2012: O ANO DA RESSURREIÇÃO DAS ESQUERDAS
Materialista quer dizer que o mundo se apresenta como matéria em movimento, não quer dizer, por exemplo, que Marx ou os marxistas proclamem que Deus não existe. Sobre Deus, não há qualquer conclusão científica. O que foi afirmado por Feuerbach e que Marx encampou foi que a religião organizada, em nosso mundo, é a transferência das potencialidades do homem para uma outra esfera, a dos sacerdotes que são os intermediários de Deus. Analisando Deus da forma como é representada pelas igrejas, o marxismo aponta que a religião foi criada pelos homens e que sua criação passou, depois, a governá-los com regras e preceitos para atingir a salvação.
Seria preciso, então, negar uma determinada concepção de religião, aquela que ajuda a esconder a opressão e a exploração do homem pelo homem. A partir dessa crítica negativa, muitos entenderam que o marxismo proclama que “Deus não existe” ou que pretende sumariamente abolir as religiões ou, ainda, que seria legítimo fazer uma leitura da arte enquanto “sexo sublimado”. No entanto, os marxistas têm evoluído no sentido de criticar a visão positivista (predominante no tempo de Marx) e que privilegia a ciência em prol das outras formas de conhecimento organizado que são a arte e a religião, evoluindo no sentido de respeitar o valor e o direito de existir dessas outras formas de conhecimento.
O escrito acima, retirado do trabalho Marx Hoje: Alguns Conceitos Introdutórios, escrito pelo jovem filósofo brasileiro Lúcio Junior, ora, se sua essência estivesse presente na mente de todos os marxistas com certeza, absoluta certeza, não somente o socialismo não teria caído como ele teria se espalhado para toda a terra. A terra inteira teria se convertido no paraíso socialista.
Por que a essência desta visão de Lúcio Junior, sem a pretensão, é ela a única visão que teria evitado a derrocada do Marxismo. A rigor, foi percepção de que ela não esteve na mente dos marxistas – como deveria estar – que fez com que os primeiros luminares da Escola de Frankfurt, em especial Horkheimer, fizessem o diagnóstico de que à revolução estava posto a decisão fundamental: ou se livrar de uma visão atéia do mundo ou acabar se apartando das massas (certamente que a Escola de Frankfurt, ao menos no início, partiu não de uma visão filosófica, mas pragmática. Ao invés de lutar para limpar da mente das massas algo que não tinha como sair, estava enraizado no profundo de sua alma, então fazer uso deste algo de modo a despertar na mente popular que ele está de acordo com o ideal revolucionário, e não com o ideal dos opressores).
Mas, se os marxistas não tiveram essa visão lúcida assim como aparece no escrito de Lúcio Junior, a verdade é que tem chegado o tempo de também tê-la. A rigor, será neste preciso momento que então os marxistas começarão a sair do profundo coma em que se encontram desde o final da década de 80 para reviver os dias de glória, quando eram um só com as massas populares. Se o vaticínio dos primeiros luminares da Escola de Frankfurt se concretizou, a revolução acabou se apartando das massas populares que hoje estão na mão e no domínio dos escribas do imperialismo (e dos seus bugios, lembrando Brizola), a verdade é que a essência do escrito de Lúcio Junior abre espaço para que seja novamente reatada a união em corpo único da revolução com as massas populares.
Mas é preciso esclarecer: não foi por acaso ou acidente que os marxistas no início tomaram e assumiram uma postura que custou caro à revolução. Ter enveredado por um caminho que rejeitava e excluía por completo todo e qualquer conhecimento oriundo da religião e todo e qualquer conhecimento fundado na metafísica, tratou-se de uma necessidade. Primeiro, o conhecimento passa pela via do imperfeito para chegar ao perfeito. Do acidente para chegar à essência. É o seu devir dialético. Segundo, esta visão dos marxistas, contrários à religião e à metafísica, antes de estar neles esteve antes em Deus. Deus tinha um juízo para proferir contra todo o universo da religião, incluso o Deus de sua metafísica. No seu juízo Deus os iria rejeitar por completo, no conjunto de sua obra, como está ali no profeta Sofonias, tanto os sacerdotes do Deus Altíssimo como os sacerdotes dos deuses pagãos iriam sentir e conhecer contra si toda a ira divina. E é certo, muito certo, que toda a preparação para o cumprimento da escatologia conforme se acha no profeta Sofonias começou mesmo a se formar com Feuerbach. Começando por Feuerbach, passando por Marx, a ira divina então iria ser derramado justamente com a revolução. Os sacerdotes do Altíssimo, bem como os sacerdotes de deuses pagãos, com todo o conjunto de sua obra, os príncipes, o rei, os que usavam vestuário estrangeiro (burguesia), os que pesavam a prata (comerciantes), os poderosos (governantes desta escuridão), iriam clamar amargamente e nem a sua prata e nem o seu ouro os iria livrar da ira divina (Sofonias 1.1-18).
Mas, é preciso este esclarecimento: os vaticínios do profeta Sofonias foram originariamente endereçados à Judá. Foram proferidos cerca de quarenta anos antes da destruição de Judá por parte do rei caldeu Nabucodonozor. Sofonias está profetizando sobre a destruição de Judá, é verdade, mas o seu vaticínio, abarcando e transcendendo a questão de Judá, convertido em escatologia, acaba por alcançar, também, a destruição da Cristandade por parte da revolução. A ira que Deus derramou contra a impenitente e rebelde Judá por intermédio de Nabucodonozor e os caldeus, a quem chama de Meu Servo, é também a ira que Deus vai derramar contra a Cristandade por intermédio de Lênin e dos revolucionários. Destarte, a ação de Nabucodonozor contra Judá iria ser repetida passo a passo pela revolução, mesmo porque a Cristandade repetia passo a passo a já julgada infiel e rebelde, Judá.
No entanto Sofonias profetizando a destruição de Judá-Cristandade não realizava toda a escatologia, senão que parte dela. A escatologia iria ter duas seções, dois momentos distintos. De fato, se encontramos o profeta Sofonias vaticinando escatologicamente contra a Cristandade, por outro encontramos o profeta Isaías também de posse de um vaticínio escatológico. De modo que não somente Sofonias vaticina sobre o Grande Dia de Deus, mas também há vaticínio do profeta Isaías sobre este grande dia.
No entanto o objeto de Isaías por certo que não é o mesmo de Sofonias. Se Sofonias pode ver a destruição da Cristandade por parte da revolução prefigurada na destruição de Judá, por Nabucodonozor, ora, a escatologia de Isaías é concebida a partir da conquista de Babilônia por Ciro. Assim como uma Nova Judá iria se manifestar, a Cristandade, de igual modo uma Nova Babilônia iria se manifestar; e, se uma nova ação caldéia iria se manifestar, o que se deu com a revolução, de igual modo uma nova ação de Ciro iria se manifestar. De fato, tal está profetizado no livro do Apocalipse sobre o aparecimento DOS REIS DO NASCENTE DO SOL (Apocalipse 16..12), que são forças que revivem as forças de medos e persas que conquistou Babilônia e libertaram o povo de Deus no seu meio com os cativos voltando novamente para Judá. E agora estas novas forças dos reis do nascente do sol irão libertar a inteira humanidade do domínio do imperialismo e o seu, conseqüente, retorno para o paraíso de Deus.
E é certo, muito certo, que assim como a ação de Deus no fundamento tipológico se deslocou de Nabucodonozor para Ciro, no fundamento escatológico tem chegado o momento do Dia de Deus se deslocar da ação da Revolução contra a Cristandade e o conjunto de sua obra para a ação da conquista de Babilônia, a Grande, aquela que todas as nações caíram vítimas por causa do vinho da ira de sua fornicação, e os reis da terra cometeram fornicação com ela, e os comerciantes viajantes da terra ficaram ricos devido ao poder de sua impudente luxúria, Apocalipse18.
E é certo que o pensamento de Lúcio Junior, separando o trigo do joio, pondo dum lado Deus e de outro as religiões organizadas que passaram a se utilizar do seu nome para seus próprios propósitos (Isaías 4.1), abre caminho para o cumprimento da escatologia do profeta Isaías. Para a mudança de estação no operar dialético da revolução, pois que ela se desloca de uma situação que reviveu os dramáticos acontecimentos da destruição de Judá para a nova situação em que ela revive os acontecimentos da conquista de Babilônia por parte de Ciro à frente de medos e persas. E será agora, e somente agora, que podemos dizer tem chegado o momento em que os marxistas começarão a se levantar do coma profundo que estão desde o final da década de 80. Pois ao surgir no horizonte possibilidade concreta da união dos marxistas com os cristãos, ora, podemos dizer com certeza que é a revolução ressuscitando, se Levantando dentre os mortos. Pois se ela perdeu a força do apoio dos camponeses e dos operários das cidades, por conta do já falado vaticínio dos primeiros luminares da Escola de Frankfurt, em conexão com a criação de leis trabalhistas e de melhoria da vida de um modo geral, que abrandou o fervor revolucionário, agora a revolução vai buscar as forças que perdeu justamente nos cristãos. Os sindicatos de ontem, onde ali se discutia os passos da revolução, serão agora as igrejas espalhadas por toda a periferia das cidades. Porque são os dois lados que estão sofrendo profunda mudança – não somente a revolução está se deslocando da escatologia do profeta Sofonias para a escatologia do profeta Isaías como a Cristandade está se deslocando do castigo de Nabucodonozor para a libertação de Ciro –, ora, nas igrejas, onde se discutia os modos para agradar a Deus, e como encontrar o caminho da vida eterna, agora se discute abertamente (Mateus 7.22) o modo de superar o moribundo sistema capitalista e instaurar no lugar o sistema socialista. Porque então nas igrejas se descobre que esta é a vontade de Deus.
Pois é, o escrito de Lúcio Junior abre as possibilidades para a formação desta nova confederação de povos, cristãos e marxistas, que se unirão para libertar a inteira humanidade do domínio nefasto do imperialismo, desde o pólo norte ao pólo sul, desde o Congo à Bolívia, desde os Estados Unidos á Rússia, pois o imperialismo sobrevive do escravizar, os que estão pertos e os que estão longe.
Destarte, nesta virada de estação, os marxistas voltando o seu olhar para o início do primeiro século, compreendendo na essência o que foi de fato o movimento trazido por Jesus, a salvação absoluta do gênero humano, que se concretizaria no devir histórico, no absoluto total da História, o seu tempo teológico e o seu tempo antropológico, do qual o Marxismo foi parte sim, a sua libertação material, a libertação do Egito, ao passo que o Cristianismo foi a sua libertação espiritual, a libertação de Sodoma, sim, o reconhecimento de que o corpo do Cristianismo é parte do corpo do Socialismo, carne e unha, um só espírito, que no sangue dos jovens cristãos e de seus pais derramados nos coliseus de Roma e no sangue dos jovens marxistas e de seus líderes derramados nos porões das ditaduras é que se gestava o reino da liberdade concreta, em que cada um tem segundo as suas necessidades, ora, é neste preciso momento que a pedra que foi rolada sobre a sepultura da revolução para que ele nunca mais se levantasse estará sendo rolada. E a revolução estará se levantando novamente, em vestes novas, imperecível, revivendo todas as suas glórias do passado, agora numa proporção muito mais gloriosa, pois, deveras, as glórias da segunda casa da revolução – Deus dizendo para Marx: senta-te à minha direita, até que meu filho Jesus ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés – serão muito maiores do que as glórias da primeira casa da revolução.
Ora, esta mudança de estação implica que os marxistas terão de abandonar a antiga crítica à religião e à metafísica, assim como ela começou a ganhar forma em Feuerbach, a fim de ganhar o favor dos cristãos e, assim, se levantar do coma profundo em que se acha? Que isto nunca aconteça!
Os marxistas devem continuar com o seu juízo negativo sobre religião e metafísica, primeiro, como já dito, provém de Deus que não os concebeu gratuitamente, mas por necessidade. Está escrito ali no livro do profeta Sofonias: e vou causar aflição à humanidade, e hão de andar como cegos; porque foi contra Javé que eles pecaram. E está reafirmado em uma das cartas paulinas: o nome de Deus está sendo blasfemado entre as nações por causa de vós. A crítica à religião por parte dos marxistas tem de continuar. Não deve cessar enquanto existir a Cristandade, até que no seu lugar se manifeste a religião genuína de Jesus Cristo, decodificada no profeta Isaías: Ouvi a Palavra de Javé, ditadores de Sodoma. Daí ouvidos à lei de nosso Deus, povo de Gomorra. “De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios?”, diz Javé. “Já estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais bem cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, e de cordeiros, e de cabritos. Quando estais entrando para ver a minha face, quem é que requereu isso da minha mão, pisar meus pátios? Parai de trazer mais ofertas de cereais sem valor algum. Incenso – é algo detestável para mim. Lua nova e sábado, a convocação de um congresso – não posso tolerar o uso de poder mágico junto com a assembléia solene. Minha alma tem odiado as vossas luas novas e as vossas épocas festivas. Tornaram-se para mim um fardo; fiquei cansado de suportá-las. E quando estendeis as palmas de vossas mãos, oculto de vós os meus olhos. Embora façais muitas orações, não escuto; as vossas próprias mãos se encheram de derramamento de sangue. Lavai-vos; limpai-vos; removei a ruindade das vossas ações de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça; endireitai o opressor; fazei julgamento para o menino órfão de pai; pleiteai a causa da viúva” (Isaías 1).
É verdade, não devem cessar a sua crítica á metafísica, pois esta é a condição para que o Deus que era, e que é, cedam o lugar para o Deus que vem! Destarte, o povo marxista deve tomar para si as lições de Apocalipse 14, mantendo a sua castidade e não se poluindo com “mulheres”, mas cuidando para estar junto com o Cordeiro no Monte Sião, cantando com ele o cântico como que novo e o seguindo para onde quer que vá. Devem cuidar para serem os primeiros que receberão das mãos do Cordeiro O SEU NOVO NOME (Apocalipse 3..12).
O que os marxistas não fizeram, mas agora terão de fazer, é ter interesse pela Palavra de Deus. É ler a Bíblia com o mesmo interesse que liam O Capital. É ler a Bíblia com o mesmo interesse que a lê um professor de Teologia. Devem se interessar sobremaneira pela Palavra de Deus; e, na medida em que forem penetrando nos seus mistérios mais profundos, mais e mais a Cristandade estará passando, porque mais e mais estará aflorando a verdadeira religião de Cristo. Cada vez que lerem um livro e dominar os seus mistérios, mais e mais os pecados da cristandade, que se mostram como escarlate, serão tornados brancos como a neve. Embora sejam vermelhos como pano carmesin, tornar-se-ão como a lã.
Socialismo Celestial versus Escola de Frankfurt
Ora, sabemos que no final da década de vinte e início da década de trinta luminares da Escola de Frankfurt, conscientes de que a religião e a crença em Deus era algo enraizado na mente popular, unido não por laço acidental, mas essencial, não tiveram dificuldade em divisar num horizonte próximo a revolução se afastando das massas até a ruptura final.
Levantaram o sinal de aviso, tocaram a buzina, mas não foram ouvidos pelos condutores da revolução e da construção do socialismo real.
E não podiam mesmo ter dado ouvido à Escola de Frankfurt. Porque a sua proposta era tão somente que os marxistas se reconciliassem com a Cristandade. Tanto é que seus luminares voltaram a freqüentar os bancos religiosos da Cristandade, e os mais afoitos, como Roger Garaudy, os bancos religiosos do Islã.
Mas agora a proposta é diferente. Os marxistas deverão retornar à Cristandade sim, sentar no banco religioso da Cristandade sim, mas com a missão de expurgar para fora dela tudo o que é praticado para manter as massas alienada das condições terrenas, que são as suas condições próprias. Deverão ser a voz dos profetas no meio do povo religioso de Deus. Ensinando-os, os instruindo, no próprio caminho de Deus. Pois que os marxistas são depositários de um espírito privilegiado, em condições de compreender os desígnios e a vontade de Deus tais como são em si, sem a interferência e a mediação do poder da ideologia, a tal ponto que a Palavra de Deus em suas bocas chegará ao coração dos necessitados como água límpida, e não mais como água poluída, como assim veio a estar nas mãos da Cristandade.
Então para tudo há um tempo debaixo dos céus. E o tempo do final da década de 20 não foi o tempo da revolução, abandonar as armas da crítica religiosa, mas era um tempo em que a ira de Deus ainda estava acesa. Era um tempo em que Deus estava apenas começando a enviar o seu anjo que haveria de guardar a revolução pela estrada e introduzi-la no lugar que preparou, o socialismo. Era um tempo em que Deus estava apenas fortalecendo a mão do homem que iria erigir o socialismo real, Stálin, o enviando na frente como o seu anjo, como o seu Josué (Êxodo 23.20).. E eles não deveriam ter acordo com os habitantes da Cristandade. Não deveriam temer os seus latifundiários amorreus, os seus banqueiros hititas, os seus comerciantes perizeus, os seus chefes militares cananeus, os seus magistrados heveus, e os seus sacerdotes jebuseus, pois Deus certamente os eliminaria do seu meio. E destroçaria as suas colunas sagradas. Servindo unicamente a Javé, e não mais à casta dos opressores, como ocorria quando estavam no Egito.
É tempo novo, tempo da revolução se levantar dentre os mortos, todos estes que riram na queda do socialismo, e se entregaram aos prazeres enganosos do capitalismo. Que seja o ano de 2012 o ano da batalha do Armagedom, quando os marxistas levantando-se em vestes novas, com a força dos cristãos do seu lado, possa então dar o golpe de misericórdia ao capitalismo que agoniza, construindo no lugar uma nova ordem social quando plenamente efetivada as coisas velhas não serão mais lembradas e nem mais subirão ao coração. Certamente que neste ano de 2012 a força avassaladora de Javé (Isaías 2.10) estará levantando por dentro a revolução, para novas e grandes giestas.
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Sartre e Dostoiévski: Deus, um delírio
Sartre e Dostoiésvki: Deus, um Delírio?
A escrita desse texto me foi motivada por uma questão da UFMG em 2007, sobre moral e religião e a frase “se Deus não existisse, tudo seria permitido”, que está nos Irmãos Karamázov, do Dostoiévski. Ela está também na obra de Jean Paul Sartre, na palestra O Existencialismo é um Humanismo.
Não encontrei essa frase literalmente em Dostoiévski, mas esse tema é recorrente na palestra acima citada e publicada em Os Pensadores. Essa frase era uma censura recorrente na crítica cristã ao existencialista, conforme ele mesmo disse:
“e do lado cristão, censuram-nos por negarmos a realidade e o lado sério dos empreendimentos humanos, valores inscritos na eternidade, só nos resta a estrita gratuidade, podendo assim cada qual fazer o que apetecer, e não podendo, pois, do seu ponto de vista, condenar os pontos de vista e os atos dos outros” (SARTRE, 1978, p. 3).
Para o existencialismo ateu, tal como preconizado por Heidegger e os existencialistas franceses, não há nenhuma natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. Existe também o existencialismo cristão de Jaspers e de Gabriel Marcel. Sartre diz que seu existencialismo é mais coerente: não há mais nada no céu inteligível, o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser.
Para Sartre, que nesse ensaio se coloca como continuador de Descartes e Kant (de Descartes, na filosofia do sujeito, do eu penso logo existo) e o imperativo categórico (não fazer aos outros o que você não quer que seja feita com você). Para Sartre, o indivíduo que mente está atribuindo um valor universal à mentira. Nossos atos têm de poder ser universalizados. Quando agimos de determinado modo, ligamos a nós mesmos toda a humanidade. Para Sartre, tudo se passa como se, para todo homem, toda a humanidade tivesse os olhos postos no que ele faz e se regulasse pelo que ele faz.
Na palestra, Sartre comentou que já foi tentado, nos anos 1880, fazer uma moral laica, atéia. E o problema é que os valores da moral que permitem organizar a sociedade precisavam ser fundados num “céu inteligível”, ou seja, numa essência ou natureza humana. Para Sartre, existe o bem a priori, não existe uma consciência perfeita e infinita para pensar o bem. O homem, ser que não possui essa essência pronta, precisa se fazer, está livre, ou melhor, condenado a ser livre. Não sei bem a quem Sartre está se referindo, mas tenho certeza que também Nietzsche começou a procura de uma filosofia sem Deus. Por volta de 1888, ocorreu o éfondrement (afundamento) e ele deixou de produzir filosofia.
Dostoiévski era um escritor russo eslavófilo, ou seja, era contrário às influências estrangeiras na Rússia. No entanto, não percebemos essa posição no decorrer do romance, que narra as diferentes posições religiosas e culturais da Rússia no final do século XIX através dos quatro filhos de um empresário fanfarrão sem auto-estima, Fiódor Pávlovitch, “um velho palhaço”. Os filhos são oriundos de dois casamentos diferentes e foram criados de maneira diferente. Mítia (Dmitri) possui uma formação liberal ocidental que conflita com a de Aliéksei, criado por criados místicos e que deseja se tornar monge. Mítia tem uma visão de mundo parecida com de Ivã. Esses dois últimos fazem parte da juventude russa que, no final do século XIX, reunia-se em bares para discutir liberalismo, socialismo e se Deus existe.
Conta-se, então, de Ivã, um episódio onde a frase atribuída a Dostoievski não apareceu literalmente, mas provavelmente foi retirada dessa passagem:
“Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à lei natural, de sorte que se destruía no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia. Não é tudo: terminou afirmando que para cada indivíduo – nós agora, por exemplo – que não acredita nem em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas ser reconhecido como a saída necessária, a mais razoável e quase a mais nobre (Dostoiévski, 1973, p. 57).
Mais adiante, no romance, essas idéias de Ivã foram respondidas: mesmo sem Deus, bastaria seguir uma ética da virtude e tudo estaria normatizado e regrado. Com “ética da virtude”, parece-me que a referência era a uma ética com a de Aristóteles, baseada na harmonia, no equilíbrio, na justiça e nas virtudes (bondade, verdade, honestidade, etc.).
E o "estado da arte" hoje em dia, ou seja, responderemos, com a tecnologia, se Deus existe ou não? Ainda não avançamos nada nesse sentido. No entanto, cada grupamento humano se apóia em seu Deus, especialmente em situações de conflito: no início da invasão do Afeganistão, em 2001, tanto Bush quanto Bin Laden fizeram proclamações falando em Deus. Deus fica sendo, então, argumento ideológico que dá suporte a um projeto de poder.
A escrita desse texto me foi motivada por uma questão da UFMG em 2007, sobre moral e religião e a frase “se Deus não existisse, tudo seria permitido”, que está nos Irmãos Karamázov, do Dostoiévski. Ela está também na obra de Jean Paul Sartre, na palestra O Existencialismo é um Humanismo.
Não encontrei essa frase literalmente em Dostoiévski, mas esse tema é recorrente na palestra acima citada e publicada em Os Pensadores. Essa frase era uma censura recorrente na crítica cristã ao existencialista, conforme ele mesmo disse:
“e do lado cristão, censuram-nos por negarmos a realidade e o lado sério dos empreendimentos humanos, valores inscritos na eternidade, só nos resta a estrita gratuidade, podendo assim cada qual fazer o que apetecer, e não podendo, pois, do seu ponto de vista, condenar os pontos de vista e os atos dos outros” (SARTRE, 1978, p. 3).
Para o existencialismo ateu, tal como preconizado por Heidegger e os existencialistas franceses, não há nenhuma natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. Existe também o existencialismo cristão de Jaspers e de Gabriel Marcel. Sartre diz que seu existencialismo é mais coerente: não há mais nada no céu inteligível, o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser.
Para Sartre, que nesse ensaio se coloca como continuador de Descartes e Kant (de Descartes, na filosofia do sujeito, do eu penso logo existo) e o imperativo categórico (não fazer aos outros o que você não quer que seja feita com você). Para Sartre, o indivíduo que mente está atribuindo um valor universal à mentira. Nossos atos têm de poder ser universalizados. Quando agimos de determinado modo, ligamos a nós mesmos toda a humanidade. Para Sartre, tudo se passa como se, para todo homem, toda a humanidade tivesse os olhos postos no que ele faz e se regulasse pelo que ele faz.
Na palestra, Sartre comentou que já foi tentado, nos anos 1880, fazer uma moral laica, atéia. E o problema é que os valores da moral que permitem organizar a sociedade precisavam ser fundados num “céu inteligível”, ou seja, numa essência ou natureza humana. Para Sartre, existe o bem a priori, não existe uma consciência perfeita e infinita para pensar o bem. O homem, ser que não possui essa essência pronta, precisa se fazer, está livre, ou melhor, condenado a ser livre. Não sei bem a quem Sartre está se referindo, mas tenho certeza que também Nietzsche começou a procura de uma filosofia sem Deus. Por volta de 1888, ocorreu o éfondrement (afundamento) e ele deixou de produzir filosofia.
Dostoiévski era um escritor russo eslavófilo, ou seja, era contrário às influências estrangeiras na Rússia. No entanto, não percebemos essa posição no decorrer do romance, que narra as diferentes posições religiosas e culturais da Rússia no final do século XIX através dos quatro filhos de um empresário fanfarrão sem auto-estima, Fiódor Pávlovitch, “um velho palhaço”. Os filhos são oriundos de dois casamentos diferentes e foram criados de maneira diferente. Mítia (Dmitri) possui uma formação liberal ocidental que conflita com a de Aliéksei, criado por criados místicos e que deseja se tornar monge. Mítia tem uma visão de mundo parecida com de Ivã. Esses dois últimos fazem parte da juventude russa que, no final do século XIX, reunia-se em bares para discutir liberalismo, socialismo e se Deus existe.
Conta-se, então, de Ivã, um episódio onde a frase atribuída a Dostoievski não apareceu literalmente, mas provavelmente foi retirada dessa passagem:
“Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à lei natural, de sorte que se destruía no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia. Não é tudo: terminou afirmando que para cada indivíduo – nós agora, por exemplo – que não acredita nem em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas ser reconhecido como a saída necessária, a mais razoável e quase a mais nobre (Dostoiévski, 1973, p. 57).
Mais adiante, no romance, essas idéias de Ivã foram respondidas: mesmo sem Deus, bastaria seguir uma ética da virtude e tudo estaria normatizado e regrado. Com “ética da virtude”, parece-me que a referência era a uma ética com a de Aristóteles, baseada na harmonia, no equilíbrio, na justiça e nas virtudes (bondade, verdade, honestidade, etc.).
E o "estado da arte" hoje em dia, ou seja, responderemos, com a tecnologia, se Deus existe ou não? Ainda não avançamos nada nesse sentido. No entanto, cada grupamento humano se apóia em seu Deus, especialmente em situações de conflito: no início da invasão do Afeganistão, em 2001, tanto Bush quanto Bin Laden fizeram proclamações falando em Deus. Deus fica sendo, então, argumento ideológico que dá suporte a um projeto de poder.
domingo, 25 de dezembro de 2011
O sistema filosófico de Nietzsche
Sistematizo aqui, de forma didática, alguns conceitos de Nietzsche. Considero Nietzsche um pensador sistemático. Pode-se supor que sua filosofia se origina de sua perda de crença em Deus na adolescência. A partir daí, ele elabora todo um sistema de pensamento para substituir a visão de mundo anterior.
Eterno retorno: Era um ensinamento ilustrativo, no fundo, moral: deve-se viver cada momento da vida como se ele tivesse que ser vivido infinitas outras vezes, até a eternidade. Pensado como uma imagem ilustrativa de um novo sistema valorativo, o conceito dá um sentido à vida, acabando com a sensação de vazio, de falta de sentido. Passa a haver o sentimento de continuidade que a religião busca na vida eterna, mas numa perspectiva valorativa diferente. Se no sistema judaico-cristão a promessa de um mundo perfeito (céu) onde se vive a vida eterna degradava esse mundo (“vale de lágrimas”), essa inversão de perspectivas inverte e valoriza essa vida presente, aqui e agora.
Ressentimento: Seria o rancor destrutivo que aquele que segue a moral da coletividade sente por quem se desvia dele. Quando colocado numa situação desfavorável, o espírito livre não fica ressentido, aceita o seu destino com amor à fatalidade, pois acredita, inclusive, que poderá ter que repetir essa fatalidade.
Amor fati: é o nome da aceitação de seu destino que o espírito livre deve ter. Se o crente aceita seu destino em nome da vontade de Deus, o espírito livre o aceita em nome de dizer sim à vida. Negar o sofrimento seria tentar fugir da vida. O certo seria buscar ser espectador de sua própria tragédia (criar arte) e divertir-se com ela.
Niilismo: É o estado de espírito do dogmático ou do fanático religioso, é o oposto do espírito livre. Para Nietzsche, o niilista é quem sacrifica a vida em nome do nada (preceitos religosos), de cultos onde o que a verdadeira divindade é a morte. A acepção de Nietzsche é o contrário do senso comum, que chama de niilista quem não acredita em nada. Duvidar do que é dito, colocar tudo em perspectiva, ou seja, contextualizar tudo, é a atitude do espírito livre para Nietzsche.
Vida: Fenômeno marcado pela moral como doutrina das relações de poder.
Gaia Ciência: Seria o verdadeiro saber. A verdadeira ciência seria alegre, gaiata, brincalhona, erótica, lúdica. Seria uma ciência integrada com a arte e com a religião. Deve-se rir de todo mestre e de si também. Seria a ciência que prevaleceria junto ao novo sistema valorativo, superando a ciência positivista. O humanismo, para ele ligado ao sistema valorativo judaico-cristão, estaria obsoleto, pois o homem diria sim à vida e teria um novo sistema valorativo.
Super-homem: É uma imagem claramente inspirada em Cristo. Esse termo é melhor justamente por possibilitar um contraste com o mito do super-homem de massa, que é um problema a ser enfrentado. O mito do super-homem de massa responde à indagação que fica na filosofia de Nietzsche sobre o que seria o super-homem: apresenta então uma raça de guardiães policialescos e super-poderosos do sistema social e político atual que mantém de forma subalterna os humanos. Trata-se de uma leitura oportunista que o poder fez do pensamento nietzschiano. O sistema de Nietzsche funciona assim: Nietzsche produziu o seu profeta (Zaratustra) para que os novos valores (que são os valores pagãos “tresvalorados”, ou seja, repensados) sejam transmitidos por experimentadores desses novos valores (novos filósofos) e então esses valores mudem o mundo para então redimir o mundo, fazendo com que homens redescubram a vida e até o estado funde uma ordem social na qual a idéia do Deus cristão não seria necessária, mas os deuses até então mortos, como Dionísio e Apolo, seriam novamente cultuados e repensados, mas principalmente na forma de um sistema valorativo e não de uma metafísica tratando de uma outra vida. O sistema do cristianismo funciona assim: Deus enviou o seu filho, Jesus, e ele, com poderes sobrenaturais, veio ao mundo e voltará no final dos tempos para julgar quem seguiu os seus ensinamentos, no fim da história. Por desconhecer economia e por elaborar seu pensamento a partir de um prisma aristocrático, Nietzsche imagina que o que está errado em nosso sistema social e político é apenas a não-criação de um sistema moral e ético alternativo ao cristianismo e que, se outro sistema alternativo entrar em cena, a história da humanidade se dividirá em antes e depois da filosofia de Nietzsche, fazendo com que a humanidade viva uma vida muito melhor.
Genealogia: Para poder criar novos valores, é preciso investigar como os valores são gerados. Por isso o filósofo dedica-se a estudar a ética e a moral, para superá-las e criar novos valores éticos e morais. Exemplificando a crítica genealógica, diante da frase: “Caio Blinder, judeu que vive em Nova York, se diz generoso”. A leitura genealógica deixa de lado a pergunta sobre a verdade da frase: será que ele é generoso mesmo? Ela se volta para outra questão: quem fala? Alguém que teme o estereótipo do judeu sovina, avarento. E por isso produz um enunciado afirmando o contrário. Colocando em perspectiva, a generosidade nasce da avareza, numa relação dialética que, no sistema de Nietzsche, assume o nome de perspectivismo.
Vontade de poder: vontade de renovar os valores do mundo, que são meros jogos de forças. O mundo é vontade corporificada, a música é expressão pura da vontade.
Morte de Deus: Seria a morte de um determinado sistema valorativo, o judaico-cristão. O sistema de valores do Deus cristão seria substituído por outro sistema de valores que diria sim à vida, sistema esse advindo de Dionísio, dentre outros deuses pré-cristãos.
Apolíneo: Ao inventar esses conceitos (apolíneo e dionisíaco), Nietzsche adianta um pouco do novo sistema valorativo que ele propõe, como escreve Lou, “lutando pelos deuses agonizantes”. Ser apolíneo é bom, dionisíaco também, conforme a perspectiva (contexto). Apolo é o deus da ordem, serenidade, harmonia, resplandecente, princípio da individuação, primado da forma e dos limites, bela aparência e sonho. O natal seria uma festa apolínea, pela reunião da família, ligada à ordem e à harmonia.
Diosiníaco: Dionísio ou Dioniso (Baco em Roma) era o deus do vinho, do sexo, da embriaguez. Festa, música, plenitude, dança, uno primordial, existindo uma busca de superar as formas e os limites, primado da desmedida, do domínio subterrâneo, da indiferenciação e da essência. O carnaval seria a festa dionisíaca por excelência.
Decadência: é o período em que acontece decadência do sistema de valores cristão, mas onde o novo sistema ainda não foi sistematizado e nem divulgado. O novo filósofo, do futuro, é quem supera o tempo onde prevalece o sistema de valores cristão e divulga esse novo sistema de valores, marcado por conceitos como apolíneo e dionisíaco.
Perspectivismo: Nome que a dialética assumiu no sistema de Nietzsche. Perspectivar algo é contextualizar esse algo. Conforme o contexto, ou seja, a perspectiva, a generosidade pode se transformar em avareza, ou seja, uma coisa pode se transformar em seu contrário.
Transvaloração dos valores: Grande transformação de valores anunciada por Nietzsche através de seu profeta Zaratustra, a ser realizada pela ação dos novos filósofos. Um novo sistema valorativo terá lugar a partir de Dionísio, Apolo, o budismo, os valores aristocráticos dos nobres europeus, dentre outros sistemas valorativos que forjarão esse novo sistema.
Eterno retorno: Era um ensinamento ilustrativo, no fundo, moral: deve-se viver cada momento da vida como se ele tivesse que ser vivido infinitas outras vezes, até a eternidade. Pensado como uma imagem ilustrativa de um novo sistema valorativo, o conceito dá um sentido à vida, acabando com a sensação de vazio, de falta de sentido. Passa a haver o sentimento de continuidade que a religião busca na vida eterna, mas numa perspectiva valorativa diferente. Se no sistema judaico-cristão a promessa de um mundo perfeito (céu) onde se vive a vida eterna degradava esse mundo (“vale de lágrimas”), essa inversão de perspectivas inverte e valoriza essa vida presente, aqui e agora.
Ressentimento: Seria o rancor destrutivo que aquele que segue a moral da coletividade sente por quem se desvia dele. Quando colocado numa situação desfavorável, o espírito livre não fica ressentido, aceita o seu destino com amor à fatalidade, pois acredita, inclusive, que poderá ter que repetir essa fatalidade.
Amor fati: é o nome da aceitação de seu destino que o espírito livre deve ter. Se o crente aceita seu destino em nome da vontade de Deus, o espírito livre o aceita em nome de dizer sim à vida. Negar o sofrimento seria tentar fugir da vida. O certo seria buscar ser espectador de sua própria tragédia (criar arte) e divertir-se com ela.
Niilismo: É o estado de espírito do dogmático ou do fanático religioso, é o oposto do espírito livre. Para Nietzsche, o niilista é quem sacrifica a vida em nome do nada (preceitos religosos), de cultos onde o que a verdadeira divindade é a morte. A acepção de Nietzsche é o contrário do senso comum, que chama de niilista quem não acredita em nada. Duvidar do que é dito, colocar tudo em perspectiva, ou seja, contextualizar tudo, é a atitude do espírito livre para Nietzsche.
Vida: Fenômeno marcado pela moral como doutrina das relações de poder.
Gaia Ciência: Seria o verdadeiro saber. A verdadeira ciência seria alegre, gaiata, brincalhona, erótica, lúdica. Seria uma ciência integrada com a arte e com a religião. Deve-se rir de todo mestre e de si também. Seria a ciência que prevaleceria junto ao novo sistema valorativo, superando a ciência positivista. O humanismo, para ele ligado ao sistema valorativo judaico-cristão, estaria obsoleto, pois o homem diria sim à vida e teria um novo sistema valorativo.
Super-homem: É uma imagem claramente inspirada em Cristo. Esse termo é melhor justamente por possibilitar um contraste com o mito do super-homem de massa, que é um problema a ser enfrentado. O mito do super-homem de massa responde à indagação que fica na filosofia de Nietzsche sobre o que seria o super-homem: apresenta então uma raça de guardiães policialescos e super-poderosos do sistema social e político atual que mantém de forma subalterna os humanos. Trata-se de uma leitura oportunista que o poder fez do pensamento nietzschiano. O sistema de Nietzsche funciona assim: Nietzsche produziu o seu profeta (Zaratustra) para que os novos valores (que são os valores pagãos “tresvalorados”, ou seja, repensados) sejam transmitidos por experimentadores desses novos valores (novos filósofos) e então esses valores mudem o mundo para então redimir o mundo, fazendo com que homens redescubram a vida e até o estado funde uma ordem social na qual a idéia do Deus cristão não seria necessária, mas os deuses até então mortos, como Dionísio e Apolo, seriam novamente cultuados e repensados, mas principalmente na forma de um sistema valorativo e não de uma metafísica tratando de uma outra vida. O sistema do cristianismo funciona assim: Deus enviou o seu filho, Jesus, e ele, com poderes sobrenaturais, veio ao mundo e voltará no final dos tempos para julgar quem seguiu os seus ensinamentos, no fim da história. Por desconhecer economia e por elaborar seu pensamento a partir de um prisma aristocrático, Nietzsche imagina que o que está errado em nosso sistema social e político é apenas a não-criação de um sistema moral e ético alternativo ao cristianismo e que, se outro sistema alternativo entrar em cena, a história da humanidade se dividirá em antes e depois da filosofia de Nietzsche, fazendo com que a humanidade viva uma vida muito melhor.
Genealogia: Para poder criar novos valores, é preciso investigar como os valores são gerados. Por isso o filósofo dedica-se a estudar a ética e a moral, para superá-las e criar novos valores éticos e morais. Exemplificando a crítica genealógica, diante da frase: “Caio Blinder, judeu que vive em Nova York, se diz generoso”. A leitura genealógica deixa de lado a pergunta sobre a verdade da frase: será que ele é generoso mesmo? Ela se volta para outra questão: quem fala? Alguém que teme o estereótipo do judeu sovina, avarento. E por isso produz um enunciado afirmando o contrário. Colocando em perspectiva, a generosidade nasce da avareza, numa relação dialética que, no sistema de Nietzsche, assume o nome de perspectivismo.
Vontade de poder: vontade de renovar os valores do mundo, que são meros jogos de forças. O mundo é vontade corporificada, a música é expressão pura da vontade.
Morte de Deus: Seria a morte de um determinado sistema valorativo, o judaico-cristão. O sistema de valores do Deus cristão seria substituído por outro sistema de valores que diria sim à vida, sistema esse advindo de Dionísio, dentre outros deuses pré-cristãos.
Apolíneo: Ao inventar esses conceitos (apolíneo e dionisíaco), Nietzsche adianta um pouco do novo sistema valorativo que ele propõe, como escreve Lou, “lutando pelos deuses agonizantes”. Ser apolíneo é bom, dionisíaco também, conforme a perspectiva (contexto). Apolo é o deus da ordem, serenidade, harmonia, resplandecente, princípio da individuação, primado da forma e dos limites, bela aparência e sonho. O natal seria uma festa apolínea, pela reunião da família, ligada à ordem e à harmonia.
Diosiníaco: Dionísio ou Dioniso (Baco em Roma) era o deus do vinho, do sexo, da embriaguez. Festa, música, plenitude, dança, uno primordial, existindo uma busca de superar as formas e os limites, primado da desmedida, do domínio subterrâneo, da indiferenciação e da essência. O carnaval seria a festa dionisíaca por excelência.
Decadência: é o período em que acontece decadência do sistema de valores cristão, mas onde o novo sistema ainda não foi sistematizado e nem divulgado. O novo filósofo, do futuro, é quem supera o tempo onde prevalece o sistema de valores cristão e divulga esse novo sistema de valores, marcado por conceitos como apolíneo e dionisíaco.
Perspectivismo: Nome que a dialética assumiu no sistema de Nietzsche. Perspectivar algo é contextualizar esse algo. Conforme o contexto, ou seja, a perspectiva, a generosidade pode se transformar em avareza, ou seja, uma coisa pode se transformar em seu contrário.
Transvaloração dos valores: Grande transformação de valores anunciada por Nietzsche através de seu profeta Zaratustra, a ser realizada pela ação dos novos filósofos. Um novo sistema valorativo terá lugar a partir de Dionísio, Apolo, o budismo, os valores aristocráticos dos nobres europeus, dentre outros sistemas valorativos que forjarão esse novo sistema.
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sexta-feira, 23 de maio de 2008
Hospício é Deus!
“Hospício são flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro. (...) Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é Deus.”
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Maura Lopes Cançado
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