terça-feira, 14 de outubro de 2008

Arquivo Morto

ARQUIVO MORTO


Provavelmente as imagens eram de um feriado prolongado, mas não estava bem certo. A impressão que dava é que tinham passado uma borracha ou um ferro de roupa em cima das cenas. Corpos e vozes distorcidos ao irreconhecível. Minha mãe com voz do meu pai e vice-versa. Minha filha, com seus quatro anos e morrendo de medo de bicho-papão, falava como um deles enquanto brincava com um Lango-Lango verde e outro abóbora. A reunião de família estava mais para um parque de diversões com aqueles espelhos que deformam gente. Tinha feito a gravação e guardado, nunca mais reproduzi. Vai ver a falta de uso fez tudo aquilo.

Do not touch this tape inside. Desobedeci a recomendação e abri o compartimento, pra ver se salvava o estrago. Rebobinei, depois dei avanço rápido, coloquei na parte do meio da gravação, talvez mais pra frente houvesse algum registro preservado. Mensagem de ajuste de tracking. As cores sumidas, faixas de chuvisco no meio da tela. Mal dava pra ler no rodapé a data: Maio, 14, 1992.

Arrumei emprestado um outro videocassete, quem sabe as cabeças do meu estivessem sujas. Nada que atenuasse o irreparável. Resolvi transferir a ruína remanescente, no estado em que se encontrava, para DVD. Algo assistível tinha de restar. O gravador de DVD não aceitava, com a mensagem “Vídeo instável. Gravação pausada”.

Se passado, presente e futuro são dimensões que existem simultaneamente, aquela fita estava ao mesmo tempo na loja esperando ser comprada, sendo desvirginada pela filmadora e já em forma de sucata num lixão de 2030. Eu também, enquanto pensava nisso, estava nascendo e morto há séculos.. Deixei quieto. Não há leite derramado.


sábado, 11 de outubro de 2008

O melhor Blog sobre Modernismo

Esse é o melhor blog que encontrei sobre modernismo brasileiro. Tem de tudo: faz jus à mineira modernista Zina Aita, muita informação sobre Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros. E tem o estudioso da USP Francisco Alembert que já escreveu textos memoráveis no antigo Jornal de Resenhas. Foi o único que eu já a vi a falar de Caetano lembrando de Glauber e do modernismo.

http://literalmeida.blogspot.com/

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Marco Zero e a Imigração Japonesa

A revista Zashi está com um suplemento especial sobre o teatro underground dos anos 60, lá chamado "angura". Confiram a minha matéria sobre o romance Marco Zero e a imigração japonesa:

http://www.nippo.com.br/zz_zashi/arte_letras/010.php


Está numa parte reservada aos assinantes. A senha é angura, o login é setembro 2008.

O GOVERNO DO DESGOVERNO – A BLUSA COR DE ROSA

Laerte Braga

As últimas atitudes do governo Lula mostram que o presidente se alinhou definitivamente com o modelo político e econômico da chamada nova ordem e não poderia ser de outra forma, já que apostou numa versão capitalista brasileira (definição de Ivan Pinheiro). Aposta errada. Voltou as costas à sua própria história.

Dois fatos sinalizam com clareza nessa percepção. O primeiro deles a decisão de cancelar a viagem de uma comitiva brasileira ao Equador depois da decisão do presidente Rafael Corrêa de expulsar a empreiteira Norberto Odebrecht de seu país. Empreiteiros brasileiros são acionistas do Estado brasileiro, estão acostumados a comprar o que querem (políticos, ministros, servidores públicos) e Lula acreditou que podia recuperar demônios e colocá-los a serviço.

A Norberto Odebrecht fez no Equador o que está acostumada a fazer no Brasil. Obras superfaturadas, de péssima qualidade (ao contrário do que é contratado) e não responder por esse tipo de procedimento quando cobrada. Como o governo do Equador não dá para ser comprado como é praxe, tem que tirar o time de campo. O presidente de lá não se chama José Serra e não está fazendo metrô.

Não há também decisão equivocada do presidente Corrêa ao advertir a PETROBRAS sobre planos de investimentos contratados em acordos e não cumpridos.

Há um erro do governo Lula ao adotar posição de confronto. Significa deixar de lado a política de integração dos países sul americanos e arrotar postura imperialista em relação aos vizinhos mais fracos.

O segundo fato é o decreto presidencial de dois de outubro, número 6 592, que regulamenta a lei 11 831 de dezembro de 2007 e que dispõe sobre Mobilização Nacional e cria o Sistema Nacional de Mobilização, o SINAMOB.

Referido decreto tem pouca diferença de documentos do governo dos EUA sobre interesses norte-americanos. Dizem respeito a interesses brasileiros e considera que esses se estendem para além de nossas fronteiras territoriais, o que justificaria eventuais ações em outros países. Volta-se neste momento contra o governo de Fernando Lugo, no Paraguai e a presença de grileiros brasileiros em terras daquele país, entre outras coisas.

Mas atinge como um todo o conjunto de países da América do Sul e soa como advertência ao governo da Venezuela.

Breve Caxias cruzando Itororó pela dignidade patriótica do Brasil. Versão general Heleno.

Quem quer que saia de casa, hoje, vá a um supermercado e compre o que comprava por dez reais antes da crise nos EUA, que se espraia pelo mundo inteiro por conta do modelo, vai pagar no mínimo dezesseis reais.

A mídia não noticia e nem vai, exceto se a coisa ficar de um jeito mais calamitoso do que está, a quebra de muitas empresas brasileiras em bolsas de valores, a troca de controle acionário, comando em várias delas e a excessiva concentração em torno de poucos grupos do que já era concentrado.

O setor de construção civil no Brasil que opera no mercado de ações está próximo de uma grande crise, há uma bolha como dizem os economistas. É um exemplo. Bolhas explodem num determinado momento.

O que se chama socorro do Banco Central visa corrigir as distorções da política econômica alinhada com as regras de Wall Street. O que Lula fez nesses anos todos foi apenas tentar criar condições de competitividade para o Brasil em determinadas áreas e agora vai pagar o preço do erro. Não rompeu a camisa de força.

A reunião do G20 em Washington tem apenas um item de pauta: ratear a conta dos oito anos de loucuras de George Bush, somados e somadas, anos e loucuras, à falência do capitalismo, um tigre de papel como dizia Mao Tse Tung. O diabo é que os papéis rolam para lá e para cá nesse cassino de elevadas apostas, onde quem de fato banca não ganha nada, o trabalhador.

No Brasil já se fala intramuros em fusão do Banco do Brasil com a Caixa Econômica Federal e alguns magos da economia apostam que BRADESCO e ITAÚ vão encontrar caminhos iguais para evitar que mais à frente sejam arrastados pela onda que vem crescendo e vai, com certeza, estourar na praia da classe trabalhadora.

É a conclamação daquele general norte-americano no filme DOUTOR FANTÁSTICO de Stanley Kubrick quando percebe que mísseis soviéticos irão destruir os EUA e vice versa: “às cavernas, às cavernas”. Mas eles. E as cavernas são dos que cumprem a risca o preceito capitalista de sobrevivência do mais forte.

Um dos países que vai passar quase ileso à crise é exatamente a Venezuela. E por não ter aceito as regras de Washington. Aqui arriaram as calças e encheram o Haiti de tropas brasileiras na opressão e na barbárie contra um povo inteiro.

O ministro da Justiça Tarso Genro, especialista em engolir sapos, disse hoje que o presidente já escolheu a candidata, vai ser a ministra Dilma Roussef. Na lógica simples de dois e dois não existe diferença alguma em relação a José Serra, exceto no estilo pessoal. A visão de mundo é a mesma com pequenas nuances do tipo neoliberalismo populista.

Ou como disse a candidata do PT á Prefeitura de Juiz de Fora, Margarida Salomão, “o PT diante da conjuntura evoluiu para uma posição de centro”. Evoluiu?

E até hoje o governo Lula não explicou direito essa história do pré-sal e do que de fato está em poder do Brasil e o que está em mãos de companhias estrangeiras. Muito menos pensou em reestatizar a PETROBRAS (privatizada com disfarces no governo de FHV – Fernando Henrique Vende), ou retomar o monopólio estatal do petróleo, também extinto no governo tucano.

Lula achou que podia andar de bermudas no meio da selva cheia de leões e agora está tendo que correr e se proteger dos nacos que os leões estão tirando das trôpegas pernas de seu governo.

Nem de longe, por exemplo, percebe que a despeito do tamanho da crise, está cada dia mais com cara de FHC. Com uma diferença FHC sabia o que estava fazendo, crime doloso. Lula achou que podia passar a mão na cabeça e sair dizendo que todo mundo podia assentar. “Senta que o leão é manso”.

Michael Colon estabelece os dez pontos principais da crise, que resume no último deles:

10. La alternativa ? En 1989, un famoso autor estadounidense, Francis Fukuyama, nos anunciaba el Fin de la Historia : el capitalismo había triunfado para siempre, nos decía. No ha hecho falta mucho tiempo para que los vencedores se estrellen. La humanidad necesita verdaderamente otro tipo de sociedad. El sistema actual fabrica miles de millones de pobres, hunde en la angustia a aquellos que tienen (provisionalmente) la suerte de trabajar, multiplica las guerras y arruina los recursos del planeta. Pretender que la humanidad está condenada a vivir bajo la ley de la selva, es tomar a la gente por imbéciles. Cómo debería ser una sociedad más humana, que ofrezca un porvenir digno para todos? Este es el debate que tenemos todos la obligación de lanzar. Sin tabúes”.

E no nono “fala da gente” como disse um dia Pedro Costa Braga, hoje quinze anos:

9. El tercer mundo ? Sólo se nos habla de las consecuencias de la crisis en el Norte. En realidad, todo el tercer mundo sufrirá gravemente a causa de la recesión económica y de la bajada de precios de las materias primas que provocará la crisis.

E no sétimo e no oitavo:

7. Los medios de comunicación? Lejos de explicarnos todo esto, fijan su atención en asuntos secundarios. Nos dicen que habrá que buscar los errores, a los responsables, combatir los excesos y bla, bla, bla. Sin embargo, no se trata de tal o tal error, sino del sistema. Esta crisis era inevitable. Las empresas que se están derrumbando, son las más débiles o las que peor suerte han tenido. Las que sobrevivan, tendrán aún más poder sobre la economía y sobre nuestras vidas.

8. El neoliberalismo ? La crisis no ha sido provocada sino acelerada por la moda neoliberal de los últimos veinte años. Los países ricos han intentado imponer este neoliberalismo en todo el tercer mundo. En América Latina, como acabo de estudiar durante la preparación de mi libro Los 7 pecados de Hugo Chávez, el neoliberalismo ha sumido a millones de personas en la miseria. Pero al hombre que ha lanzado la señal de la resistencia, el hombre que ha demostrado que se podía resistir al Banco Mundial, al FMI y a las multinacionales, el hombre que ha enseñado que había que darle la espalda al neoliberalismo para reducir la pobreza, este hombre, Hugo Chávez, no deja de ser diabolizado a golpe de mentira mediática y de difamación infundada. Por qué?

Quem achar que tem salvação é só esperar pelo BBB-9, o quarto espelhado e acompanhar tudo com direito a diploma de Homer Simpson pelo JORNAL NACIONAL do “general” William Bonner, comandante das tropas midiáticas do me engana que eu gosto.

O trágico/divertido de Bonner é que ele acha que Truman Burkank, que vive em Seaheaven, vive de fato num paraíso terrestre, onde a harmonia é perfeita. Quando abre os olhos percebe que é apenas um show de tevê, nada além disso. Órfão, como todos nós, foi adotado pela televisão. Um dia percebe tudo e vai à luta para libertar-se e poder viver verdadeiramente, sair da imensa pasta onde é menos que uma divisória.

A blusa cor de rosa é muito bonita, mas a algema está na cabeça, atrelada à pasta e pronta para ser encaçapada. Essa nem gilmar mendes dá jeito.

O CARRASCO BRILHANTE USTRA – UM PASTINHA DA VIDA VALE DIZER UM CANALHA

Laerte Braga

Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército brasileiro não difere em nada de nenhum dos carrascos nazistas nos campos de concentração espalhados por países da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Comandante do DOI/CODI em São Paulo no período mais duro da barbárie instalada com o golpe de 1964, (1970/1974), é o responsável direto por várias mortes e toda a sorte de violências imagináveis ou não contra presos por crime de opinião.

Janaína de Almeida Teles, Edson Luís de Almeida Teles, César Augusto Teles, Maria Amélia de Almeida Teles e Criméia Alice Schimidt de Almeida, todas vítimas de crime de tortura (hediondo), ajuizaram Ação Declaratória no fórum de São Paulo contra o carrasco Brilhante Ustra.

O juiz Gustavo Santini Teodoro julgou procedente o pedido para decidir que entre as vítimas e Brilhante Ustra “existe relação jurídica de responsabilidade civil nascida da prática de ato ilícito gerador de danos morais”. Condenou o réu às custas e despesas processuais e honorários advocatícios. A decisão do juiz cinge-se a três dos autores, César Augusto, Maria Amélia e Criméia Alice.

“Ato ilícito gerador de danos morais”, na espécie, é tortura.

Para o carrasco, em sua defesa, além dos benefícios da lei de Anistia, a negativa da prática de tortura. Ustra é autor do livro “Rompendo o silêncio, a verdade sufocada”. Tenta negar as barbáries e atrocidades praticadas rotineiramente no DOI/CODI de São Paulo e desqualificar os que o denunciam como um dos monstros mais perversos e cruéis da ditadura no Brasil.

Ligado à Operação Condor (nome dado a operação que uniu os açougues das ditaduras do chamado Cone Sul - Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile), foi parte ativa em seqüestros e assassinatos de líderes da oposição a esses regimes. Sem entranhas e sem a menor noção de qualquer coisa que diga respeito ao ser humano como tal, Brilhante Ustra passeia sua impunidade de forma ostensiva e arrogante, características que carrega desde que praticava tiro ao alvo em alvos imobilizados pela violência dos cárceres ditatoriais, por estupros, algemados e indefesos.

A prática de tortura pelo regime dos generais já havia sido reconhecida pela Justiça brasileira no processo movido por Clarice Herzog contra o Estado pela morte de seu marido Wladimir Herzog, mas nunca um dos carrascos havia sido apontado com precisão como agora Brilhante Ustra.

Os presos mortos no DOI/CODI de São Paulo eram entregues às famílias em caixões lacrados e com o aviso que haviam sido vítimas de atropelamento. E nem todos. muitos figuram como desaparecidos.

A decisão do juiz Santini não significa perspectiva de condenação de Brilhante Ustra pelos crimes praticados contra cidadãos sob sua responsabilidade e guarda no sombrio período ditatorial, já que a lei da Anistia busca proteger criminosos como o coronel. Mas incide em responsabilidade civil, o que, na prática, vale como reconhecimento da contumácia odiosa e vergonhosa da tortura.

É um passo expressivo na luta pela abertura dos arquivos da ditadura. Indispensáveis a que os brasileiros das gerações presentes tenham idéia da estupidez e da boçalidade que governaram o Brasil entre 1964 e 1984. E principalmente para desmoralizar o “patriotismo” de figuras abomináveis como Brilhante Ustra. É aquele que o pensador inglês Samuel Johnson chama de “último refúgio dos canalhas”.

Serve para que se possa conclamar à reflexão sobre o período da ditadura militar, oriunda de um golpe contra um governo constitucional, o de João Goulart, ele próprio assassinado pela Operação Condor. A tortura hoje não mudou no que diz respeito às formas e meios, mas usa métodos ditados pelos avanços tecnológicos, sobretudo os da Comunicação.

Cria um mundo em que algozes e vítimas assentam-se à mesma mesa e nenhum dos dois tem ânsias de vômito. É o quem faz e quem deixa fazer.

As Forças Armadas brasileiras resistem à abertura dos arquivos da ditadura com o argumento que o passado deve ser esquecido e que as atitudes dos militares foram necessárias à democracia. Mas a deles. A que implantaram pela força das armas e pela truculência de gente como Brilhante Ustra, escoimado em instrumentos ditos legais como o Ato Institucional número cinco, o famigerado AI-5.

A decisão do juiz Santini, malgrados os limites estabelecidos pela lei da Anistia, escancara uma porta e cria a perspectiva para que famílias de vítimas desaparecidas da ditadura possam continuar lutando para que seus mortos sejam devolvidos e possam ser sepultados de forma decente. E torturados postos na cadeia.

Há quilômetros de distância entre a decência dos presos políticos e a canalhice de torturadores.

Torturadores são os “heróis da covardia”. Brilhante Ustra não é mais que isso.

Um Pastinha da vida, mas é preciso que sejam mostrados em sua dimensão real. A de canalhas.

A decisão coincide com os 41 anos do assassinato de Ernesto Chê Guevara por esbirros do nazi fascismo na Bolívia. Lá já deram a volta por cima, aqui ainda não. Brilhante Ustra está solto.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

"MARCO ZERO", DE OSWALD DE ANDRADE, É RELANÇADO


Romance social do mais experimental dos modernistas brasileiros é relançado em edição revista

O romance Marco zero, de Oswald de Andrade, foi concebido como um conjunto de cinco livros. Deveria constituir, nas palavras do próprio autor, um mural, um afresco, um mosaico e um comício de idéias: enfim, uma síntese da história do Brasil na primeira metade do século XX a partir de São Paulo. Dos cinco livros projetados, porém, apenas dois foram escritos: Marco zero I - A revolução melancólica e Marco zero II - Chão, agora relançados em edições revistas, sob supervisão editorial de Jorge Schwartz e fixação de texto de Gênese Andrade, contando com uma abrangente bibliografia a cargo de K. David Jackson e com uma detalhada cronologia por Orna Messer Levin.

Marco zero I - A revolução melancólica tem apresentação de Di Cavalcanti e prefácio de Maria de Lurdes Eleutério. O primeiro volume da projetada pentalogia brasílico-paulistana, datado de 1943, a partir do fracasso da revolução de 1932 referida no título, traz um panorama de São Paulo: "O escritor mapeia o espaço paulista percorrendo a capital, o interior, o litoral. Viajamos pela geografia do Estado de São Paulo [...]. Também no tempo histórico empreendemos viagem, visto que Oswald está constantemente a inquirir a história. [O livro] revela o périplo oswaldiano por São Paulo, observando falas, contextos, inquietações de um numeroso e significativo contingente populacional de variada origem e condição social. Oitenta cadernos de anot ações foram elaborados para compor os tipos e as situações que integram o romance [...] Oswald é hábil em nos fazer ir da sede da fazenda para a casa do bairro do Jardim América. Ou então, estando no bairro proletário do Brás, voltamos à Jurema, a pequena cidade 'morta entre latifúndios'". Uma de suas marcas estilísticas é, portanto, o registro de vários falares regionais e sociais.

Marco zero II - Chão tem apresentação de Roger Bastide e prefácio de Antônio Celso Ferreira. O segundo e afinal último volume da pentalogia inacabada (1945), apesar do subtítulo, não trata, como outros romances da época, da terra e suas questões, mas ao contrário. "É essencialmente urbano. [...] Onde está ela [a terra]? Está nas carteiras dos banqueiros, nas letras de câmbio dos capitalistas. Chão é o momento da crise em que o valor da terra deixa de ser um valor de produção para ser um valor de troca. A esse fato sociológico corresponde um fato psíquico: o fator telúrico cede lugar à saudade da propriedade, a uma decomposição dos sentimentos e a uma desorganização moral na alma dos velhos proprietá rios. Verdadeiramente, o título é muito bem achado na sua ironia! [...] Já se notou que os escritores brasileiros gostam muito de misturar discussões de idéias aos seus romances [...]. Não devemos, pois, considerar como idéias de Oswald de Andrade as idéias dispersas em Chão. São pontos de vista e, para ficarmos mais perto da técnica oswaldiana, digamos que são tomadas de vista cinematográficas da realidade paulista através de mentalidades diferentes de integralistas, comunistas, revolucionários cristãos, ou, ainda, da arte através de doutrinadores da arte pura e da arte utilitária a serviço do povo".

A apresentação de Roger Bastide toca na questão central da própria concepção de Marco zero. Oswald de Andrade viveu no fogo cruzado de várias revoluções: a segunda revolução industrial; a revolução dos costumes derivada da urbanização; a revolução modernista das artes; a revolução política impulsionada desde a URSS. A própria revolução modernista, de que seria um dos impulsionadores, daria conta das duas primeiras, ao sintonizar a arte ao mundo contemporâneo. Mas a quarta das grandes revoluções dessa época conturbada, o início do século XX, foi, desde o princípio, um problema difícil para os artistas revolucionários em todo o mundo.

A começar por essa mesma definição: um artista é revolucionário por revolucionar a arte ou por apoiar a revolução? E qual a melhor forma de um artista apoiar a revolução: fazendo arte revolucionária ou arte popular? Enfim: revolução na arte ou arte na revolução? As opções são excludentes, porque a revolução na arte é sinônimo de complexidade, enquanto a arte na revolução deve ser sinônimo de comunicabilidade.

O que fazer, afinal? Adequar a arte ao gosto popular e trair a revolução artística? Trair a revolução artística é relevante face às demandas da revolução política? Oswald de Andrade, depois de se dedicar por décadas à revolução na arte, a partir de sua filiação ao Partido Comunista em 1931 decide ser hora de se dedicar à arte na revolução. Marco zero, romance social, é a materialização dessa opção.

A mesma questão que Oswald enfrenta quando concebe Marco zero nos anos 1930, e que envolveria de Maiakovski (e sua famosa tentativa de síntese: "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária") a Picasso ("Guernica"), passando pelos muralistas mexicanos, reapareceria nos anos 1950, em função da Guerra Fria - levando, no caso da nova vanguarda concretista, ao "salto participante" de uns e ao abandono da arte experimental pela popular de outros (Ferreira Gullar). Marco zero é o "salto participante" de Oswald.

E se, à diferença dos concretos, não tenta simplesmente dar conteúdo engajado à arte experimental, tampouco faz a opção de Gullar, de abandonar totalmente a complexidade pela comunicabilidade. Marco zero é, enfim, um salto participante oswaldiano. Assim, enquanto Antonio Candido vê nele uma "antinomia entre concepção e realização", ou entre a técnica "pontilhista" e o propósito de romance mural, Mário da Sílvia Brito vê uma técnica "simultaneísta e cinematográfica" que possibilitou ao autor cobrir "vasto tempo e vasto espaço [...], todo um processo de debates dos grandes temas do nosso tempo e do nosso país [...] inserido nas coordenadas da inquietação mundial e condensado em páginas desorden adas e caóticas como a própria realidade de que foram arrancadas".

Por falar em Candido, um dos charmes desta edição é a o texto de Di Cavalcanti, de 1943 ("O drama de Marco zero") que serve de apresentação ao volume I. O pequeno artigo é, ele mesmo, uma espécie de marco zero da crítica contemporânea. Pois antes de abordar o livro, registra a emergência de uma então nova geração de críticos, representada pelo "moço" Antonio Candido, geração essa que "é a primeira de técnicos de literatura que o Brasil conhece, [de] moços saídos das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, [todos] técnicos compenetrados". A crítica, até então, era feita por amadores, nos dois sentidos, mas principalmente no primeiro, de amantes da literatura. Di Cavalcanti, nesse mesmo texto, representa p ortanto a antiga crítica, em que o saber não se separava do sabor. O que é bastante oswaldiano.

O AUTOR:

Oswald de Andrade (São Paulo, SP, 1890), como tantos outros literatos da época, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. E, como tantos outros integrantes da elite nacional, fez diversas viagens à Europa.

Ficha técnica:

Título: Marco zero I (A revolução melancólica) e Marco zero II (Chão)

Autor: Oswald de Andrade

Prefácios: Di Cavalcanti e Maria de Lurdes Eleutério (A revolução melancólica); Roger Batisde e Antonio Candido (Chão)

Gênero: Romance

Preço: R$ 53,00 (Marco zero I) e R$ 54,00 (Marco zero II)

Número de páginas: 408 (Marco zero I) e 468 (Marco zero II)

Formato: 12,5 cm x 20,7 cm

ISBN: 978-85-250-4576-8/978-85-250-4577-5


Eu fiz um texto a respeito dos fragmentos inéditos do Marco Zero de Oswald na Cronópios. Quem quiser ler e comentar, pode ir ao blog do texto na revista:


http://www.cronopios.com.br/blogdotexto/blog.asp?id=2734#coments



Alegria, Alegoria

Foi muito bom reencontrar esse livro na internet. Nesse linque dá para ler:

http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=aijwdGDMcLgC&dq=tropic%C3%A1lia:+alegria,+alegoria&printsec=

Acho que é o melhor trabalho acadêmico sobre a tropicália até hoje realizado.