quinta-feira, 13 de abril de 2023

Anos Rebeldes

 

(E aí, Zé Pedro e Bruno, meus dois uilconianos leitores. Eu queria sua opinião bem crítica sobre esse texto. Queria a visão de quem viveu pelo menos alguma coisa desse tempo: os anos 60. De uma forma ou de outra. Quero que fiquem à vontade para propor correções).

Abraços do Lúcio Jr.



No romance elaborado a partir do roteiro da minissérie televisiva Anos Rebeldes, de autoria de Gilberto Braga (adaptação de Flávio de Campos e Sérgio Marques), o grupo da mesma faixa etária, o peer group ( ou "o clã") representa principalmente para os jovens uma extraordinária comunidade de ação e comunicação no decorrer da história. Assim, a coincidência ac0idental do nascer coletivo e do entrar no mundo dos contextos tanto micro como macro-sociais provoca realmente uma consciência coletiva, que pode ir além de comunicações ocasionais e demonstrações de simpatia. Mas nem todas as formações etárias desenvolvem identidade de geração. Para isso é necessária a existência de circunstâncias especiais. Para que haja uma situação "objetiva" de geração é necessário um acontecimento central marcante, histórico e determinante de traços biográficos e que tem de ser intensamente receptivo no contexto de grupo de jovens e também em instituições sociais adequadas. Para os jovens de Anos Rebeldes, versão romanceada, notamos que esse acontecimento é o golpe de 1964.



Nascer no mesmo ano ou em anos subseqüentes é biograficamente um acaso e sociologicamente desinteressante. Todavia observa-se freqüentemente no cotidiano que pessoas mais ou menos na mesma faixa etária se entrosam, se comunicam e se entendem "espontaneamente" e que no mínimo podem discutir mais facilmente sobre complexos temáticos específicos.



Mas depois dos anos 60 tornou-se difícil criar uma identidade de geração, apesar dos esforços mercadológicos da mídia. É esta dificuldade que pretendo tematizar aqui, buscando suas razões. A tese é a sociedade burguesa e moralista, patriarcal e de direita. As antíteses são os despudorados hippies e os revolucionários de classe média. O não surgimento de uma síntese provoca sintomas mórbidos por todos os lados.



A questão é que a queda do muro de Berlim não foi marcante para os jovens como a Segunda Guerra e as transformações de 1968 foram para as gerações anteriores, embora seja o grande acontecimento deste final de século. A juventude televisiva dos anos 80 só assistiu aos eventos bem à distância. E sem muito envolvimento emocional, já que 1989 acabou sendo uma restauração, uma volta ao capitalismo e a economia de mercado tal como antes de 1917, quando o regime soviético criou uma opção de outro modo de produção e conseguiu mantê-la funcionando - ainda que transformada numa "utopia burocrática". Em 89, os ideólogos do capitalismo determinaram que qualquer crítica a este sistema deveria ser silenciada. E entre estes ideólogos estavam vários componentes da geração 68, dividida agora entre os que aderem ao neoliberalismo triunfante e os que se entregam à melancolia pela perda das utopias.



"Geração" pode, em primeiro plano, ser caracterizada como uma modalidade da consciência coletiva, como variante especial na família dos "sentimentos coletivos". Após os de 45, também aos de 68 foi possível a formação de uma geração. E continua a ser este o mais proeminente exemplo de identidade duradoura de geração. Tanto que continua a influenciar os jovens de hoje, que tendem a buscar modelos no passado toda vez que não conseguem construir uma identidade com as referências culturais disponíveis. A série de Gilberto Braga só fez alimentar esta busca de uma utopia regressiva.



Gerações somente surgem através de um longo período de tempo e além de tendências conjunturais. Na parte jovem de hoje já há marcas potenciais de geração. A juventude de hoje diverge fundamentalmente de outros grupos etários. Há hoje tendências que podem proporcionar o surgimento de um novo modelo cultural que deverá se diferenciar do modelo das gerações precursoras, ou seja, tanto da geração que viveu a Segunda Guerra e o mundo pré-atômico quanto da geração da transformação de valores. As faixas etárias mais jovens vivenciam importantes mudanças: a descrença na militância política tradicional, novas línguas da cultura popular (rap e techno), profundas mudanças na tecnologia e no mercado de trabalho, vivência intensa da TV, vídeo e quadrinhos. O termo geração "X" não é muito usado no Brasil - a mídia norte-americana e européia é que o usam para definir que é uma geração cuja identidade permanece incógnita. Aqui o impeachment de Fernando Collor em 92 criou o rótulo "Geração Carapintada". O único traço notável da geração pós-68 é ainda a relação extremamente contraditória com os modelos anteriores. Hoje há muita gente defendendo posições de direita com discurso de esquerda e anarquistas de má-fé, espécimes desconhecidos para as gerações anteriores. Vale a pena tentar explicar os fatores que levaram a tão bizarras posturas.



Mas a contradição essencial é que, embora haja tais traços de formação de geração, ao mesmo tempo percebemos que as referências culturais dos anos 60 ainda se mostram mais atraentes. E desde a geração 68 não foi possível a formação de uma identidade geracional sólida. Só que nem sempre o avanço é positivo. Elementos como drogas, orientalismo, festivais de música demonstram desgaste, mas alargaram seu campo de influência. Na maior parte das vezes, todos aceitam as velhas idéias recauchutadas. Aliás, o significado propriamente dito da formação de geração é demonstrar que "nós não somos como vocês, e que vocês não conseguem acompanhar nossas transformações". Uma afirmação de continuidade na ruptura. O que torna a questão complexa é que as transformações podem ser reacionárias ou intrinsecamente negativas, conceito difícil de ser apreendido pela geração dos anos 60, acostumada a ver toda ruptura ou manifestação de desprezo pela tradição como positiva.



Os anos 80 provaram que o conservadorismo político pode conviver com a liberação dos costumes e com o vale-tudo nas artes sem ameaçar a ordem estabelecida. É colocando em pauta tais questões que poremos na ordem do dia os problemas da geração que se sucedeu à que viveu 1968, o chamado ano que não acabou.



O romance Anos Rebeldes tem um início que parafraseia o romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, uma referência importante para a geração 68 norte-americana:





Se você quiser mesmo saber, provavelmente você vai querer que eu conte onde foi que nasci, como é que foi a minha infância, que é que meus pais faziam na vida, etc. Mas não é isto o que eu quero contar. (BRAGA, p.3: 1992)





O passado recente, exibido na tela da Globo com a estética subhollywoodiana da telenovela, somado a cacoetes de Nouvelle Vague, faz propaganda de uma utopia regressiva, e embora revisite a história da esquerda brasileira, o faz como quem revê um passado vencido.



Escrevendo na orelha do livro de Gilberto Braga, Zuenir Ventura adota a versão de que, em 1992, uma nova geração superou a de 68, tendo desenvolvido características próprias. No entanto, o romance, assim como a minissérie, tentam ocultar os conflitos dos anos 60. A história mostra um retrato de época para o grande público, mas joga novas sombras sobre esse passado, adotando uma versão conciliatória.



Zuenir Ventura adotou um ponto de vista conciliador em seu livro 1968: O Ano que Não Terminou, mas às vezes age como um termidoriano, um neoconservador, como quando diz que "os jovens preferiam errar com Sartre a acertar com Raymond Aron". Ele equaciona essa disputa com a polêmica Alceu Amoroso Lima versus Nelson Rodrigues. Aqui parece que Zuenir Ventura tornou-se reacionário e passou preferir Nelson Rodrigues, que é o dramaturgo da chanchada liberal da classe média, e por isso os diretores de pornochanchada dos anos 70 sentiram tanta afinidade com sua obra. O que sucede é que no livro 1968, o Ano que Não Terminou, Caetano Veloso e Nelson Rodrigues se consagram e Sartre e o Dr. Alceu são tidos como cachorros mortos.



Quem não tem utopia, vive a história como fatalidade. Edgar, personagem principal do romance e também narrador, tenta reunir os fragmentos da época. Ele avisa que é uma "pessoa em quem se pode confiar". Edgar está em busca do passado, mas diz ser "um homem realizado, feliz, em paz". No final do relato, Edgar se revela adepto da cocaína, separado de Maria Lúcia há vinte anos, ameaçado de enfarte, em decadência física e, supomos, moral. O romance deve ser lido como a narrativa de um membro da geração 68, mas um sujeito atípico: viveu sempre nas beiradas da vida, sem lutar por uma causa nobre, sem fazer carreira na editora, de onde há muito foi afastado. Enfim, a história dos anos 60/70 em Anos Rebeldes é contada sob a ótica de um fracassado, e não de um homem bem-sucedido, ou, pelo menos, que esteja em paz com sua consciência. É bom lembrar que o próprio Fernando Collor dizia gostar dos Beatles e inventou para si um passado de lutas nos anos 60, quando de fato cresceu politicamente à sombra da ditadura militar. Edgar se mostra contraditório e traiçoeiro. Ele cita Swift: "bem-aventurados os que nada esperam, porque estes nunca se decepcionarão."



Durante o romance, Edgar dá sinais contraditórios, mas ao final a contradição é flagrante e desonesta. O romance deve ser relido à luz de seu niilismo terminal. É Caetano Veloso que, apesar de conciliador, examina a sua geração no pós-68:





Não tínhamos atingido o socialismo, não tínhamos sequer encontrado uma face humana no socialismo existente; tampouco tínhamos entrado na era de Aquarius ou no Reino do Espírito Santo; não tínhamos superado o Ocidente, não tínhamos extirpado o racismo e não tínhamos abolido a hipocrisia sexual. (VELOSO, p.111: 1998)





Vamos supor que os desejos autodestrutivos de Edgar são decorrentes de todas essas derrotas. O relato foi gerado sobre a influência da Rede Globo, interessada que ela está em camuflar a sua origem em 1965, sob as benesses do regime militar. Gilberto Braga é o mais prestigiado produtor de sucessos globais, tais como Vale Tudo e Anos Dourados. Parafraseando Flaubert, Gilberto Braga é Odette Reutermann, assim como o autor da Educação Sentimental dizia ser Madame Bovary. Braga encena que matou o lado mau-caráter e reacionário da Rede Globo, ajudando um aparelho ideológico da ditadura militar a posar de progressista, justamente às vésperas da vitória de Collor em 1989, que irá consagrar o estilo Reutermann de ser e de viver.



O romance Anos Rebeldes revisita o passado, ocultando a tragédia e propondo que a história se repita como farsa. A farsa foi levada ao extremo por Fernando Henrique a partir de 1994.



O deboche escatológico do personagem Galeno com as aulas de canto orfeônico simbolizam a negação que alguns membros da geração 68 fazem da era Vargas:





-Aaaa-rranca pentelho, bate cu, bate culhão.



-Bumm-da, bumm-da...



-Caralim, caralim...



-Bebe limonada pra cagar de madrugada...



(BRAGA, 1992: p.17)





Galeno também agride o amigo Waldir com violência que denota homofobia e demonstra uma fixação com relações anais:





-Afinal, ô Galeno, o Vianinha vem pra Semana ou não vem?



O Waldir não devia...Era ele fazer a pergunta e já se arrepender de ter feito. Galeno partia com tudo para cima do outro.



-O Vianinha vem, minha Moita tímida, vem, sim. Pra conhecer estes teus peitinhos bicudos de tanta punheta e essa tua bundinha roliça.



(BRAGA, 1992: p.18)





O canto orfeônico foi também ridicularizado por José Miguel Wisnik, num ensaio sobre Villa-Lobos, O Orfeão do Estado Novo, Este Coqueiro que Dá Coco. O canto orfeônico é redundante, afirma Wisnik. E Villa-Lobos associou-se ao autoritarismo de Getúlio Vargas, conclui o professor uspiano. O valor estético de Villa-Lobos é atrelado a uma condenação política por um concretista/tropicalista, entusiasta ao mesmo tempo de Roberto Carlos e Schoenberg, Carmen Miranda e Stockhausen. Mesmo o autoritarismo de Vargas pode ser relativizado por sua atuação progressista, em especial no final da vida:





O segundo governo de Getúlio Vargas, eleito democraticamente em 1951, com um plano autônomo de desenvolvimento econômico em setores estratégicos - minerais, petróleo, siderurgia, energia nuclear – associado a uma política externa altiva, sacode a América Latina. Reproduzido continentalmente, transfiguraria o rosto e o andar do sul do Rio Grande. Em quantidade e qualidade. Para os Estados Unidos, Vargas era um pusilânime joguete dos comunistas, enveredado pela trilha do colaboracionismo. Colocara à mercê do comunismo o gigante latino-americano. Vargas, o homem que derrotara os comunistas em 35 liquidando a ANL, agora negava a sua história e sentava as bases para que os comunistas tomassem o poder ao abrir-lhes as portas do governo e da máquina administrativa. (MIR, p.18: 1994)





Mais adiante, surgem duas temáticas, a afetividade adolescente e a relação familiar conflituosa. Maria Lúcia é uma representante da juventude dos anos 90 dentro no seriado, é quem encarna as demandas da geração seguinte: "O que estraga papai é o excesso de idealismo, a falta de pés na terra." (BRAGA, 1992: p.15) A moça encaminha as opiniões de uma geração mais pragmática, os filhos da geração 68, mas prioriza somente a liberação dos costumes. O que estraga Maria Lúcia, por sua vez, é sua apatia política, a preferência pela indiferença e antipatia pela militância. Ela deseja um quarto só dela, onde possa se ver livre dos livros e dos intelectuais que seu pai traz para casa. Para Maria Lúcia, um par de sapatos vale mais que Shakespeare, mas o romance tentará minorar essa tendência conservadora da personagem, esboçando uma psicanálise banal: Maria Lúcia apaixona-se por João, militante político, e não por Edgar, um democrata liberal insatisfeito com a ditadura militar.



Nelson Rodrigues foi um pai simbólico, o pai burguês moralista da geração 68, o patriarca moralista e nacionalista de direita que os jovens radicais queriam aniquilar. Em alguns momentos, sua dramaturgia e crônicas têm certo valor artístico, mas noutros é o equivalente intelectual do golpe abaixo da cintura. Curiosamente, numa das cartas enviadas para o Pasquim, Caetano definiu-se como um Nelson Rodrigues prafrentex. Naquele momento, Caetano já demonstra a seguinte postura: é a favor da liberação sexual, do progressismo de costumes, mas é contra os nacionalistas e comunistas que apoiaram Jango.



Em Anos Rebeldes, mais que as teorias políticas ou sociológicas, a questão geracional é que fornece a explicação para as posturas dos personagens. A filha do nacionalista de esquerda, o jornalista Orlando Damasceno, é moderada ao extremo. João, filho de udenista, assume um radicalismo político. Num dado momento, Maria Lúcia ataca João, militante orgânico, e não Edgar, que é a verdadeira esquerda festiva:





A última palestra que meu pai fez lhe valeu um processo que está rolando até hoje. Mas o garoto não entendeu, insistiu. Esse pessoal da esquerda festiva não sabe o que é ter de responder a processo. (BRAGA, 1922: p.21)





Maria Lúcia insiste na ‘privacidade’. Nas anotações de seu diário, que junto com as anotações da mãe de Heloísa (uma grã-fina) e das interpretações de Edgar, correm como relatos paralelos durante o romance, ela nunca fala em feminismo. Quando João se aproxima do pai de Heloísa para propor-lhe uma palestra no colégio Pedro II, confronta-se com Maria Lúcia, mas o confronto se resolve num romance açucarado, que concilia os contrários. João é duro com Maria Lúcia:





-Quem ‘tá me dando a impressão de não ser assim tão fã do seu pai é você. Foram homens como ele que modificaram o mundo, viu, Maria Lúcia? Ter medo de processo é...eu acho uma atitude medíocre. (BRAGA, 1992: p.21)





O pai de Maria Lúcia, aparentemente simpatizou com o segundo governo Vargas: "João se animou e perguntou por um estudo sobre a questão do petróleo que o seu Damasceno tinha escrito no início do governo Getúlio". (BRAGA, p.41, 1992) Maria Lúcia inverte papéis, assumindo autoridade para reprovar o "envolvimento irresponsável" do pai com estudantes esquerdistas. Edgar narra que ele, João e Maria Lúcia foram assistir Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. O diário de Maria Lúcia não comenta o filme, nem comenta livros, embora a moça seja filha de jornalista e casada com editor. Não ficamos sabendo nada sobre seus gostos, mas supomos que prefere a telenovela Direito de Nascer aos filmes de Glauber Rocha, como o próprio Gilberto Braga, que renega Glauber, chamando-o de caótico. Em consonância com essa adotada publicamente, Glauber Rocha em Anos Rebeldes é desculpa para uma trepadinha sem magia, papo furado de intelectualóide:





-Terminei o primeiro ato, Heloísa, dei pruns amigos julgarem, a opinião foi unânime: comercialmente muito arriscada pra essa época de crise. E no segundo ato eu ia precisar no mínimo de uns oitenta figurantes, pra cena de incêndio da cidade, sabe como é peça brechtiana... Resolvi partir pro cinema. Produção modesta, eu acho que a saída é o Cinema Novo: uma idéia na cabeça e uma câmera na mão! Ontem à noite eu estava inspirado. Escrevi trinta laudas de roteiro, de um sopro só! Se a modéstia não me impedisse, eu diria que lembra um pouco a construção operística do Gláuber! (sic) (...) Se você quiser passar lá em casa, um dia desses...Eu lia pra você em voz alta... (BRAGA, 1992: p. 88)





A trepadinha sem magia nem sequer se completa, pois Galeno falha com Heloísa. Aparentemente ele não superou as tendências homossexuais da adolescência. Galeno e Heloísa prenunciam os comportamentos da geração lanchonete:





Superar a compulsão/depressão (o eixo é comum a ambas) significa ainda superar as formas de relação ostentatórias, individualistas e auto-afirmativas encobertas sob as bandeiras ideológicas da nossa geração-lanchonete. Já não vivemos a austeridade nauseante da sala-de-jantar paterna, móveis escuros, gravata e silêncio de garfos. (...) Mas o hambúrguer rápido e descartável comido no balcão. A sedução compulsiva e entediada, a trepadinha sem magia depois da festa e a relação abortada no dia seguinte. Vivemos a vigência de todos os rituais da liberdade sob vigilância constante de nossos companheiros. (KEHL, Maria Rita. 1979: p. 52)





Maria Lúcia, propagandista de uma moral pequeno-burguesa, só se decide lutar contra a ditadura quando seu pai é preso. Ela perde então a virgindade física e política ao mesmo tempo. Edgar se aproveita da militância absorvente e da ética de sacrifício total de João para conquistar Maria Lúcia. Edgar diz ter notado a profunda diferença dos dois, que, reflete ele, está presente na seguinte frase: "desprendimento radical não casa com amor por vitrolinhas". Mais adiante, Edgar mostra mais uma vez que não está revendo o passado por hobby. Ele critica a transformação reacionária do amigo Waldir: "Hoje, Waldir é um desses economistas que dizem que para salvar o país é preciso arrochar salário, ‘aplacar a ponta da demanda’ ". (BRAGA, 1992: p.46)



Seu mergulho no passado revela rancores e inveja. Edgar não é um narrador confiável. Sua visão é dirigida. João abandona a idéia de cursar jornalismo e opta por Ciências Sociais, curso que Fernando Henrique Cardoso também cursou nos anos 50/60. A postura de Maria Lúcia é de absoluta incompreensão: "-Fazer Ciências Sociais por quê? Já tem Faculdade de Jornalismo!" (BRAGA, 1992: p.57) O materialismo chão de Maria Lúcia é o exato contrário do materialismo marxista, a jovem tem apenas apetite pelo gozo direto da coisa. A esquerdista e grã-fina Heloísa é ainda mais ridícula: "(Heloísa) foi esquiar em Saint-Moritz e tinha acabado de voltar, ia tentar vestibular de novo, mas não sabia para quê." (BRAGA, 1992: p.62)



Aqui é importante fazer a ressalva de que, sendo interpretado pela atriz Cláudia Abreu, o personagem da jovem esquerdista ganhou uma consistência maior do que os de João (Cassiano Gabus Mendes) e de Maria Lúcia (Malu Mader). Críticos da Folha de São Paulo na época atacaram o casal Cassiano-Malu: tudo o que o personagem de Cassiano dizia se tornava bobagem. Já Malu Mader tinha "a sutileza de uma capivara". O melodrama revê a década de 60 para aplainar as contradições, detratando as molas sociais situadas no pré-64. Edgar discute com João, entrelaçando o drama individual e coletivo com má-fé:





Primeiro, que eu não acredito que você possa fazer a Maria Lúcia feliz. Você está muito preocupado com a felicidade da população oprimida do Brasil, mas não se preocupa com a felicidade de quem está pertinho de você, da sua namorada, dos seus amigos. (BRAGA, 1992: p.65)





Em primeiro, Edgar coloca a questão política como secundária, e começa com uma afirmação categórica traiçoeira. Edgar simplesmente propõe que João abandone Maria Lúcia para que outro homem a satisfaça. Podemos também supor que Edgar está interessado em João, e nem tanto em Maria Lúcia: "A única vez na vida em que eu lamentei não ser homossexual foi por causa do João", diz ele. (BRAGA, 1992: p.91)



O moralismo da tradicional família mineira é ridicularizado pelo chocho tropicalismo de Galeno:





- Sobre esta moda de minissaia aí? Teve um deputado lá de Belo Horizonte que falou na Câmara: ‘Ninguém levantará a saia da mulher mineira!’



E Galeno arrematou, no meu ouvido desta vez:



- E a jurupoca do homem mineiro também ninguém levanta...



(BRAGA, 1992: p.99)





Galeno equaciona a intensidade da experiência sexual como inversamente proporcional às proibições vigentes no tempo. Quanto mais proibição, menos intensidade. Caetano Veloso concorda com essa posição: "Não aceito com facilidade esses argumentos que submetem a intensidade da experiência sexual às proibições vigentes no tempo da formação sexual de quem os formula." (Veloso, 1998: p.474) Como disse Maria Rita Kehl, saltamos da família patriarcal para a prática da antropofagia sem culpa, fast-food do amor.



A esquerda obteve um grande impulso com a revolução dos valores ocorrida nos anos 60, ganhando espaço ao combater as proibições. Caíram nessa época as últimas barreiras do patriarcado, um dos elementos que permitiu que a mesma revolta se espalhasse pelo mundo inteiro, tanto entre os estudantes parisienses quanto na Praga de Aleksander Dubcek, entre os hippies e yippies da América psicodélica e no Chile de Salvador Allende.



Mas o que estava nascendo, no final dos anos 60, não era um novo matriarcado, nem sequer o matriarcado de Pindorama, e sim a sociedade de consumo, uma sociedade onde mesmo as bandeiras mais progressistas foram absorvidas pelo neocapitalismo. O canto de sereia pecuniária chegou aos ouvidos dos filhos de Marx e da Coca-Cola. Surgiu, nos anos 70, uma nova direita, e os filhos da geração 68 já nasceram sem quaisquer vestígios de Marx, restando só a Coca-Cola. Foi com razão que a mídia os rotulou de geração Coca-Cola. Os anos subseqüentes a 1968 são permeados de contradições e dilemas praticamente insolúveis: com a liberação do corpo, veio também um vagalhão de vulgaridade. Depois da rigidez dogmática do stalinismo, o shopping center da mente e a lavagem cerebral da TV; depois do fim da família patriarcal, o mergulho na dissolução pornô dos costumes. A revolução política fracassa, uma vez que o neocapitalismo exerce uma dominação social e produz uma falsa consciência, divulgada em telenovelas tranqüilizantes contra a contestação, instalando no Brasil dos anos 80 uma democracia burguesa onde só um grupo reduzido de tecnocratas toma as decisões importantes. A continuidade do regime de 64 está garantida, agora com representantes civis. As proibições arbitrárias da ditadura militar foram substituídas pela coação e a cooptação daquilo que Lucien Goldmann chama de "capitalismo de organização."



Na narrativa de Anos Rebeldes confundem-se deliberadamente hippies e militantes de esquerda. Heloísa, militante de esquerda e grã-fina, faz amor livre:





Quando Heloísa já estava achando que o destino dela era entrar para um convento, aconteceu com o professor de violão. Do jeito que ela queria: foi muito bom e sem nenhum compromisso. (BRAGA, 1992: p.101)





O pai esquerdista de Maria Lúcia é conservador em matéria de costumes. Já Maria Lúcia é progressista em termos de costumes e indiferente em política. Ela recorre à ideólogos de esquerda estrategicamente, pela primeira e última vez:





Papai foi procurar um telefone na minha agenda e descobriu, na minha bolsa, uma caixa de pílulas anticoncepcionais. (...) É incrível como uma pessoa tão progressista nuns assuntos possa ser tão quadrada em outros! (...) O problema é que essa posição dele não tem nada a ver com ideologia. Já vi amigos do papai discriminando até homossexual. (...) Falei de Freud, Marcuse e dos tabus que há gerações pesavam sobre a sexualidade (BRAGA, 1992: p.105).





Igualmente é incrível como Maria Lúcia pudesse ler Marcuse, uma vez que até então não comentara livro algum em seu diário, nem sequer os do pai. E que nem sequer discutisse o feminismo, nem um livro como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Só aceita participar da política numa situação extrema, na ocasião em que seu pai é preso. Aí sim, ela aceita a luta, pois só acredita em envolvimentos pessoais.



João e seu Damasceno avançam para propostas diferentes. João é a favor da luta armada e Damasceno da conscientização das massas. É a contraposição do partidão, o PCB de orientação pró-soviética, com os grupos foquistas afins de Cuba.



A questão da droga vem à baila, com Edgar assumindo a posição indiferente que sempre teve a vida toda:





Maconha, para mim, era pra ficar doidão mesmo, para não estar nem aí. (...) Além do meu momento pessoal, ficar doidão facilitava no trânsito em meio a uma agressividade crescente das pessoas. Era difícil você se aproximar de uma roda em que não houvesse uma polarização aguda. (BRAGA, 1992: p.105)





Em meio a um jogo da verdade, modismo que o psicanalista Cristopher Lasch tachou de sintoma de um novo narcisismo, João é questionado sobre suas leituras de Karl Marx:





-Você leu O Capital?



-Tudo, não. Li umas partes da ‘Crítica da Economia Política’. O que me interessa mais são os manuscritos do jovem Marx. (BRAGA, 1992: p.130-131)





A sucinta fala de Edgar pode servir de estímulo para a discussão da obra de Marx, mas podemos supor que na postura do rapaz está refletida simplesmente a "revolução dos jovens" que o faz supor que o Marx "jovem" dos Manuscritos sabe mais que o Marx "maduro" de O Capital.



Como ressonância à entrada dos jovens no mercado consumidor, os meios de comunicação mitificam a juventude, e esta mudança econômica altera até o comportamento do jovem militante João.



Já a eficiência de Edgar enquanto editor é reveladora. Edgar na verdade não se importa muito com livros e com cultura. Quer status e dinheiro e escolheu a profissão errada. Uma parte da população brasileira saiu da cultura oral para os meios audiovisuais, sem passar pela velha cultura humanista, assentada em filosofia e literatura. Diante de um editor preocupado em manter o bom nível, Edgar é pragmático ao extremo:





O dr. Queiroz, ele parecia querer se imolar no idealismo de só editar o chamado material de qualidade, de peso cultural. A vontade era de dizer: -Dr. Queiroz, fala com o balanço da contabilidade que nós temos de editar apenas cultura! Se ele sair do vermelho só com isso, a gente edita, combinado? (BRAGA, 1992: p.133)





Edgar postula o rebaixamento de nível, enquanto na vigência da ditadura é que uma editora nacional, a Civilização Brasileira, conseguiu manter um nível altíssimo, mesmo apesar da perseguição dos militares, publicando bons escritores, fugindo dos manuais marxistas. O dr. Queiroz parece ser uma caricatura do marxista Ênio Silveira, editor da Civilização Brasileira na época. Mas, como já dissemos, Edgar deve ser avaliado como um niilista. Maria Lúcia é complementar a ele em seu desejo de se demitir, de passar para o outro lado das trincheiras: "Não tenho idade nem vocação para me sentir responsável pelo futuro de um país que já começou errado, sei lá se tem chance de dar certo algum dia". (BRAGA, p.133) Maria Lúcia é o bode total, o derrotismo, o desejo que a juventude dos anos 90 apresenta de fugir do país.



Edgar se valeu do fato de que João se entregou a uma ética de sacrifício total para conquistar Maria Lúcia:





-Olha, João, eu nunca escondi de você que eu...Você sabe que quem pode acabar sendo o maior beneficiado nisso tudo sou eu. Porque, se você escolher ficar pichando muro pela rua, quebrando vidraça de banco, botando fogo em carro, você vai perder a Maria Lúcia para mim. (BRAGA, 1992: p. 135)





Galeno estava se dedicando, então, à poesia concreta, inspirado pelos irmãos Campos, Ezra Pound, Cummings e outros. Edgar e Galeno se mantinham alheios às polarizações da época:





O Galeno tinha me alertado que, além de um maior apuro no paladar, a maconha aguçava os sentidos (...). Nem eu nem o Galeno estávamos dando a mínima para aquela xaropada de festival. (BRAGA, 1992: p. 138)





Edgar adota a posição apática que lhe acompanha vida afora, mas mesmo assim avalia equivocadamente o impacto das canções de protesto: "Caminhando também acelerou a roda-viva, serviu de razão ou pretexto para uma nova onda repressiva. Em artigo, um general pediu a prisão de Geraldo Vandré." (BRAGA, 1992: 140) Isso é o que Glauber chamava de revisionismo time-life realizado por tropicanalhas.



Em 1968, as ações armadas já tinham começado, e o objetivo dos militares era combater esses focos de contestação violenta. Pouca influência sobre o aumento da violência teve essa canção -- ela foi antes produto do confronto entre a ditadura e a oposição representada pela Frente Ampla, unindo Jango, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda.



Outro momento de virada é o ato institucional número cinco, em 13/12/1968. João e Heloísa entram na luta armada, Galeno faz uma montagem "tropicalista de protesto" de Fedra, de Racine. Galeno explica suas idéias:





Eu tenho a minha visão do Racine, entende, Edgar? Fedra, para mim, não é só a mulher que se apaixona pelo enteado. Minha concepção é, por assim dizer, original, uma Fedra...tropicalista e engajada! Hipólito é o oprimido pelo poder econômico! (BRAGA, 1992: p. 145)





Anos Rebeldes é marcado pela hegemonia dos tropicalistas. Os personagens reproduzem trechos de músicas da patota de Caetano nas falas do cotidiano e Baby e Alegria, Alegria tocam incessantemente, bem mais do que as músicas de seus opositores, como Sérgio Ricardo, Edu Lobo ou Geraldo Vandré. O tropicalismo é equiparado com a esquerda engajada, porém o grupo baiano bem cedo se afastou de um compromisso com a arte engajada de Vianinha, Augusto Boal e outros. Assim como a tropicália debocha dos desajustes subdesenvolvidos entre a bossa e palhoça, observando-as à luz das modas internacionais, o Brasil na peça de Galeno surge exótico para os próprios brasileiros:





Os figurinos e os adereços de cenário davam um clima ‘tropicalista’, como era moda. Num canto da arena, uma criada grega arrumava frutas, entre as quais abacaxis, jacas e bananas, muitas bananas. (BRAGA, 1992: p. 145)





A versão de Fedra aqui apresentada é avacalhada, equacionada com Carmen Miranda, é uma peça clássica que se torna Kitsch. Aliás, a dimensão "popular" dos Anos Rebeldes, a esperança que Zuenir Ventura apresenta de que este seriado esclarecesse o grande público, se desvanece. O produto oferecido é Kitsch, falso, cheio de situações inverossímeis, entretenimento barato como as telenovelas, mas ousa misturar cenas reais, imagens de jornais, revistas, músicas e têm atores que viveram a época, como Giafrancesco Guarnieri (que aliás dá um depoimento sentimentalóide), como personagens. Pretende, então, passar uma mensagem política conciliatória que, aliás, ajudou a ascensão posterior de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo que fez oposição chique ao regime militar e que encenou um exílio depois de receber uma polpuda aposentadoria precoce por ordem do regime militar. Ficou para o senso comum a imagem de que a minissérie global gerou os carapintadas, "movimento juvenil" que derrubou o presidente Collor. No entanto, o fim da era Collor não foi o final do neoliberalismo no Brasil. Pelo contrário, demonstrou a hegemonia da televisão sobre várias gerações, evidenciando sua enorme influência política e comportamental.



Fernando Henrique sempre foi um democrata liberal, com amplo sucesso entre os que posam de esquerda, como o personagem Edgar, narrador do livro:





Olha, João, eu podia te dizer que essa opção pela guerrilha só retarda a volta da democracia, podia te dizer que sou democrata e não comunista, que eu tenho tanto horror a ditadura de direita quanto de esquerda! (BRAGA, 1992: p. 156)





Edgar é também um liberal, e os liberais optam com freqüência pela ordem estabelecida quando uma revolução ameaça seus interesses de classe; aqui no Brasil, o golpe de 1964 é o maior exemplo disso. Edgar se revela retrógrado na relação com o colega de editora, Dr. Queiroz:





-O senhor é voto vencido, eu sinto muito. Foram livros como este que comprometeram a editora. Ainda por cima de um autor de esquerda. Dr. Queiroz, nós dependemos de bancos. Estimular, neste momento, por idealismo...(BRAGA, 1992: p. 167)





O pragmatismo de Edgar é suicida. Num outro momento em que nega a si mesmo, Edgar renega o livro do qual ele copia o início de sua narrativa:





Alguns dias mais tarde, encontrei Maria Lúcia na editora. Elogiei-lhe o parecer sobre O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, mas falei que tinha dúvidas se a tradução deste livro traria lucro significativo para a editora. (BRAGA, 1992: p. 168)





Edgar é mais realista que o rei e só poderia fracassar, pois sua decadência moral já se anuncia; ele passou para outro lado, descobriu que o que vale é a rapinagem, ele despreza quem gosta de boas leituras e por isso é ruim na profissão que escolheu. Mais ridículo que esse editor de livros chulos é Heloísa, a guerrilheira grã-fina. O mundo dos muito ricos é apresentado como um Olimpo onde tudo pode acontecer. Braga segue o velho mandamento de que "telenovela sem mansão não funciona". O direito de nascer da teledramaturgia brasileira coincide com o começo das restrições à liberdade dos indivíduos no Brasil, só restituídos quando o capitalismo tecnocrático já foi firmemente instalado país adentro. A dramaturgia televisiva é o núcleo a partir do qual circulam as mensagens da "Hollywood do Jardim Botânico", que é onde as massas desinformadas desaprendem a viver, pois não vêem o que se passa ali com espírito crítico. Confundem realidade com ficção, e o funcionamento do aparelho ideológico do estado fica garantido. Daí a naturalidade com que o senso comum reproduz o ideário neoliberal.



A inverossimilhança travestida de realidade é levada ao extremo quando as diferenças entre João e Maria Lúcia se acabam na cama. A cama, em Anos Rebeldes, é o paraíso da feijoada. Num outro momento, João deixa o aparelho onde permanece clandestino para assistir o revéillon em Copacana, onde acaba encontrando Maria Lúcia(!). A liberdade do artista não pode ser confundida com a distorção deliberada de fatos históricos. João, em sua clandestinidade que se parece mais com o exílio regado a champagne de FHC, encontra-se com o hippie Galeno. As divergências entre a fuga para as drogas e a militância política ficam encobertas.



Curioso é o capítulo em que a união João-Maria Lúcia se restaura, apenas para terminar logo depois. Depois de esperar mais oito anos, João e Maria Lúcia voltam, mas Maria Lúcia resolve botar um ponto final em sua aproximação com João e a esquerda. E o que afasta Maria Lúcia é a volta de João à militância:



Meu querido diário, cansado e velho de guerra, você sabe onde fica a Encruzilhada Natalino? (...) Ontem de manhã, o telefone tocou. Era o Marcelo chamando o João para uma reunião. Iam tratar da reorganização partidária e discutir o problema dos sem-terra. (...) Levantei devagar e fui embora sem me despedir de ninguém. (BRAGA, 1992: p. 156)



No final do livro, Edgar se revela um sujeito adepto das drogas, que começaram para ele apenas como uma fuga das polarizações políticas. Mas sua decadência moral já tinha começado no tempo da ditadura. Ele sempre viveu pelas beiradas da vida, sem lutar por causa nobre, sem fazer carreira na editora. Revela então que não vai à editora há muito. Edgar reuniu, em dois pólos, duas posturas da geração 68 no presente: o conformismo otimista e o niilismo desesperançado. Mas é entre essas duas falas que oscila Edgar em toda a narrativa, e é com esses marcos teóricos que deve ser lido o folhetim eletrônico Anos Rebeldes.

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Qual o papel da esquerda sob o governo Lula?

 


Qual o papel da esquerda sob o governo Lula?

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Mariúcha Fontana,

Opinião Socialista

www.pstu.org.br



O papel da esquerda deve ser o de ala crítica do governo com o objetivo de empurrá-lo para esquerda? Ou a defesa de um projeto socialista e revolucionário exige a ruptura com o governo Lula?



O governo Lula está aprofundando a política econômica aplicada durante os 8 anos de FHC/FMI. Esta não é uma opinião exclusiva do PSTU. É um diagnóstico de grande parte das correntes da esquerda do PT e também das direções de movimentos sociais que se reivindicam socialistas, como a do MST.



Apesar disso, há uma grande polêmica acerca do caráter do governo Lula e, mais importante, sobre as tarefas da esquerda diante desse governo.



Ainda que com diferenças, esses companheiros coincidem num ponto: consideram-se parte do campo governista. Embora sejam críticos às medidas e aos rumos do governo, se propõem a ser sua ala crítica. Rejeitam um papel de oposição de esquerda a ele. Para estes companheiros, o PSTU seria "sectário" porque se opõe ao governo.



Antes que nada, esclarecemos que não consideramos todo o espectro que se reivindica de esquerda e socialista por igual. Reconhecemos que há diferenças dentro deste campo. Há setores e correntes que privilegiam a ação direta e defendem um projeto de ruptura. Há outros que defendem reformas nos limites da ordem atual, priorizam de fato a ação institucional e, inclusive, participam diretamente do governo. Ambos justificam sua posição com base em diferentes argumentos. Buscaremos polemizar com eles neste artigo.



Mas, buscamos dialogar sobretudo com os companheiros com os quais estamos juntos nas lutas e a quem fazemos um chamado para construirmos juntos uma alternativa de esquerda no país. Pensamos que é nossa obrigação polemizar, de modo fraternal, com aquilo que opinamos ser uma posição equivocada.



Os argumentos do apoio crítico



Os companheiros do MST e do Consulta Popular, por exemplo, que privilegiam a ação direta, afirmam que o governo é, em princípio, aliado na luta contra a Alca, o latifúndio, etc.



O governo Lula, na visão dos companheiros, estaria em disputa. Avaliam que se as lutas se chocarem com o governo, cairão no isolamento e farão o jogo da direita, porque empurrarão o governo para os braços do imperialismo. Então, a esquerda deve estimular a mobilização social, mas não direcioná-la contra o governo. O objetivo deve ser o de "ajudar o governo a realizar mudanças" e empurrá-lo para a esquerda. Nessa mesma lógica, a esquerda petista, ou melhor, a parte da esquerda que a mídia tem chamado de "radical", diz ser contra a política econômica, mas que apóia o governo.



Esses companheiros alegam que, como a maioria dos trabalhadores apóia o governo, eles também devem apoiá-lo porque seria um erro se "isolar" das massas. Outros ainda argumentam que é preciso paciência, porque não haveria correlação de forças para a ruptura com o FMI e a Alca. Para estes, deve-se criticar as medidas que levam ao aprofundamento do projeto neoliberal, mas não se pode exigir do governo que pilote uma ruptura do modelo.



O argumento final é o de que se Lula for derrotado toda a esquerda e a classe trabalhadora seriam derrotadas junto com ele. Por isso é preciso lutar para que o governo dê certo.



Consideramos que estes companheiros cometem um grave erro em colocar-se numa posição de apoio crítico ao governo. Na nossa opinião, esta postura implica numa lógica que, longe de cumprir o papel de "empurrar o governo para a esquerda", acabará empurrando o movimento para a direita.



Não é possível empurrar o governo para a esquerda.



Esse governo não está em disputa e não é possível empurrá-lo para a esquerda por uma razão de classe. O governo, como instituição, faz parte do Estado burguês e se articula com outras instituições - Parlamento, Tribunais, Forças Armadas, etc - para compor um regime de manutenção da ordem vigente. No caso atual, ainda há o agravante de que a ordem estabelecida tem cada dia mais os contornos de uma "democracia colonial": é "blindada" pelo imperialismo e o FMI, que, de fato, definem as ações do governo.



O PT se propõe a governar nos limites dessa ordem e colocou no governo uma considerável representação da classe dominante. Do governo atual participam expoentes da burguesia como Meirelles (BankBoston), Furlan (Fiesp), Rodrigues (latifúndio) e outros do mesmo naipe. Lula governa em aliança com partidos burgueses como o PL, PMDB e PPB, nos marcos do acordo com o FMI. Não é possível empurrar para a esquerda um governo assim.



Para ser um governo passível de ser empurrado para a esquerda de modo a governar para os trabalhadores, teria que ser derrotado na sua forma e conteúdo atual: ser outro governo. Teria que romper as alianças com a burguesia, romper com o FMI e a Alca e estar disposto a governar apoiado na mobilização dos trabalhadores e suas organizações. Enfim, teria que deixar de ser um governo burguês, para converter-se num governo de ruptura com a ordem burguesa e imperialista.



Isso significa que este governo é idêntico ao governo FHC? Não. Num sentido é diferente. A diferença é que na gestão do Estado burguês, temos a participação de um partido operário, como o PT. Isso gera confusão e ilusões nas massas, que acreditam estar diante de um governo seu. Nesse sentido, as táticas que os revolucionários devem utilizar perante tal governo não são as mesmas que sob um governo burguês normal. Porém, a estratégia não muda e a tarefa não é apoiá-lo ou sustentá-lo, mesmo que criticamente, mas derrotá-lo. Porque apoiá-lo significará ajudá-lo a governar contra os trabalhadores e a manter a ordem estabelecida.



Dizer a verdade ao povo ou fazer seguidismo ao senso comum?



O governo tem pedido paciência aos trabalhadores, dizendo que não é possível mudar as coisas de um dia para outro. A maioria dos trabalhadores, porque confia no PT e em Lula, por enquanto tem engolido essa história. O paradoxo é que o governo tem atendido às pressas aos banqueiros e tomado medidas que aprofundam os planos neoliberais.



Uma das condições fundamentais para que a crise atual possa ser resolvida sob a ótica da burguesia é que a classe trabalhadora aceite sem reagir o "remédio amargo" do FMI e da Alca.



O governo usa da sua popularidade para acelerar e concluir as reformas de FHC, negociar a Alca e aplicar a agenda que consta da Carta de Intenções com o FMI. Nesta situação, os revolucionários não podem temer "isolar-se das massas". Pelo contrário, é preciso enfrentar o senso comum. Os trabalhadores não devem ter paciência alguma. E os revolucionários devem explicar essa verdade ao povo, mesmo que por algum tempo fiquem em minoria. Seguir o senso comum e ficar atrelado ao governo significa ajudar a construir derrotas.



"Medidas progressivas" e negativas ou um projeto global?



Reproduzindo o senso comum, muitos acham que o governo é "contraditório": tem medidas progressivas e regressivas. Todo governo - como qualquer coisa na vida - tem contradições, mas também como tudo é uma totalidade: a não ser em um momento de crise aguda quando uma totalidade se destrói e surge outra. No caso do governo atual, aquilo que o determina são os interesses da burguesia e um projeto de aprofundamento do modelo vigente. Nesse sentido, medidas aparentemente progressivas, como o "Fome Zero", por exemplo, estão a serviço de avançar nas reformas estruturais. Não podemos então nos comportar como os que apóiam as medidas progressivas e criticam as negativas, mas como quem denuncia um projeto global e luta contra ele.



Não se trata, evidentemente, de não fazer uso de tais medidas. Mas não se pode dourá-las como uma dádiva do governo. Deve-se exigir mais e denunciar seus limites.



Ruptura e correlação de forças.



Há setores que dizem ser esse o "governo possível". Que não podemos exigir de Lula que rompa com o FMI e a Alca, porque não haveria correlação de forças para tanto. É curiosa essa posição. Pois, se estas bandeiras estavam corretas sob o governo FHC, como podem estar erradas sob o governo Lula? A correlação de forças hoje é superior à que existia antes. Esses companheiros se apóiam na inexistência, por enquanto, de um ascenso generalizado das lutas. Mas poupam o maior obstáculo para que se dê um salto nas mobilizações da classe: o governo e o PT, que é a direção majoritária do movimento.



Se Lula fizesse um pronunciamento explicando que o FMI quer que ele pague - com a fome do povo - uma dívida externa questionada, que financiou as bombas contra o Iraque, e chamasse o povo às ruas para apoiá-lo numa ruptura, temos certeza que milhões se moveriam. O "mercado" retaliaria? Sim. Mas o governo, apoiado na mobilização da maioria do povo, tem como derrotar a burguesia e o imperialismo. Mas o problema aqui não é de ritmo. Ocorre que o governo não quer ruptura e nem que se criem condições para tal. Lula e o PT não querem mobilização, querem impedí-la.



Esquerda será derrotada se não superar governo Lula.



O argumento final é que o governo tem que dar certo, porque senão toda a esquerda será derrotada. Mas se o governo atual e o projeto do FMI que ele vem aplicando der certo, a classe trabalhadora será derrotada e a burguesia vitoriosa.



Há aqueles que esperam por um Plano B. Lindberg Farias, por exemplo, declarou ao Jornal do Brasil: "Há como construir um outro caminho sem criar uma grande crise de confiança no mercado. O nosso desafio, o desafio da esquerda do PT, é nos posicionar para influenciar os rumos do governo (...). Se esse governo der errado, infelizmente, é uma derrota de toda a esquerda".(06/04/2003)



Não há Plano B e não é possível um Plano B sem ruptura. Lula e o PT não querem quebrar os ovos e nem fazer omeletes. Já Lindberg quer fazer omeletes sem quebrar ovos.



Por quê a esquerda sofreria uma derrota se os trabalhadores derrotarem o governo nas reformas do FMI que ele quer fazer? A esquerda só será derrotada se a classe trabalhadora o for. E a classe trabalhadora será certamente derrotada se não enfrentar o governo. O desafio da esquerda é criar as condições para um governo verdadeiramente dos trabalhadores e construir uma alternativa socialista e revolucionária a esse governo.



A esquerda precisa romper com o governo, defender um governo dos trabalhadores e unir-se em um novo partido.



A esquerda socialista não pode seguir atrelada ao governo. Precisa romper com ele, postular-se como uma oposição de esquerda, na defesa de um programa de ruptura e socialista.



Levando em conta que a maioria dos trabalhadores confia em Lula e no PT, devemos todos denunciar a composição atual do governo, suas alianças e medidas. É preciso exigir que Lula e o PT expulsem os burgueses do governo e governem apoiados na mobilização dos trabalhadores e do povo, para aplicar um programa dos trabalhadores: ruptura imediata com o FMI e a Alca, não pagamento da dívida externa, emprego, salário e terra.



O PT, como instrumento da mobilização social por um projeto anti-imperialista e anti-capitalista, morreu. O PT é governo, aliado à burguesia, nos marcos do acordo com o FMI e das negociações para implementar a Alca.



É hora de unir a esquerda socialista e os movimentos sociais num novo partido. O primeiro passo pode ser a formação de uma frente, bloco ou movimento que possibilite a atuação conjunta nas lutas e o debate em torno de um programa revolucionário. É hora de construirmos uma alternativa de massas, de esquerda, de luta, de classe, socialista em nosso país.

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Quem faz o jogo da direita?

 Quem faz o jogo da direita?


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Opinião Socialista


Editorial


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José Genoíno, presidente do PT, disse no Congresso da UNE que "a esquerda faz o jogo da direita", em alusão aos "radicais" que o PT quer expulsar e à todos que se opõem pela esquerda ao governo e suas "reformas".




Deixando de lado o quão velho e surrado é esse "argumento", o que mais espanto causa é a cara-de-pau e falta de senso de ridículo de Genoíno. No mesmo dia, Lula da Silva abraçava-se ao chefe da direita mundial, George Bush. Além da "boa química" entre os dois, tão alardeada pela imprensa, o Presidente do Brasil declarava acreditar numa "relação perfeita" entre Brasil e EUA e aceitava a ALCA. Em seguida, Lula da Silva e comitiva reuniram-se com o FMI, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento, onde não lhes foram poupados elogios às "reformas" e à "austeridade fiscal".




Antes ainda da visita a Bush, o PT que diz querer "economizar" 56 bilhões de reais em 10 anos, às custas do confisco das aposentadorias dos servidores, está fazendo das tripas coração para jogar a CPI do Banestado pra debaixo do tapete e abafar o terremoto que causará a vinda à tona dos nomes de empresários e políticos que remeteram 30 bilhões de dólares para contas no exterior.




E, convenhamos, quem copia FHC, aplica de forma aprofundada o modelo neoliberal (antes patrimônio do PSDB e PFL) e integra até o PPB de Maluf na base governista, não tem como acusar - a não ser a si próprio - de estar fazendo "o jogo da direita".




Derrotar o jogo da direita com luta e com um novo partido.




O jogo da direita está sendo jogado pelo governo, com a reforma da Previdência, com a aplicação do receituário neoliberal e da cartilha do FMI e com as negociações e aceitação da ALCA.




Na verdade, a esquerda precisa entrar em campo, começar a jogar e ampliar seu jogo. Sim, porque ao PT passar com armas e bagagem para o campo do FMI e da burguesia, é urgente que a esquerda entre em campo. Coisa que começa a acontecer e ganhar força. Fazendo o jogo da esquerda para derrotar o da direita, teremos a greve do funcionalismo contra a reforma, que promete jogar bem. Ao lado dela, precisam se posicionar todos trabalhadores e ampliar o ataque e defesa da esquerda para derrotar o projeto do FMI e barrar a ALCA; para conquistar emprego, salário e terra e defender direitos.




Mas, para fazer o jogo da esquerda, os trabalhadores precisam também de um novo instrumento político. É necessário que toda a esquerda socialista vote contra a reforma – como farão os "radicais". E é preciso também que todos os socialistas rompam com o governo e com o PT e que todos juntos formemos um novo partido.




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Lula encontra Bush e diz sim à Alca.


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Opinião Socialista


João Ricardo Soares


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Enquanto Bush e Lula da Silva se reuniam na Casa Branca, soldados americanos continuavam assassinando famílias iraquianas. Não houve interesse de Lula em questionar o "terrorismo de Estado" de Bush, que transformou o Iraque em uma colônia dos EUA.




Lula da Silva, fazendo balanço da reunião, disse: "inicia-se uma nova etapa nas relações entre os dois países". Na verdade, não há nenhum exagero nisso. O que não se disse é que esta nova relação é a pavimentação do caminho que pode nos converter em uma colônia dos EUA, expressa na firme decisão de assinar a Alca. Não foi gratuito o "esquecimento" do Iraque, foi uma opção política.




No plano interno, o governo Lula da Silva tenta convencer os trabalhadores de que a colaboração de classes - e não a luta decidida contra a burguesia - pode garantir os interesses dos trabalhadores, e a luta entre as classes foi substituída pela "parceria".




Em nível internacional, em plena ofensiva recolonizadora do imperialismo contra os povos do mundo, Lula da Silva considera o momento como ideal para construir uma relação ainda "mais perfeita" com o imperialismo. Ele acha que pode aperfeiçoar o que foi feito por Collor e FHC?




Segundo Lula da Silva, agora será diferente: tudo se baseia em uma profunda "convicção de propósitos" dos países. A luta contra o imperialismo pode ser substituída por uma relação "civilizada" entre chefes de Estado. O imperialismo, que é a expressão da barbárie que acabamos de assistir no Oriente Médio, pode construir uma relação baseada na "civilidade" com o Brasil? Não. O que se viu foi a reafirmação de uma relação "servil", em que Lula incorporou toda a agenda do imperialismo americano, em troca de migalhas para as exportações dos latifundiários brasileiros ao mercado dos EUA.




O "sim" à Alca.




Não foi mera coincidência o fato de que ao mesmo tempo em que Lula da Silva dizia "sim" ao calendário da Alca, uma reunião ministerial da OMC no Egito constatava a crise da rodada de negociações. A chamada "Rodada de Doha" tem como eixo a abertura do mercado agrícola dos países imperialistas, em troca de aprofundar a abertura do mercado de serviços dos países periféricos.




Com duas negociações em curso sobre temas similares, a política inicial dos EUA foi atar o tamanho da abertura de seu mercado agrícola ao Brasil e Argentina, ao grau de abertura que fariam os europeus. A abertura do mercado agrícola da Europa para a exportação estadounidense, pode compensar a entrada de produtos agrícolas brasileiros nos EUA. Mas a União Européia não consegue chegar a um acordo sobre a redução dos 50 bilhões de dólares de subsídios dados a seus agricultores, nem sobre em que grau abrirá o mercado agrícola. O governo francês não está disposto a enfrentar a mobilização dos camponeses, em meio à luta do funcionalismo contra a reforma previdenciária.




Neste quadro, não existe outra alternativa para os EUA do que trazer para as negociações da Alca os pontos que tinha remetido à OMC - barreiras não tarifárias e agricultura - acelerando desta forma a Alca e desvinculando-a de um possível fracasso na OMC.




A razão de fundo de Bush para uma reunião de cúpula com Lula da Silva foi a retomada com tudo do calendário da Alca. A intenção de abertura do mercado agrícola fica clara no acordo que prevê a padronização das chamadas normas fitossanitárias, que abriria o caminho para aumentar a exportação dos latifúndios brasileiros.




Os EUA também deram sua benção para que a burguesia brasileira participe da "farra do boi" na África. Empresas brasileiras querem sua parte na rapina no continente, como é feito em Angola, principalmente no setor de construção.




Alca e "integração regional".




Entre os que lutam sinceramente contra a Alca, muitos tinham ilusões de que a política externa de Lula da Silva, de prioridade ao Mercosul e integração regional, fosse uma alternativa. O Ministério das Relações Exteriores chegou a ser apresentado por amplos setores da esquerda como trincheira de resistência contra a agenda neoliberal aplicada no país. Na verdade este seria o primeiro governo que funcionaria com tal critério. Pois a política exterior, mais do que um assunto de governo, expressa interesses de Estado e, em definitivo, interesses da classe que o controla: a burguesia.




Como a política interna do governo está adequada aos interesses do grande capital, vide a reforma da Previdência, lei de falências, reformas tributária e trabalhista, a política externa não poderia ser diferente. Afinal de contas, o Estado aplica uma política centralizada.




O próprio Amorim já tinha dito que o fortalecimento do Mercosul não era uma alternativa à Alca. Mas as declarações de Lula em Washington foram ainda mais categóricas ao afirmar que o Mercosul e a integração sul-americana "podem se converter em um bom negócio para as empresas americanas".




Demonstrando a serviço de quem está a "integração regional", Lula da Silva buscou convencer as "empresas privadas e fundos de pensão que invistam neste projeto, em especial as companhias americanas que já se mostraram interessadas".




Não houve exagero da imprensa burguesa ao noticiar que "Bush aprova plano de Lula para liderar América Latina", pois o plano não exclui os interesses dos EUA. Ao contrário, reflete a opção estratégica da burguesia com capital instalado no Brasil, de aprofundar sua associação com o amo do norte.




Não era por menos que Furlan, ministro exportador da Sadia, estava exultante com a reunião: "Há por parte dos EUA vontade política de aproximação com o Brasil e o desejo de uma agenda positiva". Trocando em miúdos: muitos lucros à vista.


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domingo, 9 de abril de 2023

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

 

            Quando vou a uma banca comprar revistas e jornais, que aprecio muito no formato físico, lembro-me com frequência da canção de Caetano Veloso: “Alegria, Alegria”. Nessa canção Caetano comenta, na verdade, que via nas bancas de revista o jornal de vanguarda O Sol, onde escrevia Nelson Rodrigues, dentre outros. O Sol não brilhou muito tempo, mas foi eternizado nessa incrível marchinha.

            Hoje nossa cidade tem somente duas bancas de revista. Uma delas vende revistas e também passagens de ônibus e é comandada por Alberto. A outra fica na Praça de Matriz, comandada pela simpática Irene, irmã de Alberto. Alberto é um senhor bastante sério e surpreendeu-me um dia, quando contei a ele que sou socialista. Ele disse que é socialista também e que o maior socialista do mundo foi Jesus Cristo!

Eu sempre achei um prazer ler as notícias e ver as capas de revista e manchetes.  Ela contou que trabalha há quarenta anos com banca de revista, mas que essa época da internet é a época mais difícil para esse empreendimento. Ela mostrou-me alguns brinquedos: a distribuidora passou a entregar até brinquedos para vender em bancas. Contei a ela que vi, em Belo Horizonte, bancas cobertas de roupas para vender, num espetáculo melancólico. Falei a ela que, mesmo na biblioteca pública e na escola onde trabalho, as assinaturas de jornais e revistas foram cortadas. Um dia encenamos uma peça teatral onde o pai de família lia um jornal. O jornal encontrado pelos alunos foi esse Jornal de Negócios, cujos exemplares eu levo para a biblioteca da escola com bastante frequência. Ela contou-me, com tristeza, que não abre mais a banca em dias de domingo: nada de comércio, nem o Xuá Lanches abre mais aqui na praça, ela fica ali sozinha e tem medo, restam da madrugada alguns bêbados, ela acabou preferindo não abrir mais. Uma pena, pois o domingo era, no passado, um dia onde, tradicionalmente, as pessoas tinham mais tempo de ler jornais e revistas.

            Minha mãe é ávida leitora de jornais. Eu contei a Irene que eu tentei assinar o jornal O Tempo para minha mãe, mas a empresa desistiu de renovar assinaturas para o interior. A ideia deles é concentrar a venda apenas na região metropolitana de Belo Horizonte, conforme fiquei sabendo ao entrar em contato com a empresa. Um carro vinha trazendo os exemplares para o interior, mas com a queda nas vendas, passou a ser inviável. O Tempo passou a chegar apenas às sextas-feiras. Numa sexta passei lá e encontrei o último exemplar. São apenas quatro, comenta a sempre atenciosa Irene.

 Igualmente, soube que algo semelhante ocorreu ao jornal Aqui, que era muito barato e vendia bem diariamente, passou a ser semanal e as vendas despencaram. O poeta, editor da Literatura em Cena e psicanalista Eduardo Andrade, personagem frequente dessa minha coluna, explicou-me, recentemente, que o preço do papel aumentou com a venda on-line de mercadorias durante a pandemia. É muito mais lucrativo vender papel para embalar mercadorias do que para fazer jornais e revistas, daí a crise do papel.

            Outra revista que eu compro com Irene é a revista Piauí. Eu sou um dos poucos compradores da cidade. Como assim da cidade? Irene disse que vem um rapaz de Dores do Indaiá que passa ali para comprar. “Mas lá não tem banca?”, perguntei eu, perplexo. “Não, não tem”. Diante do meu espanto, completa ela: “não tem mais banca de revista em Luz, Nova Serrana e nem Moema”. Que triste realidade, a do nosso interior!

            E assim, angustiado, pensando em como a vida é breve e tudo acaba, peço aos meus leitores apoio às nossas duas bancas, para que apoiem os vendedores e para que elas não fechem. É um apelo...E ao fazê-lo penso em outra canção de Caetano, Irene: “Quero ver Irene rir! Quero ver Irene dar sua risada...”

 

 

 

 

 

 

sábado, 25 de março de 2023

Carlos Madeira: Vislumbres e Cor e Forma

 

Carlos Madeira: Vislumbres e Cor e Forma

 

 

            Carlos Madeira é um artista plástico autodidata, atua na área de Artes Plásticas desde os 20 anos. Esse grande artista bom-despachense já realizou trabalhos importantes como o Catálogo Aleijadinho. Carlos participou de exposições nacionais e internacionais em países como França, Alemanha, Finlândia.

            As Artes Plásticas, como toda arte, têm papel importante de difundir e representar a cultura de um povo. A maneira de expressar do artista em suas telas é muito peculiar de formas variadas, seja ela no figurativo e no abstrato, cada um eterniza suas ideia de forma plástica, exemplar, instrutiva, dentre outras manifestações.

            Ele começou a tomar gosto pela arte já na infância. Com uns cinco anos já fazia seus primeiros desenhos. Sem condições de estudar numa escola de Artes, teve de desenvolver sozinho seu método artístico. No início, era apenas desenho e lápis, inspirando-se na figura humana.

            Com o passar dos anos, percebeu que poderia ir além do desenho. Passou a pintar OST (óleo sobre tela) e, para desenvolver seu estilo, foram anos de pesquisas e testes. Criou métodos de desenhos, mistura e combinações de cores. Apaixonou-se pelo realismo. Em meio a pinceladas suaves, surgiam os retratos, a maioria para galeria. Teve também o prazer de pintar uma série: homens do campo, seus modos, seus costumes, trabalho e vivência simples que se tornaram imortais em suas telas.

            De uns anos para cá, aventurou-se em novas experiências. Foi então que descobriu na acrílica um jeito gostoso de brincar de arte. Sendo assim, com espátulas e cores vibrantes deixou seus fiéis traços se soltarem naturalmente.

            E assim, Carlos vai vivendo de arte e pra arte, ensinando e compartilhando todo seu aprendizado e conhecimento a pessoas que se dedicam à arte de pintar. O que Paulo Francis disse sobre Mondrian aplica-se à obra de Carlos Madeira:

 

            Mondrian quer fechar todos os buracos da percepção visual de maneira frontal e plana, respirando com sua linha e cor. Terminou em cores, soltas no espaço, as barras desaparecem, chegam à quase invisibilidade, você está dentro de um novo universo que ele criou. Algumas pessoas sentem-se instintivamente se sentem atraídas por essa reorganização matemática do mundo que depois se liberta de qualquer presilha, como se fosse um só vislumbre de cor e forma que temos de um trem ou carro em alta velocidade, ou numa lente forte, que tudo distorce, encontrando a própria harmonia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de março de 2023

Bom Despacho em Cena: Menino Bonito, Expressões do Futebol, Ruas do Rio de Janeiro

 

Bom Despacho em Cena: Menino Bonito, Expressões do Futebol, Ruas do Rio de Janeiro

 

            Menino Bonito, texto autobiográfico de Alberto Coimbra (editora Literatura em Cena, 2022), é produto da reescrita do texto Impressões de Cinema, desdobrado em três: Resposta ao Tempo, Ruas do Rio de Janeiro e Belas Artes. Menino Bonito é Resposta ao Tempo renomeado.

            Eu preferia o título Resposta ao Tempo, é uma busca autobiográfica do escritor de compreender sua própria trajetória. Para tanto, ele revisita a relação com a família, pai e mãe, com os amigos da cidade, brincadeiras infantis, primeiros namoros, etc. Ele parte em busca de significados e sentidos profundos, em busca de saber onde algo de essencial foi perdido, onde os problemas começaram.

Nessa narrativa existem muitos elementos interessantes e situações curiosas que volta e meia emergem em uma linguagem atrativa e construída em cenas cinematográficas e fragmentos. Não é à toa que ele focaliza a ruína romana que surge ao final do filme Satyricon: a partir do presente, ele busca as ruínas do passado, daquilo que já foi e já se encerrou.

Ele conhece –e muito bem relembra-- figuras realmente fascinantes da cidade, como a cantora Cibele Oliveira, que é uma artista como ele. Há vários outros: André, que suicidou-se, com quem ele sentiu identificação; Zé Toniquinho, personagem folclórica da cidade e a quem ele associa ao anjinho do Sítio do Pica Pau Amarelo; Vera do Azul torna-se a atriz Farah Fawcett da série As Panteras, Maria José Paixão entrou em foco porque é a artista sofrida, cujo talento e fascínio libertário a cidade e o marido reprimem, dentre outros achados que são curiosos e engraçados e fazem o livro fluir muito agradavelmente.

            Foi muito interessante a relação com do texto com o cinema, os filmes na TV, a forma como Alberto, que tornou-se cinéfilo a partir dos filmes na televisão, relembra o cinema local, o Cine Regina, com grande riqueza de detalhes. É fascinante a aplicação que faz dos filmes e cenas em sua vida pessoal. Essa autobiografia resolveu o problema do fio condutor, que em Impressões de Cinema era tênue e ficou sendo um bom livro, embora mesmo esse Menino Bonito ainda tenha alguns problemas de revisão, como crase, maiúsculas e minúsculas: por exemplo, “militar” e “costureira”, nomes de profissão dos pais, estão em letra maiúscula sem razão alguma.

            Aparentemente a relação com a mãe, que compara com “Greta Garbo”, é melhor do que a relação com “Tyrone Power”, que é o pai. É muito curiosa a descoberta de Rita Hayworth, uma estrela de Hollywood cujos filmes foram marcantes para a geração 68, que foi a geração do pai. Alberto Coimbra, num tempo de Sharon Stone, fascinou-se por Rita Hayworth, a deusa do amor, querendo até mesmo transformar-se naquela atriz que fascinou e que já vivia seu crepúsculo quando Alberto a descobriu.

            As Ruas do Rio de Janeiro (editora Literatura em Cena, 2022), baseiam-se na ideia do flanêur de Baudelaire: o poeta como observador da urbanidade, um representante da modernidade que dedicou-se a atividades lúdicas e ociosas, levando a vida a buscar sensações diferentes das vulgares, vestindo-se de forma elegante. É o dândi em busca de seu sândalo. O poeta anda pelas galerias de Paris, Alberto anda pelas ruas do Rio. E Alberto escreve sobre a ladeira da Misericórdia que levava ao Morro do Castelo (demolido, mas foi onde o Rio nasceu e comenta que essa ladeira foi citada em Esaú e Jacó, de Machado de Assis). A partir de uma rua ou ladeira, Alberto começa o palavra-puxa-palavra, menciona uma frase de Adélia Prado, uma canção de Gal Costa, e por aí, em associação livre, o texto vai fluindo. As enumerações e referências são muitas, abundantes, mas a leitura é prazerosa e, ao final, ficou a frase espirituosa e marcante: “Muito são cariocas, alguns nasceram longe de casa.” Alberto Coimbra seguiu o destino histórico de mineiros como Fernando Sabino, Drummond e integrou-se na alma encantadora do Rio, tal como sua irmã Denise comentou no prefácio.

            Expressões do Futebol (editora Literatura em Cena, 2022) é um livro interessante de ficção e prosa poética a partir da pesquisa inédita sobre o futebol local. O livro não surgiu, como As Ruas do Rio de Janeiro, de um desenvolvimento posterior de Impressões de Cinema. Lançado anteriormente, já foi intitulado Léo e o Futebol. Mesmo nessa reedição, ressentiu-se de ser ao mesmo tempo pesquisa histórica sobre o futebol local (e esse é o primeiro livro sobre futebol local que eu conheço, daí sua grande importância) e uma ficção erótica. O melhor seria, de fato, numa nova reedição, reescrever o livro enquanto uma ficção utilizando Léo como um motivo-guia a unificar as situações e informações, utilizando a pesquisa historiográfica (que cita profissionais reais e atuantes como Graia, Tebinha, Khalifa) apenas como inspiração e citando suas fontes ao final, homenageando-as.

A decisão de desmembrar e desenvolver Impressões de Cinema foi boa e gerou obras muito interessantes. Ficamos no aguardo da terceira obra: “Belas-Artes”, falando de sua relação com o cinema.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Miguel Gontijo: Um Amor que Nunca se Acabou

 

 

Miguel Gontijo: Um Amor que Nunca se Acabou

 

            Nesse novembro de 2022, a Escola Estadual Miguel Gontijo fez setenta e três anos, embora suas atividades tenham iniciado efetivamente em 15/04/1950. Lembro-me que, quando vim trabalhar em Bom Despacho em 2001, encontrei o político Hugo Gontijo, filho do construtor do ginásio e também político. Dr. Miguel Marques Gontijo era médico e foi vice de Dr. Cisalpino. Em sua homenagem temos o hospital, o colégio Miguel Gontijo e uma rua.

            Eu e Hugo Gontijo fomos tomar uma cerveja no que eram, então, o bar e sebo Sabor e Saber, cantinho da Roberta do professor Tadeu (que falta que faz!). A cidade continua sem ter um espaço semelhante, aberto para música, artistas locais, livros. Eu cheguei a dar uma palestra sobre tropicalismo lá, passando cenas de um especial de Caetano Veloso na Rede Manchete em 93 (quando ele fez cinquenta anos), com cenas do musical Opinião com Maria Betânia, etc.

Quando contei que era da área de Letras e Filosofia, ele contou-me que redigiu a letra de uma música junto ao um compositor. E ele passou a recitar a canção para mim. Eu vivia o fim de um amor com a hoje minha amiga Luciene Guimarães e fiquei profundamente emocionado. A canção falava de um brinde com copos de vinho e outras imagens muito bonitas. Ela me lembrava Flor de Lis do Djavan: “E foi assim que eu vi o nosso amor na poeira...poeira. Morto na beleza fria de Maria...e o meu jardim da vida, ressecou, morreu. Do pé que brotou Maria, nem Margarida nasceu”. E de repente, ao terminar de recitar, Hugo perguntou-me: “qual o nome que você dá para essa canção”? Eu pensei e disse: “Um Amor que Se Acabou”. Pasmo, Hugo ficou calado alguns momentos e respondeu: “mas esse é o nome dela...”

            Não muito tempo depois, esse outro Gontijo perdeu uma filha pequena em circunstâncias trágicas, entrou em depressão e deixou-se morrer.

Naquele tempo em que trabalhei na Escola Estadual Miguel Gontijo, a sombra de um outro grande professor de Filosofia ainda pairava lá: a do professor “Coió”. O professor, muito culto, virou folclore. Na época em que a informação era restrita, o professor de Filosofia trazia para a sala de aula jornais em inglês e em francês. Curiosamente, eu também lembro desses jornais, tais como New York Times, Le Monde, bastante caros, eram embrulhados em plástico e eles para mim eram vistos um como objeto de desejo em livrarias chiques da Savassi em Belo Horizonte. Esse tempo, o vento levou!

            O vento levou também o professor Coió. Anos depois, tive a honra de lecionar ao lado de seu filho, um professor de Português morto muito prematuramente, para tristeza de todos. “Coió”, como o professor Majela, deixou muitas memórias e virou folclore, por assim dizer. Minha mãe tem grande carinho, ainda pelo professor Magela. Meu pai também repete histórias a seu respeito, um verdadeiro mito. Meu primo Roberto Queiroz lembra de histórias muito curiosas sobre “Coió”. O grande mestre não enxergava bem. E, sabendo disso, os alunos colocaram uma bola com boné no fundo da sala. O professor de Filosofia aproximou-se e leu um sermão para o aluno (contra o uso do boné), mas de repente viu que estava enganado e eram as famosas palavras ao léu. Roberto contou-me também que pegou carona em seu velho carro. Lá dentro, como o professor entretinha-se com uma fazenda, havia também terra e até uma plantinha brotando, já com ramos verdes, ao pé do banco de trás, o que tornava o ambiente do carro do professor um aspecto um tanto quanto surrealista.

            Em criança, eu brinquei na praça do Miguel Gontijo nos fins de semana. As praças da cidade tinham brinquedos que rodavam, escorregadores, jardins com espaço de areia onde as crianças brincavam. Onde há aquela curiosa “corcova” na praça da escola Miguel Gontijo havia um jardim de areia onde fazíamos castelos, etc. Nessa época, para vocês terem ideia, fascinavam-me os trilhos da estrada de ferro atrás da rodoviária que ainda, muitos anos depois dela desativada, ainda estavam ali. E a rodoviária era aquele pequeno prédio antigo onde estava a sede da Assem.

            Segundo o diretor Ronaldo Lúcio, a Escola Estadual Miguel Gontijo foi construída graças aos praças do quinto batalhão, o “Machado de Prata” atuou ali também, ajudou a construir pedra por pedra o sonho do ginásio realizado pelo Dr. Hugo Gontijo (ele era médico).

            Uma vez encerrada a fase na UNIPAC, passei a trabalhar em escolas locais, esporadicamente, até conseguir a efetivação na Escola Wilson Lopes do Couto. Gostei muito da experiência na escola Miguel Gontijo. A equipe do Miguel Gontijo teve um grande papel na consolidação da universidade local: grandes professores saíram dessa escola, bem como Samira Araújo, que atuou nos dois ambientes, tais como também a Vera do Azul, o competentíssimo Jackson e muitos mais. E o Miguel Gontijo, continua, com o tempo integral, na vanguarda da educação em nossa cidade.

            Parabéns à Escola Miguel Gontijo e a toda equipe pelos 73 anos! Que esse amor, que reencontrei no filho de Dr. Hugo Gontijo, nunca se acabe!