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segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Quem tem a ideologia do proletariado? Prestes, Lula, Gonzalo e a ciência de Valter Pomar
*Uma crítica à consciência de classe, à eficácia política e à pretensão de transformar o marxismo em garantia da verdade.*
O problema colocado por Valter Pomar em *Apontamentos sobre “O que é Ideologia” ou... Para uma crítica da “anti-ideologia”* é mais difícil do que parece. Ao discutir Marilena Chauí, Pomar procura defender o materialismo dialético sem reduzir a ideologia à falsificação da realidade promovida pela classe dominante. O problema é que, ao ampliar o conceito de ideologia, ele precisa enfrentar uma pergunta que atravessa a história do marxismo: **se o marxismo também é uma formação histórica, como distinguir sua pretensão científica de sua condição ideológica?**
Essa dificuldade não se resolve afirmando que cada classe possui sua ideologia. É necessário explicar por que uma concepção do mundo, produzida em determinadas condições históricas, seria capaz de ultrapassar os limites dessas mesmas condições. E é justamente nesse ponto que a história do PT, as críticas de Luiz Carlos Prestes, a entrevista de Lula sobre Hitler e a concepção de ideologia proletária de Abimael Guzmán — o chamado Presidente Gonzalo — podem ser colocadas em confronto.
## 1. Prestes: o operário não nasce comunista
Em agosto de 1987, Luiz Carlos Prestes declarou à *Folha de S.Paulo* que PT e PDT eram partidos burgueses porque não possuíam a ideologia do proletariado, mas uma ideologia da classe dominante. Sua crítica alcançava também o PCB e o PCdoB, que ele acusava de abandonar a perspectiva revolucionária ao apoiar a transição conduzida pelo governo Sarney. O registro dessa posição aparece no *Atlas Histórico do Brasil*, da Fundação Getulio Vargas.
A afirmação de Prestes merece mais atenção do que costuma receber. Ela não se limitava a denunciar a moderação de um partido. Questionava a identificação entre a origem social de seus dirigentes e o conteúdo de sua política. Lula era um dirigente operário, reconhecido por sua capacidade de mobilização sindical. Para Prestes, isso não bastava: um operário podia continuar pensando dentro dos limites da ideologia burguesa.
Em outra formulação atribuída a Prestes, a distinção é ainda mais explícita: ninguém nasce comunista; todos nascem sob a influência dominante da ideologia burguesa, e a mudança exige estudo do marxismo, entendido como ciência do proletariado. Essa passagem aparece reproduzida em uma publicação sobre a história do petismo, que a atribui a uma entrevista televisiva. Sua formulação é importante, embora a fonte e o contexto integral da entrevista devam ser conferidos antes de se estabelecer uma citação acadêmica definitiva.
O argumento contém uma crítica pertinente ao obreirismo: a posição ocupada na produção não fornece, por si só, uma consciência política correspondente aos interesses históricos atribuídos à classe. A experiência de exploração pode gerar solidariedade, organização e resistência; não produz automaticamente uma teoria das relações sociais em sua totalidade.
Mas Prestes também deixa uma questão em aberto. Se a ideologia dominante penetra a consciência de todos, como o marxismo escapa dessa determinação? A resposta não pode ser simplesmente que o militante estudou Marx. O estudo pode reproduzir dogmas, converter uma tradição em identidade partidária ou substituir a análise concreta pela repetição de fórmulas. O próprio marxismo precisa explicar como produz conhecimento, como testa suas categorias e como reconhece os próprios erros.
A crítica de Prestes ao PT é, assim, mais fecunda quando lida como problema teórico do que como sentença definitiva sobre a natureza de um partido. O PT nasceu em 1980 de uma composição heterogênea, que reuniu o novo sindicalismo, setores intelectuais, grupos de esquerda, movimentos sociais e militantes cristãos. A hipótese de que sua orientação política incorporou elementos da pequena burguesia radicalizada e de setores organizados do proletariado precisa ser demonstrada pela análise de seus programas, de suas práticas e de suas transformações — não deduzida mecanicamente de sua composição social.
Também é necessário distinguir a aristocracia operária, no sentido marxista, do conjunto dos trabalhadores industriais. A expressão designa segmentos relativamente privilegiados ou estabilizados da classe trabalhadora, não uma essência política comum a todos os operários. O problema, portanto, não é descobrir qual grupo social possui naturalmente a consciência verdadeira, mas investigar as condições em que determinadas experiências sociais produzem determinadas concepções políticas.
## 2. Lula e Hitler: a política como disposição para agir
Em julho de 1979, durante uma entrevista à revista *Playboy*, Lula mencionou Adolf Hitler entre figuras históricas cuja disposição para agir o impressionava. Ao ser questionado diretamente, distinguiu essa admiração da adesão às ideias do ditador: “É diferente de admirar as ideias dele, a ideologia dele”. O trecho foi reproduzido pela *Folha de S.Paulo* em abril de 1994, durante a controvérsia sobre a entrevista.
É necessário preservar a distinção factual: Lula não declarou adesão ao nazismo. A passagem não autoriza classificá-lo como nazista, nem permite explicar toda a sua trajetória política por uma entrevista concedida no início de sua atuação sindical nacional. O interesse teórico do episódio é outro.
Lula separa a disposição, a força e a dedicação de um agente do conteúdo ideológico e dos objetivos de sua ação. Essa separação pode parecer razoável: reconhecer que alguém possui capacidade de mobilização não significa compartilhar suas ideias. Mas a entrevista abre uma questão política importante: **até que ponto a eficácia de uma ação pode ser julgada independentemente dos fins que ela realiza e das relações sociais que ela reproduz?**
A capacidade de mobilização de Hitler não pode ser separada, na avaliação histórica de seu regime, da destruição das organizações operárias independentes, da perseguição política, do racismo de Estado, da guerra de agressão e do genocídio. A eficácia não é um valor politicamente autossuficiente. É preciso perguntar: eficácia para quê, em benefício de quem e com quais consequências?
O episódio permite discutir uma concepção voluntarista da política, na qual a determinação pessoal, a energia e a capacidade de realizar objetivos adquirem valor relativamente autônomo em relação ao conteúdo desses objetivos. Não prova que essa concepção explique Lula ou o PT como um todo; serve, porém, para formular uma questão que ultrapassa o entrevistado.
A crítica vale também para a esquerda revolucionária. Um partido pode exaltar a disciplina, a determinação, a unidade e a capacidade de intervenção como se essas qualidades garantissem a correção de sua linha política. Mas a força organizativa não demonstra a verdade de uma teoria. Um movimento pode ser eficaz e produzir consequências reacionárias; pode fracassar numa ação particular e, ainda assim, ter identificado corretamente uma contradição social.
É nesse sentido que o debate sobre Hitler se conecta à questão da ideologia proletária: **se a origem operária não garante a verdade da consciência, a eficácia da ação tampouco garante a emancipação de seus resultados.**
## 3. Gonzalo: uma ideologia proletária que seria ciência
A concepção de Abimael Guzmán, conhecido como Presidente Gonzalo, oferece uma resposta diferente à dificuldade levantada por Prestes e Pomar. Na entrevista conhecida como *Entrevista do Século*, publicada em 1988, Guzmán define a ideologia do proletariado como produto da luta histórica dessa classe, incorporando também o estudo das lutas anteriores e aquilo que a ciência produziu de mais elevado. Ele identifica o marxismo-leninismo-maoismo como uma etapa superior do desenvolvimento do marxismo.
Em outro texto, sobre o chamado pensamento Gonzalo, a aplicação da ideologia universal às condições concretas de cada revolução aparece como fundamento de uma direção política. A teoria não deveria ser simplesmente repetida: precisaria ser aplicada à situação histórica específica.
Essa formulação permite distinguir dois sentidos de “ideologia proletária”. No primeiro, a expressão designa uma visão de mundo ligada à posição social e à luta política do proletariado. No segundo, significa uma teoria científica capaz de compreender as relações sociais e orientar sua transformação. Os sentidos podem estar relacionados, mas não são idênticos.
Se a ideologia proletária é uma concepção de mundo historicamente situada, ela deve ser submetida à crítica de suas condições sociais de produção. Se é ciência, precisa demonstrar sua capacidade de produzir conhecimento, explicar processos e rever conceitos diante de evidências e contradições. A origem de classe de uma teoria não demonstra sua cientificidade; tampouco a reivindicação de cientificidade prova que ela tenha superado seus condicionamentos históricos.
A questão se torna ainda mais delicada quando uma organização reivindica uma interpretação particular do marxismo como sua etapa superior e associa essa interpretação a uma direção política específica. Quem decide se houve desenvolvimento científico, aplicação correta ou desvio? Se a resposta for, em última instância, a própria direção que reivindica a teoria, a autoridade política corre o risco de funcionar como certificado de sua verdade.
No caso de Gonzalo, esse problema se agrava pela vinculação de sua concepção à experiência do Partido Comunista do Peru — Sendero Luminoso, organização responsável por uma campanha de violência política extrema. A pretensão de representar a ciência proletária não elimina a necessidade de examinar os resultados históricos da estratégia que reivindica essa ciência. Tampouco o fracasso ou o caráter criminoso de determinadas práticas, isoladamente, resolve todas as questões epistemológicas; mas impede que a autodeclaração de cientificidade seja aceita como prova suficiente.
A pergunta decisiva é: uma teoria pode reconhecer como erro próprio uma derrota histórica, uma avaliação equivocada das forças sociais ou uma prática política desastrosa? Ou toda evidência contrária será reinterpretada como manifestação da ideologia inimiga, traição interna ou insuficiência de aplicação?
Uma ciência que não admite condições possíveis de revisão aproxima-se de um sistema fechado de legitimação.
## 4. Althusser: a ciência não é simplesmente a ideologia de outra classe
A hipótese de uma influência de Louis Althusser sobre essa concepção é conceitualmente plausível, mas precisa ser delimitada. Não basta a semelhança entre as expressões “ciência do proletariado” e “ideologia proletária científica” para provar uma derivação direta de Gonzalo a partir de Althusser. Os textos de Gonzalo apresentam sua própria genealogia: Marx, Lenin e Mao. Uma influência althusseriana específica exigiria evidência textual ou documental adicional.
Ainda assim, Althusser é indispensável para o debate. Em sua leitura de Marx, a constituição do materialismo histórico como ciência envolve uma ruptura epistemológica com categorias e problemáticas ideológicas anteriores. A ciência não seria apenas uma opinião mais correta, nem a expressão espontânea da experiência de uma classe. Ela dependeria de uma prática teórica capaz de produzir conceitos e objetos de conhecimento próprios. A *Stanford Encyclopedia of Philosophy* apresenta essa dimensão de sua obra e também registra as revisões que Althusser fez posteriormente em sua concepção da relação entre ciência e ideologia.
Aqui está a diferença relevante. Dizer que o marxismo é a ciência do proletariado não deveria significar que tudo o que um partido proletário afirma é científico. A posição de classe pode orientar perguntas, revelar contradições ignoradas por outras perspectivas e conferir interesse político à investigação. Mas não substitui o trabalho teórico que distingue uma explicação consistente de uma representação ideológica.
Além disso, o próprio Althusser tornou mais complexa sua oposição inicial entre ciência e ideologia. A ideologia não é simplesmente uma coleção de mentiras: é uma dimensão das relações sociais, uma forma pela qual os indivíduos vivem e representam sua relação com o mundo. Não desaparece automaticamente com a existência de uma ciência. Essa concepção impede que a distinção entre ciência e ideologia seja reduzida a uma divisão moral entre quem possui a verdade e quem vive no erro.
É justamente aqui que a formulação de Gonzalo precisa ser interrogada. Se a ciência marxista resulta de uma prática teórica, a aplicação de seus conceitos a uma revolução concreta não pode ser presumida como correta apenas porque foi feita por uma direção que se declara marxista-leninista-maoista. Aplicar uma teoria exige interpretar a realidade, selecionar dados, formular hipóteses e avaliar resultados. A aplicação, portanto, também pode falhar.
A diferença entre a perspectiva althusseriana e a concepção de Gonzalo não deve ser apagada. Althusser fornece instrumentos para pensar a produção de conhecimento e a ruptura epistemológica; Gonzalo apresenta uma teoria político-revolucionária que reivindica a continuidade e o desenvolvimento do marxismo-leninismo-maoismo. A questão é saber se essa reivindicação deixa espaço suficiente para uma crítica independente da direção e de suas decisões.
## 5. Pomar e o problema que permanece
É nesse quadro que o texto de Valter Pomar ganha outra dimensão. Ao criticar a redução da ideologia à mistificação da classe dominante, Pomar tenta recuperar a historicidade das concepções de mundo e a existência de ideologias associadas a diferentes classes. Seu argumento também procura defender o materialismo contra a ideia de que a realidade se reduz às representações humanas.
A discussão sobre a montanha é importante porque permite distinguir a existência material de um objeto dos significados que ele adquire nas relações sociais. A montanha existe independentemente de ser vista como obstáculo, propriedade, recurso mineral, território sagrado ou paisagem. Esses significados não são imaginários no sentido de serem irreais: alguns dependem de instituições, direitos de propriedade, práticas produtivas e relações históricas concretas. Mas não se deve confundir a realidade material do objeto com as formas sociais de sua apropriação e interpretação.
O mesmo cuidado é necessário com o conceito de ideologia. Se toda concepção de classe é ideológica, em que sentido o marxismo pode reivindicar validade científica? Se o marxismo é ciência, como sua própria história social, seus usos políticos e seus compromissos de classe entram em sua autocrítica?
Pomar identifica a tensão, mas a simples ampliação do conceito de ideologia não a resolve. Também não basta dizer que o marxismo é simultaneamente produto de uma classe e ciência da sociedade. Essa afirmação pode ser uma hipótese a demonstrar, não a demonstração em si.
Prestes resolve a questão pela oposição entre ideologia burguesa e ciência proletária, mas corre o risco de fazer do estudo do marxismo uma passagem quase automática de uma consciência a outra. Gonzalo radicaliza a pretensão de uma ciência proletária ao vinculá-la a uma etapa específica do marxismo e a uma direção revolucionária. Althusser oferece instrumentos para compreender a produção teórica do conhecimento, mas sua própria trajetória mostra as dificuldades de estabelecer uma fronteira simples e definitiva entre ciência e ideologia. Lula, na entrevista de 1979, introduz outro problema: a capacidade de agir não torna cientificamente correta a concepção que orienta a ação.
As quatro posições não são equivalentes. Prestes formula uma crítica política ao PT; Lula distingue disposição e ideologia; Gonzalo reivindica uma doutrina revolucionária científica; Pomar debate a relação entre materialismo e ideologia; Althusser investiga a especificidade da prática teórica. O interesse de colocá-los em diálogo está precisamente em não reduzir suas diferenças a uma mesma doutrina.
## Conclusão: nenhuma classe possui certificado prévio de verdade
A origem operária de um dirigente não garante sua consciência socialista. A composição social de um partido não determina mecanicamente sua ideologia. A disciplina de uma organização não prova a correção de sua estratégia. E a autodeclaração de cientificidade não transforma uma doutrina em ciência.
O mérito da crítica de Prestes está em recusar que a origem operária de Lula bastasse para definir o caráter de sua política. A entrevista sobre Hitler, lida sem distorções, permite acrescentar que a disposição para agir também não basta para avaliar os fins e os resultados de uma ação. Gonzalo, por sua vez, obriga a discutir a possibilidade de uma ciência do proletariado, mas sua formulação deixa em aberto o problema de quem verifica a aplicação correta da teoria e de como uma direção revolucionária pode reconhecer os próprios erros.
Pomar enfrenta uma dificuldade semelhante quando procura defender o marxismo como teoria materialista e, ao mesmo tempo, reconhecer a historicidade da ideologia. A solução não pode ser conceder ao marxismo uma imunidade que se nega às demais concepções do mundo.
Se o materialismo histórico pretende ser ciência, deve submeter suas categorias, suas interpretações e suas experiências políticas à investigação histórica. Isso inclui o PT, o PCB, as organizações maoistas e o próprio marxismo. Não porque todas as posições sejam equivalentes, mas porque nenhuma delas pode substituir a demonstração pela identidade social, pela autoridade partidária ou pela eficácia prática.
A questão não é escolher entre uma ideologia burguesa e uma ideologia proletária como quem escolhe entre duas etiquetas. É explicar como uma teoria historicamente situada produz conhecimento válido, como distingue suas descobertas de seus próprios compromissos ideológicos e como reconhece os momentos em que a política, em nome da emancipação, passa a defender a si mesma.
É nesse ponto que a crítica da ideologia precisa começar — inclusive quando o objeto da crítica é a ideologia que afirma ter superado todas as outras.
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## Referências bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. *Pour Marx*. Paris: François Maspero, 1965.
ALTHUSSER, Louis. *Lire le Capital*. Paris: François Maspero, 1965. Obra coletiva com Étienne Balibar e outros colaboradores.
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GUZMÁN, Abimael. *Entrevista do Século com o Presidente Gonzalo*. 1988. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/gonzalo/1988/07/24.htm.
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MARX, Karl. *O 18 de Brumário de Luís Bonaparte*. 1852.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. *A ideologia alemã*. Escrito em 1845–1846.
POMAR, Valter. *Apontamentos sobre “O que é Ideologia” ou... Para uma crítica da “anti-ideologia”*. Texto fornecido para análise. Dados de publicação não confirmados.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Entrevista à revista *Playboy*, jul. 1979. Trechos reproduzidos em: *Folha de S.Paulo*. “Assessor diz que Folha ‘distorceu’ frase de Lula”, 28 abr. 1994. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/4/28/brasil/15.html.
STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. “Louis Althusser”. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/althusser/.
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