quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Medo ( Carlos Drummond de Andrade)


O MedoEm verdade temos medo.
Nascemos no escuro.
As existências são poucas;
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.
Somos apenas uns homens e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
Este célebre sentimento,
E o amor faltou: chovia,
Ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
Nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
Meu companheiro moreno.
De nos, de vós, e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
Vem ó terror das estradas,
Susto na noite, receio
De águas poluídas. Muletas
Do homem só.
Ajudai-nos, lentos poderes do
Láudano.
Até a canção medrosa se parte,
Se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
Duros tijolos de medo,
Medrosos caules, repuxos,
Ruas só de medo, e calma.
E com asas de prudência
Com resplendores covardes,
Atingiremos o cimo
De nossa cauta subida.
O medo com sua física,
Tanto produz: carcereiros,
Edifícios, escritores,
Este poema,
Outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
Recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
Eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
Dançando o baile do medo.


Os Mortos da Primavera

Glauber desmistificando os Beatles:

Os Mortos da Primavera

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Pilipõe Filimente

"Pesa-me também
por perdido o céu
e merecido o inferno,
e proponho firmemente". Ato de Contrição. Versão católica, longa.


Quando a casa de vovô e vovó foi destruída
Lembrei-me: estão mortos.

Estão mortos.

O vento uiva lá fora na sala.

Estão mortos, estão mortos.

As folhas voam ao vento, como folhas mortas, morreram e foram enterrados.

Eu vi a casa: eu a vi nua, sem móveis.

Como a vi, nunca vi.

Sem água, sem luz, a casa me deu medo.

Na parede, vovó ainda era uma sombra.

Logo a sombra veio abaixo para nunca mais.

A face de vovó, vovô. O vento levou.

Eu nunca me vi sem essa casa.

E se com meus olhos eles vissem o que vi?

Quando ela foi posta abaixo, nos jardins sobraram algumas plantas acuadas.

Sobrou apenas um toco seco daquela velha roseira.

Dentre suas paredes eriçadas, entre o ferro retorcido, ainda pude ler uma frase.

Uma frase minha. Um ato de contrição.

"Eu proponho firmemente".






domingo, 4 de setembro de 2016

O Fim de um Ciclo: Análise do PSTU

O apoio da burguesia durou até que ficou claro que Dilma não tinha mais apoio popular, e, portanto, condições de aplicar o ajuste. Neste momento, um setor burguês abandonou o governo e resolveu apoiar o impeachment. E o fez usando as manobras típicas do jogo burguês parlamentar.
A direção do PT agita a farsa do "golpe" para esconder que o elemento decisivo para a queda do governo Dilma foi o rompimento da classe trabalhadora e dos setores populares com a presidente e com o PT. A maioria absoluta da esquerda foi cúmplice da direção do PT nisso.
Leia a nota completa aqui

Resolução da Esquerda Marxista

Uma boa análise da Esquerda Marxista:


Os maiores jornais imperialistas do mundo (New York Times, Wall Street Journal, Le Monde, Financial Times, The Economist) alertaram estes partidos burgueses provincianos e mafiosos para a aventura em que se metiam se aprovassem o impeachment. Avisaram que era um salto irresponsável no escuro um impeachment realizado por um Congresso onde a maioria é réu ou acusada de corrupção. Alertaram para a criação de uma situação incontrolável e que os defensores do impeachment não tinham nenhum governo minimamente estável para colocar no lugar, ao mesmo tempo em que lançavam uma parte considerável da população numa situação de combate aberto. 
Após a votação na Câmara dos Deputados, a imprensa imperialista reafirmou seus alertas. O jornal britânico The Guardian lançou um editorial colocando no título que o impeachment de Dilma é “uma tragédia e um escândalo”, explicando que essa via “longe de ajudar a resolver a polarização política e social, exacerba ambos”. O espanhol El Pais aponta no mesmo sentido no editorial intitulado “Brasil diante do abismo: o processo de destituição de Dilma não resolve nenhuma das crises do país”. Reportagem da rede de TV estadunidense CNN diz que, no Brasil, estão usando meios “anti-democráticos” para acusar a presidente Dilma. Já a revista The Economist, após publicar uma coletânea das justificativas bizarras utilizadas pelos deputados para votar “sim” ao impeachment, trouxe em sua capa, pela terceira vez, o Cristo Redentor, dessa vez levantando uma placa com “SOS”, a revista aponta a responsabilidade de Dilma pela crise, mas também ressalta que "Toda a classe política decepcionou o país, em um misto de negligência e corrupção. Os líderes brasileiros não vão recuperar o respeito dos cidadãos e superar os problemas econômicos do país a menos que haja uma limpeza geral" e que "aqueles que estão trabalhando pela remoção dela (Dilma) são muito piores".

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sábado, 3 de setembro de 2016

Significado histórico do Impeachment


Segue editorial do MNN bastante lúcido: 

impeachment é sim a classe burguesa se preparando para atacar mais a classe trabalhadora.
A sua máquina para isso, o Estado, estava paralisada nas mãos de Dilma Rousseff.
Dilma estava paralisada, sem conseguir governar, porque a forte pressão popular contra ela (iniciada em 2013) minou sua base.
Os ratos burgueses do Congresso que a apoiavam pularam do barco para não afundarem com ela.
A queda de Dilma é o “arrumar” da máquina do Estado, pra poder atacar a população trabalhadora.
Defender que Dilma deveria ter ficado no poder para paralisar e desagregar totalmente o governo é um esquerdismo.
Na ausência de um poder operário para substituir o burguês, a mera desagregação do poder burguês resulta na barbarie. Quem paga a conta é classe trabalhadora.
Os dados mostram que o aumento acintoso do desemprego e o achatamento acelerado da renda dos trabalhadores coincidiram com o período em que Dilma perdeu totalmente a capacidade de governar.
Apesar de o impeachment ser o “arrumar” do Estado, agora a classe burguesa está em condições abaixo, mais fracas, de atacar a classe trabalhadora.
O governo Temer será mais fraco que o do PT porque não tem a base de controle burocrático e social que tem o PT, com seu sindicalismo vendido.
Foi correta a tática dos revolucionários de defenderem oimpeachment, para realizar a divisão e enfraquecimento políticos da burguesia enquanto classe.
Para a verdadeira política — a luta de classes — a correlação de forças para a burguesia é hoje pior do que há dois anos atrás.
A questão agora é trabalhar para erguer a resistência operária contra Temer.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Notinha sobre Dilma: saindo da história para entrar na insignificância

Pessoal: Dilma foi um erro monumental de Lula. Foi uma anti-líder criada no marketing político para não lhe fazer sombra. Quadro técnico, detestava políticos e foi tirada numa diarreia do sistema, que viu em sua impopularidade uma ameaça. Foi relativamente fácil enquadrá-la nas leis, ela que inventou até uma lei geral da copa e reativou a lei de segurança nacional para enquadrar manifestantes.