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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Blognovela Capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

Blognovela Penetrália, capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

(Lúcio e o elenco restante da blognovela deslocam-se para um teatro mofado, no centro do Rio de Janeiro. Enquanto eles atuam, no fundo do palco passam ratos e baratas, MILHARES. Lúcio já sapateando, encontra-se com Mário, João Paulo e Mariana, personagens das propagandas do governo federal).

Lúcio: pessoal, reli algumas coisas e não encontrei o capítulo 1 dessa blognovela. Queria acabar tudo agora, mas como? Como acabar algo que não começou?

Mariana (andando em círculos e desviando das baratas e ratos): ora, você achou que isso aqui era os monólogos da vagina? Tende paciência! E esses bichos horrorosos aí?

Lúcio: todo teatro brasileiro tem.

Mariana: mas o que vejo no Brasil é de dar medo.

Lúcio: pode ir queixar-se ao Lula. Foi ele que inventou vocês, junto com a agência W/Brasil. Vocês vivem no mundo possível, enquanto eu vivo no mundo real, vocês são replicantes que inventei para implicar e praticar minhas implicâncias. Misery. Back to misery. Feliz o país que tem sua independência no sete de setembro. Lula tá contando com o pré-sal no cu da galinha.

Mariana: grosso! A Marisa tem tailleurs bonitos como os da Marta e...

João Paulo (chorando ao celular): buá, essa blognovela tem mesmo que acabar? Mas nem começou!

Lúcio: ela começou inspirada na blognovela do Gerald e nos monólogos que estão aqui nesse blog. Metablog.

Mário (entra empunhando uma guitarra, faz um solo, com uma banda de acompanhamento): agora eu não ouço mais a minha abelha amiga! Eu faço rock e não a escuto mais! Eu estou tocando na banda HORTA!

João Paulo (pára o choro subitamente): vamos comer queijo camembert?

Mariana: Onde você encontrou camembert?

João Paulo: ali nas cadeiras, estão todas de queijo camembert francês. E esse teatro nem é do circuito SESC, senão seria mais chique. Comeríamos sapo barbudo com pernas de rã com vinho de uvas PT light. Lula era um sapo barbudo que a elite devorou goela abaixo com a gula de quem come pernas de rã num restaurante chique. Aliás, esse papo me deu água na boca. Onde tem churrasco de rã em Sampa?

Mariana (eufórica): tão vendo, bem que o Lula disse que tá pintando uma nova classe média!

Mário: Ah, Mariana. Lula tá comemorando o pré-sal no sete de setembro para esconder nossa nudez transatlântica e a falta de projetos. Projeto de nação. Obras. PAC, saci, César Benjamin, PSOL.

Mariana (tá um tapa na orelha de Mário): pirou?

Mário: preciso tocar sempre a guitarra, senão escuto a abelha, ai (dá um tapa na própria orelha). Lula estava é fazendo politicagem eleitoreira.

João Paulo: Mariana, você deixou um refletor ligado. Pois é, não vamos ofender o nosso PAI indireto. Ele gosta tanto de metáforas familiares. Falava que tava construindo a casa no tempo do Fome Zero. Agora a casa é zero. Ruínas.

Lúcio: Não tenho nada com isso. Não tem. Não. Já leram Wayne Booth falando de Company, do Samuel Beckett. Imagine.

Mariana (nervosa e com pressa): gente, preciso desligar aquele refletor. Meu Deus. Não é para lá. Não é para lá. Meu Deus. Meus pés não me obedecem. Não gosto disso do Beckett, começa na terceira pessoa, depois entra o eu, parece confuso, parece meus pés.

Lúcio (sapateando intensamente): Hoje vou me curar de meu sapateado vivendo uma grande emoção. Vou trancar vocês, personagens de propaganda do governo federal, e vou matá-los nesse teatro. TRATA-SE DE UM PROTESTO CONTRA A SITUAÇÃO DOS TEATROS BRASILEIROS! AGORA FORAM VOCÊS, MAS NO FUTURO PODERÃO SER PESSOAS DO MUNDO REAL! PODEM OCORRER MORTES! MORTES! MORTES! FOGO NOS TEATROS BRASILEIROS!

(Lúcio corre, mesmo sapateando, e fecha os demais colegas dentro do teatro em chamas. Fumaça. Gritos. Pancadas desesperadas na porta fechada. Lá fora, enquanto o teatro arde em chamas matando João Paulo, Mariana e Mário, ele fica observando um painel de Portinari, monologa, ri, chora...)

domingo, 31 de agosto de 2008

Blognovela Penetrália, Capítulo 6

Capítulo 6: “Círculos” & “Sapateado”

(Entra em cena Lúcio, sapateando. A platéia aplaude. É o início de uma carreira de dançarino de sapateado. Mariana entra em seguida, fica no escritório calada, andando em círculos. A platéia, constituída por participantes do blog do Gerald Thomas, aplaude de pé e depois vai saindo. Fica somente Lúcio sozinho, no escritório escuro, com uma luz sobre ele).

Lúcio: Alguém perguntou pela peça, pelo diretor, não foi? Eu sou um autor implícito aqui, mas essa é obra de acaso total. Não é a obra de arte total do Wagner. Eu arranquei peças e frases de textos esquecidos de um grupo de amigos meus, os sarapatetas. Eles nem ligaram e eu os transformei em bonecos inanimados. Schweitzer me escreveu perguntando de onde é que eu tirei aquela frase que postei aqui no começo da blognovela. Ele ficou um pouco assustado, perguntando se tinha dito aquela asneira. Claro que não falou, eu achei ele simpático e bem informado na entrevista que ele fez com vc no Táxi em Movimento e que está no Youtube. Só acho que o humor não pode estar imposto na pergunta, tem que rolar naturalmente na entrevista, pois assim é melhor.

A frase era algo como “Nietzsche é amigo do Otávio de Carvalho, é viado ou garanhão”? Pedi desculpas ao Schweitzer por ter inventado essa frase e “psicografado” ele aqui no blog. O fato é que do Olavo de Carvalho eu não gosto. Quanto à blognovela: vale Lenin sim, desde que seja uma referência à peça dele (Stoppard) que tinha o Lenin com o Tzara na Suíça, não sei se era Jumpers.Eu quero morrer na blognovela gritando: meu nome é o mesmo do Nero: Lúcio Domício Enobardo. Mate-me Gerald. Onde você estava quando caiu o Muro de Berlim?

Clown de Oswald: bati uma punheta.

Eu: e quando ocorreu a crise argentina e russa nos anos 90?

Clown: cat´s craddle.

Eu: e quando soube que Sontag montou Esperando Godot em Sarajevo?

Clown: mas-tur-ba-ción

Eu (gritando): e no 11 eleven, 2001?

Clown: quis montar a peça de Roberto Schwarz, A Lata de Lixo da História…Ou senão….bronha!

Lúcio: Talvez o Jango tenha sido assassinado. Allende. Ambos, se lutassem, seria para fazerem do Brasil e do Chile um, dois, três Vietnãs, nada menos. Essa barra não aguentaram segurar. Não acho que seja questão de cojones. Era questão de ir contra a própria natureza, a própria índole mesmo. Mesmo assim, prefiro a atitude final de Allende, afundando com o barco. Dizem que Jango se arrependeu de ter deixado o barco sem luta. Desapareceu na memória popular. Como a peça de Glauber: Jango, o Presidente que o Povo Comeu. Glauber se comparava com Jango: "todo mundo me traiu!" Realmente, Jango foi traído por Deus e mundo. Mas uma frase me chamou a atenção ontem: duas gêmeas estão atuando em A Serpente, de Nelson Rodrigues. Numa cena importante uma irmã “viúva de marido vivo” diz para a outra, happy histérica: “ontem quase me deflorei com um lápis ao ver você com seu marido”!

O Jô achou essa frase “Nelson Rodrigues puro”. Eu prefiro on the rocks. Por que não a mais clean: “ontem quase me deflorei com o desentupidor de pia!” Ou, quem sabe, uma versão gastronômica: “Amanhã de manhã você vai acordar outro pepino na feira…” Quem sabe eu dirija/transcrie uma peça teatral de Machado de Assis, que tal? Qualquer coisa que você colocar vai deixar a crítica perdidinha, pois ninguém conhece o teatro do Machadão, rá-rá-rá!

Francinny: Vc pergunta quem e o diretor,não temos diretor nossas historias são dirigidas por nós, nada de diretores, somos livres mesmo não que não vivemos em um país livre, mas temos a alma livre de tudo e todos,não quero ser um boneco grotesco que toma Prozac, quero ser livre não quero sapatear, ou falar o que todo mundo quer, eu queria vomitar na hipocresia do mundo mas não posso. Na verdade não fui procurar um livro fui procurar ser livre, Lucio tudo e uma loucura a vida e uma loucura, mas eu queria viver em um conto como os de Poe, vamos escrever um conto louco, para os loucos da vida moderna que tenha eu , vc Rodrigo Contrera, Corvo e mais outros loucos Ola para Corvo eu mandaria o retrato Oval eu achei, e a historia de um pintor que com o seu perfeccionismo, para com o retrato da esposa aos poucos em que ele coloria a tela, tirava a cor de sua esposa, e ao fim o retrato ficou perfeita, mas ele nem notou que ela morreu diante dos seus olhos, e isso está acontecendo diante de nós, estou vendo o diretor G.T. morrer diante de nós pois está impondo seu modo de vida, está trepudiando e sapateando diante das nossas criticas mediocres, achando que a razão e só dele como o Pintor diante da sua obra

Lúcio: Parte da minha família mora em Goldensbridge, são três tios que trabalham com um milionário, Mr. Max. Inclusive mamãe já foi lá: avisei-a para procurar algo off-broadway. Vou dar o toque do La Mama. Quando eu disse que converso com vc, mamãe comentou, alegre: “aquele moço que foi casado com aquela atriz bonita? Ele parece o John Lennon!” Em que consiste a estética em Thomas? (…) Trata-se de uma estética constantemente aberta, em processo de criação, em mestiçagem permanente. (…) A identidade de Thomas é múltipla e totalmente indefinível. Ele se definie em alemão, parafraseando Wagner, como “der fliegende Jude”, o judeu voador, ao invés de “der fliegende Hollender” . E essa fórmula caracteriza bem o senso inato de uma certa ubiqüidade de Thomas. (…) O gesto teatral de Thomas é ao mesmo tempo paródico e respeitoso de uma certa tradição teatral. É, antes de tudo lúdico e se fundamenta numa intenção de reteatralizar o teatro segundo os princípios instáveis da mistura de elementos aleatórios. Tocamos aqui na sua filosofia do acaso, que constitui a base principal de sua atividade teatral.. Para Thomas o acaso é um lance. Cada lance é imprevisível. Se para Mallarmé nenhum lance de dados jamais abolirá o acaso, para Gerald Thomas cada acaso desloca e perturba a sistemática e a lógica mímética do teatro. (…) Mulplicar os lances é fazer do teatro um campo de jogo onde tudo pode acontecer. (…) O que Wagner postulava como obra de arte total, torna-se ou deve tornar-se para Thomas uma “obra de arte de acasos reunidos”. (…) Mas o que é então o acaso para Thomas? (..) A obra teatral do acaso total é um discurso cênico onde nenhuma estabilidade, nenhuma identidade, nenhuma tradição resiste à força e à imprevisibilidade dos lances. O jogo, ou melhor, o panludismo, transtorna absoutamente tudo.(…) O teatro fica em estado de equilíbrio instável, em estado de tensão dialógica e provocadora que ironiza as estruturas estabelecidas. (…) Mas é, creio, uma interpretação parcial e não objetiva. É preciso compreender o sentido profundo do acaso em Thomas para explicar a originalidade e a dimensão vanguardista de seu processo. Parece-me que o acaso entendido como uma infinidade de lances é um postualdo estético original, mas não permite explicar o sentido de algumas constantes nas encenaçoes de Thomas. Não permite também comprender como seu estilo teatral se formou pela retradução em termos filosóficos e cênicos de certas tradições teatrais tomadas como pontos de rerfeência. O acaso seria então repetitivo e impaciente. Antes de desenrolar seu infinito, seria mais sensível a certos lances, sempre os mesmos, do que à multiçlicação de novos golpes. A estética cênica de Thomas se explica melhor e mais dialeticamnte quando tentamos comprender que sua teatralidade acontece entre os lances do acaso e processo estocástico. Ao programa da multiplicação dos lances aleatóreos é preciso acrescentar a necessidade de calcular as probabilidades de repetição, de previsão e de extrapolação de certas variáveis inseridas na criação cênica. Esta se compara a um processo estocástico, “função aleatória cujo argumento é o tempo, com desenrolar irreversível e inevitável. Devemos nos voltar para a evolução de um elemento cênico sobre o qual o “acaso” intervém a cada instante… ” (Wladimir Krisinky).

Fantasma de Maura Lopes Cançado: Eu nao frequentava obrigatoriamente o pátio. Á tarde, quando eu ia lá, pedia-lhe para cantar a ária da Bohéme, Valsa da Museta. Dona Georgiana recortada no meio do pátio, cantava — e era de doer o coração. As dementes, descalças e rasgadas, paravam em surpresa, rindo bonito em silêncio, os rostos transformados. Outras, sentadas no chão úmido, avançavam as faces inundadas de presença –elas que eram tão distantes. Os rostos fulgiam, por instantes, irisados e indestrutíveis. Me deixava imóvel, as lágrimas cegando-me. Dona Georgiana cantava: chia de graça, os olhos azuis sorrindo, aquele passado tão presente, ela que fora, ela que era, se elevando na limpidez das notas, minhas lágrimas descendo caladas, o pátio de mulheres existindo em dor e beleza. A beleza terríffica que Puccini não alcançou: uma mulher descalça, suja, gasta, louca, e as notas saindo-lhe em tragicidade difícil e bela demais — para existir fora de um hospício.

Rússia (tem a cara da Flora, Cláudia Raia): eu fingi de mortinha, de boazinha. A Ossétia é MINHA!

Ossétia (Lara, Mariana Ximenes, dividida): MAAAAE!

Geórgia (tem a cara da Patrícia Pillar, digo, da Flora): Você não é filha dela, Ossétia! Vocé é minha, filha! MINHA FILHA!

(Cai o pano. Trevas).

domingo, 24 de agosto de 2008

Blognovela Penetrália: Capítulo 3

Capítulo 3: A CRUZ DO CRUZ & SOUSA

(O Gugol Júlio Fantasma informa que a blognovela foi interrompida de forma abrupta na última sessão).

João Paulo: sou eu que tenho uma abelha na cabeça. O Mário é o que tem o celular que toca sempre Pour Elise e o faz chorar. É que ele leu Adorno e a regressão acústica. Ele lembra que para ele, Lukács, Hegel e Adorno, a arte morreu. E ele não sabe nada de Filosofia. Tem também o cara do trem e o do cometa.

Trem: eu só volto daqui a quatro anos.

Cometa: eu sou o Halley, só volto daqui a setenta anos.

Lúcio (sapateando): Trem? Eu deixo aqui uma sugestão para uma polêmica no blog: o gesto dos Kaiapós de passar o facão no engenheiro da Eletrobrás foi antropofágico? Para mim, foi.

Guzik: Nem é preciso ir atrás de teorias de historiadores e sociólogos. Bastam uma hora à noite sem energia ou vinte e quatro horas sem água (as duas carências rolaram aqui entre terça e quinta) para percebermos como são precárias todas as nossas "qualidades" de vida. que civilização frágil essa que construímos!

Contrera: no encontro entre a barbárie da civilização e a civilização da barbárie sempre há quem sirva de comida aos cortadores de cabeças. o que não significa que não deva existir porrete a demandar um limite entre as facas ou os canhões.

Rio Maynart: Caro Andrei, te sinto mais “Andrei” do que “escrava isaura”, assim como vejo o Vamp mais vampiro do que Odete ‘Róitman’, ele não é um vilão como ela. O Vamp, caro Andrei , é lindamente sensível!!! Ele até teve um surto só pq eu questionei uma frase meio non-sense sobre a mão num sapato ser o mesmo que uma mão no cadáver e parece que o Lúcio Jr. tb teve o mesmo questionamento q eu, (segundo o Gerald)… Para surtar c/ isso, é necessário ter muita sensibilidade (A Odete ‘Róitman’ nunca surtaria c/ essa pergunta. Ela é uma vilã fria, crua, cruel e durona), e olha que ele (mesmo surtado) ainda teve sensibilidade e tesão para agarrar alguém no escuro… Eu acho que ele agarrou foi a Dra. Paloma. Fábio, meu caro, não gosto de rótulos.

Sandra: SENSACIONAL! Ar-ra-sou!

Lúcio: Mas não tem nenhum Andrei aqui, só um boneco. Sarapateus e sarapatetas: sabe o q eu acho mais complicado nessa história do setember eleven? É que agora, um nacionalismo árabe pragmático não pode mais apoiar os USA nem aceitar um programa democrático liberal! Eles venceram, fecharam o sinal. Mesmo o Talibã e Saddam se aliaram aos USA em certos momentos. De agora em diante isso é impossível!

Laerte Braga: para quê apoiar o imperialismo americano?

Andrei Golemsky (o boneco volta a falar, aparentemente sem motivo, numa nova gravação): Ah, seu Laerte, a morte é uma divindade, a morte é uma festa! Certo dia, ouvi num noticiário que dez pubs londrinos, daqueles bem tradicionais, planejam oferecer um novo serviço no mercado gerado pela morte. O referido serviço consiste em, expressando o morto (com alguma antecedência, evidentemente) o desejo de que assim seja feito, ser o corpo e as cinzas depositadas numa urna funerária (até aqui não há novidade). E essa mesma urna contendo as cinzas do antigo cliente seria armazenada, ou exposta, no interior do próprio pub que o morto costumava freqüentar com seus amigos, acompanhada de uma placa convencional de lembranças eternas.

Cruz do Cruz e Sousa: Prezado Sr, estou realmente estarrecido com sua atitude, tanto no seu blog quanto aqui, revelando uma intimidade que jamais tive nem tenho com colegas, ex-colegas, amigos, ex-amigos, companheiros, ex-companheiros, aliados, ex-aliados, adversários, ex-adversários, e digo mais: nem mesmo com parentes de primeiro, segundo, terceiro graus etc.

Até onde me lembro - e estou vivo e lúcido o suficiente para me lembrar completamente de todos os meus atos - jamais o agredi, jamais o desqualifiquei, jamais encaminhei qualquer ação com objetivo de lhe causar danos de qualquer natureza. Todas as vezes em que conversamos, dentro e fora da UFMG, cumpri com minha obrigação elementar, enquanto humano (e certamente o Sr. é daqueles que duvidam da humanidade dos negros, dos pobres e outras minorias), de respeitar o outro.

Como tantos, escolhi o trabalho intelectual, desde o início da vida adulta, como "métier": penso, pesquiso, falo, escrevo, enfim, exponho-me. Evidente que esse tipo de trabalho, o conjunto de idéias que o caracteriza, freqüentemente desagrada a outras pessoas, grupos, facções, partidos, guetos, bairros, turminha da mônica e outras turmas, contraria seus princípios, sua etiqueta social etc. Entretanto, nada justifica o linchamento daquele que, com suas idéias, desagrada a qualquer grupo, o que significará sempre a velha e intolerável confusão de fronteiras que tantas tragédias já causaram à humanidade. Tive e tenho o direito a emitir as idéias que entendi e entendo que são mais plausíveis, direito que também lhe assiste, bem como a qualquer outro mortal. Neste momento em que o Sr., que tem idade suficiente para responder pelos seus atos, pavoneia-se debilmente com o meu nome, procurando, como outros, seus 15 minutos de fama (afinal, quem é o Sr.mesmo?), creio que esteja cônscio sobre as conseqüências de chutar um cachorro-não-morte, creio que conheça bem o ditado paranaense que Leminski gostava de recordar: quem come pedra, sabe...

Lúcio (sapateando cada vez mais, com as mãos na cintura): era só o que me faltava...Fala, minha cruz! Quem chamou você aqui nessa blognovela?

Cruz da Cruz e Sousa: Deixo bem claro, mais uma vez: não admito nem jamais admitirei que pessoas maledicentes, mesquinhas e autoritárias, em bom uso ou não de suas faculdades mentais, procedam a julgamento sumário da minha pessoa nem do empreendimento que, orgulhosamente, fundei há quase dez anos e é - para aumentar o ódio de figuras ridículas como o Sr., típicos remanenescentes do nosso nazionalismo merdavarelo - uma das referências de um tempo, de uma geração e de um lugar nos anos 90. Quanto a discutir meu ensaio "A Desarmonia da Harmonia" com o Sr., ensaio cuja importância o Sr. mesmo reconhece ao escrever todo um outro ensaio a respeito, considero uma proposta altamente indecente. Volto a lhe perguntar, com toda sinceridade: quem é o Sr. mesmo? Eu, como o Sr. bem sabe, sou A CRUZ DO CRUZ & SOUZA.

Lúcio (sentado, segurando o pé): Olha, eu não tenho nada a ver se o poeta do desterro foi recebido friamente. E você vem com essa velha frase: “Você sabe com quem está falando?” E que negócio é esse de nazionalismo. A Sra. Cruz é que ficou louca.

(Nesse momento, Lúcio observa que há outros bonecos, esses minúsculos, de sarapatetas pela sala. Mas primeiro, ele precisará resolver o problema da Cruz, que traz junto uma enxurrada de lama que ameaça encher a sala. Os bonecos dos sarapatetas flutuam juntamente com Rio Maynart, Laerte Braga, Contrera e Guzik, que gesticulam pedindo socorro).

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Blognovela Penetrália, capítulo 2: Sarapatetas, Sapateiem!

Blognovela Penetrália. Capítulo 2: SARAPATETAS, SAPATEIEM!

(Os sarapatetas se ausentam, deixando em seus lugares meros bonecos de cera que caricaturam seus rostos. Sobrou apenas Lúcio, que fala agora com o rosto do Lúcio da propaganda do governo federal que sugere que você, eleitor, não vote em maus políticos).

André Duarte (ouve-se uma voz gravada saindo de seu boneco, inicialmente dando um email): http://sarapateta.tripod.com/ Certamente nossos sapientíssimos leitores já procuraram conhecer a incrível cultura dos povos pré-fetófagos que habitavam em distantes tempos ancestrais as construções cujos restos formam o sítio arqueológico de Al Benakor. É um lapso absurdo para todo aquele que envereda pelos caminhos do conhecimento não ter sequer ouvido falar desses povos e das ruínas descobertas em 1967 pelo arqueólogo inglês Sir Anthony Ivor e que têm mobilizado um enorme contingente de arqueólogos, paleontólogos, antropólogos e outros estudiosos num esforço conjunto e coordenado para elucidar parte da história desconhecida e repleta de mistérios de toda a região do vale do Baixo Nor. Toda esta região situa-se em um dos mais inóspitos e misteriosos territórios da face da Terra: os pântanos de Gotzey, tido por alguns também como um lugar repleto de forças mágicas de cujas origens não se tem notícias...

Lúcio (sapateando): André, isso tudo é mentira. Al Benakor nunca existiu. Não minta aos leitores (dirigindo-se para os leitores): meu nome é Lúcio, quando eu fico nervoso, eu sapateio!

(Entram em cena outros personagens do teatro do absurdo da política: Mariana, que anda em círculos quando fica nervosa; João Paulo, que cria uma abelha no ouvido esquerdo).

João Paulo: eu sou uma abelha na orelha da esquerda! Heloísa Helena confirmou Glauber naquela frase: quem é revolucionário na política geralmente é reacionário em arte. Citou o poeta Dedo Ivo em entrevistas. Ledo e Ivo engano, só porque ele é alagoano? Oswald de Andrade disse que ele era o chulé de Apolo! Eu votei em Heloísa, mas quando perguntaram se ela apoiava o aborto, ela disse que aborto era o chulé de Rosa Luxemburgo!

Mariana (monologando em círculos): para lá, para lá. Quatro anos é muito tempo, não quero o terceiro mandato de Lula, mas José Alencar gostaria de consultar o povo. Zé, não tema a morte! Tema o terceiro mandato! Tema que esse referendo existia na constituição da Venezuela e não do Brasil! Eu sou uma personagem de Beckett, de Ionesco. Fail. Fail again. Fail better. Eu não posso ir. Eu vou, andando em círculos! Caetano Veloso, lendo uma entrevista de Lobão no show, disse que era stand up comedy. Vô, vô, por que não? Lobão criticou João. João Gilberto. João Grandão. Me chama, me chama, me chama, me chama, João, mas no sue apartamento de bosta nova não vou não. Essa é uma linguagem morta, beatlemaníaca, eu ligo o rádio e jabá, jabá, eu te amo, é para tocar no rádio, no rádio do seu coração, para chupar com Paul mole. Mas João cortou a mágica do absurdo, não as lágrimas no escuro. E Lobão tem razão? Lobão colocou Caetas como signatário-gilete de um abaixo-assinado pela numeração de CDs!

Lúcio (sapateando): sempre que eu fico nervoso, eu sapateio. Eu sapateio na empresa, diante de todo o staff, eu sapateio para me casar, eu sapateio...só no sapatinho. Eu tinha que ir à Lapa antes que Lobão acabe com ela, eu me solidarizo com os marxistas branquelos universitários e loosers. Eu sou LOOSER, Jesus é LOOSER, IRAQUE E AFEGANISTÃO SÃO PAÍSES-LOOSERS, Lobão é WINNER?

(Subitamente, outros bonecos começam a falar):

Marcos Xavier: de grão em grão a galinha enche o saco! Se repararmos bem as atitudes humanas, não será difícil perceber o quanto o homem ainda preserva de seu lado animal, principalmente ao analisarmos seu comportamento alimentar. Não satisfeito com toda a infinidade de alimentos que a natureza lhe proporciona, o homem insiste vorazmente em provar absolutamente tudo. Animais? Já saboreou todos, sem deixar escapar nada, aproveitando rabo, focinho, língua etc. Muitos devem ter morrido ao comer plantas desconhecidas que eram venenosas. A fome, sem dúvida, faz com que muitos sejam obrigados a comer, dramaticamente, até lixo. Porém, o apetite humano vai além da fome: não bastassem os peixes, há que se comer toda a população marinha, até mesmo as ovas do peixe. Há restaurantes na Flórida que servem caranguejos ainda vivos. Sabe-se também que num exótico restaurante situado nas proximidades de New York servem-se larvas negras que se proliferam em madeiras podres. Lembre-se ainda que em algumas tribos nômades de uma república da Ásia central, uma das iguarias mais apreciadas são olhos de carneiro cozidos. Independentemente de fatores sociais, o fato é que o homem não passa de um bebê que sai engatinhando e vai colocando na boca tudo que acha pela frente. Ou uma galinha que sai ciscando. O mais radical, sem dúvida, nessa gula sem precedentes, são as tribos canibais. Entretanto, não duvido que muitos de nossa espécie "civilizada", ao verem algumas banhas humanas, imaginem suculentos torresmos. A bem da verdade, sabemos bem de alguns que não resistiram à tentação e foram condenados à prisão e mesmo à morte. O que é isso? O resultado aberrante de uma fase oral psicótico-megalômana? Ou é simplesmente a natureza humana? Bem, resta-nos ter esperança no grande salto evolucional da antropofagia dos Andrade de 22!

Lúcio (sempre sapateando): quero comer essas LARVAS PODRES em New York! Elas são a cura para o meu sapateado.

(O boneco de Érico se aciona): ... e eis que eu me vejo envolto numa auréola de fumaça, num véu de formas cambiantes, fugidias, hipnóticas, promessas de segredos indecifráveis, desde sempre perdidos.

(Lúcio, sapateando, resolve calar o boneco, pois o google não aceita apologia de cigarro. Algumas frases saem entrecortadas): Não sou o Marlboro Man, não vivo nas pradarias, não habito o paraíso fácil de quem não morre... nem nunca morrerá de câncer de pulmão. Cultivo um hábito decadente... que pode me levar a morte, mas afirmo que saber cultivar um vício é uma virtude, é uma arte...Nada de niilismo indolente aqui... que o cigarro é um veneno, mas é um santo veneno, um veneno enviado por deuses que não existem mais -- amém! uma névoa sinistra....Ora, e o que há por detrás da fumaça? Multidões de não-fumantes indignados com...Confinados em nosso pequeno mundo, ascendemos em espirais de fumaça, o planeta em combustão lenta e programada, os céus ... e meu sorriso na névoa cinza como uma meia-lua, como o sorriso do gato de Chelshire...

(Lúcio desliga o gravador de todos os outros bonecos): Só vou deixar vocês falarem daqui a quatro anos, quando vou tentar parar de sapatear de novo!