segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dilemas Fáusticos: Crítica do Texto Reconstruir a Esquerda

O texto Reconstruir a Esquerda, de Ruy Fausto, a meu ver ajudou pouco nessa reconstrução. O texto, a meu ver, tem passagens que eu gostaria de ressaltar em itálico:


"A campanha contra o impeachment no Brasil foi um importante movimento, a ser sempre saudado e comemorado, embora tenha sido feito sob a hegemonia de um partido que não é propriamente um modelo " (FAUSTO, 2016, p. 44).


A campanha contra o impeachment, Fausto, foi deprimente, pois implicava em sair às ruas defendendo pessoas comprovadamente corruptas. E, por fim, foi abandonada pelo próprio Lula e pelo PT, que preferiu jogar politicamente no parlamento.


"Tudo considerado, contudo, o tipo de violência de esquerda que se tem assistido há alguns anos na USP é propriamente lamentável. Que a esquerda não se engane: seus efeitos são negativos. Pode levar à destruição da universidade." (FAUSTO, 2016, P. 45).


Fausto, Fausto, se a ocupação era justamente contra o sucamento da universidade, contra as salas de aula superlotadas, com a diminuição das verbas, etc. Foi exatamente o contrário: a ocupação buscou preservar a universidade!


O balanço da experiência totalitária de esquerda é o de muitas dezenas de milhões de mortos, sendo os pontos altos desse massacre a fome stalinista dos anos 30.

Segue-se uma peroração que mistura O Grande Salto para Frente de Mao Tsé Tung, o grande terror dos anos 30, A Revolução Cultural Chinesa e a façanha de Pol Pot, a quem ele atribui ter matado 2 milhões de mortos, mais ou  menos um quarto da população do Cambodja. 

Fausto, você deveria criticar Trotsky e Gramsci que são a base teórica do PT e não Mao, Stálin e Pol Pot.  Isso que você elenca como derrotas são justamente os sucessos do socialismo. A coletivização dos anos 30 acabou com a fome. Mesmo o livro Perestroika de Gorbachev registrava isso. Igualmente, o tal grande terror expurgou a quinta-coluna da URSS e os oportunistas do partido, possibilitando a vitória contra Hitler. O Grande Salto formou as bases da industrialização que faz da China uma grande potência hoje. A Revolução Cultural Chinesa foi uma experiência de democracia direta, com os jovens assumindo efetivamente parte do poder com as Guardas Vermelhas. Possivelmente gerou um alicerce e um aprendizado que ajudou a manter o partido comunista encabeçando a China até hoje em dia. Ainda que cometendo erros, sem dúvida fez avançar o marxismo. Igualmente Pol Pot e seu partido não mataram um quarto da população do Cambodja. A partir do momento em que os USA exportou a guerra do Vietnã e bombardeou o Cambodja, foi responsável pelo genocídio. Aliás, a acusação de genocídio contra Pol Pot começou quando os cambojanos passaram à embaixada da Alemanha Oriental a informação de que a ditadura militar apoiada pelos USA no Cambodja e os bombardeios estadunidenses, teriam sido responsável pelo genocídio de um milhão de cambojanos.

E outra: existem artigos acadêmicos a respeito, Fausto???



Sobre os processos por corrupção no Brasil, ele afirma que: "a situação geral, guardadas as proporções, é mais ou menos inversa à dos processos stalinistas" (FAUSTO, 2016, p. 46).


Não, Fausto, a situação é semelhante. Diga-se de passagem que essa é a melhor parte de seu artigo, quando você nota que, por medo do totalitarismo, Marilena Chauí nega-se a fazer autocrítica. Mas podemos dizer que, tanto no caso dos processos contra os petistas quanto contra Bukharin e Kamenev, há evidências de que fizeram o que eram acusados de fazer, exageros e injustiças à parte. O pior do artigo vem a seguir.



"Isso não quer dizer que toda intervenção americana seja necessariamente condenável. É discutível se não teria sido melhor, para os norte-americanos e para o mundo, ter ousado atacar o ditador sírio Bashar Al-Assad, por exemplo, em vez de recuar e se omitir" (FAUSTO, 2016, p 51)


NAO, FAUSTO, MIL VEZES NÃO! Os USA só não atacaram a Síria porque Rússia, China e Irã se mobilizaram e não deixaram. De forma alguma teria sido melhor, pois teria aberto para o ISIS, para a desagregação do estado e para crise humanitária. Teria sido melhor a III Guerra Mundial, Fausto! Não, mil vezes não! Não venda a alma ao diabo, Fausto!!!

Fora a crítica a Chauí, há de interessante também sua crítica ao  populismo, que deveria ter sido melhor atrelada ao castrismo.  O castrismo é erroneamente agrupado nos totalitarismos e vc chega a dizer que se o castrismo chegasse ao poder você iria para uma embaixada.

No entanto o castrismo hoje apoia os populismos como de Lula. E apoiou o sistema pluripartidário na Nicarágua, assim como a economia mista. Você não tem muito a temer o governo Temer, se você apoiava Dilma em algum grau. Foi trocar seis por meia dúzia. Pois você é, no fundo, também um reformista, Fausto.

Você acredita no mito dos milhões de mortos do socialismo, Fausto! Então você é inspirado em Hitler, pois Minha Luta foi a primeira obra, em 1923, a trazer essa explicação.












domingo, 23 de outubro de 2016

Verbete de Barravento


Leiam o meu texto sobre Barravento no Geacb. O linque está aqui

sábado, 22 de outubro de 2016

Trotsky: Exílio e Morte de um Revolucionário: Resenha de Uma Biografia




            A recente biografia Trotsky, Exílio e Morte de Um Revolucionário, de Bernard Patenaude, tem elementos em comum com o texto de Alejandro Padura (O Homem e os Cachorros), assim como com o filme de Joseph Losey, O Assassinato de Trotsky (1972). A história da vida de Trotsky é contada como se fosse um thriller. Ela inicia-se como assassinato do biografado e aí então retrocede para contar a história de vida do político.
         O que se encontram atualmente são biografias de Trotsky: seus livros não são reeditados. Ele não é lido de forma crítica pelos trotsquistas, que tendem a fazer o culto de sua personalidade.
            O enfoque da biografia são mais os fatos polêmicos que o envolvem o político do que sua produção intelectual. Trostsky não gostava de ser criticado e sim cultuado, tinha em sua maioria admiradores jovens e não amigos, o que prejudicou consideravelmente sua articulação política; não se importava muito em beber e comer bem, nem ficava muito tempo em jantares sociais. Não gostava de beber ou fumar e detestava “vestidos longos” e conversar coisas comezinhas, fúteis. A comida em sua casa era insossa e sua esposa, alguém muito triste. Há um grande contraste, nesse ponto da comida, entre ele e Stálin, alguém que apreciava pratos apimentados. Os georgianos são os baianos da União Soviética, como observou Glauber Rocha.
            A vida de Trotsky foi, conforme essa biografia, totalmente marcada pelo confronto com Stálin, a quem ele atribuía todas as suas desgraças, assumindo claros indícios de paranoia. O biógrafo considera que Trotsky era um “herdeiro natural” de Lênin, mas quando menciona Gorbachev observa que o líder soviético nunca reabilitou Trotsky, considerado pelo responsável pela perestroika um grande crítico do leninismo. Para Patenaude, Stálin “passou a perna” em Trotsky. Ora, como pode uma “mediocridade” enganar um “gênio político”. Essas e muitas questões ficam em aberto.
O suicídio da filha de Trotsky foi atribuída ao stalinismo, mas a filha não se dava bem com Trotsky, que não a tratava com afeto e não lhe escrevia cartas, mesmo ele sabendo que ela estava em depressão --e tendo lhe suplicado que o fizesse. A operação de apendicite que matou o filho de Trotsky em Paris em um hospital russo também teria sido armada pela polícia política. O texto alega que o Sergei Trotsky era vigiado por um amigo espião soviético, Mark Zborowski, mas a seguir se pergunta: por que matariam Sergei, se ele os municiava com informações e não desconfiava de Zborowski?
O tom nebuloso cerca também a figura de Jacson Monard, o assassino de Trotsky. Ele conviveu durante muito tempo na casa de Trotsky e chegou a dizer, depois do ataque dos comunistas, que a polícia política usaria, nos novos ataques, outras táticas. Jacson frequentou a casa de Trotsky durante anos, foi namorado da trotsquista Silvia, prestando-lhe inúmeros favores e escrevendo artigos que Trotsky comentava. Perguntando a respeito do ataque de Orozco, não respondeu quais seriam. Não seria um erro muito primário para um agente que tramava matar Trotsky? Patenaude também registra, discretamente, que Jacson jamais admitiu ser agente soviético. A biografia deixa totalmente de lado a hipótese de crime passional: Trotsky era contra o casamento dos dois.
Para Patenaude, “ondas de choque” da II Guerra chegariam até a URSS, onde as massas proletárias se uniriam para derrubar a “burocracia stalinista”. Com isso contava Trotsky, pois nesse momento ele e seus seguidores seriam convidados a liderar a luta para liderar a democracia dos trabalhadores na União Soviética. Mas uma rebelião dessa, depois da chegada de Hitler ao poder, não abriria as portas do país para uma invasão alemã? Igualmente, se essas ondas de choque eram esperadas, explica-se a repressão de Stálin frente a uma possível revolta. No entanto, nega-se que qualquer revolta na URSS tenha tido apoio de Trotsky. Ele é sempre visto como vítima, quase um Cristo, alguém que jamais revidou a todas as perseguições, nem tramou atentados, etc.
A biografia levantou um questionamento interessante quanto aos Processos de Moscou: “Eles estavam causando dano à reputação internacional de Moscou num momento de grande perigo internacional, por que então iria Stálin optar por encená-los, a menos que a conspiração trotsquista fosse legítima? (...) Será que Stálin teria mesmo sido capaz de arriscar tudo, sabendo que um dos malfadados homens poderia decidir no último instante surpreender o traidor Vishinki e deixar sua marca na história, soltando a verdade?” (PATENAUDE, p. 42-46). Boa pergunta: se era uma encenação, por que correr o risco diante da imprensa internacional? Por que permitir, como foi permitido, que os acusados negassem algumas das acusações? Trotsky alegava que todos estavam muito interessados em sobreviver e que suas famílias mesmo sofriam ameaças ou estavam reféns.
Uma vez no México, Trotsky enfrentou críticas de liberais como John Dewey, que simpatizava com sua causa, no sentido de aproximar a prática de Trotsky no tempo do partido bolchevista ao reprimir a base naval de Krondstadt à repressão que ele mesmo sofria. Ele deveria, no entender desses liberais, renunciar ao “mito de outubro”. O próprio Patenaude, embora claramente simpático a Trotsky, tende a propor essa renúncia, pois passa como gato sobre brasas por temas que poderiam comprometê-lo, quais suas divergências profundas com Lênin e Stálin. Nos anos 30, era bem mais ressaltada a continuação entre bolchevismo e  Stálin do que agora. Patenaude observa a situação difícil em que ficava Trotsky nesse caso, obrigado a criar o termo “stalinismo” e a inventar uma suposta burocratização que teria ocorrido a partir de 1929 como forma de condenar o partido bolchevique.
Resta também saber porque Trotsky teria aventado hipóteses absurdas, tais como a possibilidade de que a guerra da URSS contra a Finlândia em 1940 pudesse desencadear uma guerra civil na Finlândia, hipótese amalucada que provocou divergência entre os trotsquistas. Será que Trotsky estava colaborando com os nazis e os japoneses secretamente e apoiando da boca para fora a URSS? Patenaude não chega a aventar tal hipótese.
Trotsky, sem dúvida exímio orador e eloquente escritor, fracassava de forma retumbante em lidar com as pessoas e mediar os conflitos dentro dos grupos trotsquistas. Confrontado com argumentos contrários, enfurecia-se.
Patenaude amenizou: 1) os choques com Lênin e seu teor, pois Trotsky negou o partido de vanguarda, assim como a possibilidade de construir o socialismo na URSS sem uma revolução na Europa. Trotsky não aceitava o centralismo democrático. Em minoria, queixava-se de estar sendo esmagado e cerceado, em maioria, buscava calar os adversários. E não o aceitou, na prática, depois de julho de 1917, quando entrou no partido bolchevique. Mesmo perdendo internamente, seu grupo insistia em adotar suas próprias decisões, como num partido de tendências como o PSOL e o PT. 2) A tentativa de exportar a revolução para a Polônia, um desastre inspirado pela teoria da revolução permanente de Trotsky; 3) Divergências entre Lênin e Trotsky em Brest-Litovsky, quando Trotsky negou a ideia do acordo de paz de Lênin, e, graças a boatos que diziam que Lênin era agente alemão, propôs que não se faria nem a paz e nem a guerra, o que resultou em desastre.
A trajetória de Trotsky foi coalhada de derrotas: foi derrotado ao optar pelo partido menchevique; foi derrotado novamente ao entrar no partido bolchevique; foi derrotado finalmente nos anos 30, quando sua política despertou a desconfiança de que estivesse secretamente a serviço da Alemanha nazista, tal como quando foi intransigente contra a aliança entre os trotsquistas e a frente popular na Espanha, não atendendo aos apelos e análises dos próprios trotsquistas espanhóis, a quem tratou de expulsar e atacar nessa ocasião. Ficou bem evidente que ele colocava como prioridade absoluta derrotar Stálin e voltar para URSS, pagando o preço que fosse necessário, mesmo que tivesse que sacrificar a Espanha aos nazistas. Viveu boa parte da vida escondido dentro de casa, vendo inimigos por todos os lados: na prática como um prisioneiro.
            A parte mais fascinante da biografia não é a parte política, a meu ver, e sim sua movimentada relação com diversos artistas, dos maiores do século XX: a amizade e o rompimento com Diego Rivera, seu caso com Frida Kahlo, seus diálogos com André Breton, que furtou ex-votos em uma igreja, enfurecendo Trotsky, a quem o surrealismo cheirava a religiosidade. Rumoroso e impressionante também foi o suposto ataque do pintor Orozco e dos comunistas contra a casa do líder russo. O ataque foi tido pela polícia como uma farsa armada por Trotsky, tal a inabilidade que demonstraram os atacantes, que atiraram em tudo, menos em Trotsky.
            Patenaude fez uma biografia em que evita os temas mais espinhosos para Trotsky, mas ao mesmo tempo podemos notar que não é trotsquista: ele chama da revolução de outubro de 1917 de “golpe de outubro!”


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Impeachment: golpe ou política democrática



Enfim, concordo totalmente com Erik Hg! Parabéns, Erik! Segue um artigo de Erik Hg sobre impeachment ou golpe.

Dizem por aí que a política brasileira é uma farsa. Que não dá mais pra acreditar nela. Que o partido popular enganou o povo. Que as elites deram um golpe e que o golpe ainda está acontecendo. Que a Constituição foi rasgada e democracia acabou. Etc.
A política brasileira é uma farsa? O que ela devia ser, senão… política?
Política não é igreja, é guerra.
Aos crentes da política celestial dos anjinhos, cabe dizer algumas coisas.
Pra começar, a Dilma não precisa se preocupar. O Collor, quem diria? e sendo quem é, conseguiu se eleger senador depois de sofrer um “golpe” muito pior. E também porque o PT não enganou ninguém. Os desiludidos é que nutriram esperanças e ilusões ingênuas sobre ele (e agora por coisas piores). Mas vamos ao que interessa.
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O PT não foi apeado do poder por meio de um golpe.
Não houve ruptura institucional, a Constituição não foi rasgada e a democracia não acabou.
Ao contrário, estamos em plena e puríssima vigência da democracia do Estado de Direito burguês, e a Constituição continua firme e forte a serviço do capital. Não houve golpe, mas sim uma manobra política – no sentido mais íntegro da palavra, ainda que seu conteúdo não o possa ser.
Todas as medidas “golpistas” do atual governo, bem como sua própria entronização, passam por sobre um tapete vermelho no Congresso eleito pelo povo e “para o povo” – onde, aliás, o PT permanece enquanto oposição e, tal como no caso do próprio PMDB na ditadura militar, contribui para legitimá-lo.
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É claro que há quem ache estranho, imoral e inadmissível – por achar que se trata de uma legitimação do impeachment – que eu diga que o tal golpe “contra a democracia” nada mais foi que pura política operando em perfeitos marcos democráticos.
Eu não legitimo política alguma, e política alguma requer minha aprovação. Me interessa é dizer o que as coisas são, tais como elas são.
O tal golpe “contra o Estado Democrático de Direito”, muito antes pelo contrário, em nada atentou contra esse mesmo Estado.
Aliás, pondo os pingos nos is, tal manobra política não passou da mera demissão do PT do cargo de serviçal da burguesia.
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Longe de querer enfraquecer as lutas contra o governo Temer, a minha preocupação é justamente chamar a atenção para o efeito prático desmobilizador do uso do termo.
Quando o PT vende a tese do “golpe” e todo um varejo passa a distribuí-la, nada mais fácil para a direita que contra-golpear essa tese lembrando duas ou três coisas:
1) o “golpe” em questão está previsto na Constituição, e todas as instituições democráticas, longe de serem ameaçadas por tal “golpe”, o referendaram. O TCU rejeitou as contas, a Câmara dos Deputados autorizou a instauração do processo, o Senado admitiu sua abertura, o STF barrou todos os recursos impetrados pelo Governo, a OAB recomendou, etc. Quem podia dizer que era expediente ilegítimo, pois que engolfava o jurídico no político, o fez: José Eduardo Cardoso participou de todos os trâmites, apresentou impecável defesa de Dilma, e perdeu em todas as instâncias. Decerto, não se esqueceu que o que seria o “jurídico” estava sujeito a voto em todas elas. Mas, se isso é golpe, por que legitimou, de cabo a rabo, todo o processo?
A propósito, quem fala em “politização do judiciário” e “judicialização da política” parece se esquecer que o primeiro é (ainda que circunscrito às bolhas tribais da magistratura) perfeita e integralmente político, e a segunda é que elabora as leis (mesmo quando absurdamente ilegítimas).
2) é preciso explicar (e convencer) por que o impeachment de Collor (apoiado pelo PT) não foi golpe. O que era crime nesse caso e no caso atual é objeto de análise e decisão do Senado, e em ambos os casos o Senado concluiu pelo impeachment.
3) é absurdo forçar a aproximação do que há de comum entre Dilma e Jango, quando as diferenças são gritantes; em outras palavras, o que a palavra de ordem petista faz é esticar o conceito de golpe até o ponto em que se possa encaixotar o impeachment da Dilma dentro dele. No entanto, com isso se abre uma “jurisprudência” para se qualificar de golpe uma enormidade de ações políticas triviais, e de se perder de vista exatamente a especificidade daquilo que, até então, não era nada trivial, mas sim um golpe.
A partir desses argumentos, nada impede a direita de dizer que essa é apenas mais uma tentativa do PT em enganar o povo, que já anda bastante escaldado.
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A militância e sub-militância petistas, por sua vez, insistem no brado contra o “golpe”
1) ao confiarem na sofistaria que avaliza a idéia de que a democracia está em disputa, quer dizer, que ela pode ser conquistada, melhorada, aperfeiçoada ou até mesmo se tornar “de esquerda” (resta saber de quem seria essa proposta, já que o PT só é democrata da boca pra fora). Em consequência, se lançam a essa disputa de convencimento afirmando que ela, a democracia, e não o PT, é quem foi derrotada pelo “golpe” (apesar do PT ter seguido e legitimado o processo até o fim e toda a vida política brasileira, em todos os aspectos, permanecer tal como antes).
2) ao acreditarem que a política é uma prática que pode se harmonizar com os interesses dos trabalhadores (para não dizer: com os interesses humanos, na medida em que o interesse humano por valorizar capital é um interesse totalmente estranhado e alienado), donde resvalarem na crença da “ética na política” e na fantasia da “boa política”, comandada por heróis e salvadores da pátria, etc. (pura mitologia política, mais velha que o governo de Péricles). Por tudo isso, insistem em manter o foco das lutas e das críticas no âmbito do Estado, campo de batalha da direita por essência e excelência.
No entanto, essas crenças resultam, na prática, em impotência política e na chorumela da falsa crítica do ressentimento.
É preciso assumir que o PT vacilou, dançou e rodou na arena da política. E que a tentativa de angariar força por meio de uma tese equivocada como essa (se é que não passa de um marketing político feito às pressas) não resultará em uma força política que há de contar com a adesão da força de um entendimento claro e honesto.
Se bem que, ao menos, reuniu em sua defesa um bocado daquelas esquerdas que sempre desprezou.
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Agora, vejamos o outro lado.
Reconhecer que não houve golpe é reconhecer a verdadeira fisionomia da democracia burguesa, do Estado e da política em geral.
Este é um momento histórico propício, como raríssimas vezes se tem na história a oportunidade de se viver, para abrirmos os olhos a este fato.
É reconhecer que a democracia nada mais é que a forma que os interesses particulares, ou melhor, os capitais privados (reunidos em grupos ao redor de permanentes ou eventuais pontos comuns) disputam a tribuna da qual irão se proclamar interesses gerais, “da nação”, “do povo”, “do Brasil” etc.
Como se trata de uma arena onde combatem interesses particulares, ocasionalmente se apresentarão os que falarão em nome do trabalhador, sempre por ele, nem sempre para ele – e se tornarão aptos a servirem de jantar para as demais hienas.
Mas quem alega haver crise de representatividade na política apenas compartilha a mesma ilusão dos que denunciam agora o “golpe”. Desde quando a política visa representar o povo, ó cidadão da Disneylândia?
O poder político não emana de nenhuma forma de misticismo, tal como a “soberania” popular, e sim do poder material, econômico, o qual está muito bem representado na democracia.
Aliás, é o fato de haver tal poder econômico, ou seja, dominação social e secção da sociedade em classes, que explica a existência, a necessidade e os fins da política.
E é sobre a sociedade de classes que se ergue o Estado, a comunidade política dos cidadãos.
A cidadania é o resgate da comunidade perdida no mar burguês da competição universalizada, mas tudo nela é abstrato. O indivíduo se torna aí um punhado de números, por meio dos quais se decreta a igualdade de todos perante o Estado (escamoteando as diferenças sociais que vigoram na realidade cotidiana); e é assim que a expressão de sua sociabilidade na ética se degrada em códigos do Direito. A cidadania é, pois, o laço da comunhão de uma moral heterônoma, estatal, política, um “contrato social” imposto ao indivíduo; e o Estado jamais deixa de tutelar, pela lei e pela polícia, os membros dessa comunidade fantasmagórica, com o que não logra introjetar valores morais na formação dos princípios éticos de pessoa alguma, senão o medo.
O Direito é anti-ético. Tal como a moral, trata-se de um conjunto de normas que regula as relações sociais; porém, ao contrário dela, não emerge a partir de interações comunais e nem se afirma pelo reconhecimento de sua validade mesma, mas se impõe aos indivíduos em mútuo estranhamento de um ponto exterior e acima deles, se fazendo valer pela ameaça da sanção e, por tudo isso, evidenciando um caráter heterônomo, pueril, imputador, jamais permitindo e estimulando a autonomia, liberdade e responsabilidade dos indivíduos. O Direito é, assim, a expressão perfeita da hostilidade e da alienação que impera na sociabilidade anti-social da concorrência de todos contra todos.
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Muitos et ceteras caberiam listar aqui, mas o que foi dito acima já é suficiente para uma conclusão.
Os termos da alternativa são os seguintes: ou os trabalhadores se levantam contra a democracia burguesa, isto é, contra o Estado, isto é, contra o Direito, isto é, contra a cidadania, isto é, contra a política, ou vão continuar catando cascalho nas rebarbas da historieta tupiniquim. Donde não caber aos trabalhadores a defesa da democracia, mas sim a agudização das contradições da sociabilidade burguesa que ela possibilitou que aflorassem, visando e forçando a resolução de tais contradições – algo que democracia nenhuma pode permitir ou realizar.
Comecemos por uma greve geral, já!

sábado, 15 de outubro de 2016

Erik: Um Marxiano Contra a Dialética



Um bate bola entre eu e um marxiano antidialético. O texto dele, na íntegra, está disponível no blog dele, as minhas observações estão em itálico.




Marx: o materialismo contra a dialética

Certos marxistas gostam de dizer que o marxismo se corrige e se apura ao longo de sua história, através de “contribuições” dos mais díspares autores, cujo marxismo e contributo são garantidos por sua fidelidade ao “método do materialismo dialético”. São incapazes, entretanto, de corrigir ou eliminar essa farsa chamada “dialética marxista”.


Erik: como assim? Quem são seus inimigos, Erik? Que marxistas seriam esses? Eu? Engels? Stálin? Você vai desfazer essa farsa para nós? Aguardo ansioso. Marx é contra a dialética? Que interessante! Que descoberta.


Há, dentre outros mais, um texto de Marx claríssimo na crítica à dialética. É o capítulo “O Método da Economia Política”, de seu livro “Miséria da Filosofia”, onde mostra que o pensamento dialético está na verdade em Proudhon, de quem Marx critica o procedimento de encaixotar as categorias econômicas em categorias lógicas, produzidas por um ato especulativo que consiste em galgar os graus da abstração até se chegar em um patamar vazio de determinações, donde tais categorias serem “puras”; posteriormente, tais categorias são organizadas logicamente, e pronto: nasce mais um sistema dialético.

Vejamos o que diz João Quartim de Moraes a respeito:

A singularidade do texto que apresentamos no original, acompanhado da sólida e elegante tradução preparada por Fausto Castilho em 1996, está em que é a mais longa, densa e sistemática discussão sobre o método na obra de Marx. Ele também tratou do tema no Posfácio à 2ª edição alemã de O capital, mas principalmente para comentar resenhas sobre a 1ª edição. Cita uma longa passagem de uma delas, publicada no Correio Europeu de São Petersburgo, em que o autor expõe o que chama o método efetivo (wirkliche) de O capital. Ora, nota Marx, o que essa exposição, “acertada” e “benevolente”, descreve é o “método dialético”. Mas, por mais pertinente que tivesse sido a caracterização de seu método pelo resenhista russo, ele julgou útil consagrar à questão os cinco parágrafos restantes do Posfácio, principalmente para esclarecer as relações entre sua dialética e a hegeliana. Declara primeiro que seu método “é a antítese” do hegeliano, mas, defendendo Hegel contra os que pretenderam enterrar-lhe a obra, enuncia o célebre tema da inversão materialista da dialética, que separa o núcleo racional do envoltório místico. É evidente a importância desse Posfácio para o debate sobre a postura de Marx perante a dialética e a herança hegeliana, porém é no texto sobre o método da economia política que ele mostra como seu método funciona.


Falar de um “materialismo dialético” é cair imediatamente em uma contradição nos termos, pois enquanto o materialismo é ontológico – trata “o ser” não como categoria pura comum a tudo que existe (e que, portanto, nada tem a dizer de coisa alguma), mas considera “o ser” como um ser, uma coisa, um objeto, síntese de múltiplas determinações, ou seja, concreto, particular, específico, que apela não apenas ao pensamento mas também aos sentidos (pois dentre sua riqueza singular de predicados estão os que o tornam material) -, a dialética é um logicismo, uma fórmula metafísica dotada de “princípio”, não importa que não seja o ser “positivo, estático, eterno, imutável, infinito, perfeito, uno, em-si, esférico, absoluto” da metafísica tradicional (categorias do tempo, do espaço, da forma, do conteúdo, do ato etc. abstraídas e hipostasiadas ao vácuo total), mas sim o “devir”, o movimento tornado categoria pura, síntese da relação contraditória entre a pura “positividade” e a pura “negatividade” (Hegel inicia a “Ciência da Lógica” com a “análise” abstrativante da relação entre os puríssimos “ser” e “nada”, para fazer pipocar daí o “devir”); e de toda essa construção ideal pura, este “processo de contradições e sínteses que põe tudo (?) em movimento”, pretende alcançar o que é a verdade daquilo que é ontológico, concreto, impuro, que apela ao sensível muito antes de apelar ao pensamento filosófico, o que é verdadeiramente um absurdo e só pode se destinar ao fracasso ridículo, como todo bom sistema metafísico.

Erik: Pelo contrário, historicamente ontologia é o estudo do “ser do ser”. É abstração e inicialmente era voltada para o estudo de Deus, da Teologia. No final do seu confuso texto o termo ontológico voltou a significar abstração, metafísica. Mas o seu materialismo não era ontológico? É isso que é seu confuso “marxismo”. Tudo isso não passa de revisão absconsa do marxismo-leninismo, para os Eriks da vida se masturbarem na cátedra.

Donde Marx não partir de nenhuma dialética hegeliana, muito menos enxertando nela “o material” (o que seria um transplante totalmente estranho ao pensamento hegeliano) e retirando dela a “casca” de idéias irracionais do idealismo; algo que, convenhamos, teria sido extremamente banal de se ajeitar e não faria Marx merecer lugar nenhum na história da filosofia e da ciência.


Leia meu texto Marx, Conceitos Básicos, disponível no site da Comunidade Josef Stálin (Ui! Sentiu um arrepio?!): o método para chegar à realidade escolhido por Marx, como vimos, foi a dialética de Hegel repensada, assim como o conceito de história como um valor para o entendimento de qualquer ciência, arte ou religião. Estudando sua história e situando-a nela, esse saber será bem melhor entendido e mais frutífero. Hegel entendia a história do homem como uma sucessão de eras, ordenadas pelo espírito absoluto, chegando ao final dos tempos num continuum inspirado pelo cristianismo. Marx aproveita esse esquema mental, mas adapta-o ao materialismo: a sucessão histórica é de modos de produção: comuna primitiva, escravismo, capitalismo, socialismo, comunismo. E o “espírito absoluto” que move a história, ao invés de ser Deus, é o homem, através do processo histórico dialético (ou seja, através da tese/antítese/síntese), que seria para ele uma das leis fundamentais da natureza e da cultura.
         Muitas vezes se fala em “dialética” a propósito de Marx ou do marxismo, de tal forma que praticamente um virou sinônimo do outro. No entanto, a dialética é uma palavra de origem grega e de forma alguma foi inventada por Marx e por seus seguidores.
         A dialética, ou seja, a possibilidade de que o mundo seja formado pela luta dos contrários (dialegein) foi primeiramente estudada na Grécia Antiga por Heráclito (e o materialismo, por Epicuro e Demócrito). Dialética vem da palavra grega “dialektiké” que significa conversar, debater. Esses dois últimos foram, inclusive, objeto de estudo de Marx em sua monografia de conclusão de curso de doutorado em Filosofia (que era o equivalente à nossa graduação em Filosofia). Os gregos é que esboçaram a dialética. O filósofo Heráclito dizia que o todo se transforma: “jamais entramos no mesmo rio”. A luta dos contrários já tinha, para eles, muita importância, principalmente para Platão, que acentua a fecundidade dessa luta; os contrários se geram mutuamente. A palavra dialética vem diretamente de dialegein, que significa discutir. Exprime a luta de idéias contrárias.
            A dialética estuda as leis gerais do universo, leis comuns a todos os aspectos da realidade, desde a natureza física até o pensamento, passando pela natureza viva e pela sociedade.
            A dialética interessou especialmente a Marx porque é uma filosofia que pensa que o mundo está constantemente em transformação, que é a forma que assume essa luta à qual ele se refere.


O que Marx faz, ao contrário de partir de um método dialético – que só serve para enquadrar as coisas numa lógica -, é buscar “a lógica específica do objeto específico”, entender o objeto a partir de si mesmo, extrair suas diferenças específicas, compreendê-lo em sua especificidade.


Erik, você nas notas admite que Marx utilizava a dialética como método de exposição, ou seja, o método dialético. Mais aí em cima você diz que “ao contrário de partir de um método dialético”...decida-se. Você não consegue manter a coerência nem um texto!Quiçá tornar-se esse grande filósofo que você que ser. Mas juntos chegaremos lá! Continuemos a aulinha básica.
Na antiguidade, dialética era a arte de chegar à verdade. O método seria o dialético, ou seja, através das contradições do pensamento em um diálogo. Essa forma de entender o mundo foi estendida aos fenômenos da natureza. O método dialético marxista olha a natureza como um todo unido, coerente, em que os objetos e fenômenos estão ligados entre eles de forma orgânica, dependendo uns dos outros e condicionando-se de forma recíproca. Nenhum fenômeno pode, então, ser tomado fora das condições que o rodeiam, se for separado das condições. A natureza, para a metafísica, é imóvel, estagnada e imutável. Já para o método dialético, ela anda num estado de movimento e transformação perpétuos, numa renovação e desenvolvimento incessantes. Para o método dialético, o fenômeno tem de ser considerado também do ponto de vista de seu movimento, transformação, aparecimento e desaparecimento. O dialético focaliza naquilo que nasce e se desenvolve, não focando na estabilidade como o método metafísico.
            Toda a natureza está num processo de aparecimento e desaparecimento, num fluxo incessante de transformação perpétua. A dialética observa as coisas principalmente no seu encadeamento, no seu movimento, aparecimento, desaparecimento e relações recíprocas.
            O dialético considera que o desenvolvimento é sempre um processo progressivo, onde as mudanças quantitativas se sobrepõem às qualitativas; o processo poderia ser ilustrado por uma espiral. São o resultado de mudanças quantitativas insensíveis e graduais.
            A natureza é a pedra de toque da dialética. Para o dialético, Darwin mostrou que o mundo existente é um mundo orgânico que se transforma há milhões de anos. Já a concepção metafísica, cada vez mais criticada e desvalorizada entre os cientistas, começou com o Aristóteles e sua idéia de Deus como “motor imóvel”.


Daí que não se trata nunca de ficar no âmbito abstrato da “aplicação” de categorias abstratas, tais como modo de produção tal, relação social de produção tal, forças produtivas contraditórias a tal, infraestrutura assim, superestrutura assado, logo revolução. Marx, ao contrário disso, investiga as coisas a fundo, e a tal ponto que desmente uma série enorme de receitas distribuídas pelo marxismo de apostila, como p.ex. a idéia de etapas necessárias no desenvolvimento de uma economia para poder transitar ao comunismo (o etapismo, está claro, é fruto do logicismo, da dialética aplicada do éter teorético do mundo das idéias abstratas sobre a realidade concreta da prática – uma tremenda imbecilidade intelectual). O procedimento de Marx é materialista, crítico-ontológico.
Materialismo não é uma lógica, uma aplicação de métodos ou uma combinação nova de idéias (extraídas, arbitrariamente, do sistema filosófico alheio no qual fazem sentido); como bem viu Lenin, ao proceder ontologicamente, “Marx não nos deu uma Lógica, mas sim a lógica do capital”.
P.S. – Um interlocutor insistiu na existência de uma dialética em Marx, citando o famoso Posfácio à Segunda Edição de O Capital, onde encontramos um rol de elogios a Hegel e à “forma racional e revolucionária” da dialética, que será “enfiada na cabeça dos novos-ricos do novo Sacro Império Prussiano-Germânico” pela vindoura e intensa “crise geral”.
Chamei-lhe a atenção para as palavras que se encontram dez parágrafos antes: “O Correio Europeu, de São Petersburgo, em um artigo inteiramente dedicado ao método de O Capital (maio de 1872), considera meu método de investigação estritamente realista, mas o modo de exposição, desgraçadamente, dialético-alemão”.

E em meio à resposta de Marx, temos essas linhas:

“Sem dúvida, deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma do modo de investigação. A investigação tem de se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Se isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se encontrar diante de uma construção a priori”.

O método dialético de Marx é, pois, um método de exposição.

Mas ainda há uma carta escrita a Engels em 1867, na qual se lê:

“Você tem toda razão a respeito de Hofmann. A propósito, você verá na conclusão do meu capítulo III, onde eu esboço a transformação do mestre-artesão em capitalista – como resultado de mudanças puramente quantitativas – que, no texto, eu cito a descoberta de Hegel sobre a lei de transformação de uma mudança meramente quantitativa em uma mudança qualitativa como sendo atestada pela história e, de forma semelhante, pelas ciências naturais”.

A passagem aludida por Marx está no capítulo “Taxa e Massa de Mais Valia” (O Capital) e diz o seguinte:

“As corporações de ofício da Idade Média procuraram impedir pela força a transformação do mestre-artesão em capitalista, limitando a um máximo muito exíguo o número de trabalhadores que um mestre individual pode empregar. O possuidor do dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente num capitalista quando a quantidade desembolsada para a produção ultrapassa em muito o máximo medieval. Aqui, como na ciência da natureza, mostra-se a exatidão da lei, descoberta por Hegel em sua Lógica, de que alterações meramente quantitativas, tendo atingido um determinado ponto, convertem-se em diferenças qualitativas”.

Quanto a isso, cabe dizer que os princípios da dialética hegeliana se assentavam no que Lukács chamou de “a autêntica ontologia de Hegel” (devidamente tornada falsa por meio do logicismo dialético). E quando Marx aponta tais princípios (ou “leis”) no próprio objeto, não está aplicando a dialética de Hegel nele, mas extraindo do objeto o próprio arrimo da aplicação da dialética como método de exposição. Só por isso, aliás, é que tal aplicação é possível e não-arbitrária.
Mas tais princípios não são a afirmação de uma ontologia dialética, uma dialética da natureza ou da realidade dialética em si mesma. Por exemplo, a contradição: é na investigação da mercadoria que Marx a identifica atravessando sua essência constituída por valor-de-uso e valor. De modo algum a contradição é natural aos produtos do trabalho humano, enquanto simples valores-de-uso, mas é assumida por estes em seu existir concreto no modo de produção capitalista, em sua existência objetiva como mercadoria.
Hegel mesmo era um entusiasta da Economia Política. Não retirou seus princípios dialéticos de nenhuma dialética originária, porém os recobriu com os resultados lógicos – a que chegou por via especulativa – e transformou tais princípios em fundamentos de uma verdadeira metafísica, reduzindo a historicidade a uma teologia, com a qual traduziu filosoficamente a Bíblia: no início temos a Idéia, que então é negada por sua alienação original sob a forma de Natureza, para que, ao fim de todo seu trabalho de resgate de si, atinja o estágio absoluto do Espírito revelado.
Ao contrário disso, e do que crê o marxismo da dialética marxiana a priori, o método dialético de Marx é totalmente a posteriori. Pois bem, nem todos os marxistas retiraram a “casca irracional” da teologia hegeliana e ainda aguardam o Juízo Final sob o comunismo; mas, dentre aqueles que a descascaram, alguns não perceberam que o “invólucro racional” está por ser descoberto nas coisas mesmas, e insistem na metafísica hegeliana de uma lógica dialética pairando sobre a realidade.

Erik, você toca num ponto muito interessante: é um indicativo de que você mistura o pensamento idealista hegeliano ao pensamento marxista, baseando-se nisso nos textos do jovem Marx, totalmente embebidos do pensamento e do vocabulário hegeliano. Isso fica bastante evidente em todo o seu texto.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Comentário sobre texto traduzido por mim no blog da AND

Excelente texto dos camaradas equatorianos. Muito importante demonstrar que na conta do Sr. Castro e seus servos, devemos depositar enormes quantidades de sangue do proletariado mundial, em particular, latinoamericano que, de forma encantada seguiram seus passos revisionistas e deram a vida para aplicarem suas receitas místicas e mirabolantes que não conduziram a nenhuma vitória expressiva pra classe. Ademais do povo cubano, debaixo da ditadura de seus dirigentes burocráticos, que aspiram o socialismo, aspiram o fim do servilismo colonial e até este momento têm sido enganados por sua direção. Mas não sem combate… o povo cubano triunfará sobre estes srs. É bem nítido que de fraseologia oca anti-imperialista, em menos de 20 anos, os dirigentes revisionsitas da família Castro transitaram para o discurso da mendicância internacional, através da sua principal palavra de ordem de “fim ao embargo”, e a lamberem as botas do imperialismo ianque, por não confiarem nas massas e por saberem que sua economia capitalista não se sustenta por si sem dobrar-se à potência única e hegemônica de nossos tempos.
Ressalto apenas um ponto deficiente do texto, que é sobre o papel de Guevara. É necessário ter em mente que as contradições entre revisionismo e marxismo também existiram no seio da dirigência da revolução democrático-burguesa, sendo que nesta, Guevara representava linhas de esquerda e que sua debilidade ideológica e morte precoce o impediram de travar uma luta mais consequente, mas que demonstrava profundas divergência, sendo inclusive estas profundas divergências um impulso para o seu “abandono” da cia. de Castro, que aproveitou para se livrar do incômodo, jogando-o para as garras do imperialismo ianque. Sua concepção militar era totalmente burguesa e isso deve ser duramente criticado, mas não tanto seu papel histórico como principal cabeça do revisionismo cubano ao lado de Castro, tendo este último (e hoje, seu irmão Raúl) principal papel.
Saudações!

O texto acima referido, traduzido por mim, foi publicado no blog da A Nova Democracia:

A Bancarrota do Revisionismo Cubano

Recepção de Dostoiévski no Orkut


Um bom trabalho sobre a  Recepção de Dostoiévski no Orkut