Erik, antes de mais nada, creio que é preciso levantar alguns pontos. Em primeiro, é uma pena que o trabalho já esteja terminado. Porque, primeiramente, para analisar o que o PCB pensava no período dos anos 50 no Brasil, era importante determinar o que aconteceu na URSS nessa época. Procurar evidências históricas.
E o que aconteceu? Stálin morreu, Beria o sucedeu, durou três meses e foi preso e morto num complô. Para garantir o sucesso do grupo, o marechal Zhukov deu um golpe garantindo o poder de Kruschev. Consolidado Kruschev, esse expôs sua nova interpretação da história em 1956: um relatório onde destruía a reputação de seu antecessor. O sucedâneo ideológico do golpe de estado que tinha sido dado. Ao fazer pesquisa em fontes primárias na Rússia, o professor Grover Furr verificou que o relatório contém 60 acusações falsas e uma duvidosa, das 61 que são feitas. Prestes entendeu parcialmente a situação ao repetir isso aqui dentro do PCB, tanto que deu o golpe ele mesmo, destituindo os seus camaradas do comitê central, ou seja, criando o racha que gerou o PC do B. Talvez ele pensasse que o golpe era inevitável. No fim das contas, o golpe foi contra ele mesmo, daí seu afastamento posterior. O que se deveria fazer, nesse caso, não era romper e sim discutir exaustivamente os temas tratados por Kruschev, pesquisar no próprio Lênin, traduzir artigos, etc.
Kruschev, com esse relatório, não visava apenas o poder, afastando o grupo de Stálin definitivamente, mas também agiu para colocar o seu grupo, que representava a burocracia autoritária, definitivamente no poder, colocando uma interpretação que se mostrou falsa do marxismo-leninismo (mas que só se mostrou definitivamente falsa quando aplicada por Gorbachev). Kruschev era parte de uma burocracia que passava a trabalhar no sentido de se tornar burguesia, mas não podia pregar a contra-revolução pacífica abertamente. Mas como, você poderia perguntar, a burocracia autoritária não estava no poder com Stálin? A resposta é não, no período Stálin, assim como depois na revolução cultural chinesa, o partido estimulava a cobrança do povo em relação aos dirigentes. Kruschev inverte o sentido das cobranças do período Stálin: na coletivização, industrialização forçada e expurgos, a grande pressão era foi sobre a burocracia e os dirigentes, recaindo sobre o povo em momentos como a Yezovchina, a conspiração de Nikolai Yezhov (o próprio chefe da NKVD era um conspirador zinovievista-trotsquista que prendeu inocentes para estimular um golpe, vejam só), mas que não foi o sentido geral dessas cobranças.
O artigo fala sobre a URSS, mas baseia-se em historiadores de corte trotsquista ou eurocomunista como Wallenstein e Claudín. Kruschev favoreceu muitíssimo essa linha de pensamento. O resultado do relatório Kruschev foi o racha internacional do movimento comunista, com a China e a Albânia rompendo com a União Soviética e inúmeros rachas ocorrendo mundo afora, inclusive no Brasil. O racha na Hungria, em 1956, acentua o que é o kruschevismo na prática: contra-revolução pacífica inspirada no titismo iugoslavo, mas que no contexto húngaro descamba para guerra civil, evitada com a intervenção do exército vermelho. Tito era o kruschevismo antes de Kruschev.
No Brasil, penso que a grande questão, desde 1945, é que o partido hesitava em considerar Vargas e seus seguidores como aquela burguesia nacional que deveriam apoiar para cumprir um programa reformista. Um dos motivos é que mesmo o governo Vargas ou Jango não chegam a legalizar o partido comunista, o que o deixou numa situação desfavorável. Vargas e Jango representavam essa burguesia nacional e por isso foram apagados da história.
O kruschevismo favorece tanto o reformismo eurocomunista quanto o trotsquismo e outros desvios que visam, no fim, Lênin. Kruschev foi o desafogo e a festa dos intelectuais de classe média, satisfeitos de enfim se verem livres de conceitos como “ditadura do proletariado”.
Essa burguesia nacional existia, representada por empresários como Wallinho Simonsen, dono da TV Excelsior e da Panair, que apoiou Jango até o fim em 64 e perdeu suas empresas por causa disso. Esse setor apoiou, de fato, medidas que implicavam em disputar um projeto com o imperialismo, tais como reforma agrária e taxa de remessa de lucros para as multinacionais. O projeto nacionalista de Hugo Chávez, bem sucedido, constitui-se basicamente no sucesso da boliburguesia ( que nada mais é do que a burguesia nacional) que estabeleceu uma aliança com partidos e movimentos sociais que apóiam o presidente. O PT repete em certa medida essa aliança no Brasil, mas a burguesia nacional não existe da mesma forma aqui, existindo apenas uma burguesia de interesses nacionais, tais como Eike Batista, na prática associada ao capital internacional e às multinacionais, mas que lucra com um projeto brasileiro próprio.
Aliás, voltando, seu tema principal é a “inevitabilidade do socialismo”. Ora, esse discurso é justamente o tal socialismo democrático que, com o tempo, o PT promete que vai chegar. Ou seja, vai chegar tanto como se fosse um Gorbachev prometendo que vai chegar!
Para quem quiser ler o artigo original, o blog do Erik é:
http://materialismofilosofia.blogspot.com/2012/02/erick-fishuk-inevitabilidade-do.html
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Carta a um Juiz
Uma carta inédita de Maura Lopes Cançado, publicada na tese de Maria Luisa Scaramello, UNICAMP, 2010.
Rio, 15 de agosto de 1974.
Quero antes de qualquer coisa, agradecer a V. Excia. pelo muito que me tem feito.
Sobretudo por me haverdes livrado da idéia infantil de que um Juiz não era exatamente um ser humano, mas qualquer coisa que se me escapava, algo acima de minha
compreensão, do meu alcance – e principalmente do meu afeto. Ao constatar vossa
humanidade, admiti também que, como ser humano eu vos podia amar. No sentido em
que os seres, verdadeiramente humanos, são amáveis. E V. Excia o sois, sei-o, e sinto-me muito feliz com isso porque assim não vos temo, quero-vos bem, muito bem – ainda vossa lembrança deixa-me comovida. Creio associá-lo ao “Grande Pai”, o Adam
Kadmon dos cabalistas, Aquêle que me pode dar minha própria e exata medida. Isto é
muito bonito. Sim, pois é ainda através de V. Excia. que novos caminhos se me abrem.
Descubro pessoas que me amam, têem-me como gente – e começo também a amá-las,
vendo-as e vendo-me, eu mesma, também assim. Isto é: gente. Ajudam-me a sair do meu
silencio e constatar o quanto estive perdida durante toda minha vida. Refiro-me
especialmente aos médicos da Biopsicologia, aos quais, recomendásteis-me [sic](...) Por mais paradoxal que vos possa parecer, tudo isto – quero dizer: o crime e suas
conseqüências – tornaram-me melhor. Aproximou-me de pessoas lindas (incluo quem
vos leva esta carta (...)), deu-me uma segurança que eu antes desconhecia. Não
imaginais V. Excia. o que significa para mim ouvir do Fernando: - Sua necessidade de
dar e receber foi e é tão grande, que você matou. Já que não podia conter durante mais tempo, dentro de você, tanto amor. Ele devia irromper-se de qualquer maneira. E o seu crime foi um gesto desesperado de amor, Maura. Então eu entendi. E admitindo a dor, parece também que comecei a admitir o amor. (...) Muito obrigada também por me haverdes apresentado o rosto de um Juiz que não saiu de um livro de Kafka. Obrigada porque sois gente. Tudo isso é deveras surpreendente. Eu esperava um Juiz terrível, um semi-deus, cruel em sua frieza. E vos associava a idéia de Deus que me foi imposta na infância. V. Excia. Aparecesteis-me. Julgáveis-me. Mas principalmente buscáveis entender-me. Eu que fui julgada cruel e injustamente durante toda minha vida, não sabia então como existir. As coisas sempre me vieram por caminhos imprevisíveis. Precisava dizer-vos tudo isto. Muito mais ainda. Não o faço para não cansar-vos. Falo-ei em meu livro. Peço-vos perdão por não conseguir manter-me reverente como geralmente se entende reverência. Perdoe-me dizer-vos o que sinto e ano pensais que vos adulo antes de fazer-vos um pedido. Não pode ser adulação porque é verdade. Sr. Juiz faça de conta que lhe escrevo outra carta. O tratamento Excelência limita-me, é-me insuportável, dispense-mo, lhe peço. Eu tentarei escrever como sei fazer porque assim sou mais eu. Há um curso de Tragédia e Comedia Gregas (envio-lhe o recorte). Eu amo a Grécia, sou apaixonada pelo teatro grego, tenho em casa as peças de Sófocles, Esquilo, Eurípedes e Aristófanes. Meus conhecimentos, adquiri-os sozinha, jamais tive alguém que me orientasse nesse sentido. Este curso me será útil em minha literatura e tudo mais. Ate
mesmo em minha vida cotidiana. O curso começa amanhã, sexta-feira, dia 16. É apenas
uma vez por semana, às sextas-feiras, de 14 às 16horas. Não creio que minha freqüência
a esse curso possa prejudicar o sistema disciplinar da casa, levando-se em conta que
algumas presas saem semanalmente e passam ate dois dias em casa. Uma delas tem seu
carro na porta da cadeia, dirige-o, inclusive viajando para outro Estado. É uma
infinidade de coisas verdadeiramente escandalosas – que prefiro não mencionar.
Segundo pedido: lá fora eu estudava línguas, interrompi ao ser presa. Queria continuar a estudar inglês e alemão (que me são demasiados necessários),os professores viriam aqui, duas vezes por semana. (...) Se o senhor não concordar com meus dois primeiros pedidos, atenda-me pelo menos um deles. (...)Escrever-lhe-ei outras cartas num livro. Já comecei, seu título é Cartas a um Juiz. Trata-se de um livro de contos, cada conto é uma carta dirigida a um Juiz. A propósito, tenho lutado para arranjar um local onde possa escrever aqui. Davam-me uma sela só para mim. Agora tiraram-ma. Meu filho está lutando para que ma dêem de novo. Mas isto é ainda secundário, não posso pedir-lhe mais. Não sou datilografa, escrevo às carreiras, a pessoa que deverá levar-lhe esta carta está esperando. Não posso passá-la a limpo, peço desculpas por estar bem escrita. Queira-me bem – é o meu pedido mais insistente. Maura Lopes Cançado (Processo
penal, fls. 157, 158 e 159).13
Rio, 15 de agosto de 1974.
Quero antes de qualquer coisa, agradecer a V. Excia. pelo muito que me tem feito.
Sobretudo por me haverdes livrado da idéia infantil de que um Juiz não era exatamente um ser humano, mas qualquer coisa que se me escapava, algo acima de minha
compreensão, do meu alcance – e principalmente do meu afeto. Ao constatar vossa
humanidade, admiti também que, como ser humano eu vos podia amar. No sentido em
que os seres, verdadeiramente humanos, são amáveis. E V. Excia o sois, sei-o, e sinto-me muito feliz com isso porque assim não vos temo, quero-vos bem, muito bem – ainda vossa lembrança deixa-me comovida. Creio associá-lo ao “Grande Pai”, o Adam
Kadmon dos cabalistas, Aquêle que me pode dar minha própria e exata medida. Isto é
muito bonito. Sim, pois é ainda através de V. Excia. que novos caminhos se me abrem.
Descubro pessoas que me amam, têem-me como gente – e começo também a amá-las,
vendo-as e vendo-me, eu mesma, também assim. Isto é: gente. Ajudam-me a sair do meu
silencio e constatar o quanto estive perdida durante toda minha vida. Refiro-me
especialmente aos médicos da Biopsicologia, aos quais, recomendásteis-me [sic](...) Por mais paradoxal que vos possa parecer, tudo isto – quero dizer: o crime e suas
conseqüências – tornaram-me melhor. Aproximou-me de pessoas lindas (incluo quem
vos leva esta carta (...)), deu-me uma segurança que eu antes desconhecia. Não
imaginais V. Excia. o que significa para mim ouvir do Fernando: - Sua necessidade de
dar e receber foi e é tão grande, que você matou. Já que não podia conter durante mais tempo, dentro de você, tanto amor. Ele devia irromper-se de qualquer maneira. E o seu crime foi um gesto desesperado de amor, Maura. Então eu entendi. E admitindo a dor, parece também que comecei a admitir o amor. (...) Muito obrigada também por me haverdes apresentado o rosto de um Juiz que não saiu de um livro de Kafka. Obrigada porque sois gente. Tudo isso é deveras surpreendente. Eu esperava um Juiz terrível, um semi-deus, cruel em sua frieza. E vos associava a idéia de Deus que me foi imposta na infância. V. Excia. Aparecesteis-me. Julgáveis-me. Mas principalmente buscáveis entender-me. Eu que fui julgada cruel e injustamente durante toda minha vida, não sabia então como existir. As coisas sempre me vieram por caminhos imprevisíveis. Precisava dizer-vos tudo isto. Muito mais ainda. Não o faço para não cansar-vos. Falo-ei em meu livro. Peço-vos perdão por não conseguir manter-me reverente como geralmente se entende reverência. Perdoe-me dizer-vos o que sinto e ano pensais que vos adulo antes de fazer-vos um pedido. Não pode ser adulação porque é verdade. Sr. Juiz faça de conta que lhe escrevo outra carta. O tratamento Excelência limita-me, é-me insuportável, dispense-mo, lhe peço. Eu tentarei escrever como sei fazer porque assim sou mais eu. Há um curso de Tragédia e Comedia Gregas (envio-lhe o recorte). Eu amo a Grécia, sou apaixonada pelo teatro grego, tenho em casa as peças de Sófocles, Esquilo, Eurípedes e Aristófanes. Meus conhecimentos, adquiri-os sozinha, jamais tive alguém que me orientasse nesse sentido. Este curso me será útil em minha literatura e tudo mais. Ate
mesmo em minha vida cotidiana. O curso começa amanhã, sexta-feira, dia 16. É apenas
uma vez por semana, às sextas-feiras, de 14 às 16horas. Não creio que minha freqüência
a esse curso possa prejudicar o sistema disciplinar da casa, levando-se em conta que
algumas presas saem semanalmente e passam ate dois dias em casa. Uma delas tem seu
carro na porta da cadeia, dirige-o, inclusive viajando para outro Estado. É uma
infinidade de coisas verdadeiramente escandalosas – que prefiro não mencionar.
Segundo pedido: lá fora eu estudava línguas, interrompi ao ser presa. Queria continuar a estudar inglês e alemão (que me são demasiados necessários),os professores viriam aqui, duas vezes por semana. (...) Se o senhor não concordar com meus dois primeiros pedidos, atenda-me pelo menos um deles. (...)Escrever-lhe-ei outras cartas num livro. Já comecei, seu título é Cartas a um Juiz. Trata-se de um livro de contos, cada conto é uma carta dirigida a um Juiz. A propósito, tenho lutado para arranjar um local onde possa escrever aqui. Davam-me uma sela só para mim. Agora tiraram-ma. Meu filho está lutando para que ma dêem de novo. Mas isto é ainda secundário, não posso pedir-lhe mais. Não sou datilografa, escrevo às carreiras, a pessoa que deverá levar-lhe esta carta está esperando. Não posso passá-la a limpo, peço desculpas por estar bem escrita. Queira-me bem – é o meu pedido mais insistente. Maura Lopes Cançado (Processo
penal, fls. 157, 158 e 159).13
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