quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Xuxa Afro, um Mito Profanador

Pessoal, no último dia 4 de setembro tive uma grata surpresa, ao encontrar o meu amigo Geovane Sassá aqui em Bom Despacho, participando como ator do espetáculo Eh Boi, do Grupo Cabana.

Eu só fiquei um pouco preocupado quando o Sassá me falou que pediu meu contato e ninguém na Secretaria de Cultura local tinha. Pô, Rosalva, pega com o Acir aí! Nesses tempos em que o sigilo fiscal da gente é segredo de liquidificador, ninguém numa cidade do interior tem o telefone de um professor!

Se até o governador Aécio tem meu telefone e me ligou esses dias para passar um trote pedindo para votar em Anastasia!

Então taí um ensaio que fiz sobre o trabalho do Sassá há muitos anos, mas que ainda é pertinente; abraços, Sassá!




A Xuxa África: Um Mito Profanador?

“To whirl the old
woman from Bahia”

Millôr Fernandes,
em The Cow Went To The Swamp



A Xuxa afro-brasileira, criação do músico e ator Geovanne Sassá,
pode ser analisada como sendo uma tentativa de atualização do mito do
andrógino de Platão:

“andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no
nome comum ao dois, ao masculino e ao feminino(...)inteiriça era a forma de
cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele
tinha, e as pernas e o mesmo tanto das mãos(...) Por conseguinte, desde que
a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade
e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos e enlaçando-se um ao outro, no
ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral”.

A Xuxa Àfrica busca mimeticamente homenagear/parodiar sua
cara-metade, Xuxa Meneghel, uma gaúcha de clara ascendência européia e corpo
escultural. A “rainha dos baixinhos” exerce seu reinado submetendo seus
súditos a seu otimismo Kitsch e a sorrisos pré-fabricados. A Xuxa Negra se
autoproclama “rainha dos neguinhos”, constituindo-se num mito
dessacralizador. Xuxa, como personagem do músico e ator Carlos Geovane
Nunes, se cristaliza absorvendo elementos do belo grotesco e do belo cômico
que:

“São duas formas do belo que se tocam, que se enlaçam até se
confundirem numa única emoção.

De comum, têem o elemento do ridículo, que nunca pode faltar
nelas; de diferente, têm um grau diverso da deformidade ou da caricatura da
verdade.

Assim como as cócegas e certas formas de volúpia confundem as
fronteiras do prazer e da dor (demonstrando-nos pela centésima vez que as
nossas classificações são brinquedos infantis, fios de seda tecido entre os
granitos da natureza);assim como o grotesco e o cômico parecem folgar nos
confins do belo e do feio, confundindo-os um com o outro, com mão
travessa.”

A personagem de Geovane Sassá o engloba, possuindo seu corpo
numa trasmutação exuberante e esdrúxula; é como uma pomba-gira. A Medusa de
Ébano possui uma força que se assemelha a um grito primal, telúrico,
dionisíaco. A Xuxa “Noir” dá à sua homônima um espelho circense: a loirosa
narcísica e ariana, ao tentar vender o mito da supremacia branca num país
mestiço, é subitamente colocada frente a frente com uma imagem caricata e
deformante de si mesma, mas que mostra a modelo e dublê de artista na sua
verdadeira face; a modelo semigringa é tornada deusa pagã. Fechou-se o
círculo. A divindade africana lança uma luz desmistificante sobre a face da
Eva Braun brasileira e petrifica a megera. Aquilo que na moçoila gaúcha era
pura empulhação, sorriso de propaganda de creme dental, manipulação
mercadológica e ingenuidade calculada ganha um contraponto de impulsos
vitalistas, convites indecorosos à fruição imediata dos sentidos e volúpia
das sensações mais lúbricas.

Exibindo seu corpo de ninfa multicolorida, cortesã apocalíptica
e sensual, nossa personagem remete a obras palpitantes de vida e vigor como
os quadros de Jackson Pollock; ela é, como as telas do referido pintor
americano, uma rede intrincada de gotas, redemoinhos e salpicos. “A pintura
tem vida própria”-disse ele uma vez-“eu tento deixá-la acontecer”. Geovane
também poderia dizer o mesmo com respeito às suas criaturas.

E a criatura em questão usa, não obstante, um óculos de armação
antiga e demodeé. São óculos de velha encarquilhada que escondem olhinhos
brilhantes de moça. Talvez fosse a um olhar como esse que Nietzsche se
referia neste seu poema Da Pobreza do Riquíssimo:

“-Quietos!

É minha verdade!-

De olhos esquivos,

de arrepios aveludados

me atinge seu olhar,

amável, mau, um olhar de moça...

Ela adivinha o fundo de minha felicidade,

ela me adivinha-ah! o que ela inventa?-

Purpúreo espreita um dragão

no sem-fundo de um olhar de moça.”

Sendo assim, a Xuxa Preta bota ao avesso a democracia racial
brasileira, rodando a baiana da europeizada e etnocêntrica vedete da TV.
Santa e prostituta, homem e mulher, frágil e sedutora, a personagem tem um
pouco de Marilyn Monroe e Benedita da Silva, e parece ter nascido da
conjunção carnal de Sassá Mutema e Hebe Camargo.

Ao apresentar-se a Xuxa Preta evoca um clima de confraternização
que também está presente, por exemplo, no rito do vodu, no Haiti. “O vodu é,
basicamente, a religião e o culto aos espíritos ou divindades chamados loa.
A classificação dos loas é muito complexa, não somente por causa da grande
diversidade de origem geográfica e étnica dos africanos trazidos ao Haiti,
mas também pela existência de uma infinidade de divindades regionais ou
locais.(...)Cada loa tem sua morada particular: no mar, num rio, numa
montanha ou árvore, de onde vem para ajudar seus servidores fiéis, quando
ouve suas orações ou o som dos tambores sagrados pedindo a sua presença.
Cada loa tem também seu dia ou dias próprios durante a semana.(...) As
cerimônias do vodu são executadas em locais abertos ao público.” Igualmente
são feitos às claras os rituais lúdicos de Xuxa Àfrica.

Quando achamos que já temos a situação dominada e já rimos da
piada, Xuxa nos dá uma bofetada de veludo, numa reviravolta semiótica.
Transcendendo o reacionarismo e o machismo de Minas Gerais, ela rebola e nos
remete ao momossexualismo baiano. Algo como ver o padre Lima Vaz saindo na
Banda Mole no carnaval, tropicalizantemente conectado no “zeitgeist”. Ela
digere Minas e silencia impávida como se quisesse nos devorar, nos colocar
de volta para o útero. Um toque picante e, sarapatética, ela espargirá
energia como se fosse um lança-perfume cintilante.

Só mesmo uma Xuxa de Cor para nascer nos trópicos e afugentar a
tristeza destas plagas com uma descarga de alegria tão vulcânica!


Uma Xuxa Preta está, é claro, ligada ao espírito dionisíaco do
carnaval, pois ela é brasileira, afinal. Lembra do carnaval do passado,
expressão espontânea da vontade coletiva de libertar-se, divertindo-se. Ela
está ligada ao caráter dionisíaco e mesmo histérico da festa (no sentido
grego de rito coletivo uterino e afrodisíaco) que imprimia à diversão um
forte sentido de contestação psicossocial. A personagem também estaria
ligada à escatologia e ao grotesco, no sentido que explicita Muniz Sodré:

“A Escatologia implica numa atitude cultural com relação à
história. A cultura oral brasileira foi marcada, desde as suas origens
afro-indiano-portuguesas, por uma Escatologia naturalista-que vê o homem
como parte de uma natureza manifesta em ritmos cíclicos, recorrentes. Como o
homem estaria integrado organicamente na natureza, qualquer desacerto,
injustiça, aberração do estado natural, remediável pelo culto ou pela
magia.(...) Essas Escatologias influem poderosamente na imaginação coletiva.
O portador de deformação física, por exemplo, é percebido historicamente
como um desvio da organicidade natural, como monstro (Teratos). Isto gerou
em nossa mitologia figuras como o lobisomem, o mão-de-cabelo, etc. Ainda
hoje, em cidades do interior do Brasil, o deformado físico( a mulher macaco,
o menino com cara de jumento, etc.) é vivido como um fenômeno de origem
sobrenatural-castigo dos céus-e, às vezes, como espetáculo, já que pode ser
exibido, a dinheiro, em feiras, ou simplesmente vendido como história na
literatura de cordel. (...) O ethos da cultura de massa brasileira, tão
perto quanto ainda se acha da cultura oral, é fortemente marcado pelas
influências escatológicas da tradição popular. O fascínio pelo
extraordinário, pela aberração, é evidente nos programas de variedades (
fatos mediúnicos, aberrações físicas como as irmãs siamesas, aleijões,
flagelações morais, etc.) . A esta altura a Escatologia consegue juntar os
dois sentidos: o místico e o coprológico.(...) Em Medicina, o
termo(Escatologia) tem sentido coprológico-é o estudo dos excrementos”

É desta tradição popular que a Xuxa Preta, vista como bizarra
ou aberrante, se alimenta e se insere.

Encerro citando certo trecho de um poema de Baudelaire onde ele
tece uma homenagem “A Un Dame Creóle” como nossa Xuxa d’Afrique:

“No inebriante país que o sol acaricia/ Sob um dossel de agreste
púrpura bordado/ E a cuja sombra nosso olhar se delicia/ Conheci uma crioula
de encanto ignorado./ A graciosa morena, cálida e arredia,/ Tem na postura
um ar nobremente afetado;/ Soberba e esbelta quando o bosque a desafia,/ Seu
sorriso é tranqüilo e seu olhar ousado.”

Bibliografia:

-Baudelaire, Charles: As Flores do Mal.

-Grondim, Marcelo: Haiti, Cultura, Poder e Desenvolvimento.

-Platão, O Banquete: Coleção Os Pensadores.

-Mantegazza, Paulo: A Fisiologia do Belo.

-Sodré, Muniz: A Comunicação doGrotesco

2 comentários:

Revistacidadesol disse...

Larisse: a blognovela foi feita conforme um velho poema coletivo nosso, lembra? Os Versos Sacânicos.


Vou mudar atendendo sua vontade assim q puder.

Abs do Lúcio Jr.

Anônimo disse...

benevolent post.
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