mudanças são tudo o que ele pode administrar) com tanto
abandono.
   Mais uma vez, Mao Tse-tung morreu na China e, embora ele próprio não tenha sido
denunciado abertamente, seus associados próximos, como 'a Gangue dos Quatro', foram prontamente
rebaixados do Divinity e, embora a China ainda seja a China, não é mais maoísta
.
Franco da Espanha morreu em sua cama e enquanto, até seu último suspiro, ele
permaneceu o líder inquestionável que havia sido por quase quarenta anos,
imediatamente após esse último suspiro, o fascismo diminuiu abruptamente na Espanha, como
em Portugal após a morte de Salazar.
   Em suma, os Big Brothers morrem, ou pelo menos até agora, e quando
morrem, o governo muda, sempre para os mais brandos.
   Isso não quer dizer que novos tiranos não possam se fazer sentir, mas
eles também morrerão. Pelo menos na década de 1980 real, temos toda a confiança de que eles
vontade e o imortal Big Brother ainda não é uma ameaça real.
   De fato, os governos da década de 1980 parecem perigosamente fracos. O
avanço da tecnologia colocou armas poderosas - explosivos, metralhadoras,
carros velozes nas mãos de terroristas urbanos que podem e sequestram, sequestram,
armam e fazem reféns impunemente, enquanto os governos permanecem mais ou
menos impotentes.
Além da imortalidade do Big Brother, Orwell apresenta duas outras
formas de manter uma tirania eterna.
   Primeiro - apresente alguém ou algo para odiar. No mundo orwelliano,
foi para Emmanuel Goldstein que o ódio foi construído e orquestrado em uma
função de massa robotizada.
   Isso não é nada novo, claro. Todas as nações do mundo usaram
vários vizinhos para fins de ódio. Esse tipo de coisa é tão fácil
de lidar e se torna uma segunda natureza para a humanidade que alguém se pergunta por que
deve haver impulsos de ódio organizados no mundo orwelliano.
   Quase não são necessários movimentos de massa psicológicos inteligentes para fazer os árabes
odiarem os israelenses e os gregos odiarem os turcos e os irlandeses católicos odiarem
os irlandeses protestantes - e vice-versa em cada caso. Certamente, os nazistas organizaram
reuniões de delírio em massa que todos os participantes pareciam gostar, mas não tiveram
efeito permanente. Assim que a guerra passou para o solo alemão, os alemães
se renderam tão humildemente como se nunca tivessem Sieg-Heiled em suas vidas.
   Segundo - reescrever a história. Quase cada um dos poucos indivíduos que conhecemos
em 1984 tem, como seu trabalho, a rápida reescrita do passado, o reajuste
das estatísticas, a revisão dos jornais - como se alguém fosse se
dar ao trabalho de prestar atenção ao passado de qualquer maneira. .
   Essa preocupação orwelliana com as minúcias da "prova histórica" ​​é
típica do sectário político que está sempre citando o que foi dito
e feito no passado para provar um ponto a alguém do outro lado que está
sempre citando algo no sentido oposto ao que foi dito e feito.
   Como qualquer político sabe, nenhuma prova de qualquer tipo é exigida. Isso é
necessário apenas fazer uma declaração - qualquer declaração - com força suficiente para que
o público acredite nela. Ninguém verificará a mentira contra os fatos
e, se o fizer, não acreditará nos fatos. Você acha que o
povo alemão em 1939 fingiu que os poloneses os atacaram e começaram a
Segunda Guerra Mundial? Não! Como eles foram informados disso, eles acreditaram tão seriamente
quanto você e acredito que eles atacaram os poloneses.
   Para ter certeza, os soviéticos lançaram novas edições de sua Enciclopédia, nas
quais os políticos que classificam uma longa biografia em edições anteriores são subitamente
omitidos por completo, e este é sem dúvida o germe da noção orwelliana, mas
as chances de levá-la tão longe quanto possível. descritos em 1984 parecem-me ser
nil - não porque está além da maldade humana, mas porque é totalmente
desnecessário.
   Orwell valoriza a 'Novilíngua' como um órgão de repressão - a
conversão da língua inglesa em um
instrumento tão limitado e abreviado que o próprio vocabulário da dissidência desaparece. Em parte, ele tirou a
noção do hábito indubitável de abreviar. Ele dá exemplos de
'Internacional Comunista' se tornando 'Comintern' e 'Geheime Staatspolizei'
se tornando 'Gestapo', mas isso não é uma invenção totalitária moderna. 'Vulgus
mobile' tornou-se 'mob'; 'taxi cabriolet' tornou-se 'táxi'; 'fonte de rádio quase estelar
' tornou-se 'quasar'; '
radiação' tornou-se 'laser' e assim por diante. Não há sinal de que tais compressões
da linguagem jamais a tenham enfraquecido como modo de expressão.
   Na verdade, a ofuscação política tendeu a usar muitas palavras
em vez de poucas, palavras longas em vez de curtas, estender em vez de
reduzir. Todo líder de educação inadequada ou inteligência limitada se esconde
atrás de uma embriaguez exuberante de loquacidade.
   Assim, quando Winston Churchill sugeriu o desenvolvimento do 'inglês básico'
como língua internacional (algo que sem dúvida também contribuiu
para a 'novilíngua'), a sugestão nasceu morta.
Portanto, não estamos abordando a Novilíngua em sua forma condensada,
embora sempre tenhamos novilíngua em sua forma estendida e sempre teremos
.
   Também temos um grupo de jovens entre nós que dizem coisas como 'Certo
, cara, você sabe. É como se ele tivesse tudo junto, sabe, cara. Quero
dizer, como você sabe -' e assim por cinco minutos, quando a palavra que os
jovens estão tateando é 'Hein?'
   Isso, entretanto, não é Novilíngua, e sempre esteve conosco também. É
algo que em Oldspeak é chamado de 'inarticulação' e não é o que
Orwell tinha em mente.

D. A SITUAÇÃO INTERNACIONAL DE 1984
Embora Orwell parecesse, em geral, estar irremediavelmente preso no mundo de
1949,
e isso foi ao prever a divisão tripartida do mundo na década de 1980.
   O mundo internacional de 1984 é um mundo de três superpotências: Oceania,
Eurásia e Lestásia - e isso se encaixa, aproximadamente, com as três
superpotências reais da década de 1980: Estados Unidos, União Soviética e
China.
   A Oceania é uma combinação dos Estados Unidos e do Império Britânico.
Orwell, que era um antigo funcionário público imperial, não parecia perceber que
o Império Britânico estava em seus últimos momentos no final dos anos 1940 e estava prestes a se
dissolver. Ele parece supor, de fato, que o Império Britânico é o
membro dominante da combinação anglo-americana.
   Pelo menos, toda a ação ocorre em Londres e frases como
'os Estados Unidos' e 'americanos' raramente, ou nunca, são mencionadas. Mas
então, isso é muito parecido com o romance de espionagem britânico em que,
desde a Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha (atualmente a décima oitava
potência militar e econômica mais forte do mundo) é apresentada como a grande
adversária da União Soviética. União, ou da China, ou de alguma
conspiração internacional inventada, com os Estados Unidos nunca mencionados ou
reduzidos à pequena aparência de cortesia de um agente ocasional da CIA.
   A Eurásia é, claro, a União Soviética, que Orwell assume terá
absorvido todo o continente europeu. A Eurásia, portanto, inclui todos os
A Europa, mais a Sibéria, e sua população é 95% européia por qualquer
padrão. No entanto, Orwell descreve os eurasianos como "homens de aparência sólida
com rostos asiáticos inexpressivos". Como Orwell ainda vive em uma época em que
'europeu' e 'asiático' são equivalentes a ''herói' e 'vilão', é
impossível investir contra a União Soviética com a emoção adequada se ela
não for considerada 'asiática' . Isso está sob o título do que
Orwellian Newspeak chama de 'duplo pensamento', algo em que Orwell, como qualquer
ser humano, é bom.
   Pode ser, é claro, que Orwell não esteja pensando na Eurásia ou na
União Soviética, mas em sua grande bête noire, Stalin. Stalin é georgiano,
A Geórgia, situada ao sul das montanhas do Cáucaso, é, por estritas
considerações geográficas, parte da Ásia.
   A Lestásia é, claro, a China e várias nações dependentes.
   Aqui está a presciência. Na época em que Orwell escrevia 1984 , os
comunistas chineses ainda não haviam conquistado o controle do país e muitos (
principalmente nos Estados Unidos) faziam o possível para que o anticomunista
Chiang Kai-shek mantivesse o controle. Uma vez que os comunistas venceram, tornou-se parte
do credo aceito no Ocidente que os chineses estariam sob total
controle soviético e que a China e a União Soviética formariam uma
potência comunista monolítica.
  Orwell não apenas previu a vitória comunista (ele viu essa vitória
em todos os lugares, na verdade), mas também previu que a Rússia e a China não formariam um
bloco monolítico, mas seriam inimigos mortais.
   Lá, sua própria experiência como sectário de esquerda pode tê-lo ajudado. Ele
não tinha superstições de direita sobre os esquerdistas como
vilões unificados e indistinguíveis. Ele sabia que eles lutariam entre si tão ferozmente
pelos pontos mais insignificantes da doutrina quanto o mais piedoso
dos cristãos.
   Ele também previu um estado permanente de guerra entre os três; uma condição de
impasse permanente com as alianças sempre mudando, mas sempre dois contra
o mais forte. Esse era o antiquado sistema de "equilíbrio de poder"
usado na Grécia antiga, na Itália medieval e no início da Europa moderna.
   O erro de Orwell foi pensar que deveria haver uma guerra real para manter o
carrossel do equilíbrio de poder em existência. De fato, em uma das
partes mais risíveis do livro, ele continua falando sobre a necessidade de uma
guerra permanente como meio de consumir a produção mundial de recursos e, assim, manter a estratificação social das classes
alta, média e baixa em
ser. (Isso soa como uma explicação muito esquerdista da guerra como
resultado de uma conspiração elaborada com grande dificuldade.)
   Na verdade, as décadas desde 1945 foram notavelmente livres de guerras em
comparação com as décadas anteriores. Houve guerras locais em
profusão, mas nenhuma guerra geral. Mas então, a guerra não é necessária como um
dispositivo desesperado para consumir os recursos do mundo. Isso pode ser feito por outros
artifícios como o aumento sem fim da população e do uso de energia, nenhum dos
quais Orwell considera.
   Orwell não previu nenhuma das mudanças econômicas significativas que ocorreram
desde a Segunda Guerra Mundial. Ele não previu o papel do petróleo ou sua
disponibilidade em declínio ou seu preço crescente, ou o poder crescente das
nações que o controlam. Não me lembro de ele ter mencionado a palavra 'óleo'.
   Mas talvez esteja perto o suficiente para marcar a presciência orwelliana aqui, se substituirmos
"guerra fria" por "guerra". Houve, de fato, uma
“guerra fria” mais ou menos contínua que serviu para manter o emprego alto e resolver alguns
problemas econômicos de curto prazo (à custa de criar
problemas maiores de longo prazo). E esta guerra fria é suficiente para esgotar os recursos.
   Além disso, as alianças mudaram como Orwell previu e quase tão
repentinamente. Quando os Estados Unidos pareciam todo-poderosos, a União Soviética e
a China eram vociferantemente antiamericanas e formavam uma espécie de aliança. À medida que
o poder americano diminuiu, a União Soviética e a China se separaram e, por um
tempo, cada uma das três potências investiu contra as outras duas igualmente.
Então, quando a União Soviética começou a parecer particularmente poderosa, uma espécie de
aliança surgiu entre os Estados Unidos e a China, pois eles cooperaram
para difamar a União Soviética e falaram baixinho um do outro.
   Em 1984, cada mudança de aliança envolvia uma orgia de reescrita da história. Na
vida real, tal loucura não é necessária. O público oscila de um lado para o outro
com facilidade, aceitando a mudança de circunstâncias sem nenhuma preocupação com o passado
Por exemplo, os japoneses, na década de 1950, haviam mudado de
vilões indescritíveis para amigos, enquanto os chineses se moviam na direção oposta, sem que
ninguém se preocupasse em acabar com Pearl Harbor. Ninguém se importava, pelo amor de Deus
.
   Orwell fez com que suas três grandes potências renunciassem voluntariamente ao uso de
bombas nucleares e, com certeza, essas bombas não eram usadas em guerra desde 1945. Isso,
no entanto, pode ser porque as únicas potências com grandes arsenais nucleares, os
Estados Unidos e a União Soviética União, evitaram a guerra entre si. Se
houvesse uma guerra real, é extremamente duvidoso que um lado ou outro não
sentisse finalmente a necessidade de apertar o botão. A esse respeito, Orwell
talvez esteja aquém da realidade.
   Londres, no entanto, ocasionalmente sofre um ataque de míssil, que soa
muito como uma arma V-1 ou V-2 de 1944, e a cidade está em uma
confusão do tipo 1945. Orwell não pode fazer 1984muito diferente de 1944 a esse respeito.
   Orwell, de fato, deixa claro que, em 1984, o comunismo universal das
três superpotências sufocou a ciência e a reduziu à inutilidade,
exceto nas áreas em que é necessária para a guerra. Não há dúvida de
que as nações estão mais ansiosas para investir em ciência onde as aplicações de guerra
estão à vista, mas, infelizmente, não há como separar a guerra da paz
onde as aplicações estão em questão.
   A ciência é uma unidade, e tudo nela pode estar relacionado à
guerra e à destruição. A ciência, portanto, não foi sufocada, mas continua
não apenas nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e no Japão, mas também no
União Soviética e na China. Os avanços da ciência são numerosos demais para
tentar listar, mas pense em lasers e computadores como 'armas de guerra' com
infinitas aplicações pacíficas.
   Para resumir, então: George Orwell em 1984 estava, na minha opinião, envolvido em
uma rixa privada com o stalinismo, em vez de tentar prever o
futuro. Ele não tinha o jeito da ficção científica de prever um
futuro plausível e, na verdade, em quase todos os casos, o mundo de 1984
não tem relação com o mundo real dos anos 1980.
   O mundo pode se tornar comunista, se não em 1984, então em uma data não muito
posterior; ou pode ver a civilização destruída. Se isso acontecer, porém,
acontecerá de uma maneira bem diferente daquela descrita em 1984 e,
se tentarmos evitar qualquer uma das eventualidades imaginando que 1984 é preciso,
estaremos nos defendendo contra ataques da
direção errada e perderemos.
 



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