domingo, 16 de setembro de 2018

Entrevista com Alberto Coimbra: Top Show do Gu



Entrevista com o escritor Alberto Coimbra

quarta-feira, 30 de maio de 2018

De Mãos Albertas


Você é oxímoro.

Você é um poeta flaneur
Homem mulher
Céu e terra
Baudelaire do nosso tempo
Sem medo do ridículo.

Você é o salvador.
Você é Jesus no corpo de uma traveca.
Jesus que voltou.




sábado, 5 de maio de 2018

Nota sobre a nossa greve

  A assembléia do dia 23 de abril definiu que nós, professores do estado de Minas Gerais, voltaríamos a trabalhar, mantido o estado de greve, ou seja, poderíamos, em tese, voltar a fazer greve a qualquer momento. A companheira Elzenir Apolinário criticou essa postura, dizendo que tem experiência e isso representa o fim da greve. Há alguns dias, a PEC que estabelece o reajuste dos professores foi aprovada na assembléia.
            Nessa assembléia falou Guilherme Boulos, candidato a presidente pelo PSOL, advindo do Movimento dos Sem-Teto. O discurso de Boulos volta-se para temas como reforma urbana e agrária, assim como está também ligado à libertação de Lula, sem entrar em maiores detalhes. Havia uma faixa pedindo “Lula livre”. Outras vertentes estavam representadas: o PSOL utilizando largamente a imagem da vereadora assassinada Marielle. Igualmente, havia um boletim da Gazeta Revolucionária convocando a criação de um partido para revolução e não para eleição (segundo meu amigo Dionata Ossovsky, essa Gazeta é trotsquista). A Gazeta explica a PEC como forma de obrigar o governo do estado a pagar o piso federal não passaria de um golpe para acabar com a greve. O sindicato seria derrotista segundo a Gazeta, assim como o PT seria derrotista, pois a burocracia sindical pode perder privilégios.
            É curioso como o PSOL girou de acusador ferrenho da corrupção do PT para a posição a favor do presidente Lula e sua libertação. Curiosa posição. Denuncia-se escândalos de corrupção, mas quando o governo cai –devido à sucessão de escândalos, inclusive— passa-se à posição contrária, levando-se em conta o fato de que a direita tradicional roubou a nossa bandeira, mas que não deixa de ser curioso. Esse giro levanta a dúvida de que esses grupos são somente linha auxiliar do PT.
            A vertente com a qual concordo e que propõe o voto nulo e denuncia a farsa eleitoral estava presente –e notei o quanto incomoda. Propunha a continuação da greve, mas o meu grupo da cidade de Bom Despacho definiu que não temos condições de continuar a greve. Como algumas escolas pararam, outras não, as paradas passaram, inclusive, a perder alunos. Perdi uma turma e perdi salário. A PEC recentemente foi aprovada por unanimidade.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Que Cena, Alberto!

O livro Impressões de Cinema (Gulliver Editora) é um retrato de Alberto Coimbra e sua cabeça. Ele pensa cinema. E protagonizou intervenções no cotidiano da cidade de Bom Despacho que já entraram para o folclore: colocou máscara de piu piu e ergueu-se durante a eucaristia; numa audiência na Câmara sobre o aeroporto, ensaiava pequenos vôos, enquanto de sua roupa voavam plumas e paetês, produzindo uma cena surreal, dentre outras performances. Eu o conheci vestindo saia, blusa do cruzeiro, chapéu e levando uma mala, dizendo que ia pegar a (inexistente) ferrovia para Martinho Campos.
Alberto e seu livro me fazem pensar em José Agrippino de Paula: temos que viver as coisas que Oswald de Andrade escreveu. Alberto vive a contracultura dos anos 60 e o modernismo de 22.
O livro mistura crônicas autobiográficas em que ele insere Bom Despacho no mundo do cinema com poemas sempre inspirados por um determinado filme. Em sua imagética somos levados a uma Bom Despacho que não existe mais, a Bom Despacho em que a biblioteca pública era ao lado do cinema e o cinema apresentava produções que tinham interesse tanto para os intelectuais quanto apelo para a imprensa e as massas. Alberto é profundamente marcado por essa geografia sentimental: cinema-biblioteca.

Escrevendo de forma bela sobre sua infância em Bom Despacho nos anos 70, ele coloca a cidade dentro do cinema. Escrever sobre cinema de certo forma é estar no cinema, é de certa forma fazer cinema.

Alberto é de esquerda e esses dias mesmo estávamos falando sobre A Chinesa de Godard, filme que termina com a bela frase: "Eu achei que tinha dado um grande salto, mas apenas realizei os primeiros passos de uma longa marcha".  Alberto também é um pensador sofisticado. Ele escreve uma passagem que me faz lembrar muito Roberto Freire:

"Por causa de vícios comportamentais e do jeito de se referirem à sexualidade, principalmente a dos outros de forma pejorativa, adquirida e passada de geração em geração, ainda levam as pessoas a ligarem a liberdade sexual com a falta de limite, perversão, tudo é sacanagem, e a de se extremarem ligando o sexo com morte, enquanto deveriam viver essa mesma liberdade como forma de aprendizagem de vida, de aprimoramento pessoal e de enriquecimento da qualidade de vida como é o prazer de comer, dormir, transar, respeitar o próximo, os animais, a natureza, enfim, o Planeta. O ser humano e o Planeta pedem uma vida melhor".

Evoé, poeta modernista! Sem tesão não há solução!











domingo, 10 de setembro de 2017

Cenas Deliciosas de Antropofagia: O Widu de Lagares



            Em seu romance Widu, Muito Além do Silêncio, romance da história da Filosofia, o especialista em hipnose, coronel da PM e mestre em aikidô Alcino Lagares enfrenta um desafio: trazer a Filosofia de uma forma ágil e facilitada para os jovens. E é bem sucedido. O livro tem muitos diálogos, ilustrações, adota todo um formato editorial atraente e arejado.
            A narrativa conta a viagem de um grupo de sábios brasileiros à Nova Guiné, selva selvagem onde são aprisionados por um grupo de antropófagos. Uma vez presos, são submetidos a um desafio por parte do sacerdote local: ou respondem o motivo pelo qual existe tudo ao invés de existir nada ou são devorados num ritual antropófago. Essa provocação motiva os sábios a saborosas discussões sobre o ser e o nada para não serem comidos.
            Ora escrito num tom de pornochanchada filosófica, ora história da Filosofia de uma forma ao mesmo tempo digestiva e com sabor brasileiro, esse banquete homérico onde Alcino reina nos diverte e instrui. Retomando indiretamente o conceito filosófico brasileiro mais bem sucedido mundialmente (a antropofagia de Oswald de Andrade) a uma narrativa ao mesmo tempo máscula e sexy, consegue misturar monadologia e sexo. Sendo assim, em sua prosa gostosa aprendemos muito sobre as “mônicas”, como dizia Caio Fernando Abreu, também ele um antropofágico escritor estudante de Filosofia. Com uma desenvoltura e irridescência tropical que surpreenderia muito o filósofo de Konigsberg, as antinomias masturbatórias kantianas são temperadas com bastante sexo, Freud e Lord Byron.
            As divagações, no entanto, não chegam a bom termo, uma vez que surge um conflito entre o líder político e o líder religioso dos antropófagos. O ponto aqui parece-me ser um seguinte: os discursos se esbatem e não sabemos ao certo em que ponto finalizou a discussão, o livro a deixa em aberto. Ou melhor: pode-se depreender que as conclusões são, como as do filósofo platônico Russel Blade, alter ego do Cel. Lagares, agnósticas, ou seja, não se pode dizer nem que Deus existe ou não existe. Porém, pode-se supor que, atualmente, no embate entre ciência e fé, a ciência e a razão estão num estágio tal que conseguem vencer a religião.
A meu ver, Alcino obteve sucesso em seu intento: a grande discussão que ele focaliza é uma discussão comum entre adolescentes e jovens hoje em dia: a oposição entre ciência e fé, entre materialismo e idealismo. E essa discussão é que forma o clímax de seu romance, quando debatem um rabino, um cientista ateu, um arcebispo e um professor de Filosofia agnóstico, é bem interessante, ágil e azeitada, podendo efetivamente atrair o interesse do público que ele visa ao escrever um livro.
            O livro possibilita um interessante confronto com Mundo de Sofia de Jolstein Gaarder. Enquanto o Mundo de Sofia é um livro para uma moça, Widu é masculino: há golpes de aikido, confrontos com nativos antropófagos, viagens internacionais a um país como a Nova Guiné, muito sexo, antropofagia e aventuras. Há muita ação, enfim, elemento que é sacrificado em prol das discussões filosóficas em O Mundo de Sofia. Além da derrota dos nativos com golpes de aikidô em sequências ao estilo do cinema norte-americano, há também uma história de amor e sexo em uma ambiência como a do filme “Lagoa Azul”. O livro tem todo um vocabulário próprio, numa mistura filosófica eclética e trepidante.
            Em suma, ao final do livro não há como não terminar gritando: “Kakhua! Laleô!” “Kakhua, laleô”, Alcino!


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Violetas de Aleluia


                                                                    Vinícius de Morais do Espírito Santo

Eu dividia o quarto com o meu irmão Lúcio, 7 anos mais velho que eu. Óculos fundo de garrafa, muitos graus de miopia e uma péssima coordenação motora. Ele não tinha nenhuma aptidão para nenhum esporte e era visto como excêntrico e desajustado pelos outros meninos do prédio em que morávamos. Um enorme conjunto de 16 andares com 3 apartamentos por andar e dois blocos divididos por um divertido playground no bairro Luxemburgo, em Belo Horizonte.
Foi fuçando nos cadernos de Lúcio que encontrei “Violetas de Aleluia”, uma compilação de seus poemas impressos em papel ofício que ele mesmo mandara encadernar. Uma linguagem complicada pra mim naquela época. Eu tinha 12 anos, creio. As imagens que ele criava, aquela atmosfera onírica e surreal, James Dean, necrófilo indo “passear” no cemitério.  Ou a interessante “Elegia ao Fliper Pornô”, que  falava de sexo virtual através de máquinas de fliperama.
Tudo aquilo me fascinou, a fauna e a flora urbana que povoavam aqueles poemas. As drogas, a rejeição, a inadequação dos sonhos juvenis ao mundo dos adultos, o spleen, a solidão, a cultura beat, a cultura pop, os andróides e os anjos com que Lúcio sonhava. Que eu me lembre, foi nessa ocasião que eu tive vontade de escrever alguma coisa que fosse minha, que não fosse uma redação de colégio ou uma coisa escrita simplesmente por obrigação.
Desde então passei a freqüentar os cadernos de Lúcio, copiar o seu método de escrita e, confesso, roubava às vezes alguns versos. Fui me familiarizando também com as coisas que ele lia na época: Allen Ginsberg, Laurence Ferligetti, Rimbaud, Jorge Mautner... Por tudo isso, creio que a minha formação como leitor se deve muito ao Lúcio, que é  escritor e estudioso de literatura e ainda hoje me apresenta coisas novas e inusitadas quando nos encontramos.

Enfim, pra mim é inevitável remeter minha iniciação no mundo das letras à influência de meu irmão, pela reverberação afetiva que eu tenho da época em que ainda morávamos juntos e dividíamos o mesmo quarto. Lúcio tinha a mania de ler deitado na cama penteando o cabelo, o que era bastante cômico, pois ficava ali horas a fio fazendo isso, às vezes passava o dia inteiro. Esse seu hábito era bastante conhecido por todos em casa. Nunca entendi o que ele quis dizer com “Violetas de Aleluia”. Nunca me esqueci dessa imagem. Logo, deixo aqui minha homenagem.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Fina Prosa Crítica: Uma Carta



Fina Prosa Crítica: O Paulo Lins de Hoje é o Tito Batini de Amanhã?
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Li atentamente, no número de dezembro de 2006 da Revista piauí, o ensaio de Roberto Schwarz a respeito do livro de Gilda Mello e Souza. Reconheço que Schwarz é um grande crítico literário.
            Para comentar um artigo sobre um livro que, por sua vez, trata de outros filmes e livros, fica-se numa situação complicada, afastado das fontes primárias. Meu ponto não é nem se o comentário chegou a ser humilhante de tão bom. O fato que me chamou a atenção foi o comentário sobre Exercícios de Leitura, exercícios esses que diminuem determinados filmes do Cinema Novo, ainda que a intenção não seja essa, explicitamente. Até esse momento do artigo, eu estava gostando, pois não vejo problema que alguém trate de moda sem falar em nada que esteja em moda na atualidade.
            Não concordo que no mesmo artigo fale-se mal de O Desafio e se elogie Terra em Transe. Existem amplas relações de continuidade entre os dois filmes e que aparentemente não foram estabelecidas por Gilda Mello e Souza em 1981.
Vendo ambos os filmes, pode-se notar que o personagem de Paulo Martins de Terra em Transe está intimamente ligado ao Marcelo, o personagem de Vianinha em O Desafio. Um continua o outro, num contexto diferente; no quarto de Marcelo, em O Desafio, aparece um cartaz do filme de Glauber Deus e o Diabo na Terra do Sol. Paulo é Marcelo radicalizado dois anos depois, compreendendo um pouco melhor os acontecimentos que para Marcelo ainda eram incompreensíveis, pois, de dentro da fossa aberta em 1964, Marcelo ainda via tudo escuro. Pode-se dizer que ambos permaneceram ainda muito ligados ao mundo burguês que verbalmente ambicionam destruir. Paulo Martins sofre e agoniza, atormentado pela figura de Porfírio Diaz, o traiçoeiro líder político que acaba de dar o golpe em Eldorado, e não pelo fraco Vieira, incapaz de decisões nos momentos oportunos, e destinado, portanto, à lata de lixo da História. Isso num momento em que o presidente Lula, um misto do operário Jerônimo e do pragmático Vieira, proclama a quatro ventos estar aguardando o julgamento da História.
            Mas deixemos a política de hoje em dia e voltemos para a fina prosa crítica: Gilda trabalha com a premissa de que em Terra em Transe não há esse mesmo dilaceramento que em O Desafio, por achá-lo melhor resolvido ao descrever o episódio do comício com uma visão grotesca e contraditória do povo. Ela encontra para essas imagens nobres tradições pictóricas, enquanto em O Desafio o diálogo seria excessivo, e o conflito, uma falha ruim e inconsciente. No entanto, o conflito entre o que é dito e o que é mostrado é tanto consciente quanto tematizado, em ambos os filmes. Ela deixa de lado, em Terra em Transe, os bailes no palácio de Diaz, quando, na sala com Danuza e o Peri da ópera, entre taças quebradas e síncopes de jazz, Paulo Martins velejava os chamados mares do não.
            Saraceni respondeu a várias dessas críticas a seu filme em Por Dentro do Cinema Novo, Minha Viagem, uma autobiografia datada de 1993. Por exemplo: “Pode-se objetar, talvez, que a dialogação é excessiva, e que nem sempre as falas são válidas como falas cinematográficas; mas, apesar disso, não há no filme uma só frase que não tenha validade como idéia, como captação de um momento histórico recente, como comportamento das personagens em relação a seu meio e a sua classe” (p.198). “Aos que acusam o filme de superfalado, poderíamos retrucar acusando-o, também, de supersilencioso. Se o filme tem, praticamente, dois personagens e seu tema é o desentendimento entre um homem e uma mulher, em função de uma circunstância política, o diálogo é a expressão necessária desse desentendimento (...). A conversa é descontínua e o silêncio, além de imantar impressionisticamente a ambiência, do conteúdo das falas, funciona ao mesmo tempo como elemento de contraste e de ênfase dos diálogos” (p. 207). Não se pode dizer também que exista dubiedade político-ideológica nesse filme: dentro dele há um close de Maria Betânia falando das estatísticas dos nordestinos que fugiam da fome e da seca para o Sul do país, no espetáculo Opinião; no final, o personagem recusa relacionar-se com o escritor cínico e sua mulher, e o filme se encerra ao som de uma letra de Gianfrancesco Guarnieri em parceria com Bertold Brecht, musicada por Edu Lobo, na peça Arena Conta Zumbi. Que não seja reeditada uma crítica a O Desafio sem levar em conta essas respostas, portanto.
Para encerrar esse comentário a respeito de Fina Prosa Crítica falando sobre algo em moda na atualidade, lembro o último grande feito de Roberto Schwarz: ele indicou para a publicação, pela Companhia das Letras, o romance Cidade de Deus, do ex-favelado Paulo Lins, um romance violento, com pouco humor e longo; tratava-se, no mais, de um romancista iniciante, embora já acadêmico experiente na área de Ciências Sociais. A indicação foi claramente decisiva para sua publicação.
            O romance mostrou-se um grande sucesso, vindo a tornar-se um filme igualmente bem sucedido em termos de público e crítica, o que é raro no país; ainda chegou a concorrer como melhor filme estrangeiro em Hollywood, tendo perdido a competição, mas ganhou uma boa possibilidade de divulgação em termos mundiais. Creio que dificilmente algum outro crítico brasileiro alcançou tão alto triunfo, tão grandes conseqüências em uma aposta alta como essa.
            Faço, então, uma associação lembrando um “caso” literário: Antonio Candido, mestre de Schwarz, também indicou pelo menos um autor bem sucedido no passado: Tito Batini. Tratava-se do livro de alguém de origem humilde, um “ferroviário que queria escrever”, como dele disse Oswald. Oswald de Andrade desentendeu-se com Batini, julgando sua obra ainda imatura, e Candido acusou Oswald de criticar sem analisar. No entanto, seu tempo o contrariou: Batini ganhou inúmeras críticas favoráveis, foi traduzido e incensado, como registrou Oswald em Ponta de Lança: “O seu volume foi apadrinhado pelo guerrilheiro Rubem Braga, premiado por Diretrizes, traduzido pelo sr. Putnam...Se houvesse prêmio Nobel, ele não escapava!”
A propósito do tipo de iniciativa crítica que Candido fez no passado, e que Schwarz realiza hoje em dia, deixo a pergunta: quem lê, hoje, Tito Batini? Quem sabe quem foi ele? Por que Candido e Schwarz, que são vivos e ainda produzem, não escrevem ensaios sobre essa figura? Será esse o destino de Paulo Lins?
Bom, por enquanto não acho importante alongar mais essa carta. Entre a esperança e a ânsia, aguardarei que estejamos comentando avidamente Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, lá pelo ano de 2045, assim como estamos discutindo O Desafio quarenta e dois anos depois de seu lançamento.