quinta-feira, 13 de abril de 2023

Qual o papel da esquerda sob o governo Lula?

 


Qual o papel da esquerda sob o governo Lula?

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Mariúcha Fontana,

Opinião Socialista

www.pstu.org.br



O papel da esquerda deve ser o de ala crítica do governo com o objetivo de empurrá-lo para esquerda? Ou a defesa de um projeto socialista e revolucionário exige a ruptura com o governo Lula?



O governo Lula está aprofundando a política econômica aplicada durante os 8 anos de FHC/FMI. Esta não é uma opinião exclusiva do PSTU. É um diagnóstico de grande parte das correntes da esquerda do PT e também das direções de movimentos sociais que se reivindicam socialistas, como a do MST.



Apesar disso, há uma grande polêmica acerca do caráter do governo Lula e, mais importante, sobre as tarefas da esquerda diante desse governo.



Ainda que com diferenças, esses companheiros coincidem num ponto: consideram-se parte do campo governista. Embora sejam críticos às medidas e aos rumos do governo, se propõem a ser sua ala crítica. Rejeitam um papel de oposição de esquerda a ele. Para estes companheiros, o PSTU seria "sectário" porque se opõe ao governo.



Antes que nada, esclarecemos que não consideramos todo o espectro que se reivindica de esquerda e socialista por igual. Reconhecemos que há diferenças dentro deste campo. Há setores e correntes que privilegiam a ação direta e defendem um projeto de ruptura. Há outros que defendem reformas nos limites da ordem atual, priorizam de fato a ação institucional e, inclusive, participam diretamente do governo. Ambos justificam sua posição com base em diferentes argumentos. Buscaremos polemizar com eles neste artigo.



Mas, buscamos dialogar sobretudo com os companheiros com os quais estamos juntos nas lutas e a quem fazemos um chamado para construirmos juntos uma alternativa de esquerda no país. Pensamos que é nossa obrigação polemizar, de modo fraternal, com aquilo que opinamos ser uma posição equivocada.



Os argumentos do apoio crítico



Os companheiros do MST e do Consulta Popular, por exemplo, que privilegiam a ação direta, afirmam que o governo é, em princípio, aliado na luta contra a Alca, o latifúndio, etc.



O governo Lula, na visão dos companheiros, estaria em disputa. Avaliam que se as lutas se chocarem com o governo, cairão no isolamento e farão o jogo da direita, porque empurrarão o governo para os braços do imperialismo. Então, a esquerda deve estimular a mobilização social, mas não direcioná-la contra o governo. O objetivo deve ser o de "ajudar o governo a realizar mudanças" e empurrá-lo para a esquerda. Nessa mesma lógica, a esquerda petista, ou melhor, a parte da esquerda que a mídia tem chamado de "radical", diz ser contra a política econômica, mas que apóia o governo.



Esses companheiros alegam que, como a maioria dos trabalhadores apóia o governo, eles também devem apoiá-lo porque seria um erro se "isolar" das massas. Outros ainda argumentam que é preciso paciência, porque não haveria correlação de forças para a ruptura com o FMI e a Alca. Para estes, deve-se criticar as medidas que levam ao aprofundamento do projeto neoliberal, mas não se pode exigir do governo que pilote uma ruptura do modelo.



O argumento final é o de que se Lula for derrotado toda a esquerda e a classe trabalhadora seriam derrotadas junto com ele. Por isso é preciso lutar para que o governo dê certo.



Consideramos que estes companheiros cometem um grave erro em colocar-se numa posição de apoio crítico ao governo. Na nossa opinião, esta postura implica numa lógica que, longe de cumprir o papel de "empurrar o governo para a esquerda", acabará empurrando o movimento para a direita.



Não é possível empurrar o governo para a esquerda.



Esse governo não está em disputa e não é possível empurrá-lo para a esquerda por uma razão de classe. O governo, como instituição, faz parte do Estado burguês e se articula com outras instituições - Parlamento, Tribunais, Forças Armadas, etc - para compor um regime de manutenção da ordem vigente. No caso atual, ainda há o agravante de que a ordem estabelecida tem cada dia mais os contornos de uma "democracia colonial": é "blindada" pelo imperialismo e o FMI, que, de fato, definem as ações do governo.



O PT se propõe a governar nos limites dessa ordem e colocou no governo uma considerável representação da classe dominante. Do governo atual participam expoentes da burguesia como Meirelles (BankBoston), Furlan (Fiesp), Rodrigues (latifúndio) e outros do mesmo naipe. Lula governa em aliança com partidos burgueses como o PL, PMDB e PPB, nos marcos do acordo com o FMI. Não é possível empurrar para a esquerda um governo assim.



Para ser um governo passível de ser empurrado para a esquerda de modo a governar para os trabalhadores, teria que ser derrotado na sua forma e conteúdo atual: ser outro governo. Teria que romper as alianças com a burguesia, romper com o FMI e a Alca e estar disposto a governar apoiado na mobilização dos trabalhadores e suas organizações. Enfim, teria que deixar de ser um governo burguês, para converter-se num governo de ruptura com a ordem burguesa e imperialista.



Isso significa que este governo é idêntico ao governo FHC? Não. Num sentido é diferente. A diferença é que na gestão do Estado burguês, temos a participação de um partido operário, como o PT. Isso gera confusão e ilusões nas massas, que acreditam estar diante de um governo seu. Nesse sentido, as táticas que os revolucionários devem utilizar perante tal governo não são as mesmas que sob um governo burguês normal. Porém, a estratégia não muda e a tarefa não é apoiá-lo ou sustentá-lo, mesmo que criticamente, mas derrotá-lo. Porque apoiá-lo significará ajudá-lo a governar contra os trabalhadores e a manter a ordem estabelecida.



Dizer a verdade ao povo ou fazer seguidismo ao senso comum?



O governo tem pedido paciência aos trabalhadores, dizendo que não é possível mudar as coisas de um dia para outro. A maioria dos trabalhadores, porque confia no PT e em Lula, por enquanto tem engolido essa história. O paradoxo é que o governo tem atendido às pressas aos banqueiros e tomado medidas que aprofundam os planos neoliberais.



Uma das condições fundamentais para que a crise atual possa ser resolvida sob a ótica da burguesia é que a classe trabalhadora aceite sem reagir o "remédio amargo" do FMI e da Alca.



O governo usa da sua popularidade para acelerar e concluir as reformas de FHC, negociar a Alca e aplicar a agenda que consta da Carta de Intenções com o FMI. Nesta situação, os revolucionários não podem temer "isolar-se das massas". Pelo contrário, é preciso enfrentar o senso comum. Os trabalhadores não devem ter paciência alguma. E os revolucionários devem explicar essa verdade ao povo, mesmo que por algum tempo fiquem em minoria. Seguir o senso comum e ficar atrelado ao governo significa ajudar a construir derrotas.



"Medidas progressivas" e negativas ou um projeto global?



Reproduzindo o senso comum, muitos acham que o governo é "contraditório": tem medidas progressivas e regressivas. Todo governo - como qualquer coisa na vida - tem contradições, mas também como tudo é uma totalidade: a não ser em um momento de crise aguda quando uma totalidade se destrói e surge outra. No caso do governo atual, aquilo que o determina são os interesses da burguesia e um projeto de aprofundamento do modelo vigente. Nesse sentido, medidas aparentemente progressivas, como o "Fome Zero", por exemplo, estão a serviço de avançar nas reformas estruturais. Não podemos então nos comportar como os que apóiam as medidas progressivas e criticam as negativas, mas como quem denuncia um projeto global e luta contra ele.



Não se trata, evidentemente, de não fazer uso de tais medidas. Mas não se pode dourá-las como uma dádiva do governo. Deve-se exigir mais e denunciar seus limites.



Ruptura e correlação de forças.



Há setores que dizem ser esse o "governo possível". Que não podemos exigir de Lula que rompa com o FMI e a Alca, porque não haveria correlação de forças para tanto. É curiosa essa posição. Pois, se estas bandeiras estavam corretas sob o governo FHC, como podem estar erradas sob o governo Lula? A correlação de forças hoje é superior à que existia antes. Esses companheiros se apóiam na inexistência, por enquanto, de um ascenso generalizado das lutas. Mas poupam o maior obstáculo para que se dê um salto nas mobilizações da classe: o governo e o PT, que é a direção majoritária do movimento.



Se Lula fizesse um pronunciamento explicando que o FMI quer que ele pague - com a fome do povo - uma dívida externa questionada, que financiou as bombas contra o Iraque, e chamasse o povo às ruas para apoiá-lo numa ruptura, temos certeza que milhões se moveriam. O "mercado" retaliaria? Sim. Mas o governo, apoiado na mobilização da maioria do povo, tem como derrotar a burguesia e o imperialismo. Mas o problema aqui não é de ritmo. Ocorre que o governo não quer ruptura e nem que se criem condições para tal. Lula e o PT não querem mobilização, querem impedí-la.



Esquerda será derrotada se não superar governo Lula.



O argumento final é que o governo tem que dar certo, porque senão toda a esquerda será derrotada. Mas se o governo atual e o projeto do FMI que ele vem aplicando der certo, a classe trabalhadora será derrotada e a burguesia vitoriosa.



Há aqueles que esperam por um Plano B. Lindberg Farias, por exemplo, declarou ao Jornal do Brasil: "Há como construir um outro caminho sem criar uma grande crise de confiança no mercado. O nosso desafio, o desafio da esquerda do PT, é nos posicionar para influenciar os rumos do governo (...). Se esse governo der errado, infelizmente, é uma derrota de toda a esquerda".(06/04/2003)



Não há Plano B e não é possível um Plano B sem ruptura. Lula e o PT não querem quebrar os ovos e nem fazer omeletes. Já Lindberg quer fazer omeletes sem quebrar ovos.



Por quê a esquerda sofreria uma derrota se os trabalhadores derrotarem o governo nas reformas do FMI que ele quer fazer? A esquerda só será derrotada se a classe trabalhadora o for. E a classe trabalhadora será certamente derrotada se não enfrentar o governo. O desafio da esquerda é criar as condições para um governo verdadeiramente dos trabalhadores e construir uma alternativa socialista e revolucionária a esse governo.



A esquerda precisa romper com o governo, defender um governo dos trabalhadores e unir-se em um novo partido.



A esquerda socialista não pode seguir atrelada ao governo. Precisa romper com ele, postular-se como uma oposição de esquerda, na defesa de um programa de ruptura e socialista.



Levando em conta que a maioria dos trabalhadores confia em Lula e no PT, devemos todos denunciar a composição atual do governo, suas alianças e medidas. É preciso exigir que Lula e o PT expulsem os burgueses do governo e governem apoiados na mobilização dos trabalhadores e do povo, para aplicar um programa dos trabalhadores: ruptura imediata com o FMI e a Alca, não pagamento da dívida externa, emprego, salário e terra.



O PT, como instrumento da mobilização social por um projeto anti-imperialista e anti-capitalista, morreu. O PT é governo, aliado à burguesia, nos marcos do acordo com o FMI e das negociações para implementar a Alca.



É hora de unir a esquerda socialista e os movimentos sociais num novo partido. O primeiro passo pode ser a formação de uma frente, bloco ou movimento que possibilite a atuação conjunta nas lutas e o debate em torno de um programa revolucionário. É hora de construirmos uma alternativa de massas, de esquerda, de luta, de classe, socialista em nosso país.

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Quem faz o jogo da direita?

 Quem faz o jogo da direita?


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Opinião Socialista


Editorial


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José Genoíno, presidente do PT, disse no Congresso da UNE que "a esquerda faz o jogo da direita", em alusão aos "radicais" que o PT quer expulsar e à todos que se opõem pela esquerda ao governo e suas "reformas".




Deixando de lado o quão velho e surrado é esse "argumento", o que mais espanto causa é a cara-de-pau e falta de senso de ridículo de Genoíno. No mesmo dia, Lula da Silva abraçava-se ao chefe da direita mundial, George Bush. Além da "boa química" entre os dois, tão alardeada pela imprensa, o Presidente do Brasil declarava acreditar numa "relação perfeita" entre Brasil e EUA e aceitava a ALCA. Em seguida, Lula da Silva e comitiva reuniram-se com o FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, onde não lhes foram poupados elogios às "reformas" e à "austeridade fiscal".




Antes ainda da visita a Bush, o PT que diz querer "economizar" 56 bilhões de reais em 10 anos, às custas do confisco das aposentadorias dos servidores, está fazendo das tripas coração para jogar a CPI do Banestado pra debaixo do tapete e abafar o terremoto que causará a vinda à tona dos nomes de empresários e políticos que remeteram 30 bilhões de dólares para contas no exterior.




E, convenhamos, quem copia FHC, aplica de forma aprofundada o modelo neoliberal (antes patrimônio do PSDB e PFL) e integra até o PPB de Maluf na base governista, não tem como acusar - a não ser a si próprio - de estar fazendo "o jogo da direita".




Derrotar o jogo da direita com luta e com um novo partido.




O jogo da direita está sendo jogado pelo governo, com a reforma da Previdência, com a aplicação do receituário neoliberal e da cartilha do FMI e com as negociações e aceitação da ALCA.




Na verdade, a esquerda precisa entrar em campo, começar a jogar e ampliar seu jogo. Sim, porque ao PT passar com armas e bagagem para o campo do FMI e da burguesia, é urgente que a esquerda entre em campo. Coisa que começa a acontecer e ganhar força. Fazendo o jogo da esquerda para derrotar o da direita, teremos a greve do funcionalismo contra a reforma, que promete jogar bem. Ao lado dela, precisam se posicionar todos trabalhadores e ampliar o ataque e defesa da esquerda para derrotar o projeto do FMI e barrar a ALCA; para conquistar emprego, salário e terra e defender direitos.




Mas, para fazer o jogo da esquerda, os trabalhadores precisam também de um novo instrumento político. É necessário que toda a esquerda socialista vote contra a reforma – como farão os "radicais". E é preciso também que todos os socialistas rompam com o governo e com o PT e que todos juntos formemos um novo partido.




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Lula encontra Bush e diz sim à Alca.


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Opinião Socialista


João Ricardo Soares


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Enquanto Bush e Lula da Silva se reuniam na Casa Branca, soldados americanos continuavam assassinando famílias iraquianas. Não houve interesse de Lula em questionar o "terrorismo de Estado" de Bush, que transformou o Iraque em uma colônia dos EUA.




Lula da Silva, fazendo balanço da reunião, disse: "inicia-se uma nova etapa nas relações entre os dois países". Na verdade, não há nenhum exagero nisso. O que não se disse é que esta nova relação é a pavimentação do caminho que pode nos converter em uma colônia dos EUA, expressa na firme decisão de assinar a Alca. Não foi gratuito o "esquecimento" do Iraque, foi uma opção política.




No plano interno, o governo Lula da Silva tenta convencer os trabalhadores de que a colaboração de classes - e não a luta decidida contra a burguesia - pode garantir os interesses dos trabalhadores, e a luta entre as classes foi substituída pela "parceria".




Em nível internacional, em plena ofensiva recolonizadora do imperialismo contra os povos do mundo, Lula da Silva considera o momento como ideal para construir uma relação ainda "mais perfeita" com o imperialismo. Ele acha que pode aperfeiçoar o que foi feito por Collor e FHC?




Segundo Lula da Silva, agora será diferente: tudo se baseia em uma profunda "convicção de propósitos" dos países. A luta contra o imperialismo pode ser substituída por uma relação "civilizada" entre chefes de Estado. O imperialismo, que é a expressão da barbárie que acabamos de assistir no Oriente Médio, pode construir uma relação baseada na "civilidade" com o Brasil? Não. O que se viu foi a reafirmação de uma relação "servil", em que Lula incorporou toda a agenda do imperialismo americano, em troca de migalhas para as exportações dos latifundiários brasileiros ao mercado dos EUA.




O "sim" à Alca.




Não foi mera coincidência o fato de que ao mesmo tempo em que Lula da Silva dizia "sim" ao calendário da Alca, uma reunião ministerial da OMC no Egito constatava a crise da rodada de negociações. A chamada "Rodada de Doha" tem como eixo a abertura do mercado agrícola dos países imperialistas, em troca de aprofundar a abertura do mercado de serviços dos países periféricos.




Com duas negociações em curso sobre temas similares, a política inicial dos EUA foi atar o tamanho da abertura de seu mercado agrícola ao Brasil e Argentina, ao grau de abertura que fariam os europeus. A abertura do mercado agrícola da Europa para a exportação estadounidense, pode compensar a entrada de produtos agrícolas brasileiros nos EUA. Mas a União Européia não consegue chegar a um acordo sobre a redução dos 50 bilhões de dólares de subsídios dados a seus agricultores, nem sobre em que grau abrirá o mercado agrícola. O governo francês não está disposto a enfrentar a mobilização dos camponeses, em meio à luta do funcionalismo contra a reforma previdenciária.




Neste quadro, não existe outra alternativa para os EUA do que trazer para as negociações da Alca os pontos que tinha remetido à OMC - barreiras não tarifárias e agricultura - acelerando desta forma a Alca e desvinculando-a de um possível fracasso na OMC.




A razão de fundo de Bush para uma reunião de cúpula com Lula da Silva foi a retomada com tudo do calendário da Alca. A intenção de abertura do mercado agrícola fica clara no acordo que prevê a padronização das chamadas normas fitossanitárias, que abriria o caminho para aumentar a exportação dos latifúndios brasileiros.




Os EUA também deram sua benção para que a burguesia brasileira participe da "farra do boi" na África. Empresas brasileiras querem sua parte na rapina no continente, como é feito em Angola, principalmente no setor de construção.




Alca e "integração regional".




Entre os que lutam sinceramente contra a Alca, muitos tinham ilusões de que a política externa de Lula da Silva, de prioridade ao Mercosul e integração regional, fosse uma alternativa. O Ministério das Relações Exteriores chegou a ser apresentado por amplos setores da esquerda como trincheira de resistência contra a agenda neoliberal aplicada no país. Na verdade este seria o primeiro governo que funcionaria com tal critério. Pois a política exterior, mais do que um assunto de governo, expressa interesses de Estado e, em definitivo, interesses da classe que o controla: a burguesia.




Como a política interna do governo está adequada aos interesses do grande capital, vide a reforma da Previdência, lei de falências, reformas tributária e trabalhista, a política externa não poderia ser diferente. Afinal de contas, o Estado aplica uma política centralizada.




O próprio Amorim já tinha dito que o fortalecimento do Mercosul não era uma alternativa à Alca. Mas as declarações de Lula em Washington foram ainda mais categóricas ao afirmar que o Mercosul e a integração sul-americana "podem se converter em um bom negócio para as empresas americanas".




Demonstrando a serviço de quem está a "integração regional", Lula da Silva buscou convencer as "empresas privadas e fundos de pensão que invistam neste projeto, em especial as companhias americanas que já se mostraram interessadas".




Não houve exagero da imprensa burguesa ao noticiar que "Bush aprova plano de Lula para liderar América Latina", pois o plano não exclui os interesses dos EUA. Ao contrário, reflete a opção estratégica da burguesia com capital instalado no Brasil, de aprofundar sua associação com o amo do norte.




Não era por menos que Furlan, ministro exportador da Sadia, estava exultante com a reunião: "Há por parte dos EUA vontade política de aproximação com o Brasil e o desejo de uma agenda positiva". Trocando em miúdos: muitos lucros à vista.


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domingo, 9 de abril de 2023

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

 

            Quando vou a uma banca comprar revistas e jornais, que aprecio muito no formato físico, lembro-me com frequência da canção de Caetano Veloso: “Alegria, Alegria”. Nessa canção Caetano comenta, na verdade, que via nas bancas de revista o jornal de vanguarda O Sol, onde escrevia Nelson Rodrigues, dentre outros. O Sol não brilhou muito tempo, mas foi eternizado nessa incrível marchinha.

            Hoje nossa cidade tem somente duas bancas de revista. Uma delas vende revistas e também passagens de ônibus e é comandada por Alberto. A outra fica na Praça de Matriz, comandada pela simpática Irene, irmã de Alberto. Alberto é um senhor bastante sério e surpreendeu-me um dia, quando contei a ele que sou socialista. Ele disse que é socialista também e que o maior socialista do mundo foi Jesus Cristo!

Eu sempre achei um prazer ler as notícias e ver as capas de revista e manchetes.  Ela contou que trabalha há quarenta anos com banca de revista, mas que essa época da internet é a época mais difícil para esse empreendimento. Ela mostrou-me alguns brinquedos: a distribuidora passou a entregar até brinquedos para vender em bancas. Contei a ela que vi, em Belo Horizonte, bancas cobertas de roupas para vender, num espetáculo melancólico. Falei a ela que, mesmo na biblioteca pública e na escola onde trabalho, as assinaturas de jornais e revistas foram cortadas. Um dia encenamos uma peça teatral onde o pai de família lia um jornal. O jornal encontrado pelos alunos foi esse Jornal de Negócios, cujos exemplares eu levo para a biblioteca da escola com bastante frequência. Ela contou-me, com tristeza, que não abre mais a banca em dias de domingo: nada de comércio, nem o Xuá Lanches abre mais aqui na praça, ela fica ali sozinha e tem medo, restam da madrugada alguns bêbados, ela acabou preferindo não abrir mais. Uma pena, pois o domingo era, no passado, um dia onde, tradicionalmente, as pessoas tinham mais tempo de ler jornais e revistas.

            Minha mãe é ávida leitora de jornais. Eu contei a Irene que eu tentei assinar o jornal O Tempo para minha mãe, mas a empresa desistiu de renovar assinaturas para o interior. A ideia deles é concentrar a venda apenas na região metropolitana de Belo Horizonte, conforme fiquei sabendo ao entrar em contato com a empresa. Um carro vinha trazendo os exemplares para o interior, mas com a queda nas vendas, passou a ser inviável. O Tempo passou a chegar apenas às sextas-feiras. Numa sexta passei lá e encontrei o último exemplar. São apenas quatro, comenta a sempre atenciosa Irene.

 Igualmente, soube que algo semelhante ocorreu ao jornal Aqui, que era muito barato e vendia bem diariamente, passou a ser semanal e as vendas despencaram. O poeta, editor da Literatura em Cena e psicanalista Eduardo Andrade, personagem frequente dessa minha coluna, explicou-me, recentemente, que o preço do papel aumentou com a venda on-line de mercadorias durante a pandemia. É muito mais lucrativo vender papel para embalar mercadorias do que para fazer jornais e revistas, daí a crise do papel.

            Outra revista que eu compro com Irene é a revista Piauí. Eu sou um dos poucos compradores da cidade. Como assim da cidade? Irene disse que vem um rapaz de Dores do Indaiá que passa ali para comprar. “Mas lá não tem banca?”, perguntei eu, perplexo. “Não, não tem”. Diante do meu espanto, completa ela: “não tem mais banca de revista em Luz, Nova Serrana e nem Moema”. Que triste realidade, a do nosso interior!

            E assim, angustiado, pensando em como a vida é breve e tudo acaba, peço aos meus leitores apoio às nossas duas bancas, para que apoiem os vendedores e para que elas não fechem. É um apelo...E ao fazê-lo penso em outra canção de Caetano, Irene: “Quero ver Irene rir! Quero ver Irene dar sua risada...”

 

 

 

 

 

 

sábado, 25 de março de 2023

Carlos Madeira: Vislumbres e Cor e Forma

 

Carlos Madeira: Vislumbres e Cor e Forma

 

 

            Carlos Madeira é um artista plástico autodidata, atua na área de Artes Plásticas desde os 20 anos. Esse grande artista bom-despachense já realizou trabalhos importantes como o Catálogo Aleijadinho. Carlos participou de exposições nacionais e internacionais em países como França, Alemanha, Finlândia.

            As Artes Plásticas, como toda arte, têm papel importante de difundir e representar a cultura de um povo. A maneira de expressar do artista em suas telas é muito peculiar de formas variadas, seja ela no figurativo e no abstrato, cada um eterniza suas ideia de forma plástica, exemplar, instrutiva, dentre outras manifestações.

            Ele começou a tomar gosto pela arte já na infância. Com uns cinco anos já fazia seus primeiros desenhos. Sem condições de estudar numa escola de Artes, teve de desenvolver sozinho seu método artístico. No início, era apenas desenho e lápis, inspirando-se na figura humana.

            Com o passar dos anos, percebeu que poderia ir além do desenho. Passou a pintar OST (óleo sobre tela) e, para desenvolver seu estilo, foram anos de pesquisas e testes. Criou métodos de desenhos, mistura e combinações de cores. Apaixonou-se pelo realismo. Em meio a pinceladas suaves, surgiam os retratos, a maioria para galeria. Teve também o prazer de pintar uma série: homens do campo, seus modos, seus costumes, trabalho e vivência simples que se tornaram imortais em suas telas.

            De uns anos para cá, aventurou-se em novas experiências. Foi então que descobriu na acrílica um jeito gostoso de brincar de arte. Sendo assim, com espátulas e cores vibrantes deixou seus fiéis traços se soltarem naturalmente.

            E assim, Carlos vai vivendo de arte e pra arte, ensinando e compartilhando todo seu aprendizado e conhecimento a pessoas que se dedicam à arte de pintar. O que Paulo Francis disse sobre Mondrian aplica-se à obra de Carlos Madeira:

 

            Mondrian quer fechar todos os buracos da percepção visual de maneira frontal e plana, respirando com sua linha e cor. Terminou em cores, soltas no espaço, as barras desaparecem, chegam à quase invisibilidade, você está dentro de um novo universo que ele criou. Algumas pessoas sentem-se instintivamente se sentem atraídas por essa reorganização matemática do mundo que depois se liberta de qualquer presilha, como se fosse um só vislumbre de cor e forma que temos de um trem ou carro em alta velocidade, ou numa lente forte, que tudo distorce, encontrando a própria harmonia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de março de 2023

Bom Despacho em Cena: Menino Bonito, Expressões do Futebol, Ruas do Rio de Janeiro

 

Bom Despacho em Cena: Menino Bonito, Expressões do Futebol, Ruas do Rio de Janeiro

 

            Menino Bonito, texto autobiográfico de Alberto Coimbra (editora Literatura em Cena, 2022), é produto da reescrita do texto Impressões de Cinema, desdobrado em três: Resposta ao Tempo, Ruas do Rio de Janeiro e Belas Artes. Menino Bonito é Resposta ao Tempo renomeado.

            Eu preferia o título Resposta ao Tempo, é uma busca autobiográfica do escritor de compreender sua própria trajetória. Para tanto, ele revisita a relação com a família, pai e mãe, com os amigos da cidade, brincadeiras infantis, primeiros namoros, etc. Ele parte em busca de significados e sentidos profundos, em busca de saber onde algo de essencial foi perdido, onde os problemas começaram.

Nessa narrativa existem muitos elementos interessantes e situações curiosas que volta e meia emergem em uma linguagem atrativa e construída em cenas cinematográficas e fragmentos. Não é à toa que ele focaliza a ruína romana que surge ao final do filme Satyricon: a partir do presente, ele busca as ruínas do passado, daquilo que já foi e já se encerrou.

Ele conhece –e muito bem relembra-- figuras realmente fascinantes da cidade, como a cantora Cibele Oliveira, que é uma artista como ele. Há vários outros: André, que suicidou-se, com quem ele sentiu identificação; Zé Toniquinho, personagem folclórica da cidade e a quem ele associa ao anjinho do Sítio do Pica Pau Amarelo; Vera do Azul torna-se a atriz Farah Fawcett da série As Panteras, Maria José Paixão entrou em foco porque é a artista sofrida, cujo talento e fascínio libertário a cidade e o marido reprimem, dentre outros achados que são curiosos e engraçados e fazem o livro fluir muito agradavelmente.

            Foi muito interessante a relação com do texto com o cinema, os filmes na TV, a forma como Alberto, que tornou-se cinéfilo a partir dos filmes na televisão, relembra o cinema local, o Cine Regina, com grande riqueza de detalhes. É fascinante a aplicação que faz dos filmes e cenas em sua vida pessoal. Essa autobiografia resolveu o problema do fio condutor, que em Impressões de Cinema era tênue e ficou sendo um bom livro, embora mesmo esse Menino Bonito ainda tenha alguns problemas de revisão, como crase, maiúsculas e minúsculas: por exemplo, “militar” e “costureira”, nomes de profissão dos pais, estão em letra maiúscula sem razão alguma.

            Aparentemente a relação com a mãe, que compara com “Greta Garbo”, é melhor do que a relação com “Tyrone Power”, que é o pai. É muito curiosa a descoberta de Rita Hayworth, uma estrela de Hollywood cujos filmes foram marcantes para a geração 68, que foi a geração do pai. Alberto Coimbra, num tempo de Sharon Stone, fascinou-se por Rita Hayworth, a deusa do amor, querendo até mesmo transformar-se naquela atriz que fascinou e que já vivia seu crepúsculo quando Alberto a descobriu.

            As Ruas do Rio de Janeiro (editora Literatura em Cena, 2022), baseiam-se na ideia do flanêur de Baudelaire: o poeta como observador da urbanidade, um representante da modernidade que dedicou-se a atividades lúdicas e ociosas, levando a vida a buscar sensações diferentes das vulgares, vestindo-se de forma elegante. É o dândi em busca de seu sândalo. O poeta anda pelas galerias de Paris, Alberto anda pelas ruas do Rio. E Alberto escreve sobre a ladeira da Misericórdia que levava ao Morro do Castelo (demolido, mas foi onde o Rio nasceu e comenta que essa ladeira foi citada em Esaú e Jacó, de Machado de Assis). A partir de uma rua ou ladeira, Alberto começa o palavra-puxa-palavra, menciona uma frase de Adélia Prado, uma canção de Gal Costa, e por aí, em associação livre, o texto vai fluindo. As enumerações e referências são muitas, abundantes, mas a leitura é prazerosa e, ao final, ficou a frase espirituosa e marcante: “Muito são cariocas, alguns nasceram longe de casa.” Alberto Coimbra seguiu o destino histórico de mineiros como Fernando Sabino, Drummond e integrou-se na alma encantadora do Rio, tal como sua irmã Denise comentou no prefácio.

            Expressões do Futebol (editora Literatura em Cena, 2022) é um livro interessante de ficção e prosa poética a partir da pesquisa inédita sobre o futebol local. O livro não surgiu, como As Ruas do Rio de Janeiro, de um desenvolvimento posterior de Impressões de Cinema. Lançado anteriormente, já foi intitulado Léo e o Futebol. Mesmo nessa reedição, ressentiu-se de ser ao mesmo tempo pesquisa histórica sobre o futebol local (e esse é o primeiro livro sobre futebol local que eu conheço, daí sua grande importância) e uma ficção erótica. O melhor seria, de fato, numa nova reedição, reescrever o livro enquanto uma ficção utilizando Léo como um motivo-guia a unificar as situações e informações, utilizando a pesquisa historiográfica (que cita profissionais reais e atuantes como Graia, Tebinha, Khalifa) apenas como inspiração e citando suas fontes ao final, homenageando-as.

A decisão de desmembrar e desenvolver Impressões de Cinema foi boa e gerou obras muito interessantes. Ficamos no aguardo da terceira obra: “Belas-Artes”, falando de sua relação com o cinema.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Miguel Gontijo: Um Amor que Nunca se Acabou

 

 

Miguel Gontijo: Um Amor que Nunca se Acabou

 

            Nesse novembro de 2022, a Escola Estadual Miguel Gontijo fez setenta e três anos, embora suas atividades tenham iniciado efetivamente em 15/04/1950. Lembro-me que, quando vim trabalhar em Bom Despacho em 2001, encontrei o político Hugo Gontijo, filho do construtor do ginásio e também político. Dr. Miguel Marques Gontijo era médico e foi vice de Dr. Cisalpino. Em sua homenagem temos o hospital, o colégio Miguel Gontijo e uma rua.

            Eu e Hugo Gontijo fomos tomar uma cerveja no que eram, então, o bar e sebo Sabor e Saber, cantinho da Roberta do professor Tadeu (que falta que faz!). A cidade continua sem ter um espaço semelhante, aberto para música, artistas locais, livros. Eu cheguei a dar uma palestra sobre tropicalismo lá, passando cenas de um especial de Caetano Veloso na Rede Manchete em 93 (quando ele fez cinquenta anos), com cenas do musical Opinião com Maria Betânia, etc.

Quando contei que era da área de Letras e Filosofia, ele contou-me que redigiu a letra de uma música junto ao um compositor. E ele passou a recitar a canção para mim. Eu vivia o fim de um amor com a hoje minha amiga Luciene Guimarães e fiquei profundamente emocionado. A canção falava de um brinde com copos de vinho e outras imagens muito bonitas. Ela me lembrava Flor de Lis do Djavan: “E foi assim que eu vi o nosso amor na poeira...poeira. Morto na beleza fria de Maria...e o meu jardim da vida, ressecou, morreu. Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”. E de repente, ao terminar de recitar, Hugo perguntou-me: “qual o nome que você dá para essa canção”? Eu pensei e disse: “Um Amor que Se Acabou”. Pasmo, Hugo ficou calado alguns momentos e respondeu: “mas esse é o nome dela...”

            Não muito tempo depois, esse outro Gontijo perdeu uma filha pequena em circunstâncias trágicas, entrou em depressão e deixou-se morrer.

Naquele tempo em que trabalhei na Escola Estadual Miguel Gontijo, a sombra de um outro grande professor de Filosofia ainda pairava lá: a do professor “Coió”. O professor, muito culto, virou folclore. Na época em que a informação era restrita, o professor de Filosofia trazia para a sala de aula jornais em inglês e em francês. Curiosamente, eu também lembro desses jornais, tais como New York Times, Le Monde, bastante caros, eram embrulhados em plástico e eles para mim eram vistos um como objeto de desejo em livrarias chiques da Savassi em Belo Horizonte. Esse tempo, o vento levou!

            O vento levou também o professor Coió. Anos depois, tive a honra de lecionar ao lado de seu filho, um professor de Português morto muito prematuramente, para tristeza de todos. “Coió”, como o professor Majela, deixou muitas memórias e virou folclore, por assim dizer. Minha mãe tem grande carinho, ainda pelo professor Magela. Meu pai também repete histórias a seu respeito, um verdadeiro mito. Meu primo Roberto Queiroz lembra de histórias muito curiosas sobre “Coió”. O grande mestre não enxergava bem. E, sabendo disso, os alunos colocaram uma bola com boné no fundo da sala. O professor de Filosofia aproximou-se e leu um sermão para o aluno (contra o uso do boné), mas de repente viu que estava enganado e eram as famosas palavras ao léu. Roberto contou-me também que pegou carona em seu velho carro. Lá dentro, como o professor entretinha-se com uma fazenda, havia também terra e até uma plantinha brotando, já com ramos verdes, ao pé do banco de trás, o que tornava o ambiente do carro do professor um aspecto um tanto quanto surrealista.

            Em criança, eu brinquei na praça do Miguel Gontijo nos fins de semana. As praças da cidade tinham brinquedos que rodavam, escorregadores, jardins com espaço de areia onde as crianças brincavam. Onde há aquela curiosa “corcova” na praça da escola Miguel Gontijo havia um jardim de areia onde fazíamos castelos, etc. Nessa época, para vocês terem ideia, fascinavam-me os trilhos da estrada de ferro atrás da rodoviária que ainda, muitos anos depois dela desativada, ainda estavam ali. E a rodoviária era aquele pequeno prédio antigo onde estava a sede da Assem.

            Segundo o diretor Ronaldo Lúcio, a Escola Estadual Miguel Gontijo foi construída graças aos praças do quinto batalhão, o “Machado de Prata” atuou ali também, ajudou a construir pedra por pedra o sonho do ginásio realizado pelo Dr. Hugo Gontijo (ele era médico).

            Uma vez encerrada a fase na UNIPAC, passei a trabalhar em escolas locais, esporadicamente, até conseguir a efetivação na Escola Wilson Lopes do Couto. Gostei muito da experiência na escola Miguel Gontijo. A equipe do Miguel Gontijo teve um grande papel na consolidação da universidade local: grandes professores saíram dessa escola, bem como Samira Araújo, que atuou nos dois ambientes, tais como também a Vera do Azul, o competentíssimo Jackson e muitos mais. E o Miguel Gontijo, continua, com o tempo integral, na vanguarda da educação em nossa cidade.

            Parabéns à Escola Miguel Gontijo e a toda equipe pelos 73 anos! Que esse amor, que reencontrei no filho de Dr. Hugo Gontijo, nunca se acabe!

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Problemas da Poética de Dostoiévski em Crime e Castigo

 

Problemas da Poética de Dostoiévski em Crime e Castigo

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior[1]

 

 

                                              Sou satanás e nada do que é humano me é estranho”

                                                           Irmãos Karamázov

 

 

1.    Introdução

 

                        Ao fazer a leitura do romance Crime e Castigo, notamos algumas questões filosóficas que precisam ser melhor pensadas. Em particular a questão da psicologia do protagonista, que é ao mesmo tempo ex-estudante de Direito e criminoso que estuda a psicologia criminal.

                        Crime e Castigo é lido como a história de um estudante que perde seus valores, Deus inclusive, aderindo ao niilismo (leia-se ideias iluministas e racionalistas) inspirado em Napoleão. Ele comete um crime contra a dona do pequeno apartamento onde ele mora, Aliena Ivanova e contra sua sobrinha Lisavieta, depois entra em crise, revela seu crime graças à religiosa Sônia e arrepende-se, convertendo-se também ao evangelho. Ele descreve Aliena em termos pejorativos como “judiazinha”, num diminutivo pejorativo, bem como a compara a um piolho, demonstrando antissemitismo, que já é mais um elemento a mostrar que ele tem pouco de progressista.

                        A leitura de Lukács do tempo de Bolchevismo como Problema Moral comparou o crime que Raskolnikov realizou e os métodos violentos da revolução russa –e associou num sentido pejorativo, negativo. Essa aproximação voltou mais recentemente na análise do ideólogo de Putin, Aleksandr Dugin.

                        Em muitos outras passagens, dentro do romance, pode-se dizer que Razhumikin e Raskolnikov são bastante conservadores, criticam os progressistas como Radischev, considerado o Rousseau russo. O único elemento mesmo que é convincente nesse sentido é a devoção a Napoleão, que aliás, era um monarquista. A leitura de Raskolnikov de Napoleão é equivocada. Pode-se dizer que essa devoção a Napoleão aproximou o personagem ao Napoleão de hospício. Igualmente, ao final do romance, a análise da justiça russa é que Raskolnikov teve um acesso de loucura, o que favoreceu sua defesa.

 

2.    Lukács e Dostoievski

 

                        Lukács, em Bolchevismo como Problema Moral, tratou de comparar os raciocínios dos bolcheviques sobre ditadura do proletariado, tratando de fazer um mal em prol de um bem maior, com a filosofia do “ex-estudante” Raskolnikov em Crime e Castigo, no momento em que ele ousa discutir com o delegado Porfiri sobre o estado psicológico do criminoso durante o ato do crime. Lukács, posteriormente, considerou em um ensaio de 1949 que as respostas políticas e sociais de Dostoievski são falsas, mas não se aprofunda nesse ponto. E esse, de fato, é um importante ponto. As considerações de Lukacs em 1918 foram as seguintes:

 

A primeira atitude aparente de sua convicção imediata, enquanto na segunda, esta pureza é sacrificada conscientemente para que, por meio desse auto-sacrifício, possa-se realizar a social-democracia em sua totalidade e não apenas um de seus fragmentos, destacados de seu centro. Repto: o bolchevismo baseia-se sobre a seguinte hipótese metafísica: o bem pode surgir do mal, e é possível, como o diz Razoumikhine em Crime e Castigo, chegar à verdade mentindo. O autor dessas linhas é incapaz de partilhar essa fé, e isto porque vê um dilema moral insolúvel na raiz mesma da atitude bolchevique, enquanto a democracia - acredita – não exige daqueles que a querem realizar consciente e honestamente até o fim senão uma renúncia sobre-humana e o sacrifício de si. E, entretanto, ainda que esta solução exija uma força sobre-humana, no fundo não é insolúvel, como o é o problema moral posto pelo bolchevismo (LUKACS, 2022)

 

                        As questões são no mínimo pitorescas para um pensador que tornou-se conhecido por dedicar a vida ao marxismo ocidental, uma vertente crítica ao marxismo-leninismo, embora quase nunca apresente-se assim.

                        A questão aqui, no entanto, não é tanto chegar até à verdade mentindo, mas chegar à democracia popular através de um primeiro momento de autoritarismo depois da revolução. Sua interpretação dependo que você chamar de bem e mal: será que é “mal” distribuir latifúndios, socializar a propriedade numa sociedade em que ela está em mãos de poucos?

                        É curioso que, como para Dugin, para Lukács um século antes, o crime de Raskolnikov pode ser aproximado à atuação dos bolcheviques, ou seja, a fazer a revolução. No romance Os Demônios é bastante evidente essa relação: nele, é mais claro que é crime fazer a revolução.

                        Curiosamente, Lukács aventou o paralelo possível entre o crime de Raskolnikov e a revolução, hipótese que trataremos aqui. Como explicou o próprio Raskolnikov:

 

          Sobretudo, não era por necessidade de dinheiro que eu matei. Era-me preciso saber outra coisa, outra coisa impelia o meu braço; eu queria saber mais que depressa se eu era um verme como os outros ou se era homem. Saberia saltar o obstáculo ou não? Perguntava a mim mesmo. Ousaria me abaixar e apanhar o poder ou não? Sou uma criatura temerosa ou terei a força de ousar? (ROSA. 1980, p. 211).

 

                        Note-se aqui que a questão é o poder, ou seja, ele deu a entender que a questão era política. Para uma determinada classe, a proprietária, o que aparece como mal pode ser o bem para a outra classe e vice-versa. A passagem em que Razumíkhin fala sobre mentira e verdade foi a seguinte:

 

          Ora, sabes o que mais me dá raiva? Não é o fato de mentirem; sempre se pode perdoar a mentira; a mentira é uma coisa simpática, porque conduz á verdade. Não, o deplorável é que mentem e ainda reverenciam a própria mentira. Eu respeito Porfiri, portanto (DOSTOIEVSKI, 2001. P. 148)

 

                        É curioso que, no romance, Porfiri não mente para chegar a verdade, muito pelo contrário, daí que não há sentido nessa conclusão de Razumíkhin a respeito de Porfiri. O investigador, ao encontrar a teoria dos homens extraordinários que podem matar num artigo de Raskolnikov, passa a desconfiar desse rapaz, evidentemente; outra de suas pesquisas é que Ródia procurou outro apartamento na data próxima do assassinato, outra evidência que condena o estudante. Nada disso é mentira. A partir de evidências, ele chega a Ródia e o pressiona. Porfiri é uma figura paternal, se Raskolnikov é estudante, já Porfiri é formado, daí que ele se impõe sobre o mais novo.

                        Não há como comparar um atentado como fez o irmão de Lênin contra o czar contra o que fez Ródia contra a dona da pensão onde vivia. Essa comparação mostra como é inconsistente a teoria dos “super-homens” esboçada por Raskolnikov: existem os homens comuns e os super-homens. Na realidade não existem indivíduos excepcionais e outros não excepcionais, existem os que representam as aspirações das massas, da coletividade. E Napoleão não foi sempre excepcional. Houve um tempo em que foi apenas um oficial de baixa patente da Córsega. A história é que deu a ele a importância que tem agora, a partir de um certo momento histórico. A questão é: quem define que momento histórico Napoleão tornou-se “Napoleão”?

                        E outra: não há indícios de que nem Raskolnikov e nem Razhumikhin sejam “niilistas”, ou seja, socialistas utópicos ou progressistas, muito pelo contrário. Na página 537:

 

          --Eu lhe pergunto. Pensando bem, estou com o senhor...porque o senhor, é claro, não é niilista! Responda com franqueza! Com franqueza!

                        --N-não...(DOSTOIEVSKI, 2001, P. 537).

 

                        Igualmente, Razumikhin, ao falar de “milhares de pessoas” a serem libertadas com a morte de Aliena Ivanova, parece-nos um “alter ego” exterior de Ródia, mais do que a voz de um amigo, pois é delírio essa ideia de que o assassino de uma velha usurária libertasse milhares de pessoas. Essa é uma das respostas falsas colocadas por Dostoiévski das quais estamos tratando aqui. A não ser que a morte da velha fosse uma metáfora da revolução.

                        Igualmente, em Crime e Castigo, Raskolnikov não arrependeu-se do que fez. Quando perguntado se fez correr sangue, argumentou que sim, mas que ele continua a correr em cascatas:

 

          --Que não param de derramar—emendou quase caindo em fúria--, que continuam derramando e sempre derramaram no mundo como uma cascata, que derramam como champagne, pelo qual coroam no capitólio e depois  o chamam coroado de benfeitor da humanidade (...) Depois do fracasso tudo parece tolo (DOSTOIEVSKI, 2001, p. 526).

 

                        Essa hipótese do crime nesse romance Crime e Castigo como metáfora da revolução não nos parece absurda e foi aventada, por exemplo, por Alexander Dugin ao analisar esse romance. Por isso, quem sabe, as pistas falsas que esse romance dá: a psicologia do estudante não é de um criminoso comum, ele tem gestos de altruísta, a narrativa parece, no fundo, querer identificar o leitor com um personagem intelectualizado, sensível, colocado em uma situação-limite que nós acabamos sendo convidados a experimentar.

 

2.Entre a Polifonia, a Mística e a Ideologia

 

                        Há duas vertentes de análise de Dostoiévski, uma que analisa sua obra como influenciada pela religiosidade ortodoxa, uma vez que ele, em sua fase madura, renasceu como reacionário czarista, depois da maturidade revolucionária, fazendo um trajeto que, no final do século XX, virou clichê. A outra o analisa como grande romancista que analisa a psicologia e o dialogismo dos personagens ao mesmo tempo em que faz realismo social.

                        A mística de Dostoiévski parece-nos pobre para que ele possa ser tão levado a sério enquanto místico e não artista. Igualmente, há quem levante a hipótese de que Porfiri sempre sabia do crime. Porfiri seria, então, um anjo. No entanto, nota-se que surgiu outra pessoa que confessou o crime cometido por Raskolnikov e o “anjo” Porfiri não descartou a hipótese logo de cara.

                        No caso da obra de Luiz Felipe Pondé, Crítica e Profecia, ligada a uma vertente mística como toma Dostoiévski como profeta e um místico e não um artista, pareceu-nos que o autor não dá conta da análise literária propriamente dita desse romance. Pondé, como muitos russos, segundo Nabokov, considera Dostoiévski um místico. O que de roldão desmistifica a ideia de que a obra de Pondé seja de alguma forma original. Já Flávio Ricardo Vassoler, ao analisar Bakhtin, Marx e Adorno, avança significativamente, principalmente ao notar a insuficiência do conceito de dialogismo e polifonia de Bakhtin. Mas é preciso ir ainda mais longe.

                        Há, por outro lado, a teoria de Bakhtin, que supõe que Dostoievski inventou uma polifonia, ou seja, os romances teriam inúmeras posições ideológicas, não reforçariam as posições reacionárias do autor do Diário de um Escritor. Posições essas que, a despeito de Bakhtin, precisam ser procuradas em obras como Crime e Castigo e não apenas questões de diálogos e estilo. E sem dúvida pode-se ler Crime e Castigo como obra que rejeita as ideias liberais e receita ideias religiosas em seu lugar. Assim, portanto, Bakhtin, ao refugiar-se nas questões de forma, deixa de lado de investigar a ideologia reacionária religiosa de Dostoiévski, escondendo-a. Mas pode-se dizer que Bakhtin escondeu-a porque tinha seus motivos:

 

Bakhtin já havia sido preso e exilado como membro confesso de uma subversiva organização religiosa clandestina. ele teve um interesse vitalício por Dostoiévski, a quem sua filha diz que ele considerava um reacionário político, mas “um grande psicólogo” (KOSTOVA E BRIKLEY, 2022).

 

                        No entanto, Dostoievski, embora não tenha um narrador fazendo pregações moralistas, como sói um religioso conservador fazer, nem por isso não deixa de ter valores investidos. Em Crime e Castigo, a conversão do estudante admirador de Napoleão (imperador burguês ou assassino de monarquistas?) a arrependido religioso, espelhando a conversão do próprio autor (que nunca se arrepende, porém), sem dúvida investe valores positivos nos valores religiosos representados por Sônia e por sua conversão. Quando  perguntamos a respeito de quem ajuda Raskolnikov, concluímos que Sônia o ajuda, o amigo Razumikhin também, enquanto Lújin, Svridrigailov, Aliena Ivanova lhe fazem oposição. E em quem ajuda são investidos valores positivos, em quem opõe, negativos.

                        Razumikhin manifesta-se contra a ideia de que o criminoso é fruto do meio. E esse romance, aparentemente, também é contra essa tese: Raskolnikov sem dúvida não é influenciado por seu meio, pois em seu meio ninguém é capaz de algo semelhante: sua mãe vive na pobreza, sacrificando-se para mantê-lo em São Petersburgo, vivendo como viúva apenas da pensão do pai. E ele, por outro lado, nega seu apoio para que a irmã case com Lújin e com Svridrigailov, homens mais ricos que poderiam tirar a família da pobreza. Podemos dizer que Raskolnikov, ao sentir-se oprimido pela dona da pensão, Aliena Ivanova, sente uma opressão suplementar ao ser pressionado novamente pelo dinheiro. No entanto, Raskolnikov, sem trabalhar e nem estudar, não oferece à família nenhuma saída. Pelo contrário, ele afunda-se mais e mais ao cometer o crime.

                        Ele (e Dostoiévski encaminha sua polifonia para isso) tende a se opor a essa tese e desloca a análise do meio para as responsabilidades do indivíduo, isolando-o do social. O ato criminoso seria responsabilidade de um abismo daquela subjetividade em si – e não de uma ordem social criminosa em si. O próprio crime de Raskolnikov aparenta ser o que é ali refutado pelo amigo Razumikhin: um protesto enlouquecido contra um sistema social anormal. No entanto, nessa vertente reacionária para onde as vozes dostoievskianas se encaminham, esse crime seria um “delírio de um anormal”.

                        Essa é uma falha (também notada por Nakokov, ao falar do assassino sensível e da prostituta evangélica), ao meu ver, fundamental no romance: a psicologia do estudante de Direito, ou mesmo ex-estudante, é muito diversa da personalidade criminosa. O estudante de Direito com certeza pode aperceber-se que são muito mais comumente punidas as delinquências populares. A tendência do estudante de Direito é de cometer, depois de advogado, crimes de “colarinho branco”, ou seja, crimes ligados às altas esferas da sociedade e, portanto, menos ou nada punidos.

                        Fora o evidente problema que é criar um psicólogo que enlouquece, por exemplo. E também o problema em dizer que Raskolnikov seria um rebelde, em seu próprio nome estaria referida uma cisão da Igreja Ortodoxa russa. Há uma linha de pensamento que julga Raskolnikov cheio de niilismo, ideias ocidentais como as de Napoleão e nessas ideias e suas práticas estaria o mal.

                        No entanto, Raskolnikov rejeita Rousseau, comenta que suas confissões são chatíssimas e compara-o a Radischev, pensador russo que ele aparentemente despreza. Ou seja, Raskolnikov é também um conservador. E, verdade seja feita, o estilo dialogista de Dostoiévski, onde ele, como um reacionário sofisticado, disfarça-se nos diálogos e vozes inúmeras, mas mesmo assim pode ser rastreado, é por vezes também chatíssimo: há a clara impressões de várias pessoas em uma sala que falam ao mesmo tempo. Além de digressões onde surgem reflexões sobre a religião bastante acríticas, pias mesmo, próprias de um devoto, há uma multiplicação descontrolada e irritante de subtramas e de personagens. De forma alguma sua prosa é elegante e floreada como a de Nabokov em Lolita. A frase a beleza salvará o mundo é com frequência mal interpretada. Há pouca beleza em seu estilo, que é um estilo feio e complicado. A beleza, podemos dizer, é o sofrimento. É o sofrimento que, para esse cristão neurótico, salvará o mundo.

                        Mas esse cristianismo tem o problema de introduzir a ideia de que os bons tem de sofrer por serem bons, ou seja, quem faz o certo, quem age bem, é altruísta, tem que sofrer. E, quem não quer sofrer e nem salvar o mundo pode, por instinto, querer salvar apenas seu próprio ego e ter prazer. Sendo assim, paradoxalmente, essas ideias reforçam, por vias tortas, aquilo que elas querem combater: o niilismo no sentido da destruição dos valores. Se para salvar o mundo e ser bom é preciso sofrer, porque não apostar nessa vida mesmo e salvar o seu eu, obtendo prazeres? Dentro da lógica de que é melhor aproveitar essa vida, essa que se tem uma vida em mãos do que ter duas perdidas, acaso essa vida eterna e essa divindade não exista e não nos julgue? E isso piora na medida em que, desde os primórdios, por exemplo, da filosofia pré-socrática, verificou-se que os negros têm deuses negros e os trácios louros, deuses loiros, ou seja, é bem possível que Deus é o homem que inventa. E inventa e é útil socialmente, hoje em dia, para que o pobre não mate o rico.

                        Outra: além do criminoso estudando a personalidade criminal e fazendo artigo sobre isso, algo bastante inverossímil, justamente porque não faz parte de sua psicologia, a personalidade criminosa não é altruísta e a Raskolnikov são atribuídos gestos altruístas tais como o gesto de passar todo seu dinheiro para ajudar a filha e a esposa do seu amigo Marmieládov quando ele morre. A personalidade criminal é egoísta e Dostoievski parece saber disso, mas Raskolnikov parece querer atribuí-la aos “progressistas estúpidos”! Isso pareceu-me evidente quando ele nega-se a fazer traduções de Rousseau e Bentham. Ele efetivamente, mais adiante, combate esses autores, bem como Chernichevski, colocando esses argumentos reacionários na boca do ajudante de Raskolnikov, Razumikhin, que assim mostra-se um reacionário. Igualmente, ele associa a avareza da dona da pensão ao judaísmo, um clichê antissemita: judeu é mão fechada, “piolho”, etc. Em Irmãos Karamázov, sempre o pai Fiodor Pávlovitch) ao fazer seus negócios desonestos, anda sempre acompanhado de um judeu, ou seja, os personagens investidos de valores negativos são associados ao judaísmo (Aliena Ivanovna, Fiodor Pávlovitch).

                        Não há amores bem sucedidos em Crime e Castigo. A mãe de Ródia é viúva. Dúnia, irmã de Ródia, tem dois casamentos com homens ricos (Lújin e Svridrigailov) frustrados por Ródia, que é o homem da família. O que sugere, quem sabe, uma relação incestuosa com a irmã Dúnia. O que há mais próximo de um amor é o amor de Ródia e Sônia, mas Sônia é prostituta e redentora, corrompida e salvadora ao mesmo tempo, Raskolnikov é o estudante progressista com problemas com a polícia e o escritor conservador fanático e pró-czarista ao mesmo tempo, assim como Dostoiévski.

                        Fala-se em responsabilidade individual e o indivíduo como fruto do meio para tratar do crime, colocam-se essas duas possibilidades em oposição. No entanto, nascemos sem Deus e sem superego, sem internalizarmos as regras sociais. Essas regras chegam de fora, vem do meio para o indivíduo. O ego será fraco para impor a si próprio essas regras posteriormente, se elas não vieram com uma educação de berço. Bem como a interpretação do texto dostoievskiano como repleto de símbolos teológicos ortodoxos é uma intepretação que pressupõe que o símbolo religioso no texto dostoievskiano emana do autor empírico, escritor religioso.

                        Igualmente, a teoria da polifonia de Bakhtin evita discutir os conteúdos reacionários e religiosos, ocupando-se prioritariamente da forma dialógica dos romances e outras questões formais. Ao não discutir, de certa forma, Bakhtin esconde essa religiosidade e o ideário de Dostoievski. E Bakhtin mesmo foi preso e acusado de participar de uma organização religiosa clandestina.

                        Aliás, a fórmula deveria ser: “Com Deus, tudo é permitido”, até matar mulheres grávidas. É ao unir-se a um grupo de fanáticos religiosos que o ser humano assume posições tais como matar grávidas, pois ali no seu seio dorme o filho do demônio.

                        Pode-se dizer que o que se lê de Crime e Castigo é uma teoria falsa: há um lado diabólico em todos nós, e, quando nos desfazemos de Deus através da mentalidade científica e materialista, esse homicida é libertado e pensa, então, que sem Deus tudo é permitido, inclusive o crime. O reencontro com Deus através da prostituta salvadora Sônia, que é a sabedoria prostituída de Jesus (Platão prostituído para o povo?), podemos dizer, reencena a própria vida de Dostoiévski, do revolucionário fracassado ao escritor religioso maduro e consagrado. Na nossa sensibilidade moderna, vemos com ceticismo as nobres prostitutas, mas possivelmente ao tempo de Dostoiévski essa personagem era mais verossímil. Somos poupados de detalhes sobre o exercício da prostituição por parte de Sônia, mas não dos detalhes do assassinato de Aliena Ivanovna. Fora também sermos submetidos a essa cena, o assassino e a prostituta deleitando-se com a Bíblia. Como explicou Nabokov:

 

Os leitores não russos não percebem duas coisas: que nem todos os russos amam Dostoiévski tanto quanto os americanos, e que a maioria dos russos que o amam o veneram como um místico e não como um artista. Ele era um profeta, um jornalista idiota e um comediante descuidado. Admito que algumas de suas cenas, algumas de suas brigas tremendas e ridículas são extraordinariamente divertidas. Mas seus assassinos sensíveis e prostitutas emocionantes não devem ser tolerados por um momento - por este leitor de qualquer maneira (NABOKOV, apud: SEIDEN, 2022).

 

                        Dostoiévski morre e renasce, tal qual um Lázaro trânsfuga, do outro lado, do lado dos que o prenderam, censuraram e puniram, validando, então, a punição a outros jovens como o jovem Dostoiévski. Tanto que é inegável que Dostoiévski estava, em Os Demônios, execrando o círculo revolucionário do qual participou e, em prol do czar, demonizando seus antigos amigos, representando-os como monstros e criminosos, pondo-se a serviço de seus algozes de anteontem.

                        Daí que Napoleão poderia reprimir rebeliões e levantes de monarquistas e deixar muitos cadáveres, sem ser responsabilizado legalmente por crime comum. Havia um contexto em que Napoleão, enquanto militar, defendeu a ordem constituída e apoiada pelas massas através da revolução. As massas são os verdadeiros super-homens. Podemos até dizer que Dostoievski apresentou uma teoria do super-homem antes de Nietzsche. Mas o sistema de pensamento de Nietzsche entende que o super-homem seria o profeta de um novo sistema de valores, sistema esse do qual Nietzsche também seria um profeta e que iria criar um “antes” e um “depois” para a humanidade. E dificilmente Nietzsche leu mais minuciosamente a religião como bálsamo nos romances de Dostoiévski, embora tenha elogiado sua psicologia e sentido a “voz do sangue” (ou melhor: identificado nele o irracionalista e comungado com esse elemento). Dostoiévski não propõe um novo sistema valorativo, ele apenas propõe o antigo como solução, tal como Wagner propõe o cristianismo em Parsifal. Sendo assim, podemos dizer que Nietzsche, se lesse melhor Dostoiévski e compreendesse melhor esse psicólogo, bem possivelmente poderia considerá-lo apenas mais um decadente.

                        Se o irmão do revolucionário Lênin semeia a luta com seu sangue, o que Ródia faz é apenas violentar uma outra pobre sofredora, uma pequeno burguesa como ele, que, afinal, estava tão tomada pelo sistema capitalista que vivia mal vestida, com o cabelo mal cuidado, guardando roupas em trapos, mas acumulando dinheiro e objetos de valor. O czar era inimigo de classe, Aliena apenas uma outra vítima. Há também o agravante que a usuária é comparada a um judeu e a um piolho, mas não é somente uma coincidência, utiliza-se inclusive o termo “jid”, pejorativo para judeu, para referir-se a ela. Isso já foi provado como algo recorrente em outros textos do autor: seu antissemitismo, sua hostilidade aos poloneses católicos.

                        Por outro lado, pode-se dizer que Crime e Castigo estabelece relação possível com a biografia de Dostoiévski, sua trajetória de jovem que tenta fazer a revolução e é punido, tornando a sua narrativa ambígua. Raskolnikov não se arrependeu do que fez, embora convertido.

 

3.Conclusão

 

                        Nesse ensaio, a partir de um texto de Lukács a respeito de Raskolnikov, onde ele compara os raciocínios de Raskolnikov aos dos bolcheviques para justificar a revolução, entramos numa questão fascinante: embora muito lido como trajetória de um rapaz que perde e encontra Deus, sofrendo por isso um castigo depois de cometer um crime, visto à luz da biografia de Dostoievski, podemos dizer que o romance espelha sua trajetória, sua busca, na juventude, da revolução contra o czarismo, tendo sido preso e punido injustamente, por ligar-se a um grupo que militava contra a opressão e a censura do regime czarista.

                        Raskolnikov tem de progressista apenas a reverência a Napoleão. No mais, ele é antissemita e conservador em relação a Radischev (o Rousseau russo). E, no geral, em relação às ideias iluministas. Bem como Razhumikin, que aparentemente é um duplo de Raskolnikov, apresentando as mesmas posições e deixando de chamar Ródia à razão quando seria necessário, pois aparentemente ele revela o desejo de matar Aliena Ivanova sem que isso seja problematizado pelo amigo mais a fundo.

                        Se considerarmos o romance assim, podemos dizer que o crime contra a velha usurária passa a ser uma metáfora da revolução que fracassa, leitura que não é nossa, está presente na leitura de Aleksander Dugin. Dostoiévski nunca foi proibido na União Soviética, apenas o enfoque estatal ficava em Recordação da Casa dos Mortos.

 

4.Bibliografia:

 

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Rio de Janeiro: Editora 34, 2001.

 

DUGIN, Aleksandr. Meu Nome é Machado e as Metafísicas de São Petersburgo. <http://revistacidadesol.blogspot.com/2022/12/meu-nome-e-machado-dostoievski-e-as.html>>.

 

LUKÁCS, Georg. O Bolchevismo como Problema Moral.<https://nucleopsolisegoria.files.wordpress.com/2014/04/lukc3a1cs-g-o-bolchevismo-como-problema-moral.pdf>>.

 

KOSTAVA, Raina; BRINKLEY, Tony. Irmãos de Stálin Karamazov. VOLUME II, Nº 4 – ENSAIO IRMÃOS DE STALIN KARAMAZOV 7 DE JUNHO DE 2011 <https://hungarianreview.com/article/stalin_s_brothers_karamazov/>>. Acesso em 23/02/2022>>.

 

PONDÉ. Luiz Felipe. Crítica e Profecia. São Paulo: Edusp, 2003.

 

ROSA. Virgínio Santa. Dostoiévski: um Cristão Torturado. Rio: Civilização Brasileira, 1980.

 

SEIDEN, Melvin. Nabokov e Dostoievski. <<https://www.jstor.org/stable/1207440>>.

 

VASSOLER. Flávio Ricardo. Dostoiévski e a Dialética: Fetichismo da Forma, Utopia como Conteúdo. Sâo Paulo: USP, 2015. Tese de doutorado.

 

 



[1] Graduado em Filosofia. Mestre em Estudos Literários.