terça-feira, 23 de junho de 2026

Notas sobre o processo do capitalismo burocrático em países do terceiro mundo Autor do post: Mikhail Novikov

Post publicado:7 de abril de 2026 Categoria do post:Sem categoria Comentários do post:0 comentário Tradução por: San Publicado originalmente em 14 de janeiro de 2014 pelo Movimento Popular Peru – Comitê de Reorganização Entender o capitalismo burocrático é a chave para fazer a revolução democrática Para discutir o capitalismo burocrático, como marxistas-leninistas-maoístas, seguindo o pensamento de Gonzalo, partimos da principal característica econômica do imperialismo, que é a de ser um capitalismo monopolista, parasitário e decadente. Segundo Lenin (1): “a base econômica mais profunda do imperialismo é o monopólio”, que foi gerado pelo capital financeiro, “primeiro as associações monopolistas dividem o mercado interno e depois dividem o mercado mundial diretamente entre si e entre um punhado de países imperialistas”. A este respeito, os mais diversos representantes do imperialismo e seus servos revisionistas, tentando ocultar a essência econômica do desenvolvimento da economia mundial, repetem constantemente, das mais diversas maneiras, a propaganda imperialista sobre os benefícios da “globalização” e, portanto, da “liberalização dos mercados, do comércio mundial e do investimento estrangeiro” para os “países em desenvolvimento” (como chamam os países oprimidos ou do Terceiro Mundo). Eles enfatizam bastante o crescimento da participação dos “países emergentes” no comércio mundial. Esse crescimento, que começou em 2008, levou à longa recessão que assola a economia global, já durando mais de cinco anos. Ocultam quem são os verdadeiros beneficiários desse crescimento passado, qual a sua natureza e que esse crescimento no comércio dos “países emergentes” foi impulsionado pela luta entre “associações monopolistas” por mercados através da exportação de capital, utilizando diversos métodos. Esse crescimento não representou, de forma alguma, um avanço na resolução da exploração e do subdesenvolvimento sofridos pelos países do Terceiro Mundo devido à opressão do imperialismo, do semifeudalidade e do capitalismo burocrático. No Peru, os traidores da linha oportunista de direita (LOD) revisionista e capitulacionista dizem que a sociedade peruana agora é capitalista. Assim, como veremos adiante, temos um crescimento global, inclusive no comércio dos países oprimidos, impulsionado pelo crescimento das exportações do capital imperialista: pelo aumento da especulação financeira e dos empréstimos interbancários, dos fundos de investimento e do chamado investimento estrangeiro direto (IED) de grandes monopolistas. Esse crescimento também é alimentado por outras formas de penetração do capital imperialista na luta por “território econômico” (mercados), tanto nos países imperialistas (devido à lei do desenvolvimento desigual) quanto nos países oprimidos (por mercados para o capital financeiro, para a exportação de suas mercadorias, para fontes de matérias-primas e para mão de obra barata). Outras formas de investimento incluem licenças e todos os outros meios de transferência de ativos tangíveis ou intangíveis de empresas estrangeiras para empresas em países oprimidos. É assim também que estabelecem laços de subjugação e obtêm acesso ao mercado interno. A chamada “integração vertical” dos monopólios imperialistas, ou “cadeias globais de valor”, são outras formas de associação entre monopólios imperialistas e monopólios em países capitalistas burocráticos — monopólios que eles próprios criaram. Esses pagamentos aparecem nos balanços como transferências de capital para entidades estrangeiras, para transferência de tecnologia e para pagamentos de licenças e royalties. Não aparecem, portanto, como lucros de investimento direto ou reinvestimento. Tampouco devemos esquecer o investimento do capital imperialista por meio da “ajuda” (como a “ajuda ao desenvolvimento”, que o Estado alemão, por exemplo, considera oficialmente indispensável para promover suas exportações de capital e bens). Portanto, esse “crescimento” leva a um maior atraso, opressão e violência para os países oprimidos. Os dados são incontestáveis: o comércio mundial cresceu mais do que o PIB mundial entre 1990 e 2008. Por quê? Porque grande parte Esse crescimento correspondeu ao comércio de peças ou insumos para a produção final realizado dentro das chamadas empresas transnacionais ou empresas multinacionais (ETNs ou EMNs), que estendem seu alcance mundialmente ou, como dizem os acadêmicos burgueses, são “estruturadas verticalmente tinternacionalmente” no que se denomina “cadeias globais de valor” (CGVs). A própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico(OCDE) e outras organizações internacionais do imperialismo afirmam que esse crescimento foi impulsionado em nossos países pelo investimento estrangeiro direto (IED) por meio de EMNs (2). Isso reflete o desenvolvimento contínuo da acumulação de capital financeiro, a concentração e centralização de capital por grandes monopólios imperialistas, pela oligarquia financeira. Portanto, representa o desenvolvimento contínuo do “sistema participativo” (Lenin) por meio da exportação de capital na forma de investimento estrangeiro direto (IED) para a criação de subsidiárias no exterior, cujo exemplo mais típico é a “maquiladora”, ou fábrica de montagem do produto final (saída). Não podemos permitir que venham até nós com a sua história da “nova divisão internacional do trabalho”, onde todos os países já estariam integrados num único sistema de produção. Os próprios imperialistas contradizem-se, como no relatório da OCDE, da OMC (Organização Mundial do Comércio) e de outros que citámos, onde se escreve que a criação de uma única “rede global de produção” é uma “grande tarefa ainda por realizar” (3) Rejeitamos e condenamos, por ser contrária à realidade e ao marxismo, a afirmação da Linha direita de que o que está acontecendo em nossos países é “a acumulação primitiva de capital”. Como se o imperialismo que nos oprime cada vez mais e que está em pleno colapso permitisse que nossos países desenvolvessem seus próprios sistemas capitalistas independentes. A desapropriação do campesinato e de outras massas trabalhadoras de nossos países não serve à acumulação de dinheiro, meios de produção e força de trabalho nas mãos de uma nascente classe burguesa nacional, média e pequena burguesia, mas sim à maior acumulação e centralização de capital nas mãos da burguesia financeira imperialista e de um punhado de sanguessugas do capital burocrático, comprador e feudal. As vastas massas empobrecidas, despojadas de tudo, não conseguem encontrar emprego e afluem às cidades, manifestando-se no crescente e imparável aumento da criminalidade e da vadiagem nos países do Terceiro Mundo. Este é um produto dos três grandes obstáculos que oprimem o nosso povo e impedem o desenvolvimento das nossas nações. Essa suposta “acumulação primitiva” da LOD, portanto, é apenas um veneno revisionista para justificar sua capitulação ao imperialismo e à reação peruana, para abandonar a guerra popular e levar a revolução democrática até o fim. Como consequência do crescimento do comércio mundial –“cuja importância percentual no PIB mundial expandiu-se, de um índice de cerca de 16% do produto bruto mundial em 1990 (o ano em que o pico percentual atingido em 1913 foi apenas alcançado, nota nossa) para um de 27% do produto bruto mundial em 2008, o ano anterior ao impacto total da crise no comércio mundial, que ocorreu em 2009” (4)-, essas associações monopolistas, de que Lenin fala, foram na realidade os grandes vencedores, não os países oprimidos. Essas associações monopolistas imperialistas — as multinacionais ou empresas multinacionais — dividiram entre si o domínio global. Globalmente, de 1990 a 2008, elas “aumentaram suas vendas de US$ 6 trilhões para mais de US$ 31 trilhões, um aumento de mais de cinco vezes. As empresas multinacionais viram um aumento de 1100% em seu patrimônio líquido, atingindo aproximadamente US$ 72 trilhões em 2008, e empregaram quase 72 milhões de trabalhadores”, de acordo com o Relatório Mundial de Investimentos de 2010 da UNDT (5). Este relatório estima que “as 500 maiores multinacionais agora controlam aproximadamente 70% do comércio mundial”. Portanto, são os grandes monopolistas, essas corporações multinacionais (CMNs), que, por meio de seus investimentos, dividem diretamente entre si as vendas e os lucros do comércio mundial. Essas CMNs pertencem a um punhado de países imperialistas, como os Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, China, Itália, Rússia, Holanda, Suécia, Suíça e outros. São esses que se beneficiam da maior parte, como veremos ao discutirmos a base econômica da competição imperialista. Não venham com generalizações baratas sobre “países emergentes”. Esses países não existem; os países que existem se dividem em um punhado de países opressores e a vasta maioria de países oprimidos. O domínio das associações monopolistas e dos países imperialistas intensificou-se sobre os países oprimidos A luta entre monopólios e um punhado de países pela divisão territorial do mundo tornou-se cada vez mais acirrada desde a Segunda Guerra Mundial. Esses monopólios têm penetrado cada vez mais nas economias de países oprimidos ou do Terceiro Mundo. Embora a maioria dos países do Terceiro Mundo, ainda que não todos, tenha conquistado a independência do poder colonial após a Segunda Guerra Mundial, isso significou apenas que se tornaram países politicamente independentes com soberania formal. Em suma, as economias desses países permaneceram inseridas na estrutura global como economias coloniais, sujeitas ao mercado mundial sobre o qual os países imperialistas exercem controle monopolista; ou seja, sujeitas aos seus interesses e necessidades Economicamente, a estrutura socioeconômica da era colonial persistiu. A revolução democrática não se concretizou plenamente porque, na maioria dos casos, não foi liderada pelo Partido Comunista. Isso ocorre porque a burguesia historicamente se mostrou incapaz de realizá-la e também porque em nossos países não existe (e não poderia ser formada) uma burguesia nacional forte que seja “patrona da vida econômica do país” (Mariátegui) Portanto, tanto a questão nacional quanto o problema democrático ainda aguardam solução. É por isso que foi a grande burguesia intermediária, subserviente aos interesses dos latifundiários e do imperialismo, que assumiu o poder nesses países. Assim, os países oprimidos passaram de um regime colonial para um regime semicolonial, onde um capitalismo burocrático se desenvolveu sobre uma base semifeudal. Posteriormente, os países oprimidos passaram de coloniais a semicoloniais, onde o capitalismo burocrático se desenvolve sobre a base semifeudal, como veremos ao tratar dos países do Sudeste Asiático. Em muitos casos, os países passam do controle da potência colonial para serem dominados principalmente por outro país imperialista; em muitos outros, a antiga potência colonial torna-se a potência imperialista dominante no país recém-independente. Isso não é, como alguns afirmam, uma questão de “novas formas de colonialismo” ou “neocolonialismo”. A luta imperialista se manifestou por meio de empréstimos, ajuda, transferência de tecnologia, assistência internacional ao desenvolvimento, etc., bem como por meio de organizações internacionais a serviço do imperialismo, como o FMI, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a USAID, a Cáritas, ONGs, a OCDE, a UNCTAD, a OMC, etc., ou por meio de guerras travadas por procuração. A expansão das associações monopolistas no Terceiro Mundo ilustra o desenvolvimento da penetração do capital imperialista. Globalmente, o crescimento das subsidiárias dos monopólios matrizes tem sido muito rápido; entre 1946 e 1961, foram fundadas 3.550 novas subsidiárias (empresas-filhas) e, desse ano até 1996, segundo dados da ONU, foram criadas 260.000, conforme documentado na pesquisa de Kurt Hübner (6). Essa pesquisa leva à seguinte conclusão: “Enquanto as economias capitalistas desenvolvidas servem como sedes para centros corporativos, as economias do Terceiro Mundo, assim como as da Europa do Oriente Médio, servem como sedes para subsidiárias” Portanto, o capitalismo que o imperialismo gera em nossos países é um capitalismo sujeito aos seus interesses e, assim, impede o verdadeiro desenvolvimento nacional; em outras palavras, é um capitalismo burocrático. Em relação à dominação exercida pelos países imperialistas sobre os países oprimidos (coloniais e semicoloniais), Lenin disse: “O imperialismo do início do século XX completou a divisão do mundo entre um punhado de estados, cada um dos quais explora atualmente (no sentido de obter superlucros) uma parte do “mundo inteiro” que é apenas ligeiramente menor do que a parte que a Inglaterra explorava em 1858; cada um deles ocupa uma posição de monopólio no mercado mundial, graças a trusts, cartéis, capital financeiro e relações credor-devedor; cada um deles tem, em certa medida, um monopólio colonial” (7). Essa é a essência econômica da questão: os países imperialistas obtêm superlucros dos países oprimidos sobre os quais cada um deles exerce ou “dispõe” até certo ponto, um monopólio colonial”, apesar da independência política ou soberania formal da maioria desses países. Essa é a semelhança que Lenin estabelece entre o colonialismo na fase de livre mercado do capitalismo e o colonialismo na fase imperialista. O maoísmo não fala em “neocolonialismo”, como alguns afirmam, argumentando que o PCC o estabeleceu em uma das cartas da “Grande Polêmica”, em “Contra os Apologistas do Neocolonialismo”. Sim, mas não foi o Presidente Mao quem usou esse termo. Além disso, essa carta denuncia o revisionismo kruschevista, que buscava negar o problema colonial e a opressão imperialista da maioria dos países do mundo e, portanto, a necessidade de os comunistas liderarem o movimento de libertação nacional. Aqueles que alegam usar esse termo como legitimamente maoísta o fazem para se opor à essência econômica da questão e negar a necessidade de uma revolução democrática por meio da guerra popular. Retornaremos a esse ponto mais tarde Portanto, vamos examinar brevemente como os imperialistas implementam seus planos para manter a opressão dos países do Terceiro Mundo e lutar pela hegemonia entre eles. Vamos dar uma breve olhada na história do desenvolvimento econômico nesses países oprimidos. Especialmente naquela parte do mundo, a Ásia. Porque quando as condições são favoráveis, como no golpe revisionista de Deng Xiaoping na China, o que o imperialismo estadunidense faz é estender a aplicação do plano econômico hegemônico que vinha implementando para servir ainda mais à restauração na China. O plano global hegemônico e contrarrevolucionário do imperialismo ianque O imperialismo ianque, que emergiu da Segunda Guerra Mundial como uma potência imperialista hegemônica, promoverá o caminho da apropriação de terras na agricultura em países atrasados para uma maior penetração de seu capital no campo, através das condições específicas de cada país. Essa trajetória evolutiva implica novas formas de concentração das antigas propriedades latifúndios e, portanto, a subsistência, em novas formas, da servidão. Para alcançar esse objetivo, primeiro, na década de 1950, o imperialismo estadunidense lançou a chamada “Revolução Verde”, enviando seus “técnicos” a diversos países para promover os supostos benefícios de seu plano e incentivando a criação de escritórios agrícolas e “clubes de agricultores” para jovens camponeses. Em seguida, por meio de sucessivos governos, promoveu leis agrárias, pomposamente denominadas “reforma agrária”, que eram meramente medidas destinadas a beneficiar a classe latifundiária no campo. Consequentemente, o problema da terra, manifestado em grandes propriedades e servidão em novas formas, persiste, e a exploração e a miséria da vasta população camponesa em todo o mundo se intensificaram. 1. As três linhas de desenvolvimento do capitalismo burocrático na América Latina e as três necessidades e três tarefas reacionários Em 1972, a Fração Vermelha do PCP, liderada pelo Presidente Gonzalo, através do Centro de Informação Popular, editor do jornalVoz do Povo , divulgou a “Análise do Plano Nacional de Desenvolvimento 1971-75” do então governo militar fascista. Essa análise estabelecia uma clara posição contrária ao plano imperialista conhecido como “Programa da Aliança para o Progresso ” (formulado pela “ Carta de Punta del Este ”, nota nossa). A análise afirma: A “Carta de Punta del Este” representou uma importante virada nesse processo para o Peru e para a América Latina, que, em vista das repercussões da Revolução Cubana, propôs a reestruturação da sociedade latino-americana como medida preventiva contra os esperados surtos revolucionários. É importante relembrar as propostas dessa Aliança para compreender o processo pelo qual o país está passando. A “Carta de Punta del Este” propôs, em seu preâmbulo, a associação das repúblicas americanas para “um progresso econômico mais acelerado e uma justiça social mais ampla para seus povos, respeitando a dignidade humana e a liberdade política”; e, em seus objetivos de desenvolvimento, estipulou que “os recursos destinados ao investimento devem representar uma parcela maior do produto nacional”. Propôs também: “acelerar o processo de industrialização racional para aumentar a produtividade geral da economia, utilizando plenamente a capacidade e os serviços dos setores público e privado… Dentro desse processo de industrialização, atenção especial deve ser dada ao estabelecimento e desenvolvimento de indústrias produtoras de bens de capital”. Relacionado a essa questão, recomendou-se: “garantir remuneração justa e condições de trabalho adequadas para os trabalhadores; estabelecer sistemas eficientes de relações trabalhistas e procedimentos de consulta e colaboração entre as autoridades, associações patronais e organizações de trabalhadores, para o desenvolvimento econômico e social”. Em relação à questão agrária, foi declarado: “Promover, dentro das particularidades de cada país, programas abrangentes de reforma agrária visando à transformação efetiva das estruturas e sistemas injustos de posse e exploração da terra, quando necessário, com vistas a substituir o sistema de latifúndio e minifúndio por um sistema justo de propriedade…” e estabelecer “cooperativas e associações camponesas, e programas de desenvolvimento comunitário”. E em relação à educação: “Eliminar o analfabetismo…; modernizar e ampliar os meios de ensino secundário, técnico e superior; aumentar a capacidade de pesquisa pura e aplicada; e promover o pessoal qualificado necessário às sociedades em rápido desenvolvimento”.Por fim, sobre integração econômica, propôs “expandir os atuais mercados nacionais latino-americanos, como condição indispensável para acelerar o processo de desenvolvimento econômico no continente e como forma adequada de obter maior produtividade por meio da especialização e complementação industrial, […] Essa expansão dos mercados permitirá um melhor aproveitamento dos recursos propostos na Aliança para o Progresso”. Como fica claro nas citações acima da Voz do Povo sobre a “Carta de Punta del Este”, esse plano contrarrevolucionário e hegemônico tentou impedir a revolução, buscando eliminar sua base camponesa por meio dos chamados “programas de reforma agrária”, mais precisamente denominados “leis de reforma agrária”. Seus objetivos econômicos eram impulsionar ainda mais a penetração do capital no campo latino-americano. Isso exigia “[acelerar] o processo de uma industrialização racional […] especialmente no que diz respeito ao estabelecimento e desenvolvimento de indústrias produtoras de bens de capital”, a fim de fomentar uma industrialização dependente nos países oprimidos, como os da América Latina, que, consequentemente, estariam sujeitos aos interesses imperiais (capitalismo burocrático). A seção referente à integração econômica estabelece claramente a necessidade de o imperialismo desenvolver “complementaridade e especialização industrial” e economias de escala para a maior exportação de capital e mercadorias, por meio do estabelecimento de suas subsidiárias ou empresas “relacionadas” (empresas matrizes, multinacionais ou transnacionais nos países imperialistas e empresas subsidiárias: filiais, netas, etc., nos países oprimidos). Tudo isso viria a ser conhecido posteriormente como “cadeias globais de valor”, “redes globais de produção” ou “fragmentação internacional da produção”. Esta é a maior forma de domínio dos monopólios imperialistas sobre os países oprimidos, facilitada pelos acordos de livre comércio e mercados comuns, e que se expressa no aumento do comércio intrarregional, como entre os países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Portanto, não se trata de uma expressão do desenvolvimento econômico desses países, mas sim de uma expressão do capitalismo sujeito ao imperialismo, que corresponde à necessidade do capital imperial de lutar por mercados externos. Essa necessidade é impulsionada pela crise do próprio sistema imperialista e, em particular, do imperialismo ianque — uma crise que se aprofunda desde o final da década de 1960, cujas contradições se acentuam cada vez mais. Portanto, os dividendos que o capital financeiro colhe de suas empresas em suas colônias, semicolônias e países ultramarinos estão se tornando cada vez maiores — como Lenin já havia observado no início do século passado em relação ao Japão. Como consequência do acirramento das contradições do imperialismo, “no final da década de 1960 e nos anos seguintes, o imperialismo ianque começou a enfrentar problemas e, por outro lado, nos países latino-americanos o plano industrial e financeiro fracassou e, posteriormente, entrou em reavaliação” (Voz do Povo , no artigo citado anteriormente). As citações da “Carta de Punta del Este” estipulam as três linhas de desenvolvimento do capitalismo burocrático na agricultura, na indústria, no comércio e nas finanças, e na educação. Em seguida, no final da década de 1960 e início da década de 1970, o imperialismo ianque especificou as três tarefas reacionárias para os governos reacionários do continente (que correspondiam às três necessidades do imperialismo): aprofundar o desenvolvimento do capitalismo burocrático; reestruturar o Estado burocrático-latifundiário; e prevenir a revolução. Mais tarde, na década de 1980, o capitalismo burocrático no Peru entrou em crise geral, começando a ser varrido pela Guerra Popular, e o imperialismo ianque especificou que eles deveriam: revigorar o capitalismo burocrático; reestruturar o Estado burocrático-latifundiário; e aniquilar a Guerra Popular. Como o Partido estabeleceu, a conclusão dessas tarefas é uma impossibilidade política e histórica. Para termos uma visão histórica do que está acontecendo e entendermos o que se passa no mundo, especialmente nos países oprimidos, precisamos compreender as relações econômicas na época do imperialismo, com base na divisão do mundo entre países imperialistas e oprimidos (economia política) e nas medidas econômicas (política econômica). Observe como, diante da maior crise do imperialismo — a partir do início da década de 1970 — os imperialistas começaram a trocar sua política econômica predominantemente keynesiana por um “monetarismo” e “neoliberalismo” obsoletos, e iniciaram uma privatização agressiva. Como nos ensina o Presidente Gonzalo, é necessário levar em conta os reajustes e as reconsiderações dos planos do imperialismo, que surgem nas novas condições internacionais, e, sobretudo, estar em consonância com as condições concretas do processo econômico do capitalismo burocrático em cada país e com suas experiências em luta de classes e perspectivas políticas. Ele também nos diz que devemos sempre observar a quem se beneficia de determinada proposta, plano ou medida. No caso da “Aliança para o Progresso”, o plano servia primordialmente aos planos de dominação mundial do imperialismo ianque e, secundariamente, às classes exploradoras nativas. 2. Na Ásia, o plano do imperialismo ianque e a luta pelos países oprimidos e a promoção da restauração na China Seguindo seu plano global, na Ásia, o imperialismo estadunidense avançará com sua agenda hegemônica e contrarrevolucionária, aumentando ainda mais a exportação de seu capital a partir de meados da década de 1960. Outras potências imperialistas, como o Japão, tentarão fazer o mesmo. Isso reflete a luta interimperialista pelos países semicoloniais da Ásia e o posicionamento de forças, mesmo naqueles anos, enquanto buscavam exercer influência por meio do revisionismo e aguardavam ativamente os desdobramentos na China, onde a Grande Revolução Cultural Proletária se desenrolava com força. Em outras palavras, a luta para seguir o caminho socialista contra o caminho burguês da restauração. Imperialismo, reação e revisionismo, conspirando durante esses anos, buscam eliminar a revolução socialista e a ditadura do proletariado na China, uma importante base de apoio para a revolução mundial. Com o golpe anticomunista revisionista de Deng Xiaoping em 1976, a China se torna um vasto mercado potencial para as empresas estrangeiras do capital financeiro, que ali se estabeleceram estrategicamente buscando superlucros por meio da exportação de capital. A exportação de capital financeiro imperialista sob a forma de investimento direto estrangeiro (IDE) ganha importância. Como afirmou Lenin, a produção de mercadorias na era do imperialismo continua sendo o fundamento da economia, mas já está rompida, pois o capital financeiro busca se realizar onde possa obter as maiores margens de lucro, ou seja, por meio de investimentos no exterior . À medida que a crise do imperialismo avança, a luta por território econômico, por mercados e fontes de matérias-primas torna-se mais acirrada, principalmente nos países semicoloniais. Consequentemente, a exportação de capital aumenta e o IDE ganha mais importância a partir de meados da década de 1960. Isso intensifica a terceira contradição (interimperialista) e, sobretudo, a principal: a contradição entre os países oprimidos, por um lado, e os países imperialistas (potências e superpotências), por outro. O Financiamento Internacional para o Desenvolvimento (FID) está estruturado como um “pacote completo”, como veremos, a título de exemplo, ao examinarmos o caso de Taiwan. Ou seja, é a principal forma que a importação de “capital produtivo” assume em países oprimidos (se vista da perspectiva desses países), o que gera uma distorção ainda maior de sua estrutura produtiva, já que quase a única coisa que cresce está relacionada às necessidades do mercado global. Quando essas necessidades mudam — devido a fatores econômicos e não econômicos — o que resta são milhares de desempregados, cidades fantasmas, minas abandonadas e resíduos de todos os tipos; em outras palavras, consequências com altos custos sociais, econômicos e de recursos para o país. E “mais necessidade” para o capital imperialista recomeçar e acabar na mesma situação. Este é o ciclo vicioso da dominação imperialista: a manutenção dos países do Terceiro Mundo como estados coloniais, semicoloniais ou semifeudais, onde se desenvolve o capitalismo burocrático. Por meio desse pacote de financiamento internacional para o desenvolvimento (FID), os monopólios imperialistas aumentam a exportação de seus produtos como “insumos para a produção” do “produto final”. Na maioria dos casos, esses “insumos” representam todas as peças necessárias para realizar, no país beneficiário do FID, apenas a montagem ou, pior ainda, em muitos casos, apenas a embalagem. Essa é a situação geral; economistas burgueses chamam isso de “fragmentação internacional da produção”, “nova divisão internacional do trabalho”, etc. Por meio desse pacote de IED (Investimento Estrangeiro Direto), os monopólios imperialistas aumentam a importação e a exportação de mercadorias do capital imperialista como insumos para a produção de um produto final. Esses “insumos” representam o conjunto de peças necessárias para que a produção do “produto final” ocorra no país receptor do IED — “produção” que, na maioria dos casos, consiste apenas em montagem ou, frequentemente, apenas em embalagem. É a isso que os economistas burgueses chamam de “fragmentação internacional da produção”, “nova divisão internacional do trabalho”, etc. Vamos examinar algumas informações muito importantes sobre o desenvolvimento econômico do Sudeste Asiático e como o investimento imperialista se desenvolveu nessa parte do mundo, por meio de um estudo publicado pela Universidade Nacional da Austrália em novembro de 2009 (e posteriormente no livro ” The Rise of Asia, Trade and Investment in Global Perspective” , editado por Premachandra Athukorala, Editorial Selection 2010, pág. 31 em diante): A fragmentação da produção internacional tornou-se uma das características definidoras do comércio mundial nas últimas décadas. As multinacionais de eletrônicos sediadas nos EUA iniciaram esse processo no final da década de 1960, em resposta às crescentes pressões do aumento dos salários reais no país e à crescente concorrência das importações de fontes de baixo custo. O governo americano facilitou o processo ao introduzir uma tarifa de processamento externo (“Tarifa de Processamento Externo” (OPT)), por meio da qual as empresas eram autorizadas a exportar matéria-prima para ser processada no exterior e, em seguida, reimportar o produto final, pagando taxas apenas sobre o valor agregado no exterior (e não sobre os bens intermediários exportados). Geografia, custos e história se combinaram para persuadir as multinacionais americanas a explorar oportunidades de produção no exterior nos países vizinhos da América Latina. No entanto, o clima de investimento desfavorável nesses países – instabilidade macroeconômica, tensões políticas, convulsões sindicais e incerteza – levou os produtores americanos a recorrer a subfornecedores localizados no Leste Asiático.” (Helleiner 1973, Grunwald e Flamm 1985, Feenstra 1998, Brown e Linden 2005) Isto está ligado ao que foi visto anteriormente sobre a “Carta de Punta del Este” e, como tal, também à rivalidade entre monopólios e entre países imperialistas pela dominância de territórios econômicos ultramarinos para obter superlucros imperialistas, como se pode ver na seguinte citação: “A preferência das redes globais de produção eletrônica pelo Sudeste Asiático começou em 1968 com a chegada de duas empresas americanas, a National Semiconductors e a Texas Instruments, para instalar fábricas em Singapura com o objetivo de montar dispositivos semicondutores. No início da década de 1970, Singapura detinha a maior parte das atividades de montagem offshore das indústrias de semicondutores dos EUA e da Europa. Praticamente todos os produtores internacionais de eletrônicos estavam presentes em Singapura em meados da década de 1980, quando as montadoras de discos rígidos (HDDs) entraram no país, impulsionando ainda mais seu papel como centro global de montagem (ver Capítulo 4 deste volume). Durante os cinco anos seguintes, a produção de semicondutores perdeu importância relativa, e os periféricos de computador, especialmente discos rígidos e computadores, tornaram-se a parte mais importante da indústria eletrônica da ilha. Na década de 1980, Singapura era o maior exportador mundial de discos rígidos, representando quase metade de toda a produção global.” (McKendrick et al, 2000) Os monopólios eletrônicos americanos foram os primeiros a terceirizar essa montagem para Singapura, mas, eventualmente, todos os monopólios internacionais desse setor estavam presentes lá, competindo por sua fatia do mercado. Posteriormente, esses monopólios se expandiram para outros países, como pode ser lido abaixo: “A partir de 1972, as empresas multinacionais com instalações de produção em Singapura começaram a realocar algumas atividades de montagem de baixo custo para países vizinhos (particularmente Malásia, Tailândia e Filipinas) em resposta ao rápido crescimento dos salários e dos preços dos terrenos. Muitas empresas multinacionais recém-chegadas à região também estabeleceram bases de produção nesses países, ignorando Singapura. No final da década de 1980, esse processo criou uma nova divisão regional do trabalho, baseada nas diferenças de habilidades envolvidas em diferentes etapas do processo de produção e nos salários relativos, além de uma infraestrutura de comunicação e transporte aprimorada. Na época, havia grande preocupação nos círculos políticos de Singapura. No entanto a indústria eletrônica precisa de um grande número de componentes heterogêneos em sua fabricação no Sudeste Asiático, além de maiores economias de escala e mais possibilidades de especialização para todos os países participantes. Mais recentemente, as redes regionais de produção começaram a se expandir para o Vietnã […]. Apesar das vantagens óbvias em termos de localização e salários relativos, a Indonésia até agora não conseguiu se beneficiar dessa nova forma de especialização internacional devido ao seu clima de investimento interno desfavorável .” Como se pode ver, o capital imperialista dirige-se aos países oprimidos para conquistar mercados para os seus investimentos e mercadorias, para dominar as fontes de matérias-primas e para explorar a mão de obra barata — ou seja, para se manter à frente dos concorrentes na luta pela dominação mundial. Nesta região do mundo, afirma o estudo: “Diversos fatores sustentam a contínua atratividade da região como local para atividades de montagem. Em primeiro lugar, apesar do rápido crescimento, os salários na indústria manufatureira em todos os países da ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático], com exceção de Singapura, permanecem inferiores ou comparáveis ​​aos dos países da periferia europeia e do México […] Em segundo lugar, a vantagem relativa de custos foi complementada por um comércio relativamente mais favorável, políticas de investimento e melhores portos e sistemas de comunicação para facilitar o comércio, reduzindo os custos de manutenção das “ligações de serviço” (o que significa que tudo está sujeito ao IDE, nota nossa) […] As decisões de seleção de localização das empresas multinacionais que operam em atividades de montagem são fortemente influenciadas pela presença de outros atores-chave no mercado em um determinado país ou em países vizinhos. No contexto de um longo período de operação bem-sucedida na região, muitas das empresas multinacionais (particularmente as sediadas nos Estados Unidos) aprimoraram significativamente as atividades técnicas de suas redes de produção regionais na ASEAN e atribuíram responsabilidades de produção global a subsidiárias localizadas em Singapura e, mais recentemente, àquelas encontradas na Malásia e na Tailândia) (Borrus et al., 2000; McKendrick et al., 2000) De modo geral, a experiência da região da ASEAN parece corroborar a visão de que as subsidiárias de empresas multinacionais tendem a se integrar cada vez mais aos países anfitriões; quanto mais tempo as empresas permanecem presentes, mais favorável se torna o clima de investimento global do país anfitrião (Rangan e Lawrence, 1999; Athukorala e Yamashita, 2006). Ao longo dos anos, o papel de Singapura nas redes regionais de produção tem se transformado gradualmente — da montagem de componentes de baixa complexidade e testes para a fabricação e o projeto de componentes e fornecimento, à atuação como sede de serviços de unidades de produção localizadas em países vizinhos. O atrativo de Singapura como centro regional para redes de produção transfronteiriças tem se aprimorado continuamente devido à ênfase das políticas governamentais no desenvolvimento de infraestrutura, na expansão da base de capital humano, na manutenção de relações trabalhistas muito favoráveis ​​à produção internacional e na gestão macroeconômica (McKendrick et al., 2000; Brown e Linden, 2005). A citação acima expressa que o Estado está a serviço do imperialismo e deve prover tudo ao capital financeiro imperialista. Demonstra o caráter semicolonial de cada um desses países: o Estado deve prover toda a infraestrutura para o investimento estrangeiro, para a grande burguesia nativa e para os latifundiários; o Estado deve prover saúde, educação, serviços sociais, etc., tudo para garantir que a força de trabalho seja reproduzida ao menor custo possível, juntamente com segurança contratual e todos os outros tipos de segurança; o governo deve garantir baixos salários, longas jornadas e más condições de trabalho, zelando para aumentar as reservas internacionais do país a fim de garantir o investimento e o retorno do lucro do capital estrangeiro, etc. Tudo isso se relaciona à “liberalização” da produção, do comércio, das finanças e da força de trabalho. Esse processo não significa que ocorra uma redução no tamanho do Estado; muito pelo contrário, significa que a soberania estatal é ampliada para alguns (os países imperialistas) e reduzida para outros (os países do Terceiro Mundo). Dando continuidade, o estudo afirma: “Os dados […] ajudam a compreender a crescente importância do comércio de peças e componentes para o comércio mundial de máquinas e equipamentos de transporte, bem como o papel central desempenhado pelos países do Sudeste Asiático nesse comércio. O comércio mundial de peças e componentes aumentou de cerca de 20,9% do total das exportações manufaturadas em 1992/93 para 24,2% em 2004/05 (o comércio de peças e componentes representou quase um terço do aumento total das exportações manufaturadas mundiais entre esses dois anos). No desenvolvimento do Leste Asiático, todos os países incluídos na tabela registraram aumentos em suas participações no mercado mundial, com os seis países do Sudeste Asiático crescendo mais rapidamente do que a média regional. No Leste Asiático, os países da ASEAN, particularmente Malásia, Tailândia, Filipinas e Singapura, destacam-se pela sua alta dependência do dinamismo das exportações e da fragmentação de produtos. Em 2004/05, o comércio de componentes representou 58,4% do total das exportações dos países do Sudeste Asiático, um aumento em relação aos 46,7% em 1992/93.” Em conclusão, com base em uma economia semicolonial e semifeudal nesses países do Sudeste Asiático, o desenvolvimento do capitalismo burocrático foi fomentado pela necessidade do imperialismo de exportar mercadorias e capital, bem como por sua necessidade de mão de obra barata e matérias-primas. Os países do sudeste asiático vieram de coloniais em semicoloniais: Revolução Incompleta É importante ter em mente que, por meio da expansão colonial dos países europeus, as economias do Sudeste Asiático, “a partir de meados do século XIX”, se envolveram na “expansão do sistema capitalista mundial”, como afirma um relatório de Hans Dieter Eve (que escolhemos para comparação por oferecer uma perspectiva diferente) (8). Em outras palavras, tornaram-se países coloniais e iniciaram seu lento processo de evolução rumo ao capitalismo (semifeudalismo). O mesmo relatório afirma: “Em 1920, as exportações e importações contribuíram com mais de 50% do produto colonial bruto das Índias Orientais Holandesas, e um valor semelhante pode ser citado para o Estado da Malásia (…) A transição da produção de subsistência para a produção orientada para o mercado, a expansão do crédito agrícola e o crescimento do comércio internacional caracterizam o Sudeste Asiático a partir de meados do século XIX (Evers 1978). A questão é para onde vão os benefícios do aumento da produtividade e da melhoria da renda proveniente da exploração. Uma grande parte é obviamente transferida para a metrópole colonial e contribui para a industrialização do Ocidente; parte do lucro é canalizada de volta para o Sudeste Asiático na forma de investimento estrangeiro; mas outra parte é apropriada por grupos estratégicos locais (a burguesia nativa emergente, nota nossa), que cresce e busca uma fatia maior desse excedente de produção (9).” Citamos este “documento de trabalho” porque, em forma resumida, apesar das limitações de classe de académicos como este, mostra que com o estabelecimento da economia colonial “surgem novos grupos baseados nas novas fontes de rendimento” (10), “que procurarão estabelecer uma superestrutura (…) mais adequada aos seus interesses”, que ele chama “grupos estratégicos”, que para nós nada mais são do que as fações da grande burguesia nativa em formação na sociedade colonial. Após a Segunda Guerra Mundial, com a independência conquistada, a sociedade colonial e semifeudal transformou-se em uma sociedade semicolonial e semifeudal, onde se desenvolveu o capitalismo burocrático, que o autor do artigo denomina desenvolvimento do “capitalismo colonial” no Sudeste Asiático Assim diz: “Mas a reestruturação das economias do Sudeste Asiático, a mudança da agricultura de subsistência para a produção orientada para a exportação e a posição dominante alcançada pelos investidores estrangeiros, sem mencionar a intervenção militar europeia, japonesa e americana, mudaram a vida no Sudeste Asiático nas aldeias mais remotas, embora os aspetos pré-coloniais da estrutura cultural e social sejam mantidos” (11). Importante! Porque, apesar das suas limitações de classe, demonstra um fato objetivo: o imperialismo evoluirá para o feudalismo e, com base nisso, desenvolverá um capitalismo atrelado aos seus interesses (capitalismo burocrático). Quando esses países conquistam sua independência política formal, permanecem economicamente atrelados à economia imperialista e inseridos na estrutura da economia mundial — como Mariátegui estabeleceu para o caso peruano, uma economia colonial. É por essa razão que se tornam países semicoloniais. Não existe nesses países uma burguesia nacional ou média suficientemente forte ou robusta para assumir o papel de “chefe da economia nacional” (Mariátegui). Consequentemente, aqueles que detêm o poder econômico e político nesses países recém-independentes são a grande burguesia e os latifundiários a serviço do imperialismo. Por essa razão, são países que possuem independência política ou soberania formal. Na era do imperialismo e da revolução proletária, a antiga revolução burguesa não é mais possível. Portanto, o caminho prussiano não pode mais levar ao desenvolvimento do capitalismo, como outrora levou na Alemanha. Enquanto o proletariado e seu Partido, com a guerra popular baseada na sólida aliança com o campesinato, não completarem a revolução democrática de um novo tipo, nossos países manterão seu caráter indefinidamente e o imperialismo possuirá, em certa medida, um monopólio colonial dentro deles.Tomemos o caso da Indonésia, cuja “revolução” burguesa foi meramente uma facção da grande burguesia a ultrapassar outra. O documento afirma: “O golpe de 1965, e consequentemente o massacre em todo o país, levou ao estabelecimento de um regime militar e ao ressurgimento de interesses económicos estrangeiros […] Em 1975, as receitas do governo indonésio provinham de uma típica produção colonial de matérias-primas. Os impostos de importação e exportação, incluindo as receitas petrolíferas, constituíam 76,7% do orçamento nacional, enquanto os impostos sobre o rendimento das empresas e das pessoas singulares representavam apenas 3% do orçamento.” (12) Qual é a essência econômica da questão? Portanto, a essência econômica da questão não reside no fato de que “o imperialismo aplica novas formas de dominação” porque perdeu suas colônias e agora se configura como um “neocolonialismo” ianque, etc., mas sim que a base econômica anterior à independência formal desses países permaneceu praticamente inalterada. O ato político e militar da independência os transformou em países semicoloniais, que permanecem semifeudais. Consequentemente, o capitalismo que se desenvolve nesses países é um capitalismo burocrático, a serviço do imperialismo, que detém, “em certa medida, um monopólio colonial”. Essa base econômica corresponde a uma política econômica específica (em suas formas antigas ou novas) que o imperialismo implementa por meio dos governos desses países, onde representantes das duas facções se alternam no poder para manter, aprofundar e expandir sua dominação. Não é o contrário. Aqueles que falam do caráter neocolonial de nossos países estão essencialmente sugerindo que uma simples mudança de governo poderia alterar a situação: reformismo e oportunismo. Esse conceito oportunista de “neocolonialismo” está relacionado à tese oportunista de Kausky. O imperialismo é descrito como “a política preferida do capital financeiro”, o que significa que não deriva da essência econômica do imperialismo, que é o capitalismo monopolista, parasitário e decadente. Daí sua natureza reacionária e violenta na economia — isto é, imperialista — e, portanto, reacionária e violenta na política — isto é, também imperialista na política. O conceito de “neocolônia” não deriva da essência econômica da dominação imperialista de nossos países, que pode ser colonial ou semicolonial; em vez disso, refere-se a “formas de dominação aplicadas pelo imperialismo” — isto é, como política imperialista, no máximo como política econômica. Em outras palavras, uma simples mudança de governo poderia resolver o problema “nacional” Os casos paradigmáticos da Coreia do Sul e de Taiwan Neste trabalho, estudamos o papel do imperialismo japonês no Sudeste Asiático por meio do investimento direto estrangeiro japonês na Coreia do Sul e em Taiwan. Desenvolvimento do capitalismo burocrático na Coreia do Sul e o papel do imperialismo A Coreia foi colônia japonesa de 1910 até 1945 (ou seja, até a derrota do Japão) e, em 1952, após a derrota do imperialismo ianque na península coreana, o país foi dividido em Coreia do Norte e Coreia do Sul. A normalização completa das relações entre a Coreia do Sul e o Japão ocorreu em 1965. Para definir o papel do Japão na Coreia do Sul, citamos o seguinte trecho de um acadêmico alemão: “Por um lado, o Japão, juntamente com os EUA, é o parceiro comercial mais importante da Coreia do Sul. Desde a normalização das relações bilaterais, há 30 anos, a maior parte do investimento estrangeiro provém do Japão, que transferiu mais tecnologia sob a forma de licenças e bens de capital. Por outro lado, a ajuda japonesa ao desenvolvimento desempenhou um papel significativo na implementação dos planos de desenvolvimento económico da Coreia do Sul em geral e, em particular, na construção de setores industriais centrais, como a indústria siderúrgica. Os empresários japoneses desempenharam, assim, um papel importante no processo de desenvolvimento coreano ao longo das últimas três décadas. A Coreia do Sul foi (juntamente com Taiwan) fornecedora de setores industriais cuja produção no Japão se devia principalmente aos custos, mas também, em parte, ao facto de já não ser rentável devido às crescentes exigências ambientais ou como consequência do processo de reestruturação […] Para compreender o papel do Japão na economia sul-coreana, é preciso visitar fábricas coreanas e identificar a origem das máquinas utilizadas na produção, bem como dos componentes e matérias-primas que são incorporados aos produtos coreanos. Somente após essa análise é que se torna clara a importância central do Japão para a sustentação da economia coreana. Uma das principais causas do papel específico do Japão na economia sul-coreana reside no rápido desenvolvimento industrial da Coreia do Sul, baseado em uma estrutura industrial de pura montagem, antes mesmo do desenvolvimento de um país industrializado com um conjunto diversificado de pequenas e médias empresas fornecedoras. As fragilidades das pequenas e médias empresas (PMEs) na Coreia do Sul explicam, em grande parte, a elevada dependência do país em relação à tecnologia importada, observada nas indústrias mais importantes da atual fase de industrialização, como a eletrônica e a automobilística.’’(13) A questão das PMEs é, como se costuma dizer, o fardo mental dos acadêmicos alemães, como demonstra Patrick Köllner, que as dissociam do sistema monopolista na Alemanha, partindo do princípio de que todas estão sob a dependência dos bancos alemães, organizados segundo o “sistema de participação” (Lenin), que se estende aos bancos provinciais ou caixas econômicas (Sparkassen), descentralizando a atividade bancária em prol de uma maior e mais ampla centralização do poder dos grandes bancos alemães. Por outro lado, no que diz respeito ao desenvolvimento de técnicas de produção, as PMEs, enquanto fornecedoras de grandes indústrias, operam segundo as normas e patentes das grandes empresas que as contratam para produzir peças. De acordo com a queixa de um empresário alemão do setor de autopeças, elas chegam mesmo a ter de informar essas empresas sobre a sua margem de lucro. Isto acontece na Alemanha, como acontece em qualquer outro país imperialista ou em qualquer país oprimido onde se desenvolve o capitalismo burocrático — isto é, o capitalismo sujeito ao imperialismo — e onde predominam os monopólios gerados pelo capital financeiro. Desenvolvimento baseado em grandes empresas monopolistas e intervenção estatal Quanto ao estudo citado, ele se refere a todo o processo de 30 anos de desenvolvimento do capitalismo burocrático na Coreia do Sul, baseado em grandes empresas e intervenção estatal, com predominância da facção burocrática na economia e na política daquele país, e se concentra principalmente no período de 1987 a 1993, quando a chamada “liberalização” da economia foi promovida com a facção compradora na vanguarda. Antes desse período, como sabemos, historicamente, o investimento estrangeiro de longo prazo na Coreia baseava-se principalmente em empréstimos, ajuda e “transferência de tecnologia”, e não em IDE (Investimento Estrangeiro Direto). De 1995 a 2005, o fluxo médio de IDE para a Coreia variou de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões; em 2006 e 2007, manteve-se em US$ 5 bilhões; em 2008, atingiu US$ 8,4 bilhões; e em 2010, totalizou US$ 6,9 bilhões, elevando o total para 2011 para um valor estimado entre US$ 100 bilhões e US$ 130 bilhões. Quase US$ 43 bilhões desse montante correspondem a investimentos do imperialismo estadunidense. Quase US$ 24 bilhões foram destinados ao imperialismo japonês, seguidos de perto pelos imperialistas holandeses, com aproximadamente US$ 21 bilhões, e depois pelos imperialistas alemães e franceses. Cabe ressaltar que parte do investimento imperialista na Coreia do Sul foi canalizada por meio de subsidiárias de monopólios imperialistas na Malásia, Singapura e Hong Kong. Mas isso não é tudo; as relações de dominação dos países imperialistas, principalmente o imperialismo ianque, sobre a Coreia do Sul também ocorrem por meio do sistema financeiro imposto pelo FMI, que, por exemplo, após a crise asiática, aumentou as reservas para garantir não apenas a dívida pública, mas também a dívida privada, principalmente aquela que os bancos imperialistas contraem com os bancos comerciais coreanos. A Coreia do Sul, em meados das décadas de 1970 e 1980, foi palco de importantes lutas operárias por melhores salários, jornadas de trabalho e condições de trabalho. Essas lutas foram caracterizadas pela grande militância da classe trabalhadora, que resultou na conquista de direitos e aumentos salariais. Isso, em certa medida, levou à realocação de parte da indústria de montagem, a partir de meados da década de 1990, para países com salários mais baixos e piores condições e jornadas de trabalho, como os países do Sudeste Asiático e a China. Durante esses anos, o imperialismo japonês também realizou uma “reestruturação industrial” na metrópole, aumentando o investimento em capital fixo e, principalmente, reduzindo salários, aumentando a jornada de trabalho e piorando as condições de trabalho da classe operária. Isso foi acompanhado pela exploração de mão de obra barata no próprio Japão, por meio do crescente uso de mão de obra migrante, o que levou muitas empresas japonesas a retornarem ao país. Por sua vez, algumas empresas coreanas aumentaram o grau de “indigenização”, o que significa que a influência dos monopólios japoneses foi reduzida, porque, como veremos melhor no caso de Taiwan, isso significa um aumento na “descentralização” desses monopólios para se concentrarem mais, é assim que o “sistema de participação” é realizado (Lenin) A Coreia como base imperialista para reexportação de capital na região. Considere também que parte do investimento estrangeiro direto (IED) do Japão e dos EUA deixou a Coreia do Sul, utilizada como uma “plataforma de exportação de capital”, para países do Sudeste Asiático e para a China, assim como investimentos da classe alta coreana que posteriormente investiram nessa região e na China. Portanto, uma característica atual da economia coreana é que as saídas de capital são maiores que as entradas, embora o país continue sendo um importador líquido de capital. Bem, é comum que a maioria dos países oprimidos tenha uma conta financeira consistentemente negativa, considerando que para cada dólar que entra, 3 ou 4 dólares saem como repatriação de lucros, pagamento de licenças, juros, etc., para capital estrangeiro Portanto, a saída de capital coreana consiste principalmente em duas partes: repatriação de lucros referentes a licenças e patentes do investimento estrangeiro direto (IED); e saída líquida de capital da grande burguesia coreana, que será então investida no exterior, onde os salários são mais baixos e os incentivos maiores do que na Coreia. Mas, em muitos casos, esse investimento no exterior é feito por decisão da empresa matriz do monopólio imperialista em questão, do qual a grande burguesia coreana atua como intermediária. Dessa forma, ela funciona como um posto avançado ou ponta de lança no mercado chinês em benefício de seus proprietários. Assim, a Coreia se tornou um dos grandes investidores na China. Isso também ficará mais claro quando analisarmos a situação de Taiwan. O processo de “abertura” coreano liderado pela facção compradora da grande burguesia Esse desenvolvimento econômico foi facilitado pelo chamado “processo de liberalização econômica” imposto pelo imperialismo ianque por meio do FMI, do Banco Mundial e da OMC, que teve início por volta de 1992-93 na Coreia, com maior “abertura” após a “crise asiática” de 1998. Outras conclusões sobre a situação econômica atual podem ser encontradas em um relatório de 2011 preparado para apresentação no 10º Diálogo Índia-Coreia, realizado nos dias 7 e 8 de novembro de 2011, no Hotel Trident, em Chennai, Índia, pelos professores Choong-Yong Ahn e Kyttack Hong, que definem a situação atual da Coreia da seguinte forma: “Índice de potencial de crescimento em declínio, forte polarização de renda e crescente demanda popular […] A taxa oficial de desemprego é muito baixa, em 3%, mas uma estatística mais abrangente de desemprego aponta para um aumento de 11,8% se forem contabilizados como desempregados apenas aqueles que se preparam para concursos públicos e os trabalhadores informais que trabalham em regime de tempo parcial, de 4 a 5 horas por semana.” O desemprego juvenil está se tornando grave […] Com a mudança na estrutura da economia, de uma economia baseada na indústria convencional para uma economia de serviços de alto valor agregado, o desemprego em massa tornou-se inevitável. […] As causas da polarização agravada (em termos de renda, entre aqueles que ganham mais e aqueles que têm as piores rendas, nota nossa) podem […] ser encontradas no enfraquecimento da ligação entre exportações e demanda interna […] o crescimento teve pouca influência na demanda interna devido à reestruturação corporativa com foco na redução da mão de obra e ao aumento do risco decorrente da crise financeira e da fragilidade da economia. A afirmação anterior pode ser corroborada pela redução da correlação entre exportações e demanda interna desde a crise financeira. Recentemente, as exportações raramente contribuíram para a criação de oportunidades de emprego e para o aumento do valor agregado, pois se concentraram principalmente em itens de tecnologia da informação, compostos sobretudo por peças e componentes importados […] Embora os grandes conglomerados coreanos (com mais de 300 funcionários) representem apenas 1% do total de estabelecimentos comerciais e 23% do emprego total, respectivamente, suas participações na produção total e no valor agregado são muito altas, 52,4% e 49%, respectivamente. Em termos de desempenho das exportações, o desempenho relativo das grandes empresas é bastante visível, contribuindo com 68% do total das exportações em 2009 […] A forte dependência da Coreia em relação às exportações, que representam metade de sua economia, e a abertura de seus mercados de capitais a tornam particularmente vulnerável a fatores externos.” (p. 71 em diante) Maior domínio do capital financeiro imperialista sobre a Coreia Ele explica isso mais detalhadamente abaixo, tornando muito mais clara a dominância do capital financeiro imperialista sobre essa economia: À medida que o problema dos títulos soberanos europeus se intensifica, os investidores estrangeiros reduziram sua participação no mercado de ações coreano. Os principais bancos têm que arcar com custos mais altos para tomar empréstimos no exterior. O prêmio do Credit Default Swap (CDS) do título de cinco anos em moeda estrangeira da Coreia atingiu 201,5 pontos-base em 6 de outubro de 2011, um aumento de quase 100 pontos em relação aos 103,0 pontos-base do final de julho. Além disso, o won (a moeda coreana) depreciou-se em relação ao dólar na terceira maior taxa entre 20 moedas principais. Ademais, há sinais de que as incertezas financeiras internas e externas estão se espalhando para a economia real, desacelerando o crescimento econômico […]. No entanto, é provável que a Coreia enfrente volatilidade no mercado financeiro devido à sua alta dependência externa. A relação entre o comércio exterior e o PIB nominal da Coreia é a mais alta do mundo, atingindo 87,9% em 2010. A proporção de investimento estrangeiro em ações domésticas é baseada no KOSPI (índice das ações de empresas listadas na bolsa de valores coreana), e a capitalização de mercado também é alta, em 32,8% em 11 de outubro de 2011. De agosto a setembro de 2011, a Coreia registrou uma saída líquida de capital estrangeiro de 7,2 trilhões de won de seus mercados de ações e uma entrada líquida de capital estrangeiro de 0,1 trilhão de won de seu mercado de títulos. A saída líquida de capital com sede na Europa foi de 4,4 trilhões de won e 3,2 trilhões de won nos mercados de ações e títulos, respectivamente. […] No curto prazo, a Coreia deve tentar garantir liquidez suficiente em moeda estrangeira para acalmar as preocupações com outra crise de liquidez e uma possível redução na classificação de sua dívida soberana (ou seja, manter altas reservas cambiais, conforme nossa nota).” (p. 92) veja o que as medidas do governo coreano após a crise mundial de 2008 revelaram: “As medidas introduzidas pelo governo coreano focaram-se na redução das vulnerabilidades criadas pelos empréstimos externos contraídos pelos bancos […]. Em junho de 2010, o governo introduziu limites máximos para as posições em derivativos cambiais no mercado a termo dos bancos, em relação ao seu capital. O objetivo era reduzir a dívida externa de curto prazo resultante da concessão de contratos a termo pelos bancos às empresas exportadoras, prevenindo a possibilidade de uma retirada repentina e maciça de capital, especialmente por parte das sucursais de bancos estrangeiros.” (p. 98) É importante esclarecer dois pontos sobre o desenvolvimento da indústria de produção ou montagem de automóveis, pois essa produção é um excelente exemplo de como o Investimento Estrangeiro Direto (IED) se expande e conquista mercados, gerando organizações monopolistas em países oprimidos à imagem e semelhança dos países imperialistas, seguindo o modelo do sistema de holding. Assim, essa indústria “coreana” é uma produção baseada em variantes de modelos produzidos pelos grandes monopólios, e está sendo desenvolvida atualmente com diversas variações de procedimentos e tecnologias provenientes da Mitsubishi, GM, Ford, Mazda, etc. — ou seja, com licenças e patentes dos monopólios automobilísticos imperialistas, como pode ser observado na tabela 14 da pesquisa de Myeong-Kee Chung , apresentada abaixo: Tabela H-4 “Fases do desenvolvimento dos mercados em relação às estratégias de produção e tecnologia na indústria automotiva coreana (1964-1995)” Observe a última linha, “Origem da tecnologia (de processo)”, que já destacamos na passagem anterior, pois ela expõe a verdadeira natureza da indústria automobilística “coreana”. Outro diagrama ilustra a organização piramidal dos fornecedores de autopeças (empresas “pequenas” e “médias” ou de “segundo nível”), que são dominadas pelas montadoras de automóveis (as chamadas “fabricantes de carros”): À frente desse sistema de fornecedores da indústria automobilística na Coreia, encontram-se três empresas de capital burocrático que recebem autopeças e componentes (sob licença dos grandes monopólios imperialistas do setor automotivo) de 1.548 fornecedores diretos. Esses fornecedores diretos, por sua vez, são abastecidos por 4.000 fornecedores de segundo nível. Isso significa que três montadoras — que, por sua própria natureza, dependem dos grandes monopólios imperialistas devido ao sistema de holding — dominam 5.548 empresas de “médio e pequeno porte”. Em resumo: a chamada “industrialização da Coreia do Sul” nada mais é do que o desenvolvimento do capitalismo burocrático naquela sociedade, impulsionado principalmente pelo imperialismo ianque, pelo imperialismo japonês e por outros países imperialistas, em conluio e luta. E, como vimos, até mesmo economistas burgueses admitem que o resultado é a dependência da economia coreana em relação ao mercado mundial. Em outras palavras, ela depende dos interesses e necessidades do imperialismo — uma dependência que, segundo Lenin, nada mais é do que uma relação de “opressão e violência” da economia imperialista sobre a economia coreana. Com isso, surge o caráter burocrático do capitalismo neste país. O CASO DE TAIWAN: IDE e a chamada “transferência de tecnologia” Entre as muitas histórias contadas pelos publicitários do imperialismo e oportunistas de todos os países, está a alegação de que hoje a “dependência” dos países subdesenvolvidos diminuiu, porque agora “o capital estrangeiro de que precisamos” vem na forma de investimento estrangeiro direto (IED), “indispensável para a transferência de tecnologia” e, portanto, para o “desenvolvimento independente”, já que o “capital estrangeiro” não vem mais principalmente na forma de empréstimos “vinculados” Ou a dívida pública — enquanto convenientemente se esquecem da chamada “ajuda ao desenvolvimento” — outra forma pela qual os imperialistas intervêm nas políticas econômicas de nossos países para beneficiar a exportação de capital e bens e expandir sua base social no país receptor. Ainda mais negligente é a omissão da “ajuda” japonesa. E, observem, acrescentam que grande parte dessa ajuda internacional ao desenvolvimento agora vem de países do Terceiro Mundo como o nosso, razão pela qual tem um caráter diferente. Isso torna necessário abordar essa questão levantando algumas perguntas fundamentais com base em situações concretas. Portanto, é apropriado apresentar, com nossos comentários, alguns trechos do Estudo de Caso de Joint Ventures Taiwanesas-Japonesas na China, de JM Gerken(15), que demonstra claramente o caráter de classe desse IDE que vem em um “pacote”. Qual a importância deste trabalho e quais são suas limitações? Sua importância reside no fato de ser um estudo de caso; ele relaciona os aspectos macro e microeconômicos do IDE japonês em Taiwan, que assume a forma de “transferência de pacote de IDE” ou “transferência da produção de produtos simples e padronizados”, que então “se tornarão evidentes no próximo investimento na série do ciclo (Ciclo de Produtos de Recuperação)”, ou seja, no próximo investimento nipo-taiwanês na China. Pretendemos utilizar essas informações empíricas para demonstrar como o capital financeiro imperialista (japonês, neste caso) contribui para a geração da empresa intermediária (subsidiária ou subsidiária) do capitalismo burocrático taiwanês e como o capital imperialista japonês, por meio desses investimentos, penetrará na China. Pretendemos usar esses casos concretos para demonstrar como essas redes internacionais de dependência e de relações de capital financeiro são geradas e como, após gerar os monopólios e suas redes nos países de origem (imperialistas), se estendem aos países do Terceiro Mundo e à China (o país imperialista mais atrasado economicamente e onde os investimentos são mais rentáveis) para obter superlucros. O problema ou limitação reside na forma como o autor (Gerken) concebe o “ciclo” do capital financeiro imperialista: ele o vê limitado apenas ao primeiro momento do ciclo e não considera o ciclo completo do IDE japonês; ele vê a segunda parte do ciclo como um novo investimento do país receptor ou, na melhor das hipóteses, como um híbrido — investimento direto japonês na Coreia (subsidiária ou empresa-mãe da empresa japonesa principal), seguido de investimento japonês-“coreano” na China (empresa-neta) ou em outros países como o Vietnã ou as Filipinas (empresas-netas). Devemos aplicar o conceito de sistema de holding estabelecido por Lenin para determinar a verdadeira natureza desses investimentos. O autor seguindo os passos de seu mentor Kojima — embora isso contradiga sua própria exposição dos fatos — Gerken aborda o segundo momento do IDE imperialista como investimentos diretos, no qual as “Novas Economias Industriais” da região da ASEAN investem na China e no Vietnã. Ele denomina esses investimentos de “novos investimentos diretos” e “extensão do ciclo de vida do produto”, e também se refere a essas “Novas Economias Industriais” da região da ASEAN como Economias de Convergência. Em outras palavras, o estudo se concentra na transferência (como parte do pacote de IDE) de produtos japoneses simples e padronizados para serem produzidos em Taiwan (adaptados às condições do país: “novo produto padronizado”), e posteriormente estendidos ou transferidos para serem produzidos na China. Como era de se esperar, o estudo se concentra nas relações entre as coisas (fetichismo da mercadoria) e não nas relações que essas coisas ocultam; ou seja, não se concentra nas relações sociais de produção. Este é o principal ponto que devemos ressaltar, por ora, em relação às citações que se seguem. Por quê? Porque, além de sua concepção burguesa, como Lenin apontou em sua obra já mencionada, esses acadêmicos veem as empresas subsidiárias como independentes simplesmente por o serem legalmente, e porque buscam embelezar o imperialismo. Mas, como o próprio Lenin nos disse, estamos lidando com “uma obra literáriaescrita do ponto de vista burguês, mas que, no entanto, oferece um retrato e uma crítica bastante verídicos — pequeno-burgueses, naturalmente — dessa oligarquia financeira” Vejamos as citações: Assim, fez-se referência ao “ciclo” do produto através do “fenômeno do investimento subsequente” (nível macroeconômico), centrado no aspecto microeconômico (empresarial), ou seja, qual é precisamente a “contribuição da empresa subsidiária” na “reprodução de um determinado bem”. É assim que se aborda o “instrumento de investimento direto” (Introdução). “A variável equipamentos empresariais denota a transferência do pacote de IED, que consiste em conhecimento do produto, conhecimento do processo e conhecimento de gestão empresarial. O capital pode ser complementado ou substituído por meio de patrimônio industrial específico, tangível ou intangível, como máquinas de produção de segunda mão.” Continuando com as citações do estudo: “Assim como no Japão, em Taiwan, as vantagens comparativas em indústrias intensivas em mão de obra diminuíram (o uso intensivo de mão de obra é típico de economias atrasadas, nota nossa). Dessa forma, Taiwan começou a transferir suas indústrias intensivas em mão de obra para países com baixos salários ( como se pode observar, toda uma hierarquia é estabelecida pelo grau de desenvolvimento, medido pelo uso de mão de obra entre as empresas dos diferentes países que pertencem ao “sistema holding”, de um determinado monopólio matriz, nota nossa ). Com o avanço da industrialização, a experiência em exportação internacional impulsionou os investimentos de Taiwan no Sudeste Asiático. As subsidiárias taiwanesas foram fortalecidas por vantagens comparativas locais. Os investimentos taiwaneses na China continental (na República Popular da China, nota nossa) cresceram cerca de US$ 30 bilhões entre 1983 e 1996. A comparação entre o investimento direto estrangeiro (IDE) japonês em Taiwan e os investimentos diretos taiwaneses na China, no setor elétrico e eletrônico, demonstra o forte envolvimento do Japão. Entre 1952 e 1997, mais de um quarto (27%) do capital de investimento japonês foi direcionado para esse ramo. Trezentos e setenta e cinco pequenos e médios empresários, bem como 33 grandes empresários japoneses, fundaram uma ou mais subsidiárias em Taiwan. A gama de produtos das empresas japonesas abrange desde cabos até computadores. Esses produtos incluem muitas peças padronizadas, componentes e aditivos simples. Os investimentos taiwaneses em monitores, teclados e outros periféricos são notáveis. Trata-se quase inteiramente de modelos antigos que foram transferidos para a China, como, por exemplo, telas de 15 polegadas. A presença japonesa é ainda mais evidente na indústria automobilística taiwanesa. Oito dos onze fabricantes de automontagem possuem uma joint venture e/ou um contrato de cooperação com empresas japonesas. Em Taiwan, o mesmo modelo foi remontado exatamente como no Japão. Isso também demonstra uma fusão fechada com a montadora taiwanesa. Aqui você também encontrará exemplos de peças simples, carrocerias e transmissões que foram transferidas para a China como parte do investimento subsequente. No Sudeste Asiático, os investimentos estrangeiros diretos das empresas nacionais de investimento (ENIs) são predominantemente de pequenos e médios empresários, que até então haviam expandido sua produção de bens simples para o exterior ou se mudado completamente para lá. Um dos pilares disso são as condições comerciais favoráveis ​​que estão sendo negociadas entre a União Europeia ou o NAFTA e os países da ASEAN. Outro pilar para os investimentos diretos das ENIs são os mercados locais no Sudeste Asiático (economias de escala, nota nossa), que anteriormente importavam dessas empresas. Entre as ondas mais recentes de investidores das ENIs estão os exportadores itinerantes, que transferem preferencialmente sua produção devido aos baixos salários. No Sudeste Asiático, são montadas peças e dispositivos eletrônicos simples, componentes ópticos (por exemplo, lentes) e peças de mobiliário. A razão para os baixos custos de mão de obra e a orientação para o mercado é mais uma vez ilustrada pelas três estratégias predominantes dos investimentos taiwaneses na China: produtos maduros com métodos de produção intensivos em mão de obra afetam os “três Cs”: Eletrônicos de Consumo, Computadores e Comunicação. Trata-se de uma decomposição dos complexos processos técnicos de produtos de alta tecnologia em produtos primários e intermediários padronizados, que ocorre dentro da divisão internacional do trabalho. No âmbito desses produtos padronizados (primários e intermediários), empresas particularmente pequenas e flexíveis de economias recém-industrializadas (ERIs) entram como parceiras em joint ventures ou produtoras OEM (Fabricante de Equipamento Original, nota nossa). Um padrão típico dessa divisão internacional do trabalho pode ser encontrado na indústria de PCs. Na vanguarda estão as empresas americanas, que desenvolvem sistemas de software para PCs e fabricam unidades centrais de processamento (CPUs). Empresas japonesas fornecem alguns componentes-chave (por exemplo, telas de cristal líquido: LCD). Isso é muito importante porque demonstra o caráter intermediário da empresa monopolista coreana SAMSUNG, que utiliza esses softwares. Deixa claro que o capital financeiro imperialista estadunidense domina a região, seguido pelo capital imperialista japonês e, por fim, pelos demais imperialistas. O papel ou função intermediária das empresas dos países do capitalismo burocrático ou do imperialismo chinês pode ser observado pela forma como estão sujeitas às necessidades do capital financeiro imperialista, como veremos a seguir: “Para algumas peças de computador, existem fornecedores especializados na Coreia do Sul e em Singapura. Os fabricantes taiwaneses visam fornecer periféricos e componentes individuais de maior qualidade. O fornecimento de dispositivos simples, como teclados, produtos intermediários e peças, é assumido por empresas na China e nos países da ASEAN […] A terceirização da produção de produtos com uso intensivo de mão de obra e de produtos precursores simples está em curso e está relacionada à produção das referidas peças e componentes nos quais Taiwan se especializou. Para a produção de LCD, por exemplo, o nível de produção mais básico de uma tela de LCD é realizado por uma empresa taiwanesa na China. A rápida implementação de melhorias nos produtos (como telas de 17 polegadas) leva os níveis mais baixos (como telas de 14 e 15 polegadas) a um método de produção padronizado, para que esses “produtos obsoletos” possam permanecer no mercado.” (obra citada anteriormente). Como resultado, a exportação do capital imperialista significa que sua crise econômica também é exportada para países estrangeiros e que se estabelece toda uma rede internacional de dependências e conexões de capital financeiro, como Lenin nos alertou: “Atribui-se importância primordial ao “sistema de holding […] O economista alemão Heymann, provavelmente o primeiro a chamar a atenção para essa questão, descreve sua essência da seguinte forma: “O chefe do grupo controla a empresa principal [literalmente: a “empresa-mãe”]; esta reina sobre as empresas subsidiárias [“empresas-filhas”], que por sua vez controlam outras subsidiárias [“empresas-netas”], etc. Dessa forma, é possível, com um capital relativamente pequeno, dominar imensas esferas de produção. De fato, se deter 50% do capital é sempre suficiente para controlar uma empresa, o chefe do grupo precisa de apenas um milhão para controlar oito milhões nas segundas subsidiárias. E se esse ‘encadeamento’ for ampliado, é possível, com um milhão, controlar dezesseis milhões, trinta e dois milhões, etc.” […] Dividir um único negócio em várias partes, criando “empresas-filhas” — ou anexando-as. As vantagens desse sistema para diversos fins — legais e ilegais — são tão evidentes que as grandes empresas que não o utilizam são uma verdadeira exceção. […] A “democratização do capital”, o fortalecimento do papel e da importância da produção em pequena escala, etc., é, na verdade, uma das maneiras de aumentar o poder da oligarquia financeira. […] Mas o “sistema de holding” não só serve enormemente para aumentar o poder dos monopolistas, como também lhes permite recorrer impunemente a todo tipo de artimanhas obscuras e sujas para enganar o público, porque formalmente os diretores da “empresa-mãe” não são legalmente responsáveis ​​pela “empresa-filha”, que supostamente é “independente”, e por meio da qual eles podem “fazer o que quiserem”. […] Um monopólio, uma vez formado e controlando bilhões, inevitavelmente penetra em todas as esferas da vida pública, independentemente da forma de governo e de todos os outros “detalhes”. A supremacia do capital financeiro sobre todas as outras formas de capital significa a predominância do rentista e da oligarquia financeira; significa que um pequeno número de Estados financeiramente “poderosos” se destaca entre todos os demais. […] De uma forma ou de outra, quase todo o resto do mundo é, em maior ou menor grau, devedor e tributário desses países banqueiros internacionais, esses quatro “pilares” do capital financeiro mundial. É particularmente importante examinar o papel que a exportação de capital desempenha na criação da rede internacional de dependência e conexões do capital financeiro.”(16) A exposição dos fatos relativos ao desenvolvimento do imperialismo (e, consequentemente, do capitalismo burocrático) no Sudeste Asiático ao longo das últimas três décadas e além demonstra a plena validade do que foi estabelecido pelo marxismo-leninismo-maoísmo a respeito do imperialismo e do capitalismo burocrático. O que temos observado é um aumento na exportação de capitais e, consequentemente, uma intensificação da luta entre grandes monopólios e países imperialistas para penetrar de forma mais completa e abrangente nas economias dos países semicoloniais. Isso faz com que a produção nos países semicoloniais se torne cada vez mais dependente desses capitais e mais deformada, já que passa a produzir para atender às necessidades do mercado mundial imperialista em vez de para o desenvolvimento interno. Assim, testemunhamos o desenvolvimento da “rede internacional de dependência e das conexões do capital financeiro”, ou seja, “redes globais de produção de valor” dos maiores monopólios imperialistas ou empresas multinacionais, “redes internacionais de produção”, ou qualquer outro nome que os economistas burgueses queiram dar a elas. Essas redes nada mais são do que os tentáculos dos maiores monopólios que disputam o território econômico mundial por meios pacíficos ou violentos, o que o autor do estudo de caso identifica como o ciclo do IDE e do “produto”, e que outros chamam de “cadeias globais de produção de valor”. Para nossos países, isso significou um aprofundamento ainda maior de sua condição semicolonial e semifeudal, sobre a qual se desenvolve o capitalismo burocrático. Sobre esse assunto, Lênin disse: Típico do capitalismo antigo, quando a livre concorrência prevalecia, era a exportação de mercadorias. Típico do estágio mais recente do capitalismo, quando os monopólios dominam, é a exportação de capital. […] O capitalismo é a produção de mercadorias em seu estágio mais elevado de desenvolvimento, quando a própria força de trabalho se torna uma mercadoria. O crescimento das trocas internas e, particularmente, das trocas internacionais, é uma característica marcante do capitalismo. O desenvolvimento desigual e esporádico de empresas individuais, ramos individuais da indústria e países individuais é inevitável sob o sistema capitalista. […] Um enorme “excedente de capital” surgiu nos países desenvolvidos. É evidente que, se o capitalismo pudesse desenvolver a agricultura, […] se pudesse elevar o padrão de vida das massas, […] não haveria como falar em excedente de capital. […] Tanto o desenvolvimento desigual quanto um nível de subsistência próximo à fome para as massas são condições fundamentais e inevitáveis, e constituem premissas desse modo de produção. Enquanto o capitalismo permanecer o que é, o capital excedente será utilizado não para elevar o padrão de vida das massas em um determinado país, pois isso significaria uma queda nos lucros para os capitalistas, mas sim para aumentar os lucros exportando capital para os países subdesenvolvidos. Nesses países, os lucros costumam ser altos, pois o capital é escasso, o preço da terra é relativamente baixo, os salários são baixos e as matérias-primas são baratas. A exportação de capital é viabilizada pelo fato de diversos países subdesenvolvidos já terem sido integrados ao intercâmbio capitalista mundial; […] condições elementares para o desenvolvimento industrial foram criadas, etc. A necessidade de exportar capital surge do fato de que, em alguns países, o capitalismo se tornou “supermaduro” e (devido ao atraso da agricultura e à pobreza das massas) o capital não consegue encontrar um campo para investimento “lucrativo”. Assim, o capital financeiro, literalmente, pode-se dizer, estende sua rede a todos os países do mundo. Um papel importante nisso é desempenhado pelos bancos. Os países exportadores de capital dividiram o mundo entre si no sentido figurado do termo. Mas o capital financeiro levou à divisão real do mundo. Já que estamos falando de política colonial na época do imperialismo capitalista, é preciso observar que o capital financeiro e sua política externa, que consiste na luta das grandes potências pela divisão econômica e política do mundo, dão origem a diversas formas transitórias de dependência estatal. Nessa época, não são apenas os dois principais grupos de países (os que possuem colônias e as próprias colônias) que são típicos; também são típicas as diversas formas de países dependentes que, politicamente, são formalmente independentes, mas, na realidade, estão enredados na rede da dependência financeira e diplomática. Já mencionamos uma forma de dependência: a semicolônia. Um exemplo de outra forma é fornecido pela Argentina. “A América do Sul, e especialmente a Argentina”, escreve Schulze-Gaevernitz em sua obra sobre o imperialismo britânico, “é tão dependente financeiramente de Londres que deveria ser descrita quase como uma colônia comercial britânica.”(17) TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA E O PACOTE DE INVESTIMENTO ESTRANGEIRO DIRETO Vamos prosseguir com o estudo de caso: “A transferência do pacote de IED inclui produtos, processos e gestão de tecnologias específicas, cujos componentes são regulamentados por contrato. Assim, as opções de transferência são, desde o início de cada projeto de investimento estrangeiro direto, limitadas por esses acordos. O grau de sucesso que a empresa local pode alcançar é crucial, partindo do pacote de IED à sua disposição, combinado com sua própria capacidade de estabelecer a produção. Em muitos casos, a transferência de conhecimento real consiste no conhecimento próprio do investidor (know-how), que não pode ser totalmente transmitido por meio de especificações técnicas, desenhos e instruções de operação, etc., que podem ser acordados. Portanto, é importante verificar qual conhecimento está sendo efetivamente transferido pelo investidor estrangeiro. Frequentemente, a qualidade da produção é conscientemente reduzida ao mínimo, para não comprometer a vantagem técnica do investidor estrangeiro ou simplesmente para impedir que a filial estrangeira produza exatamente o mesmo componente. Em alguns casos, o destinatário constatou que, embora todas as informações técnicas estejam corretas, a filial estrangeira consegue produzir exatamente o mesmo componente. Em outros casos, o destinatário percebeu que, embora todas as informações técnicas estejam completas, ainda falta algo. Essa falta de conhecimento reside na experiência do investidor, e não há uma regra prática para prever quando e em que medida o destinatário desse conhecimento poderá adquirir tal experiência. Por exemplo, os desenhos contêm dados técnicos precisos e instruções de fabricação exatas. No entanto, algumas informações estão faltando, como a temperatura ideal de fabricação, que só é descoberta após vários anos. Portanto, é impossível determinar o valor exato dos ativos intangíveis do investidor, cabendo ao destinatário determinar o valor específico desse conhecimento com maior profundidade.” Além disso, gostaríamos de salientar que o que é transferido em cada “projeto de investimento” é um produto ou modelo já em produção. Portanto, mesmo que seja o “mais novo” ou o mais recente, já está obsoleto, pois a empresa matriz já está pesquisando e desenvolvendo um novo. Essa pesquisa e desenvolvimento (P&D) não é transmitida no pacote, mas permanece com a empresa matriz. Ademais, as máquinas para oficinas de produção são modelos antigos e, em muitos casos, já foram retiradas de circulação — têm valor zero ou simbólico nos livros contábeis e, quando exportadas como parte do “pacote” de IED, adquirem um novo valor como ativo fixo nas contas externas da subsidiária. Mas mesmo que essas máquinas sejam de “última geração”, elas não contribuem de forma alguma para o desenvolvimento tecnológico do país anfitrião, uma vez que são produtos estrangeiros e, da mesma forma, não representam o desenvolvimento do setor de produção de máquinas para a indústria no país anfitrião. O principal a salientar é que o investimento estrangeiro é realizado de acordo com os interesses de desenvolvimento do monopólio na luta pelo mercado mundial. As empresas geradas nos países oprimidos, ou nos países imperialistas mais atrasados ​​como a China, estão subjugadas pelas empresas imperialistas, que garantem por todos os meios e em todos os casos a subjugação das empresas cuja criação contou com o apoio do capital financeiro imperialista. Taiwan: Mais um dos “quatro tigres asiáticos” Outro dos “quatro tigres asiáticos” é Taiwan. É dominado pelo imperialismo, principalmente o ianque, em conluio e luta com o imperialismo japonês e outros países imperialistas. O estudo de Taiwan demonstra como o processo de maior dominação do imperialismo nas últimas décadas se deu, assim como nos outros países oprimidos — dominação que tentam ocultar com sua terminologia de “globalização”, “nova divisão internacional do trabalho” e “integração à cadeia produtiva global”. Por isso, é importante levar em consideração alguns dados concretos, como os contidos na pesquisa mencionada anteriormente sobre o período de 1952 a 1997, que incluímos como nota.(18) Após o que incluímos como nota, o artigo diz: Por outro lado, Taiwan também é um investidor ativo no exterior, com o objetivo de expandir sua rede de produção e distribuição e de penetrar em novos mercados . Nesse sentido, o setor financeiro e de seguros dominou em 2012, e seu fluxo de saída para o exterior triplicou, ultrapassando US$ 4,5 bilhões. Em segundo lugar, como esperado, ficou o setor eletrônico, com US$ 1,35 bilhão; equipamentos metalúrgicos ficaram em terceiro lugar, com US$ 643,4 milhões. Dos US$ 8,1 bilhões em investimentos diretos com os quais Taiwan realizou empreendimentos no exterior, a maior parte foi para Singapura em 2012: US$ 4,5 bilhões, ou 55,6%, foram destinados à cidade-estado do Sudeste Asiático. A participação do capital investido no Japão foi de 13%, no Vietnã, 11,7%. Finalmente, 0,2% dos investimentos taiwaneses foram para a Alemanha (Informações da Comissão de Investimentos do Ministério de Assuntos Econômicos de Taiwan, 2013). Em todo caso, investimentos originários de Taiwan e operados na China continental não estão listados aqui. Na realidade, os investimentos Os investimentos realizados por empresas taiwanesas na China representam a maior parcela, apesar de a Comissão de Investimentos de Taiwan ter registrado, em 2012, apenas US$ 10,9 bilhões investidos no país vizinho, 17% a menos que no ano anterior. Desse total, US$ 1,95 bilhão foram destinados ao setor eletrônico e US$ 1,52 bilhão ao setor de tecnologia da informação e comunicação. Ao mesmo tempo, os investimentos da China continental em Taiwan, de 2011 a 2012, cresceram mais de sete vezes, atingindo US$ 328 milhões. Isso representa uma expansão decisiva do escopo desses investimentos autorizados. Foi somente em agosto de 2012 que Taiwan e a China assinaram um acordo para proteger e promover investimentos.”(19) O sublinhado na citação anterior é nosso. Com ele, queremos enfatizar o papel intermediário dos monopólios de países capitalistas burocráticos como Taiwan, como vemos mais claramente nos motivos dos investimentos japoneses em Taiwan (empresas subsidiárias) em comparação com os motivos desses investimentos na China (empresas-netas). Da mesma forma, ao comparar os investimentos da grande burguesia compradora de Taiwan no Sudeste Asiático com o que vimos anteriormente em relação ao desenvolvimento do IDE (Investimento Direto Estrangeiro) e da indústria de componentes para a eletrônica e a indústria de alta tecnologia, podemos compreender a importância que Lenin atribui ao sistema de holdings para entender o imperialismo como o estágio de dominação dos monopólios gerados pelo capital financeiro, em contraste com o estágio do capitalismo de livre concorrência. Os monopólios dos países do capitalismo burocrático foram gerados e são subordinados pelos mais variados laços aos monopólios dos países imperialistas. Em última análise, sua existência depende de seus mestres imperialistas. Um ponto que já podemos afirmar é que o aumento do investimento estrangeiro por parte dos países imperialistas é seguido pela aparente diminuição de suas exportações para os países semicoloniais ou para outros países imperialistas, especialmente para aqueles menos desenvolvidos, como a China (lei do desenvolvimento desigual). Isso é particularmente evidente no caso do imperialismo estadunidense e do imperialismo japonês nessa região da Ásia (uma expressão do parasitismo imperialista e do atraso econômico nos países imperialistas causado pela exportação de capital). Outro ponto é que grande parte do investimento imperialista na China é feito através de Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul, que funcionam como plataformas para o capital financeiro imperialista. Isso se torna ainda mais evidente quando consideramos que o investimento imperialista está crescendo nesses países na forma de desenvolvimento dos bancos e do setor financeiro. Ao mesmo tempo, os imperialistas chineses buscam reorganizar e desenvolver ainda mais seu setor bancário e financeiro, bem como o setor de serviços em geral. Taiwan está sendo ultrapassada pela Coreia como o segundo maior investidor na China. Por essa razão, em cenários regionais, não podemos ignorar o papel subordinado e subjugado que representa em relação aos interesses de seu proprietário, representados pelas lutas entre a grande burguesia intermediária dos países semicoloniais. É por isso que incluímos a seguinte nota de rodapé sobre os investimentos taiwaneses na China.(20) Para visualizar concretamente o sistema de holding, é útil o resultado do estudo, que incluímos como nota em: “3. Estrutura empresarial das subsidiárias japonesas em Taiwan” e nos itens 4, 6 e 5 do estudo de caso”(21) A COMPREENSÃO DO MARXISMO-LENINISMO-MAOÍSMO DESTE PROCESSO EM SUA TOTALIDADE Vamos nos perguntar: como entendemos esse processo? Qual é a natureza desse desenvolvimento? Ficou comprovado que todo esse processo nos países oprimidos só existe sob o domínio do investimento estrangeiro imperialista. Em 1975, o presidente Gonzalo fez a si mesmo uma pergunta semelhante sobre a situação nacional, à qual respondeu: Como o marxismo encara essa questão? Mao Tsé-Tung analisa esse problema em Sobre o Governo de Coalizão : “Para derrotar os agressores japoneses e construir uma nova China, é necessário desenvolver a indústria. Mas, sob o governo do Kuomintang, há dependência de países estrangeiros para tudo, e sua política financeira e econômica está arruinando toda a vida econômica do povo. Algumas poucas pequenas empresas industriais são tudo o que se encontra nas áreas governadas pelo Kuomintang, e, na maioria dos casos, elas não conseguiram evitar a falência. Na ausência de reformas políticas, todas as forças produtivas estão sendo destruídas, tanto na agricultura quanto na indústria.” De modo geral, será impossível desenvolver a indústria a menos que a China seja independente, livre, democrática e unida. Eliminar os agressores japoneses é buscar a independência. Abolir a ditadura de partido único do Kuomintang, estabelecer um governo de coalizão democrático e unido, transformar todas as tropas da China em uma força armada popular, realizar a reforma agrária e emancipar os camponeses é buscar a liberdade, a democracia e a unidade. Sem independência, liberdade, democracia e unidade, é impossível construir uma indústria em grande escala. Sem indústria, não pode haver uma defesa nacional sólida, nem bem-estar para o povo, nem prosperidade ou força para a nação.” Na opinião de Mariátegui sobre este assunto destacamos: “O imperialismo não permite que nenhum desses povos semicoloniais, que ele explora como mercado de capital e mercadorias e como fonte de matérias-primas, tenha um programa econômico de nacionalização e industrialização; obriga-os a empreender a monopolização e a monocultura (petróleo, cobre, açúcar, algodão no Peru)” Assim, para Mariátegui, o imperialismo não nos permite desenvolver uma verdadeira indústria nacional (isto é, uma indústria a serviço da nação), nem um programa de industrialização independente. Se as possibilidades da indústria são de fato limitadas pela “estrutura e caráter da economia nacional”, “elas são ainda mais limitadas pela dependência da vida econômica em relação aos interesses do capitalismo estrangeiro”, como ele nos ensina em “Capitalismo ou Socialismo”. Esta é a situação em nosso país: a indústria está se desenvolvendo como indústria dependente e, consequentemente, submetida aos interesses do imperialismo, principalmente norte-americano […]. Desde antes da Segunda Guerra Mundial, houve múltiplas oportunidades para estimular o processo industrial, ao mesmo tempo em que se desenvolvia a participação direta do Estado nesse processo. Mas, como não poderia ser de outra forma, dadas as classes que comandam o Estado, a visão que as motiva é desenvolver um processo de industrialização sob a égide do imperialismo. Exatamente! É como se isso tivesse sido escrito como um comentário sobre os estudos citados anteriormente a respeito do desenvolvimento econômico na Ásia. O presidente Gonzalo continua mais adiante no artigo daVoz do Povo : “ Como devemos entender o capitalismo burocrático em nosso país? […] Mao Tsé-Tung, de forma extraordinária — embora condensada — em suas Obras Selecionadas , nos apresenta a questão do capitalismo burocrático (Volume III, em Sobre o Governo de Coalizão ); ao considerar a grave situação em que as grandes massas populares se encontravam sob o domínio do Kuomintang, ele afirma: Por que surgiu uma situação tão grave sob a liderança da principal camarilha governante do Kuomintang? Ela surgiu porque essa camarilha representa os interesses dos grandes latifundiários, dos grandes banqueiros e dos magnatas da burguesia compradora da China . O pequeno grupo de pessoas que forma essa camada reacionária monopoliza todas as importantes organizações militares, políticas, econômicas e culturais sob o governo do Kuomintang. Eles também dizem “a nação acima de tudo”, mas suas ações não condizem com as demandas da grande maioria da nação. Eles também dizem “o Estado acima de tudo”, mas o que querem dizer é a ditadura feudal-fascista dos grandes latifundiários, dos grandes banqueiros e dos grandes compradores, e não um Estado democrático do povo. Portanto, eles temem a ascensão do povo, temem o movimento democrático… Falam em desenvolver a economia da China, mas, na verdade, constroem seu próprio capital burocrático, isto é, o capital dos grandes latifundiários, banqueiros e compradores, e monopolizam os setores vitais da economia chinesa, oprimindo impiedosamente os camponeses, os operários, a pequena burguesia e a burguesia não monopolista . Falam em colocar a “democracia” em prática e “devolver o poder do Estado ao povo”, mas reprimem impiedosamente o movimento popular pela democracia e se recusam a introduzir a mais branda reforma democrática. (p. 224. Ênfase adicionada, como em todas as outras citações, pela Voz do Povo )” Observemos a questão central: em primeiro lugar, Mao define o capital burocrático como sendo o dos grandes latifundiários, dos grandes banqueiros e dos magnatas da burguesia compradora; em segundo lugar, ele destaca que o capital burocrático monopoliza a economia; e, em terceiro lugar, afirma que ele “oprime impiedosamente os camponeses, os operários, a pequena burguesia e a burguesia não monopolista”. Dessa base e dessa posição econômica deriva necessariamente o caráter político reacionário do capital burocrático. No Volume IV, Mao analisa o processo de desenvolvimento do capitalismo burocrático: “Confiscar as terras da classe feudal e entregá-las aos camponeses. Confiscar o capital monopolista, liderado por Chiang Kai-shek, TV Soong, HH Kung e Chen Li-fu, e entregá-lo ao novo Estado democrático. Proteger a indústria e o comércio da burguesia nacional. Essas são as três principais políticas econômicas da revolução nova democrática. Durante seus vinte anos de governo, as quatro grandes famílias, Chiang, Soong, Kung e Chen, acumularam enormes fortunas avaliadas entre dez e vinte bilhões de dólares americanos e monopolizaram os setores econômicos vitais de todo o país. Esse capital monopolista, combinado com o poder estatal, tornou-se o capitalismo monopolista de Estado. Esse capitalismo monopolista, intimamente ligado ao imperialismo estrangeiro, à classe latifundiária nacional e aos camponeses ricos tradicionais, tornou-se um capitalismo comprador, feudal e monopolista de Estado. Essa é a base econômica do regime reacionário de Chiang Kai-shek. Esse capitalismo monopolista de Estado oprime não apenas os trabalhadores e camponeses, mas também a pequena burguesia urbana.” e prejudica a burguesia média. Esse capitalismo de Estado monopolista atingiu o auge de seu desenvolvimento durante a Guerra de Resistência e após a rendição japonesa; preparou amplas condições materiais para a nova revolução democrática. Esse capital é popularmente conhecido na China como capital burocrático. Essa classe capitalista, conhecida como classe capitalista burocrata, é a grande burguesia da China.” (Presidente Mao, Obras Selecionadas , Vol. IV, The present situation and our tasks ) Passemos agora imediatamente ao comentário da declaração feita pelo Presidente Gonzalo no artigo do jornal “Voz Popular”, já citado: “Neste texto, Mao estabelece o desenvolvimento do capitalismo burocrático, mostrando-nos como esse capital das quatro famílias acumulou enormes fortunas, monopolizando completamente a economia. Ele então destaca como o capital burocrático monopolista, “combinado com o poder estatal, tornou-se capitalismo monopolista estatal”. Isso é significativo: o capital monopolista, ao se interligar com o Estado, torna-se capital monopolista estatal — e não simplesmente, como alguns acreditam, capitalismo de Estado. O mais importante é que se trata de capital monopolista, e essa é a essência de seu vínculo indissociável com o imperialismo (lembremos que Lenin demonstrou que a essência econômica do imperialismo reside em sua condição de capitalismo monopolista). Por outro lado, Mao nos ensina que esse capitalismo monopolista, que está “estreitamente ligado” ao imperialismo, aos latifundiários e aos camponeses ricos do velho tipo, em seu desenvolvimento, “tornou-se”, como ele mesmo diz, “capitalismo monopolista de Estado, comprador e feudal”. Mao Tsé-Tung sente não apenas que essa é a base econômica do regime do Kuomintang, mas também que esse capitalismo monopolista de Estado oprime os trabalhadores e camponeses, “bem como a pequena burguesia urbana, e prejudica a burguesia média”. E, finalmente, ao atingir “o ápice de seu desenvolvimento… preparou amplas condições materiais para a revolução democrática nacional”. Este é um ponto de extraordinária importância; embora se fale entre nós de capitalismo burocrático, não se presta atenção ao fato de que este, em seu desenvolvimento, amadurece as condições para a revolução democrática nacional. Devemos estudar seriamente esta grande tese de Mao Tsé-Tung sobre o capitalismo burocrático e usá-la como guia para avaliar nosso processo de desenvolvimento capitalista. ” Aqui, o Presidente Gonzalo postula a necessidade de entendermos o capitalismo burocrático; ele nos permite não apenas entender nossa própria sociedade, mas também formações sociais semelhantes à nossa, o que é essencial para a realização de uma revolução democrática A Linha Política Geral do Partido Comunista do Peru declara: Partindo da tese do Presidente Mao, o Presidente Gonzalo nos ensina que ela possui cinco características: 1) o capitalismo burocrático é o capitalismo que o imperialismo desenvolve nos países atrasados, composto pelo capital dos grandes latifundiários, dos grandes banqueiros e dos magnatas da grande burguesia; 2) ele explora o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia, e oprime a média burguesia; 3) ele está passando por um processo no qual o capitalismo burocrático se combina com o poder do Estado e se torna capitalismo monopolista de Estado, comprador e feudal, do qual se pode inferir que, num primeiro momento, ele se desdobra como um grande capitalismo monopolista não estatal e, num segundo momento, quando combinado com o poder do Estado, se desdobra como capitalismo monopolista de Estado; 4) ele amadurece as condições para a revolução democrática à medida que atinge o ápice de seu desenvolvimento; e 5) a confiscação do capital burocrático é fundamental para alcançar o ápice da revolução democrática e decisiva para a transição para a revolução socialista. Aplicando o exposto acima, ele concebe que o capitalismo burocrático é o capitalismo gerado pelo imperialismo nos países atrasados, atrelado a um feudalismo decadente e subjugado ao imperialismo — que é a última fase do capitalismo. Esse sistema não serve à maioria da população, mas apenas aos imperialistas, à grande burguesia e aos latifundiários. […] É, portanto, um capitalismo burocrático que oprime e explora o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia, e que restringe a burguesia média. Por quê? Porque o capitalismo que se desenvolve é um processo retardado que permite que uma economia sirva apenas aos interesses imperialistas. É um capitalismo que representa a grande burguesia, os latifundiários e os camponeses ricos do velho tipo, as classes que constituem uma minoria, mas que exploram e oprimem a grande maioria, as massas. Ele analisa o processo pelo qual o capitalismo burocrático passou no Peru, o primeiro momento histórico que se desenvolve de 1895 à Segunda Guerra Mundial, no qual, durante a década de 1920, a burguesia compradora assume o controle do Estado, substituindo os latifundiários, mas respeitando seus interesses. O segundo momento vai da Segunda Guerra Mundial a 1980, um período de seu aprofundamento, durante o qual um ramo da grande burguesia evolui para a burguesia burocrática […] Assim, gera-se um choque entre as duas facções da grande burguesia, entre a burguesia burocrática e a burguesia compradora. […] O terceiro momento é de 1980 em diante, no qual o capitalismo burocrático entra em uma crise geral e em sua destruição final […] e nenhuma medida poderá salvá-lo. Na melhor das hipóteses, prolongará sua agonia. Por outro lado, como uma besta em agonia mortal, defender-se-á buscando esmagar a revolução. Se observarmos esse processo pela perspectiva popular, veremos que, num primeiro momento, o PCP foi constituído com Mariátegui em 1928, e a história do país se dividiu em duas; num segundo momento, o PCP foi reconstituído como um partido de novo tipo pelo presidente Gonzalo, e o revisionismo foi expurgado; e num terceiro momento, o PCP entrou em cena para liderar a Guerra Popular, um marco transcendental que mudou radicalmente a história ao dar o salto qualitativamente superior de tornar a conquista do poder uma realidade por meio da força armada e da Guerra Popular. Tudo isso apenas comprova o aspecto político do capitalismo burocrático, raramente enfatizado, mas que o presidente Gonzalo considera a questão fundamental. O capitalismo burocrático amadurece as condições para a revolução e, hoje, ao entrar em sua fase final, amadurece as condições para o desenvolvimento e a vitória da revolução. É também muito importante observar como o capitalismo burocrático é moldado pelo capitalismo monopolista não estatal e pelo capitalismo monopolista estatal; essa é a razão pela qual ele diferencia as duas facções da grande burguesia (a burocrática e a compradora), para evitar seguir uma ou outra — um problema que levou nosso Partido a 30 anos de táticas equivocadas. É importante entender isso dessa forma, pois a apropriação do capitalismo burocrático pelo Novo Poder leva à conclusão da revolução democrática e ao avanço rumo à revolução socialista. Se apenas o capitalismo monopolista estatal for o alvo, o capital monopolista não estatal permanecerá livre, e a grande burguesia compradora continuará economicamente capaz de se impor para usurpar a liderança da revolução e impedir sua transição para a revolução socialista. Além disso, o presidente Gonzalo generaliza que o capitalismo burocrático não é um processo peculiar à China ou ao Peru, mas que decorre das condições tardias em que os vários imperialistas subjugam as nações oprimidas da Ásia, África e América Latina, num momento em que essas nações oprimidas ainda não destruíram os vestígios do feudalismo — muito menos desenvolveram o capitalismo. Em síntese, a questão fundamental para compreender o processo da sociedade peruana contemporânea e o caráter da revolução reside nesta tese marxista-leninista-maoísta do Pensamento de Gonzala sobre o capitalismo burocrático, uma contribuição para a revolução mundial que nós, defensores do marxismo-leninismo-maoísmo e do Pensamento de Gonzala, abraçamos firmemente. Citamos na íntegra este trecho do documento do PCP “Linha da Revolução Democrática”, do Primeiro Congresso, devido à importância fundamental que este tema tem para os comunistas do mundo. A respeito disso, há outra questão de suma importância para a realização da revolução democrática e para a superação dos três obstáculos que nos oprimem, portanto, devemos prosseguir com a citação do Presidente Mao discutida no mesmo artigo da Voz do Povo , que diz: “Além de eliminar os privilégios especiais do imperialismo na China, a tarefa da nova revolução democrática interna é abolir a exploração e a opressão da classe latifundiária e da classe burocrata-capitalista (a grande burguesia), transformar as relações de produção compradora e feudal e libertar as forças produtivas. A pequena burguesia superior e a média burguesia, oprimidas e prejudicadas pelos latifundiários e pela grande burguesia e seu poder estatal, podem participar da nova revolução democrática ou permanecer neutras, embora sejam elas próprias burguesas. Elas não têm, ou têm relativamente poucos, laços com o imperialismo e são a verdadeira burguesia nacional. Onde quer que o poder estatal da Nova Democracia se estenda, deve protegê-las com firmeza e sem hesitação. Nas áreas de influência de Chiang Kai-shek, há um pequeno número de pessoas entre a pequena burguesia superior e a média burguesia, a ala direita dessas classes, que têm tendências políticas reacionárias, espalham ilusões sobre o imperialismo estadunidense e a camarilha reacionária de Chiang Kai-shek e se opõem à revolução democrática popular. Enquanto suas tendências reacionárias puderem afetar as massas, devemos desmascará-las perante o povo sob sua influência política, atacar essa influência e libertar as massas dela. Mas o ataque político e a aniquilação econômica são duas coisas diferentes, e cometeremos erros se as confundirmos. A nova revolução democrática visa eliminar apenas o feudalismo e o capitalismo monopolista, apenas a classe latifundiária e a classe burocrata-capitalista (a grande burguesia), e não eliminar o capitalismo em geral, a pequena burguesia superior ou a burguesia média.” (. Mao, Obras escolhidas, T. IV, LA SITUACIÓN ACTUAL Y NUESTRAS TAREAS, VI, págs. 170-171) A propósito, o Presidente Gonzalo nos lembra que a tarefa de aplicar o marxismo ao estudo do desenvolvimento do capitalismo na agricultura coube a Lenin, e que o caminho camponês foi extraordinariamente estudado e desenvolvido pelo Presidente Mao. E ele nos diz: Ao recorrermos a [Lênin], encontramos uma base sólida, a partir da concepção da classe trabalhadora, sobre a qual podemos julgar uma questão tão substancial. Em O Programa Agrário da Social-Democracia na Revolução Russa, no Volume XV de suas Obras Completas, Lênin nos ensina que: “ Este desenvolvimento num país capitalista pode ocorrer de duas maneiras diferentes . Ou os latifúndios permanecem e gradualmente se tornam a base da economia capitalista na terra . Este é o tipo prussiano de capitalismo agrário, no qual o Junker é o senhor da situação. Durante décadas inteiras, continuam tanto o seu domínio político quanto a opressão, a degradação, a pobreza e o analfabetismo do camponês. As forças produtivas desenvolvem-se muito lentamente ou então a revolução varre as propriedades rurais . A base da agricultura capitalista passa a ser o agricultor livre em terra livre, isto é, terra livre de toda a burocracia medieval. Este é o tipo americano de capitalismo agrário e o desenvolvimento mais rápido das forças produtivas em condições mais favoráveis ​​para a massa da população do que quaisquer outras sob o capitalismo.” “ Na realidade , a luta em curso na revolução russa não se centra na “socialização” e em outros absurdos dos narodniks — isto é mera ideologia pequeno-burguesa, discurso pequeno-burguês e nada mais — mas sim no caminho que o desenvolvimento capitalista da Rússia irá seguir: o “prussiano” ou o “americano” . Sem compreender esta base económica da revolução, é absolutamente impossível entender qualquer coisa sobre um programa agrário” “Todos os Cadetes (partido da grande burguesia) fazem o possível para obscurecer a essência da revolução agrária… Os Cadetes confundem (“reconciliam”) os dois principais tipos de programa agrário na revolução — o latifundiário e o camponês. Então (também em poucas palavras): na Rússia, ambos os tipos de evolução agrária capitalista já se manifestaram entre 1861 e 1905 — tanto a prussiana (o desenvolvimento gradual da economia latifundiária na direção do capitalismo) quanto a americana (diferenciação do campesinato e rápido desenvolvimento das forças produtivas…)” (O itálico é do original. O sublinhado é nosso, assim como nas citações anteriores, ou seja, no original do Voz Popular). Aqui, os dois caminhos no campo são magistralmente delineados — o campo, que é a “base econômica da revolução”, de onde devemos partir e que não podemos, de forma alguma, contornar. Mas isso não é tudo. Lênin estabelece uma relação entre esses dois caminhos econômicos e os caminhos políticos. Na mesma obra, ele afirma: “A verdadeira questão histórica que o desenvolvimento histórico e social objetivo nos coloca é: um tipo de evolução agrária prussiana ou americana? Uma monarquia de latifundiários com a folha de figueira de uma constituição falsa, ou uma república camponesa (dos agricultores)? Fechar os olhos a tal constatação objetiva da história significa enganar a si mesmo e aos outros, escondendo-se de maneira filisteia da aguda luta de classes, da apresentação aguda, simples e decisiva da questão de uma revolução democrática.” “Não podemos nos livrar do “Estado burguês”. Somente filisteus pequeno-burgueses podem sonhar com isso. Nossa revolução é uma revolução burguesa precisamente porque a luta que nela se trava não é entre socialismo e capitalismo, mas entre duas formas de capitalismo, dois caminhos de seu desenvolvimento, duas formas de instituições democrático-burguesas. A monarquia dos Octubristas ou dos Cadetes é uma “democracia” burguesa “relativa”, do ponto de vista do menchevique Novosedsky. A república proletária-camponesa também é uma democracia burguesa. Em nossa revolução, não podemos dar um único passo — e não demos um único passo — que não tenha apoiado, de uma forma ou de outra, um setor ou outro da burguesia contra a velha ordem.” Esta grande tese de Lenin é essencial para a compreensão do problema agrário no contexto da revolução democrática nacional; contudo, em nosso país, há quem considere que esses dois caminhos já não são válidos nos dias de hoje, o que é um grande equívoco que apenas serve para obscurecer a questão e encobrir o apoio a medidas agrárias latifundiárias. O que se poderia afirmar é que tal caminho se desenvolve hoje sob novas condições: o desenvolvimento do capitalismo burocrático e o uso de formas cooperativas e associativas em geral. O caminho camponês foi extraordinariamente desenvolvido e estudado por Mao Tsé-Tung, sobre o Governo de Coalizão, capítulo O Problema da Terra. Desejamos esclarecer que as três montanhas que nos oprimem estão indissoluvelmente ligadas; por essa razão, elas constituem o alvo da revolução democrática, os alvos contra os quais lutamos indissoluvelmente. O que a revolução democrática visa liquidar não é o capitalismo em geral, mas o capitalismo burocrático; ela não se dirige contra a burguesia em geral, mas contra a grande burguesia, tanto as facções compradoras quanto as burocráticas. Como já foi dito muitas vezes, uma revolução burguesa de novo tipo é liderada pelo proletariado, porque a burguesia se tornou uma classe decadente e obsoleta, e em nossos países não existe, nem nunca existiu, uma burguesia média/nacional suficientemente forte para assumir o papel de liderança. Por essa razão, como o desenvolvimento dos países oprimidos nas últimas décadas nos mostrou, sua “modernização” segue o caminho latifundiário ou prussiano de lenta evolução rumo ao capitalismo (semifeudalismo) baseado no latifúndio e em novas formas de servidão. Isso resulta no desenvolvimento de um capitalismo burocrático completamente subordinado às exigências do imperialismo, deformando o desenvolvimento econômico desses países e impedindo o desenvolvimento de uma economia nacional a serviço das classes que constituem as massas nesses países. Enquanto não concluirmos a revolução democrática por meio da Guerra Popular para a conquista do poder em todo o país, esse caminho de lenta evolução se manterá indefinidamente; não chegará à sua conclusão como na Alemanha, porque nos encontramos na época do imperialismo (principalmente o imperialismo ianque, no nosso caso, e, em outros casos, o imperialismo principal correspondente que os oprime). O mais importante para nós é que o capitalismo burocrático amadureça as condições para a revolução, e o que se faz necessário é um Partido Comunista Marxista-Leninista-Maoísta para iniciar e desenvolver a Guerra Popular a fim de levar a revolução democrática à sua conclusão. (1) Lenin: O imperialismo, a fase superior do capitalismo, Zurique, 1916. (2) RELATÓRIOS SOBRE COMÉRCIO E INVESTIMENTO DO G20, setembro de 2013, OMC, OCDE e UNCTAD), citações: A expansão das operações das empresas multinacionais por meio de investimento estrangeiro direto (IED) tem sido um dos principais motores do crescimento das cadeias globais de valor (CGVs), como ilustrado pela estreita correlação entre os estoques de IED nos países e sua participação nas CGVs (Figura 2). A presença de filiais estrangeiras é claramente um fator importante que influencia tanto o conteúdo importado nas exportações quanto a participação em redes internacionais de produção. (p. 9) (3) Relatórios citados acima: Em um mundo de Cadeias Globais de Valor (CGVs), fomentar a construção de uma cadeia de valor completa é uma tarefa gigantesca. No entanto, mesmo quando isso não é o ideal ou sequer possível, os governos podem, ainda assim, incentivar as empresas a ingressarem em uma cadeia de valor global já existente, que pode apresentar baixas barreiras de entrada e permitir que as empresas alcancem sucesso nas exportações de forma relativamente rápida e a baixo custo. De fato, isso pode proporcionar maiores oportunidades: em vez de serem obrigadas a desenvolver indústrias verticalmente integradas (produzindo tanto produtos intermediários quanto produtos finais), as empresas podem se tornar competitivas no mercado exportador especializando-se em atividades e tarefas específicas. Por exemplo, a China especializou-se na montagem de produtos finais na indústria eletrônica e tornou-se a maior exportadora de produtos de TIC: outros países especializaram-se na montagem de produtos intermediários (como subsistemas para veículos automotores no México), na produção de peças e componentes ou em serviços, e.g. India. (p. 20) (4) Relatório Mundial de Investimentos da UNTAD 2010, citado em “Cadeias de Valor Globais”, citado por Aaron Sydor em “Cadeias de Valor Globais”, Assuntos Externos e Comércio Internacional do Canadá, Pesquisa de Politica Comercial 2011. (5) Relatório de Investimento Mundial da UNTAD 2010 citado acima. (6) Kurt Hübner Der Globalisierungskomplex, Pesquisa, Berlim, Sigma Publishing House, 1998. (7) Lênin, obra citada. (8) Hans-Dieter Ever, Documento de Trabalho nº 14, Sequencial padrões de formação de grupos estratégicos e mudança política no Sudeste Asiático, Universidade de Bielefeld, Faculdade de Sociologia, Bielefeld, Alemanha, 1982. (9) Ob. Cit. Página 13 (10) Ob. Cit. Página 3 (11) Op. Cit. Página 21 (12) Op. Cit. Página 22 (13) Patrick Köllner, “JAPANS TECHNOLOGIETRANS-FER NACH SÜDKOREA: ENTWICKLUNGSTEN-DENZEN UND PROBLEMPUNKTE”, página 298. (14) Zur Entwicklung der koreanischen Automobilindus-trie (sobre o desenvolvimento da indústria automóvel coreana) Institut für Sozialwissenschaftliche Fors-chung eV ISF Münchenn, p. 75. (15) (3.4. Fallstudien von taiwanisch-japanischen Joint Ventures na China…duepublico.uni-duisburgessen. de/servlets/DerivateServlet/…/kap3_4.pdf de JM Gerken – 2000 – Vorgehensweise und Zielsetzung der Firmeninterviews. A transferência de um pacote FDI. (16) Lênin, op. cit. (17) Lênin, op. cit. 18. A maioria dos projetos de investimento em Taiwan foi realizada por japoneses (2.991 casos de investimento, entre 1952 e 1997). Um quarto do capital de investimento estrangeiro provém do Japão (US$ 7,42 bilhões em investimentos, entre 1952 e 1997). Cerca de um quarto (28%) do investimento direto total do Japão destina-se à indústria elétrica (capital investido no valor de US$ 2,02 bilhões, 1952-1997). Oito dos onze fabricantes taiwaneses de montagem final de automóveis trabalham com parceiros japoneses em joint ventures. Os taiwaneses possuem atualmente um capital de investimento total de US$ 30 bilhões (1983-96) e são o segundo maior investidor na China, depois de Hong Kong. Esses investimentos aumentaram consideravelmente desde o início da década de 1990. A maioria dos investimentos taiwaneses na China está concentrada de acordo com o capital, como pode ser observado por diversos exemplos nos setores de eletrônicos e eletrodomésticos (capital investido: US$ 2,03 bilhões; número de investimentos: 2.778 casos entre 1991 e 1997). A respeito disso, outro acadêmico burguês, Hübner, afirma: “O Japão investiu não apenas na Coreia e em Taiwan, mas em toda a região: no Leste, Sul e Sudeste Asiático. Na segunda metade da década de 1980, aumentou seus investimentos na Indonésia, Malásia e Tailândia. Graças ao investimento direto japonês, a Malásia tornou-se a maior exportadora de equipamentos de ar condicionado e já é uma das principais produtoras de semicondutores. A construção de uma rede de produção global-regional por parte dos investidores japoneses ocorreu – do ponto de vista estratégico – de duas maneiras: investimentos diretos acompanhados de empréstimos e doações públicas destinadas obrigatoriamente à infraestrutura da região. (Essa estratégia de duas vertentes não foi adotada apenas pelo Japão… A União Europeia também criou um amplo programa para promover o investimento direto na região asiática…” (Kurt Hübner, Der Globalisierungskomplex , Edition sigma, Berlim, 1998, p. 180-181) Hübner também afirmou que “o investimento direto foi, antes de tudo, um importante motor de crescimento para Singapura e Malásia. Em média, entre 1986 e 1991, esses investimentos representaram 24,4% e 9,7% da participação na formação bruta de capital interno desses países.” Essa tendência em todos esses países continuou a se desenvolver até os dias atuais. A luta entre os monopólios e os países imperialistas por esse mercado se intensifica, transformando o país cada vez mais em um campo de disputa interimperialista, como demonstram os investimentos realizados em Taiwan por meio das Ilhas Britânicas do Caribe (um paraíso fiscal pelo qual o capital financeiro imperialista segue um caminho indireto para superar os diversos tipos de barreiras que possa encontrar). Também será necessário observar o imenso poder financeiro detido pelo imperialismo holandês, conforme evidenciado pelos dados estatísticos. O fim do período entre crises, ou seja, entre 1998 (crise econômica asiática) e 2008 (crise financeira global), nos fornece os seguintes números para Taiwan: O volume total de investimentos diretos estrangeiros (IDE) em Taiwan em 2009, de US$ 56 bilhões, somado aos US$ 4,789 bilhões recebidos naquele ano, representou uma queda de 41% em relação ao ano anterior. Desse total, 19,5% corresponderam aos EUA, 17,1% à Holanda, 17,5% ao Caribe Britânico, 15,2% ao Japão, entre outros. Os principais setores em que foram realizados investimentos em 2010 foram: setor financeiro e de seguros (20,2%), componentes eletrônicos (15%), comércio atacadista e varejista (5,8%), engenharia elétrica (5,2%) e telecomunicações (5,1%) (“Investimento Direto Estrangeiro (IDE) em Taiwan”, Taiwan, Informações Básicas, Escritório Econômico Alemão em Taipei). Em 2012, o investimento estrangeiro direto (IED) cresceu 12% em comparação com 2011, ou seja, mais de US$ 5,5 bilhões. O setor financeiro registrou novamente o maior volume de IED, seguido pelo comércio e produção de componentes eletrônicos, entre outros. Nesse ano, o percentual de investimento das Ilhas Britânicas do Caribe e da Holanda aumentou 25% e 21%, respectivamente, ficando abaixo da participação dos EUA e do Japão, segundo informações da mesma fonte de 31 de janeiro de 2013. A Alemanha ocupou a 17ª posição na lista. (Mais investimentos estrangeiros em Taiwan, Finanças e Seguros no Centro de Interesse. Aumento dos investimentos da e para a Alemanha, GTAI). Como se pode observar pelos dados complementares, a tendência observada entre 1952 e 1997 manteve-se essencialmente constante, com as correspondentes variações quantitativas. Logicamente, é o imperialismo estadunidense que lidera os investimentos acumulados, tanto neste país como em toda a região, seguido de perto pelo imperialismo japonês, e depois pelos demais países imperialistas. A isto soma-se o domínio dos bancos imperialistas (principalmente os ianques), das transações interbancárias, dos títulos, dos contratos futuros, dos empréstimos subprime, do mercado hipotecário, etc., etc. (a lista é extensa). Além disso, é preciso levar em conta que os investimentos desses dois países imperialistas “estão mais consolidados e tiveram tempo suficiente para se posicionarem estrategicamente”. Pelo que observamos, não houve nenhuma mudança na dominação dos EUA, nem na dominação japonesa — que, em meio a conluios e disputas, está em declínio; isso é o que deve ser levado em consideração em relação às mudanças de forças que estão ocorrendo nesta região do mundo. 19. Mais investimentos estrangeiros em Taiwan, Finanças e Seguros no Centro de Interesse. Aumento dos investimentos da e para a Alemanha, GTAI 20. A situação do investimento taiwanês na China, segundo dados de 2012 (Empresários taiwaneses repensam suas estratégias de investimento. A atratividade da China continental diminui / Investimentos em Taiwan são uma alternativa / por Jürgen Maurer (Câmara de Comércio Alemã no Exterior): “Taipei (gtai) 10.09.2012 […] Entre 1991 e 2011, segundo estatísticas oficiais, um investimento taiwanês de aproximadamente US$ 112 bilhões foi autorizado na China continental. De acordo com a Comissão de Investimentos do Ministério de Assuntos Econômicos, US$ 47,1 bilhões foram investidos nas indústrias elétrica e eletrônica. Mas, considerando fontes não oficiais, bem como a circulação monetária por meio de terceiros países, somas muito maiores são reveladas.” Por essa razão, é importante observar o papel intermediário efetivo desses “ investimentos taiwaneses ” . No estudo de caso de 14 empresas, segundo a investigação citada, a partir da parte que se refere a Taiwan, sobre “ os motivos do investimento nipo-taiwanês na China ”, lemos: “Comparação dos principais motivos dos investidores japoneses em Taiwan com os dos investidores nipo-taiwaneses na China. A avaliação do estudo de caso (1998) confirma que os principais motivos das empresas japonesas que investem em Taiwan coincidem com os dos investidores taiwaneses na China. Ambos são motivados pelos menores custos de mão de obra no país de destino e pela busca de acesso ao mercado local. Alguns empresários japoneses relataram que, por meio de suas subsidiárias taiwanesas, desejam abrir novos mercados no Sudeste Asiático e na China […]. Por parte dos investidores japoneses, existem novos planos que vão além de subprojetos de investimento em Taiwan. Resumo: Comparação dos principais motivos dos investidores japoneses em Taiwan […] grandes projetos com a indústria automobilística.” 21. “3. Estrutura societária das subsidiárias japonesas em Taiwan. Pontos-chave que demonstram a permissão para que os parceiros taiwaneses participem da filial taiwanesa: Os japoneses podem deter menos de 50% da empresa. Os taiwaneses participam ativamente na gestão e na produção. Em alguns casos, os taiwaneses conseguem uma integração harmoniosa da subsidiária japonesa em uma associação comercial taiwanesa. (Veja o exemplo da Atsugi Taiwan Motor Parts, Seção 3.4.2.1.) Da maneira mais simples possível, o lado taiwanês adquiriu as habilidades de gestão dos japoneses. Sua próxima prioridade foi obter o conhecimento específico do processo. Os japoneses estavam dispostos a disponibilizar o desenvolvimento de sua organização para o lado taiwanês. O conhecimento específico do produto pôde ser adquirido pelos taiwaneses apenas de forma limitada. Apesar da falta de conhecimento específico do produto, os taiwaneses puderam fornecer serviços de apoio à produção na área. Normalmente, o lado taiwanês tem acesso a uma clientela própria. Além disso, uma maior “independência” ou “indigenização” (“taiwanização”) da subsidiária significa uma descentralização do capital e da gestão, a fim de expandir e centralizar ainda mais o poder da empresa matriz (japonesa, neste caso; é assim que os monopólios imperialistas atuam em busca da dominação mundial). O IDE japonês, agora metamorfoseado, retorna ao mercado japonês ou vai para outro mercado imperialista, utilizando produtos de menor custo para competir com seus rivais no próprio Japão ou em outro país imperialista, como fica claro no estudo citado. “4. O desenvolvimento de investimentos subsequentes: É evidente, pelas entrevistas com as empresas, que a parte taiwanesa, como parceira de uma empresa japonesa (Joint Venture), gradualmente conquistou uma posição independente em uma Joint Venture na China. Os parceiros e funcionários taiwaneses conseguiram se identificar com a empresa fundada pelos japoneses. Em todas as subsidiárias, houve taiwanização com a absorção de conhecimento específico do produto, processos e gestão. Quanto menor a participação japonesa na criação dessa subsidiária, mais rápida a taiwanização da empresa e mais cedo a empresa também desenvolveu sua própria estratégia de negócios. Isso significa que o lado taiwanês lida ativamente com o produto japonês e vê as oportunidades que ele oferece para seus próprios projetos de investimento na China. Algumas das principais empresas taiwanesas de hoje, como a Acer e a Sampo, começaram como parceiras OEM de empresas japonesas e como distribuidoras gerais de produtos japoneses. Mesmo hoje, uma pequena participação acionária dos parceiros japoneses nessas empresas permanece. A Sumitomo Trading detém 0,5% do capital social da Acer e a Sharp detém 8,51% da Sampo. As empresas taiwanesas desse grupo absorveram muito rapidamente o conhecimento específico do produto e do processo e começaram a Desenvolver seus próprios produtos, além de produzir os dos japoneses. A cooperação técnica e as relações com os japoneses permitem que essas empresas construam uma segunda base própria. No período seguinte, elas conseguiram estabelecer gradualmente sua própria marca, seguindo a japonesa, pois possuem suas próprias redes de produção. O relacionamento com o parceiro japonês não foi abandonado. Pelo contrário, as relações de distribuição na rede permanecem muito estreitas. O poder de mercado dos japoneses inclui sua disposição em aceitar produtos taiwaneses e sua liderança tecnológica na produção de máquinas e componentes eletrônicos de alta qualidade. Portanto, o sucesso de seus negócios se baseia, em parte, na cooperação com as empresas matrizes japonesas. No entanto, a independência da empresa é grande o suficiente dentro desse grupo para que ela empreenda, por iniciativa própria, suas atividades de investimento na China, o que, por sua vez, fortalece sua posição em relação aos japoneses ” (já citado em “Estudos de caso”). Isso fica ainda mais claro quando lemos o item 6: “ Os casos apresentados confirmam a impressão de que as empresas taiwanesas do ramo de eletrônicos e elétricos e de autopeças aprenderam a reagir rapidamente a pequenos pedidos. Para esse fim, bases de produção também foram estabelecidas na China”. E como essas empresas “taiwanesas” operam na China? Seguindo o exemplo de sua matriz: “5. A transferência de tecnologia específica de processo e produto para a China.” Substituição de produtos simples e padronizados. Os exemplos demonstram que está sendo buscada uma transferência completa de produtos padronizados. Em um dos casos, essa transferência já foi concluída. As maiores empresas mantêm em Taiwan os produtos de alto valor agregado. […] 6. Melhorias tecnológicas do produto e do processo específico para a transferência para a China […] No presente exemplo, não foi possível identificar melhorias na tecnologia do produto ou nos processos específicos. No nível microeconômico de algumas subsidiárias, não foram encontrados processos de adaptação ou mudanças no desenvolvimento da mão de obra […] 7. Impacto do investimento subsequente na recém-fundada joint venture taiwanesa-japonesa na China. Os exemplos mostram que a subsidiária taiwanesa-japonesa recém-criada na China reproduz um produto maduro, suficientemente padronizado, da gama oferecida pela subsidiária japonesa em Taiwan […] Grandes empresas taiwanesas, como a Acer e a Sampo, alinham seus projetos de investimento ao padrão típico de grandes empresas, que transferem a produção de produtos simples e padronizados para países com custos mais baixos. Esses produtos incluem componentes eletrônicos, dispositivos periféricos e bens de consumo simples. Ao mesmo tempo, essas empresas retêm os subprodutos de maior qualidade no país de origem

sábado, 20 de dezembro de 2025

Campo, Um Poderoso Fermento Revolucionário

O Campo, um Poderoso Fermento Revolucionário - dezembro 19, 2025 Escrito Original Por: Partido Comunista Sol Rojo - Equador Disponibilizado Por: A Nova Democracia Tradução Por: Soichiro A contradição principal de nosso tempo se desenrola entre o imperialismo de toda laia, especialmente, o ianque, e as nações oprimidas do mundo. As potências imperialistas competem e as vezes, conspiram para repartir territórios, recursos e rotas; no entanto, o jogo decisivo dessa contradição é o Terceiro Mundo, cenário onde se concentram as guerras, ocupações, bloqueios e contrarrevoluções. Aqui estão, entre outros, Palestina, Síria, Líbano e Yemen; Afeganistão, Iraque e Líbia; Sudão e Sudão do Sul, Etiópia e Somália no Chifre da África; Mali, Nigéria e Burkina Faso; a República Democrática do Congo e Moçambique; o Saara Ocidental e Haiti. Na Ásia se estendem conflitos e resistências em Mianmar, Bangladesh, Paquistão, Índia, Filipinas e Papua Nova Guiné; na Ásia Ocidental sediam Irã, e na Turquia e Curdistão persiste com suas guerras multiformes ou híbridas. Na América Latina os tambores de guerra, sanções e ingerências retomam sobre Cuba, México e Venezuela, a militarização e a guerra interna atravessam Colômbia, Peru, Equador, Haiti e amplas faixas da América Central e o cenário náutico de convergência no Caribe. Nesse quadro, as guerras populares que apontam ao Poder como as que desenvolvem na Índia, Turquia, Filipinas e no Peru; e as guerras de libertação nacional em outros países, expressam uma lei inelutável: onde o imperialismo estrangula e embate, as massas aprendem no curso da guerra a combater, levantando as bandeiras da guerra justa contra a guerra injusta. Em muitos lugares, armadas de maneira precária e rudimentar, as massas transbordantes de otimismo põem o peito e a cota à ameaça nuclear, tecnológica e numérica que o imperialismo pretende aplicar factualmente. Nesse sentido, nos corresponde converter a indignação em organização, a defesa em ofensiva e a crise em oportunidade estratégica para abrir um passo à derrota do imperialismo e seus lacaios, e impor a Nova Democracia, que é a ditadura conjunta de operários-camponeses e pequena burguesia, sendo centro o proletariado: e, sobre suas conquistas e transformações, ao socialismo. Sujeitos à essa análise, podemos entender da melhor maneira a agressiva presença do imperialismo ianque na América Central e Sul; : sua ameaça de invadir Venezuela, estrangular a Colômbia e pôr em funcionamento, a seu favor, a máquina latifundiária do velho Estado do Equador, em um contexto de luta que mantém com Rússia e China e, de fato, com alguns países da Europa. Nesta ofensiva ianque, o Equador, e nele, o governo fantoche de Noboa, é um papel importante na medula desse esquema. Não é gratuito o processo de fascistização de Noboa, suas pretensões legais para reformar ou gerar uma nova constituição, cujo o centro é apoiar a presença de bases militares estrangeiras (não russa, chinesa, ou de qualquer outro país, aspecto que também será rechaçado e combatido), senão ianque, especificamente; entretanto conceder super poderes ao governo e as FFAA, que, precisamente neste momento, são absolutamente controlados pelos EUA e Israel. Quando aprendemos que Noboa é fascista e marionete, nos redimimos aos fatos; sobretudo, marionete, porque sua condição de fascista deriva de sua posição servil ao imperialismo. Basta ver que, pela primeira vez, Equador, dá mão a Cancillería, dirigida por um agente do sionismo internacional, se absteve ante a ONU de votar contra o criminoso bloqueio a Cuba; mas isso sim, declarou a Hamas, Hezbollah e a Guarda Revolucionária do Irã como organizações “terroristas” seguindo o mandato dos EUA. Isto deve entender em sua verdadeira dimensão: servilismo, testa de ferro político de Noboa e, sobretudo, a crescente incidência política dos EUA no país. É dizer, pouco a pouco que estamos perdendo essa relativa independência política que acreditam que temos e que nos caracteriza como um país semicolonial/semifeudal. O Equador atual é uma sociedade semicolonial e semifeudal. Quando dizemos que é semifeudal, não estamos dizendo que não tem capitalismo; o que queremos dizer é que o imperialismo se desenvolveu, de maneira tardia, um capitalismo atado aos interesses dos grandes latifundiários na segunda metade do século XIX; que isso, antes e hoje, não tem intenção alguma de eliminar esses remanescentes feudais, senão de evolui-los a novas formas. Capitalismo (burocrático) que não desenvolve as forças produtivas, que fomenta a indústria nacional, mas sim que é entregue ao imperialismo, fundamentalmente ianque. Que é quem delineia as formas e relações de produções próximos a seus interesses. Esse capitalismo está em crise, doente, manco, cujas contradições não se resolvem pensando em “levantes” ou rebeliões circunstanciais, conjunturais, mas também com um programa e processo revolucionário profundo, dilatado, com correta direção ideológica e com guerra popular. Entender isto é fundamental para uma apropriada compressão das dinâmicas de luta no país, particularmente no campo, onde o papel do campesinato pobre tem sido determinante, sobretudo nos três últimos levantes populares. Nós, os comunistas, não concebemos a sociedade como um todo delimitado por raças, grupos étnicos, nacionalidades ou de atores que promovem as reivindicações de gênero. Nós concebemos a sociedade a partir de uma análise materialista histórico-dialético e que, por ele, prevalecerá sempre a análise de classe: sua composição, campos e contradições. Nesse sentido, observamos camponeses e sua relação com os meios de produção; as relações de produção; no fato de que, na atualidade, alguns camponeses que estão alinhados com reivindicações étnicas, sendo o principal, sua condição de camponês pobre, sem-terra; outros que, de lavrar terra alheios, também se tornam, eventualmente em mineradores artesanais; aspectos que determinam a particularidade e diversidade de centros de contradição no âmbito produtivo. Entendemos que, ao não se haver materializado a revolução democrática-burguesa de velho tipo; o campesinato pobre é a classe que se torna a mais explorada já que está imerso e atrelado a relações de produção pré-capitalistas ou, dizendo de maneira mais clara, feudais e semifeudais. Com esses antecedentes queremos centrar-se em aspectos contextuais do país. Tem culminado o levante indígena-popular depois de 31 dias de crítica e incansável luta; uma briga na qual as massas, se mobiliza-se, tem posto sua gota de sangue: mortos, feridos, mutilados; além do mais, detidos e perseguidos. Igual nos levantes de 2019 e 2022, as massas camponesas foram a força principal da mobilização, acompanhadas por operários, estudantes, comerciantes e setores populares que se rebelaram com determinação contra governos que, como o atual, tem ignorado os interesses da grande maioria. É bom dizer, que nessas rebeliões, o campesinato tem sido a força principal. Esse ciclo demonstra que o campo continua sendo um “poderoso fermento revolucionário” e que, ao estabelecer correta aliança de classes com operários e demais massas exploradas, nesses contextos e formas de luta, se converte em uma força capaz de desestabilizar o velho Estado. A combatividade das bases do movimento indígena-camponês, mas além do discurso etnocultural da direção oportunista que tem focalizado o vórtice das contradições existentes no campo na pluriculturalidade, os direitos coletivos e a defesa do “território”, subsumindo a contradição principal: massas-semifeudalidade, que tem rosto e voz própria: camponeses sem terra ou com pouca de mal qualidade; produção artesanal como estratégia de subsistência; mutação cíclica do campesinato pobre em semiproletariado na miséria informal, servilismo, expropriação de terras e migração forçada. Todas, expressões na mais abjeta semifeudalidade que mantém o campesinato, seja este “indígena” ou não ao limite da rebelião. Isso é o que tem que ver e processar. O movimento indígena, incentivado por sua direção, fala de “territorialidade”; no entanto, em seu seio coexistem latifúndios e minifúndios: tem terras em mãos de membros da comunidade, mas também grandes extensões controladas por latifundiários nacionais e estrangeiros. Curiosamente, os indígenas/camponeses que habitam os chamados 'territórios', que na verdade são propriedades privadas, minifundios, são os peões, lavradores, e trabalhadores dos grandes latifúndios que estão dentro dessas circunstâncias. O latifundiarismo, no lugar de diminuir se tem incrementado. Há exemplos de sobra: o consórcio dos Wong, ex-ministro do interior de Noboa, concentra ao redor de 30.000 hectares em Guayas (Marcelino Maridueña); em Esmeraldas e Santo Domingo dos Tsáchilas com cerca de 300.000 hectares de dendezeiro estão em mãos de um punhado de proprietários; o consórcio Nobis, do próprio Noboa, possue terras em distintos pontos do país; a açucareira Valdez administra cerca de 10.000 hectares; além de extensas fazendas bananeiras. Em Cotopaxi, Aglomerados Cotopaxi e Durini somam aproximadamente 19.000 hectares em pleno coração do que a CONAIE denomina “territórios indígenas”. A isso se adiciona os milhares de hectares da fazenda Fukurama, sim, a mesma denunciada por práticas de escravidão em pleno século XXI. Os jornalistas, aconchegados, arrendatários e trabalhadores que trabalham nestes prédios costumam estar submetidos a relações de trabalho de corte feudal ou semifeudal. Os pescadores de camarão têm em seu poder 233.000 hectares, a mesma quantidade de terras com as que tem 1.800.000 camponeses pobres. A este “fenômeno”, devemos somar os milhões de hectares entregadas as grandes empresas mineradoras; veículo que tem gerado uma nova corrente de latifundiários vinculados a estas transnacionais da mineração, cenários onde as massas camponesas pobres são despojadas violentamente de suas pequenas parcelas, além do mais, são quem põe o trabalho, e também a vida, ante os desaforos e violência estatal, para estatal e assassinos. Além da alta concentração extrema da terra: prédios individuais ou consorciados de 10.000, 20.000 ou 30.000 hectares apresenta a monocultura e controle de cadeias completas: cana, coco, banana e florestas com integração vertical (terra-processamento-exportação). Cenários com relações trabalhistas precárias ou servis: pago por tarefa, terceirização, endividamento com lojas internas, vivendo dentro de fazendas e imigrações forçadas. Recrutamento forçado de camponeses para trabalhar na mina; arrendamento de terra e trabalho sob a modalidade de “ao partir”. Controle de bens comuns e servidões: acúmulo de água, caminhos e servidões de passagem como segurança privada e criminalização de protesto. Captura reguladora e fiscal: vantagens normativas e logísticas que reforçam a concentração e dificultam a reforma agrária real. Estes dados, somados aos casos concretos citados, mostram que o problema não é só de “territorialidade” como consigna geral, vazia; senão de poder de classe sobre a terra e o trabalho, expressado em um regime que reproduz relações feudais e semifeudais em pleno século XXI. É essa questão que se deve preocupar a direção do movimento indígena, de que os camponeses vivem em condições precárias, que isso tem que eliminar, e que não se faz com consultas, com votos ou no casebre da Assembleia, não, impossível, isso se faz com violência revolucionária. Tem que acabar com o poder coronelista e para fazê-lo, tem que combater todas as formas de seus representantes, os caciques locais, aqueles camponeses vendidos ao coronelismo que são quem reproduzem o velho Estado nas relações de produção e os executores diretos dos processos de corporativização das massas camponesas. Nesse contexto, urge reconhecer que, ante a ausência da correta linha ideológica, a luta camponesa, sem rejeitar sua constância, sobre tudo em torno à necessidade de resolver o problema agrário, tem um certo caráter espontâneo, muitas vezes estimulado pela sua direção, a mesma que historicamente tem demonstrado que, além de traidora e oportunista, tem agenda própria, sem mais norte que o eleitoralismo e a burocratização do movimento indígena-indígena-camponês. Além, própria da incidência do trotskismo, sustentando por Iza e seus colaboradores, promovendo a ideia de lançar o movimento indígena a jornadas “insurrecionais”; pois consideram que é o mecanismo e forma de luta que permitiria que essas massas “conquistem o poder”. É algo assim como pretender seguir o caminho russo combinado com eleitoralismo e oras mentiras burocráticas. O último levante indígena-popular, como os anteriores, foi traído por sua direção; desta vez sob o mando de Marlon Vargas, um instável e covarde representante de uma plêiade de dirigentes que tem tido a mesma folha de rota: inicialmente com discurso radical, incendiário; posteriormente, amigável, conciliador com o governo e as classes dominantes, e o corolário, a cereja do bolo, terminam como candidatos presidenciais! Toda esta verborreia vai da mão de um “projeto” centrado no “comunismo indo-americano”, uma mentira que descontextualiza Mariátegui que se apresenta como uma releitura “originária” do marxismo para América Latina que privilegia o indígena/andino como núcleo civilizatório, que toma elementos soltos do Amauta, do indigenismo e do comunistarismo andino, e os combina com agendas que tratam de buscar programa no passado; que absurdamente desloca o eixo da luta de classes para uma identidade étnico-cultural, mistifica a “comunista originária” como forma superior 'pré-capitalista' e resolve examinar suas contradições internas (patriarcais, hierárquicas (caciques), mercantilização crescente). Sem crítica dessas relações, o “retorno ao comunitário” funciona como romanticismo restauracionista. Um comunismo “nem desenho nem cópia” que emite no seu núcleo, o fundamental: revolução agrária e socialista dirigida pela classe trabalhadora em aliança com o campesinato indígena. Nesta ocasião, Vargas, com o pretexto de “salvar a vida dos manifestantes” e de “preparar a campanha pelo NO na consulta popular”, desmobilizou as massas e as arremessou, uma vez mais, ao chiqueiro eleitoreiro. Não atuou só: contou com o apoio cúmplice de Lourdes Tibán, desde a Prefeitura de Cotopaxi, e de outros atores “indígenas” de ideologia domesticada que repetem, de forma cacofônica, que “só com trabalho podemos fazer com que o país melhore”. Estes cachorros do velho Estado substituíram o levante popular, pela campanha eleitoreira do NO na consulta popular. Temos que combatê-los, sem lugar às dúvidas. Por sua parte, o governo de Noboa, fascista, entreguista e tremendamente violento, tinha utilizado meios, táticas e estratégias vezes vistos para reprimir o povo. Já se tinha indicado: Noboa tinha convertido o Equador em um laboratório da nova linha militar do imperialismo com suporte sionista para neutralizar a insurreição e as lutas populares nos países do Terceiro Mundo. Não tinha economizado em bombardear com artilharia e aviões de guerra seus objetivos militares, como sucedeu em Imbabura e Azuay; mobilizar milhares de tropas escoltadas por veículos blindados, helicópteros de guerra e demais equipamentos militar para combater massas basicamente armadas com fogos de artifício, pedras e paus: expressões, sim, de luta, mas que, como sempre, resultam insuficientes para enfrentar a um inimigo que, sem consideração, reprime abjetamente o povo, sempre com o anúncio de dirigentes revisionistas e/ou oportunistas que tem servido de catalisadores para corporativizar às massas utilizando um grosseiro, e em certo modo, efetivo populismo baseado em bônus, dias de feriado no trabalho, presente de porcos, sorteio de veículos nos motins que organiza; e outras bugigangas que lembram as épocas do colonialismo espanhol, onde o espaço de então, tinha vindo em “bônus”. Hoje o velho Estado burocrático-latifundiário, sob o governo de Daniel Noboa, expressão concentrada da burguesia compradora e dos grandes latifundiários, se recompõe subordinado aos interesses do imperialismo ianque e do capital comercial e de intermediação financeira israelense. O país opera como lugar estratégico: logística militar, inteligência, penetração econômica e tecnológica. Não se trata de uma “desviação” conjuntural, senão de uma forma concreta de dominação semicolonial e de transição corporativa. O imperialismo exige “estabilidade”, “segurança” e “controle social” para sua expansão. Daqui as reformas de Noboa: incremento do IVA, eliminação de subsídios, privatização de setores estratégicos e endurecimento repressivo sob a retórica de “segurança nacional”, “luta contra o terrorismo” e a convocatória a uma nova Constituinte convertida, desde já, em um “cheque em branco” para o imperialismo e a reação. A atual constituição pouco ou nada serve às massas; muito menos à reação, eles, a reação, requerem uma constituição que avalie e projete o que já estão fazendo, um processo de militarização da velha sociedade onde o executivo e as FFAA contem com todo o Poder coercitivo e repressivo. Estas medidas correspondem a um reajuste geral corporativo do Estado nos planos econômico, político e ideológico. À ditadura de grandes latifundiários e grandes burgueses não lhe alcança bombardear dentro do país, reprimir, matar, encarcerar, perseguir e subornar pessoas; também necessita enche mão de seu discurso eleitoreiro. Agora combinam a violência e a repressão com a farsa eleitoral. Querem fazer-nos acreditar que, com a consulta popular, o povo escolherá uma nova Constituição, quando não é senão a expressão concentrada da política do velho Estado, do capitalismo burocrático e do imperialismo. Não é nada mais que isso. O que o povo recebeu com a Constituição de 2008? Nada! Como sempre nos explorado, oprimido, agredido e violentado; além disso, nós temos sufocados em sangue e nós temos visto forçados a migrar ou a morrer no intento. Agora nos querem impor outra Constituição. Mudará com relação à anterior? Possivelmente em suas formas, mas não corresponde ao proletariado, ao campesinato pobre é às demais massas exploradas avaliar um instrumento político que legítima ao velho Estado e o apresenta em sua versão mais “sutil” no terreno do sistema de governo. Povo do Equador, lembra: assistir às urnas, seja para escolher autoridades ou para uma nova Constituição, só avalia o atuado por todos os governos, particularmente por este último, sustentado na violência imperialista, a mentira e governar em função dos interesses da grande burguesia e dos grandes latifundiários O problema da constituinte não é um problema das massas; é um assunto das contradições inter-burguesas levado ao plano popular. Nós não negociamos a nossos mortos nas urnas nem caímos no papo dos oportunistas, dos eleitoreiros e dos vendedores de votos. Fortalecemos a organização, lutemos, preparemos e desenvolveremos a guerra popular: é o que devemos fazer. Não podemos nem devemos garantir o velho sistema eleitoreiro do país; não devemos participar na consulta, pelo contrário, devemos boicota-la. É algo que compromete aos princípios; é não fomentar um velho sistema de governo que nos faz acreditar que, participando nele, estamos definindo ou marcando as pautas da participação popular nos desígnios de um Estado que não nos pertence. Nessa perspectiva, o levante reabre mais uma vez o caminho histórico que deve ser qualificada da melhor maneira: cercar as cidades desde o campo. As jornadas em Imbabura, Cotopaxi, Chimborazo e Loja mostram uma aprendizagem profunda e já exposta em outras ocasiões: tem que destruir os “Kurakas”, os “caciques” da direção das organizações camponesas-populares e conceder as massas um instrumento que se ponha a frente de suas lutas, instrumento que não pode ser outro senão o Partido Comunista de Novo Tipo, que, sem rodeios nem cálculos oportunistas, impede toda a decomposição que envolve o campo popular. Estabelecer uma aliança de classe correta não significa negar as particularidades, e sim reconhecê-las e convertê-las em um organismo concreto e operativo, capaz de encarar as contradições que o governo gera e exacerba estruturalmente, e de avançar para a resolução das contradições fundamentais: nação contra o imperialismo; massas e campesinato contra à semifeudalidade e o coronelismo; e o povo contra o capitalismo burocrático da grande burguesia. Tudo isso sem perder de vista a colisão e luta entre burguesia compradora, hoje personificada por Noboa, e a burguesia burocrática, o Correísmo, cenário na qual se tem arrastado às massas, desviando-as de seus objetivos históricos. Tem que entender. As reivindicações indígenas não podem seguir nas mãos da direção ideológica da pequena burguesia, ou do nacionalismo burguês, é e será, sem lugar às dúvidas, uma tarefa do proletariado. A burguesia tem caducado como classe encarregada de levar as tarefas democráticas que compromete o indígena e o campesinato em geral; essa tarefa só pode ser concluída na revolução de Nova Democracia, transição ao socialismo. Povo do Equador: temos entrado em etapa de inflexão, carregada de nós críticos que freiam ou entorpecem as tarefas necessárias para abrir um passo à revolução de Nova Democracia. Não podemos seguir endossando o esforço vital das massas à oportunistas e traidores. A direção da CONAIE, Pachakutik e os sindicatos centrais tem reiterado, sem vergonha nem consequência, sua traição em favor do velho Estado; tem sido um dos obstáculos mais sérios para que se desate a tormenta da guerra popular de operários e camponeses. Nos interessa desmascara-los, localiza-los onde estão e destruí-los. Já disse o magistral Presidente Gonzalo: “arranquemos as ervas venenosas... expulsaremos essas sinistras víboras... estouremos esse pus, senão o veneno se espalhará. Venenos, purulência, devemos destruí-los.” O momento é difícil, sim, mas nós sustentamos um otimismo histórico que desborda travas e dificuldades. A rota é sinuosa e exige confrontar sem titubear ao inimigo: imperialismo, grande burguesia e grandes latifundiários, e também a seus operadores internos: caciques, oportunistas e revisionistas. A esta altura, nada fica fora do mapa: todos são peças da estratégia global do imperialismo e seus lacaios para manter o povo oprimido e explorado. Não arrastaremos às massas à mobilização sem uma classe dirigente nem uma ideologia que trazem o rumo. É inviável persistir em discursos frustrantes sobre “direitos coletivos” ou em saídas eleitoralistas que maquiam o continuísmo e conjuram qualquer transformação de fundo. Não se trata de “indianizar” o comunismo, mas sim de proletarizar ideologicamente o movimento indígena para, em sua agenda nacional, se considerem as contradições de classe existentes; que suas reivindicações se articulem com as de operários, camponeses e demais setores populares; só assim as lutas estruturais deixaram de ser explosões episódicas e se converteram em processos sustentados por mobilização, militarização e combate. Temos um cenário político favorável para a revolução. As condições históricas estão em seu ponto: devemos aproveitá-las. Devemos resolver todos os problemas políticos que teremos na frente com a luta armada: não tem outro caminho; é o que nos convém fazer. Sem um Partido Comunista que organize, eduque e conduza, toda ação, pelo contexto que for, ficará atrepada no corporativismo administrado por uma direção oportunista. Se impõe construir uma direção capaz de converter o descontentamento em programa, o programa em organização e a organização em uma força avassaladora nucleada no Partido Comunista de Novo Tipo; na Frente e, obviamente no Exército Popular, a forma mais importante e decidida para que, com a guerra popular, avançaremos ao comunismo. O PROLETARIADO É A CLASSE FUNDAMENTAL DA REVOLUÇÃO! O CAMPESINATO, É A FORÇA PRINCIPAL DA REVOLUÇÃO DE NOVA DEMOCRACIA! SEM UM EXÉRCITO POPULAR, NADA TEM O POVO! VIVA O MARXISMO-LENINISMO-MAOÍSMO-PENSAMENTO GONZALO! POVO DO EQUADOR, NÃO VOTAR NA CONSULTA POPULAR! PREPARAR E DESENVOLVER A GUERRA POPULAR!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Notas

Notas Sobre a Frente Única em 2026 Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior A tese da frente de esquerda para 2026, com todos partidos apoiando Lula já no segundo turno tem sido um bizarro postulado que passou a circular em artigos recentes da esquerda governista (Altman, Arcary). O termo que se usa é frente única –e que traz os haustos malévolos de Trotsky. A política de Trotsky nunca foi essa de fato, segundo o historiador Grover Furr. Trotsky de boca falava em defesa da URSS, mas secretamente aliou-se a nazistas e imperialistas japoneses. Há muitas evidências recolhidas no texto Evidências da Colaboração de Trotsky com Nazistas e Japoneses. Recentemente Gustavo Machado do PSTU alegou que prefere Hitler a Stálin, revelando novamente essa faceta –ele não deturpa Trotsky, é fidelíssimo a ele. A argumentação de Valério Arcary para postular o apoio de toda esquerda institucional a Lula já no primeiro turno (ou seja, PCB, PC do B, PCO, PSTU, PCBR, etc) numa frente gira em torno da necessidade não de um programa a ser cumprido, mas da necessidade de derrotar a extrema-direita bolsonarista. Essa alegação tem justificado a adoção do mesmo programa neoliberal, mas sem o “avatar” fascista. E quanto mais se aplica o programa neoliberal, mais a sociedade é empurrada para o fascismo, mais se esgarça o tecido social. A tendência é encarceramento em massa estilo Nagib Bukele em El Salvador. Che Guevara postulou que a luta institucional deve ser levada até o final, esgotada, para então deixar de ser a luta principal. No entanto, ele e Castro não participaram das eleições de dezembro de 1958 organizadas por Batista –e ainda ameaçaram de morte os candidatos Carlos Marques Sterling e Ramon Eros Grau, pois Castro em especial sempre praticou o assassinato de seus rivais políticos, como era corrente em sua geração, segundo Enrique Ros, no livro Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre. Em primeiro, a frente só tem sentido para quem está na etapa do acúmulo, ou seja, numa fase em que se está fazendo quadros para obter reformas no velho estado. Estranhamente, boa parte dessas organizações e mesmo a Revolução Brasileira renega quaisquer etapas –mas está eternamente na etapa eleitoral ou, como no caso da RB, do nacionalismo revolucionário! Se nacional-desenvolvimento não resolve nada, se só a revolução socialista salva, porque perder tempo com nacionalismo revolucionário? PC do B não utiliza o termo maldito “etapas”, mas fala em defesa do “nacionalismo-socialismo” (!) Não é nada mais que do propor desenvolver capitalismo selvagem. A seguir Arcary elenca vários outros pontos: processos positivos tais como aumento do consumo popular e diminuição da pobreza extrema, isenção de imposto de renda – e tudo apesar das taxas de juros reais mais altas do mundo! Arcary fala em “respostas atrasadas” do PT diante da PEC da blindagem. Mas na prática, parte do PT apoiou a PEC e chamou-a “pec das prerrogativas”! O texto segue confiando em “pesquisas de opinião” –outro ponto que é preciso desmistificar, pesquisas são manipulatórias, a classe trabalhadora entende como “corrida de cavalos”. A linha correta é boicotar 2026 e organizar frente única em prol de uma democracia mais evoluída, uma nova democracia, é priorizar outras lutas como fizeram os anarquistas do Movimento Passe Livre. A luta eleitoral está falida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Sou ex-petista

Sou ex-petista. Fui vereador pelo PT de 2021 a 2024, o mais jovem na história da minha cidade, e candidato à prefeito pelo PT na última eleição em 2024, no Município de Carmo do Cajuru-MG. Na candidatura ao Executivo, embora tivéssemos uma boa desenvoltura para a nossa campanha, nos defrontamos com o antipetismo no seio da classe trabalhadora. Discordo absolutamente do Breno. O antipetismo se consolidou na classe trabalhadora, que se sente traída por Lula e pelo PT. Ou seja, o antipetismo tem razão de existir, não só por causa da campanha burguesa esperada de combate ao partido, mas principalmente por causa da adesão do PT ao neoliberalismo, que representa a deterioração progressiva das condições de vida do trabalhador e a redução dos seus horizontes. Essa escolha é uma incoerência, uma contradição irreconciliável, percebida pela consciência popular. Como resultado, os petistas são cada vez mais uma parte diminuta e desmobilizada do eleitorado. Cheguei a conclusão após a campanha que não há qualquer possibilidade de disputar a consciência popular estando no PT. Essa “pátria petista” que Breno descreve não existe mais. O que existe é uma admiração da figura do Lula, mas que é totalmente despolitizada, desprovida, por escolha do próprio, de qualquer sentido de transformação profunda da realidade brasileira. Pelo contrário, o PT fez uma opção explícita pela adesão ao neoliberalismo, que é sentida pela povo como uma ideia de que o PT é parte do sistema, e não uma mudança. Encontrei, enfim, imensas dificuldades para que nossa candidatura fosse aceita, justamente por carregar o símbolo do PT, não só por parte da classe média, mas também por parte dos trabalhadores. Senti na pele que é falsa e ilusória essa ideia do Breno de disputar pela esquerda o que sobrou dessa “pátria petista”. Become a member Bom, após o resultado pífio das eleições Municipais, eu pensei que o Partido pudesse ser disputado para mudar sua política econômica, que é o cerne da aflição da classe trabalhadora. Triste engano. Participei do último Encontro Nacional do PT para dar posse aos eleitos para a direção partidária pelo PED (Processo Eleitoral Direito), e constatei, com meus próprios olhos, que a esquerda do PT está totalmente esmagada, e não representa nem 10% do Partido. No encontro, a nova direção do Partido reafirmou e aprofunda a sua opção por uma política de austeridade neoliberal, de privatizações, de ataques à direitos sociais, de cumplicidade ao imperialismo. Não há mais possibilidade de pensamento crítico no PT. Não faz mais sentido Valter Pomar, por exemplo, continuar dentro do PT, pois o campo hegemônico neoliberal, liderado por Lula, tem o controle absoluto da máquina e da opinião. Ao contrário do que Breno diz, não há espaço de mudança interna. Vejam bem, embora Breno defenda o PT, reparem como a própria direção do PT trata um dos seus principais intelectuais: fingem que ele não existe, o lança à irrelevância. Essas situações foram, para mim, a gota d’água. Estou em processo de desfiliação. É tempo de construir a verdadeira esquerda, socialista, radical, sem medo de dizer quem é e qual o seu propósito, e especialmente, que ataque o neoliberalismo frontalmente que chicoteia a classe trabalhadora. O PT já morreu. O novo está prestes a nascer.” Anthony Alves Rabelo

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Por que Vargas Pode ser Chamado de Fascista?

Muito embora eu considere Vargas uma figura complexa e fascinante, a hipótese de que ele foi fascista deve ser levada a sério. Devemos trabalhar com ela e refutar vigorosamente o que diz Frederico Krepe. Primeiro, Krepe ao definir o fascismo não utiliza nenhum autor marxista, apenas outros burgueses liberais como ele. E nos basearmos, então, em Gonzalo: Obrigado por ler Substack de Lúcio! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho. O que entendemos por fascista e corporativo? Para nós, o fascismo é a negação dos princípios demoliberais, é a negação dos princípios demoburgueses nascidos e desenvolvidos no século XVII na França; esses princípios tem sido abandonados pela reação, pela burguesia no mundo, assim como já na I Guerra Mundial nos fez ver a crise na ordem demoburguesa, por isso é que posteriormente o fascismo surge como insurgência.” “Consideramos também o fascismo como uma ideologia eclética, feita de retalhos, que recolhe aqui e ali o que lhe convém (...). Ele toma o que estiver mais à mão”. “O corporativismo seria organizar a economia em corporações. E seria a negação do parlamentarismo” (GONZALO, 1988). Vargas preencheu todos esses elementos: seu sucesso durante sua carreira implicou em pegar o que estava mais à mão. Embora ele leia Saint-Simon, é na ditadura de Júlio de Castilhos é que está sua identidade. E essa ditadura, embora modernizadora sob alguns aspectos, nega desde sempre a divisão em três poderes estabelecida pela revolução francesa, concentrando os poderes no executivo, criando absolutismo presidencialista que é sempre presente no fascismo. Krepe sabe disso: O projeto de Vargas, desde o início, é de modernização do Estado e de centralização do poder (KREPE, 2025), E também nega o direito de liberdade de expressão democrática perseguindo a oposição e reorganizando o sistema político e, com sua ideologia eclética, essa colcha de retalhos que possibilita disfarces (positivismo, socialismo utópico, castilhismo, doutrina social da igreja católica, fascismo e nazismo). E ao chegar ao poder, Vargas nega o parlamentarismo, dissolvendo o congresso, não governando inicialmente nem sequer com aquela apodrecida fachada liberal de latifundiários e assumindo a ditadura burguesa sob a forma do absolutismo presidencialista. Ele nega também a ideia de ser regulado por uma constituição, ele só a promulga depois de um outro levante e logo a seguir coloca em seu lugar uma constituição de corte fascista, abertamente copiada da ditadura militar polonesa. Vargas mesmo advogava por soluções dentro do sistema, até que, de ministro da fazenda de Washigton Luís, assumiu o poder numa quartelada que insistia em chamar de “revolução democrática”. Vargas, como Alvarado no Peru anos antes, fez reformas e trouxe direitos trabalhistas apenas para poder corporativizar as massas em seu favor. Alvarado falava em reforma agrária apenas para fazer evoluir o semifeudalismo. E o varguista Darcy Ribeiro trabalhou ativamente para Alvarado, identificando-se com ele como se identificou com Vargas anteriormente —e não por acaso! Por isso Vargas fala em reforma agrária nos anos 50, bem como Jango e Brizola, apenas para corporativizar as massas no campo. Mesmo quando realiza estatizações, sua finalidade é corporativizar toda a sociedade. Ele levanta a bandeira do nacionalismo, mas é sempre no sentido de negar a luta de classes, de negar os “elementos dissolventes do caráter nacional”. A nação como a negação da bandeira vermelha dos trabalhadores, a nação como conciliação do trabalho e do capital. Esse elemento reaparece até mesmo no fascismo bolsonarista. Krepe “esquece” a repressão brutal do levante antifascista da ANL em 35 e isso é intencional. E esquece que esse PC que ele detrata como “stalinista” rachou o exército nessa episódio e fez com que o comunismo fosse altamente levado a sério pelo exército e por todo o aparato de repressão brasileiro até hoje. E lembremos que Brizola e Jango não conseguiram efetivamente rachar esse exército em 64. Em 35 houve embate entre grupos no exército, em 64 não. Fausto Arruda, sociólogo, considerou-o o fundador do capitalismo burocrático brasileiro. Em outras palavras, do capitalismo selvagem brasileiro, esse capitalismo associado ao capital estrangeiro e ao latifúndio, em um importante artigo publicado em A Nova Democracia. Em primeiro, Vargas é uma figura muito mais oligárquica e conservadora do sistema do que Krepe imagina. Ele não foi contra as elites. Ele mesmo era uma figura da oligarquia gaúcha castilhista. Advogou, conforme Fausto Arruda, pela mudança dentro do pacto das oligarquias, até que não foi mais possível. Mas depois de sua quartelada, logo fez pacto com as oligarquias e imperialismos estrangeiros, optando pelo imperialismo yankee, que preferiu descartá-lo em 1945 em uma nova quartelada feita pelos mesmos generais reacionários que apoiaram sua ditadura fascista em 37. Os generais fascistas e os USA recusaram sua jogada perigosa com a URSS e os comunistas, pois só aceitam o serviçal por inteiro. No fim das contas, foi altamente perniciosa a aproximação dos comunistas com o social-fascismo varguista em 1945 e depois de 1954. Faltou realizar uma análise mais rigorosa do fenômeno desde sempre, o que não foi feito. Foram atraídos para um abraço de afogado em 1945-47, sendo ridicularizados “queremistas” e querendo “constituinte com Vargas”, para depois serem surrados em 54 por não apoiá-lo. Apanharam por apoiá-lo, apoiaram por não apoiá-lo. Constituinte com um inimigo da constituição, um espertalhão que advogava que “as constituições são como as virgens, nasceram para ser violadas”. Atacados pelas massas lumpen incitadas pelo varguismo —afinal, os varguistas sabem que os comunistas são seus inimigos e, com sua queda, poderiam se beneficiar —fazem aliança novamente, apenas para naufragar novamente em 64, apenas para perceber que, sem o líder, o projeto varguista já estava acéfalo e com a validade vencida desde 54. Os comunistas confundiram burguesia burocrática varguista com burguesia nacional. Não podemos reclamar porque até mesmo até hoje o equívoco continua e Frederico Krepe traz água para esse moinho, sem dúvida. E com o lulismo o erro continua vigente até a exaustão. Krepe apenas insiste em repor o varguismo como horizonte para pensar um projeto nacional, repor todos os equívocos sem aprender nada, enquanto o único horizonte possível é a nova democracia: no horizonte do país surge o dilema: nova democracia ou subcapitalismo (autocracia burguesa). Isso é querer girar a roda da história para trás devido à falência do projeto petista. Krepe sonha, em seus delírios platônicos e idealistas social-fascistas, que uma nova autocracia burguesa varguista possa assumir o poder e aí ele “galgar o caminho florido das posições”. Durante o período Vargas estavam vigentes leis que proibiam a imigração de pessoas de origem semita, ou seja, judeus. A ideia era trazer imigrantes para um projeto de embranquecer o país, imigrantes como os italianos, que se misturassem para que a raça branca fizesse valer sua superioridade “natural”. Daí que os judeus ficavam sendo esse grupo que não se integrava e não se prestaria ao projeto racista. A eugenia estava na Constituição de 34. O varguismo foi um projeto com data de validade. Na atualidade, o projeto petista assumiu seu lugar e, sob alguns aspectos, assumiu uma face de UDN operária, ligada a igreja católica (a doutrina social da igreja novamente, desta vez com liberais católicos criando o MST e tomando a bandeira da luta pela terra das mãos dos comunistas). Ao contrário do confronto anterior entre burguesia burocrática e burguesia exportadora, quando encenava-se um confronto entre desenvolvimentismo e entreguismo tendo como pivô a figura de Vargas, o confronto já é mais rebaixado: entre a UDN operária que congrega trotskistas, católicos liberais ligados ao partido democrata e burocracia sindical, opondo-se a UDN abertamente entreguista de Collor, FHC, Bolsonaro, Temer. Embora assuma faces grotescas de combate, não há projeto algum em disputa, bem menos do que antes. O que antes era esporte radical virou jogo de porrinha. Em termos de gerar confusão e divisões no seio do partido comunista brasileiro, o varguismo foi incrivelmente bem sucedido, bem como o sr. Darcy Ribeiro ao desenvolver na UNB as teses trotskistas. Krepe também apresenta essa face: por um lado flerta com Aldo Rebelo, hoje um bolsonarista mais abertamente fascista que advoga a anistia, por outro comunga com Jones Manoel em convescotes trotskizantes e bolivarizantes, tendo ao lado outros órfãos do lulismo. A evolução de Aldo Rebelo do PC do B revisionista ao fascismo aberto é digna de ser estudada por Elias Jabbour. Jabbour por um lado trabalha contra o Brasil para o imperialismo chinês e por outro para a degenerada burguesia burocrática carioca, com Eduardo Paes. Nada de bom pode sair de algo assim. Os revisionistas costumam, como o passar do tempo, assumir posições mais abertamente burguesas. Jabbour advoga tolices como “Lula se conciliou com Vargas na cadeia”. Absolutamente não ocorreu tal. Lula intui sabiamente que o projeto anterior da burguesia burocrática está falido, ao contrário das tolices de Krepe —até porque ele veio para parasitar sua carcaça. Lula não instaurará uma autocracia burguesa, abrirá alas para ela, como por pouco não aconteceu em 2022. . Foram todos muito bons nisso, desde Brizola falando em “socialismo moreno” e na prática seguindo o castilhismo fascistizante e autoritário. O trabalhismo, por sua natureza social-fascista, em suas alas à direita se aproxima do fascismo e à esquerda, liga-se ao trotskismo. Mesmo Nildo Ouriques e Jones Manoel apresentam essa oscilação, alternando-se entre os polos do bolivarianismo e do trotskismo em suas inúmeras variantes. Júlio de Castilhos gerenciou o estado do Rio Grande do Sul com reeleições sucessivas, concentração do poder no executivo e perseguição aos seus opositores. E o resultado de sua longa ditadura no poder foi uma guerra civil sangrenta. É bem curioso que o varguismo quase levou a essa guerra civil em 64 e o lulismo em 2022. As frações da burguesia sabiamente preferem a conciliação, pois a guerra civil sempre acelera a história; com ela, ambas terão muito a perder. Vargas assumiu um lado naquela guerra, era ligado a Borges de Medeiros e aos centralistas contra os federalistas que usavam lenço vermelho. O pai de Brizola era desse grupo que usava o lenço vermelho como símbolo, mas foi morto pelos seguidores de Borges de Medeiros, mas mesmo assim conciliou-se com eles. Tanto Vargas quanto Brizola utilizaram o lenço vermelho simbolizando uma conciliação local. Tanto Brizola e Vargas não deixaram a herança autoritária castilhista, pelo contrário, eles a dvogavam. Brizola, fundador do PDT onde pontifica o filósofo Krepe, advogava claramente que seu objetivo era transformar o Brasil num país como a Austrália, um país imperialista, ou seja, algo inatingível. Brasil jamais será país imperialista, ou será subcapitalista ou socialista. Krepe insiste em um hipotético “estado de bem-estar social brasileiro” que só seria possível se o país pudesse se tornar um país imperialista como a Austrália, país, inclusive, que mandou tropas para o Vietnã, segundo a ativista vietnamita Luna Oi comentou em vídoe recente. Por outro lado, Brizola, como o Kuomintang de Chiang Kai Shek, nunca escondeu que queria esmagar com uma mão o imperialismo yankee e com o outro o comunismo de Moscou. Para tanto, escudava-se na doutrina social da Igreja Católica (assim como fizeram ditadores fascistas como Mussolini e Dolfuss, da Áustria). Mesmo Hitler também conseguiu essa conciliação com a religião. Darcy Ribeiro, um trânsfuga do PCB que passou ao trabalhismo, igualmente serviu a essas ideias quando trouxe um não-marxista pernicioso e trotskizante, André Gunder Frank, para a UNB e disseminar teorias trotskiszantes contra o PCB de Nelson Werneck Sodré. Foi incrivelmente bem sucedido. Teorias semelhantes são até hoje hegemônicas na universidade brasileira em seus poucos núcleos que estudam marxismo. Francisco de Oliveira diz que o país não é subdesenvolvido, é um “ornitorrinco”, enquanto Florestan Fernandes chegou à absurda conclusão de que aqui temos um “capitalismo completo”. Todas teorias nessa linha de achincalhar as teorias do velho PCB que, apesar de tudo, elaborou hipóteses que devemos repensar, mas jamais levando em conta hipóteses tolas. Apenas porque o país tem industrialização dependente (e mais e mais, retrocede para economia agro-exportadora), é que devemos deixar de lado a hipótese de que é um país semifeudal e semicolonial. Vargas ao chegar ao poder aboliu a fachada podre de liberalismo e adotou no governo federal uma ditadura bastante similar ao seu castilhismo natal. E podemos dizer que nunca governou bem sem ela. Um dos motivos para seu suicídio em 54 foi não conseguir governar sem ser dessa forma ditadorial com a qual estava acostumado. Frederico Krepe liga-se ao PDT, partido que até bem pouco tempo estava na base do governo petista. E escreve na blogosfera petista, em blogs como O Cafezinho, Disparada, etc. Dialoga alegremente com o petucano Haddad em podcasts conservadores, etc. E defende que não chamemos Vargas de fascista. Mas o que dizia de Vargas o professor Marco Aurelio Garcia, um importante intelectual petista já falecido? Vejamos sua fala citada numa coletânea de Martha Hornecker: No caso brasileiro, a única forma pela qual a classe operária tinha aparecido na política brasileira tinha sido através do mecanismo do populismo, muito submissa ao Estado. Alguém poderá dizer que na Argentina também houve populismo, mas na Argentina surgiu através de um movimento operário já muito organizado e forte, que tem uma certa capacidade de negociação com o líder, o Perón. O presidente argentino tem que fazer mais concessões aos sindicatos e, por isso, o peronismo é muito mais radical que o varguismo. No caso brasileiro, o varguismo tem uma inspiração fascista muito mais pronunciada, a idéia de paz social, de equilíbrio, de modelo corporativo. (Garcia, Marco Aurélio. Apud: HONECKER, 1992: p. 28) Essa posição era a predominante nos primeiros tempos do PT. Ela só mudou a partir de quando Lula chegou ao poder em 2002. Sua posição passou a ser simpática a Vargas, mas simpática principalmente a uma de suas práticas: corporativizar os sindicatos com o nosso velho estado. Autocracia Burguesa ou Nova Democracia Krepe não verá realizados seus sonhos mofados de uma nova autocracia burguesa que caminhe para um “projeto nacional” (quando em realidade é da burguesia burocrática) e que saiba “mediar conflitos sociais” corporativizando as massas. O que surgiu no horizonte desde 2013 é uma autocracia burguesa que garanta a situação semicolonial, o semifeudalismo. Krepe não verá um outro autocrata burguês que como aquele que “(…) suspendeu a ordem liberal para construir instituições de Estado”. Ao dizer isso, depois não adianta reclamar que é ruim “associar nacional-desenvolvimentismo a autoritarismo” —se você acaba de fazê-lo. O dilema do Brasil em nosso tempo é entre autocracia burguesa ou nova democracia, subcapitalismo ou socialismo. A tentativa de reviver PTB de Vargas é uma tentativa de arregimentação dos trabalhadores em prol dos interesses de um setor da burguesia burocrática-latifundiária no capitalismo selvagem. Seus rótulos e apelos ao estilo desse de Krepe sobre Vargas sempre os tornarão massa de manobra para seus objetivos. Frederico Krepe https://fredkrepe.substack.com/p/por-que-getulio-vargas-nao-foi-um/comments?utm_source=post&comments=true&utm_medium=web>>

Memórias do Subdesenvolvimento

Memórias do Subdesenvolvimento Para Glauber Rocha, o filme Memórias é a execução do intelectual pequeno burguês. Vejamos o que ele diz: “o melhor filme cubano, e esta é a opinião mundial unânime, é Memórias, porque é a execução do intelectual burguês com o rigor antimoralista capaz de convencer os inimigos do comunismo à revolução” (ROCHA, 1997, P. 466). Lembremos, no entanto, que há uma ambiguidade em centralizar a narrativa em um contrarrevolucionário –ele não deixou de ser o herói do filme. Gutierrez Alea focalizou seu filme em um contrarrevolucionário, Sergio. E não foi o único filme em que ele fez isso: Os Sobreviventes também é focado em uma família de contrarrevolucionários; o filme mais famoso de Gutierrez Alea, Morango e Chocolate, nos anos 90, também tem como eixo a relação entre um militante e um gay religioso que lê Vargas Lhosa (rompido com Cuba por ocasião do caso Padilla, em 1971). Sergio também ressalta o subdesenvolvimento que, apesar da revolução, em Cuba continua existindo. “Nada mudou”, diz ele. “É uma Tegugigalpa do Caribe”, diz ele, ou seja, cidade pequena, provinciana, subdesenvolvida. E de fato continuou: mudou de caudilho (de Batista para Fidel) e mudou de amo (do imperialismo yankee para o social-imperialismo soviético), mas continuou dependente, subdesenvolvida. Sarcasticamente, Sérgio comenta que é cômodo ser comunista em Paris, como Neruda. Esses comodistas deveriam “ir para Cuba” – lema hoje onipresente no Brasil. A queixa dos cubanos em relação ao discurso dos estrangeiros do esquerda é muito recorrente e também aparece nos textos de Alina Hernandez, professora de História de centro-esquerda, no Centro Cívico de Cuba. Essa consigna reapareceu depois com Reinaldo Arenas, o romancista de Antes que Anoiteça, no filme Conduta Impropria e, possivelmente, a partir daí ganhou o mundo. O filme Memórias passa das falas de Sergio sozinho vendo Havana à distância para uma fala mais alinhada com o castrismo a respeito do desembarque dos dissidentes em Playa Girón (Baía dos Porcos). Não eram os homens de Batista que chegaram ali e sim os liberais que se sentiam traídos por Fidel, com objetivo de ajudar a guerrilha liberal em Camaguey que começou em 1961 e foi até 1965, mais, inclusive, do que a guerrilha de Sierra Maestra. No filme, analisa-se que os homens que chegavam a Baía dos Porcos era uma miniatura de uma sociedade burguesa: havia um padre, um empresário, um filósofo e, finalmente, um torturador. Calvino, o torturador, traz a verdade do grupo: “sou parte de um grupo”, enquanto o padre diz: “não é porque fiz parte da conspiração que sou um conspirador, meu papel foi somente espiritual”. A verdade do grupo burguês estava no assassino. Vale ressaltar que a abordagem do desembarque em Playa Girón é engajada com a versão oficial. O que se pode dizer, no entanto, é que os camponeses de Camaguey e os camponeses em geral queriam terra, mas não foram atendidos, passaram a trabalhar em fazendas estatais ganhando pouco dinheiro. É muito importante esse ponto, pois comprova a teoria da revolução da nova democracia e nega as ideias trotskistas: a coletivização é um processo gradual, sem atender aos camponeses numa primeira etapa de nova democracia. O desembarque em Playa Girón era para dar força para a guerrilha liberal em Camaguey e, não obstante, essa guerrilha continuou até 1965. A abordagem dos acontecimentos de Playa Girón de forma a coincidir com a propaganda do castrismo a respeito foi uma passagem conflitante e inverossímil do filme. Um contrarrevolucionário não poderia dizer aquilo.

Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre

Ramos Grau San Martin estava no seu segundo mandato, no ano de 1945. O primeiro tinha sido nos anos 30, o governo dos cem dias. Cuba tinha propensão a resolver as coisas na base do revólver. Em 46, a corrupção já estava muito disseminada. A violência política virou o pão de cada dia. De 1944 a 1948 foram 64 assassinatos políticos. Centenas desses revolucionários eram pagos pelo estado, como no ministério da educação. Essas pequenas organizações (MSR, UIR) matavam antigos policiais de Batista e Machado. E também se matavam entre si em rixas armadas violentas. A universidade de Havana era um epicentro dessa violência política. Enrique Ovares, antigo líder estudantil, comentou que, para essa geração de Fidel, era bastante válido o assassinato politico. Nessa conjuntura é que chegou a Havana para estudar Direito o jovem Fidel Castro, um rapaz superdotado e ambicioso, mas complexado por ser filho bastardo. Ele de início entrou no MSR, Movimento Social Revolucionário. Eles exigiram um atentado como ritual de iniciação. Ele e seu grupo supostamente o fizeram, mas não mataram Leonel Gomez Pérez, o líder estudantil rival, líder da União Insurrecional Revolucionária. No entanto, eles erraram o alvo e feriram outro estudante e um menino de doze anos. A UIR marcou Fidel por isso. Fidel passou então a desenvolver a obsessão com segurança –e com bastante razão. E também a tendência a recorrer ao terrorismo individual contra os seus rivais, assassinando-os, resolvendo as diferenças na base do assassinato, mesmo na esquerda. Ele não tinha conseguido entrar no MSR e tinha se queimado com a UIR. Poderia, então ser morto e ficou preocupado com isso. Procurou, então, graças a um amigo em comum, o líder da UIR, Emilio Tro Rivero, veterano da Segunda Guerra Mundial. Fidel pediu perdão a Emilio Tro e foi aceito na UIR. A tarefa passou, então, a atacar um líder importante da organização da qual tinha acabado de sair. E o grupo de Fidel supostamente esteve envolvido na morte de Manolo Castro (que não era parente), presidente da Federação Estudantil Universitária (FEU). Num domingo de carnaval de 1948, dois homens mascarados balearam e mataram Manolo Castro na saída de um cinema. Castro foi preso devido a esse assassinato, mas um colega do curso de Direito, Frank Balart, da família Diaz-Balart de quem era amigo e até se casou com uma deles (Mirta Diaz-Balart, sua única esposa oficial), conseguiu tirá-lo do processo. Castro foi a Colômbia para fugir do processo político, mas também envolveu-se em violência política no chamado bogotazo. O conflito entre MSR e UIR escalou até o massacre de Orfila, onde foi morto o líder da MSR, Rolando Masferrer, uma verdadeira campal entre as duas organizações. No verão de 1948, foi morto Oscar Fernandez Caral, um sobrevivente do MSR no massacre de Orfila. Castro foi indicado pelo assassinato, mas o caso foi encerrado por falta de provas. Fichado pela polícia desde 1949, Castro estava também muito marcado pela UIR, o que deixou-o paranoico e deu trabalho a seu pai, que teve de ajudá-lo a pagar sua defesa nos processos. Rolando Masferrer perseguiu Castro várias vezes, quando ele aparecia, Castro voava para outro lugar. A saída de Castro foi formar-se e mudar de vida, queimado como estava. Casou-se com Mirta Diaz-Balart, mulher de alta sociedade e família ligada a Batista, abriu escritório de advocacia e passou a sonhar em candidatar-se ao parlamento. O golpe de Batista em março de 52, instalando uma ditadura, fazendo com que o presidente Prio Socarrás tenha de se exilar, frustra a carreira política de Castro. E ele tenta, então, trazer sua experiência nas organizações revolucionária para a juventude de um partido legalista, o Partido Popular Cubano. E daí parte com a juventude ortodoxa de origem pobre para ação violenta em La Moncada, mas essa é outra história. Fidel Castro e os Tempos do Gatilho Alegre, Enrique Ros.