domingo, 25 de junho de 2023

Uma Serenata em Bom Despacho em 1979

 17 de fevereiro de 1979. Bom Despacho, noite úmida, o carnaval seria na semana seguinte, dia 24. Choveu intensamente a tarde. Temporal típico de verão. Lulu e suas companheiras decidiram  refrescar do calorão, na Churrascaria Itapoã, quase em frente à casa do Sr. Antônio Leite, eleito ano passado para seu terceiro mandato.  Chegaram animadas e sentaram em um espaço no fundo, mais reservado e sossegado, para o ensaio da serenata/surpresa que Lulu, prometeu fazer ao seu eterno e amado, João Teodoro da Costa, o afamado João Zueira. Na mesa, quem passasse por perto, identificaria, pela beleza, graciosidade, alegria, felicidade, a presença da nossa querida Secelma. Junto às duas estavam a Neiva do Robertinho, a  Marília do Sr. Odílio e a Lilice, que além de sua presença super agradável, neste dia, muito elegante, grávida, vestia uma blusa verde clara, fazendo destacar ainda mais a beleza de seus olhos verdes, realmente estava deslumbrante.   João morava no Hotel Glória, pouco abaixo da Churrascaria. Enquanto isso, a roda e a animação dos amigos só aumentava. O Aritana redobrava,  esforçando, daqui e para ali, no trabalho de garçom. E as garrafas vazias só aumentando....De repente aparece  o violonista junto com o saxanfonista, cedidos  por empréstimo, do sétimo batalhão, que não negavam nunca, um pedido  sequer da Lulu. O Taquinho do Zé do Pedro, tumbando o ambiente, achou que lhe cabia uma vaga e veio do Sinucão do Zé Maria, com um pandeiro e formou o trio. Pouco mais tarde, Gustavo e Carma se juntaram à turma. Taquinho, muito vivaz e solícito, percebendo a brecha, diz que no Sinucão tinha também um Reco-reco. De pronto correu lá e num segundo o Gustavo, já meio embalado, pegou o instrumento e mostrou alguma habilidade, formado o quarteto. Para surpresa de todos  aparece , o

 Roberto do Tio Peri. Disse que  vindo de Itaúna e indo para Brasília, aproveitou para encontrar com os parentes e amigos. Foi uma alegria só!!!  No início do planejamento da serenata, Carma questionou que seria necessário ter uma autorização do Ubirajara para adentrar no hotel e posicionar todos na janela do John! Lulu, de imediato, respondeu, gritando, devido ao já alto alarido, que já tinha a autorização da dona Faustina. E começaram a seleção musical e vai mais rodadas de cervejas. Mais uma pinga alí, uma dose de rum para o Gustavinho..... Lulu enfatizava que não faltasse sua preferida, Noite do meu bem, no que foi aplaudida de pé e brindada três vezes com grande entusiasmo e euforia. Assim foram selecionadas e meio ensaiadas, umas do Roberto outra do Noel, Nelson Gonçalves e até a marchinha, Noite dos Mascarados de Zé Keti, foi incluída a pedido da querida Marília. Animação total!!! Lá pelas 23 horas e pouco, já nos preparativos finais, Valdirão e o Tõe Zé que estavam na mesa vizinha, se juntaram à roda. O burburinho só aumentando, mal se enxerga direito, quer pelo alto teor etílico dos presentes como pela fumaça dos cigarros onde se notava cinzeiros abarrotados de gimbas corroboravam com o ar asfixiante do local.  Aos 30 minutos do já domingo, decidiram que chegara a hora da esperada serenata. Antes de saírem, Secelma deu um palpite que enervou toda a galera: queria que subissem a Faustino Teixeira, descessem a Alferes Tavares e lá ela convidaria e o levaria, nem que fosse de pijama o  controverso Hudson Avelar. Todos reclamaram, uníssonos e Carma, enérgica, respondeu pela turma: O carnaval é sábado que vem, hoje só serenata e ponto final!!! Secelma acabou concordando com a maioria. Quando todos, já quase levantando das mesas, uma surpresa!? O Leão Quirino, prá lá de tonto, vindo de não sei onde e já se inteirando do assunto,  juntou à roda dos músicos. Disse em bom tom e com tal propriedade, que daria o ritmo à serenata com sua caixinha de fósforo marca Beija-flor. Já caminhando para o destino, Lulu, tenta conter o ânimo dos mais exautados e chegando no Glória, por incrível que pareça, ela consegue um silêncio sepulcral. Todos imbuídos que o Zueira tivesse a surpresa na hora H! Postados em seus lugares, instrumentos afiados, Lulu, como uma maestrina, ordena a abertura da cantoria, com o Uirapuru de Nilo Amaro e os Cantores de Ébano, música segundo a  
ela própria, a preferida do Zueira. Seguiram-se a Noite do Meu Bem e mais e mais canções melodiosas, que fizeram lágrimas rolarem pela face da Lulu e de companheiras mais emotivas. Depois das exímias performances dos músicos do Sétimo e o belo vocal das meninas, Neiva até perdeu a voz. Nunca esquecendo do pandeiro do Taquinho, o esforço hercúleo do Gustavinho com o Reco-reco e é claro,  não teria o mesmo brilhantismo, sem a imprescindível intervenção rítmica da caixinha de fósforo do nosso querido amigo Leão.
            Chegando a hora da tradicional despedida, todos concentrados e no maior capricho e atenção iniciaram os acordes do Boa noite, diga ao menos boa  noite. Bem no meio da apresentação algo prenunciava um desconforto. Um barulho de carro estacionando, porta fechando, a visão de uma Brasília amarela, barulho de portão abrindo. Nesse momento, Lulu com evidente nervosismo, ordena que parem imediatamente a música.  Todos atentos, o suspense dos passos indecisos e dificultosos e Zueira, sem outra alternativa, aparece sorrateiro e sem graça, para o espanto de todos e decepção da Lulu!!! Ele, mesmo desconcertado, agradece a todos, que mudos vão se retirando um a um. Parte grupo ainda tentou quebrar o gelo, com gracejos e brincadeiras aos quais Lulu com raiva e em prantos, amparada nos ombros da Neiva, repreendeu energicamente.
       Enfiaram a viola no saco, os mais animados retornaram à Itapoã onde prolongaram a noite, bebericando, divagando e analisando a situação delicada do Zueira e da Lulu.
Obs: Mais tarde, o Zueira confidenciou com o Tõe Zé, que naquele dia, foi com o Tõe Virgílio, radiotécnico, para o cabaré famoso em Luz, e lá ficaram até a hora daquele triste e fatídico encontro. Obs: Essa riqueza de detalhamento só foi possível devido a Lilice, no dia estando grávida, não bebeu e com sua memória privilegiada e detalhista, colhemos o máximo de dados possíveis




quarta-feira, 7 de junho de 2023

Mário Morais: Crepúsculo e uma Nova Aurora

 

Mário Morais: Crepúsculo e uma Nova Aurora

 

            Nessa semana que passou, fiz um passeio que há anos queria fazer: ir a Santo Antônio do Monte ver o Museu Magalhães Pinto, onde há um quadro do meu avô Mário Morais. Visitei também a casa de meu tio Bil, que está agora ficando muito em “Samonte”, junto ao filho Daniel. Na ocasião, Daniel mostrou-me uma carta que vovô Mário dedicou a ele, intitulada Aurora e Crepúsculo, datada de 1986: “meu neto Daniel completa três anos. Criança inteligente, saudável, irrequieta. Habituado a ver sempre satisfeitos os seus menores desejos, por vezes torna-se voluntarioso e tirano e destrói impiedosamente os seus melhores brinquedos.”

A pintura do rosto de meu avô, baseada numa foto, de autoria de Ivo Morato, está no museu José de Magalhães Pinto, situado no centro de Santo Antônio do Monte. O governador que deu nome ao museu, político da União Democrática Nacional, foi governador de Minas Gerais.

            Foi emocionante ver o destaque que a cidade de Santo Antônio do Monte deu a Mário Morais, com seu retrato ao centro de uma sala e muitos livros, dentre os quais os seus, num antigo armário ao fundo. O casarão onde está o museu é o lugar onde nasceu José de Magalhães Pinto.

O ex-presidente da Academia Mineira de Letras, Vivalde Moreira, também montense, também foi ali homenageado. A Academia foi chamada, anedoticamente, de “Academia Moreira de Letras”.

            Na morada de Bil Morais, dei uma lida em seus muitos livros, entre os quais os de Pedro Rogério Couto Moreira. Pedro, jornalista de origem em Bom Despacho, trabalhou na Rede Globo nos anos 70 e teve muitas histórias para contar em seu livro Jornal Amoroso.

Em uma delas, Pedro Rogério conta que o presidente João Figueiredo era parente do escritor Guilherme Figueiredo, autor de um livro chamado Tratado Geral dos Chatos, ou seja, era alguém sem medo de gerar polêmica, característica que tinha em comum com seu primo presidente. A esposa de Figueiredo sentia-se retratada, junto ao marido, no casal do prefeito e da esposa do prefeito Odorico Mendes na telenovela O Bem Amado. E ficava incomodando Figueiredo. Ele estava lá na sauna e ela vinha aborrecê-lo, falando: “venha ver o que estão fazendo com a gente na televisão!”. O presidente Figueiredo, furioso, reclamou então junto de Roberto Marinho, que disse que, infelizmente, não poderia interferir na telenovela de Dias Gomes, pois poderia prejudicar o andamento do programa e causar-lhe prejuízos. Diretor de novela tinha um poder que hoje não tem.

            Foi também encantador visitar a historiadora e escritora Dilma Moraes. Dilma já ocupou a secretaria de cultura e turismo de Samonte e é respeitada conhecedora da história de Santo Antônio e região. Recentemente resenhei o seu livro Laços de Amor e Chá Verde aqui nessa coluna, uma edição muito cuidadosa, com inúmeras fotos e texto primoroso. Foi citada, recentemente, na biografia de Hélio Garcia realizada pelo jornalista Itamar “Brasinha”. Dilma é nossa prima. Santo Antônio do Monte foi também a terra natal do poeta surrealista Bueno de Rivera (1911-1982), que hoje dá nome à sua biblioteca pública. Dilma Moraes, em seu livro Santo Antônio do Monte: Doces Namoradas, Políticos Famosos, destacou o poema Olhos Secos:

 

Não chego a ser um gemido entre o choro geral,

olhos enxutos, mãos no bolso, a displicência.

Vejo o baile nas janelas acesas.

Quanta alegria nos homens sem memória!

Outras janelas, o caixão, as velas no silêncio.

As cortinas como almas libertadas,

a lágrima da mãe no lenço preto.

Os meus passos doem, cantando na calçada.

As estrelas quietas ruminando as horas,

mas meus olhos aflitos e ninguém percebe.

O nó na garganta, o grito parado,

a brasa na cinza...

 

O poeta surrealista Bueno de Rivera hoje está muito esquecido (foi difícil encontrar o nome do poema, que não consta no livro de Dilma) e Bil contou-me que ninguém sabia onde ficava a biblioteca local, a biblioteca Bueno de Rivera. Em nosso encontro com Dilma, amadurecemos a ideia de um relançamento do livro Coqueiros e Outras Histórias, de Mário Morais, uma vez que em Santo Antônio do Monte ele foi reconhecido como o escritor/historiador que melhor tratou de Samonte nos anos 30, período em que viveu na cidade. Meu avô Mário Morais nasceu numa fazenda no distrito de Coqueiros, em Samonte. Ele chegou a voltar lá onde viveu sua infância, mas a fazenda deixou de existir e então o lugar onde morou quando criança já era uma área tomada por um matagal.

Espero, então, em futuro breve ver o relançamento de Coqueiros, memórias de Mário Morais, há muito esgotado. Informarei meus leitores a respeito. Mário, que já teve seu crepúsculo, terá oportunidade de uma nova aurora.

sábado, 13 de maio de 2023

Só Deus Cria a Rosa: Dora Lúcia Pinto

 

Só Deus Cria a Rosa: Dora Lúcia Pinto

 

                Dora era costureira. Dora Lúcia Pinto. Morreu há alguns anos, mas eu ainda passo por sua casa, ela ainda existe, tornou-se salão de beleza, depois estúdio de tatuagem. Essa era também a casa de seus filhos Edelweiss e Orlando, e das netas Adriele e Priscila. Orlando Amaral Pinto foi na juventude foi um de meus melhores amigos. Eu frequentava essa casa.

            Ao passar os olhos por ela, buscando lembrar-me como era, avistei uma rosa, há uma roseira florindo num pequeno jardim lateral, muito esquecido. Essa roseira está ali há muitos e muitos anos? Fico pensando se foi Dora quem a plantou, se já estava ali naquele tempo. Orlando contou-me que, antes de nos conhecermos, lembrava-se de mim ali perto, numa venda que havia numa esquina próxima e que tinha de tudo, ao estilo do antigo Xavier da Avenida das Palmeiras, bonecas penduradas no teto, etc. Ali comprávamos suspiros, maria mole, esse último era um doce que vinha com anéis com um brinde, um anel de joias falsas, esmeraldas de plástico, claro, mas achávamos muito charmoso dar esses anéis às meninas.

            Orlando, como eu, é cinéfilo, gostava muito do cinema do polonês Kieslowski. Eu ouvia muito uma canção de Zgbiniew Preisner ali, a Canção da Reunificação da Europa. Vimos um filme dele, A Fraternidade é Vermelha, com Orlando pausando no vídeo praticamente cena por cena, comentando a relação da moça com um juiz. Orlando também, pacientemente, gravou uma fita cassete para mim com canções da banda Joy Division. Era a tecnologia da época: copiar as músicas do disco de vinil para fita cassete.

Com frequência, eu e Orlando ficávamos vendo filmes, Dora fazia uma comida à noite, fazia um incrível mexido, misturava a comida da hora do almoço e sua comida tinha um tempero maravilhoso. Dora fazia aquela “comida de vó”, temperada com amor. Dora tinha uma filosofia de vida própria, uma “lição de coisas” drummondiana, ela dizia que precisávamos encontrar a ordem natural das coisas, as coisas têm uma ordem natural, não nos cabe ir contra, desde que o samba é samba, como diz Caetano.

Bruce Lee também tem uma filosofia semelhante. Ele dizia que deveríamos ser flexíveis como a água: a água, quando é colocada na xícara, torna-se a xícara. Orlando era também um grande admirador de Caetano Veloso, que cantava o “tranquilo e impassível” Bruce Lee.

            Pouco tempo depois de meus avós falecerem, visitei a casa deles, uma casa bem próxima da de Dora, mas ao contrário da de Dora, a deles logo a seguir foi posta abaixo. O terreno ficou ali na esquina da Vigário Nicolau e Coronel Tininho, até hoje nada ali foi construído devido a problemas com uma empresa construtora e fica ali aquele lote com ruínas ao lado do Salão São Vicente. Ao ver as ruínas, lembrei-me que Vovô Mário comentava que sua tia sempre rezava uma oração, um Ato de Contrição que tem uma versão católica longa: "Pesa-me também por perdido o céu e merecido o inferno, e proponho firmemente...” Eu reencontrei, numa parede, uma sombra de vovó Irene, pintada pela filha Marlene, bem como uma frase da oração que a tia de vovô, Aristoclina, creio, rezava. Quando a casa de meus avós foi destruída, finalmente, nos jardins sobraram apenas algumas plantas acuadas. Sobrou apenas um toco seco daquela velha roseira. A rosa de Dora é mais insistente, insiste ainda em dar flor. É como dizia o poeta Altino Caixeta, poeta de Patos de Minas, no poema Criação: “A ostra cria a pérola/Para se distrair do mar./O poeta cria a beleza/ Para distrair-se do efêmero. /Só Deus cria a rosa/Para distrair-se do eterno.”

            Ao ver a insistência da rosa de Dora, ouço de novo a casa ressoar aos acordes da canção de Preisner que a gente ouvia no filme Liberdade é Azul, aproveitando a Epístola de São Paulo aos Coríntios. A canção diz, em grego: “Se eu falasse a língua dos homens, se eu falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria”. Tranquila e impassível Dora. A ordem natural das coisas: só Deus cria a rosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Uma Descida no Maelstrom

 

NOTAS SOBRE O TEATRO DE GERALD THOMAS:

UMA DESCIDA NO MAELSTROM

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

 O início dos anos 80 foi o momento em que o Brasil reconheceu o talento de encenador de Gerald Thomas. O contexto em que sua peça Quatro Vezes Beckett fez sucesso era de redemocratização e abandono das preocupações políticas dos anos 70. A partir de então, transformou-se o contexto em que boa parte dos diretores e dramaturgos brasileiros tinham sido primordialmente brechtianos, mas vivia-se um momento em que Brecht foi perdendo, paulatinamente, sua influência.

Essa pesquisa visa estudar e verificar uma importante mudança ocorrida na carreira do encenador Gerald Thomas desde meados dos anos 2000: Gerald decidiu não mais encenar textos de outros autores, esforçando-se agora por encenar e redigir sua própria dramaturgia. A primeira experiência dessa nova fase foram as peças Terra em Trânsito e Rainha Mentira (Queen Liar). Ele se aproxima, portanto, do traço autoral de um Glauber Rocha, que sempre escrevia e dirigia seus filmes, tendo todos eles a sua marca, sua assinatura autoral e muitas vezes, como em Idade da Terra, sua presença física e voz propriamente ditas.

Nos anos 90, o crítico David George já considerava Thomas como mais do que um diretor e sim um encenador surgido a partir de uma visão original das obras de Beckett nos anos 80. É comum nas peças de Thomas a interferência da própria voz do encenador. Por exemplo, em Queen Liar, a narrativa autobiográfica apresenta constantemente a voz do encenador que faz intervenções narrativas. Essa voz narrava, por exemplo, que a personagem da avó se assemelhava a uma personagem do pintor Otto Dix (expressionista alemão que protestou contra guerra pintando os mutilados e mortos). Já Terra em Trânsito, que Gerald considera a mesma peça, refere-se claramente a Terra em Transe, filme de Glauber Rocha: cita-se, por exemplo, o apaixonado por ópera Paulo Francis, enquanto Terra em Transe era o epitáfio do jornalista e poeta ficcional Paulo Martins. Em Terra em Trânsito, uma cantora de ópera se vê presa em seu camarim e entra num processo de enlouquecimento enquanto escuta um discurso reacionário de Francis no rádio e desespera-se enquanto alimenta um ganso para fazer foie gras. Trata-se de uma oscilação freqüente na obra de Gerald Thomas e que talvez seja o drama do artista contemporâneo: ele está entre um ceticismo neopositivista (“nada prova nada”) e o desespero ultra-romântico (a diva em crise na carreira, Hamlet/Paulo Martins).

Recentemente, em 2008, Thomas realizou mais uma peça que continua essa trilogia iniciada com Terra em Trânsito: a peça O cão que atacava mulheres, Kepler, the dog, inspirada numa blognovela realizada por Gerald Thomas juntamente com os participantes de seu blog no provedor Ig, internet gratuita. Nela, um cão de nome Kepler perambula entre um cenário de pesadelo que, dentre muitos outros personagens, vê imagens que fazem lembrar as torturas nas bases norte-americanas de Abu Ghraib e Guantánamo, assim como um executivo suicida, a busca do Santo Graal, etc. O cão (Fabiana Gugli) está na coleira do personagem do executivo (Duda Mamberti), mas faz referência à imagem, muito recorrente na mídia, da militar norte-americana no Iraque trazendo um prisioneiro iraquiano na coleira, imagem associada a uma mulher dominadora da imagética sadomasoquista, a dominatrix. A dramaturgia de Thomas possui, portanto, referência a um universo de referências muito particular e caro ao autor: Living Theatre, Stoppard, Orwell, Kafka, Kantor, Duchamp, Haroldo de Campos, Oswald de Andrade, às montagens do próprio Gerald Thomas, entre outros.

Gerald Thomas é um enigma, mas não um enigma vazio, como alguns querem que seja a arte contemporânea. Para o crítico norte-americano David George, Gerald realiza uma antropofagia wagneriana. Enquanto isso, no Brasil, devido à sua posição polêmica dentro do teatro brasileiro, é acusado de fazer imperialismo cultural. David George estabelece uma linha de influências para Gerald Thomas no Brasil: José Celso Martinez Corrêa e Antunes Filho, assim como a dramaturgia de Nelson Rodrigues, em homenagem a quem Thomas dirigiu uma peça chamada “Asfaltaram o Beijo”. Ele seria o principal divulgador do pós-modernismo no teatro brasileiro. Mas Thomas vai bem além e é um agitador cultural que exerce muito bem o seu talento para o jornalismo, diferente da tendência de Beckett para escrever poemas e prosa mais extensa. Thomas, por sua vez, é show man: atua como colunista em veículos como IgFolha Ilustrada, comentarista no prestigiado programa de TV Manhattan Connection, etc.

 

DE BECKETT A KEPLER

 

 

Gerald Thomas

Gerald Thomas começou como seguidor de Beckett e com ele ainda possui muito em comum. Em primeiro, ele surge de uma revisão de Brecht e do teatro político, que terminava não alcançando as camadas populares a quem dirigia seu discurso. Além dessa inabilidade de chegar às camadas populares, e diretamente associada a ela, uma outra dificuldade tem caracterizado uma considerável parcela do teatro dito político: a predominância do compromisso didático em detrimento das preocupações estéticas. Isto é, um desequilíbrio entre conteúdo e forma. Apesar de Brecht enfatizar por diversas vezes em seus escritos teóricos que o teatro engajado não precisaria, nem deveria, excluir o caráter de diversão próprio a essa arte, muitos dos seus seguidores incorreram nesse erro e construíram espetáculos sisudos, excessivamente intelectualizados e de pouco apelo para o grande público. Como explica o encenador Gerald Thomas:

Pouco foi dito sobre isso, mas o efeito de distanciamento, de esfriamento, de racionalização e de didatismo sobre uma arte que é, essencialmente, fabulesca e metafórica começou como uma saudável doença de alerta e acabou por se tornar seu vírus mais fatal (THOMAS apud GUINSBURG et al FERNANDES, 1996, p. 37).

Diante desses impasses, em um mundo pós-muro de Berlin, o teatro político tem sido impelido a redimensionar seus objetivos e suas práticas. O próprio trabalho de Boal evidencia uma busca por um novo posicionamento teórico. Quando comparado ao Teatro político de Piscator, por exemplo, percebe-se que no Teatro do Oprimido já não há um enfoque explícito na questão da luta de classes. A "revolução" de que fala Boal pode também significar uma radical modificação interna do indivíduo-espectador. É a partir da necessidade desse tipo de modificação e da dificuldade em obtê-la é que está o traço que podemos notar em Beckett e Thomas.

Para explicar Thomas, tratemos de Beckett. Em The Rhetoric of Fiction, Wayne Booth utilizou, numa edição revista, a novela Company de Beckett como exemplo de sua teoria do autor implícito, aplicando-a em uma narrativa contemporânea. Como definir Beckett e aquilo que pode ter influenciado Thomas? Tomemos as palavras de Peter Brook:

Talvez a escrita mais intensa e pessoal de nosso tempo venha de Samuel Beckett. As peças de Beckett são símbolos no sentido exato da palavra. Um símbolo falso é mole e vago; um símbolo verdadeiro é duro e claro. Quando dizemos “simbólico” frequentemente queremos dizer enfadonhamente obscuro; já um símbolo verdadeiro é específico, é a única forma de expor uma certa verdade. Os dois homens esperando ao lado de uma árvore seca, o homem gravando a si próprio em fitas, os dois homens escravos de uma torre, a mulher enterrada na areia até a cintura, os pais em latas de lixo, as três cabeças nos vasos: essas são invenções puras, imagens frescas, agudamente definidas – e funcionam no palco como objetos. São máquinas teatrais. As pessoas sorriem delas, mas elas ficam firmes: são à prova de crítica. Não chegaremos a lugar nenhum se esperamos que elas nos sejam explicadas, entretanto cada uma tem uma relação conosco que não podemos negar. Se o aceitamos, o símbolo nos provoca uma grande e pensativa exclamação (BROOK, 1970, p. 57).

Assim como em Company não é preciso explicar de onde vem a voz que sugere ao personagem que imagine, Gerald busca símbolos que não precisem ser explicados nem entendidos racionalmente e sim imagens que falem direto ao inconsciente, símbolos tais como Beckett fazia: e símbolos duros. São símbolos poderosos presentes nas peças recentes de Thomas: em Queen Liar, a figura distorcida da avó que era como um personagem de Otto Dix, a cantora de ópera em crise e seu ganso em vias de virar foie gras, um cão em forma de mulher que diz um texto filosófico enquanto defeca no chão.

Os pontos em comum entre Gerald Thomas e Samuel Beckett ficam mais claros quando se avalia alguns pontos da análise de Wayne Booth a respeito da novela Company. Em alguns momentos, é como se ele estivesse falando da blognovela que ora estamos estudando. O texto de Beckett é um “texto para nada”. Essa forma de limitar artificialmente as palavras imaginadas para fazer um quebra-cabeças minimalista é presente nas peças de Thomas e de Beckett. Para se ter uma idéia, Company inicia-se com a enigmática frase: “Uma voz chega para alguém no escuro. Imagine” (BECKETT apud BOOTH, 1983, p. 445). Tanto o mestre quanto o herdeiro tratam da falta de sentido do mundo. O mundo, em seus textos, é predestinado a ser sentido, e o recurso de escrever sobre ele, “para ter companhia”, está destinado ao fracasso insignificante, produzindo não mais do que falência supérflua e miséria. Ambos buscam estabelecer um equilíbrio delicado entre criar situações que complexas e que geram perplexidade, mas que não são tão confusas ao ponto de não despertarem a curiosidade e demandarem uma interpretação.

A VOZ AUTORAL EM KEPLER, O CÃO QUE ATACAVA MULHERES

 Gerald Thomas foi uma voz autoral desde o início de sua carreira. Sua interpretação das peças de Beckett já tinha uma assinatura própria. “Julian Beck morreu durante uma voz que ele ouviu, gravada por ele mesmo e ouvida por ele próprio” (THOMAS, 2008), referência em off que entra com a voz de Gerald Thomas quando o personagem de Duda Mamberti está em cena na peça O cão que atacava mulheres: Kepler, the dog e que refere-se à montagem de um texto que Beckett escreveu para Julian Beck quando este já era paciente terminal de câncer (All Strange Away e The Time). O texto em off, surgido devido a exigências extra-artísticas em Nova York, onde, para se apresentar uma peça é preciso depositar pagar um valor vultoso para o ator a título de seguro, encarecendo a peça e obrigando o diretor a ter a voz do ator ao invés de tê-lo presente, passou a ser usado de forma muito inovado como recurso anti-realista por Thomas, num lance verdadeiramente antropofágico, revertendo o desfavorável em favorável e fazendo da voz em off um de suas marcas autorais mais importantes.

Tanto nas peças que ele escreve quanto nos textos que dirige, Thomas busca acionar uma simbólica profunda, vinda do inconsciente, criando símbolos e imagens fortes como os que estão presentes na obra de Samuel Beckett. Quando Thomas surgiu, o Brasil vivia um momento onde se buscava novos caminhos para a dramaturgia. A problemática coletiva dava lugar às questões individuais. O trabalho de Thomas não se filia nem a Brecht nem a Stanislavski, nem segue ortodoxamente os métodos nem de um nem de outro. Thomas recusa tanto o método épico-didático de Brecht (não transmite conteúdos socialistas, prefere polemizar com a esquerda) quanto o método de Stanislavski, que segundo ele não seria apropriado para o teatro (pois o teatro exigiria principalmente projeção de voz), adequando-se melhor ao cinema (a propósito, ele cita o Actor´s Studio, estúdio norte-americano que aplicou amplamente em Hollywood o método do russo, ajudando a criar atores tais como Marlon Brando). Marcelo Alcântara comentou a respeito na revista A Bacante:

 (...) Muitas das características do que se vê na tela são facilmente relacionáveis ao nome e à obra de Thomas - uma montagem textocêntrica e sem linearidade, entrecortada por milhares de assuntos, embalada por imagens construídas com rigor, muita fumaça, jogos de luzes e narração em off dublando personagens em cena. Nada disso é novidade, mas aqui há muito mais do que a tradicional relação forma/conteúdo: ganha força também o fator meio (nã-não, não o centro, tô falando do medium por onde o espetáculo é transmitido) - e as influências que esse meio impõe à forma do que é produzido (...). Mas diferente dos roteiros escritos por Samuel Beckett para a TV, por exemplo, Kepler, The Dog visto pela mediação da tela do monitor não passa de um espetáculo concebido para o palco - ainda que sua realização visasse a transmissão pela rede. Por mais que tenha surgido a partir da internet e só faça sentido considerando este fato, o primeiro capítulo da blognovela de Gerald Thomas ainda é teatro filmado, com toda a importância que o registro da efemeridade do palco pode ter, mas também com toda a precariedade e ingenuidade de câmeras que tentam dar conta de captar o todo de forma documental e com pouco diálogo com o meio a que a obra se destina (vale ressaltar que a busca por atores via internet, por meio do envio de vídeos, dialoga muito mais com o meio do que o próprio resultado final). Para os próximos episódios desta blognovela, fica a expectativa de que além da inspiração na atividade colaborativa, haja maiores apropriações (e por que não questionamentos e subversões?) da tecnologia como forma de transformação (e não apenas reprodução/propagação) da produção teatral - além da torcida para que o produto final transmitido pelos precários serviços de banda larga brasileiros seja minimamente estimulante a quem não está num teatro escuro cheio de fumaça (e cujos focos de atenção não estão condicionados a seguir os movimentos de luz e som que ocorrem em cena) (ALCANTARA, 2008).

Divergimos da crítica acima no seguinte ponto: a blognovela foi concebida primeiramente como texto literário, somente depois foi encenada, de maneira totalmente repensada, pela Companhia Ópera Seca e pensado simultaneamente para ser encenado no palco e transmitido pela internet. Diz Mau Fonseca a respeito do “teatrocinema da blognovela”, quase como se estivesse respondendo às críticas acima elencadas por Marcelo Alcântara:

O teatro visto por uma tela pequena de computador sujeito às entropias da exibição intra-pessoal (algo que não seja pessoalmente) é como a comunicação diária no blog. Todos são íntimos distantes, sujeitados a uma entropia diária - a mensagem é verdadeira, mas os formatos criados (os nicknames e as técnicas) dentro do blog são falsescas, tal como na produção cinematográfica. Então, por associação, o blog é como o cinema também, mesmo parecendo absurdo. A encenação da peça ao vivo, como num ensaio, era teatro apenas pra quem estava na platéia, o cenário, elenco, a fumaça, a interação e o peso dos corpos e sons. Ao público em casa, era também uma peça teatralizada porque não houvera montagem anterior, seguia-se obviamente um roteiro, mas a montagem era ao vivo (o plen-air impressionista) - portanto teatro. E a criação foi com base teatral, Gerald é homem do teatro, e sua cia. faz parte do universo teatral. Nossa visão se deslocava na tela do computador procurando pontos focais, sendo que em determinados momentos a tela se escurecia, um corte cinematográfico e teatral. É o teatrocinema ou nenhum dos dois...de repente não é uma coisa ou outra, é apenas uma obra audiovisual, como uma vídeo arte ou "Performance Body Art" que poderia ser reproduzida em paredes de museus ou encostas de morros, laterais de prédios, projetada por grandes projetores interferindo na paisagem, o que aumentaria a percepção e ao mesmo tempo provocaria outras interferências perceptivas em relação ao tema. Afinal, as idéias ou conceitos eram mais importantes que o formato, o que deveria ser relevante era a mensagem. E foi justamente a mensagem que prevaleceu e sendo assim funcionou, não importando quão complexa a linguagem. Quando no cinema o diretor filma várias tomadas da mesma atriz, de costa, perfil, diagonal, de cima, com mão no joelho, no cabelo, boca entraberta, etc e etc, busca-se o excesso da imagem e o detalhismo para construção rica na tela grande. O teatro funciona melhor no minimalismo pra causar a impressão, ao mesmo tempo que limpa a imagem deixando o objeto exposto de forma nua (...). Há ganhos e perdas, seja qual for o meio, a importância de renovar é relevante. Vivemos uma época que se pode pensar - tudo já foi criado e não nos sobrou espaços para mais nada. A ousadia não foi repelida e nossa capacidade talvez ainda exista. Tem que se quebrar espelhos sem medo das pragas do azar e fuçar os escombros do mundo arruinado (FONSECA, 2008).

A blognovela seria, portanto, um gênero híbrido entre a literatura, o teatro e o cinema. Diferente do que Alcântara supôs, Gerald pensou a peça não só como teatro, até porque ele define o que faz como cinema para o palco, assumindo a influência de Glauber Rocha.

Embora conhecido como diretor, recentemente Thomas decidiu que seria preciso dirigir e encenar somente seus próprios relatos para garantir sua assinatura própria. Thomas leva bastante a sério esse direcionamento em seu trabalho: embora tenha de fato recolhido as falas e comentários dos freqüentadores do blog para realizar a blognovela, ao encená-la preferiu uma outra solução: homenagear os mais fiéis freqüentadores do blog através da citação de seus nomes em cena, o que de fato ocorreu, e não utilizar literalmente suas palavras e falas no texto, que foi praticamente todo alterado. Do texto original da blognovela, Thomas manteve a idéia da figura de um travesti, símbolo da ambivalência e da androginia. Um exemplo do texto original:

Gerald: Bom, eu queria reunir todos vocês aqui pra tentar encenar….

(sou interrompido)

Fabio:…Gérald,…?!..Que tal falar da Dóroty Stang, Chico Mendes, o Joãzinho trinta, o “almirante” negro da revolta da chibata, o madãme satã, o dom Élder Cãmara,o Antônio Conselheiro……..!!!!!! Tem tãnto brasileiro BOM e PÓBRE, esquecido ……! Claro que o Mandela e o Bill são legais….! Mas eles não precisam de fãma ou espaço, eles já Os TEM, E MUITO..!..São RECONHECIDOS EM VIDA..! isso é muito legal. Os que CITEI, SE FUUUUUderam em VIDA E NINGUÉM TÁ NEM AÍ COM ELES..!(desculpe o palavrão)

Gerald: Peraí Fabio, calma. Eu nem falei ainda sobre o que trata esse espetáculo! Além do quê tudo já foi escrito sobre Dorothy Stang, Chico Mendes virou filme com Raul Julia e Dom Helder Câmara foi uma das pessoas mais conhecidas e reconhecidas de sua época. Mas estou aqui pra tentar montar uma peça inédita que escrevi pra vocês, do Blog. É uma espécie de remontagem de um espetáculo…. (sou interrompido de novo e vejo que o Vamp esta atacando fisicamente o Fabio). (...). Obs: todos estão mudos no espaço de ensaio. Mau Fonseca tentava dizer alguma coisa tipo “a humanidade é horrivel” mas murmurava, ninguém o ouvia. Sandra tentava socorrer o coitado do Fabio que já flutuava a mais de 30 cm de altura do chão e estava sangrando. Eu me escondia, covarde que sou, atrás da única pilastra de concreto que havia no espaço (...).

Gerald - Cacá, tudo bem, tá ótimo. Justo o que você falou aí, muito justo. Mas eu estou aqui com vocês pra remontar o espetáculo M.O.R.T.E (movimentos obsessivos e redundantes pra tanta estética - aquele que o Haroldo de Campos montou uma tese em cima e que viajou o mundo)….lembram? Nao lembram? Bem foi em 1990 e a segunda versão foi em 1991. Não lembram. É, falta cultura à essa falta de cultura. Falta memória a essa falta de memória!

Gerald – Mas Fabio, eu já disse que…

Vamp: se voce falar mais uma palavra com esse Fabio eu saio por aquela porta ali e nao volto nunca mais!

Gerald - Mas Vamp…

Vamp: NUNCA MAIS entendeu? NUNCA MAIS!!!!

(ouve-se uma porta batendo, a luz desce em resistencia e Fabio sussurra: “poxa, perdi meu melhor amigo.. eh a MORTE!)

[Fim do Capitulo 1 de uma longa novela da blogosfera! (THOMAS, 2008).]

No texto da blognovela, Thomas valorizava a oralidade da fala cotidiana, os assuntos do momento, agindo como se estivesse realmente dirigindo uma peça, refletindo, pensando alto e revendo momentos de sua própria trajetória. Ao transpor a blognovela para o palco, reduziu significativamente o texto, refazendo-o para que ele pudesse trazer referências a dilemas fáusticos sobre a relação, presente no trabalho de Thomas, entre o poder e a arte, tal como o seguinte fragmento: “Não é o que vocês estão pensando. De alguma forma, é o que vocês estão pensando. De alguma forma, o que vocês estão vendo é isto. O que vocês estão vendo confirma o que vocês estão pensando” (THOMAS, 2008).

A essa altura pode-se ver pessoas dependuradas de cabeça para baixo, com um chapéu panamá pendurado no alto de seus corpos pendentes. O chapéu panamá refere-se a um quadro de Magritte e ao trabalho de Reinaldo Azevedo, jornalista e blogueiro da revista Veja e com quem Gerald Thomas polemizou, mas conseguiu reverter a antipatia inicial, travando com ele relações de amizade, numa peripécia que muito abalou os seguidores de ambos na internet, tendo todos entrado em guerra e realizado a paz juntamente com seus “mentores”. Reinaldo Azevedo possui uma relação de oposição radical ao governo Lula, no que existem confluências com a rebeldia anárquica e oposicionista proposta por Thomas. Azevedo, no entanto, alimenta-se da crescente impopularidade do governo Lula entre parte das elites e da classe média, devendo a esse governo boa parte de sua repercussão. E ele concorda, por exemplo, que o governo Lula deve manter sua política econômica. As relações entre Reinaldo Azevedo e o governo Lula fazem lembrar a tragédia Lacerda/Getúlio, inclusive possuem algo que podemos chamar de um resquício de uma dialética. Gerald Thomas diferencia-se de Azevedo por sua posição liberal em relação a costumes, especialmente no que se trata de ecologia e liberdade sexual. Para além dessa discussão, a revista Bacante referiu-se à blognovela como “teatro filmado” e descartou-a como inferior a trabalhos como Quádos, de Beckett (como uma forma de evitar a verve polêmica de Gerald: afinal, ele não se diria melhor do que Beckett, deve ter pensado Marcelo Alcântara). No entanto, Kepler vai bem além de um teatro filmado como habitualmente se faz na televisão brasileira e é teatro agudamente experimental, fazendo jus às influências recebidas de Beckett: é um espetáculo que marca pela sobriedade e despojamento minimal e cujo claro e escuro permanece em nossas mentes. Escreveu Alberto Guzik a respeito de Kepler, the Dog:

É muito poderoso o novo trabalho de Gerald Thomas, "o cão que insultava as mulheres, Kepler, the dog". Vi ontem e ainda está girando na minha cabeça. as imagens, a força das idéias. tudo muito simples, muito despojado, e extremamente requintado. Não parece o gerald capaz de inventar máquinas cênicas complicadíssimas. Este gerald está interessado em explorar o palco nu, a caixa cênica desventrada, sem nenhuma moldura que a enfeite. O resultado é magnífico porque sofre o impacto da visão de mundo lúcida e arguta do encenador. Fabiana gugli está esplêndida, cada vez mais precisa e senhora do palco. E também brilham Duda Mamberti e Pancho Capeletti, dominam a cena com extrema segurança. Mas é das idéias do espetáculo que se precisa falar (...) (GUZIK, 2008).

Na primeira versão da blognovela, o próprio Thomas era, ao mesmo tempo, diretor e ator: ele falava como um dos demais personagens e atuava de fato como um diretor dos demais, sendo partícipe da narrativa, mas resguardando-se a posição daquele que determina a direção que a narrativa deveria tomar. Era uma espécie de “Deus intra machina”. A decisão de antropofagizar até mesmo os comentários dos leitores e trazer à luz imagens que são, como dizia Freud, unmheimlich, ou seja, ex-estranhas, foi a decisão de Gerald tomou para unificar e manter sua assinatura própria, seu gesto e escritura autoral. Rui Filho associou a peça à problemática fundamental da identidade (que ligaremos, aqui, com a de autor e autoria):

Tentar diagnosticar nossa identidade, já seria um desafio imensurável. Tratar o diagnóstico, então, pelo prisma da arte, associando esta ao poder, torna a abordagem ainda mais complexa. Tudo inicia na exposição de corpos dependurados. Escolha anunciada do próprio criador. “Porque eu coloquei ali” (...). Como responder, então, o paradoxo entre “a arte tem a cara do poder” e “o poder tem a cara da arte”? O que parece ser a mesma coisa, expõe uma problemática crucial para chegarmos a tal da identidade. Na primeira questão, a arte é colocada como artifício, instrumento de determinação de uma ordem pela subjetividade da estética; na segunda, o poder se fantasia de subjetividade para esconder sua manipulação. Mas nem tão distantes estão. Equilibram-se na existência do próprio homem como fruto responsável por ambas, já que tanto arte quanto o poder são atributos da necessidade humana de superar o meio, seja ele simbólico (e portanto cultural e natural, entendendo que a origem etimológica das duas palavras são a mesma) ou político. E é esse homem, essa figura, transformada em mulher, que vemos surgir da figura do cão. Se deus é o criador de tudo e todos, então a mulher é responsável pela continuidade da vida. É ela igualmente criadora. A humanidade se configura, portanto, na existência da criação como instrumento de adoração do criador. Adoração exposta em desejo ao próprio corpo, como o strip-tease do ator (metáfora da necessidade de abdicarmos de nossas máscaras sociais para nos reencontrarmos puros e originais), como a idolatria ao inacessível, ao inquestionável, ao que cala, representado pelo Santo Graal (face existencial de criador supremo) (FILHO, 2008).

Vale a pena registrar um ponto importante: o fato da dramaturgia ancorar no “autor”, em se tratando de Thomas, não é garantia de não-decifração. O autor mesmo possui diferentes falas conforme o momento. Em algumas situações ele é “O Rebelde Revolucionário do Teatro Carioca”, em outras ele é “Conservador Realista Norte-americano”, em outras ele fala alemão, inglês, francês. Thomas parece vivenciar, enquanto autor, a dissolução do sujeito de que trataram Nietzsche e Foucault.

A virada autoral de Thomas talvez tenha se dado no momento da grande polêmica gerada por Tristão em Isolda em 2003. Naquele momento, o gesto do autor de protestar diante das vaias da audiência foi extensamente noticiado, assumindo maior importância até do que o debate – que deveria acontecer – sobre a montagem. Na montagem, os elementos que surgiam por associação livre adquiriam maior relevância que a narrativa clássica. Podemos dizer que Gerald Thomas é pós-modernista no sentido em que Fredric Jameson analisou essas formas culturais de origem norte-americana em seu livro A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio: o pós-modernismo surge como uma aceitação e valorização do momento presente, representando, portanto, um abandono praticamente total das utopias da modernidade. Por isso em seu Tristão e Isolda aparece Freud cheirando cocaína, junto a desfiles de moda, etc. A modernidade (Freud, Wagner) foi ali problematizada e, em boa parte, desconstruída. Sua direção foi entendida no Brasil, muitas vezes, como provocação hermética “chata” ou “pretensiosa”, assim como proclamação do vale-tudo nas artes, o que é um grande equívoco.

Minha hipótese é que, a partir da enorme repercussão do gesto autoral ao final de Tristão e Isolda, Thomas tenha decidido tecer sua obra a partir da autobiografia e dos gestos autorais conscientes. O gesto de protesto do encenador em Tristão e Isolda resultou em um processo para Gerald Thomas, processo ao qual ele respondeu politizando os ataques aos quais foi submetido: a era Lula, do tão esperado governo “de esquerda”, favorecia uma nova censura e acusações de elitismo contra ele. O processo acabou arquivado, mas suponho que, mais do que a visão da queda das Torres Gêmeas em 2001, seja esse fato que pode fazer o papel de navio que nos pode guiar para o maelstrom (redemoinho) que é a obra de Gerald Thomas.

Para uma melhor compreensão dessa obra multifacetada é preciso ouvir a voz do autor. Mas esse é um dos enigmas de Thomas: o próprio autor se define como um significante tantalizado, ou seja: o Holandês Voador. Ele assume uma identidade multinacional, não desejando representar a arte de nenhum país, a não ser, quem sabe, a América mestiça e de muitas vozes. Ele é anfótero: conforme o meio, ele assume o papel de ácido ou de base.

Como comentou o crítico Alberto Guzik, em Kepler Gerald Thomas deixou limpa a cena, deixando a “máquina cênica” quase nua, ele que já elaborou complicadas máquinas cênicas tal como em Carmen com Filtro. Essa clareza cênica não implica a ausência de alguns estilemas que celebrizaram o encenador: a voz em off do encenador que substituiu a voz de um ator que está em cena (Duda Mamberti), o texto oscilando entre a simplicidade e o hermetismo, a iluminação que faz sobressaltar o jogo do claro e escuro, as referências eruditas (Susan Sontag), misturando-se às de massa (Led Zeppelin) e às artes plásticas (Magritte), assim como uma reflexão sobre o poder. A reflexão fáustica sobre o poder é muito presente na obra de Gerald Thomas e ele mesmo assume que não dissocia política e estética, tal como Jameson teoriza em A Lógica Cultural do Pós-Modernismo: a superestrutura, no capitalismo tardio, perdeu boa parte da autonomia anterior.

A VOZ AUTORAL EM BATE MAN: O AUTOR COMO ISCA DE SI MESMO

Bate-Man, espetáculo mais recente de Gerald Thomas, revê, com precisas variações, questões que tratamos acima. Nessa peça o autor reflete sobre os processos que fazem sua arte através da apropriação de seu próprio trabalho e de suas criações passadas. Iconoclasta por vocação e desejo, era de se esperar que, em algum momento, fosse ao extremo de si mesmo para se recompor. Muitas são as referências paralelas a montagens recentes. As garrafas vazias (Ventriloqüist), o chão estéril de terra (Nowhere Man), as caixas e o encontro com os segredos históricos metaforizados em seus conteúdos de restos humanos (Circo de Rins e Fígados), o desfile de moda (Nietzsche x Wagner), o porão como lugar não-identificável (O Príncipe de Copacabana), os remédios e vitaminas (Terra em Trânsito), o corpo dependurado pelos pés (O Cão que Insultava Mulheres, Kepler, the Dog). Com paciência, papel e caneta chegaríamos a mais tantas outras. E o que isso quer dizer? Assim como assinala o argumento de Bate Man – o homem isca –, Gerald se fisga num panteão simbólico por ele criado, na última década, onde a construção de vocabulário particular identifica autoria e destreza. Poucos são, verdadeiramente, os artistas a constituírem um discurso preciso e particular, mesmo entre os bons artistas. Quase sempre nos defrontamos com apropriações circunstanciais, estímulos produtificados de alfabetos comuns e gerais. Gerald, não. Faz do palco e cena a expressão de um complexo sistema de metáforas organizadas a partir de percepções próprias dos fatos históricos, reavaliando suas origens através de provocativas reinterpretações sígnicas. O autor, mais do que tudo, conserva os valores deturpando qualquer possibilidade de estagnação histórica, levando os fatos e circunstância a constituírem um elaborado jogo de origens e conseqüências, como que nos avisando de haver muito mais no ontem na constituição do agora. Nessa perspectiva, por que deveria ele abrir mão de si mesmo? Bate Man argumenta, portanto, a favor do autor determinando sua particularidade e individualidade, tanto estética quanto argumentativa, em um panteão contemporâneo estéril de pessoalidades e olhares originais.

As garrafas de vinho tinto espalhadas pela cena oferecem ao espectador a possibilidade de contextualizar-se à história. E não qualquer história. A que nos torna piores do que desejamos ser. São vinhos originados em sangue humano produzidos durante a ascensão e queda do Terceiro Reich. Mas não devemos nos limitar ao tal período. A guerra hitlerista é outra vez argumento simbólico. Gerald fala de todas, identificando o horror inerente ao espectro maior do Holocausto. Assim, o homem isca, retorna à sua função de traduzir o coletivo, a face comum que nos identifica, num jogo metafórico digno de Charles S. Peirce e semioticistas de plantão. Está na guerra a maior atrocidade humana, o princípio destruidor que nos iguala e distancia, paradoxalmente. E Gerald, insistente sobre isso, vem tramando, sucessivamente, espetáculos cujo foco primordial é compreender em que momento desse paradoxo tombamos ao distanciamento. Se por um lado, o teatro reserva a comunhão dionisíaca, por outro, o discurso que se pretende questionador desagrada ouvidos. Gerald se utiliza da artimanha do humor, ou melhor, do ridículo para nos aprisionar interessados. Na construção de circunstâncias absurdas, revela o mais próximo de nossas idiossincrasias. O patético em ser humano. E a culpa histórica e religiosa configurada no absurdo da surdez autista. Um homem banha-se e serve-se voluptuosamente de vinho de sangue humano decorrente de guerras, assassinatos e atrocidades históricas. E rimos disso sem perceber que abrimos diariamente as mesmas garrafas, embriagados que estamos pelas manipulações. Enquanto nos distanciamos do ontem, na perspectiva errônea do novo, prostituímo-nos ao silenciar de toda e qualquer responsabilidade por nossos atos. Sim, nossos. Não o do indivíduo, mas de toda a humanidade. Somos, assim, iscas de um teatro ainda pior, maior, orwelliano. Nas guerras encenadas de Gerald Thomas, a humanidade é culpada por omissão, e em Bate Man, o homem devaneia embriagado pela crueldade da consciência. Como o homem de Dostoiévski, em Notas do Subterrâneo, o de Gerald opta por permanecer isolado, porém bêbado, travestido de estética e futilidade, conduzido ao sofrimento de Prometeu pelo exercício da reflexão.

Gerald exercita um saboroso monólogo sobre o silêncio, apoiado na consistência da trilha de Patrick Grant e das alongadas notas de guitarra. Não há como suprir a voz calada, nem mesmo como calar o som estridente e persistente. Bate Man mostra que estamos afundados em nossas ausências. E nada mais coerente, então, do que o autor, encenador, cenógrafo e iluminador, buscar socorro em si mesmo. O mundo se tornara excessivamente absurdo. E beber sangue humano não me parece nada além de uma possibilidade futura dentre as demais.

Gerald Thomas propõe trocadilhos para além das palavras em seu Bate Man, em cartaz do Espaço Sesc, em Copacabana, como se a ação, ou inação, do homem submetido ao “banho de vinho tinto de sangue” fizesse parte do jogo das inevitabilidades do nosso tempo. O indivíduo, torturado pela banalidade da violência, transformado numa peça de carne pendurada numa exposição de atrocidades, se esvai pelas frestas de uma realidade de sentidos duplos e aparências enganosas, que o imobiliza e atrai a sua perplexidade. Vejamos uma passagem do texto:

(Vira de costas e toma mais banho de vinho.

Murmura pra si mesmo.)

Sabe que… eu acho nunca vi….

Sinceramente.

Eu vou dizer uma coisa para vocês…

Ai…

Sinceramente.

Ai….

(pigarreia algumas vezes, como se preparando para falar.

Murmurando.)

Acho que….

Eu nunca achei que agradar a Burguesia seria desperdiçar aquilo, aquilo que eles acreditam ter de melhor. E agora? Que eu fiz tudo isso aqui.

Qual será a próxima?

(tempo, pensando.

Conclui.)

Um banho de caviar?

Banho de caviar.

(olha para baixo e vê caixas de caviar.

Encontra caixas de caviar.

Se assusta com a surpresa.)

Ahhh (...).

E OLHA QUE LOUCURA ESSA AGORA!

MEU DEUS DO CÉU.

Roupas FASHION!

Não posso acreditar.

Um John Galiano direto da próxima coleção de verão!

WOW!

(entra música. Bate Man se veste e começa a desfilar) (THOMAS, 2008).

Portanto, o que resta a esse homem, bêbedo do real, mas que desconhece as razões para o que vive, encharcado de incoerência e de culpa. No teatro de meias verdades ou de mentiras cínicas, interpreta o papel do bufão ensangüentado que bebe vinhos de safras incontornáveis e participa, como foi visto acima, de patético desfile de moda, numa antropofágica deglutição da imensa solidão do silêncio dos tempos.

Nas metáforas da existência na atualidade, Gerald Thomas não abandona as citações, a busca de representar o momento com fatos do passado, de reinterpretar significados e reverberar a imobilidade ruidosa. A escrita cênica de Gerald Thomas capta a intensidade com que expõe as suas próprias dúvidas e inflexiona a arte contemporânea. A capacidade de criar identidade visual para suas montagens permite que o autor, diretor e cenógrafo deixe, a cada espetáculo, a sua marca também na ambientação. Em Bate Man, a semi-arena coberta de areia, com caixas de vinho espalhadas pelo chão e um simulacro de palco ao fundo, cuja cortina se abre para desvendar atrocidades, confirma a sua mão firme para o desenho da cena.

CONCLUSÃO

A obra de Gerald Thomas é uma obra de signos em rotação. Concluímos aqui que entrou numa rotação ainda mais intensa recentemente, acelerando o seu maelstrom de referências. O “turning point” da obra, supomos, foi o gesto autoral de protesto em Tristão e Isolda. O resultado foi a guinada para relatos intensamente autorais ou até mesmo autobiográficos que realizou o autor em Terra em Trânsito e Rainha Mentira (Queen Liar). Analisamos também, brevemente, a blognovela O cão que atacava mulheres ou: Kepler, the dog, considerada por Gerald Thomas como continuação da trilogia iniciada em Terra em Trânsito e Rainha Mentira. A blognovela passou por uma transformação entre o seu formato original no blog e a encenação. Nessa mudança, investigou-se o traço autoral de Thomas. Ao verter a peça, originalmente apenas literária, para o teatro, Thomas tornou-a algo marcado pela preocupação em, com imagens de pesadelo, buscar mobilizar o inconsciente, refletir as relações entre arte e a política no mundo atual, referindo-se indiretamente a episódios de tortura em Abu Ghraib, por exemplo. Em Bate Man, ele continua esse trabalho autoral de encenação de si mesmo em um monólogo escrito para o ator Marcelo Olinto.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, Severino J. O Teatro Brasileiro na Década de Oitenta. Latin American Review. No. 25.2 (Spring 1992), p. 23-36.

ALCANTARA, Marcelo. Crítica: O cão que insultava as mulheres: Kepler, the dog. Revista Bacante. http://www.bacante.com.br/revista/critica/o-cao-que-insultava-as-mulheres-kepler-the-dog.

BOOTH, The Rethoric of Fiction. Chicago University Press: 1983.

BROOK, Peter. O Teatro e seu Espaço. Rio de Janeiro: Vozes, 1970.

FILHO, Rui. Kepler, o cão atordoadohttp://antroparticular.blogspot.com. <acesso em 20/01/2009>.

FONSECA, Mau. O Teatrocinema da blognovelawww.maulsoleu.blogspot.com. <acesso em 20 de janeiro de 2009>.

GEORGE, David. Gerald Thomas postmodernist theatre: a wagnerian antropofagia? Luso-brasilian Review, XXXVII, 1998.

GUINSBURG, Jacó et. FERNANDES, Sílvia.  Um encenador de si mesmo: Gerald Thomas. São Paulo: Editora Perpectiva, 1996.

GUZIK, Alberto. O Impacto de Keplerhttp://os.dias.e.as.horas.zip.net/arch2008-11-09_2008-11-15. <acesso em 20/1/2009>.

JAMESON, Fredric. A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. São Paulo: Ática, 1996.

MACKSEN Luiz. Texto pretensioso de Gerald Thomas expõe crueldade de nosso tempohttp://jbonline.terra.com.br/extra/2008/12/17/e171213626.html. <acesso em 21/01/2009>.

REIS, Luís Augusto. Piscator, Brecht, Boal e Artaud – Considerações sobre o teatro político. www.ccb.com.br. <acesso em 21/01/2009>.

THOMAS, Gerald. Presswww.geraldthomas.com. <acesso em 21/01/2009>. 

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior. Graduado em Filosofia (UFMG) e Mestre em Estudos Literários por essa mesma universidade. Atualmente, doutorando em Teoria e História Literária (UNICAMP). Autor do livro de contos Penetrália, pela editora Dez Escritos (2005) e do vídeo Falas de Lúcio Júnior em Blognovela de Gerald Thomas (2008), disponível no Youtube. Mantendo um blog (www.penetralia-penetralia.blogspot.com) e colaborador com sites na web tais como a revista Broca Literária e A Barata. Contato: lucio1405@yahoo.com.br.

domingo, 23 de abril de 2023

Se Cercar Vira Hospício é Deus: Maura Lopes Cançado na Seção de Saldos

 

 

                Se Cercar Vira Hospício é Deus: Maura Lopes Cançado na Seção de Saldos

 

                Nossa cidade não tem livrarias desde 2008, mais ou menos. A última existiu aqui ao lado, na Praça da Matriz, onde hoje é a Praça Lanches, aliás excelente local, propriedade do amigo Ivan, assíduo leitor desse jornal.

Na adolescência, nos anos 80, o professor Ronan tinha uma livraria na Praça da Rodoviária, onde hoje é um açougue, se não me engano. Lá estava sempre o professor Juninho, que posteriormente deu grande contribuição ao teatro e até ao cinema locais, com o filme Uma Chance para Glória. Ele lançou os atores Italo Laureano e Thales Braga, dentre outros. Italo Laureano recentemente fez a minissérie Segunda Pele, série onde ele faz o tenente Selton do Bope e que teve apoio da PM. Eu tenho uma memória distante dessa livraria, mas lembro-me nitidamente do hoje economista Bruno Carazza dos Santos entre seus frequentadores. Hoje Bruno escreve uma coluna no jornal Valor Econômico, teve o blog Espírito das Leis junto da Folha de São Paulo e tem um site na internet (brunocarazza.com.br).

            Até bem pouco tempo atrás, eu costumava encontrar livros numa papelaria chamada BD Útil. Os livros ficavam ali ao fundo, mas infelizmente a papelaria acabou. E foi numa livraria, uma espécie de seção de saldos que abriu de forma passageira ao lado do Banco do Brasil que encontrei, finalmente, o livro Hospício é Deus, Diário I, de Maura Lopes Cançado, a maior escritora que viveu aqui nesse nosso Bom Despacho. O perfil biográfico ao final do livro citou nossa cidade:

 

            Uma garota bonita que desafiava a morte em um aviãozinho amarelo. Essa imagem nunca saiu da memória de um menino de calças curtas que brincava no esqueleto de um velho Aeronca Champio e divertia-se ao ver os voos do aeroclube de Bom Despacho (MEIRELES, 2015, p. 210).

 

            Esse menino, segundo o jornalista Maurício Meireles, que escreve um estudo biográfico que fez as vezes de posfácio do livro, era o jornalista Pedro Rogério Moreira. Nós o conhecemos aqui na cidade como Pedrim do Sô Benigno. Posteriormente, Pedro Rogério foi colega de Cesarion Praxedes, jornalista, poeta e filho daquela menina, a escritora Maura Lopes Cançado. E escreveu, inspirado nela, o romance Bela Noite para Voar. No livro, ela inspira uma mulher que também é piloto de avião e salva o presidente JK de um desastre aéreo tramado por conspiradores. Um dia, ao falar de Maura a minha querida amiga Luciene Guimarães, maior tradutora de Marguerite Duras no Brasil, sabia dela e contou-me que a academia estuda bastante Maura: “ela é a louca que escreve”.

            Maura entrou no aeroclube (que era onde é o bairro Campo de Aviação) aos quatorze anos e lá conheceu outro piloto, Jair Praxedes, filho de um coronel da PM, o nosso coronel Praxedes (que deu nome a uma de nossas escolas). O casamento não durou muito e foi apenas no religioso, por exigência de José Lopes Cançado, o pai de Maura. Segundo Pedro Rogério do Couto, Maura era uma mulher adiante de seu tempo. Era tida como libertina, as outras mulheres tinham inveja dela. Ela casou grávida antes disso virar regra, como é hoje em dia, quando o feto acelera os procedimentos matrimoniais e só assim as pessoas casam-se. Ao contrário, nesse tempo isso era enorme escândalo (anos 40!). Ela tinha mania de grandeza e dizia que seria a maior escritora da língua portuguesa. Maura foi amiga de Carlos Heitor Cony e ele disse, posteriormente, que sua coluna Da Arte de Falar Mal, no Correio da Manhã, foi inspirada numa fala de Maura. Ela dizia que seu esporte preferido era falar mal dos outros, dizia que “falar mal é uma arte”.

Maura Lopes Cançado teve uma vida muito trágica, marcada por internações em clínicas psiquiátricas. Numa dessas crises, matou uma moça grávida de quatro meses. E, depois disso, traumatizada, passou a morar com o filho Cesarion Praxedes e nunca mais escreveu. Ela pouco trata de nossa cidade em seu livro, nem menciona seu nome. Bom Despacho, de certa forma, perseguiu-a, ela, por ser separada, tentou inscrever-se no instituto Izabela Hendrix em Belo Horizonte, mas sua fama chegou primeiro e ela foi recusada lá. Ela era apaixonada pelo sogro, o coronel Praxedes. A família Lopes Cançado daqui de Bom Despacho tem parentesco distante com ela. Já acompanhei um curso de Literatura e Psicanálise a respeito de sua obra, disponível no youtube. Maura foi elogiada por Assis Brasil, um dos mais importantes críticos literários do tempo em que lançou Hospício é Deus e Sofredor do Ver, seus únicos livros.

            Maura é imbatível como nossa maior escritora. Recentemente, uma peça chamada Uma Mulher ao Sol, de Danielle Oliveira e Maria Augusta Montera, dirigida por Ivan Sugahara, inspirou-se no livro Hospício é Deus. Foi notícia em O Globo, a peça foi encenada no Rio de Janeiro. Paulo Sérgio Teteco, amigo de Pedro Rogério, passou-me essa interessante informação em março desse ano de 2023. “Maura, super-Maura, Maura de todas as coisas e de nada, solene e vaga”, diz ela, autodefinindo-se. Sendo bem “fora da casinha” e tendo sofrido aqui, com certeza Maura adoraria a definição que os bom-despachenses dão, de forma bem humorada e piadesca, de nossa cidade e de si mesmos: “se cercar vira hospício, se colocar uma lona, vira circo”!

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

Quero Ver Irene Rir: O Sol nas Bancas de Revista

 

 

            Quando vou a uma banca comprar revistas e jornais, que aprecio muito no formato físico, lembro-me com frequência da canção de Caetano Veloso: “Alegria, Alegria”. Nessa canção Caetano comenta, na verdade, que via nas bancas de revista o jornal de vanguarda O Sol, onde escrevia Nelson Rodrigues, dentre outros. O Sol não brilhou muito tempo, mas foi eternizado nessa incrível marchinha.

            Hoje nossa cidade tem somente duas bancas de revista. Uma delas vende revistas e também passagens de ônibus e é comandada por Alberto. A outra fica na Praça de Matriz, comandada pela simpática Irene, irmã de Alberto. Alberto é um senhor bastante sério e surpreendeu-me um dia, quando contei a ele que sou socialista. Ele disse que é socialista também e que o maior socialista do mundo foi Jesus Cristo!

Eu sempre achei um prazer ler as notícias e ver as capas de revista e manchetes.  Ela contou que trabalha há quarenta anos com banca de revista, mas que essa época da internet é a época mais difícil para esse empreendimento. Ela mostrou-me alguns brinquedos: a distribuidora passou a entregar até brinquedos para vender em bancas. Contei a ela que vi, em Belo Horizonte, bancas cobertas de roupas para vender, num espetáculo melancólico. Falei a ela que, mesmo na biblioteca pública e na escola onde trabalho, as assinaturas de jornais e revistas foram cortadas. Um dia encenamos uma peça teatral onde o pai de família lia um jornal. O jornal encontrado pelos alunos foi esse Jornal de Negócios, cujos exemplares eu levo para a biblioteca da escola com bastante frequência. Ela contou-me, com tristeza, que não abre mais a banca em dias de domingo: nada de comércio, nem o Xuá Lanches abre mais aqui na praça, ela fica ali sozinha e tem medo, restam da madrugada alguns bêbados, ela acabou preferindo não abrir mais. Uma pena, pois o domingo era, no passado, um dia onde, tradicionalmente, as pessoas tinham mais tempo de ler jornais e revistas.

            Minha mãe é ávida leitora de jornais. Eu contei a Irene que eu tentei assinar o jornal O Tempo para minha mãe, mas a empresa desistiu de renovar assinaturas para o interior. A ideia deles é concentrar a venda apenas na região metropolitana de Belo Horizonte, conforme fiquei sabendo ao entrar em contato com a empresa. Um carro vinha trazendo os exemplares para o interior, mas com a queda nas vendas, passou a ser inviável. O Tempo passou a chegar apenas às sextas-feiras. Numa sexta passei lá e encontrei o último exemplar. São apenas quatro, comenta a sempre atenciosa Irene.

 Igualmente, soube que algo semelhante ocorreu ao jornal Aqui, que era muito barato e vendia bem diariamente, passou a ser semanal e as vendas despencaram. O poeta, editor da Literatura em Cena e psicanalista Eduardo Andrade, personagem frequente dessa minha coluna, explicou-me, recentemente, que o preço do papel aumentou com a venda on-line de mercadorias durante a pandemia. É muito mais lucrativo vender papel para embalar mercadorias do que para fazer jornais e revistas, daí a crise do papel.

            Outra revista que eu compro com Irene é a revista Piauí. Eu sou um dos poucos compradores da cidade. Como assim da cidade? Irene disse que vem um rapaz de Dores do Indaiá que passa ali para comprar. “Mas lá não tem banca?”, perguntei eu, perplexo. “Não, não tem”. Diante do meu espanto, completa ela: “não tem mais banca de revista em Luz, Nova Serrana e nem Moema”. Que triste realidade, a do nosso interior!

            E assim, angustiado, pensando em como a vida é breve e tudo acaba, peço aos meus leitores apoio às nossas duas bancas, para que apoiem os vendedores e para que elas não fechem. É um apelo...E ao fazê-lo penso em outra canção de Caetano, Irene: “Quero ver Irene rir! Quero ver Irene dar sua risada...”