sábado, 22 de dezembro de 2007

Casuística

Entre o Folclore & os Móbiles: Casuística, de Johnny Guimarães

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

O livro de poemas Casuística, de Johnny Guimarães (Ed. Alba, 2005), parece imaginado pelo autor como a realização de um Apolo juiz & promotor de si mesmo. Para os leitores de orelha de livro, ele oferece um deleite, pois faz poesia na orelha. É como diz Jô Soares: a orelha nasce, depois a pessoa cresce ao redor. Parece sonhar que do branco sobre branco de Malevitch podem nascer bandos de cores que sairão, ao primeiro olhar, esbaforidas e soltando penas de pavão rumo aos olhos do leitor.

O estilo possui algumas ligações com o estilo da obra anterior, Dentre Outras Coisas, quando o poeta explodiu com força na primavera de 1996, contribuindo intensamente no Estado de Minas, ora elogiando a genialidade de Carlinhos Brown, ora atacando o poderoso Jero Oliva. Durante certo tempo, Johnny foi poeta eletrônico do Canal 25, fez prosa poética ao vivo sobre o incêndio do Palácio das Artes: cada chama era um de nós vendo o espetáculo do drama real. Queria ver esse texto em livro.

O que vejo em Casuística e o que me parece, nessa segunda obra, caracterizar o poeta é seu fascínio pelo mal e pelo grotesco da vida. Ele quer fazer artesania do verso, vaso grego de Bilac, com a lama das ruas, com o grotesco e o mínimo arabesco. Os traços da violência e do horrendo aparecem, muitas vezes, quase crus, outras vezes sublimados, com pinceladas mais fortes do que no livro anterior: “Balas em rota, entrando:/Teima de cigarro vivo/Berne saindo ileso, silhueta rasgada, voz ardendo/Brasa de lagarta acesa” (1º caso); “Perneta, aprendeu estripulia, fazendo truques com o guidão”; “Um pedaço de pau de estante/ Nas mãos de um brutamontes sem cansaço/ À espera dela/ Maldita, distante” (4º caso); “Quem bateu forte/ Sua testa preta? (6º. Caso); “Não há suporte para o chute forte/Que lancei sobre sua porta/ Na certa, a resposta para a cicatriz/ Que plantei em sua testa, não há” (no 8º caso). “1º choque: Dinâmica dos corpos. Dinamite”: “Estupro: estalo na hora exata o tal/ Da desconhecida, que se estrepa”.

No entanto, esse novo livro demonstrou uma densa virada para o laconismo. Casuística tomou um longo tempo de maturação, os anos entre 1997 e 2005; mostra o poeta voltado para o encurtamento do verso.

Prefiro, nesse livro de Johnny, os “casos”, que é como batizou seus poemas. São apenas doze casos. A idéia do móbile também o fascina: o quadro “Folclore”, de Mauro E. Gemini, mais do que dar a idéia de causo ou conto popular, transmite a idéia de um diálogo com as artes plásticas, ao estilo de um Calder, por exemplo. Os poemas curtos me pareceram hai-kais autocomplacentes: “No espelho/Brinco de verbo/dançando”. “1º. Pecado: Comigo/ Por que todo Deus/ Acaba com eu?” Deve-se evitar a complacência consigo mesmo, pois é pecado literário que se insinua nas melhores penas, dentre as melhores trupes. Tudo o que o artista faz é abracadabra?

Mas, como dizia Bernard Shaw, “compreender tudo é perdoar a todos”. Johnny, poeta de nome anglo-saxão, troca os números das páginas do livro por cores: verde, amarelo, vermelho, roxo, laranja. Como diria Caetano Veloso, “americanos são muito estatísticos”.

Para Johnny, a mulata não é tal. A direita festiva interessa? O formato do livro, a capa, tudo aponta para uma estética minimal, econômica e tácita. Deve-se falar pouco, economizar palavras. Johnny, o yankee da terra dos Miltons Campos & Nascimento, exibe-se como o muquirana das palavras, o Dry Drummond semi-árido, o João Cabral dos Stresstabs, ululando em sua Sétima Dose: Fragmentos de um avanço de sinal (na verdade é, na seqüência, seu sétimo caso):

1, 2, 3 passos e engulo pés./ Sinal verde!/ Os carros parecem remédios ou agulhas: gol 1000 cor de stresstabs 600./ Uno Mille lexotan. Passat velho com detalhes prosac nas laterais./ Casal discutindo comprimido numa Saveiro vinho./ Pressa é poeira, que assenta na nuca e nunca mais sai dali. /Tomei pílula de CSN que ficou engarrafada no esôfago./ Harley Davidson às vezes apraz./ Sentir falta da noite tem diagnóstico?/ A rodovia medicamentosa sob minha janela/ Talvez solucionará minha patologia./ Pior é buzinar que meu declive/ (fobia) é enguiço do metabolismo./ (...) Atropelamento: medicamento que inaugura o estacionamento de minha morte.

Dentro da lógica deste “johnysio” mineiro, até mesmo a bacanal deve-se fazer quieto, em silêncio, numa postura britânica. Sem latim nem francês, ele pergunta diretamente: “emotion tem botões?” Não, poeta, a emoção não pode ser detonada com o simples apertar de um botão. Em alguns de seus poemas, não nos haikais mais espoletas nem nos mais traquinas poemas-piada, mas sim nos mais tranqüilos e mais longos, sua poesia toca as cordas do coração, apesar dos Auschwitz da vida.

Beco do Escarro: Fragmentos Inéditos de Oswald de Andrade

Decifra-me ou Devoro-te: Fragmentos inéditos de O Beco do Escarro

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Os textos que aqui apresentamos são fragmentos garimpados no arquivo CEDAE/UNICAMP, local onde está o acervo de Oswald de Andrade (foram consultados os cadernos 1272, um caderno marca Guarany 1280 e um caderno azul-marinho, número 1264). São apontamentos esparsos de um romance incompleto. Eles comporiam o terceiro volume do romance cíclico Marco Zero, do qual foram publicados dois volumes: Revolução Melancólica e Chão. Estavam reunidos num caderno de trezentas páginas, mas com anotações somente no início e no fim, sob o título de Beco de Escarro. Em Marco Zero, Beco do Escarro um aglomerado de bares do centro de São Paulo onde viviam os desvalidos da metrópole, bêbados, fracassados, vagabundos e boêmios. São as inúmeras notas para “Beco and After”, datadas de 29-11-1947 e maio de 1948, Oswald fez as seguintes anotações, num conjunto mais substancioso, que foram debatidas aqui. Oswald mesmo afirmou que Beco era o “recomeço de trabalho longo tempo desviado” (ANDRADE, 1947).

Foram textos escritos sob o signo dos reveses que se acumularam para Oswald no fim da vida. Rompido com os comunistas, Oswald ficou numa posição difícil, combatido tanto pela esquerda oficial quanto pelos conservadores, para os quais não era confiável. Para agravar mais o quadro, seu estado de saúde foi piorando entre o final dos anos 40 e o início da década de 50. O primeiro fragmento de Beco do Escarro descreveu o momento em que foi encontrado o corpo da personagem Lindáurea, vítima da “devoração universal”:

Junto ao muro, o boneco de engonço pendia sobre o pequeno saco largado, preso no escuro das árvores. Seguira-se um silêncio de devoração, onde o cigarro do homem não (...) mais. Um automóvel passava estrídulo, luzes vermelhas ativas. O boneco descera, duro, enorme, sobe o saco espedaçado. Lindáurea despendia-se dos braços do homem (...). Um bafo de jasmin inundara a rua deserta (ANDRADE, 1947)

A imagem acima descreveu um corpo tornado objeto, coisa inerte, ou seja, uma denúncia de um processo de desumanização. Todos os fragmentos foram marcados por cenas de mulheres rebeldes: a rebelião contra a vida de Lindáurea, a rebelião de Miguelona contra seu destino e contra a família, a rebelião da filha de Diná, uma adolescente rebelde que teria lido Freud, Schopenhauer e Nietzsche aos 14 anos, que se atreveu a dar “lições de psicanálise”, por supostamente conhecer muito bem esses autores: “Ela (a filha de Diná) retrucou: --você é um imbecil e mamãe é uma cretina. Ela é bonita e moça e podia muito bem ter dez amantes (...). Um atrasado como você, um besta e um chato. Se eu fosse a mamãe te corneava todos os dias!” (ANDRADE, 1947).

A cena seguinte foi montada também de modo a apresentar o universo de um movimento em um fórum como sendo também frio e desumano, além de repleto de contrastes sociais:

Aquilo ali era o Palácio da Justiça. Uma grande construção nova abafada de casas da velha cidade. Miguelona Senofim entrava hipertensa seguindo um grupo de homens. Havia outra mulher no elevador. Saiu atrás dela no último piso. Ali era a secretaria do tribunal. E ela pôs-se a descer, a subir escadas, a percorrer corredores escuros, a espiar as salas abertas e ativas no tumulto do dia jurídico. Tinha tudo dum palácio, a grandiosidade e o aperto, mas parecia uma feira, tal o movimento de pessoas de todos os aspectos sobraçando pastas, levando papéis, saindo, correndo (...).

O elevador despejou-se com ela no primeiro piso. Os circunstantes sorriam. E durante alguns minutos a velha de óculos pateteou pelos páteos, pelos corredores até que um grilo levou-a ao vasto peristilo central e lhe mostrou a porta do júri fechada.

--Está de férias!

Largou-a ali como uma criança abandonada. Ela perdera o objetivo. Encaminhou-se para a saída lateral, mas alguma coisa a retinha. Era impossível que a justiça dormisse enquanto andavam soltos e impunes os assassinos, os traidores e os ladrões de sua classe.

Mais adiante, Miguelona sentiu a “tragédia econômica” de sua vida, pois sua irmã, D. Europa, fora mais sabida do que ela: “Ela nunca mexera com o que tinha recebido – aquele renque de casinhas operárias da rua Espósito.” Já a parte de Miguelona, uma vila numa ponte terrosa da Móoca e os dois sobradinhos na Rua dos Estudantes, ela trocou pelas terras imaginárias do Major. Chorando e xingando, Miguelona repetiu para todos no fórum seu infortúnio: “Stô na Formosa pratando argodó di meia. Fui lá que o Índio Cristo deu em cima da Vesguinha e fiz morrê inforcada a Maria Pedrão. Agorra vim aqui e o júri tá fechado! Depois que mitomaro as terra tirrei as lágrima dos óio. Fui robada do Majó! Nigócio com gente grande non faço mais. Donde é a cadeia? Quero i na cadeia (ANDRADE, 1947).

Segue-se um corte e, mais adiante, já estamos na “Vila Miguelona”, espaço criado pela cínica D. Europa. O conflito nessa passagem foi entre a mulher de Zico Venâncio e Maria Parede, um conflito que espelhou o confronto entre a operária e a sedutora comunista de origem burguesa, provocando a revolta da mulher do operário:

Fora roubado (seu homem), primeiro pela causa comunista. Não pudera assistir à agonia do filhinho em 32. Tinham vindo buscá-lo e soltaram-no no final da revolução (...). Crescera seu entusiasmo (de Zico) pelo comunismo como se visse na adesão da burguesa instruída e bonita (Maria Parede) uma confirmação de seu destino político. O comunismo era bom para os ricos, que podiam se esconder, fugir, pagar advogados, receber na prisão a comida dos restaurantes e a visita dos parentes. E não eram espancados. Havia uma porção de gente fina metida com os operários. Era gente formada, mas o Dr. Torres lhe dissera que tudo aquilo era falso. Faziam por vaidade, para terem vida interessante (ANDRADE, 1948).

O tema acima foi recorrente em Beco do Escarro: a crítica ao comunismo. Na prática, continuou existindo a divisão entre pobres e ricos, até mesmo dentro da luta comunista; Maria Parede veio trazer mais problemas para o lar ao seduzir o marido operário:

Estudar a psicologia profunda. A história do homem é a história da sua fome. O homem depois de satisfeita a sua fome tem outra história, outras necessidades daí virem as superestruturas e a divisão em classe. O trabalhismo, a desorientação comum. O sectarismo e a inquietação do proletariado. Prestes abúlico e reformista. Está perdida a grande militância.. A seguir, há uma nota chamada Marco Zero e a Comédia Humana. Oswald escreveu: “Balzac psicanalisa os personagens imediatamente. Tudo isso é pinto perto de O Muro” (ANDRADE, 1947).

Outra figura feminina rebelde e insatisfeita com seu casamento foi Stella. Ela surgiu mais adiante, num fragmento intitulado “Via Sacra”, que contou a história de amor entre Stella e Vinícius. Oswald buscou parodiar os diálogos Kitsch de uma fotonovela, inclusive com um diálogo humorístico em que o apetite sexual foi equacionado com a fome orgânica. O drama foi reduzido ao mínimo, numa narrativa simples: Vinícius era casado e Stella, apaixonada, sofria com isso. Logo quando se encontraram, Vinícius disse:

--Bravo, Stella! Uma vez mais você é pontualíssima nos nossos públicos encontros! Faremos novamente a mesma via sacra, apreciando os mesmos programas que este jardim nos oferece (...).

--Vamos ver os peixinhos?

--Porque não? Quantas horas em seu relógio?

--7,30, criança!

--Você disse criança? Por que?

--Irrefletidamente. Sinto-me tão bem (...). Sabe que gosto de versejar?

--Sei também que você não há de querer chegar tonto em casa!

--Ironia?

--Não. Fome. Cansaço. Não está cansadinho?

--Não. Tem fome? Quer amor?

--Não, obrigada. Sinto-me tão bem que nem nisso penso, além de que, nenhum sintoma de apetite.

--Amo-o muito, muito e muito.

--Obrigado, querida. Seja feliz. Que Deus a abençoe (ANDRADE, 1948).

Mais adiante, a moça ingênua, quase tola, contou para o padre de seu amor por um homem casado e levou um cômico sermão. Além dessa verdadeira paródia de uma fotonovela ou dramalhão, onde o oposto do pecado é aquilo que o antropófago mais fez: desejar o alheio. As cenas escritas para Beco do Escarro caracterizaram-se por conter brigas de família, polêmicas e discussões. As figuras de mulher, sempre problemáticas, reaparecem aqui e ali: “O pobre milionário que acumulou fortuna sente-se doente e cansado aos 40 anos e impotente para vencer a turma de Ubaldos e de Fúlvias que tem em casa. A mulher uma pata-choca” (ANDRADE, 1948).

Finalmente, podemos dizer que Oswald buscou onde estavam as deficiências nacionais para aí atacar e produzir uma obra. Primeiro inovou na literatura, produzindo poemas e romances. Depois tentou o teatro e finalmente quis inserir a filosofia como motivo-guia de seus romances. A filosofia, no final de sua vida, foi uma força que o impulsionou. Dela tratou o personagem Dago Lima, nos seguintes termos:

Eu deixaria de ser Eu (nota prerrogativa. Eu quer dizer Kierkegaard, Nietzsche ele). Se não agisse assim. Em pânico diante do Nada que se levanta e opõe em meus caminhos. Como Kierkegaard, a minha verdade está na derrelição metafísica (...). Eu defendo a Gioconda. Identificação de classe. O primeiro sorriso burguês! Era muito fácil, no entanto, recorrer ao humanismo (ANDRADE, 1948).

E assim o texto prosseguiu, com referências às questões existenciais e ao Idiota de Dostoievski, a Sartre, entre outros. Oswald seria um detector de áreas problemáticas da vida artística nacional. É para essas áreas que ele dirigiu seu espírito crítico, sabendo-as carentes de desdobramentos no futuro. Ainda que deixado apenas no esboço, Beco do Escarro serviu como um interessante esboço da paixão de Oswald pela filosofia. Ele buscou, naquele momento, debater o que de mais atual existia na Europa: o existencialismo. Resta-nos investigar o que sobrou de seus experimentos e debater a forma de humanizar o homem, envolvido agora em devorar a si mesmo e ao planeta Terra, como mostram fenômenos como a globalização e o aquecimento global.

Bibliografia:

ANDRADE, Oswald de. Beco do Escarro (fragmentos inéditos produzidos entre 1947 e 1948). Campinas: CEDAE/UNICAMP, 2007.

____________________. Chão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

___________________. Estética e Política. Rio de Janeiro: Globo, 1992.

Fúria Lânguida, Rodrigo Soares Camargos

ÊNCLASE

Porque penso

Se forçosamente estou

Tal como vou

Porque penso

Se sempre esqueço de meu braço

Se sempre acordo às 6:00

Se me despenteio no vento

Porque penso

Se assim me incendeio

Se minha verve explosiva

De um sim distancia-se

Porque penso

E invento tanto

Alardeando como um santo

A faca de tais elementos

Porque me dilacero na contradição

Porque me embebedo da insensatez

Porque me esqueço do despertador

Porque penso

Pulsando por impertinência

Vagando por qualquer clemência

Anômalo

Em sua insistência

Porque penso

Porque vejo

A túnica que se desgarrou

De sua entropia

Porque penso a tristeza e a alegria

Porque não fluo

Nas inadequações do dia

Porque coleciono medos

Receios estéreis

Porque não fluo

E significo aporias

Porque não esqueço de mim?

Porque penso

E peno

Atravessando o inferno

No meu próprio umbigo

Forte

Fraco

Soberbo

Perdido

FARSA

Que se adequa a cada desafio

ESCRAVO do vazio que a cada hora crio

ESTRANHO inerte na droga do cio

Quem sou eu?

A pergunta volta

Que circo cíclico

Zomba desta pobre alma

Encontro-me devassado

Preciso de espaço

Não consigo fugir

Sinto medo

Porque sinto?

MINHA FÉ

Nos idos de 2005, encerro já os meus versos

Meu manifesto está mudo

E demasiado lúcido

Miúdo para qualquer panfleto

Meu leito esgarça-se

Meus braços expandem-se

Tudo querem abarcar

E minha fome aumenta com o tempo

Este ano de tantas esperanças

Pouco acrescentará às lembranças

Espero ao menos ter semeado

O odor dos acessos

O ocaso do tédio

Na corda bamba fui tentando aprumar

A rota do meu escancarar

Testemunha do esforço agudo a se debater

O rio de vãos sorrisos se esquecerem

E se reerguerem insólitos

Talvez numa cruzada sólida

Vestida de lucidez e força

Como uma tomada nova

Visitei incontáveis ângulos

Nem sabendo que havia tantos

E neste momento de ciência

Vejo-me exaurido

O tanto que doei é só o que ganhei

A façanha de engendrar o possível

Das entranhas do que parecia insano

Guardo no silêncio

As esperanças módicas

E me atiço viscoso ante as possibilidades

Este meu ar delirante

Ainda me fará arder

Temo morrer queimado

Por minhas paixões

(Re)encontro a dor tanta

No acabar do ano

CURVA

O noticiário da TV

Jorra peças sombrias

Envolvidas pelo ácido

De uma neo-selvageria

Pós moderna

Aviltada

Quando a frustração alimenta o sangue

E o sangue é vendido feliz

A barbárie via satélite

Novos tempos

A barbárie via satélite

E o noticiário da vida

Padece da mesma irrazão

Tanto quanto aqueles mesmos fatos mortos

A vida e a barbárie, juntos

Numa transa frenética

Os corpos mortos estão vivos

E os vivos, mortos

Seu legado fétido toma a tudo de pronto

E a carne pútrida reveste os tantos corpos belos

Pois a violência é a outra face

É o negativo

É o outro lado

Violência é tudo o que você vê não vendo

É o outdoor

São as luzes histéricas clamando atenção

Os corações excitados e exilados

São as manchas das sirenes

Rasgando a noite

É o tempo parado sobre rodas

É o calor que cobra e asfixia

É a multidão incógnita e premente

É toda promessa de frustração

Estampada em toda propaganda

É todo o tempo contado e ofegante

É todo edifício garboso esbarrando em favelas

É todo condomínio-feudo no meio do caminho

É todo império do vazio

É toda possibilidade de impossível

Todo caminho demasiado longo

É tudo isso que fazemos repetindo aceitando

É toda essência do que somos

Do que nos transformamos

Qual violência você escolhe:

Com ou sem sangue?

Há farta escolha vil nesta real constatação:

Indo nesta direção

Violência é o que lhe espera após a próxima curva


LVUÉOESRDUUX

Não consigo arrumar a bagunça que há em mim

E no mundo e em você

E agora

- me pergunto e puno

Ao não digerir estes traços inacabados de tudo

Esta bagunça Este mundo assusta

E eu não acabo a mim E ao mundo e a você Nada está acabado e ainda sim Tudo terminado em sua imperfeição

E impropriedade E

ainda sim tudo se insinua

Mas não desnuda

E a vida está eternamente preparada

Para um tudo que não se acha

E que tende mais para um nada

atejorp es odut sioP

Mas não se acarreta

Ou se desperta

Nestas eternas tendências às meras De frases inebriantes e abertas

Esse real de promessas

Imersas de sonhos mundanos

Cruzados no ardor do caos

Dessa sentença estranha

Que a ninguém encanta

O improvável do imponderável

Que se torna justiça

O salto ao vazio

Que se faz de verdade

O fio não se acha

O que afirmo se dissolve

Nesse ocre do olhar insone

Vigilante na teia de ghosts

Supernovas nauseantes

Me deixando, te deixando assim todo perdido

NÃO CONSIGO ARRUMAR A BAGUNÇA E O TURBILHÃO VAI ENGOLIR

Poemas do Mutuca

Mutuca

Embora o véi

Pouco tenha a dizer

A quem o procura,

A verdade é que adora

A sua maneira

(será que já era?!?)

Peculiar e rara

De encontrar a verdade!

Respira aliviado

Quando o moribundo

Ainda reage a uma mutuca!

Ura, ora! Ira?!? Era, ara!!!

Ruim

A ruim porta:

Ciúmes, inveja, iras...

Tão cheio de melindres, ai, ai...

Vive fazendo birras, que nem a Dopai!

Será que

O Rui importa

Deixa-se o pronome

Fora de lugar

E o que digo, fora de dúvida.

24

Para a.

Tentei pescar um E de seu nome,

Você ouviu,

Ou viu escrito

E então me aclarou.

Sorrindo, pensei apenas.

Que pra ser ALEGRE

Pra ser FELIZ

Precisa-se de um outro

Nome.

Como quis!

Como ainda quero...

Pequena Tainã

Meus agradecimentos ao Juninho,

Ele fala mas não usa!

Devo-lhe todos os poemas

Que fiz pra Tainã,

Sua pequena filha, e...

Minha grande musa!!!

O que nos quer o Barroco?

O barroco persegue os mineiros, embora a frase “o que me quer o Brasil que me persegue” seja do poeta baiano Gregório de Mattos. As cidades coloniais mineiras são um espaço onde o passado se faz matéria concreta, onde a história se faz sentir, petrificada. No entanto, Haroldo de Campos definiu o barroco como “uma das constantes da sensibilidade brasileira” (CAMPOS, 1962: p. 83/94.)

Para além do estilo de época, o barroco é muitas vezes considerado um componente atuante na própria identidade nacional, pois remete ao impuro, ao mestiço. Do Modernismo de 22 em diante, ganhou muito prestígio a versão de que a identidade do Brasil é ser uma mistura, um país híbrido, sincrético. Diz da questão nacional o professor paulista Enio Squeff:

No Brasil continua-se a discutir o nacionalismo: tanto falam dele os que escancararam as portas do país às multinacionais como os que pretendem que o nacionalismo suponha algumas soluções de caráter nasserista, ou francamente fascista (...). A questão do nacionalismo é ambígua, não porque muitos se proclamem nacionalistas tendo soluções antagônicas; mas porque a verdadeira solução não coloca o problema do nacionalismo como uma prioridade abstrata. (...). Alguns nacionalistas de hoje não raro fazem uma música que só tem a ver com um conceito específico de música nacional. Nacional é o exótico, isto é, tudo que recebe o alvará da indústria cultural multinacional. Tal nacionalismo excluiria, a priori, todas as realidades amplas de um país; ( WISNIK e SQUEFF, O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira, 1982, p. 17)

Na busca da identidade nacional, creio que precisamos ter uma certa cautela e, sem exclusão das fontes estrangeiras, manter um distanciamento crítico em relação a estas fontes. Existem vários nacionalismos e cada classe irá entender de maneira diferente a questão nacional, fazendo com que atenda a interesses distintos, conforme inclusive o momento histórico em que o problema for colocado. No caso do texto supracitado, Wisnik aproxima o “nasserismo” do fascismo, hipótese estranha, pois Nasser foi um dos líderes mais ativos na descolonização da África. Daqui por diante vamos pesquisar esse laço que une o barroco e a problemática da nação.

O barroco e o Rococó precederam o século das luzes, e a postura filosófica iluminista pôs a escolástica barroca em descrédito. Agora, no final do século XX, o barroco é retomado em plena crise da razão. Em nosso país esta postura foi adotada pelo movimento concretista, e o poeta e ensaísta mineiro Affonso Ávila incorporou algumas de suas propostas, mas desde os anos 60 já tinha divergências com Pignatari. Anelito comenta a respeito:

A tese do poeta-crítico paulista é duramente replicada por Affonso Ávila, que, embora a considere uma das contribuições mais sérias apresentadas ao Congresso, acusa-o de ressaltar apenas algumas coordenadas do problema, focalizadas às vezes dentro de um ponto de vista unilateral, excessivamente doutrinário, deixando de considerar o panorama poético nacional em sua totalidade, na sua complexidade, no seu conjunto de indecisões e constrastes que bem definem o instante de crise, a fase de transição, o nebuloso mundo de experiências e pesquisas para o qual não se abriu ainda a clareira vivificadora da criação. Ávila classifica de arbitrária a ‘linha de evolução do processo poético brasileiro’ que Pignatari apresenta, chegando mesmo a afirmar que o ‘raciocínio crítico’ que a possibilitou estava ‘contruído sobre equívocos’. O ponto alto dessa réplica é, contudo, quando Ávila desperta furiosamente a questão do relacionamento Concretismo/realidade brasileira, solicitando que ‘Décio Pignatari e seus companheiros confessassem o seu erro de perspectiva’, que teria conduzido a uma poesia alienada, desligada da realidade. (OLIVEIRA, Anelito de. A Aurora das Dobras. p. 51: 1998)

Assim dizendo, Ávila fez uma observação que permanece pertinente para o melhor entendimento e apreciação crítica do Concretismo, e que se aproxima da postura de Gullar em Vanguarda e Subdesenvolvimento (1969):

Décio Pignatari, para reparar o erro de perspectiva do concretismo, a alienação de que só agora procura redimir-se, utiliza o exemplo da experiência participante de Carlos Drummond de Andrade e do verso engajado de João Cabral de Melo Neto para preparar o que chama de ‘o pulo da onça’. Ora, sabemos todos nós que o concretismo, do qual publicamente reconhecemos a procedência de muitas das formulações críticas, encaradas é claro no plano da pesquisa em torno da linguagem poética, jamais se preocupou com o valor conteudístico da poesia, com a criação-situação no tempo e na realidade brasileira. Não seremos nós, propugnadores de uma expressão literária nacional autônoma e portanto participante, que iremos subestimar a importância dos novos propósitos do grupo concreto de São Paulo. Entretanto, preferiríamos que Décio Pignatari e seus companheiros confessassem o seu erro de perspectiva e se propusessem, na oportunidade deste Congresso, um novo programa, claro, definido, sem subterfúgios, a que não furtaríamos nosso humilde apoio, a modesta contribuição de experiência participante do grupo ‘Tendência’ (1956), o qual não tenta o ‘pulo da onça’, porquanto há muito nos engajamos na responsabilidade social e humana do artista, para usarmos uma expressão de Décio Pignatari. (Ávila. Apud: OLIVEIRA, Aurora das Dobras, p.51: 1998)

A questão da identidade nacional, esboçada nos textos de O Poeta e a Consciência Crítica, coletânea de ensaios organizada cronologicamente, foi desenvolvida em prol da discussão de uma tradição criativa no que se refere à linguagem e demonstra que aos poucos, na medida em que a década de 60 vai chegando ao fim, o autor vai partindo para tópicos mais atraentes, como a possibilidade de associação do barroco do século XVI e do XVII a uma vertente dita “pós-moderna”, ou “neobarroca”. Reconhecemos a pertinência dessa discussão, mas assumimos a seguinte postura: não há uma nova cultura depois dos anos 60, pois não há uma nova sociedade, uma sociedade pós-industrial. Ocorre então uma reformulação do capitalismo, que na nova etapa passa a estetizar a vida. O que há de inteiramente inédito são formas culturais novas, de origem norte-americana, que obtiveram aceitação universal. No final da década de 60, Ávila passa a enfatizar outras questões e resgata o Barroco para os tempos atuais com os seguintes argumentos:

O homem barroco e o do século XX são um único e mesmo homem agônico, perplexo, dilemático, dilacerado entre a consciência de um mundo novo – ontem revelado pelas grandes navegações e as idéias do humanismo, hoje pela conquista do espaço e os avanços da técnica – e as peias de uma estrutura anacrônica que o aliena das novas evidências da realidade – ontem a contra-reforma, a inquisição, o absolutismo, hoje o risco da guerra nuclear, o subdesenvolvimento das nações pobres, o sistema cruel das sociedades altamente industrializadas. Vivendo aguda e angustiosamente sob a órbita do medo, da insegurança, da instabilidade, tanto o artista barroco quanto o moderno exprimem dramaticamente o seu instante social e existencial, fazendo com que a arte também assuma formas agônicas, perplexas, dilemáticas. (ÁVILA, O Poeta e a Consciência Crítica, 1969, p.17).

No texto acima citado, Affonso Ávila deseja trazer a poesia seiscentista, os livros de emblema, a ópera e outras manifestações de séculos passados diretamente para a apreciação imediata do leitor e do público do final do século XX. Uma avaliação influenciada simultaneamente por Mcluhan e pelo estruturalismo e que permite tanto a transposição atemporal quanto o paralelo com a cultura de massa. Os possíveis anacronismos cometidos nessa transposição a-histórica não são problematizados. A cultura de massa não é vista em sua relação ambígua para com a cultura popular e erudita, mas é para Ávila um sinônimo de progresso cultural e tecnológico.

O poeta adere portanto a uma postura que Umberto Eco chamou de “integrada” em seu famoso livro, Apocalípticos e Integrados. Naquele momento (1968), Affonso resgata o barroco por notar sua atualidade. Ao citar Umberto Eco, refere-se à teoria da obra aberta, sem discutir a teoria da comunicação do autor italiano; observa apenas que Eco vira no barroco uma primeira manifestação, ainda que inconsciente, de abertura da arte, de quebra de padrões fixos que faziam da criação clássica um objeto artístico rigorosamente delimitado no seu simetrismo, na sua beleza sublime mas aristocraticamente distante, quase imparticipável. Umberto Eco não acredita que existiu uma idade de ouro antes da cultura de massa, mas também questiona seriamente a massificação que dissemina internacionalmente e entre as várias classes sociais uma cultura padrão: a cultura média.

A noção de participação na arte, o adensamento da linguagem estética, o primado do elemento visual e as concepções da poesia de vanguarda estariam já presentes, segundo o poeta mineiro, em sua essência, nas obras barrocas. Affonso Ávila critica rapidamente Benedetto Croce, que classificou o barroco de arte de degenerescência. Croce define a degenerescência como o momento em que prevalece o jogo ilimitado com as formas estéticas, abusando com gratuidade lúdica dos expedientes e das soluções de linguagem.

A poesia concreta a partir de meados da década de 70 ganha cada vez mais ressonância, graças à sua passagem para uma sintaxe visual num contexto de expansão dos meios audiovisuais. A poesia entra uma crise profunda pois passa a escassear a figura do leigo que lê poesia: os talentos neste setor em geral se direcionam para a música popular, uma arte que possibilita uma melhor perspectiva comercial. Assim como Joyce preferiu barroquizar o romance no momento em que este gênero estava perdendo leitores, e Glauber Rocha radicalizou sua estética no caminho do barroquismo e do delírio visual em seu filme A Idade da Terra (1980), a poesia concreta atuou de maneira semelhante, buscando radicalizar um formalismo já anteriormente cristalizado.

Affonso Ávila avança no sentido de propor uma “linha de tradição brasileira”, que iria de Aleijadinho a Niemeyer, um elo inventivo que uniria e espelharia nossa postura criadora, nossa índole redutora e antropofágica em relação ao Barroco europeu. A linha mais criativa da literatura brasileira viria de Gregório de Mattos a Padre Vieira, Matias Aires em Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, Macunaíma, de Mário de Andrade. A grande obra da ficção moderna brasileira, segundo Ávila, será o Grande Sertão Veredas, de compleição francamente barroca em sua grandeza cervantina. Assim, prossegue Ávila, João Cabral tem um “remordimento formal barroco”, em Jorge de Lima há uma “poesia de desinência barroquista”, e por fim, a “angústia barroca da paixão contida” estaria até em Carlos Drummond de Andrade e Cláudio Manoel da Costa. Nesta busca dos elementos barrocos Affonso Ávila aparentemente estabelece os seus predecessores mineiros, o seu próprio cânone.

Num outro momento, Ávila demarca o território e demonstra que certos autores deverão ter sua importância relativizada pelo estudo de casos de autores injustiçados, gestando um novo cânone que irá valorizar o barroco:

Assim, ao indianismo gonçalvino sucede a antropofagia de Oswald de Andrade, ao abolicionismo sentimentalizado de Castro Alves, o negrismo etnográfico de Jorge de Lima, tônicas de uma preocupação com o homem e a natureza que se estende à obra interessada de outros poetas e culmina no romance nordestino. Enquanto se opera esse reatamento com as motivações telúricas, prossegue a nossa importação de técnicas, já também passíveis de ser digeridas, reduzidas num sentido crítico pelo trabalho do artista. E é dentro desse quadro que se queria afirmar nacionalmente autônomo que iríamos exumar do período colonial o primeiro traço de tradição realmente válido para nossa pretendida arte brasileira: o barroco. (ÁVILA, O Poeta e a Consciência Crítica, 1969, p. 48)

A tentativa de reescrever a história da literatura nacional a partir da busca das desinências barroquizantes e incluindo nela casos de autores excepcionais redescobertos (Sousândrade, Severiano Rezende e Pedro Kilkerry) permanece inacabada. A vertente concretista não fez um trabalho de fôlego neste sentido, preferindo polemizar em questões pontuais, como Haroldo de Campos em O Seqüestro do Barroco. Antonio Candido justifica a omissão nos seguintes termos:

Embora tenha permanecido na tradição local da Bahia, ele não existiu literariamente (em perspectiva histórica) até o Romantismo, quando foi redescoberto, sobretudo graças a Varnhagen; e só depois de 1882 e da edição Vale Cabral pôde ser devidamente avaliado. Antes disso, não influiu, não contribuiu para formar o nosso sistema literário e tão obscuro permaneceu sob os seus manuscritos, que Barbosa Machado, o minucioso erudito da Biblioteca Lusitana (1741-1758), ignora-o completamente, embora registre quanto João de Brito e Lima pôde alcançar (I, 18). Muito tarde, já em pleno século XIX e depois da Independência, Ferdinand Denis tampouco o menciona no Resumo da História Literária de Portugal e do Brasil; a sua inclusão na cronologia literária do século XVII é, pois, um dos mais espantosos exemplos de involuntária mistificação histórica que se podem apresentar. (CAMPOS, Haroldo de. O Seqüestro do Barroco, Salvador, Casa Jorge Amado, p. 8, 1989)

A perspectiva histórica adotada por Candido é definida por Haroldo de Campos como ideológica, via Jacques Derrida. O conceito metafísico de história, segundo o filósofo franco-argelino, envolve a idéia de linearidade e a continuidade. É um esquema linear de desenrolamento da presença, obediente ao modelo “épico”. Pode, portanto, redundar num historicismo, na substituição do estético por uma ideologia. Ora, dizer que o barroco é uma das constantes da sensibilidade brasileira e tentar construir uma tradição a partir dele envolve também esta idéia de linearidade e continuidade, que além de tudo também seria, nesse viés, metafísica. Se Gregório não foi lido pelos árcades (incluindo Cláudio Manoel da Costa) e românticos, para Candido não há como tornar o poeta, ainda que tenha muitos méritos, um emérito componente do único traço de tradição realmente válido para a literatura brasileira, como pretendeu Affonso Ávila. Affonso também revê a história literária não somente conforme critérios estéticos, mas também dirige sua avaliação conforme o leitmotiv de que o barroco é a tradição que devemos continuar.

Affonso Ávila não fez mais sonetos depois de seu primeiro livro, despindo o excesso discursivo, a sobrecarga metafórica de sua poesia. Dilacerado entre o soneto, forma neoclássica muito utilizada pela geração de 45, e a implosão da linguagem engendrada pelo concretismo, Affonso Ávila adotou a sintaxe visual. Foi do soneto ao poema-piada. Mudou de versos como:

A carne dadivou-se em florações,

Terço cipó nos caules, sinto a febre

De procriar-me e ser meu guardião

(ÁVILA, Sonetos da Descoberta, In: Encontro com Escritores Mineiros. p. 32, 1993)

Para versos como:

Teoria dos Coroas

A realidade é a dos coroas

A real idade é a dos coroas

A hilariedade é a dos coroas

(Sua filosofia é o civismo

Sua filosofia é o cinismo

Sua filosofia é o si mesmo)

(ÁVILA, Encontro com Escritores Mineiros, p. 19, 1993)

Neste poema, Affonso Ávila busca sintonizar com a geração mimeógrafo, os poetas marginais e seus consumidores. A utilização da gíria “coroa”, demarcatória em relação a uma geração mais velha, dá ao texto um sabor datado, mas o poema poderia tranqüilamente ser incluído numa antologia dos jovens poetas marginais publicada na época.

Ele também faz uma abordagem do paradoxo das antíteses mineiras, esboçando uma psicologia cultural de Minas Gerais:

Nos meandros da dita mineiridade, eu procurei identificar as raízes de Minas, a dicotomia mineira, os lados contrastantes que há na alma mineira, que às vezes é aberta, esperançosa, progressista, livre, às vezes é reacionária, rancorosa, repressiva, obscurantista. Procurei então, na poesia e no ensaio daquele instante, sublinhar, deixar à minha maneira ver exatamente esses dois pólos do paradoxo mineiro. (Ávila, p. 30, Depoimento. Apud: BUENO, Antônio Sérgio (org.). Encontro com Escritores Mineiros, 1993.)

O escritor Pedro Nava tratava a mesma questão numa perspectiva diversa, reduzindo Minas ao núcleo central onde se concentram as cidades coloniais, desenvolvendo a idéia de Minas como uma pátria interna, autêntica:

No fundo, bem no fundo, o Brasil para nós é uma expressão administrativa. O próprio resto de Minas, uma convenção geográfica. O Triângulo já não quis se desprender e juntar-se a São Paulo? Que se desprendesse...E o Norte já não pretendeu separar-se num estado que se chamaria Nova Filadélfia e teria Teófilo Otoni como capital? Que se separasse...(NAVA, 1978, p. 103 e 111)

A questão que é preciso enfrentar é que especificidade local brasileira foi descartada desde o início dos anos 60 em prol de uma inserção da literatura brasileira nos processos universais.

O Outro Lado do Paraíso: Os Anos Verdes e Amarelos

Monjas lunares/os lírios rezam de mãos postas/pelos cravos degolados/cujas cabeças estão içadas nos chuços das hastes/Escorrendo o sangue das pétalas./ Corusca a lâmina jalde do grande sol carrasco/entre a guarda régia/dos girassóis guerreiros, escamados de ouro./Fremem ao vento os paveses das glicínias. (...) E contra o monstruoso atentado/apenas se ergue na sombra/timidamente/o protesto aromal das violetas.

Jardim Tropical, Menotti del Picchia

Esquecido no panorama da literatura pós-64, a obra do escritor, jornalista, dramaturgo (e atualmente editor) Luiz Fernando Emediato traz claramente as “marcas do que se foi”. Verdes Anos, um de seus contos (no início da década de 80, transformado em filme por Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase), inicia-se do seguinte modo: “Em 1970 eu tinha 18 anos, vivia no interior de Minas e considerava o general Emílio Médici um homem sincero e justo”(EMEDIATO, 1984, p.9). O conto trata da descoberta dos drogas e do sexo por um adolescente, no início dos anos 70. Essa relativa liberação se chocou com a brutal polícia da cidade interiorana, que prendeu o rapaz junto com uma menina, no momento em que faziam o “amor livre” nas ruas. A infância do mesmo personagem, relatada em outro conto, o Outro Lado do Paraíso, revelou uma família que balançou em sua função paterna, devido ao fato de que o pai simpatizou com o governo Jango:

--O Jango vai fazer a reforma agrária.

--Ai, meu Deus –mamãe disse, levando a mão à cabeça.(...)

--Quer dizer, então –falou mamãe –que o governo vai tomar todas as terras?

--Papai olhou para mamãe e disse:

--Vai tomar principalmente as do seu pai, aquele velho bruto. Você não sabe o que é a reforma agrária?

--Coisa de comunista –interveio dona Marocas, fechando a cara e fazendo o sinal da cruz (EMEDIATO, 1984, p.28)

Nessa infância, surgiu o balanço da função paterna que caracterizou o personagem Nando vida afora. Para Lacan, o pai é um significante que vem substituir um outro; o pai interdita o corpo da mãe para o filho, obrigando-o a tornar-se um sujeito. O golpe de 64 foi a derrota e desautorização daquele pai. Isso não fica claro no filme de Gerbase e Giba, ambientado no Rio Grande do Sul, mas subentende-se essa ruptura geracional, uma vez que o Rio Grande era muito mais marcado pelo trabalhismo de Vargas/Jango/Brizola, quando do golpe de 64, do que a Minas de Magalhães Pinto e Israel Pinheiro. O personagem Nando, em outro conto ambientado no tempo de Médici, O Despertar da Primavera, observou a cisão politizada entre mãe/pai:

Meu pai estava nervoso, tinha acabado de ler o jornal e discutia com minha mãe por causa de alguma coisa que o irmão dela, prefeito, tinha arrumado na prefeitura. Uma injustiça, dizia meu pai indignado, seu irmão é um ditador selvagem, a história não perdoará seus desmandos. Que é isso, pai, eu disse, ele é só um velho careta, nunca matou ninguém.

--Mas compactua com os assassinos do povo, disse meu pai, gordo e vermelho, e isso não se perdoa. Olhei para o meu pai e tive saudades daquele tempo em que ele andava pelo mundo em busca de aventuras e nós junto, como ciganos. O tempo é cruel e muda as pessoas, pensei com meus pobres botões. (EMEDIATO, 1984, p.52)

No texto acima, foi colocada a crise da autoridade do pai, com a tomada de partido da mãe e da família materna, possivelmente católica e udenista. Abrindo um abismo entre pais e filhos, Nando vivia a revolução dos costumes, sexo, droga e rock and roll, ao mesmo tempo em que aceitava o ufanismo conservador e pró-americano dos generais. Na situação acima, “em virtude da incomunicabilidade da experiência entre gerações diferentes, percebe-se como se tornou impossível dar continuidade linear ao processo de aprimoramento do homem e da sociedade” (SANTIAGO, 1989, p.46). Isso equivale à exclusão do paternalismo como processo conectivo entre gerações; a história não é mais vista enquanto tecendo uma continuidade entre a vivência do mais experiente e a do menos.

O problema maior nos contos de Luiz Fernando Emediato reunidos sob o título de Verdes Anos me parece ser o seguinte: o narrador já está convertido ao combate ao autoritarismo da ditadura militar, mas o personagem Nando vive conformado com o regime:

Quando chegamos no Náutico e o Brazilian Boys estava mandando tudo num rock da pesada, mas antes de começar pedi ao Teco umas bolas e enchi a cara, pois estava mais lerdo que propriamente vivo por causa do fumo (...). A Valdete então encostou sua barriguinha no meu pinto, ficamos ali nos esfregando no meio de toda aquela gente dançando, a luz meio apagada, e então não aguentei: quando ela aumentou os gemidos eu gozei e minhas pernas bambearam (...). Somos mesmo uns vermes, filosofei, espantado com minha capacidade reflexiva. Nada restará de nós no final dos séculos. (EMEDIATO, 1984, p. 56-57)

A contradição mais pungente dos anos 70 no Brasil está presente nesse trecho: um período de repressão convivendo com a maior liberação sexual já ocorrida. Observamos que as questões que movimentaram o Brasil desde o golpe, passando pela abertura até a primeira eleição presidencial em 1989, foram em boa parte neutralizadas na década de 90, mas permanecem ainda mal resolvidas. Ao nosso ver faltou uma referência à televisão, cuja expansão de influência nos anos 70, principalmente entre a juventude, teve um efeito avassalador sobre a cultura brasileira, praticamente subjugada pela programação da telinha.

No filme Meteorango Kid, de André Luiz de Oliveira, ambientado em 1968, e realizado em 1974, reencontramos os mesmos temas da prosa de Emediato: a narrativa focalizando Lula, um jovem de classe média, às voltas com problemas de família, sexo e drogas. Aqui há mais clara discussão política: o rapaz começa por romper com o movimento estudantil da escola. Em casa, almoça descontente com os pais, até que explode, sintomaticamente, depois que a mãe comenta que viajou toda a Europa, mas que como a nossa terrinha não há lugar igual. A ruptura se encena às claras: para matar a mentira cultural da mãe, identificada com o nacionalismo, Lula assume a identidade de Batman, personagem da indústria cultural norte-americana, mata a mãe (e se intitula Batmãe, assimilando o nome da mãe), depois o pai, sem não antes mostrar-lhe um baseado, ao que pai grita desesperado: “delinqüente!” Nesta seqüência, a ruptura do laço conectivo entre gerações não se deu indiretamente, com nos contos de Emediato, mas às claras, com radicalidade.

Há uma seqüência, mais adiante, em que Lula e seus amigos hostilizam um militante que lhes pergunta se eles são da linha chinesa ou soviética. Lula e seus amigos vão para a casa de um deles, fumar um baseado. Enquanto fumam maconha, uma música ao fundo fala de discos voadores. Lula se torna, uma vez drogado, agressivo. Mata um colega numa seqüência violenta, e passa sabão em seus cabelos (?). Aí se estabeleceu uma perniciosa ligação da maconha com a violência, que remete ao moralismo das campanhas anti-drogas do regime militar. Lula também tenta ser cineasta (num lance de metalinguagem) e visita algo como uma estatal do cinema (será o cinema marginal negando a Embrafilme?). Um cineasta com quem ele conversa lhe diz que para ganhar dinheiro, basta colocar “tiro prá diabo, porrada, peito, bunda. Não tem nada a ver esses filmes de arte aí, não”. A receita é a mistura de sexo/violência, perfeitamente adaptada a um neocapitalismo. Lula ouve tudo entediado e sai decepcionado.

Logo depois, ao tentar relaxar, batendo papo com os amigos num terraço, ele não suporta ouvir um gay comentar a novela Beto Rockfeller e humilha publicamente o homossexual, que se suicida. Logo a seguir vemos a cena do velório do homossexual. Lula conversa com o defunto, comentando que teve relações com a irmã do falecido, sempre atirando as cinzas de seu cigarro sobre o corpo inerte. Aí o rapaz demonstra, ao mesmo tempo, homofobia e desgosto com a novela de TV. O desgosto obsessivo de Lula com o Brasil, num desejo subreptício de identificação com os jovens europeus e norte-americanos, pontua o final do filme, em que Lula come uma maçã com catchup enquanto o discurso de Caetano contra os estudantes universitários (quando da apresentação de É Proibido Proibir) faz o fundo sonoro. A cena do encerramento ocorre com Lula de volta na casa da família, que continua viva (ou seja, Lula continua assombrado com a herança familiar). Enquanto Lula emite gritos que ninguém escuta em meio à festa da família para ele, como trilha sonora da cena ouvimos uma canção de Caetano em inglês, The Empty Boat. Como na canção de Caetano, Lula termina vazio, sem saída, retornando a uma família que abomina, como deixa claro mais uma vez nesses últimos instantes do filme. Assim, “Nando” e “Lula” simbolizaram a juventude brasileira na passagem dos anos 60 para os 70, conflituosa e sempre em atrito com o meio que a circunda, por estar vivenciando o momento em que o Brasil sofria violentas transformações.