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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Celso Lungaretti no Provocações

Embora divirja das análises de conjuntura dele, achei impressionante essa entrevista de Celso Lungaretti no excelente programa Provocações. E recomendo:


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Laerte Braga X Celso Lungaretti

PASSIONALISMO BUFÃO – A ESQUERDA QUE É DIREITA





Laerte Braga





Não sei porque, quando li as explicações do senhor Carlos Alberto Lungarzo e do jornalista Celso Lungaretti sobre as críticas feitas à ANISTIA INTERNACIONAL, particularmente às posições daquela ONG a propósito de decisões do presidente da Venezuela e a cândida proposta de negociar com Porfírio Lobo, presidente que legitimou o golpe em Honduras, as ditas me trouxeram à lembrança o George, personagem de uma das melhores séries da tevê, SEINFELD.



“Como é que você se agüenta?” A pergunta foi feita por um bombeiro, num dos episódios da série, em seguida a uma frigideira que pegou fogo e fez com George saísse em desabalada carreira buscando salvar-se a dane o resto. Senhoras em cadeira de rodas, crianças, o que à sua frente lhe impedisse de buscar a sobrevivência longe do fogo.



A resposta de George foi simples – “nem eu sei, mas é difícil” –.



Experiência, vivência e história podem trazer sabedoria, mas também presunção, arrogância e podem servir para ocultar exatamente a realidade das experiências, das vivências e principalmente, das páginas não escritas dessa ou daquela história pessoal.



Uma vez perguntaram ao escritor Pedro Nava que conselho ele daria aos jovens com sua experiência de vida. A pergunta foi desferida por uma jovem e bela jornalista. A resposta de Nava refletiu sua melancolia – “nenhum conselho minha filha, experiência é como um farol voltado para trás, ilumina o passado e nada mais”.



Era só melancolia. Pode ser a arma dos espertos também.



Que Rosa de Luxemburgo tenha dito “não passarão” é uma coisa. Na afirmação de Lungaretti é uma heresia. Aquele negócio de Tarzã sair de galho em galho através de cipós e com Chita nos ombros, enquanto Jane esperava para o jantar, só em cinema.



As detalhadas explicações do senhor Lungarzo, já bem dissecadas por Marcos Rebello, o sentido da excomunhão, só fazem reforçar ou a ingenuidade do referido senhor Lungarzo, ou a confissão explícita de seta ligada à esquerda enquanto o carro vira à direita.



Está lá que o “bolivarianismo” é uma tragédia e pior, invoca Marx. Como se pronuncia o nome de Marx em vão. Mas, serve a afirmação, para deixar claro de que lado está a ANISTIA INTERNACIONAL, ou pelo menos o senhor Lungarzo.



A questão não está necessariamente nos Direitos Humanos, mas na denúncia contra o bolivarianismo. Estende-se ao peronismo, mas isso é outra história, lá para trás, não convém mexer agora.



A forma frontal, digamos assim, simplista e matemática, como o senhor Celso Lungaretti refere-se aos acontecimentos de 1964 para justificar alguma coisa com a saída de João Goulart do País é um estarrecedor exemplo de “meu Deus, onde Lamarca estava com a cabeça?” Claro que na sua integridade e na absoluta crença nos seus ideais. Permanecem e passarão. Lungaretti não.



Busca prolongar apenas os quinze minutos de triste glória. No mínimo de confusa glória, ou glória não bem esclarecida. Ou glória desesperadamente perseguida.



Justificar a necessidade de compelir o presidente golpista de Honduras a tomar atitudes contra a tortura e a boçalidade de militares e elites golpistas que tiveram seus interesses contrariados, soa como o George tentando dizer que no “incêndio” as pessoas precisavam de um líder para guiá-las. Aí derruba as velhinhas, as crianças, mas sai impávido.. Lógico, não sabem mesmo com se agüenta.



Encerrar a História num vaso, ou num jarro em cima de uma experiência e vivência que se transforma no “eu”, “eu”, “eu”, putz, deixem Rosa de Luxemburgo em paz, não tem nada a ver com isso.



Pretender dizer aos jovens me lembra aqueles diretores de escola nos EUA falando de quantos banqueiros saíram daqueles bancos, quantos senadores, um ou dois presidentes, até que um maluco entra pelas salas a dentro disparando rajadas de metralhadora porque recebeu um aviso divino ou foi reprovado em determinada matéria.



Há que se ter mais seriedade numa discussão e menos pretensão.



Emitir um ponto de vista não significa escorar-se numa tábua de dez mandamentos definitivos. É só um direito. Afirmar que a ANISTIA INTERNACIONAL se presta a jogadas do imperialismo é uma realidade. Dois milhões e poucos membros e daí?



Edir Macedo é um bandido que em qualquer lugar do mundo onde existisse o mínimo de seriedade estaria na cadeia por charlatanismo, estelionato, um monte de coisas. Mas e o fiel de sua “igreja”? Que culpa tem?



A ANISTIA INTERNACIONAL recebe doações de empresas e fundações comprometidas com o capital internacional, com o imperialismo norte-americano, a nota a propósito da decisão de Chávez de suprimir o sinal da RCTV faz esse jogo, desconhece a realidade, isso soa mais ou menos como de dez mil ações negativas, por favor me dê uma chance, um dia eu ajudei um cego a atravessar a rua. Mas com a GLOBO transmitindo ao vivo e mostrando o bom mocismo. O outro lado, a sombra, é omitido.



“Uma campanha de satanização” e vai por aí afora para terminar em “implicitamente contra mim e contra Carlos Lungarzo”.



Um altar pelo amor de Deus. Um altar!



Zelaya fez um “acordo” com o governo golpista para sair do país, Honduras? Onde? Delírio puro. Manuel Zelaya estava na embaixada do Brasil e retirou-se de lá com garantias do direito internacional, salvo conduto, que serviu, à época do golpe, para que vários asilados aqui, pudessem viajar ao exílio. Não é o caso de quem renegou a luta e fez acordo público com o governo militar. Só pode ser por isso a visão distorcida e equivocada.



Nem todos os dedos das mãos são iguais.Ou melhor, são todos desiguais.



Insisto, um altar! Tem o dom de pitonisa. Contém em si toda a verdade, que na verdade é aquele perfume uma grama que distribuem à porta das lojas da rede. Disfarça o mau cheiro. Só isso, mais nada. Muitas gramas serão necessárias.



As gramas do fato consumado. O cair de quatro. Se o golpe se consolidou em Honduras paciência, vamos negociar com o golpe. Tem prática disso.



E pasme-se, está contido ali no texto que Goulart buscou salvar a própria pele. O profeta proclama sugerindo lucidez a previsão do que viria a ser a realidade. Salvar a própria pele. A dele, Goulart tinha em si a dignidade de um homem exemplar.



Quanto mais mexem pior fica.



O falecido Jô Soares, quando humorista, tinha um personagem que acordava depois de uma longa noite de inverno, hibernado num hospital após golpe e ao saber que determinados fantasmas continuavam proliferando e deitando sabedoria à esquerda, pedia desesperadamente que botassem de novo os tubos e voltava ao coma.



A ANISTIA INTERNACIONAL é uma aparência de direitos humanos e uma realidade de imperialismo. E Celso Lungaretti não sabe distinguir fanáticos religiosos de espertos religiosos, ou sabe e continua esperto.



E tem mais. Tenho um medo incrível que esse tipo de “revelação” chegue ao conhecimento dos arianos sionistas de Israel e cismem de justiçar iranianos num ataque libertador como costumam fazer com os palestinos.



O “náufrago da utopia” se pergunta se devemos, fala do Irã, deixar que os “bárbaros se trucidem”. Que bárbaros? Está sugerindo que os mariners corram lá para abençoar e levar civilização? Transformem tudo numa Guantánamo?



Como estão fazendo no Haiti?



Senhoras e senhores há um novo salvador. Ajoelhemo-nos. O pagamento vem em bananas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Para entender a queda do Muro

PARA (REALMENTE) ENTENDER A QUEDA DO MURO DE BERLIM

Celso Lungaretti
A queda do muro de Berlim, há 20 anos, marcou o fim do chamado socialismo real - a tentativa de construção do socialismo com o descarte de algumas das premissas básicas fixadas por Karl Marx e Friedrich Engels em meados do século 19.

No princípio, os profetas apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A Internacional Socialista, que havia sido fundada sete anos antes, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrados com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. E teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução.

A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário: os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações.

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais-patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

O socialismo num só país – Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.

Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando irremediavelmente.

Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.

Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida no mundo inteiro e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.

Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do nada.

Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.

A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.

Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.

O grande feito da URSS: derrotar Hitler - Este conseguiu, é verdade, fazer com que a economia da URSS avançasse praticamente um século em duas décadas (as de 1920 e 1930), o que foi fundamental para o país conseguir a proeza praticamente impossível de quebrar a espinha do nazismo.

Pois, é preciso que se diga: Hitler foi vencido na União Soviética, quando comprometeu o melhor da sua máquina de guerra numa derrota contundente.

Ao se retirar, já estava irremediavelmente derrotado. As forças aliadas apenas completaram o serviço.

Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.

Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.

O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua nomenklatura arrogante que se reservava todos os privilégios.

Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.

O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.

A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).

Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:

* cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
* o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.

Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.

Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.

Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.

A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.
Postado por Celso Lungaretti às 8:50 AM
Marcadores: capitalismo, Friedrich Engeles, Herbert Marcuse, Joseph Stalin, Karl Marx, Leon Trotsky, Lênin, Norman O. Brown, reformismo, revolução, Rosa Luxemburgo