quinta-feira, 13 de abril de 2023

Um Novo Partido

 Roberto Leher, Marcelo Badaró e Cristina Miranda,




Em conjunto com outros setores, estivemos desde o primeiro momento de convocação do seminário que se realiza em 11 de outubro no Rio de Janeiro apostando na possibilidade de criação de um espaço de discussões que pudesse reunir, a partir de uma construção unitária, todos os setores que hoje elaboram politicamente sobre a constituição de um novo partido de esquerda, incluindo na discussão não apenas as correntes organizadas, mas também os militantes dos movimentos sociais que não se identificam necessariamente com nenhuma delas, como é o nosso caso. Defendemos neste processo, uma metodologia de discussão que incorporasse o máximo de militantes nos debates, e por isso o seminário foi estruturado com grupos de trabalho e plenárias.

Até aqui atuamos com o firme propósito de garantir as condições para um debate includente, nos limites do contexto, tarefa que estamos dispostos a continuar executando, na expectativa de que o seminário se desdobre em muitas outras iniciativas de mesmo sentido e direção. No momento em que o debate se abre, não nos furtamos a apresentar uma contribuição na expectativa de somar para o debate franco e respeitoso que esperamos possa cimentar caminho para a construção da organização política que a conjuntura exige.

Para tanto enfrentamos neste texto o debate sobre a conjuntura, porque é nela que situamos a necessidade e a possibilidade de construção de uma alternativa partidária de esquerda. Enfrentamos também o debate sobre a trajetória do PT, pois nosso objetivo é construir um novo partido, em um movimento que se inicia sob o duplo signo da ruptura e da unidade. Ruptura porque, ainda que com temporalidades distintas, tanto os setores organizados quanto os militantes independentes que estão interessados na discussão sobre o novo partido acumulam uma experiência, mais antiga ou mais recente (ou já prevista para o futuro próximo), de ruptura com o Partido dos Trabalhadores. Unidade porque o desafio que se coloca é garantir que nesse processo de discussão consigamos aglutinar todos os setores – das correntes organizadas aos militantes dos movimentos sociais que não as integram – que compartilham do objetivo de fundar um partido classista (que lê a sociedade pela ótica da luta de classes e toma partido da classe trabalhadora) e socialista (que luta pela transformação social, entendida como fim da sociedade de classes, e age consciente de que a transformação não se fará sem rupturas). Portanto, nos marcos da ruptura com o PT, é importante tomar a experiência recente do partido como ponto de partida para avaliarmos como surgem hoje mais e mais militantes dispostos a discutir uma nova alternativa. Também é fundamental que avaliemos a trajetória do PT para que possamos dela tirar os ensinamentos necessários a um salto de qualidade no instrumento político que queremos construir.

No que diz respeito à unidade que desejamos construir no movimento pela criação do novo partido, é necessário enfrentar o desafio de por em discussão os temas mais controversos que marcaram a experiência negativa com o PT e também as diversas expectativas que organizações e militantes possam ter sobre qual a natureza do instrumento político que desejam construir. Isto significa que temos a necessidade de discutir e construir propostas sobre pontos como: o projeto estratégico (o socialismo) e o caráter da organização partidária adequada a tal projeto; as relações do partido com os movimentos sociais; a concepção internacionalista e as relações com organizações internacionais; as definições programáticas que possam vincular as concepções estratégicas às propostas concretas para enfrentarmos os desafios da conjuntura atual. Este foi o esforço que fizemos a seguir.





A conjuntura atual no quadro das respostas do capital à sua crise estrutural

Desde a década de 1970, a economia dos países industrializados cresce a passos tão lentos que se poderia caracterizar toda essa fase como um período de estagnação econômica. As crises que o noticiário normalmente associa ao mercado financeiro, ou a determinadas regiões (crise mexicana, crise asiática, crise russa, crise argentina), são na verdade manifestações de uma crise mundial, expressão de contradições econômicas e políticas profundas. (Ver sobre este aspecto os vários trabalhos de François Chesnais, como o artigo publicado na Revista Outubro, no. 1). Podemos dimensioná-la através de indicadores que demonstram uma queda do crescimento dos países industrializados, que oscilava em torno da taxa de 5,5% ao ano (1965) nos anos 1960 e regrediu a taxas de 2% (1995) ao ano na década de 1990. Neste quadro, ainda seguindo Chesnais "O sistema capitalista imperialista mundial considerado como um todo investe a uma taxa muito fraca; ele não coloca, portanto, bastante capital criador de valor e de mais valia em movimento. Ele não produz mais bastante valor e mais valia para enfrentar as exigências às quais está confrontado. Quanto mais o sistema superexplora e pressiona, mais ele conhece a superprodução tendencial e mais ele sofre repetidamente os choques financeiros."

Na mesma linha, as políticas neoliberais (aí incluídas a retirada das políticas keynesianas de controle da demanda e a retirada dos direitos dos trabalhadores, desregulamentando o mercado de trabalho), bem como a ascensão do capital financeiro, devem ser entendidas como conseqüências e não como causas da estagnação econômica de longo prazo. Mas, os choques neoliberais acabaram por agravar, nos anos 1990, a situação de vulnerabilidade a crises da economia capitalista, em escala internacional. Robert Brenner esclareceu que "a crise (...)tem raízes profundas numa crise secular de lucratividade que resultou do excesso constante de capacidade e de produção do setor manufatureiro internacional”. O crescimento do setor financeiro deu-se, então, como conseqüência da incapacidade da economia real, especialmente das indústrias de transformação, de proporcionar uma taxa de lucro adequada. (Outubro, no. 3.)

Essa análise pode ganhar maior concretude quando aplicada ao carro-chefe da economia mundial, os Estados Unidos. Segundo os cálculos de Robert Brenner, a taxa de lucro líquido do setor manufatureiro nos EUA caiu de 24,35% , no período 1950-1970, para 14,5% , nos anos 1970-1993. No G7, as mesmas taxas eram de 26,2% e 15,7%, respectivamente. Uma crise que atinge o epicentro do sistema, os EUA, tem dimensões catastróficas para a lógica do capital, pois este hoje busca refúgio seguro financiando a economia norte-americana, cujo déficit público atinge proporções incontroláveis.(O boom e a bolha. Os estados Unidos na economia mundial) Hoje, a dívida pública federal norte-americana equivale a 36,1% do PIB do país. Para 2003, estima-se que o déficit público atingirá 304 bilhões de dólares e o acumulado é de uma dívida federal total de quase quatro trilhões de dólares ou mais de seis trilhões se calculado o conjunto da dívida e não apenas a parte do governo federal. (Cintra, Marcelo. "Rombo histórico". Reportagem, São Paulo, março de 2003)

Após a tentativa desastrosa de Clinton de aplicar internamente o receituário ortodoxo neoliberal e conter o déficit, o que acabou por acelerar a crise com a recessão interna, o governo de Bush filho retoma a fórmula de Reagan e do pai, de acelerar o financiamento público ao setor manufatureiro, através das encomendas à indústria armamentista. Mas, fazer a guerra é também a face mais visível de uma forma predatória de expansão do capitalismo numa etapa em que a crise de demanda e a superprodução de manufaturados acabam por exigir a transformação de tudo em mercadoria, para tentar conter a tendência secular de queda da taxa de lucro. Por isso, não apenas petróleo, mas água, biodiversidade, genes, saúde, educação, tudo deve ser submetido à lógica do capital. Não haveria exagero em dizer que o desejo do capital é patentear o sol e o ar, para deles obter lucro. O grau de destrutividade do estágio atual deste sistema é com certeza inédito. A fase atual da expansão imperialista estaria sendo marcada, seguindo Iztván Mézáros, por um "Imperialismo global hegemônico, em que os Estados Unidos são a força dominante (...) que se tornou bem prenunciada com a eclosão da crise estrutural do sistema do capital - apesar de ter se consolidado pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial - que trouxe o imperativo de construir uma estrutura de comando abrangente do capital sob um governo global presidido pelo país globalmente dominante." (O século XXI: socialismo ou barbárie?) Por isso também devemos atentar para a precariedade da ilusão de estabilidade sob a bandeira de um "governo global" norte-americano, num contexto em que a cada dia surgem novos “inimigos” (o Afeganistão, o Iraque, a Coréia do Norte, a China...). Esta é a razão de Mézáros acrescentar ao brado de Rosa Luxemburgo de "socialismo ou barbárie", a frase "barbárie se tivermos sorte", "no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital. E o mundo dessa terceira possibilidade, além das alternativas de socialismo ou barbárie , só abrigaria baratas, que suportam níveis letais de radiação nuclear." Por isso, o mesmo Mézáros afirma que tal projeto depende de uma saída dos movimentos de massa da classe trabalhadora de sua fase defensiva atual, pois "somente uma alternativa radical ao modo estabelecido de controle da reprodução do metabolismo social pode oferecer uma saída da crise estrutural do capital".

Vivemos uma conjuntura em que alguns sinais de saída da defensiva dos movimentos de massa parecem estar se dando, mas com limites muito evidentes para que possamos apostar numa etapa eminente de ascensão das lutas sociais puxadas pelos trabalhadores em direção à ruptura socialista. É o caso dos movimentos de resistência à guerra imperialista, em seu caráter de libertação nacional, nos países ocupados, ou no conteúdo de solidariedade internacional, como nas manifestações contra a guerra na Europa. Mais próximas a nós, na América Latina, apresentam-se lutas que possuem forte dimensão anti-neoliberal e mesmo anti-capitalista, mas que não afirmam necessariamente a alternativa socialista e não se articulam no plano internacional, vide o caso Argentino no passado recente, ou mesmo no momento atual o que ocorre na Bolívia. Por outro lado, vivemos uma fase de aglutinações internacionais em torno de movimentos anti-globalização que, embora tendam progressivamente a incorporar bandeiras anti-imperialistas, como a condenação à guerra, não assumem programaticamente uma perspectiva anti-capitalistas. É o que vemos no Fórum Social Mundial. Trata-se, como dissemos, de movimentos fundamentais, mas ainda insuficientes para caracterizar uma virada do quadro internacional a favor do campo das lutas dos trabalhadores.





A opção neoliberal não é conjuntural, mas constitutiva da nova coalizão de classes

Vivemos uma situação paradoxal. As políticas neoliberais, que fazem parte da resposta do capital à sua crise estrutural, provocaram catástrofes e misérias que intensificaram o genocídio na África subsaariana, empurraram para a miséria milhões de novos trabalhadores na América Latina e nos países centrais, sem sequer atenuar a crise estrutural do capitalismo. Entretanto, conforme Perry Anderson, essas políticas seguem dominantes em toda a parte, inclusive nos governos social-democratas e em países autoproclamados comunistas, como a China. O governo Lula, “o governo da esperança”, pode ser uma alternativa ao neoliberalismo? Tudo indica que não. Por isso, a célebre indagação feita por Lênin há um século tem de ser feita em novas bases: o que fazer?

O governo Lula não é circunstancialmente neoliberal, como afirmam crer as principais correntes de esquerda do PT. É neoliberal porque a sua coalizão de classes não tem saída melhor. Os principais setores representados na nova coalizão de classes, a saber, o setor financeiro (Meirelles), o agrobusiness (Rodrigues) e commodities (Furlan), acrescidos de gestores buscados no pólo outrora antagonista, como os operadores dos fundos de pensão (muitos vindos da CUT e do PT) e, mais amplamente, do Estado (Articulação e oligarquias regionais a exemplo de Sarney, Barbalho e ACM) necessitam dessa política para sua reprodução.

O neoliberalismo do governo Lula não é um ‘raio em céu azul´ pois, há tempos, o PT e a Articulação da CUT vinham sinalizando sua conversão ao pensamento único. O agravante, lembra Chico de Oliveira, é que, no caso dos partidos social-democratas europeus, essa mudança levou mais de meio século enquanto, no PT, foi quase instantânea: tão logo os dominantes se viram sem meios de prosseguir no governo, em virtude da crise, a direção majoritária do PT aquiesceu com o transformismo. A Carta aos Brasileiros simboliza o novo momento. Desse modo, Lula e o PT não preservaram, sequer, alguma cultura pública e republicana. O ardor privatizante em todas as esferas do governo – da previdência e dos transgênicos, da Monsanto ao Brasil Alfabetizado - ilustra esta opção.

Qual é a aposta do núcleo dirigente, em especial da Articulação? Conforme os documentos da Fazenda, é possível compatibilizar emprego e crescimento com as políticas neoliberais, desde que: (a) o crescimento econômico do núcleo capitalista seja significativo; b) os investimentos diretos estrangeiros (IDE) sejam elevados; e c) os “Senhores do Mundo” sigam apoiando o governo. Se essas condições forem satisfeitas, haverá estabilidade cambial, redução dos juros e do estoque da dívida e, desse modo, o Estado terá recursos para promover o chamado “espetáculo do crescimento”.

Todas as previsões ufanistas do governo fracassaram, pois os pressupostos da tese são frágeis: a) nos termos de Robert Brenner, o crescimento econômico dos EUA é instável, advindo hoje do endividamento das famílias; b) os IDE estão muito abaixo do esperado: US$ 3,5 bilhões no primeiro semestre (muito abaixo dos US$ 9,6 bilhões do período em 2002), devendo alcançar menos da metade dos US$ 10 bilhões previstos pelo governo para 2003: recursos que não serão aplicados em investimentos produtivos, mas em diferenciais de juros, ações desvalorizadas e aquisições e fusões de empresas; e c) os Senhores do Mundo, FMI, Banco Mundial, G-7, a exemplo das juras de amor a Menem, têm-se mostrado volúveis em suas paixões.

A coalizão de classes que assimilou o PT não será capaz de cumprir as suas promessas. A história é pródiga em exemplos e as conseqüências das medidas de Lula para os trabalhadores já são insuportavelmente severas. O desmonte do serviço público, por meio do arrocho de verbas e salários e do ataque aos direitos trabalhistas, como a Reforma da Previdência, cria obstáculos ainda mais ásperos aos milhões de brasileiros que necessitam da escola, da saúde e das políticas públicas. A política econômica, ao beneficiar exclusivamente o núcleo sólido da coalizão de classes, elevou ainda mais o desemprego. De acordo com o Dieese/Seade, a taxa alcançou dramáticos 20% em junho último, a maior desde 1985. Dos 500 mil novos desempregados de 2003, 270 mil têm pelo menos 11 anos de escolaridade. A renda dos trabalhadores caiu 27% desde 99, sendo 13% nos últimos 12 meses.



As lutas de classes assumem novos desafios

Frente à coalizão dominante, potencialmente mais forte – pois reúne os setores mais internacionalizados do capital, as oligarquias regionais e operadores recrutados no seio das organizações das classes subalternas – é preciso inventar novas formas de organização da classe que vive de seu próprio trabalho. Não é possível subestimar a grande capacidade de governabilidade da coalizão dominante: os maiores empreendimentos da mídia apóiam decididamente o governo; as forças repressoras permanecem a postos; as políticas sociais para os miseráveis podem ter alguma efetividade aqui-e-ali; as lutas anti-capitalistas no seio da CUT serão sistematicamente combatidas por sua direção majoritária; a coerção econômica prosseguirá, por um bom tempo, a restringir a luta do MST contra a política geral de Lula da Silva; parte significativa dos intelectuais seguirá colocando os seus cérebros a serviço da nova ordem etc.

Entretanto, a opção neoliberal é agora ainda mais dura do que fora no primeiro mandato de FHC, pois não há margem para ampliar os modestíssimos dispositivos de inclusão social. O desemprego segue numa curva ascendente em um quadro de quase nulo crescimento econômico e de forte redução dos investimentos. Ademais, os melhores empregos, particularmente no setor industrial, desmoronam em sintonia com a condição de país em processo de desindustrialização, conforme o Relatório da UNCTAD de 2003. Nesse quadro, não está descartado o recrudescimento dos conflitos sociais, tendência já verificada neste ano, em particular nas lutas pela moradia, pela terra e pela reforma agrária e na grande greve dos servidores contra a reforma neoliberal da previdência. Um indicador importante, quase ocultado pela grande imprensa, veio da última pesquisa de popularidade de Lula, realizada pelo IBOPE: somente 52% voltariam a sufragar Lula presidente. Devemos avaliar tais potencialidades sem exageros, pois não é possível extrair daí a conclusão de que teremos de pronto um movimento anti-capitalista de massa, visto o caráter fragmentado e imediatista de muitos desses embates. No plano ideológico, não é possível negligenciar a eficácia da atuação da CUT e, sobretudo, do próprio PT na manutenção da ordem. Existem vínculos duradouros que não são fáceis de serem rompidos. Destarte, para avançar na discussão dos desafios que se colocam para a perspectiva de construção do novo partido, é preciso pensar a trajetória do PT e como esse partido pode ser hoje um instrumento decisivo da governabilidade do capital, iniciativa que terá o apoio dos “Novos Senhores do Mundo”.





A trajetória do PT

Embora setores significativos que estão dispostos a discutir a proposta do novo partido, organizados em correntes políticas ou não, já tenham se desligado da referência ao Partido dos Trabalhadores – há mais ou menos tempo -, é inegável que a experiência recente do PT ainda é o ponto de partida para avaliarmos como surgem hoje mais e mais militantes dispostos a discutir uma nova alternativa. Também é fundamental que avaliemos a trajetória do PT para que possamos dela tirar os ensinamentos necessários a um salto de qualidade no instrumento político que queremos construir.

Os que estudaram a trajetória da esquerda, em especial da social-democracia e dos partidos comunistas sob o stalinismo, costumam partir de algumas interpretações mais clássicas que podem servir como referência para o processo vivido pelo PT. Uma dessas interpretações é a de que os partidos social-democratas precisam fazer uma opção: ou mantêm sua base social original (na classe trabalhadora) e os seus programas originais que apontam para mudança social (o socialismo) e não conseguem aquilo que eles dizem querer, que é ganhar o poder através do voto, ou flexibilizam os seus programas, fazem alianças para além da sua base social e chegam ao poder através do voto. Só que ao chegar ao poder através do voto, através dessa decolagem eleitoral, eles já não têm mais o mesmo compromisso com a mudança que tinham antes. (Ver por exemplo as idéias de Adam Przeworski, no livro Capitalismo e social-democracia).

Isso é de certa forma o que ocorreu com o PT, embora o partido, até bem pouco tempo, recusasse o rótulo de social-democrata. Desde as primeiras eleições em que o partido tomou parte, em 1982, e principalmente após a campanha presidencial de Lula em 1989, levantaram-se vozes cada vez mais fortes no interior do PT, defendendo uma flexibilização da sua política de alianças e de seu programa para conquistar vitórias eleitorais. Nos anos 1990 essa foi a prioridade política do partido, que acabou por assumir uma estratégia centrada no marketing eleitoral no melhor estilo dos partidos de direita, como saltou aos olhos em 2002, com Duda Mendonça ocupando o lugar de Tzar da campanha. A opção do PT por aderir a essa estratégia política e não tentar outra via de mobilização da sua base social para o projeto político do partido indica que esse projeto passou a ser cada vez mais eleitoral, ou seja, a tentativa de mobilização que o PT faz de suas bases é uma mobilização de bases eleitorais e não mobilização de bases sociais para um projeto de mudança social. Não é mais um projeto de, nas eleições, mobilizar a sua base social para participar do processo com o seu projeto social; o que se apresenta para garantir votos é o que se acredita que possa conquistar eleitores e não um projeto que ao mesmo tempo seja educativo, conscientizador, mobilizador para a mudança.

Outra forma de interpretação clássica de transformações em partidos de esquerda é a que se centra na idéia da burocratização. Na medida em que os espaços institucionais vão sendo ocupados e que o próprio partido se transforma num partido grande, em que a cada mandato conquistado amplia-se também a cadeia de assessores ligados a esse mandato, de verbas públicas utilizadas, a ocupação do espaço institucional passa a ser uma questão de sobrevivência para aqueles que ali estão colocados e para todos que estão a reboque deles. Então, a estratégia política passa muito mais por ganhar a próxima eleição para continuar ocupando aqueles espaços do que pelos compromissos programáticos ou com as bases sociais. Essa tese da burocratização tem uma versão conservadora, centrada na teoria das elites, para estudar a social-democracia (Ver Robert Michels e sua Sociologia dos partidos políticos). Mas há também a versão de Leon Trotski para interpretar o caso soviético e dos partidos nele inspirados, que envolve idéias como a de uma “crise de direção” oriunda de um grupo dirigente do Estado ou do partido que se burocratizou e por isso rompeu com o projeto revolucionário original se transformando em gestor de um Estado ou de um partido burocrático (ver a esse respeito, entre outros textos de Trotski, A revolução traída). Tais idéias também ajudam a iluminar a questão do Partido dos Trabalhadores, bastando para constatá-lo analisar os números e perfil de participantes dos congressos e encontros do PT, que definem os rumos partidários, em que ao longo dos anos 1990, passaram a predominar os ocupantes de mandatos, cargos públicos nas administrações municipais, estaduais e assessorias parlamentares ou executivas, escasseando cada vez mais o percentual de militantes sem vínculo com a institucionalidade nos espaços de decisão e nas direções do partido.

Todas essas teses, porém, dão conta do perfil e das opções das direções, mas é preciso entender também como se explica a trajetória do PT, pelo vínculo de classe de origem do partido. O PT surgiu como um partido representativo das lutas da classe trabalhadora brasileira. E se, nos anos 1980, essas lutas viviam uma fase de ascensão e isso explica a diferença do PT em relação aos outros partidos social-democratas ou mesmo comunistas e socialistas do mundo ocidental na época; nos anos 1990, por uma série de fatores, essas lutas viveram um declínio. O fato de haver uma base social do PT mais fluida hoje, mais eleitoral do que social, somado ao fato de haver uma organização dirigente da base social de trabalhadores original do partido, como a Central Única dos Trabalhadores, que já fez opção pela “consertação social” (nome novo para a velha conciliação de classes), pela burocratização – num processo de fôlego um pouco mais longo –, nos ajuda também a entender o que aconteceu com o partido. Há um recuo das lutas da classe trabalhadora no Brasil que contribui como contexto, como moldura geral. para que avaliemos como o Partido dos Trabalhadores tomou o rumo que tomou.

No governo, tais contradições do PT tornaram-se apenas mais evidentes para setores mais amplos e a ruptura com o projeto original de sua formação ficou nítida demais para que dúvidas ainda possam ser levantadas sobre o fato de que o Partido dos Trabalhadores transformou-se em um partido da ordem, morrendo como alternativa política para a luta da classe trabalhadora pela emancipação social. As propostas de reforma até aqui apresentadas, retirando direitos dos trabalhadores, são o melhor exemplo disso. O PT surgiu com uma proposta de ser um partido de esquerda, com horizonte socialista, mas de “novo tipo”: um novo partido em relação à experiência brasileira, isto é, em relação ao PCB e às organizações de esquerda dos anos 60, e um novo partido em relação à experiência internacional. Nem partido stalinista, comunista típico, nem partido social-democrata.

Pode-se dizer que o PT exagerou na afirmação de sua novidade. Partidos surgidos do meio do movimento sindical, em um momento de ascensão das lutas dos trabalhadores, no quadro internacional há muitos. A história do Partido Trabalhista Inglês ou do Partido Social-Democrata alemão é uma história que tem muitos pontos de contato com a história do Partido dos Trabalhadores. Mesmo no Brasil, o ressurgimento do PCB na redemocratização de 1945 tem muitas semelhanças com o surgimento do PT e sua trajetória no início dos anos 80. Porém, havia sim certas diferenças: o PT buscou manter nas suas origens um vínculo com os movimentos sociais diferente daquele da “correia de transmissão” e buscou alicerçar-se em uma democracia interna, que teoricamente deveria alimentar-se da participação ativa dos militantes nos núcleos de base e espaços de decisão do partido.

O PT tinha um projeto de se distanciar do modelo do partido comunista e da social-democracia, anunciando um socialismo pouco definido, mas aos poucos isso se diluiu, só que de uma forma muito particular. O PT era diferente do ponto de vista internacional porque as lutas sociais dos trabalhadores no Brasil viviam uma fase ascendente que empurrava o partido para uma política mais ofensiva, no contexto do fim da ditadura militar, enquanto no plano internacional os partidos de base trabalhadora viviam uma fase de refluxo, tanto os partidos social-democratas quanto os partidos de origem comunista. Os partidos comunistas viveram a crise do “socialismo real” e a social-democracia viveu a ascensão do neoliberalismo, ao longo dos anos 1980. Com isso, esses partidos perderam o espaço político conquistado no pós-guerra. Naquela época, a principal especificidade do PT era essa e não um horizonte socialista pouco definido.

A situação atual é que os partidos social-democratas voltaram a encontrar algum espaço, na Europa em especial, se adaptando à perspectiva neoliberal e rompendo com o modelo de “Estado de bem-estar social”, com aquelas políticas públicas de universalização de direitos sociais e redistribuição mínima de rendas, que eles mesmos tinham protagonizado nas décadas anteriores. Quanto aos partidos comunistas, estes desapareceram ou se adaptaram à lógica da social-democracia. Em poucos casos temos resistências importantes de núcleos originados de partidos comunistas, como a Refundação Comunista italiana, mas em geral o que temos são pequenos agrupamentos. Com o governo Lula, ficou claro que o movimento feito pelo PT foi saltar do seu projeto original, que era socialista – embora esse socialismo fosse difuso, mal definido – para a linha que hoje tem a social-democracia da “terceira via” do novo trabalhismo inglês de Tony Blair, sem ter passado pela experiência de lutar pelo Estado de bem-estar social, calcado em políticas públicas redistributivas. Sendo assim, hoje o PT não apresenta nada de novo ou específico em relação aos partidos que estão colocados, nada de diferente em relação aos partidos que estão no poder ou que têm forte participação política no mundo ocidental.

Esse deslocamento à direita do PT foi facilitado porque, desde a sua origem, defendendo uma via alternativa para fugir do dogmatismo dos partidos comunistas tradicionais, acabou adotando aquela idéia de que ele era “partido movimento”, quer dizer, que se fazia na sua própria prática. “Qual o socialismo que o PT defende?” perguntavam algumas pessoas, e Lula respondia: “O socialismo que os trabalhadores brasileiros vão inventar.” Isso era bonito, uma proposta construída a partir dos próprios trabalhadores, mas também dizia muito pouco sobre qual era o projeto estratégico do partido. O PT, em vários momentos, fugiu a esse debate, sobre projeto estratégico, sobre qual era a natureza do próprio partido, facilitando os deslizamentos da direção, pois afinal de contas, se o PT é uma coisa que se constrói a partir do próprio movimento, os dirigentes podem dizer: “o movimento hoje nos levou para essas posições”, “somos os mesmos, só que a conjuntura mudou e embora tenhamos os mesmos princípios, temos que adequar as nossas idéias”. Embora fique claro para nós que não foi isso que aconteceu, essa é a justificativa do partido, e uma das formas de entender isso é a fuga do debate de concepção, que se manifesta em muitos momentos, em nome da idéia de que seria o movimento que daria a dimensão política fundamental do PT.

Tomando um exemplo de deslizamento mais sensível no debate atual, uma das características da proposta nova do PT era a ênfase na democracia interna. A democracia interna do PT significava, pelo menos, espaço para duas coisas: a organização pela base, os núcleos de filiados deveriam ter poder de decisão no partido; e o direito de tendência, o que também seria uma novidade em relação aos partidos da esquerda comunista tradicional, que viam sempre a tendência como uma fração, como uma ameaça.

Embora a discussão sobre “centralismo democrático” possua muitas variantes, a perspectiva leninista clássica sobre “centralismo democrático”, em teoria, é uma perspectiva que acentua a democracia interna, no sentido de que os espaços de discussão são espaços valorizados, as diretrizes políticas são construídas por debate e decisão coletiva para, depois de definidas, serem implementadas pela direção, coordenação efetiva do partido. Então todo o debate é feito e, quando se fecha posição, todos caminham juntos em relação às decisões coletivas, coordenados pela direção partidária. Mas na trajetória da esquerda tradicional foi comum relevar-se esse aspecto de debate democrático, através de um certo substitucionismo, quer dizer, após o momento em que as decisões são tomadas em congresso, quando a direção responde por encaminhar a execução dessas decisões, o centralismo que deveria se dar em relação à ação unificada de respeito à linha política, acabava por ser entendido como concentração de poderes na direção, que muitas vezes substituía a decisão coletiva pelas leituras que fazia da linha política, enquadrando a partir daí as dissidências à linha da direção, ainda que conformes às definições da linha política, como traições aos princípios centralistas. Por conta do balanço dessas experiências e pelo fato de incorporar em sua fundação grupamentos que tinham certa organicidade própria, o PT nunca se definiu como um partido de “centralismo democrático”.

Muito ao contrário, José Genoino por exemplo, quando era minoria no partido, fazia questão de ir aos jornais da grande imprensa e dizer: “Eu não concordo com o que foi aprovado”. Isto acontecia tanto quando era parte da minoria de esquerda (na fase do PRC), quando após 1989, passou de forma muito ligeira a ser minoria (ao menos nos primeiros anos a seguir) de direita no partido. A experiência do atual presidente do PT é a prova maior de que nunca existiu o “centralismo democrático”, nem existiram grandes problemas no PT em manifestação de divergência de opinião. Mas o que se observa em relação ao caso dos parlamentares hoje prestes a serem expulsos do PT é que se não há “centralismo democrático”, há o pior da tradição da esquerda ortodoxa do século XX, que é o expurgo, no estilo stalinista mesmo. A matriz formativa de muitos desses dirigentes do PT é uma matriz stalinista, não há nenhuma dúvida quanto a isso; o que espanta, é que eles exercitem no poder com tanta desenvoltura essa idéia de expurgo como saída para lidar com a posição minoritária do partido – como a dos parlamentares que insistem em votar conforme o horizonte das resoluções históricas do partido - anulando de vez qualquer ilusão de democracia interna.

Em síntese, o Partido dos Trabalhadores hoje já não busca mais uma base social da classe trabalhadora, mas sim uma base eleitoral que passe pela classe trabalhadora, mas não só por ela. É um partido que se afina com a linha da social-democracia européia,em sua fase de “terceira via”, ou seja, uma linha em que o passado de compromisso com a base social dos trabalhadores é para eles evocado como um elemento de confiança política, de respaldo histórico. Porém, na prática de governo, o que se tem é o sinal de pólo inverso, na busca da confiança da classe dominante e do “mercado” (rótulo para o sistema do capital em sua atual fase imperialista), através da adesão à idéia de que o se papel no poder é tocar a política no campo que o neoliberalismo definiu.



O Novo Partido

A partir da caracterização da conjuntura que explicita a necessidade e a possibilidade de construirmos um novo partido da esquerda socialista brasileira e de um balanço da trajetória do Partido dos Trabalhadores que possa contribuir para uma avaliação dos motivos que levaram e continuam levando setores organizados e milhares de militantes a romper com o PT, chegamos ao ponto para onde converge o debate e, por isso mesmo, o ponto em que as divergências emergem: a natureza e o caráter do novo partido ou, em outros termos, que outro partido pretendemos fundar? Evidentemente, o ponto de partida do debate são os grandes problemas que devemos enfrentar para construir o novo partido.

Considerando a diversidade dos setores que estão se propondo a forjar a nova organização, compreendemos que um primeiro passo é a definição de métodos e encaminhamentos que viabilizem a construção da nova organização. Não devemos apresentar definições prévias fechadas, o que não quer dizer que seja possível fugir das questões de conteúdo mais importantes. Passemos então aos desafios.



1) Construindo a unidade a partir das rupturas

O desafio maior que temos pela frente no processo de criação de um novo partido é manter a unidade dos setores que hoje discutem essa alternativa, respeitando as diversas temporalidades e experiências das rupturas com o Partido dos Trabalhadores. Será uma grande perda, não apenas em quantitativo de militantes, mas em termos de qualidade da discussão, se não conseguirmos unificar neste processo as correntes nacionais organizadas que estão em processo de ruptura/expulsão com o PT (como o MES e a CST), as correntes que não possuem a mesma visibilidade, por não estarem representadas no parlamento, mas que possuem enraizamento em certos setores da classe ou em certas regiões e aqueles setores organizados a mais tempo fora do PT, mas que se dispõem a construir uma organização superior, como é o caso do PSTU. A perda deste referencial unificador pode levar-nos à triste situação de confirmação, no interior da consciência da militância, da visão de senso comum de que quanto mais à esquerda no espectro das forças políticas estão determinadas organizações e militantes, mais fragmentação encontramos.

A fratura na unidade dessas forças seria um péssimo patamar para iniciarmos um processo, em especial porque tenderia a afastar aquele amplo conjunto de militantes que, decepcionados com a trajetória do PT, não apostariam numa alternativa que fosse marcada desde a origem pela incapacidade de construção unitária, entre setores que, no dia-a-dia do movimento sindical e popular, são identificados como verdadeiros companheiros de luta, pois não abandonaram a combatividade classista. Tal disposição para a construção unitária exigirá das organizações um elevado grau de responsabilidade política, responsabilidade diretamente proporcional às dimensões de cada fração.

O objetivo da unidade, porém, não dependerá apenas da boa vontade das correntes organizadas, dos seus parlamentares e das direções. Ao contrário, a unidade somente será efetiva e concreta se formos capazes de envolver no processo de construção do novo partido toda a militância dos movimentos sociais que não se referencia nas organizações hoje existentes, embora já tenha vivido ou esteja vivendo a ruptura com o PT. Esse envolvimento exigirá das organizações, além da responsabilidade acima comentada, a sabedoria do reconhecimento de que nenhuma das organizações hoje existentes é capaz de, por si só, aglutinar essa militância em torno de um novo partido. Não haverá novo partido se ele for projetado apenas como ampliação das organizações hoje existentes por adesão de outros militantes. Trata-se realmente de um desafio de construção de algo novo.

Por isso, desde os primeiros debates dos quais participamos, temos insistido que o novo partido não surgirá, ou não surgirá com capacidade de responder aos desafios que lhe são colocados, se for construído com base simplesmente em acordos de cúpulas. A realização deste seminário de 11 de outubro representa um triplo avanço no sentido do que temos defendido: 1o. Trata-se de uma construção unitária dos diversos segmentos que estão elaborando politicamente sobre o novo partido; 2o. Reuniu desde o primeiro momento de sua discussão, militantes dos movimentos sociais que não estão identificados com nenhuma das organizações hoje existentes, mas que estão investindo na discussão do novo partido; 3o. Foi projetado com uma metodologia de envolver a militância nas discussões, através dos Grupos de Trabalho e plenárias, de forma a destacar que, para enfrentarmos os desafios que nos são lançados, será necessário que, desde a origem, os protagonistas do novo partido sejam as bases militantes nas principais lutas sociais deste país.

Assim, defendemos que todos os desdobramentos deste seminário e os diversos processos que convergem para a criação do novo partido, sejam pautados pelo princípio da construção pela base, a partir do protagonismo dos militantes. Insistimos que o método de construção será decisivo para a representatividade, a legitimidade e a força da nova organização.

2) O segundo desafio que devemos enfrentar é o da concepção estratégica

Partimos das convergências: estamos todos envolvidos nas mesmas lutas centrais da conjuntura, porque enxergamos a realidade a partir da ótica das classes e da luta de classes e porque tomamos partido da classe trabalhadora, ou seja, compartilhamos de uma perspectiva classista como referência para o novo partido. Assumir o ponto de vista classista, numa sociedade em que a classe trabalhadora é explorada pelo capital, é defender a superação da sociedade de classes e, portanto, defender o socialismo.

Se temos convergência em defender um partido com referencial classista e horizonte socialista, para atuar nas principais lutas sociais da atualidade em favor da transformação social, nem sempre as formas de atuação para alcançar tal objetivo são as mesmas, nem na definição de quem serão os protagonistas dessa transformação.

Queremos defender aqui que não se chega ao socialismo pela via do acúmulo eleitoral. Essa é uma constatação centenária, que os setores mais conseqüentes do movimento socialista internacional fizeram ainda no início do século XX, no debate que colocou um fim a II Internacional. A proposta socialista requer a ruptura com o poder econômico do capital que se reproduz por meio da exploração do trabalhador e, por conseguinte, não será construída sem rupturas políticas e sociais. E a dimensão atual do domínio do capital, que mercantilizou não apenas os produtos do trabalho humano, avançando a ponto de converter a própria natureza a condição de mercadoria (das águas aos genes dos seres vivos), exigirá rupturas ainda mais profundas do que aquelas previstas pelos fundadores do socialismo.

O exame da história dos partidos de esquerda nos permite extrair várias lições. A primeira, característica da experiência petista de muita discussão e de parca definição estratégica, é a forma como se tornou etérea a perspectiva socialista. Deve ser destacado que, do ponto de vista da classe trabalhadora, a democracia representativa burguesa é hoje o melhor espaço para acumularmos e atuarmos em favor do projeto de transformação (e sabemos quanto foi importante superar ditaduras, em um país que viveu cerca de 50 anos dos seus últimos 100 sob regimes ditatoriais). Porém, chamamos tal democracia de burguesa, justamente porque ela não comporta efetivamente a idéia do governo pelo povo, que teria como conseqüência a possibilidade de um governo contra o capital. Não será através dos processos eleitorais que chegaremos ao poder, no sentido de conquistarmos as condições para o início da transformação socialista, embora siga sendo importante ocupar os espaços parlamentares e, particularmente, o debate eleitoral.

Em segundo lugar, no quadro atual da luta de classes, não será possível defender a ruptura socialista com conseqüência sem assumir que o protagonismo da mudança cabe à classe dos que vivem do próprio trabalho, aos trabalhadores, e não ao partido, que deve ser o seu instrumento, não seu motor. Definir o melhor instrumento partidário para desafios dessa magnitude significa, antes de mais nada, ter clareza do grau de heterogeneidade atual da classe trabalhadora, de forma a construir os mecanismos através dos quais ela possa atuar de forma unitária e consciente pela transformação. Faz-se necessário resgatar o sentido revolucionário da expressão “construir a hegemonia da classe trabalhadora”, tão corrompida pela proposital confusão entre hegemonia e vitórias eleitorais que a experiência petista nos quis impor.

Defendemos, portanto, como ponto de partida para um debate que exigirá aprofundamento de todos nós, que o novo partido, com referencial classista, horizonte socialista, pautado pela concepção de que o socialismo só se alcança pela ruptura com o domínio do capital, tenha como centro da sua atuação as lutas sociais que confrontam com o capital em suas várias dimensões, procurando conferir-lhes unidade de classe e um projeto estratégico de transformação. Um partido constituído pelos que estão inseridos nessas lutas e se dispõem a imprimir-lhes uma dimensão transformadora. Para nós, tal desafio não será conquistado com uma organização que se baste por aglutinar quadros revolucionários bem formados, capazes de aguardar o melhor momento revolucionário para guiar a classe. Outra perspectiva a combater é a crença de que o caminho para o socialismo passa pela conversão da base em apoio eleitoral de massa.

3) Um terceiro desafio diz respeito ao modo de organização e funcionamento do novo partido.

A experiência histórica de longo termo dos partidos socialistas e a trajetória recente do PT devem nos servir de referencial para pensar o tamanho das dificuldades que temos pela frente quando tratamos do funcionamento partidário. A deformação stalinista impôs aos partidos de tradição comunista uma lógica de autocracia do núcleo dirigente que provocou o rompimento de variados segmentos da esquerda socialista com a idéia do partido único. O substitucionismo da direção que se impõe às bases partidárias, reivindicando o centralismo para reprimir e rotular de traição a divergência interna, secundarizando o aspecto democrático na definição da linha política da organização, gerou posicionamentos críticos como os presentes na origem do PT que enfatizaram a necessidade de uma organização partidária com espaço para divergências (e direito de tendência) e garantia de democracia interna (respaldada por uma política de nucleação e de construção coletiva da linha partidária em encontros e congressos representativos, mecanismos de escolha de direções e de candidatos a partir das bases, etc.). Porém, como já comentamos, o que se viu no PT com o decorrer dos anos foi uma prática de tolerar o discurso divergente da linha construída coletivamente, quando isto interessava à direção e de aplicação do mais rígido centralismo autoritário para punir os divergentes da direção, ainda que coerentes com as definições partidárias coletivamente construídas. Por outro lado, os núcleos e as instâncias de construção coletiva da política partidária foram cada vez mais abandonados.

Não nos basta a simples afirmação do princípio tradicional do centralismo democrático, pois que temos que enfrentar o debate sobre as tragédias que sua aplicação gerou em diversos momentos e circunstâncias. Também não nos satisfará a forma tendenciosa como a liberdade de manifestação de divergências de opinião foi manipulada pelo PT. O desafio dos que constroem o novo partido é combinar o mais absoluto respeito pelos princípios de construção democrática interna da linha política da organização – exercício fundamental para a construção da democracia dos trabalhadores contra o domínio do capital – com a ação efetivamente unitária em torno dessa linha política nas lutas da classe trabalhadora.

Na definição dos mecanismos que garantam tal funcionamento partidário, devemos começar, desde já, a exercitar a prática da construção democrática pela base. Por isso insistimos que, como em todos os outros desafios aqui listados, e em muitos outros que temos pela frente, o método democrático de constituição do partido a partir do debate e posicionamento da base militante será decisivo para o perfil que ele terá.

4) O quarto desafio é o da definição do caráter do internacionalismo necessário à nova organização.

É possível constatar que a conjuntura atual difere da de alguns anos atrás, pelo pipocar de lutas sociais de grandes dimensões em diversas regiões do globo e em particular na América Latina. São lutas, entretanto, como já sinalizamos, que possuem forte dimensão anti-neoliberal e mesmo anti-capitalista, mas que não afirmam necessariamente a alternativa socialista e não se articulam no plano internacional. Por outro lado, vivemos uma fase de aglutinações internacionais em torno de bandeiras e movimentos anti-globalização (embora nem sempre assumidamente anti-imperialistas e, portanto, anti-capitalistas), como as que se materializam no Fórum Social Mundial e na sua bandeira de que “Um outro mundo é possível”. Para nós, tal bandeira precisa ser melhor definida, pois trata-se de um novo mundo, socialista, que não só é possível como necessário e para cuja construção, o ator fundamental continua sendo a classe trabalhadora. Essa definição, pela qual devemos trabalhar, não significa, no entanto, que possamos desprezar o potencial desse nível de articulação internacional.

Por outro lado, é necessário reconhecer que as diversas correntes que se dispõem hoje a construir um novo partido possuem vínculos e/ou referência política em organizações internacionais. Muitas delas, inclusive, oriundas de cisões internas a troncos de origem comum do movimento socialista internacional, o que obviamente gera dificuldades e problemas de confiança mútua. Um desafio do novo partido será superar tais dificuldades, respeitando os vínculos e referências políticas internacionais hoje existentes, o que exigirá das correntes organizadas a responsabilidade de não procurar impor suas referências sobre o conjunto da nova organização, da mesma forma que exigirá do conjunto do partido o desafio de uma prática internacionalista que procure garantir o mais elevado grau possível de articulação e a maior coerência possível na definição estratégica de todas as lutas internacionais das quais participaremos ou com as quais seremos solidários.

5) O quinto desafio é a relação com os movimentos sociais.

Não será possível, como já insistimos aqui em vários momentos, construir o novo partido sem partir das bases militantes que hoje efetivamente enfrentam o capital e o governo nas lutas sociais. Para tanto, o processo de construção partidária deverá envolver a todos os segmentos que nessas lutas chegam à conclusão de que é necessário construir uma alternativa organizativa superior. Mas, isso significa, também, que será necessário aprofundar o debate sobre a relação do partido com os movimentos sociais, superando a experiência recente de um PT que buscou romper com os compromissos históricos das bases sociais que o constituíram, mas insiste em apresentar-se como referência para tentar sustentar a partir dessas bases sociais uma base eleitoral para seu projeto de ocupação do governo.

Para tanto, o novo partido deverá apresentar-se sempre como parte das lutas sociais, mas terá que encontrar os mecanismos adequados para evitar que seu objetivo de conferir uma direção classista e socialista (nos termos aqui definidos) para essas lutas seja confundido com qualquer perspectiva de subordinação dos movimentos sociais aos ditames partidários, respeitando a autonomia própria a esses movimentos, raiz de sua força e representatividade.

6) O Programa

Por fim, ao menos entre os pontos que aqui podemos abordar, é necessário incluir entre os nossos desafios o da construção do programa para apresentar à classe trabalhadora como forma de enfrentar a conjuntura, coerentemente com o horizonte de transformação socialista que defendemos.

Há razoável acúmulo em torno de pontos comuns a uma pauta programática mínima pela qual possamos pautar nossa intervenção desde já, combinando a perspectiva do confronto à lógica capitalista em sua fase de reestruturação produtiva neoliberal e em seu desenho imperialista atual, com as bandeiras concretas que possam mobilizar a classe trabalhadora para as lutas que traduzam esse confronto. Aí se inscrevem: a ruptura com o FMI, com as negociações da ALCA e o não pagamento da dívida externa; a revisão das privatizações e da abertura de setores estratégicos para o capital internacional; a redução da jornada de trabalho sem redução de salários; a garantia e ampliação dos direitos trabalhistas hoje existentes, revisando as reformas que retiraram direitos; programas de ações inclusivas universalizantes, para garantirem a superação das condições sub-humanas em que vivem os (as) dezenas de milhões de brasileiros (as) miseráveis, como a criação de frentes de emprego formal em obras públicas, como saneamento e construção de moradias (atacando a questão do emprego, da saúde coletiva e da moradia); e a reforma agrária sobre controle dos trabalhadores, combatendo o processo de criminalização da luta pela terra no Brasil.

O aprofundamento da discussão de programa, como os demais desafios aqui listados dependerão, insistimos mais uma vez, da nossa capacidade de ampliar a experiência atual em direção a um processo consistente de envolvimento da militância e construção pela base do novo partido.



Para tanto, indicamos os seguintes encaminhamentos, que não são formulações apenas nossas, pois apoiamos os pontos levantados até aqui nas discussões preparatórias deste seminário entre os diversos segmentos que se propuseram a organizá-lo:



1) Socialização da experiência e dos debates do seminário de 11 de outubro de 2003, através da divulgação de um relatório com os principais pontos discutidos e eventuais encaminhamentos, em forma impressa e através de um sítio a ser criado na internet,que abriria espaço também para a divulgação de elaborações de correntes ou militantes interessados na discussão e para a aglutinação de um maior número de pessoas de todo o país em torno das propostas em discussão;

2) Intervenções comuns nas campanhas e lutas da conjuntura- As correntes e militantes participantes do seminário devem mobilizar-se para intervir conjuntamente nas seguintes frentes:

a) calendário de lutas próximas, como: manifestação pelo passe livre dia 10 em Niterói; manifestação contra o descalabro educacional do governo estadual (contratação de professores concursados, fim das fusões de turmas, etc.), dia 14, no Palácio; manifestações no dia nacional da consciência negra (20/11); e tantas outras indicadas pelos movimentos sociais;

b) participação nas campanhas nacionais, entre as quais: pela libertação dos presos políticos da luta pela terra; não pagamento da dívida externa; contra a ALCA; contra os transgênicos; além das campanhas de âmbito regional;

3) Desdobramentos no plano estadual do seminário:

a) realização de uma reunião de avaliação com os setores que organizaram o seminário, em data próxima;

b) realização de debate com os setores que organizaram o seminário, em outras cidades, a começar por Niterói;

d) seminários temáticos sobre alguns dos temas que serão abordados no seminário (como concepções de socialismo; partidos socialistas; políticas setoriais, etc.), de forma a manter o debate e ampliar o envolvimento dos participantes no Rio de Janeiro;

4) Indicações de desdobramentos nacionais do seminário:

a) repetição de seminários no mesmo modelo (envolvendo as correntes nacionalmente estruturadas que discutem o novo partido e militantes dos movimentos sociais; e com modelo de grupos de trabalho/plenária) nos outros estados;

b) realização de uma reunião sobre novo partido na ocasião do Fórum Social Brasileiro, em Belo Horizonte (1a. quinzena de novembro);

c) realização de um encontro nacional, nos primeiros meses de 2004, para iniciar o processo de formação do novo partido (a ser encaminhado à reunião de BH);



É importante ressaltar que todas as indicações no plano nacional dependem de fóruns mais amplos do que este seminário de 11/10, que embora possa contar com participações de outros estados, teve uma convocação local, para ganharem a legitimidade necessária. Daí a importância da realização de uma reunião com caráter nacional, na oportunidade aberta pelo Fórum Social Brasileiro. Também queremos destacar que nenhuma dessas propostas tem a intenção de fechar questão em torno de quem está dentro ou quem está fora da construção do partido, ao menos nessa primeira etapa. Defendemos, por fim, que o calendário das discussões obedecerá ao ritmo imposto pelo movimento, não devendo se submeter a datas fechadas por opções de determinados setores que participam da construção, nem a calendários institucionais.

UM NOVO PARTIDO

 

UM NOVO PARTIDO





Laerte Braga





Quando o sociólogo Chico Oliveira disse num testemunho no I Fórum Social

Brasileiro, em BH, no início de novembro, que não vou discutir caráter,

estou além disso, buscando decifrar o enigma das esquerdas brasileiras

no futuro, estava enterrando o PT lulista, uma página virada e

mostrando a fantástica vitalidade intelectual e ética de quem tem caráter.

Foi outra figura notável da esquerda brasileira, Plínio de Arruda

Sampaio, o pai, quem, noutra frase, definiu o que estava por vir e está

em plena ebulição, desde o show de sábado e domingo, ao custo de 150 mil

reais, para expulsar Heloísa Helena e os deputados Babá, João Fontes e

Luciana Genro. O primeiro pato a levantar é o que leva mais chumbo.

O que está claro na ação política do governo e do grupo paulista que

domina o partido e o governo, é que foi feita a opção pelo modelo

reformista, com políticas sociais assistencialistas, sem a menor

preocupação de mudanças, ou compromissos com a história e o caráter do

Partido dos Trabalhadores.

Li hoje uma frase dita por Lula, em que afirma que se fosse para ser

presidente e fazer o que FHC faz (a frase é de 2000) preferia perder a

vida. Não perdeu a vida e o que disse foi mero jogo demagógico e

mentiroso de quem faz igualzinho a FHC e quer continuar a fazer.

A principal lição que fica da destrambelhada do PT, ou do que Leonardo

Boff chama de ordem e caos, numa análise do caso Heloísa Helena, é que a

idéia de um novo partido não pode prescindir do movimento social.

Eleições são meios e não fim e Lula, na medida do que faz, prova isso.

Partido e movimento social têm que andar juntos.

A busca de mudanças nas estruturas políticas, econômicas e sociais do

País não pode, por exemplo, ficar à mercê do risco do deputado Paulo

Delgado virar ministro de alguma coisa. Ou de Luís Fernando Furlan e

Roberto Rodrigues integrarem um Ministério de um governo eleito sob a

égide das mudanças.

O governo Lula é o exemplo mais deslavado de mergulho nos salões do

poder podre das elites e o líder sindical forjado na luta, pelo visto,

buscava apenas sombra e água fresca, de preferência correndo o mundo e

brincando de messias. Com um diretor a tiracolo, para edições precisas,

efeitos especiais indispensáveis, além de um monte de figuras

desprezíveis, algumas tangenciando os negócios da burguesia, se

transformando em parte desse processo corrupto e podre que, segundo o

próprio Lula, antes de ser presidente, presidia e continua a presidir o

Brasil desde o descobrimento.

O novo partido vai ser uma realidade indispensável. Mas terá que ser

conseqüência de formulações que envolvam todo o conjunto da luta popular

e terá que refletir isso. Ter consigo, por exemplo, a tarefa e o

desafio, de trazer de volta o movimento sindical para seus objetivos

básicos e históricos.

A CUT, neste momento, é só uma Força Sindical do B. Os sindicatos, em

sua esmagadora maioria, não são mais que corporações distante da

compreensão da luta de classes. Há júbilo na CUT pelo simples fato que,

no 1º de maio de 2004, vai poder sortear apartamentos e carros,

apresentar shows com artistas regiamente pagos, nos moldes do negócio

concorrente, disputando público e atenções e, lógico, votos, afinal o

ano vai ser de eleições. Vicentinho é candidato, outra vez, a prefeito.

Questões decisivas para o futuro da luta popular, que não se esgotam na

conjuntura nacional, perpassam a América Latina, perceber a

globalitarização em curso e entender todo o processo que desemboca em

luta de resistência para sobrevivência.

O governo Lula não tem esse compromisso. É só uma continuação dos

outros. O que muda é o estilo. Um, o anterior, preferia a lógica do

cinismo científico, outro a lógica do cinismo messiânico.

Lula vai agora cuidar da Globo. Tal e qual fez FHC uns três meses antes

de sair. 250 milhões de dólares a fundo perdido. É só um detalhe, um

exemplo de opção.

Os transgênicos são outra realidade que o governo não terá força para

reverter, pelo simples fato que o jogo é de me engana que eu gosto.

A expulsão dos que lutaram pelo PT fiel aos seus compromissos, ao seu

programa, à sua história é o fator de demarcação dos campos. A cara de

Lula é um terno Armani.

O primeiro pato a levantar foi o governo. Vai ser preciso agora engolir

a dor do partido ultrajado na intolerância de meia dúzia de capatazes e

não nos assustarmos com as pesquisas que aprovam Lula.

O jogo hoje é jogado com equipamentos de última geração, máquinas

eletrônicas para votar e mostrarem os resultados desejados pelo poder e

a única mudança visível no processo de transformação do ser humano em

gado, está no apelo publicitário da calça que pretendia ser sinônimo de

liberdade. Neste momento, ela se apresenta como sinônimo de ousadia.

A degringolada no PT é inevitável e cada dia mais e mais vão se

aperceber disso.
Comentarios

Sobre a Supremacia da Água Doce e a Palavra da Água em Água e os Sonhos, Gaston Bachelard

Sobre a Supremacia da Água Doce e a Palavra da Água em Água e os Sonhos, Gaston Bachelard


Gaston Bachelard (1884-1962), nascido em Bar-sur-Aube, Champagne, França. O próprio nome de sua cidade já significa que ela está situada sobre o rio Aube. Esta região do leste da França é cortada por muitos rios: Sena, Meuse, Aube, Marne, Aisne, Semois, Moselle e o Reno. Próximo do rio Aube há também o lago Madine, com mais de 1.100 hectares. Esse tema da água tem, portanto, uma ressonância autobiográfica que ele mesmo assumiu: “Nasci numa região de riachos e rios, num canto da Champagne povoado de várzeas, no Vallage, assim chamado por causa do grande número de seus vales. A mais bela das moradas estaria para mim na concavidade de um pequeno vale, às margens da água corrente, à sombra curta dos salgueiros e dos vimeiros. E, quando outubro chegasse, com suas brumas sobre o rio...” (BACHELARD, 1998, p.8)

Nos capítulos que analisamos, assim como em todo o texto, ele toma o simbolismo como um universo autônomo, e não o referindo o tempo à realidade como faz Freud. Embora utilize –de forma bastante pessoal, diga-se de passagem – o termo “materialismo”, Bachelard se afasta do realismo. Neste estudo ele faz, basicamente, observações psicológicas sobre a imaginação material, tomando, das narrativas mitológicas, apenas os exemplos que pudessem ser reavivados presentemente em devaneios naturais e vivos.

Tendo se tornado mais conhecido por sua contribuição à filosofia da ciência, Bachelard desenvolveu uma epistemologia própria, o “aproximacionalismo”, ou seja, a idéia de que a abordagem do objeto científico deve ser feita através do uso sucessivo de diversos métodos. Em torno do tema do materialismo, em seu pensamento se cruzam ciência e poesia, razão e devaneio. Ele também se utiliza de uma fenomenologia. Para ele, pelo que pude observar, a percepção é uma vivência. A consciência possui uma essência diferente da essência dos fenômenos, pois ela é doadora de sentido às coisas e estas são receptadoras de sentido. Os fenômenos seriam, além das coisas materiais, naturais e ideais, os resultados da vida e ação humanas. Os sonhos, por exemplo, seriam fenômenos: significações ou essências que aparecem à consciência e que são constituídos pela própria consciência.

Na página 5, o filósofo afirma: “Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só olhamos com paixão estética as paisagens que vimos antes em sonho.”

O tema do sonho, presente na passagem acima, é recorrente na obra de Bachelard: para ele, a razão não pode andar senão de mãos dadas com outras formas de conhecimento, tais como o sonho e a imaginação. Ele diz na página 24: “A nosso ver, a experiência poética deve ser posta sob a dependência da experiência onírica.” Já a razão, o sonho e a imaginação estariam no mesmo patamar.

Falando da água, Bachelard dá primazia para a água doce, e acaba por falar mal do mar. Para ele, a primeira experiência do mar seria da ordem da narração. A viagem distante, e as aventuras marinhas são antes de tudo aventuras e viagens contadas. A divisão entre conto e mito não seria tão bem feita, no tocante à mitologia do mar. O inconsciente marítimo é portanto um inconsciente falado, um inconsciente que se dispersa em narrativa de aventuras, um inconsciente que não dorme. Talvez imaginando que poderiam lhe colocar a objeção de que as grandes narrativas da mitologia grega, mitologia mais influentes da civilização ocidental, são em geral poemas do mar, Bachelard encontrou um autor chamado Charles Ploix que postula a origem celeste de Poseidon. E também esse mesmo autor completa, a respeito do fato de Poseidon ter sido chamado de deus do mar: “deve entender-se não o mar, mas o grande reservatório de água doce (potamos) situado nas extremidades do mundo”(PLOIX, apud Bachelard, 1998, p.162). A esta altura, Bachelard emite uma explicação que mais parece um devaneio: “foi uma perversão que salgou os mares”. Para ele, a água doce é feminina, a água violenta, colérica, é associada ao temperamento masculino.

Para falar da água colérica, Bachelard cita Swinburne e Edgar Poe. Cria até um complexo de Swinburne, inspirado na disposição aquática desse poeta inglês, criado na ilha de Wight, e tendo um rio como limite da propriedade da família. Swinburne se tornou um nadador intrépido, depois de ter superado o medo da água. O complexo de Swinburne, tal qual o denomina Bachelard, seria um desafio viril às águas. As águas flagelam; Swinburne afirma nunca ter tido medo do mar, por ter sido levado ainda criança ao mar, pelos braços do pai. A imagem predominante do complexo de Swinburne é a flagelação das ondas, relacionada por ele com um masoquismo.

Esse mesmo complexo se repetiria na obra de Edgar Poe: Bachelard antoa que Poe desejava reviver o instrutor de natação enérgico, o papel do Pai nadador, atirando o filho de sua bem-amada Helena e um outro rapaz nas águas. Para Bachelard, todas as formas de iniciação colocam problemas edipianos. Nos textos de Poe, o componente melancólico acompanha as intuições da água na poética do escritor.

Bachelard observa que o mar em fúria é um tema em vários escritores: Victor Hugo, Michelet, Balzac. Ele articula ao complexo de Swinburne as brincadeiras das crianças diante do mar: “Quando o Oceano deixava suas areias, Mariana gostava de perseguir a onda que fugia e de vê-la voltar sobre ela. Então era ela que fugia...Fugia, mas passo a passo, com um pé que só cede a contragosto e que gostaria de deixar-se alcançar.”

Bachelard também articula um complexo de Xerxes. Seria a exemplo do rei persa que mandou chicotearem as águas, depois que elas derrubaram duas pontes que ele havia mandado erguer. Um detalhe: talvez isso tenha ocorrido porque o rei persa se achasse um deus. Bachelard vê nesse complexo de Xerxes traços de sadismo, e mostra que no devaneio de certos escritores existem ligações com o complexos de Xerxes.

O último capítulo do livro, a Palavra da Água, se abre com uma bela epígrafe, em que Claudel, como um outro poema de Mallarmé citado anteriormente, encontra relações entre o espelho e a água: “Espelho menos que arrepio...ao mesmo tempo pausa e carícia, passagem de um arco líquido sobre um concerto de musgo.”

O texto destaca a palavra francesa “rivière”, que julga a mais francesa das palavras: “É uma palavra que se faz com a imagem visual da rive (margem) imóvel e que, no entanto, não cessa de fluir...” (BACHELARD, 1998, p.195)

Para Bachofen, “a” é a vogal da água, ela comanda aqua, wasser, apa e é a letra inicial do poema universal. Existiria também o canto do riacho, “maravilhosa logorréia da natureza-criança”. Ele colhe definições tais como a de Paul Fort: “o Verbo que se faz águas”. Para Bachelard, a liquidez é um princípio da linguagem: a linguagem deve estar inchada de águas. Para falar do momento em que se aprende a falar, Bachelard cita o dadaísta Tzara: “uma nuvem de rios impetuosos enche a boca árida”. Bachelard busca correspondências das imagens com o som e cita Lucrécio: “assim, todos os tons da natureza morta ou animada têm seu eco e sua consonância na natureza viva”. A imaginação faz o papel de sonoplasta. Ou melhor: ele busca correspondência das imagens com a palavra da água: “a beleza nasce do som murmurante”.

Finalizando, vale a pena notar que Bachelard, num ensaio sobre Monet chamado As Ninféias ou As Surpresas de uma Alvorada de Verão, escreveu: “Não se sonha junto à água sem formular uma dialética do reflexo e da profundeza.” A Água e os Sonhos é marcados por essa relação de oposição: o reflexo o levou a pensar em Narciso, a profundeza em Caronte, o barqueiro que levava para a ilha dos Mortos.



O Excêntrico e Exemplar Paul Ricoeur (1913-2005) -- 03/06/2007 - 19:45 (Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior)

 



Um dos mais importantes vultos da filosofia francesa, Paul Ricoeur, nascido em Valence em 1913, faleceu em Chatenay Malabry, perto de Paris, numa sexta-feira, 20 de maio de 2005. Esse curto artigo surgiu inspirado pelo curso e pelos artigos a respeito de Ricoeur, de autoria da professora Jeanne Marie Gagnebin no IEL-UNICAMP e por obra da pouca ou nula repercussão que sua morte obteve em nossas universidades e suplementos literários: diante desse silêncio, torna-se importante apresentar a trajetória desse pensador.


Nascido próximo de Paris, Ricoeur perdeu seus pais muito cedo, tendo vivenciado de forma concreta a experiência da orfandade. Interessou-se por Filosofia ainda no liceu, inspirado pelo carisma de um professor dessa disciplina chamado Dalbiet. Na juventude aproximou-se dos cristãos de esquerda franceses, escrevendo artigos para revistas dessa orientação religiosa e coloração política, iniciando uma carreira de filósofo. Durante a Segunda Guerra Mundial, Ricoeur ficou recluso na Alemanha, onde aproveitou para ler e traduzir autores alemães como Karl Jaspers. Ao retornar para a França, ficou absolutamente chocado por não ter ouvido falar em Auschwitz durante seu encarceramento.

Espantado com a radicalidade do mal que veio à tona no final da Segunda Guerra, escreveu seus primeiros livros tratando daquilo que coloca radicalmente em questão a onipotência da vontade humana: a finitude, a culpabilidade, o mal: figuras dolorosas do involuntário. Notemos também que o problema do mal foi abordado desde então pelo viés simbólico, ou seja, de seus símbolos primários e seus mitos. Seu primeiro livro, Filosofia da Vontade, desdobrado em outro chamado Finitude e Culpabilidade, colocou alguns temas-chave da obra de Ricoeur: a não-soberania do sujeito consciente e sua relação simbólica e cultural com esse outro que lhe escapa.

Ricoeur, nesse período, procurou destronar não só a filosofia clássica do sujeito autônomo (Descartes e Kant), mas também seus sucedâneos contemporâneos, o existencialismo e o personalismo, com sua ênfase nos conceitos de responsabilidade e decisão. Buscou apoio em três vertentes distintas, mas que se reforçavam mutuamente na denúncia do humanismo metafísico. Primeiro, um pensamento poetizante que se reclama justamente do segundo Heidegger, seguidor de Nietzsche; depois o estruturalismo tanto lingüístico como, sobretudo, antropológico (Lévi-Strauss); enfim, a renovação da psicanálise com a doutrina lacaniana. Os três movimentos têm em comum a convicção de que não há sujeito algum que seja mestre de sua fala. Mesmo que não neguem as variações pessoais e estilísticas, essas tendências teóricas tendem a transferir a dinâmica de liberdade e de invenção, tradicionalmente atribuída à pessoa do sujeito individual, para uma entidade sistêmica tão eficaz como impessoal.

Atento, porém, aos excessos do estruturalismo e da psicanálise, Ricoeur resolveu confrontar-se com Freud, Marx e Nietzsche, controvérsias expressas nos livros Da Interpretação, Ensaio sobre Freud, de 1965, e O Conflito das Interpretações, Ensaios de Hermenêutica, de 1969. Notemos como eram recorrentes no pensamento de Ricoeur os conceitos de sujeito e de interpretação. O livro sobre Freud despertou a ira dos lacanianos, que por muito tempo ora o acusavam de plágio, ora o desqualificaram implacavelmente, tachando-o de filósofo cristão de menor importância, que ousara desafiar o mestre Lacan. A perseguição dos lacanianos fez com que Ricoeur, que nunca gostou de polêmicas públicas, ficasse até os anos 80 sem falar em psicanálise; a essa tumultuada recepção de seus textos seguiu-se a atitude hostil que tiveram os estudantes rebeldes de 1968 contra ele, ao invadirem seu gabinete na Sorbonne e lhe atirarem uma lata de papéis sobre a cabeça. Tais experiências desagradáveis fizeram com que Ricoeur ficasse muitos anos fora de seu país natal, partindo para lecionar e produzir no exterior, passando longos períodos nas universidades de Louvain (Bélgica) e Yale (EUA).

Paul Ricoeur foi um filósofo que muitas vezes em sua trajetória tomou uma posição mediana. Isso o fez excêntrico na França, em especial em Paris. Ao mesmo tempo, sua trajetória deu exemplo de diálogo com os textos alheios e tomada de posturas independentes. Ponderando sobre a filosofia analítica e a metáfora em uma de suas obras dos anos 70, Metaphore Vive (A Metáfora Viva), Ricoeur conseguiu ao mesmo tempo atrair o ódio dos desconstrutivistas fanáticos e o desdém complacente dos analíticos xiitas. Podemos dizer que a vertente fenomenológica do pensamento de Ricoeur o defendeu dos encantos entrecruzados do estruturalismo, da desconstrução e também da filosofia analítica.

Enquanto sua obra voltou-se contra os pensamentos com ambições totalizantes (Marx e Althusser, por exemplo), como em seu livro Ideologia e Interpretação, em sua vida Ricoeur se opôs especialmente à guerra da Argélia e à guerra da Bósnia. Simpático à esquerda, de família de velha tradição protestante, cruzou a obra de Marx dialogando especialmente com o althusserianismo e protestando contra a utilização no marxismo no Leste Europeu e na URSS. Segundo Ricoeur, essa utilização transformava o pensamento de Marx, pensamento que se batia pela conscientização, também em mantenedor de uma falsa consciência, completando um estranho ciclo. Para Ricoeur, a idéia de uma compreensão do mundo passa necessariamente pela análise dos signos e das obras que encontramos no mundo e que precedem nossa existência individual.

Pensador preocupado com o tempo, a narrativa e a leitura, capaz de dedicar uma densa obra de três volumes a tais temas (Tempo e Narrativa), Ricoeur fazia suas, citando-as, as palavras de Marcel Proust no texto Em Busca do Tempo Perdido: “Mas, para voltar a mim, pensava mais modestamente em meu livro, e seria mesmo inexato dizer, pensando naqueles que o leriam, em meus leitores. Pois não seriam, segundo eu, meus leitores, mas os próprios leitores de si mesmos, meu livro não passando de uma espécie de lente de aumento como aquelas que oferecia a um freguês o dono da ótica de Combray: meu livro graças ao qual eu lhes forneceria o meio de lerem a si mesmos.”

















Lúcio Emílio do E. S. Júnior, Mestre em Estudos Literários (UFMG) e Doutorando em Teoria e História Literária (UNICAMP)

Carmen, uma Novela Multimídia

(trabalho para a disciplina de Márcia Abreu, segundo semestre de 2006, UNICAMP, aluno Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior)





Nosso trabalho foi o de pesquisar as várias adaptações dessa novela de Prosper Mérimée. Podemos dizer que uma das razões do sucesso foi a simplicidade e a força do enredo, no qual sobressaiu-se a personagem central, a cigana Carmen. A história de uma mulher cercada de mistério, praticante de magia, sedutora, nos pareceu também ter uma grande capacidade de seduzir. E essa capacidade manteve-se intocada quando da transposição para outros sistemas semióticos.

Mérimée iniciou o texto com um curioso artifício retórico: o narrador afirmou ter ido para a Espanha apenas para estudar uma famosa batalha do tempo dos romanos. Ele expõe sua teoria a respeito da batalha com veemência, para em seguida narrar, como causo, divertissement, a história de Carmen. O tema da batalha dos romanos é um falso enredo. O texto dissimula, faz-se de maroto, imitando a própria personagem. Não foi só olhar dessa Fênix cigana que teve algo de traiçoeiro.

O estilo do texto de Mérimée nada teve de rebuscado. A narrativa vai diretamente ao ponto, não faz complexos exercícios de estilo, concentrando-se em narrar a ação. Afinal, a maior parte do texto foi uma narrativa dentro de uma narrativa. A narrativa de Don José foi a narrativa de condenado à morte. A correlação entre as narrativas e a morte já foi notada desde as Mil e Uma Noites, da princesa Sherezeade e a Odisséia de Homero.

Carmen talvez tenha feito sucesso por ter como protagonista uma mulher cheia de vontade de potência. Quem sabe daí o fascínio de Nietzsche, tantalizado por sua Salomé e necessitado de forças desmesuradas tropicais para opor aos homens temperados e nórdicos, esses Parsifals cantados por Wagner, esse Wagner que, da mesma idade do pai de Nietzsche, parece-nos ter se transformado numa imago paterna negada. Nietzsche escreveu contra a liberação feminina, mas precisamos prestar muita atenção àquilo que Nietzsche combateu. Com freqüência, Nietzsche encontrou seus inimigos dentro de si mesmo e naquilo que ele admirava. Nietzsche ironizou e desdenhou da luta pela liberação feminina, desprezando-a, opondo-se a ela, mas sabia que se opunha a uma tendência forte; para Nietzsche, Darwin não está com a razão e nem sempre são os fortes que vencem. O cristianismo, religião combatida por ele como platonismo para o povo, propugnadora de uma moral de rebanho, ou seja, de fracos, de ovelhas, de vítimas, resiste bravamente dois mil anos de história.

Se, do final do século XIX em diante, ocorreu a liberação das mulheres e a sua subida a um protagonismo antes inalcançável socialmente, isso com certeza foi uma das forças ocultas que impulsionou Carmen, essa maga-cigana-hispana. Uma protagonista mulher passou a ser algo essencial, algo chamativo, senão ilustrativo de uma época em que as mulheres passaram de dominadas a dominadoras. Ou melhor, passaram a ter a possibilidade de exercer formas de dominação, ainda que imaginárias e ilusórias.

Carmen, mulher finalmente dona de si mesma, liberada, esfinge com segredo, indecifrável devoradora de homens. Seus olhos eram olhos de gato que quando observavam o forasteiro desavisado adquiriram aquele aspecto de olhos de gato olhando um pardal, ou seja, olhos de um universo oposto, olhos hostis, interessados em aniquilar seu opositor, ameaçadores. A cigana mágica olhou o homem como uma presa, com um olhar da mesma natureza daquele com que o senhor olha o escravo, o burguês olha o proletário, o mais forte olha o mais fraco.

O simples olhar do gato para o pardal bastou para assustá-lo e fazê-lo movimentar-se. Tivemos a oportunidade de, num sítio, verificar o olhar de um gato diante de um pardal, experiência sugerida por Mérimée para que pudéssemos entender o olhar de Carmen diante do incauto forasteiro, claramente atraído por seus encantos carnais e sobrenaturais. O gato, que simplesmente passava próximo a uma fonte de água onde bebericavam os pardais, ao vê-los prontamente movimentou os olhos e o pescoço num movimento brusco. Há um brusco interesse que acompanha cada movimento atentamente. O olhar irradia tal força que os pardais, ao se sentirem fixados por ele, prontamente afastam-se instintivamente. Trata-se de instinto provocando instinto; o olhar do gato é a linguagem do predador e a esquiva dos pardais é o pressentimento da vítima. Os pardais temem entrar no raio de ação do predador. O narrador escapou por pouco de entrar no raio de ação de Carmen, de tornar-se mais de seus homens seduzidos e vitimados. Por isso seu relato foi tão potente, trata-se do relato de um sobrevivente, que se apropria, por afinidade, do relato de uma vítima marcada de morte, Don José. O narrador, que andou pelo fio da lâmina, sente na carne a lâmina que irá matar Don José.

Podemos também dizer que Carmen foi uma mulher que inverteu a tendência predatória do homem em relação à mulher. O predador é um ser que destrói outro ser vivo violentamente, matando e consumindo esse ser como forma de obter energia vital. A atitude aproxima-se da atitude de pilhar, roubar, rapinar, extorquir, consumir. As relações de dominação do homem em relação à mulher passam por atitudes desse tipo, como parte de uma relação de dominação estabelecida na pré-história, com base na força bruta. Invertendo essa relação, mostrou o narrador, desencadeou forças que não pode controlar. A metáfora do pássaro retornou na ópera, de forma transformada. Carmen foi a portadora de um amor que foi como um pássaro rebelde que ninguém poderia aprisionar. Carmen, de gata devoradora de pássaros passou a ser a emissora de um ser semelhante ao pássaro, o amor. Um ser análogo.

Há também a comparação do olhar da cigana com o olhar do lobo. O lobo é outra metáfora de um predador que essa mulher que inverteu os papéis encarnou. Ao realizar essa inversão, caracteristicamente, foi vítima da repressão, primeiro social, acusada na fábrica de perturbar a moral burguesa, digamos assim, depois punida com a morte pela ousadia de trocar um homem por outro, ou seja, consumir um e passar adiante, decidindo sugar a energia vital de outro, ou seja, comportar-se como os homens com freqüência se comportam. A metáfora do pássaro retornou no libreto de Bizet, mas com Carmen no papel de pássaro que quer ser livre, ou seja, vítima em potencial da escravidão e do encarceramento. Carmen foi lido como um elogio ao feminismo, mas também encerrou uma dura repressão, com o assassinato final da cigana, uma dura lição contra a mulher que inverteu o papel a ela reservado na sociedade.. Fênix, espanhola, toureira, representou e firmou uma certa imagem da mulher latina, mediterrânea, cheia de vitalidade e capaz de romper tabus e enfrentar o mundo masculino naquilo que ele teve de mais marcial, o soldado. Afinal, nas guerras o homem tem papel preponderante. Seus poderes mágicos não foram suficientes para derrotar as razões que a razão desconhece.











2. A ÓPERA





A atualidade de Carmen é o fator preponderante para este êxito estrondoso. Nos dez primeiros anos, Carmen foi representada mil vezes, um recorde invejável. Bizet adaptou a novela de Prosper Mérimée. O ballet adaptado pelo compositor soviético Ridion Chedrin, que fez o trabalho para sua mulher, a primeira bailarina do Bolshoi de Moscou, Maia Plistskaya, uma das mais célebres bailarinas do mundo.O bailado seguiu a ópera famosíssima, de mesmo nome, de autoria de Georges Bizet, que teve sua estréia no Ópera-Comique, em Paris, em 3 de março de 1875. A ópera é um dos mais estrondosos sucessos musicais de todos os tempos, embora tivesse fracassado na estréia. A história da cigana e seu destino terrível já foi apresentada de todas as maneiras possíveis, e em todas as artes.

O bailado estreou em Moscou em 1970. Chedrin utilizou as magníficas melodias, com uma orquestração excepcional, utilizando principalmente cordas e muita percussão.

O prelúdio da ópera começa com o vigoroso ritmo refletindo a festiva atmosfera da tourada do último ato. Então, soa o vibrante refrão da famosíssima canção do Toreador.

Esta é seguida pelo sombrio motivo do destino. Justamente aí há um crescimento orquestral que é seguido por um coro explosivo.

Os personagens do Ballet são os mesmo da ópera, destacando-se Carmen, Toureador e Don José. O bailado, que dura 45 minutos, em contraposição às duas horas e meia da ópera, apresenta as seguintes partes:

• Introdução;

• Dança;

• Primeiro Intermezzo;

• Rendição da Guarda;

• Entrada de Carmen e Habanera;

• Cena;

• Segundo Intermezzo;

• Bolero;

• Toureador;

• Toureador e Carmen;

• Adágio;

• Adivinhação do Destino;

• Final.



Carmen é uma ópera em quatro atos de Georges Bizet com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Ambientada em Sevilha, na primeira metade do século XIX, narra a história do oficial de exército Don José, que, prometido à jovem Micaëla, deixa-se seduzir pelos encantos da cigana Carmen, causando para si inúmeros problemas como a prisão e o rebaixamento no exército por facilitar-lhe uma fuga quando ela fora declarada culpada por agredir uma colega na fábrica de cigarros onde ela trabalha. Abandonando a vida honrada para se entregar à vida errante junto aos ciganos, Don José vê Carmen trocá-lo pelo toureiro Escamillo e, tomado por uma crise de ciúmes, mata-a.

É o mais popular triângulo amoroso numa ópera. É uma das mais conhecidas óperas de todos os tempos. E algumas de suas árias ficaram tão populares que foram até plagiadas em publicidade. Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), no entanto, é a história de uma mulher que gostava de homens. E por eles era capaz de tudo: de abandoná-los e de levá-los a matar. E até à morte.

A ópera de Bizet foi baseada em novela do francês Prosper Mérimée, com acréscimo de personagens, como Micaela, para ser o contraponto da cigana Carmen. O compositor teve medo que a moral da época rejeitasse a ópera por causa da personalidade de Carmen, uma das mais fortes e dominadoras.

Somente no ano de 2002, a Ópera Illustrata de Curitiba fez 10 apresentações didáticas, levando ao palco as óperas mais famosas, como "La Traviata", "Porgy and Bess", "O Barbeiro de Sevilha", "La Bohéme" e "Madame Butterfly", sempre com grande aceitação do público.

Ópera cheia de vitalidade, "Carmen" utiliza elementos instrumentais, harmônicos e rítmicos da música espanhola. Na época de sua estréia, a obra foi considerada obscena, e a música, muito criticada.

Em Curitiba, por exemplo, a direção artística do espetáculo esteve a cargo de Neyde Thomas, orientadora de muitos dos cantores que participaram das apresentações. Desta vez, os papéis principais são desempenhados por Fátima Castilho (Carmen), Anderson Marks (Don José) e Silvia Suss (Micaëla).

A direção cênica é de Lucianna Raitani, e o acompanhamento ao piano, de Joaquim do Espírito Santo. Como aconteceu em todas as edições, um especialista é convidado para comentar a obra antes das interpretações ao vivo, intercaladas com imagens em DVD de montagens internacionais. Desta vez, os comentários serão do maestro Flávio Stein.

Como uma iniciativa bem sucedida, a "Ópera Illustrata" deve ser retomada em 2003 com novas montagens, aproveitando o mesmo formato de apresentação.





2.1. PASSAGENS MUSICAIS FAMOSAS





Carmen é, provavelmente, a ópera não-italiana com maior número de árias famosas, dentre as quais podemos destacar:

• Abertura

• L amour est un oiseau rebelle (Habanera do primeiro ato)

• Les tringles des sistres tintaient (primeira ária do segundo ato)

• Votre Toast (Canção do Toureador, segundo ato)

• La fleur que m avais jetée (ária de Don José, segundo ato)

• Intermezzo Mêlons, coupons! (ária das cartas, terceiro ato)

• Je dis que rien m émpouvante (ária de Micaëla, terceiro ato)

• Aragonesa (prelúdio do quarto ato)

• Les voici la quadrille (coro da tourada, quarto ato)



Bizet parecia adivinhar que a empatia palco-platéia seria criada já no início do 1º ato, com Carmen cantando a mais famosa ária: “L’amour est um oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser” (O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar). Muito mais que uma declaração: o resumo da obra. E esta independência diante da sociedade e do amor, ela volta a mostrar no final do mesmo ato, ao advertir: “Si tu ne m’aimes pas, je t’aime, se je t’aime, prends garde à toi” (Se não me amares, eu te amarei, e se eu te amar, tenha cuidado).

A partir daí, com o seu envolvimento com Don José, um cabo que cuida da ordem em Sevilha, fica claro que a relação será de morte quando Carmen paquera soldados e com o toureiro Escamillo. “Carmen, il es temps encore, oui, il est temps encore...Ô ma Carmen. Laisse-moi te sauver, toi que j’adore, et me sauver avec toi” [Carmen, estamos ainda em tempo, sim, em tempo ainda...Oh minha Carmen, deixa-me salvá-la, a ti, a quem adoro, e salvar-me contigo, clama, apaixonado, don José. A resposta dela chega no final da ópera: “Eh bien! frappe-moi donc ou laisse-moi passer” (Pois bem, então mata-me ou deixa-me passar)].





2.2. UMA OUTRA CARMEN





Carmen (1983), filme do italiano Francesco Rossi com o tenor espanhol Plácido Domingo e o soprano norte-americano Julia Migenes-Johnson. Orquestra Nacional da França, sob direção do maestro Lorin Maazel. No cinema, Carmen foi adaptado várias vezes. Pouco após o sucesso do filme Gilda, com Rita Hayworth, o mesmo diretor e a mesma atriz principal uniram-se para dar vida à personagem que mudou a vida do soldado Don José ao seduzi-lo.





2.3. CARMEN: UMA VERSÃO BRASILEIRA DE AUGUSTO BOAL





O espetáculo "Carmen", dirigido por Augusto Boal, teve uma receita muito simples: utilizou a mesma música da obra de Bizet, apenas interpretada por instrumentos e ritmos diferentes, e cantada sem a impostação lírica. A ópera contou a história da cigana Carmen. Vivendo entre a pior laia de contrabandistas, bandidos e rufiões, acabou sendo morta por José, um soldado apaixonado que não agüentou vê-la em outros braços. A montagem de Boal utilizou ritmos bem brasileiros como o frevo, samba, maracatu, baião e modinhas imperiais para contar o enredo, porém manteve-se fiel à harmonia original da ópera.

O resultado foi um espetáculo muito mais próximo da realidade brasileira, as possibilidades de identificação foram evidentes, já que o tema foi universal, a fogosidade de Carmen teve tudo a ver com a mulher brasileira e a música esteve ao alcance de qualquer compreensão. Segundo Boal, o objetivo não foi popularizar, mas nacionalizar a ópera, buscando uma autenticidade pessoal.

Depois de "Carmen", existem outras adaptações a caminho. Seu grupo já estava trabalhando em "La Traviata", e desejava ainda fazer a "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner, "O Barbeiro de Sevilha" e sete versões de diferentes Orfeus.







3. CARMEN NO CINEMA





Em 1983, Carlos Saura produziu uma adaptação de Carmen. Percebemos a personagem Carmen manter uma identidade, mantendo especificidades nas três produções. No livro existiu uma Carmen ladra, assassina, mas capaz de cuidar do amado com dedicação sincera e atitudes ternas. Sua liberdade, os envolvimentos amorosos foram insuportáveis e seu amante a mata. Na ópera, Carmen foi operária de uma fábrica de charutos e seduziu Dom José. Apareceu Micaëla, mocinha da terra natal a contrastar com Carmen, a cigana. Micaëla simbolizou o contato com a mãe amada. Carmen, paixão, desvio e a mulher amada. Carmen encontrou novo amante, um toureiro. Ela se negou a ficar com Dom José que a matou ao som de aplausos às verônicas em segundo plano. A heroína caiu suave sobre os braços algozes, tal pássaro inocente. O filme retratou a montagem do balé Carmen, ao mesmo tempo em que uma trama concomitante a esta se desenvolveu. Procurou-se uma bailarina para interpretar Carmen. Não importava a técnica aperfeiçoada ou a experiência das candidatas. O que procurou, o coreógrafo encontrou numa bailarina inexperiente. Apaixonaram-se e as histórias se entrelaçaram, livro, ópera e roteiro. Perceberam-se três "Carmens" distintas. A da ópera foi uma heroína, possui força e nobreza por seguir seus desejos. A Carmen do livro roubou, incitou crimes e quando foi assassinada não teve a morte triunfal que apareceu na ópera. No filme, Carmen foi uma mulher comum. O coreógrafo lhe vai dando os contornos da Carmen do livro e da ópera e aparecem as citações a estas duas outras obras. Mesmo com tantas diferenças, a identidade permaneceu. Na novela de Mérimée, somos surpreendidos por momentos em que uma imagem se destaca, presentifica-se em nós. Surpreendidos por tal imagem, somos remetidos a outros universos, a outras imagens. Não se trata de uma imagem material e sim de um estado de alma, de um movimento, de uma ação. Estado que nos toma, movimento que se desprende do livro. O movimento é o de rapidez, o de revezamento entre amor e paixão, entre belo e feio, lealdade e traição, liberdade e aprisionamento, vida e morte. Tudo isso estava presente em Mérimée, ressurgiu em Bizet de forma transformada e reapareceu em Saura.

Como uma Fênix, mais do que simples fonte de inspiração para Bizet e libretistas, algo pareceu surgir na novela de Mérimée e se instalar na ópera de forma independente. Tal pássaro, de rapidez absoluta, não nos permitiu a definição da trajetória e que nos entonteceu com presença eterna. Citemos G. Bachelard: "A Fênix dos poetas explode em palavras inflamadas, inflamantes. Está no centro de um campo ilimitado de metáforas. Uma tal imagem não pode deixar a imaginação tranqüila." (BACHELARD, 1981, p. 23). Esta apresentou-se quando o narrador descreveu Carmen com recortes poéticos na narrativa. A poesia estava no "nó de duas palavras valorizadas por sua união" (BACHELARD, 1981, p. 45). Os recortes não falavam de substâncias, possibilitaram-nos experimentar o dinamismo que produziam por metáforas repetidas, conjugadas, produtoras de impacto. "Para não vos fatigar com uma descrição prolixa, acrescentarei apenas que a cada defeito ela reunia uma qualidade que se destacava mais fortemente ainda pelo contraste" (MÉRIMÉE, 1999, p. 9). A cigana foi representada pelo conjunto entre o bom e o mau, o bem e o mal, o feio e o belo. Tal Medusa, cuja beleza do rosto contrastava com o terror de seus cabelos de serpentes e o reflexo no escudo de Perseu o protegeu talvez por, entre outros significados, estar o de ser reflexo turvo demais, impedindo o contraste definido. Eis o ingrediente para repetir Carmen de forma singular, a sedução dos contrastes. Fala-se de duas faces da moeda, de equivalências. O que seduziu em Carmen e petrificou em Medusa foram os opostos lado a lado. Na ordinária de Mérimée, sobressaíram os roubos, a ternura. Nas árias de Bizet, as modulações indo sempre do grave ao agudo bruscamente, permitindo apenas a cantoras experientes a dádiva do convite a esta interpretação. A Habanera trouxe na letra a conjugação "l’oiseau rebel". Os outros personagens giravam como satélites, pois a protagonista impôs a todos um desafio: o de viver segundo a lei do desejo, o confronto com os opostos.

Bachelard colocou que um pintor podia pintar uma Fênix incendiada e dar à sua obra o título de O Amor. Da mesma forma, Carmen, ao cantar a Habanera, suscitou muitas imagens, dentre elas a da liberdade. Bachelard prosseguiu dizendo que a função fabuladora adquiriu toda a sua extensão pela palavra. A imagem visual foi apenas um instantâneo. A função fabulatória pertencia ao reino do poético. Ao analisar a imagem da Fênix, destacou os atributos que escapavam à condição natural e se instalavam em outro terreno, o reino do poético. A imagem Carmen que possibilitou muitas metáforas é o que a ligava a imagem da Fênix. "Imagem tornada Verbo". A imagem Fênix suscitou uma série de metáforas que se contradizem e ao mesmo tempo se alimentavam mutuamente: a vida, a morte, o masculino, o feminino. Carmen promove uma dança de contradições, um revezamento de opostos. Tal imagem não se descreveu, só podemos nos referir a ela através das metáforas que foi capaz de suscitar. Como Bachelard disse a respeito da Fênix: "A Fênix é então um instante, um instante poético. Não se descreve o que surge. O gênio está em provocá-lo" (BACHELARD, 1983, p. 45). Aproximando Fênix de Carmen, esta citação resumiu o que Mérimée, Bizet e Carlos Saura fizeram ao produzirem suas obras. O que pareceu surgir na novela de Mérimée e instalar-se na ópera, renascendo de outra forma no filme de Carlos Saura e que ressurgiu em nossa alma, a cada vez que entramos em contato com qualquer uma das três expressões, foi Carmen, a mesma Fênix perpetuando-se em imagens sempre renovadas.

Existiu também uma versão de Carmen dirigida pelo diretor espanhol Vicente Aranda e protagonizada pela atriz Paz Vega, Carmen (2003). A versão moderna do clássico começou seguindo a original e apresentou Mérimée como um viajante-narrador, em uma de suas incursões pela Espanha. Durante uma tarde, quando buscou um lugar para repousar, ele teve seu primeiro contato com o atormentado Don José (Leonardo Sbaraglia). Sem conhecer sua história, ele dividiu sua refeição e charutos com o homem que teve sua vida destruída ao se apaixonar por Carmen. A única informação que recebeu de seu guia espanhol é que se trata de um assassino que foi banido da cidade.

Ao visitar uma igreja, Mérimée acabou por encontrar a cigana, uma belíssima jovem em sensuais trajes vermelhos e pretos, que se diz filha do diabo. Ela o convenceu a ver sua sorte nas cartas, mas as previsões são interrompidas com a chegada de seu amante, que expulsou o escritor. José reconheceu o francês, mas manda-o embora. Eles voltaram a se encontrar alguns dias depois quando Mérimée descobriu que José foi preso. Em seu cárcere e à beira de sofrer a pena de morte, ele contou para o atento ouvinte sua história.

Apesar do conhecido desfecho trágico, o longa-metragem marca pela atenção dada ao relacionamento amoroso e à paixão inflamada do casal. Com muitos tons vermelhos e amarelos e cenas tórridas de sexo, foi trazido para a tela o lendário calor espanhol. Tudo isso com a ajuda da beleza natural da atriz Paz Vega, que aparece em diversos nus, inclusive frontais.

Para viver o casal protagonista de seu vigésimo quarto filme, Vicente Aranda, também diretor de Os Amantes (1991) e Paixão Turca (1994), escolheu dois destacados jovens (e belos) atores, o argentino Leonardo Sbaraglia, de 34 anos, e a espanhola Paz Vega, 28.

Paz Vega começou sua carreira em 1999, com os filmes Zapping, Sobreviviré e Nadie Conoce a Nadie. Dois anos depois recebeu o Goya de Atriz Revelação, por sua atuação no sensual Lucia e o Sexo, de Julio Medem. No Brasil, tornou-se conhecida por sua participação em Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Seu último filme exibido no país foi o musical O Outro Lado da Cama, de Emilio Martínez Lázaro.

Além das dezenas amantes que povoam a ficção de Mérimée, na vida real Carmen teve adoradores de peso. Não morreria de ciúmes o apaixonado José ao saber que os diretores Cecil B. Mille, Jean-Luc Godard, Carlos Saura, Francesco Rosi, Charles Vidor, dentre outros lhe dedicaram filmes? Por sua carga dramática e elementos como amor, paixão, sexo, ciúmes e assassinato, a história da indomável cigana já foi produzida em países como a Argentina, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, México, Suécia, Eslovênia e etc. Isso tudo sem contar as infinitas montagens da ópera de Bizet, que estreou pela primeira vez em março de 1875, feitas anualmente em várias partes do planeta.

4. ARTES PLÁSTICAS





Nas artes plásticas, Carmen foi desenhada por ninguém menos que o genial Pablo Picasso, que em 1949 lançou uma edição de apenas 320 exemplares de ilustrações sobre a história da cigana, junto com Gustave Doré. No Brasil, o polêmico diretor teatral Gerald Thomas criou em 1986 o espetáculo "Carmen com Filtro", com Bete Coelho no papel principal, dando também sua versão para o mito (Dominique Valansi).

Carmen cigana envolvente, quente como o sangue espanhol, criada pelo escritor Prosper Mérimée em 1845 e transformada em ópera 30 anos depois por Georges Bizet, Carmen continua modelo de mulher fatal em plenos anos 80 após ter encantado cineastas célebres como Ernest Lubitsch, Charles Vidor e Otto Preminger. "O amor é filho da boemia e jamais admitiu leis" - proclama o livreto da ópera que atraiu um dia até o filósofo Nietzsche. Na área cinematográfica, Francesco Rosi, Jean-Luc Godard, Peter Brook e Carlos Saura são os mais recentes apaixonados, criando diferentes versões da mesma personagem. Do enfoque operístico de Rosi, passando pelo coreográfico de Saura, à versão desconcertante e fragmentada de Jean-Luc Godard, com a linda holandesa Maruschka Detmers, há Carmens para todos os gostos, reforçando no cinema o mito da operária provocante, que tira do sério um soldado e depois troca-o por um toureiro.

O espanhol Carlos Saura realizou o seu Carmen apoiado principalmente na coreografia de Antônio Gades (que fez também a coreografia do filme-ópera de Francesco Rosi) e na guitarra flamenga de Paco de Lucia. Este Carmen é simplesmente a despojada filmagem de um ensaio de balé sobre a história de Prosper Mérimée, tendo como trama os diálogos entre os bailarinos que intercalam as danças, sempre exuberantes e passionais. Essa proposta, despretensiosa e documental, contrasta bastante com o aspecto altamente dramático de outras versões, com estrelas do porte de Theda Bara, Pola Negri e Rita Hayworth. Sem se preocupar em reviver a tragédia de Carmen, o filme de Saura é um simples e tradicional espetáculo de dança hispânica, feito sob medida para agradar exclusivamente os amantes da dança e da Espanha.





5. CONCLUSÃO





Podemos supor que o texto Carmen tenha tocado num ponto arquetípico do imaginário, daí suas freqüentes adaptações e a atração exercida. Um texto bastante claro e sucinto foi o ponto de partida desse personagem, que desde então passou a povoar o imaginário da humanidade, ligado a esse forte nome.





6. BIBLIOGRAFIA





BACHELARD, Gaston. Psicanálise do Fogo. São Paulo: Martins Fontes, 2005.





MÉRIMÉE, Prosper. Correspondance générale. Éd. M.Parturier avec la coll. de P.Josserand et J.Mallion, t. I-VI: Paris, Le Divan, 1941-1947; t. VII-XVII: Toulouse, Privat, 1953-1964.





MÉRIMÉE, Prosper. Études sur les arts du Moyen Age. Éd. Pierre Josserand, Paris, Flammarion, 1967.





MÉRIMÉE, Prosper. La Correspondance Mérimée - Viollet-le-Duc. Éd. Françoise Bercé, Paris, éditions du CTHS, 2002, coll. Format, 42.





MÉRIMÉE, Prosper. La Guzla (1827). Éd. Antonia Fonyi, Paris, Kimé,1994, coll. Rencontres.



MÉRIMÉE, Prosper. La Naissance des monuments historiques: la correspondance de Prosper Mérimée avec Ludovic Vitet, 1840-1848, introduction et notes par Maurice Parturier, avant-propos de Françoise Bercé. Éditions du CTHS, 1998, 335 p. coll. Format, 30.





MÉRIMÉE, Prosper. Notes de voyage (1835-1840). Présentation de P.-M. Auzas, Paris, Hachette, 1971 (édition complète du Centenaire).





MÉRIMÉE, Prosper. Théâtre de Clara Gazul. Romans et nouvelles. Éd. Jean Mallion. P. Salomon, Paris, Gallimard,1979, coll. de la Pléiade, 21.







6.1. OBRAS OU REVISTAS CONSAGRADAS A PROSPER MÉRIMÉE





BERCÉ, Françoise. Des monuments historiques au patrimoine du XVIIIe siècle à nos jours ou "Les égarements du cœur et de l esprit". Paris, Flammarion, 2000, 225 p.





BILLY, André. Mérimée. Paris, Flammarion, 1959.





CHABOT, Jacques. L Autre Moi. Fantasme et fantastique dans les nouvelles de Mérimée. Aix-en-Provence, Édisud, 1983.





CHELEBOURG, Christian. Prosper Mérimée. Le sang et la chair.Une poétique du sujet. Paris, Minard, "Archives des Lettres modernes", n° 280, 2004.

DARCOS, Xavier. Mérimée. Paris, Flammarion,1998, coll. Grandes biographies.





DUBÉ, Pierre Hubert. Bibliographie de la critique sur Prosper Mérimée, 1825-1993. Genève, Droz, 1997, coll. Histoire des idées et critique littéraire, 358.





F. P.BOWMAN. Prosper Mérimée. Heroism, Pessimism and Irony. Berkeley, Los Angeles, University of California Press, 1962.





FERMIGIER, André. Mérimée et l Inspection des monuments historiques dans Les lieux de mémoire. Dir. Pierre Nora, II, La Nation pp.593-611.





FONYI, Antonia (dir.). Prosper Mérimée: écrivain, archéologue, historien. Genève, Droz, 1999, coll. Histoire des idées et critique littéraire, 374.





GIRAULD-LABALTE, Claire. Les Angevins et leurs monuments, 1800-1840: l invention du patrimoine. Angers, Société d études angevines, 1996, 361 p.





LAGARDE, Pierre de. La Mémoire des pierres. Paris, Albin Michel, 1979, 332 p.





LÉON, Paul. La Vie des monuments français: destruction, restauration. Paris, Picard, 1951, 584 p.





LÉON, Paul. Mérimée. Paris, Éditions du patrimoine, Connaissance des arts, 2003, 68 p.

LÉON, Paul. Mérimée et son temps. Paris, PUF, 1962, 488 p.





MONDENARD, Anne de. La Mission héliographique: cinq photographes parcourent la France en 1851. Paris : Monum, éd. du patrimoine, 2002, 319 p.





RÉAU, Louis. Histoire du vandalisme: les monuments détruits de l art français. Tome II, XIXe et XXe siècles. Paris, Hachette, 1959, 342 p. coll. Bibliothèque des Guides bleus.





REVUE EUROPE, numéro spécial consacré à Prosper Mérimée, 1975.





REQUENA, Clarisse. Unité et dualité dans l œuvre de Prosper Mérimée. Mythe et récit. Paris, Champion, 2000.



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Odisseu, Odisséias: Um Estudo das Adaptações para Cinema, TV e Música da Epopéia Homérica

 Odisseu, Odisséias: Um Estudo das Adaptações para Cinema, TV e Música da Epopéia Homérica


Lúcio Emílio do E. S. Júnior





1. Introdução





Pretendo, nessa comunicação, abordar as adaptações da Odisséia de Homero para o cinema e a televisão, discutindo também uma letra de música inspirada numa passagem comentada por Adorno. Sabemos, de antemão, que Adorno não tem a menor expectativa nesse tipo de adaptação, que ele chama de “semicultura”:



A semicultura é aquele verniz de saber que é fornecido pela indústria do lazer, quando ela se propõe a ser “cultural”. Então, apresentam-se, por exemplo, adaptações de clássicos da literatura universal para o rádio, para a televisão, para o cinema, e até mesmo para história em quadrinhos, conseguindo a proeza de eliminar da obra o que ela tem de essencial (ADORNO, apud: DUARTE, 1997, p. 23).



Assim sendo, estou consciente da opinião de Adorno a respeito desse tipo de obra sobre a qual me debruço. Creio que A Dialética do Esclarecimento apresentou uma inovadora interpretação da Odisséia, um marco para as análises posteriores de tal texto. No entanto, penso ser urgente analisar esse tipo de produção, num esforço de manter atualizada a teoria crítica. Ou seja, é necessário que se investigue mais a fundo os artefatos da “semicultura”, procurando desvendar o tal momento em que a essência da obra original é tocada.





2. Duas Odisséias





A primeira versão cinematográfica da Odisséia (Itália, 1955, direção: Mário Camerini. Atores: Kirk Douglas, Anthony Quinn, Silvana Mangano) iniciou-se com discussões entre Penélope e os pretendentes. Telêmaco não chegou a partir em busca do pai; ele apenas questionou a mãe para saber se o pai ainda vivia ou não. Nos jardins do palácio, uma cena referiu-se ao próprio Homero: um poeta cego, tocando um instrumento de corda que lembrava uma harpa, contou a história da tomada de Tróia. A narrativa passou, então, para o momento em que Ulisses chegou à Faécia, encontrou a princesa Nausícaa e foi levado ao palácio do rei Antinoô: a partir daí, em flashback, narrou-se o encontro de Ulisses com o cíclope Polifemo e com a feiticeira Circe, para depois retomar o fio da trama no momento em que Alcinoô aceitou ceder um navio para levá-lo à Ítaca. O filme se encerra com a matança dos pretendentes e o reencontro entre Ulisses e Penélope.

Já na adaptação mais recente da Odisséia (EUA, 1997, direção de Andrei Konchalovsky. Atores: Armand Assante, Greta Scacchi, Geraldine Chaplin) as primeiras cenas são as do nascimento de Telêmaco, que serão retomadas posteriormente. A esposa de Ulisses se ergueu logo após o parto, que nem sequer foi assistido por uma parteira; esses detalhes tenderam a afastar a narrativa do realismo e sinalizar para o terreno da fábula e da fantasia a qual ela pertence. A seguir, a câmera girou em torno de Odisseu com seu filho, transmitindo a embriaguez do rei em receber seu herdeiro. Depois houve um grande plano geral com a armada grega no mar, rumando para Tróia. Numa narrativa mais linear do que a homérica e a versão cinematográfica anterior, nesta versão norte-americana não há flashbacks. Vemos en passant cenas da Ilíada: o momento em que Aquiles matou Heitor e o ardil do cavalo de Tróia, que quase foi impedido pelo adivinho Laocoonte.

O cavalo de Tróia foi um momento em que Ulisses usou a inteligência e venceu o adivinho e o mito (Laocoonte, no entanto, foi morto por uma serpente marinha mandada por Poseidon). Os dois filhos de Laocoonte escaparam. Laocoonte foi um dos “vilões” da história, e, como os pretendentes e Tirésias, ele riu estrepitosamente, o que Ulisses nunca fez. As cenas em que a serpente agarrou Laocoonte foram em close, intercaladas, explorando a forte emoção provocada. A seguir, Ulisses desafiou os deuses, dizendo-se vencedor solitário de Tróia. Poseidon, que o havia ajudado mandando a serpente marinha matar Laocoonte, enfurece-se. Ulisses insistiu que ninguém o impediria de voltar a Ítaca, e logo Poseidon o fez sentir sua maldição: seu barco perdeu-se no nevoeiro, indo ter à ilha dos ciclopes. No poema homérico é apenas depois de furar o olho de Polifemo que Ulisses foi amaldiçoado por Poseidon. Segue então uma narrativa clara, sem falatório ou entrechos, como a maior parte das cenas, que são diurnas, como uma linha reta que atravessasse os mitos, da ilha dos ciclopes até a Ítaca, perpassando Éolo, Circe e Calipso.

Notei, na narrativa, uma escolha: a opção pelos homens e não pelos deuses. Tal foi ilustrado no episódio em que a deusa Calipso ofereceu a Ulisses a imortalidade, e ele preferiu voltar a ser homem. No entanto, Palas Atena (Geraldine Chaplin), já tinha lhe prometido “ter seu nome nos lábios de gerações sem fim”, o que já seria a imortalidade, de certa forma. A cena apontou também para o espectador essa imortalidade: o herói está ali, existindo materializado em imagens, e a deusa profetizou também que os espectadores, depois de assistirem o filme, ficarão _ se nessa altura já não estão _ com o nome de Ulisses em seus lábios. Durante a cruel guerra de Tróia, o herói foi um guerreiro adoçado: em meio a uma batalha se preocupa em salvar criancinhas. Essa adaptação utilizou recursos como esse para provocar adesão ao herói Ulisses e repulsa por seus opositores.

Ulisses e seus homens, enquanto estavam no barco, perdidos em meio ao nevoeiro, queixaram-se da música de Ântifo. Eles ameaçaram jogá-lo ao mar, aparentemente porque ele repetia com muita insistência o mesmo tema na flauta. Diferente do poema homérico, Ulisses disse algo bastante significativo ao gigante: gabou-se de que sua cabeça estava cheia de segredos, todos os segredos do mundo. Em resposta, o ciclope falou que iria cuspir fora a cabeça de Ulisses. Nesta passagem podemos ver, simbolizado, o choque entre o mito e a razão. O que Ulisses tem na cabeça é o esclarecimento, chave para iluminar todo o mundo. A razão quebra com os mitos, é indigesta para eles, por isso Polifemo prefere rejeitar essa cabeça tão inteligente.

A música, ausente do poema original, tem um papel fundamental nessa passagem do filme: fez adormecer o gigante, quando dela se utilizou o até então pouco tolerado flautista Ântifo. Sua arte encontrou uma utilidade: o ciclope teve seu olho furado e sua mão cresceu em direção aos olhos do espectador, num lance de metalinguagem. Na versão de Camerini, Ulisses e seus homens fizeram vinho e sapatearam, enquanto Polifemo batia palmas. De tanto beber vinho, o gigante acabou tendo o olho vazado por Ulisses. Nessa passagem podemos dizer que a música foi usada de forma regressiva, no sentido adorniano. Na mais antiga das versões, Polifemo se infantilizou; na mais recente, dormiu ao som da música, ou seja, não escutou, deixou a música como o mero acompanhamento da bebedeira. Assim como Polifemo, estamos às voltas com a música, mas nós não a escutamos. Ela é apenas pano de fundo para nossas outras atividades. Reforçando o papel alienante da música, também Ulisses relatou que parte do feitiço de Circe era “encher seus ouvidos com canções”.

Ainda a respeito da música, pensamos ser necessário discutir o episódio das sereias. As sereias foram, segundo Juan José Saer, mitologicamente importantes pelos seguintes motivos:



Poucas criaturas desfrutaram de tanta posteridade quanto estes monstros femininos – Medusa e as demais Górgonas, Quimera, Cila e Caribdes, etc. – da mitologia greco-romana, mas somente as sereias foram se adaptando aos tempos que corriam para, por fim, graças à colaboração de Hans Christian Andersen (1805-1875), entre outros, representarem o oposto do que eram, ainda que se possa reconhecer que uma parte (secundária) do mito primitivo lhes atribui beleza e fidelidade. (SAER, 20-05-2002)



O episódio das sereias ressoou ainda nos tempos atuais. Citaremos, logo abaixo, a letra, inspirada nesta passagem da Odisséia, de autoria de Eric Clapton e Martin Sharp, e gravada pela banda Cream nos anos 60:



Tales Of Brave Ulysses



You thought the leaden winter would bring you down forever,

But you rode upon a steamer to the violence of the sun.

And the colors of the sea blind your eyes with trembling mermaids,

And you touch the distant beaches with tales of brave Ulysses:

How his naked ears were tortured by the sirens sweetly singing,

For the sparkling waves are calling you to kiss their white laced lips.



And you see a girl s brown body dancing through the turquoise,

And her footprints make you follow where the sky loves the sea.

And when your fingers find her, she drowns you in her body,

Carving deep blue ripples in the tissues of your mind.





The tiny purple fishes run laughing through your fingers,

And you want to take her with you to the hard land of the winter.



Her name is Aphrodite and she rides a crimson shell,

And you know you cannot leave her for you touched the distant sands

With tales of brave Ulysses; how his naked ears were tortured

By the sirens sweetly singing.



The tiny purple fishes run lauging through your fingers,

And you want to take her with you to the hard land of the winter.



Trata-se, acima, de uma criação livremente inspirada no episódio. Nela, a figura feminina atrai, mas é também um colo guloso, devorador. E Ulisses teve as orelhas nuas torturadas pelas sereias que cantavam docemente: música essa que produzia a mais traiçoeira promessa de felicidade. Na canção Tales of Brade Ulisses (Contos do Bravo Ulisses), sobeja a ambiguidade entre a viagem no espaço, _ que é a que fez o personagem da epopéia _ e a viagem lisérgica, ou seja, a busca do estado alterado de consciência provocado pelas drogas. A Odisséia, seria, em si, a própria alienação, sob a forma de alucinação e delírio, estado transitório entre a autoconservação e a autodestruição do eu.

O episódio das sereias me pareceu atrair os músicos por acenar com uma evidente metalinguagem: trata-se da música fazendo o elogio da sedução da própria música. Vale a pena, inclusive, destacar a passagem da delirante letra que se refere aos pequenos peixes que passam rindo entre os dedos. Nesta passagem, o riso dos peixinhos pareceu simbolizar uma tomada de consciência. Adorno comentou a respeito: “Se o riso é até hoje o sinal da violência, o prorrompimento de uma natureza cega e insensível, ele não deixa de conter o elemento contrário: com o riso, a natureza cega toma consciência de si mesma enquanto tal e se priva assim da violência destruidora” (ADORNO, 1985, p.78). A adaptação cinematográfica preferiu utilizar o riso com o sinal negativo. Na versão mais recente da Odisséia, Ulisses ri pouco, os pretendentes gargalhavam todo o tempo, Laocoonte riu muito antes de ser devorado, num anticlímax, pela serpente marinha; até mesmo Tirésias riu.O riso agourento de Tirésias, assim como o de Laocoonte, foi algo acrescentado. Quem se opunha a Ulisses sempre gargalhava e era sinistro.

Finalizando, podemos dizer que a Odisséia foi costurada com a Ilíada, e os roteiristas souberam aproveitar as possibilidades presentes: amor, guerra, magia, relação conflituosa do homem com um ser superior. Sabendo tratar-se de um filme hollywoodiano, ao observarmos a longa despedida que o herói faz de sua esposa, depreendemos que ele um dia voltará; mesmo no poema original os pretendentes puderam ver um sinal de mau agouro, que ignoraram, e que anunciou o seu destino. Data da dramática separação do casal a concepção do final feliz. O maior motivo da matança dos pretendentes que ensangüentou o final do filme talvez tenha sido esse: Penélope, após dar à luz à Telêmaco e ver o marido viajar para Tróia, continuou prenhe de um final feliz.





3. Conclusão





Podemos dizer que as adaptações de A Odisséia para o cinema são um rico material para a observação, ao vivo, dos processos da indústria cultural em ação; afinal, podemos ali entrelaçar dois temas abordados por Adorno, em diferentes passagens da Dialética do Esclarecimento: a indústria cultural, representada par excellence pelos filmes americanos, e a epopéia homérica.









Bibliografia:





ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1985.

BÜRGER, Peter. As Lágrimas de Odisseu. Trad. Zé Pedro Antunes. Texto inédito.

DUARTE, Rodrigo. Adornos: Nove Ensaios Sobre o Filósofo Frankfurtiano. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.

HOMERO, A Odisséia. Abril Cultural, 1978.

SAER, Juar José. Ulisses, O Homem que Ouviu o Canto. Folha de São Paulo, Caderno Mais! 10/02/2002.