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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Blognovela Capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

Blognovela Penetrália, capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

(Lúcio e o elenco restante da blognovela deslocam-se para um teatro mofado, no centro do Rio de Janeiro. Enquanto eles atuam, no fundo do palco passam ratos e baratas, MILHARES. Lúcio já sapateando, encontra-se com Mário, João Paulo e Mariana, personagens das propagandas do governo federal).

Lúcio: pessoal, reli algumas coisas e não encontrei o capítulo 1 dessa blognovela. Queria acabar tudo agora, mas como? Como acabar algo que não começou?

Mariana (andando em círculos e desviando das baratas e ratos): ora, você achou que isso aqui era os monólogos da vagina? Tende paciência! E esses bichos horrorosos aí?

Lúcio: todo teatro brasileiro tem.

Mariana: mas o que vejo no Brasil é de dar medo.

Lúcio: pode ir queixar-se ao Lula. Foi ele que inventou vocês, junto com a agência W/Brasil. Vocês vivem no mundo possível, enquanto eu vivo no mundo real, vocês são replicantes que inventei para implicar e praticar minhas implicâncias. Misery. Back to misery. Feliz o país que tem sua independência no sete de setembro. Lula tá contando com o pré-sal no cu da galinha.

Mariana: grosso! A Marisa tem tailleurs bonitos como os da Marta e...

João Paulo (chorando ao celular): buá, essa blognovela tem mesmo que acabar? Mas nem começou!

Lúcio: ela começou inspirada na blognovela do Gerald e nos monólogos que estão aqui nesse blog. Metablog.

Mário (entra empunhando uma guitarra, faz um solo, com uma banda de acompanhamento): agora eu não ouço mais a minha abelha amiga! Eu faço rock e não a escuto mais! Eu estou tocando na banda HORTA!

João Paulo (pára o choro subitamente): vamos comer queijo camembert?

Mariana: Onde você encontrou camembert?

João Paulo: ali nas cadeiras, estão todas de queijo camembert francês. E esse teatro nem é do circuito SESC, senão seria mais chique. Comeríamos sapo barbudo com pernas de rã com vinho de uvas PT light. Lula era um sapo barbudo que a elite devorou goela abaixo com a gula de quem come pernas de rã num restaurante chique. Aliás, esse papo me deu água na boca. Onde tem churrasco de rã em Sampa?

Mariana (eufórica): tão vendo, bem que o Lula disse que tá pintando uma nova classe média!

Mário: Ah, Mariana. Lula tá comemorando o pré-sal no sete de setembro para esconder nossa nudez transatlântica e a falta de projetos. Projeto de nação. Obras. PAC, saci, César Benjamin, PSOL.

Mariana (tá um tapa na orelha de Mário): pirou?

Mário: preciso tocar sempre a guitarra, senão escuto a abelha, ai (dá um tapa na própria orelha). Lula estava é fazendo politicagem eleitoreira.

João Paulo: Mariana, você deixou um refletor ligado. Pois é, não vamos ofender o nosso PAI indireto. Ele gosta tanto de metáforas familiares. Falava que tava construindo a casa no tempo do Fome Zero. Agora a casa é zero. Ruínas.

Lúcio: Não tenho nada com isso. Não tem. Não. Já leram Wayne Booth falando de Company, do Samuel Beckett. Imagine.

Mariana (nervosa e com pressa): gente, preciso desligar aquele refletor. Meu Deus. Não é para lá. Não é para lá. Meu Deus. Meus pés não me obedecem. Não gosto disso do Beckett, começa na terceira pessoa, depois entra o eu, parece confuso, parece meus pés.

Lúcio (sapateando intensamente): Hoje vou me curar de meu sapateado vivendo uma grande emoção. Vou trancar vocês, personagens de propaganda do governo federal, e vou matá-los nesse teatro. TRATA-SE DE UM PROTESTO CONTRA A SITUAÇÃO DOS TEATROS BRASILEIROS! AGORA FORAM VOCÊS, MAS NO FUTURO PODERÃO SER PESSOAS DO MUNDO REAL! PODEM OCORRER MORTES! MORTES! MORTES! FOGO NOS TEATROS BRASILEIROS!

(Lúcio corre, mesmo sapateando, e fecha os demais colegas dentro do teatro em chamas. Fumaça. Gritos. Pancadas desesperadas na porta fechada. Lá fora, enquanto o teatro arde em chamas matando João Paulo, Mariana e Mário, ele fica observando um painel de Portinari, monologa, ri, chora...)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Blognovela Penetrália, capítulo 2: Sarapatetas, Sapateiem!

Blognovela Penetrália. Capítulo 2: SARAPATETAS, SAPATEIEM!

(Os sarapatetas se ausentam, deixando em seus lugares meros bonecos de cera que caricaturam seus rostos. Sobrou apenas Lúcio, que fala agora com o rosto do Lúcio da propaganda do governo federal que sugere que você, eleitor, não vote em maus políticos).

André Duarte (ouve-se uma voz gravada saindo de seu boneco, inicialmente dando um email): http://sarapateta.tripod.com/ Certamente nossos sapientíssimos leitores já procuraram conhecer a incrível cultura dos povos pré-fetófagos que habitavam em distantes tempos ancestrais as construções cujos restos formam o sítio arqueológico de Al Benakor. É um lapso absurdo para todo aquele que envereda pelos caminhos do conhecimento não ter sequer ouvido falar desses povos e das ruínas descobertas em 1967 pelo arqueólogo inglês Sir Anthony Ivor e que têm mobilizado um enorme contingente de arqueólogos, paleontólogos, antropólogos e outros estudiosos num esforço conjunto e coordenado para elucidar parte da história desconhecida e repleta de mistérios de toda a região do vale do Baixo Nor. Toda esta região situa-se em um dos mais inóspitos e misteriosos territórios da face da Terra: os pântanos de Gotzey, tido por alguns também como um lugar repleto de forças mágicas de cujas origens não se tem notícias...

Lúcio (sapateando): André, isso tudo é mentira. Al Benakor nunca existiu. Não minta aos leitores (dirigindo-se para os leitores): meu nome é Lúcio, quando eu fico nervoso, eu sapateio!

(Entram em cena outros personagens do teatro do absurdo da política: Mariana, que anda em círculos quando fica nervosa; João Paulo, que cria uma abelha no ouvido esquerdo).

João Paulo: eu sou uma abelha na orelha da esquerda! Heloísa Helena confirmou Glauber naquela frase: quem é revolucionário na política geralmente é reacionário em arte. Citou o poeta Dedo Ivo em entrevistas. Ledo e Ivo engano, só porque ele é alagoano? Oswald de Andrade disse que ele era o chulé de Apolo! Eu votei em Heloísa, mas quando perguntaram se ela apoiava o aborto, ela disse que aborto era o chulé de Rosa Luxemburgo!

Mariana (monologando em círculos): para lá, para lá. Quatro anos é muito tempo, não quero o terceiro mandato de Lula, mas José Alencar gostaria de consultar o povo. Zé, não tema a morte! Tema o terceiro mandato! Tema que esse referendo existia na constituição da Venezuela e não do Brasil! Eu sou uma personagem de Beckett, de Ionesco. Fail. Fail again. Fail better. Eu não posso ir. Eu vou, andando em círculos! Caetano Veloso, lendo uma entrevista de Lobão no show, disse que era stand up comedy. Vô, vô, por que não? Lobão criticou João. João Gilberto. João Grandão. Me chama, me chama, me chama, me chama, João, mas no sue apartamento de bosta nova não vou não. Essa é uma linguagem morta, beatlemaníaca, eu ligo o rádio e jabá, jabá, eu te amo, é para tocar no rádio, no rádio do seu coração, para chupar com Paul mole. Mas João cortou a mágica do absurdo, não as lágrimas no escuro. E Lobão tem razão? Lobão colocou Caetas como signatário-gilete de um abaixo-assinado pela numeração de CDs!

Lúcio (sapateando): sempre que eu fico nervoso, eu sapateio. Eu sapateio na empresa, diante de todo o staff, eu sapateio para me casar, eu sapateio...só no sapatinho. Eu tinha que ir à Lapa antes que Lobão acabe com ela, eu me solidarizo com os marxistas branquelos universitários e loosers. Eu sou LOOSER, Jesus é LOOSER, IRAQUE E AFEGANISTÃO SÃO PAÍSES-LOOSERS, Lobão é WINNER?

(Subitamente, outros bonecos começam a falar):

Marcos Xavier: de grão em grão a galinha enche o saco! Se repararmos bem as atitudes humanas, não será difícil perceber o quanto o homem ainda preserva de seu lado animal, principalmente ao analisarmos seu comportamento alimentar. Não satisfeito com toda a infinidade de alimentos que a natureza lhe proporciona, o homem insiste vorazmente em provar absolutamente tudo. Animais? Já saboreou todos, sem deixar escapar nada, aproveitando rabo, focinho, língua etc. Muitos devem ter morrido ao comer plantas desconhecidas que eram venenosas. A fome, sem dúvida, faz com que muitos sejam obrigados a comer, dramaticamente, até lixo. Porém, o apetite humano vai além da fome: não bastassem os peixes, há que se comer toda a população marinha, até mesmo as ovas do peixe. Há restaurantes na Flórida que servem caranguejos ainda vivos. Sabe-se também que num exótico restaurante situado nas proximidades de New York servem-se larvas negras que se proliferam em madeiras podres. Lembre-se ainda que em algumas tribos nômades de uma república da Ásia central, uma das iguarias mais apreciadas são olhos de carneiro cozidos. Independentemente de fatores sociais, o fato é que o homem não passa de um bebê que sai engatinhando e vai colocando na boca tudo que acha pela frente. Ou uma galinha que sai ciscando. O mais radical, sem dúvida, nessa gula sem precedentes, são as tribos canibais. Entretanto, não duvido que muitos de nossa espécie "civilizada", ao verem algumas banhas humanas, imaginem suculentos torresmos. A bem da verdade, sabemos bem de alguns que não resistiram à tentação e foram condenados à prisão e mesmo à morte. O que é isso? O resultado aberrante de uma fase oral psicótico-megalômana? Ou é simplesmente a natureza humana? Bem, resta-nos ter esperança no grande salto evolucional da antropofagia dos Andrade de 22!

Lúcio (sempre sapateando): quero comer essas LARVAS PODRES em New York! Elas são a cura para o meu sapateado.

(O boneco de Érico se aciona): ... e eis que eu me vejo envolto numa auréola de fumaça, num véu de formas cambiantes, fugidias, hipnóticas, promessas de segredos indecifráveis, desde sempre perdidos.

(Lúcio, sapateando, resolve calar o boneco, pois o google não aceita apologia de cigarro. Algumas frases saem entrecortadas): Não sou o Marlboro Man, não vivo nas pradarias, não habito o paraíso fácil de quem não morre... nem nunca morrerá de câncer de pulmão. Cultivo um hábito decadente... que pode me levar a morte, mas afirmo que saber cultivar um vício é uma virtude, é uma arte...Nada de niilismo indolente aqui... que o cigarro é um veneno, mas é um santo veneno, um veneno enviado por deuses que não existem mais -- amém! uma névoa sinistra....Ora, e o que há por detrás da fumaça? Multidões de não-fumantes indignados com...Confinados em nosso pequeno mundo, ascendemos em espirais de fumaça, o planeta em combustão lenta e programada, os céus ... e meu sorriso na névoa cinza como uma meia-lua, como o sorriso do gato de Chelshire...

(Lúcio desliga o gravador de todos os outros bonecos): Só vou deixar vocês falarem daqui a quatro anos, quando vou tentar parar de sapatear de novo!