quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Cabeça de Neocon: Um Romance de Ideias e o Personagem Neocon

 

por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Esse artigo analisa o romance Cabeça de Negro, de Paulo Francis, buscando um outro olhar a respeito dele: nós o analisamos como introdutor do personagem neoconservador na literatura brasileira. Buscou-se ressaltar as contradições ocultas em seu discurso, assim como a fala dos personagens da esquerda, em especial dois (Álvaro e Renata), que simbolizaram, de acordo com nossa leitura, as principais forças políticas de esquerda dos anos 60 e 70, os pacifistas do PCB e os dissidentes da guerrilha. Dentro do romance, Álvaro e Renata seriam pólos a partir dos quais o romance poderia ser melhor entendido.

1. Introdução

O romance Cabeça de Negro completa em 2009 trinta anos de seu lançamento. Ele se inicia com um crime, a morte de um marginal negro numa residência de classe média no Rio de Janeiro. Não se trata, supomos, de um romance policial nem político e sim de um romance de idéias. O romance analisado aqui é parte de um ciclo de romances que Francis escreveu e que foi iniciado em 1976 com Cabeça de Papel.

Logo de cara, quebra-se o possível suspense que um thriller policial exigiria: Sílvia, elitizada esposa do industrial Maneco, mata o marginal, cujo corpo fica na sala. O oponente de Hugo e Sílvia é vencido logo de início. Abre-se, então, espaço para extensos debates sobre idéias em geral, mas principalmente sexo, gastronomia, política nacional e internacional, literatura e história. Hugo, o narrador, focaliza as falas dos demais personagens conforme seu interesse: Álvaro propõe, com lucidez, politizar os marginais como o Cabeça de Negro, mas sua fala é soterrada pelo discurso negativo de Hugo. Igualmente, Renata é levada a concluir que não é possível uma revolução numa sociedade industrializada.

Hugo, embora articulado e inteligente, é uma máscara cruel de um certo tipo de jornalista: é racista, não paga impostos, vende favores para um empresário chamado Brucutu, serve de papagaio para banqueiros amigos, fecha-se num elitismo arrogante que destrói os argumentos dos participantes de seu círculo social. É de se supor que abandonará esse círculo onde está cada vez mais conhecido como um niilista “pedante, arrogante, estúpido”.

Há uma grande ambição de totalidade na narrativa onde Hugo Mann é ao mesmo tempo quase onipresente personagem e narrador. Há um clima geral de conspiração: qualquer um pode ser um agente da CIA ou da KGB disfarçado, assim como do regime militar. No romance policial tradicional, o debate político é posto em segundo plano e a solução do mistério ganha relevo. Ocorre, no romance que estamos estudando, justamente o inverso: a parte especificamente policial torna-se residual.

Mann nunca foi um militante esquerdista, apenas um empregado de jornais reacionários e sem maior expressão de Paulo Hesse, amigo muito próximo de Mann e ex-marido de Sílvia. No entanto, a morte de Hesse, ocorrida no primeiro romance do qual esse “Cabeça” é uma continuação, transformou Mann em alguém cruel. Ele passa a poder seduzir Sílvia, mas não o faz. Ele termina sem possuí-la: ela é um objeto de desejo inatingível: está em outro campo do espectro político e está casada com Maneco, empresário ligado ao regime militar e que faz jogo duplo.

2. Romance político: introduzindo o neocon na literatura brasileira

Suponho que esse romance, ao debater e descartar as idéias do PCB reformistas e de suas dissidências que pregavam a luta armada, funciona como um acerto de contas de um certo tipo de jornalista com a esquerda, com quem teve de se aliar no período militar. Os personagens de esquerda terminam muito mal: Renata, a politizada e refinada estudante de Medicina simpatizante da guerrilha suicidou-se e Álvaro, comunista culto e tolerante, vendeu-se ao regime. Embora tenha se compadecido do sofrimento de ambos, anteriormente, à altura da morte de Renata, rompeu com os dois. O jornalista encerra a narrativa caminhando para uma terceira posição, que supomos que é a neoconservadora.

O principal conflito fica aqui esboçado, igualmente: como fará a classe média que combateu o regime militar para conter a massa de miseráveis que a modernização do Brasil criou? Hugo nunca dá uma resposta, mas através de suas falas fica implícito que é através de uma maior repressão. Hugo, supomos, é o personagem do traidor da esquerda, o neoconservador, introduzido através desse romance na literatura brasileira. Não se trata de um desertor comum, mas de um ideólogo da deserção.

A visão de mundo de Hugo Mann era tão irreal em 1979 que ficou a impressão, para um ensaísta como José Onofre (1), de que o texto deixava em aberto se Hugo Mann delirava ou se sua visão de mundo de Paulo Francis era aquela mesmo. Ora, a ficção trata de mundos possíveis. Descartada a hipótese de que Cabeça de Negro seja um romance policial, não se deve chamá-lo de romance político, uma vez que a visão preponderante no texto é justamente contra a ação política. Hugo e Sílvia são os únicos personagens que possuem conteúdos positivos investidos: Hugo é inteligente e crítico, Sílvia é bonita, politizada e da alta classe. O “Cabeça de Negro”, marginal sem nome, é símbolo das massas despolitizadas, hordas de criminosos desorganizados prestes a destruir a burguesia irracionalmente, assim como hordas de bárbaros puseram abaixo o Império Romano.

O discurso sobre as chegada iminente das hordas é um discurso da nova direita, um discurso de neoconservadores. Um neocon é basicamente um traidor da esquerda. Nos EUA, foram originalmente um grupo reunido em torno dos intelectuais Kagan e Kristol e que advogava que tudo o que é bom para os EUA é bom para o mundo. Esses ex-trotsquistas praticaram um ativo anticomunismo, discurso com conteúdo moral religioso e postura unilateral na política externa. Para os neocons, o passado é exemplo histórico da boa sociedade, mas eles também prometem um futuro melhor com a hegemonia mundial norte-americana.

Permeado dessa ideologia, então novidade nos EUA, uma vez que de fato articulada e melhor divulgada a partir da saída desses intelectuais democratas da campanha de McGovern em 1972, o romance de Francis pretende-se diferente da “literatura brasileira”, uma literatura onde “contam-se os dedos dos pés das pessoas”, ou seja, uma literatura de minúcia detalhista com a qual a narrativa estaria rompendo. Ele advoga a normalidade de uma vida burguesa marcada apenas pela prática da caridade despolitizada, por um lado, enquanto por outro alerta para a necessidade de reprimir as massas marginalizadas, os “cabeças de negro” que podem destruir a civilização da Zona Sul e que devem, deixa então Hugo subentendido, ser reprimidos. Supomos que Cabeça de Negro é o primeiro romance da literatura brasileira a ter um personagem que traiu a esquerda e aderiu ao neoconservadorismo, então uma novidade recente: Hugo Mann.

Para o neocon aclimatado no Brasil, a questão social é caso de polícia. Hugo já é um neoconservador, já rompeu com a esquerda intimamente, mas ainda preserva amizades nesse círculo social – mas a ruptura e a passagem para a militância no outro lado é apenas questão de tempo: ele adverte várias vezes contra o estatismo dos “autênticos” do PMDB, dentre outras forças que considera nefastas, tais como os trotsquistas Juca e Mário. Quando lhe perguntam se prefere a inação, responde que sim, alegando preferir que a esquerda não aja do que pratique “amadorismo trapalhão”. Esse é o cerne da ideologia da não-ação que Mann alegremente prescreve. Ele destoa, por ser portador de uma ideologia diferente, dos personagens reacionários à moda antiga tais como Cruz e Dr. Agamenon, direitistas ligados ao catolicismo conservador e a Plínio Salgado: Mann não é católico nem nacionalista, sua simpatia está com os norte-americanos.

Os alvos preferenciais de Hugo, durante o romance, representam as forças políticas do espectro onde o jornalista se movimenta. O romance se encerra justamente com o conflito entre Álvaro e Renata: para poder voltar ao Brasil e se reinstalar, o comunista dedurou a esquerda guerrilheira, auge da tensão, bem maior, aliás, do que o assassinato do marginal “Cabeça de Negro”, símbolo das massas despolitizadas. A morte do pobre é recebida com frieza e piada por Hugo Mann, mas a morte da bela intelectual ligada à guerrilha o faz rebelar-se contra Álvaro, o delator, a quem surra, e matar Maneco, cínico industrial e personagem que, ligado ao poder, manipula a todos a seu redor. Ele é o traidor e o grande vilão do romance, mas termina assassinado por Hugo Mann. Posteriormente, no livro que deixou inédito, Carne Viva, Francis focalizou justamente a vida de um grande industrial, um 

banqueiro.


por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

3. O romance: uma construção com andaimes

O tempo da narrativa é 1978, conforme uma passagem onde, debatendo com o jovem filho de Sílvia, Pedrinho, Hugo comenta que no rapaz de dezoito anos eram visíveis os efeitos negativos sobre a juventude que exerceram quatorze anos de ditadura, tais como a amoralidade e a ignorância cultural.

Numa dada altura do romance, de ressaca, Hugo Mann acorda com ajuda de Juca (o erudito médico Joseph Hansen), figura que inicialmente parece reacionária (contou que chegou a escutar discursos anti-semitas de Plínio Salgado), mas que depois, ao final do romance, revela-se um trotsquista. E, acordando, Juca cita um texto teórico de Hugo:

"Não é possível deixar de ser irônico e fragmentário observando a sociedade atual, em que as personagens apenas repetem mecanicamente rituais que perderam toda a credibilidade. A mímica elaborada de desastres dos comediantes do cinema mudo, hoje, tornou-se quase naturalismo (2)."

A passagem acima pode ser tomada para interpretar a própria narrativa da qual esse fragmento faz parte. Os personagens debatem sobre a revolução socialista, criticam a censura e o regime militar, mas o narrador Hugo Mann retira sistematicamente toda a credibilidade e sentido que poderiam ter esses discursos, tirando-os de foco intencionalmente, não os inserindo em seu contexto, tendo um resultado desastroso. Filtrados pelo niilismo de Hugo Mann, personagens como Álvaro e Renata são praticamente emudecidos. Quando dizem diálogos entrecortados, é apenas para que o jornalista Mann edite seus discursos de maneira a dizer que são fracos fazendo mímica e dar-lhes crédito será desastroso. Mann compadeceu-se de Renata quando ela se suicidou, mas também atacou duramente suas opções políticas, que chamou de "terroristas", palavra que também usava o regime militar para designar os que estavam em luta armada, inúmeras vezes.

A maioria dos personagens, até mesmo o protagonista Hugo Mann, é investido de conteúdos negativos e suas falas são direcionadas pelo narrador Hugo a confirmar isso. Existem, no entanto, brechas que sinalizam em outro sentido.

Um exemplo: o filho de Sílvia, Pedrinho, é sempre investido de conteúdos negativos: logo de início pratica incesto com a mãe, Sílvia, é amoral, arquiteto com diploma comprado e sem talento, cheirador contumaz de cocaína. No entanto, num raro momento onde a voz imperativa de Hugo dá lugar às falas dos personagens, podemos escutar a voz de um jovem que entendeu perfeitamente, em seu estilo coloquial e cheio de gírias, a crítica ácida e o preconceito lingüístico de Mann:

"-- Não começa a complicar o papo que te beijo na boca e você fica todo envergonhado. Não sou intelectual, huguenote, mas manjo tua técnica. Alguém fala um troço, tu começa a decompor frase por frase, palavra por palavra, e tudo que o outro disse vira besteira (...). Pô, tu tá rindo de mim.

-- Não, pelo contrário. É muito inteligente essa tua análise de Maria e Maneco. "Podes crer". Palavra. Estou rindo de pena do Aurélio Buarque de Holanda.

-- Pô, tu tem pena de dicionário, de livro? Huguenote, qual é o teu barato? Tu tá escondendo aí um pó melhor do que esse (3)."

Hugo Mann mostra-se, em contradição com a própria narrativa que orquestra, que também é altamente coloquial e repleta de gírias, contendo também muitas construções em português não-padrão. Conservador diante do jovem com suas gírias, o narrador Hugo Mann também se desvia muito da chamada "norma culta" dos textos de Aurélio Buarque de Holanda.

Embora o romance se aproxime da abordagem naturalista, o narrador não segue os padrões do século XIX. Com freqüência a narrativa volta-se para si mesma, fazendo interrogações sobre seus aspectos mais obscuros e que causam maior estranheza, como o fato bizarro de existirem duas personagens com nome de Ângela, a 1 e a 2 (algo digno de Kafka):

"-- Qué isso? Estou falando de mim, a "saudável". Sei que análise ajuda gente como a Ângela, que é horrível vocês chamarem de "1", entre parênteses. "Parece troço de vegetal (4)."

Sendo assim, o próprio narrador parece ter consciência do efeito de absurdo que essa forma de dar nome aos personagens e procura amenizá-la referindo-se a seu processo de maneira explicativa.

O narrador Hugo Mann se refere pejorativamente à própria literatura brasileira. Embora seja algo como um "Malraux nietzschiano do Grajaú", como ele se queixa que a crítica o denominou, (ou seja, é um alguém que debate política e ideologia tendo como referência o pessimismo trágico) ele não aceita a definição. Mann ataca a esquerda, mas confraterniza a corrupção brasileira que critica. Sintomática é a atitude que tomou Mann diante da empregada Marlene, que, distraída em namorar, teria facilitado a entrada do marginal na casa de Sílvia: no final da narrativa, é o próprio Hugo que se envolve e deseja sexualmente a empregada doméstica de Sílvia. E justo de Sílvia, sua amada e que afirmou, em dado momento, que a esquerda precisava agir para "balançar essa senzala" (agitar o Brasil). Embora da "Casa Grande", o jornalista Hugo também ama ativamente na "senzala". Só deseja mudanças efetivas, deseja anular a esquerda; no mais, tudo bem que tudo fique como está.

Com o fim da Guerra Fria e a superação histórica da esquerda com a qual Hugo Mann troca sarcasmos, a parte mais viva e curiosa do romance nos pareceu justamente que ele deixa passagens irônicas, excrescências, passagens non sense. A referência da citação, que poderia ser a canção da Jovem Guarda, seria um romance de 67 sobre a luta armada:

"Jogo-a de lado. Igual a essa como 300 por dia, de sobremesa. Avanço. Espera, não, isso é Pessach: a Travessia, do Cony. Nada de plágios. Vago. Epa, epa, Editora Abril. "Realidade" no tempo da gente boa (5)."

Com freqüência, as frases de Hugo Mann lhe saem assim, barrocas, mesmo quando o estilo é modernista e telegráfico: são um pout-pourri incontrolável de referências e informações sobre as quais o próprio protagonista não parece ter todo o controle.

4. Conclusão

Cabeça de Negro é, concluímos, um romance de idéias que prescreve a inação para a esquerda, introduzindo o personagem do neoconservador na literatura brasileira na figura de um ambivalente jornalista chamado Hugo Mann. Esse é o seu grande mérito, prefigurando um tipo de discurso e de figura que se tornaria hegemônica no Brasil dos anos 90, dando, portanto, uma contribuição para que se possa compreender e combater melhor o perfil do profissional que trai a esquerda. Julgamos curiosas, também, algumas passagens onde o autor faz metalinguagem e deixa contradições ou elementos que não são claros, é o que resta de mais vivo no romance.

5. Notas e Referências

1. ONOFRE, José. As duas cabeças dos romances de Francis. Porto Alegre: Revista Oitenta, 1979.

2. FRANCIS. Paulo. Cabeça de Negro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979, p. 91

3.. Op. Cit. p. 175

4..Op. Cit. p. 123.

5. Op. Cit. p. 196.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Dead Lover´s: Kant com Sade

Se o Rock das origens era algo tosco e que moveu a juventude dos anos 50, talvez hoje em dia alguém possa dizer que não é possível o Rock and Roll como antigamente. No entanto, o gênero tornou-se muito bem sucedido no mercado do mundo inteiro.


No cenário um tanto caótico do mundo, em que um presidente norte-americano parece ter seguido o conselho de Che Guevara e criado muitos vietnãs (Afeganistão, Iraque, Coréia do Norte), emerge a banda belorizontina Dead Lover´s Twisted Heart, mostrando vitalidade com seu Folk-Rock Indie. Fazendo da possível precariedade um diferencial e uma possível demonstração de ligação com as raízes do gênero musical ao qual se filiam canções como Hey Babe, Have You Ever Been in Hell e All Night Long, as músicas fazem apelos primais & tribais ao desejo e à vontade de p(h)oder. A banda demonstra um transbordamento nietzschiano de vida.

Hey Babe faz uma descrição do inferno sentimental pelo qual a sua amada nunca passou, tal qual um Dante clamando por sua Beatriz. All Night Long faz a apologia do desejos do eu profundo (Kant com Sade), além do elogio do impulso instintivo de posse mais primitivo e brutal. E se há algo de que existe efetivamente posse é o domínio que essa banda exibe do estilo folk-rock. Há todo um discurso amoroso trágico à la Nelson Gonçalves que parece ter sido vertido em inglês.

Se há quem diga que a história da música popular é um amontoar de clichês, vale a pena notar como a Dead Lover´s não soa clichê como soavam Engenheiros do Havaí e Guns and Roses quando regravavam iê-iê-iê italiano e Bob Dylan, fazendo referência aos anos 60 que, essa sim, faz jus ao termo clichê no pior sentido: uma linguagem desgastada. As guitarras da Dead Lover´s soam emocionadas, selvagens e faiscantes, nunca chupadas dos Rolling Stones ou de algum bluesman de antes.

A Dead Lover´s harmoniosamente arranjou uma ligação entre os nervos e as cordas de aço, entre o desejo de morte e de dor e os Eagles do Death Metal. Os amore excluir





*Laurene & Lúcio 11/12/2006 11:21 Os amores de Erasmo (Carlos) aproximam-se das loucuras de Erasmo de Roterdã, uma vez colocados sob o império de David Bowie & Lou Reed. Referências literárias (Mark Twain) misturam-se a outras musicais (Franz Ferdinand) e em diálogo com outras artes (Laerte e Angeli). Deixando um pouco de lado os arroubos de rebeldia, desejo e melancolia, o bom humor fez uma aparição picaresca em Huckleberry Finn. Os dramas são levados a um ápice em No More Dramas: o drama musical iluminista dos tempos de Beethoven não tem como sobreviver na violência de um mundo em que a história da burguesia fundiu com a humanidade; todas as bandeiras estão em frangalhos e os dramas foram levados ao extremo para serem destruídos.

A destruição é a verdadeira Beatriz dos Amantes Mortos de Coração Balançado. Eles se assentam sobre todas as ruínas de um mundo superaquecido, tarde na História, mas cantam, dançando de alegria entre restolhos e relíquias para rasgar.

A Vitalidade Póstuma de Machado de Assis

 A Vitalidade Póstuma de Machado de Assis






David Taylor

Trad. Lúcio Jr



No ano passado (2001) o filme brasileiro Memórias Póstumas, dirigido por André Klotzel, colecionou prêmios em festivais cinematográficos em todo lugar de Berlim a Kerala, no sudeste da

Índia. Esta fiel encarnação de um romance escrito em 1881 por Machado de Assis mostra o quanto está vivo o seu estilo um século depois de sua morte. Seus escritos deixam clara a venalidade humana, mas também se utilizam de sombrio humor e uma insinuante compaixão.

“Eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi um novo berço”, diz o narrador, Brás Cubas, adicionando que para ele, “a cova foi um novo berço”. Com esta abertura, ele varre fora as convenções da narrativa e qualquer ar de autoridade sobrenatural; ele está dizendo que simplesmente espera que este método nada usual adicione para seu conto um valor de entretenimento.

Em poucos capítulos, As Memórias Póstumas de Brás Cubas conta a vida do narrador como um endiabrado, saudável homem solteiro e seus casos. Na conversa casual de um homem morto, o conto se torna surpreendentemente divertido. Brás dedicou um certo capítulo como um pagamento para suas pernas. O texto abaixo tem um toque shakespeareano, com um lance perverso:



Pernas abençoadas! E ainda algumas pessoas as tratam com indiferença...Sim, leais pernas, vocês deixaram para minha cabeça a tarefa de pensar sobre Virgília, uma disse para outra: ‘ele tem um problema mental, é hora do jantar, então vamos levá-lo ao Pharoux. Vamos rachar sua inconsciência; nós vamos deixar a dama pegar uma parte dele, e nós pegaremos a outra, então ele irá direto lá, não vai esbarrar em pedestres ou carros, vai tirar chapéu para um conhecido e chegar são e salvo ao hotel. E vocês carregaram o projeto da carta, amadas pernas; em reconhecimento a esta gentileza agora as imortalizo.



Machado anda solto por aí. Susan Sontag se disse “retroativamente influenciada” por Machado depois que seu editor lhe deu uma cópia de Memórias (numa tradução intitulada Epitaph for a Small Winner). A voz de Kevin Spacey no ganhador de Oscars American Beauty (Beleza Americana) nos faz suspeitar da presença de Machado. Woody Allen disse que Machado é um “brilhante e moderno escritor” cujos livros “poderiam ter sido escritos este ano”.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em junho de 1839 de um pai que era um pintor mulato e uma mãe às vezes descrita como espanhola, portuguesa e mestiça. Os avós de Machado eram negros libertos. Se Machado descrevesse sua vida como um de seus personagens, ele poderia resumi-la dizendo que ela foi amaldiçoada pela fraca saúde e a gagueira de sua juventude, seus pais morreram enquanto ele ainda era jovem, e uma vez adulto ele contraiu epilepsia. Mas isso não seria um quadro completo. De fato, Machado tem frustrado biógrafos que tentam encher os vazios entre seu começo promissor e sua vida posterior como pai da literatura brasileira.

O Rio de Janeiro seria o mundo de Machado através de toda sua vida. Depois que seus pais morreram, o menino teve a sorte de ser criado por uma boa mãe, tendo tido acesso a uma boa saúde e sido bem educado, mas provavelmente não terminou a oitava série. Na idade de 16 anos estava escrevendo poemas para publicação e na idade de 17 anos ele passou a trabalhar como pintor aprendiz. Aos 18 anos ele tinha escrito um libreto de ópera.

Muito rapidamente, começou a escrever histórias, artigos e peças, e em 1872 ele publicou seu primeiro romance, Ressurreição, no estilo romântico então popular. Mesmo sendo de natureza dada às enfermidades, Machado tinha uma energia contagiosa. Sua biógrafa Helen Caldwell escreve que nos seus primeiros quinze anos como escritor, Machado escreveu 6.000 linhas de poesia, 19 peças e libretos de ópera, 24 contos, 182 artigos e 17 traduções. Ele se encontrava com outros escritores em salões literários e colaborava com poetas e músicos em apresentações.

Uma pequena olhada nas suas aparições em público num período de seis meses revela sua energia e envolvimento. Em 15 de setembro de 1865, Machado recitou seus poemas na fundação da sociedade Arcádia Fluminense, e de novo na abertura da sociedade um mês depois. Ele escreveu a letra para o novo hino da sociedade e seu terceiro encontro em dezembro, leu sua tradução do poema de Longfellow The Old Clock and The Stairs , e apresentou sua nova comédia. Em fevereiro, ele publicou o poema Os Polacos Exilados, para obter dinheiro para os poloneses no exílio.

Em 1868 ele encontrou Carolina de Novaes, a irmã de um amigo literato, quando ela voltou de Portugal para tomar conta de seu irmão Faustino depois de um colapso nervoso. Por volta de março de 1869, Machado e Carolina estavam trocando cartas de amor, freqüentemente duas por dia. No mês seguinte se casaram. No fim das contas, seu casamento foi devotado e feliz por 35 anos. (Quando ela morreu, em 1904, Machado homenageou-a num comovente, elegíaco soneto). Quando ele estava doente, Carolina lia cartas e papéis para ele, e o ajudava como secretária.

Machado ocupou uma série de postos no governo, incluindo um no departamento de agricultura. Ele continuava a escrever constantemente, mas suas primeiras ficções não se sustentam ou não se elevam adiante das outras ficções do tempo.

Em 1879, Machado sofreu um sério baque em sua frágil saúde. A doença, às vezes descrita como epilepsia, forçou-o a ficar meses se recuperando num retiro. Durante esse período, ele parece ter repensado a si mesmo e seus escritos. O resultado é que ele passou a deixar para trás as convenções literárias que lhe pareciam falsas. Por agora ele tinha lido e absorvido trabalhos literários como Tristam Shandy, de Lawrence Sterne. Quando ele ficava cansado, ditava capítulos para Carolina.

Machado revelou uma nova voz dialógica – uma espécie de realismo psicológico. Memórias Póstumas apareceu na cena literária como uma combinação de humor e de sarcasmo. Brás, o primeiro nome do narrador, sugere Brasil, e o último nome (cuba em português quer dizer barril) relembra os barris que o ancestral trabalhador fazia antes de se tornar um rico plantador. A combinação evoca um espírito de confidência e comércio. Cubas confessa pretender inventar um emplasto anti-melancolia. A idéia o fascinou pela promessa de altos benefícios públicos, e a fama internacional que isso lhe daria. Isso se tornou uma obsessão:



Minha idéia estava realmente fixa, fixa como...Não posso pensar em algo tão fixo neste mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a Dieta alemã. Deixo o leitor fazer quaisquer analogias que o agradem, deixá-lo fazer e ficar contente; não há necessidade para ele de torcer o beiço para mim só porque ainda não chegamos na parte narrativa destas memórias. Não devemos chegar até ela. O leitor, como seus amigos, dubiamente prefere ação do que reflexão, e está com a razão. Então vamos a ela.



Depois disso, o narrador implora ainda mais espaço para considerar o emplasto e os modestos, mundanos esforços que “não infreqüentemente sobrevivem” mais distante do que os gestos inteligentes do público. Ele oferece o exemplo das “pessoas comuns, que costumavam procurar a proteção na sombra do castelo feudal”; o castelo caiu, mas as pessoas comuns cresceram em força, ele disse. Como o censor talvez repreenda, ele diz, “talvez eu deva atirar fora esta analogia” . Mesmo aqui, colocando em frente o idealismo democrático, Machado pisca para o leitor e para o imperador (o império acabou pouco antes de Memórias ser publicado).





O Rio de Machado de Assis





Machado respondeu aos contrastes da barulhenta cidade ao redor dele. O Rio continha uma elite que modelava a si mesma na cultura européia, com salões e concertos, assim como era um entreposto comercial onde a pobreza contrastava com a prosperidade. A cidade quadruplicou em população durante seu tempo de vida, e a vizinhança crescia entre cortiços e bairros caros, com subúrbios de classe média emergindo entre extremos. O Rio instalou o telefone em 1877 e o bonde elétrico quinze anos depois, mas suas muitas vizinhanças careciam de saneamento básico, e surtos de cólera, varíola e peste estouraram através de sua vida, especialmente nos meses de verão. A escravidão não foi abolida até 1888.

Tudo isso encontrou seu lugar na não-romantizada ficção de Machado. Como seu contemporâneo Checkov, Machado olhou de fora a vida literária carioca, e tinha um olho clínico para a sociedade brasileira e a maneira como as pessoas respondiam às suas tendências financeiras e sociais. Ele estava fascinado com a maneira como a beleza e a fúria coexistiam face a face. Na sua última novela Dom Casmurro, um ansioso amante é parado na rua Matacavallos para prantear um conhecido que morrera de lepra. Em Memórias, Brás Cubas ficou chocado em encontrar sua ex-amante, a linda Marcela, atacada de varíola numa loja na rua dos Ourives, onde ele entrou por acaso. O momento é pertinente para falar da tristeza da amante perdida, e também o último brilho de sua vaidade e resignação com a vida.

Sua pose como uma rara mulher empreendedora (“um homem a amara e que morrera em seus braços lhe deixara esta loja; mas, para finalizar seus azares, não teve como manter a loja, porque os clientes acharam estranho ver uma mulher empresária”). O frio reencontro dele com ela; uma calorosa saudação que ela ganhou de uma criança.

Machado faz seguir esta cena naturalista com um capítulo metafísico chamado “aquilo que Aristóteles não viu”. O capítulo sugere invisíveis conexões entre os residentes no Rio e as teorias sobre a física, como a energia se deslocando de um corpo para outro. Por exemplo, Brás carregou seus pensamentos tristes sobre Marcela para seu encontro com Virgília, uma jovem amante. A desatenção de Brás faz Virgília ficar confusa. Eis o trecho:



Começa uma bola a rolar; ela rola e entra em contato com outra bola, transmite seu movimento para outra, e a segunda bola passa a rolar. Vamos chamar a primeira bola de Marcela; a segunda, Brás Cubas. E a terceira, Virgília. Vamos assumir que Marcela, tendo recebido algo do passado, rolou até entrar em contato com Brás Cubas, o qual acertou em Virgília, e fica sem saber da primeira bola; e depois, pela simples transmissão de uma força, opostos extremos de uma sociedade entram em relação com outro, estabelecendo algo que poderíamos chamar de União da Miséria Humana.



Nós não podemos supor que Machado concorda com as idéias de Brás, é claro. Claro que Brás é de certa maneira uma estrela. Mas cartas mostram que, diferente de Brás Cubas, acreditava no trabalho duro. Como Brás, Machado não teve crianças, mas nada indica que estava feliz com isso. E enquanto Brás chamou a si mesmo de pessimista, Machado explicou a um amigo que o pessimismo é mais complexo, e “não quer dizer impenetrável desespero e tristeza, e Schopenhauer era um velhinho alegre”.





O Maravilhoso Mundo de Machado





Eu pela primeira vez encontrei uma história de Machado de Assis num lugar que ele poderia ter inventado: uma pequena loja chamada Livros Tântricos numa alameda de Katmandu, onde uma antologia de contos latino-americanos continha “A Missa do Galo”. Eu fiquei assombrado pelas impressões de juventude do narrador, ao mesmo tempo inocente e sensual, e o jeito como o texto fala do desejo de uma mulher idosa pelo narrador, desejo do qual ele só ficou consciente muito tempo depois.

Os romances de Machado são “performances” inteligentes. Ele amava a ópera. Ele ia a performances freqüentemente, e escreveu libretos para muitas (em Dom Casmurro, um tenor italiano aposentado explora em detalhes a sua teoria de que a vida é uma grande ópera). Ele também lia sua poesia em eventos públicos. O narrador de Memórias Póstumas convida teatralmente gozando o leitor, e colocando perguntas. Brás subverte as convenções da ficção e tenta transformá-la em arte performática. Numa outra cena a dois terços do romance, ele diz: “O grande defeito deste livro é você, leitor. Você quer viver rápido, e o livro vai lentamente, você quer uma narrativa segura, com estilo suave, mas este livro e meu estilo são como uma dupla de bêbados: giram, balançam, vão ao céu e caem...”

Com Gary Amdahl escreveu em 1997 para a revista The Nation: “Se você é o tipo de leitor que fica ofendido quando chamado de defeito, este livro não é para você.” Por outro lado, ele acrescenta: “se você atualmente quer achar um pequeno livro bem importante, você vai encontrar em Memórias Póstumas um grande romance”.

Em energia e inovação, Machado partilha certas qualidades com Tom Zé, compositor que lidera as listas internacionais de músicos brasileiros de sucesso. Zé, nascido na Bahia e há muito tempo residente em São Paulo, foi um amalucado co-fundador do movimento tropicalista nos anos 60. No seu fantástico jogo de palavras, em sua liberdade com as convenções, os dois artistas podem ser objeto de uma excitante comparação. Alguns meses atrás, Zé estava profundamente comovido por um conto chamado “Conto de Escola” (A School Tale), uma história de iniciação.

“É melhor você o ler”, disse Zé num e-mail, “porque o leitor que conta o que uma história é, não é bom leitor”. Zé nem sempre apreciou o trabalho do pai da literatura brasileira. “Eu admito que quando eu era mais jovem eu preferia Euclides da Cunha [ contemporâneo de Machado] – aquela densa e maravilhosa escrita, aquela força e compreensão implícitas” do homem do nordeste brasileiro. Mas recentemente Zé se aproximou da “profunda e clara escrita de Machado de Assis, translúcida como água num copo de cristal, às vezes bem-humorada, e transparente mesmo quando ela olha para o diabo”.

Depois de Memórias, Machado continuou a escrever romances e sua reputação cresceu. Em 1897 ele se tornou o presidente fundador da Academia Brasileira de Letras, um grupo cujos membros continuam chamados de “imortais” por seus compatriotas. Muitos anos antes de sua morte os amigos de Machado o presentearam com um galho de uma árvore que cresceu no túmulo do poeta Tasso em Roma, uma homenagem para uma das maiores celebridades brasileiras e um poeta. Quando Machado morreu em 1908, milhares o choraram. “Até o último momento”, um amigo observou, “ele manteve a clareza de espírito e mente que era sua qualidade preponderante e da qual seu estilo era uma imagem”.

Cem anos depois, há sinais de que Machado ainda tem uma promissora carreira daqui para frente. Além do filme Memórias Póstumas, Susan Sontag o saudou com um capítulo num recente livro de ensaios. Um recente número da revista Latin American Literature and Arts contêm uma novela ainda não traduzida, intitulada “O Imortal”. Será que cedo vamos ter uma versão cinematográfica de outra obra de mestre de Machado – Dom Casmurro, a qual Helen Caldwell chamou “provavelmente o melhor romance americano de todo continente”.

O tema de Dom Casmurro está em seu título, que pode ser traduzido de maneira literal e estranhamente como “Lord Cranky”. O saudável velho narrador escreveu uma exata duplicata de sua casa, atenta para contar a história de seu primeiro amor e como seu amor o traiu, mas o real sujeito do livro é a estranha conjunção dos contrastes que nós encontramos na vida. A beleza coexiste com a feiúra, o justo com o injusto, o rico com o pobre, sentimentos de amor com traição. “A natureza é tão divina que ela se diverte com contrastes”, observa o narrador, “e talvez a flor tenha beleza. Meu jardineiro diz que as violetas, para poderem ter uma fragrância superior, necessitam de um exaustivo cuidado”.

Por trás deste tema, Machado colocou uma mensagem mais profunda: observando nossas vidas, podemos escolher entre ver tanto a beleza quanto a feiúra, não só uma ou outra. Na conclusão amarga e ciumenta do romance, o autor dá a idéia de que poderia ter havido um final feliz, se o narrador o tivesse escolhido. No começo do livro, Lord Cranky ele mesmo fala aos leitores dessa visão, e mesmo sugere como devemos ajudá-lo a terminar o livro depois do fato:



Não, não, minha memória não é boa...Como eu invejo aqueles que não esquecem a cor de suas primeiras calças! Eu não estou certo da cor daquelas que coloquei ontem. Eu só posso jurar que não eram amarelas, porque eu detesto essa cor...Não há como resolver um livro confuso, mas qualquer coisa pode se imaginar em livros com omissões. De minha parte, quando eu leio uma do velho tipo eu não me aborreço nada. O que eu faço, chegando ao fim, é fechar meus olhos e evocar todas as coisas que eu não acho nele. Como muitas boas idéias chegam a mim quando faço isso! Que profundas reflexões! Os rios, montanhas, igrejas, o que eu não acho na página escrita, tudo aparece para mim com suas águas, suas árvores, seus altares; e tudo aquilo se vai subitamente da alma. O fato é que, tudo aquilo que pode ser encontrado fora de um livro tem lacunas, gentil leitor. É o meu jeito de preencher as lacunas dos outros homens; da mesma maneira que você vai caber nas minhas.
















O Ajudante e uma Carta

 O Ajudante, Um Angelical Romance de Robert Walser


>

>Com certeza, eu serei bem feliz no túmulo,/ Se levar uma

>garrafa bem sortida/ Que naquela habitação, de paz tranqüila, /Ninguém sabe

se

>há taverna nem bebida.

>

>Zé d Avó Gontijo (1860-1905)

>

>O romance O Ajudante (Ed. Arx, 2003), traduzido por Zé

>Pedro Antunes, surpreendeu-me. Quando se fala em Walser (e no Brasil, isso

pouco

>acontece; eu e Zé Pedro falamos a respeito de duas traduções de outros

textos

>publicadas por ZPA no Usina de Letras, saíram alguns comentários de

escritores

>como Moacir Scliar e Bernardo Carvalho e jornalistas, especialmente da

Folha

>de São Paulo , e só), fala-se também em Kafka e Walter Benjamin, autores

>consagrados aos quais ele se ligou. Esperei que o texto de Walser me

fizesse

>lembrar do texto kakfiano, principalmente. No entanto, Der Gehülfe é um

>romance realista que se concentra na relação entre classes sociais.

Trata-se de

>uma narrativa que se constrói com base num narrador onisciente e que se

>concentra em observar a vida de Joseph Marti, empregado de Karl Tobler.

Marti

>vive num pequeno lugarejo às margens de um lago, e não está de mal com a

vida.

>As observações do narrador sobre Joseph muitas vezes se tornam quase uma

prosa

>poética, uma delicada observação do cotidiano. Transparece que Joseph é um

jovem

>inocente, sensível e até efusivo, tendo essa última característica sido

>demonstrada pela presença de vários pontos de exclamação pela narrativa.

>

>Eu creio que detectei, como núcleo do romance, a conflituosa

>relação entre as classes num país europeu onde elas se relacionam de forma

>rígida. As passagens que se referem ao ex-ajudante Wirsich, para mim, são

>aquelas em que o romance subitamente se encorpa. Wirsich tinha relações

sexuais

>com a criada Pauline. E até despertou a atração da esposa do sr. Tobler,

que

>mesmo depois de sua saída se referia elogiosamente a ele para provocar

Joseph.

>As passagens em que se destaca o nome "Wirsich" tratam justamente do

conflito,

>ou seja, são uma microfísica da luta de classe. Marti se espelha em

Wirsich. "Eu

>sou você amanhã", poderia ter dito Wirsich a seu sucessor. E, de fato, é

nesse

>rumo que o romance se encaminha: Joseph começou a conflitar justamente com

a

>figura com quem Wirsich tinha a relação mais complexa: "ela", a burguesa

esposa

>do engenheiro Tobler. Wirsich, bêbado, gritou ao burguês as verdades que

ele não

>queria ouvir. Depois tentou convencer o patrão que era um sujeito cindido,

fato

>no qual o patrão não acreditou. O engenheiro Tobler demonstra saber, ainda

que

>intuitivamente, que o trabalhador sob seu jugo não era ele mesmo, e sim

alguém

>alienado de seu próprio ser. Ao se reencontrar com esse ser, posto "dentro

de

>si" pela embriaguez e pelo ócio, Tobler reencontrou-se com a verdade de sua

>própria classe, algo insuportável, e o despediu.

>

>Essas impressões a respeito da presença de uma ideologia se

>reforçaram posteriormente, quando o narrador refere-se a um envolvimento de

>Joseph Marti com o socialismo:

>

>Sob o nome de socialismo, parecido a uma exuberante

>trepadeira, uma idéia ao mesmo tempo desconcertante e familiar havia-se

>apoderado da cabeça das pessoas, sem deixar de lado as mais velhas e mais

>experientes, e insinuara-se ao redor de seus corpos de tal modo que todo

poeta e

>escritor, ou mesmo as pessoas jovens que podiam prestar auxílio ou tomar

>decisões, por ela se apaixonaram. Jornais dessa moda ou tendência explodiam

como

>em cores flamejantes, com um arrebatador perfume de flores, da escuridão

dos

>espíritos empreendedores, para surpreender e entusiasmar a opinião pública.

>Faziam mais barulho em torno dos trabalhadores e seus interesses do que os

>levavam a sério. Eram freqüentes as demonstrações, das quais as mulheres

também

>caminhavam, agitando bem alto bandeiras vermelho-sangue e pretas.

>(WALSER, 2003, p.157)

>

>Nesta passagem nota o único deslize nessa excelente tradução.

>Talvez no lugar de "das quais" devesse estar escrito "nas quais". No mais,

>podemos dizer que essa passagem é muito curiosa, pois, embora Marti tivesse

se

>desinteressado dessa "moda" de socialismo, há indícios de que a

insatisfação com

>a ordem estabelecida e a situação do mundo que Marti sente se enraizou na

>realidade na medida em que se impregnou do "aroma" de Rosa Luxemburgo.

Desse

>narrador, não se pode dizer que não falou das flores. Não vamos esquecer

que a

>Suíça onde esse livro foi publicado é a Suíça onde vivia Lênin, exilado da

>Rússia.

>

>Embora eu tenha detectado como centro do romance a família

>comandada pelo pai de família Karl Tobler, há vários episódios curiosos e

>significativos: os dois dias de prisão do ajudante, em que ele se fascinou

com

>as histórias do ordenhador rebelde, com quem se identificou; o feriado

nacional,

>dia em que Tobler ficava especialmente cordial e amigo. O patriotismo,

insinua

>claramente essa voz que vem de uma Europa intoxicada pelo nacionalismo

>agressivo, neste caso serve para ocultar os conflitos entre engenheiros e

>ajudantes da Suíça (e do mundo). É notável também o quanto os conflitos

entre

>proletário e burguês presentes neste romance já são os de um capitalismo

>avançado, daí não estarem datados. Quase ao fim do romance, o próprio

Tobler

>afirmou que, embora ministre uma educação religiosa aos filhos, "não

acredita em

>nada". Essa vontade de nada, o niilismo, é bem um problema do século XX,

>detectado por Nietzsche, outro que se beneficiou da tolerância da avançada

Suíça

>e que morreu pouco anos antes de Walser publicar esse romance, tendo também

>terminado a vida transtornado.

>

>Enfim, desenvolvendo um tópico anteriormente abordado, faço o

>resumo da ópera: para mim, "Wirsich ist wirchtig" ("Wirsich é importante").

>Marcou-me especialmente o momento em que Marti o reencontrou reduzido à

miséria,

>com a mãe doente. Marti, como um anjo, ajudou Wirsich a encontrar um

caminho. E

>ainda, na intimidade da alcova, ensinou-lhe boas maneiras, recebendo a

seguir

>sonífera a resposta do outro: "Você é o mesmo um bom rapaz, Marti"

(WALSER,

>2003, p.234). A relação entre anjos e ajudantes, presente em Walter

Benjamin,

>foi observada por Jeanne Marie Gagnebin:

>

>Os anjos de Benjamin parecem assim progressivamente atingidos

>por uma espécie de incapacidade ou de deformação, bem como as bizarras

criaturas

>de Kafka, esses ajudantes e esses mensageiros que poderiam, pois, ser anjos

>potenciais, mas que só conseguem incomodar aqueles que deveriam ajudar e

que não

>transmitem mais nenhuma mensagem (GAGNEBIN, 1997, p.128).

>

>Posso dizer que Marti não foi um anjo tão desastrado

>quanto os anjos de Benjamin, embora fosse também chamado, pela Sra. Tobler,

de

>bizarro. A situação do local e da família em que se passou a narrativa

sobre

>Marti foi também fora do normal, pois, no decorrer do romance, o patrão se

>mostrou cada vez mais patético e desajustado, e a atmosfera progrediu das

>alegrias e sonhos do verão para decadência e os atritos do inverno. Quando

>Wirsich reapareceu, em meio ao longo e tenebroso inverno da decadência da

casa

>dos Tobler, afirmou:

>

>Eu bem que adiantei tudo isso ao interesseiro do Tobler --

>replicou o outro --, que ele ainda ia ser obrigado a sair voando da casa e

do

>jardim de que tanto se gabava. Foi o que ele ouviu muito bem de minha boca

>naquela noite, e agora as minhas palavras estão se cumprindo (WALSER,

>2003, p.286).

>

>As palavras de Wirsich a respeito de Tobler não só estavam se

>realizando como Tobler estava bebendo e se transformando em Wirsich, ou

seja,

>bebendo excessivamente para esquecer dos problemas. Quando, ousadia final,

>Joseph encontrou Wirsich novamente desempregado e o levou para dormir na

torre,

>dentro casa de Tobler, Joseph já estava decidido a encontrar outro

trabalho, já

>tendo sido agredido pelo Sr. Tobler. Ele não esperou a queda e a expulsão

dos

>Tobler da "Vila do Poente".

>

>O final impressiona, pois há uma analogia entre o romance a

>casa dos Tobler. Joseph é quem instaura a narrativa, com sua chegada na

casa.

>Com sua saída cai o pano. O leitor entra na "casa" que é o romance,

acompanha as

>andanças de Joseph dentro dela, e, assim como o ajudante, nela permanece um

>tempo, até sair.

>

>Bibliografia:

>

>GAGNEBIN, Jeanne Marie. Linguagem, História e Memória .

>Rio de Janeiro: Imago, Ed., 1997.

>

>REPA, Luiz. Um Idílio em Ruínas . Caderno Mais!

>11-05-2003, p. 12.

>

>WALSER, Robert. O Ajudante . Trad. José Pedro Antunes.

>São Paulo: Arx, 2003.

>

> ----- Original Message -----

> From:

> Regis Gonçalves

>

> To: Lúcio

> Emílio

> Sent: Monday, June 09, 2003 10:54

>PM

> Subject: Crítica

>

> Prezado Lúcio:

>

> Anda sumido!

> Como vão seus projetos, você que é sempre aquela

> locomotiva intelectual tentando acertar o curso de seus

> trilhos?

> De mim, acho que cansei de ser poeta. Ao menos

> até conseguir editar os tais inéditos que tenho na gaveta.

> Por isso, gostaria de me credenciar junto a você

> como... crítico literário. Como diriam os paulistas: magina!

> Enfrentei o desafio para elogiar o livro de um

> amigo. Pouco desafiador, você dirá. Não é exatamente uma estréia, já fiz

muita

> resenha, mas este texto puxa mais para o lado da crítica.

> Gostaria de conhecer sua opinião, que será ainda

> mais benvinda se já conhecer o livro. Se não, recomendo a leitura.

> Abraço.

>

> Regis

>

>----------