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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Eu sou Serra...

Eu sou Serra...mas o Serra de 1964 que falou no comício na Central do Brasil.

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Fragmento do discurso de Jango nesse mesmo comício:

A democracia que eles desejam impingir-nos é a
democracia do anti-povo, do anti-sindicato, da
anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende
aos interesses dos grupos que a eles servem ou
apresentam. A democracia que eles pretendem é a
democracia dos privilegiados, é a democracia da
intolerância e do ódio. A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás. É a democracia dos monopólios privados,
nacionais e internacionais. É a democracia que
luta contra os governos populares e que levou
Getúlio Vargas ao supremo sacrifício. (...)
A maioria dos brasileiros já não se conforma com
uma ordem social imperfeita, injusta e desumana.
Os milhões que nada têm impacientam-se com a demora, já agora quase insuportável, em receber
os dividendos de um progresso tão duramente construído, mas construído também pelos humildes.
A reforma agrária não é um capricho de um governo
ou programa de um partido. É produto da inadiável
necessidade de todos os povos do mundo. Aqui no Brasil constitui a legenda mais viva da reivindicação do nosso povo, sobretudo daqueles que labutam no campo.
A reforma agrária é também uma imposição progressista de mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver. Os tecidos e sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças porque não têm dinheiro para comprar.

João Goulart, 13 de março de 1964, no comício
na Estação Central do Brasil.



O que está aí hoje, candidatando-se a presidente, é um vampiro, um morto-vivo.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Arquivo Morto

ARQUIVO MORTO


Provavelmente as imagens eram de um feriado prolongado, mas não estava bem certo. A impressão que dava é que tinham passado uma borracha ou um ferro de roupa em cima das cenas. Corpos e vozes distorcidos ao irreconhecível. Minha mãe com voz do meu pai e vice-versa. Minha filha, com seus quatro anos e morrendo de medo de bicho-papão, falava como um deles enquanto brincava com um Lango-Lango verde e outro abóbora. A reunião de família estava mais para um parque de diversões com aqueles espelhos que deformam gente. Tinha feito a gravação e guardado, nunca mais reproduzi. Vai ver a falta de uso fez tudo aquilo.

Do not touch this tape inside. Desobedeci a recomendação e abri o compartimento, pra ver se salvava o estrago. Rebobinei, depois dei avanço rápido, coloquei na parte do meio da gravação, talvez mais pra frente houvesse algum registro preservado. Mensagem de ajuste de tracking. As cores sumidas, faixas de chuvisco no meio da tela. Mal dava pra ler no rodapé a data: Maio, 14, 1992.

Arrumei emprestado um outro videocassete, quem sabe as cabeças do meu estivessem sujas. Nada que atenuasse o irreparável. Resolvi transferir a ruína remanescente, no estado em que se encontrava, para DVD. Algo assistível tinha de restar. O gravador de DVD não aceitava, com a mensagem “Vídeo instável. Gravação pausada”.

Se passado, presente e futuro são dimensões que existem simultaneamente, aquela fita estava ao mesmo tempo na loja esperando ser comprada, sendo desvirginada pela filmadora e já em forma de sucata num lixão de 2030. Eu também, enquanto pensava nisso, estava nascendo e morto há séculos.. Deixei quieto. Não há leite derramado.