quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Karl Marx e os governos comunistas: resposta ao Fábio Goulart


Essa postagem é mais especificamente uma resposta ao vídeo Karl Marx e os governos comunistas, de Fábio Goulart/Cláudio Costa.


Fábio: de início, é sim, exagero dizer, assim como uma estranha observação, dizer que os governos comunistas, inspirados em Marx, iriam fuzilar Marx.

O especialista, Dr. Cláudio Costa, escreve um texto que tem quase que um erro por linha. É um lixo completo. Não, não é minha ideologia que está me cegando. É esse texto que não tem fundamento algum. O problema é que você apenas me forneceu um exemplo de charlatanismo acadêmico. Ao contrário de ser uma exceção, você apenas nos brindou com aquilo que infelizmente é regra nas nossas universidades. Por que? Porque a universidade é um braço, um aparelho ideológico do estado brasileiro, estado esse que, por sua vez, é o estado de um país semi-colonial e semi-feudal. Por isso produz essas análises assim anticomunistas. Ele chega  a se entregar em determinado ponto do texto, ridicularizando essa possível interpretação do seu tipo de produção como sendo mais um dos absurdos do marxismo.

 Onde Marx previu que na Inglaterra seria a primeira revolução comunista? Ele fala que o leninismo seria uma interpretação coletiva.

Logo ele começa a cometer as maiores confusões, misturando leninismo e a figura de Trotsky. Trotsky somente entrou no partido bolchevique em 1917 e, entre 1906 e 1917, ele fez inúmeros ataques a Lênin. Ou seja, Trotsky não é leninista.

Depois de erro grotesco, prossegue-se afirmando que o comunismo soviético "cada vez menos teve a ver com o que Marx tinha sonhado". Ora...então em 17 tinha tido tudo a ver com o que Marx tinha sonhado? Marx profetizou que a Inglaterra seria o primeiro país a passar por uma revolução socialista? Onde mesmo???

Primeiro, ele atribui a Lênin a criação de um regime em que as pessoas eram forçadas a agir conforme o comunismo soviético, ou seja, coagidas a agir sem ser por seus "próprios interesses".

Nosso santarrão continua com sua prédica fraudulenta. Se ele não guarda insultos para Lênin, para Stálin ele reserva gentilmente o epíteto de "marginal".

Trata-se de um texto muito viciado por adjetivos, não buscando nunca ser objetivo, muito ao estilo do tipo de texto produzido pelo professor Bertone Sousa  a respeito. Aliás, Bertone Sousa produziu recentemente uma porcaria do mesmo naipe, agora inspirado por um tal Gerd Koenen.

Para Costa, com o marginal Stálin a coisa degringola para um capitalismo de estado baseado na "cupidez e na inveja". Ai que meda, socorro! Um sistema político e econômico baseado em vícios terríveis, bíblicos...quase uma Sodoma e uma Gomorra, quase uma ditadura gay. Marginal maldoso, pior do que o ditador Lênin!  E quem primeiro elaborou esses argumentos, o marginal Trotsky? Uma "monstruosidade incontrolável". Sem base na "classe trabalhadora" --e então, era baseado em que classe? Na burguesia do estado, substituindo uma classe opressora por outra? Era "mais brutal do que os capitalistas ingleses?"

E ainda por cima, o marginal matou "20 milhões de pessoas" na TENTATIVA de construir o comunismo de forma autoritária em um só país.

"Comunismo em  um só país"??? O marginal matou vinte milhões tentando instalar. A loucura piorou, pois Lênin falava em socialismo em um só país, de um para outro a coisa piorou.

A grande questão, a seguir, é saber se, quando o "capitalismo de estado em país pobre" caiu nos anos 80, após setenta anos de existência (que fracasso, hein!), se isso confirma se Marx estava certo ou errado. Certo ou errado...em que ponto mesmo?!

Marx teorizou o capitalismo de estado? Não! Isso foi uma teorizou que os TROTSQUISTAS desenvolveram. A partir daí, o Dr. Costa generaliza que tanto a China quanto a Coreia do Norte seriam isso, "um sistema misto". Eu até concordo nesse ponto, uma vez que a própria China fala em "um país, dois sistemas". 

Chega um ponto, no entanto, que o Dr Costa chega ao àpice da picaretagem, quando diz que "se Marx não existisse, tinha que ser inventado". Para ele, as revoluções aconteceriam do mesmo modo (ele destaca em letras grandes isso) com quaisquer outros pensadores, pois "superestruturas ideológicas nascem e  crescem como capim no mato".

O mato é ainda mais alto do que esse espinheiro rasteiro que o Dr. Costa produziu. E o pior é que eu dificilmente conseguiria um vídeo sobre "o que aconteceu depois de Marx" sintetizando as experiências socialistas posteriores. Quem sabe um dia eu mesmo farei!


















sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Gilvan Rocha: Meio Século de Caminhada Socialista


Recebi pelo correio, e, agora resenho, dois livros interessantíssimos do militante do PSOL Gilvan Rocha: Meio Século de Caminhada Socialista e 1964: A grande derrota e outros textos pertinentes.

O que prejudica e atrapalha Gilvan é sua filiação teórica ao trotsquismo. A teoria errônea de Trostsky faz com que produza formulações vazias e prossiga em confusões infrutíferas.

Note o que ele escreve no balanço que faz de 1964, no capítulo sobre a revolução brasileira: "i) O socialismo jamais será um evento nacional. Apesar do processo revolucionário se dar nos limites de cada país, o socialismo, ou seja, a abolição das classes e camadas sociais, só será possível quando a humanidade, através do poder dos trabalhadores, apossa-se de todo o sistema de produção e tecnologia disponível em escala mundial" (ROCHA, 2013, p. 28).

Infelizmente, todas as experiências socialistas apontam em contrário: a revolução socialista aconteceu devido a uma crise geral na Rússia, envolvendo sempre a desintegração do estado então existente devido à guerra, assim como uma questão nacional importante: para resolver os problemas nacionais, a Rússia precisava negociar a paz; negociar a paz com a Alemanha significava lutar contra França e Inglaterra, gesto que o partido no poder, menchevique, não podia fazer, pois estava ligado àquelas potências e era sua aliada interna. Algo semelhante passou-se na China e Coreia invadidas pelo Japão, assim como na Europa Oriental invadida por Hitler e Mussolini: a classe empresarial local ligou-se ao país invasor e foi varrida pelos comunistas junto aos nacionalistas em meio ao processo de libertação nacional. O processo do Vietnã foi semelhante, já trocando o imperialismo francês pela entrada direta do imperialismo americano.

Stálin está, portanto, absolutamente correto ao analisar a questão nacional e o marxismo. Isso não significa, ao contrário do que Gilvan mais que rapidamente associa, capitular ao social-patriotismo da II Internacional. Ele se esquece de que Trotsky, que foi menchevique, foi partidário desse social-patriotismo que ele tanto condena até julho de 1917.

Assim, o diagnóstico de Gilvan a respeito da derrota de 64 e da própria derrota de seu movimento guerrilheiro, atribuído a uma troca do patriotismo pelo socialismo, ao meu ver, leva tudo o que ele escreve a perder o foco fazendo dicotomias errôneas. A partir da negação da questão nacional, ele nega tese dos resíduos feudais no Brasil, encontrando capitalismo e burguesia em Portugal já no período em que o Brasil foi descoberto!

Isso tudo é fruto malévolo do cosmopolitismo tolo do trotsquismo, como se pode ver acima, na citação; supõe ele que, meramente tomando o poder em um país, o mundo estaria ao alcance da mão. Outra contradição que ele passa a negar é entre nação oprimida e nação opressora, assim como propõe, a partir do encontro com o trotquista Sachetta, que teria se encontrado com Trotsky em pessoa no México, um sistema pluripartidário. 

Isso é negar as teses leninistas sobre o imperialismo, confusão em que também Trotsky incorre. Gilvan, como um José Paulo Netto, espera é revolução em Paris, em Washington e reage com decepção quando ela ocorre na Nicarágua (experiência que ele mal menciona).

Quando o imperialismo se desenvolve no centro, gerando as multinacionais, ele cria uma situação favorável a ele no centro e tensiona a periferia. Por isso tantas revoluções em países coloniais e semi-coloniais e sua persistência, ainda que residual, até 2014. Cuba, Vietnã, Laos, China e Coreia terão, para voltar ao capitalismo, de retroceder na revolução democrática e nacional, por isso não retrocederam: tensões internas impediram o retrocesso. Essas revoluções, inclusive, foram conquistadas durante, com muito sangue e luta, por isso o povo não abre mão delas facilmente --felizmente.

Felizmente, nessa altura do livro Gilvan reconhece que Trotsky não era bolchevique histórico (ainda bem!). Mais adiante, no entanto, Gilvan condena tanto a via parlamentar quanto a luta armada dos maoístas por seu suposto chamado patriótico, mas não deixa, também, de fazer, dos anos 80 em diante, somente a via parlamentar que condena: passa por inúmeros partidos, de PT a PSB e hoje está no PSOL, mas ainda assim chamando para fazer o Partido Anticapitalista Revolucionário.

O trotsquismo parece tê-lo contaminado nesse sentido: ele facilmente, quase compulsivamente, propõe e pratica o racha e o divisionismo, mesmo que seja por uma questão simples, tal como um grupo assumir-se ou não trotsquista, tal como aconteceu com ele nos anos 60. Igualmente, ele renega o modelo de partido de Lênin por ser um partido único e ressalta que para ele o problema da degeneração burocrática da URSS aconteceu a partir do décimo congresso, em 1921. Nota-se, então, que ele faz revisões do próprio Trotsky, não sendo, de forma alguma trotsquista propriamente dito.

Em linhas gerais, tenho divergências inúmeras com Gilvan, mas aponto que o ponto alto desses dois livros está mesmo no biográfico Caminhada Socialista, livro em que ele trata da guerrilha em Goiás, experiência pouquíssimo conhecida e muito rica.

A meu ver, por mais que Gilvan critique a experiência cubana, à qual ele estava então ligado, ele ainda a mistifica, julgando ainda que foram os poucos lutadores do foco os responsáveis pela revolução. Ora, os movimentos sociais já estavam ativos na ilha, o foco armado apenas apontou ao movimento de massas um horizonte naquele contexto histórico. E, como ele considera que a restauração do capitalismo ocorreu na URSS em 1921, ele tende a colocar no mesmo plano os maoístas, castristas e trostsquistas, chamando todos de possuidores de supostas matrizes stalinistas, demonizando a figura de Stálin e sempre dissociando-o de Lênin.

O movimento realizado por Gilvan e seus companheiros em Dianópolis, em 1962, fracassou devido à enorme desconfiança da população da região e as mentiras ditas por eles devido a isso; primeiro disseram que faziam parte de uma companhia da colonização, para somente então se dizer braço armado das Ligas Camponesas. O movimento do que faziam parte enquanto braço armado, MRT, Movimento Revolucionário Tiradentes, mostrou-se vacilante e confuso, assim como as Ligas Camponesas como um todo. A meu ver, a ideia do caminho pacífico do governo Jango e do partido comunista brasileiro era atraente e desmobilizava bastante, tendo peso maior, no contexto nacional, do que as diretrizes maoístas e cubanas de então. O exército também conseguiu encontrá-los de surpresa, revertendo a lógica da guerrilha, que deve sempre ser uma surpresa.

Finalizando, sobre o projeto do PT, Gilvan é certeiro: o processo reformista, se altera a ordem estabelecida, é barrado. O que ficou do PT foi a ideia de que o capitalismo, bem gerenciado por um "modo PT de governar", pode ser humanizado e tornar-se benévolo, o que é totalmente equivocado. Gilvan está certo ao concluir que a esquerda não precisa se preocupar com a gestão desse estado que está aí, isso é obrigação da burguesia. Ele não consegue, no entanto, tirar as medidas concretas que se deveria tomar agora em 2014. O que fazer? Votar nulo e boicotar as eleições? Nada disso interessa muito ao Gilvan maduro, dos anos 80 em diante, quando volta do exílio. Ele sempre mantém ligações com a política oficial, parlamentar, por vezes chega a ocupar cargos no estado, quando da gestão petista em Fortaleza. Gilvan segue apenas campeando votos para o PT, PSB, PSOL...assim como sonhando em criar o seu próprio partido...para apenas gerenciar o que ele sabe que não tem que ser gerenciado e sim revolucionado, segundo a teoria de Lênin!

 Ele também relembra o quanto o PT cresceu com o discurso moralista contra a corrupção, o que lhe valeu a pecha de UDN de macacão, como disse Brizola. É muito curioso ver como, em 2014, o discurso moralista foi adotado pelo candidato Aécio Neves e, com a conjunção de denúncias sobre a Petrobrás na onipresente mídia ligada a setores mais próximos de Aécio, efetivamente está conseguindo vibrar fortes golpes no lulismo nessa campanha de 2014.








O incidente "Lin Biao": China dos anos 60 até o movimento de Hong Kong






Lin Biao (1907-1971) seria o possível sucessor de Mao Tsé Tung e foi um dos dirigentes mais ativos na revolução cultural e entre 1966-70. Ele prefaciou o Livro Vermelho de Mao.

Segundo Jason Unruhe, a revolução cultural chinesa constitui-se das seguintes medidas: ruptura com hábitos, comportamentos e tradições antigas; abolição da moda; criação dos médicos populares que iam a cada aldeia, atendendo a cada família; fechamento temporário das universidades, principalmente para que se fosse repensada a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. Dentre  outras medidas igualitárias, o oficial do exército tinha que servir uma semana do mês como praça, para entender como viviam e sentiam os subordinados.

Pode-se dizer que foi também entregue o poder aos jovens, que formaram as chamadas Guardas Vermelhas, que de fato detinham parte do poder e eram uma forma de democracia direta. Em alguns casos, cometeram excessos, combatendo a linha kruschevista dentro do partido chinês. Uma linha efetivamente agredia fisicamente os revisionistas. Chiang Ching, esposa de Mao, foi uma das defensoras da linha que defendia a reeducação. Ela reiterava bastante a questão da cultura e da arte, aliás, segundo Mao, um elemento que tinha feito com que acontecesse a restauração do capitalismo na União Soviética de Kruschev a partir de 56. Os maoístas consideram tanto a URSS quanto Cuba de Fidel como social-imperialistas, ou seja, socialistas de fachada, imperialistas de fato.

A narrativa oficial dos chineses é que Lin Piao começou a indispor-se com Mao a partir de 1970, quando passou  a desejar centralizar o poder, passando a distanciar-se de Mao. Há quem diga que ele foi vítima de intrigas no partido entre as facções. O fato é que também entrou em choque com a esposa de Mao, tendo debatido de forma ácida com ela em um congresso; foi exigido a ele, pelo partido, autocrítica a respeito, mas ele preferiu afastar-se do diálogo e ficar numa reclusão cada vez maior . A partir de 1970, em resposta, o partido passou a exigir dele uma autocrítica, principalmente em resposta  aos supostos excessos da revolução cultural proletária, produzindo ainda uma maior afastamento.

Por fim, segundo a narrativa oficial estabelecida posteriormente, ele foi tido como culpado pelos excessos da revolução cultural e, em resposta, buscou articular um golpe de estado contra Mao, tendo fracassado e buscado fugir para a União Soviética, quando, então, morreu num acidente aéreo. Foi sucedido na posição de vice-presidente da China por Deng Xiaoping. 

Pode-se supor que Lin Piao foi envolvido em conspirações e intrigas que já dividiam o partido comunista chinês em duas linhas, a partir dos anos 70: a linha dos que queriam reintroduzir o mercado (Li Shaoqi, Deng Xiaoping) e Chiang Ching, Zang Chunqiao, Wang Hongwen e Yao Wenyan. Depois da morte de Mao, o centrista Hua Kuaofeng foi colocado no poder para evitar o atrito entre as duas linhas, pois era tido como um centrista.

No entanto, no dia 6 de outubro de 1976, completando aquilo que os maoístas consideram um golpe revisionista, um general chamado Li Xiannian, que era braço direito de Hua Kuaofeng, prendeu tanto Chiang Ching quanto os outros maoístas históricos. Nos anos 80 eles passaram a ser julgados e ficaram conhecidos como "Gangue dos Quatro" ou "Camarilha dos Quatro". Por trás dessa prisão, que se seguiu a muitas outras prisões dentro do partido, estava a reintrodução do capitalismo, assumida hoje em dia na China, quando se fala em "um país, dois sistemas". A tendência, com a crise mundial do capitalismo, é da luta interna tornar-se mais e mais encarniçada entre os partidários  dos dois sistemas, acabando o tempo em que puderam coexistir. O movimento de Hong Kong em 2014 pode ser interpretado como o prenúncio do acirramento da luta de classes dentro da China.

Chiang Ching foi condenada à morte, mas sua sentença foi comutada para prisão perpétua. Chiang Ching defendeu-se alegando que seguia Mao e que "fazer a revolução não é crime". Anos depois, ela criticou os estudantes que fizeram os movimentos de 89, aliás parecidos com os de agora, 2014, em Hong Kong, movimentos mais liberais ao estilo ocidental do que maoístas: "o culpado é Deng. Ele trouxe todas essas ideias ocidentais para dentro da China". Ela cometeu suicídio em 1991 (já estava doente de um câncer na garganta e negando-se a tratá-lo) e deixou uma nota que ficou famosa: "A revolução foi traída por Deng Xiaoping e sua corja (...). Grande timoneiro, sua seguidora e lutadora está indo ao seu encontro!".

Os historiadores do Ocidente consideram Lin Piao responsável pelo "culto da personalidade" de Mao e levantam várias questões a respeito de sua morte; há quem sustente que ele estava, na verdade, voltando da URSS. Curiosamente, o partido comunista chinês culpou tanto Lin Piao quanto Chiang Ching, esposa de Mao, pelos excessos na revolução cultural; devemos então duvidar dessa condenação.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Pesquisas eleitorais: parte essencial da corrida de cavalos!


Acompanhando as eleições para gerente da semi-colônia Brasil, acho justo pontuar a atual subida de Marina Silva ao segundo lugar nas pesquisas eleitorais.

É preciso desmistificar as tais pesquisas! O caminho de mostrar como essas pesquisas tornaram-se uma informação que visa o controle foi a eleição de 89, que culminou na disputa entre Lula e Collor.

Pontuo que agora, retrospectivamente, dou razão ao MR-8 quando pichava: nem Collor nem Lula! Ambos iriam praticar uma política de privatização acaso eleitos. Lembro-me claramente de Aluísio Mercadante, possível ministro da economia de Lula, sendo pressionado pela mídia e admitindo que ia privatizar, sim, "pois o estado tem até fábrica de alfinetes". Esse detalhe não é fortuito. O PT iria privatizar, mas antes de tomar o poder ele precisou passar por um processo de abrandamento. Expurgou-se a Convergência Socialista, o atual PSTU, assim como criou-se as condições para expulsar alguns outros grupos e pessoas que mantinham-se fiéis tanto à social-democracia quanto a um trotsquismo mais aguerrido e que não tolerariam ou criariam problemas num governo neoliberal assistencialista, submisso ao capital estrangeiro e ao latifúndio.

Ora, nas eleições de 89 o recurso às pesquisas foi escandalosamente manipulatório. Alguém precisa urgentemente pesquisar a mídia da época para observar isso. Observando aquelas pesquisas, fica bem evidente que elas representam quais os candidatos estão mais cotados para os vários setores empresariais brasileiros. O desafio que fazia convergir os empresários era encontrar um candidato viável para a direita e que continuasse a tarefa de privatizar, iniciada por Sarney e possivelmente muito desejada internacionalmente. Primeiramente, a mídia entrou em campo como braço político do estado, buscando influenciar a favor de um candidato "novo", mas que continuasse as políticas privatizantes inauguradas por Sarney ao privatizar Volta Redonda. Estrategicamente, o estado anulou a militância peemedebista, deixando Ulisses Guimarães com uma candidatura fantasma. Pode-se supor que tanto o PMDB quanto o PSDB, já existentes, trabalharam em surdina a favor de Collor já no primeiro turno. O baque da aplicação das políticas neoliberais não interessava tanto a Mário Covas, que falava nelas nessa época, mas sempre de forma nebulosa e nada clara.

 A mídia, então, comportou-se como partido político, como militância da direita. Ela tentou com Afif Domingos, a quem atribuía maior percentual de votos nas pesquisas. Ao ver que ele não colou, arriscou-se com Sílvio Santos, mas verificou que seria, também, uma perigosa aventura fadada a uma possível derrota frente a Lula e Brizola, os verdadeiros favoritos então. Logo, a mídia encontrou um candidato ideal em Fernando Collor, associando a ele a imagem de um galã de novela e, ao promovê-lo ao primeiro lugar das pesquisas, de fato conseguiu colocá-lo num lugar privilegiado. O problema é que não obteve sucesso completo. Houve um segundo turno.

No segundo turno, lembro-me claramente, as pesquisas davam apenas um por cento de diferença a favor de Collor contra Lula. Ora, todos sabem que a margem de erro em pesquisas é bem maior do que isso. Nesse ponto, evidentemente entrava o fator subjetivo: AS EMPRESAS DE PESQUISA QUERIAM COLLOR! 

Foi a partir daí que houve a guerra psicológica de Collor contra Lula, utilizando-se da propaganda da queda do Muro de Berlim, associando Lula ao comunismo, ao aborto usando sua ex-mulher, etc. Como Lula de fato fez aquela mulher sofrer ao deixá-la grávida aos seis meses, ele ficou impactado com aquela vingança monumental, evidentemente servida fria.

No entanto, apesar desses fatores, creio que o que mais pesou foi a real natureza das eleições: não se trata  nunca de mudança estrutural, apenas gerenciar de outras maneiras e com outras manobras a condição semi-colonial. Enquanto quadro do estado, Collor já estava muito mais capacitado e cobra criada do que Lula. Lula nasceu do sindicalismo pragmático formado pela ditadura militar, triunfando na paz dos cemitérios criada pela ditadura após o esmagamento, muitas vezes violento, do trabalhismo janguista e dos partidos comunistas. Lula era, desde sempre, tratado com simpatia pela mídia do tempo de Geisel, afinal um braço ideológico do estado. Sem isso, jamais teria adquirido aquela notoriedade de líder nacional. No entanto, Collor, ex-governador do tempo da ditadura, eleito governador na democracia, era um quadro do estado muito mais traquejado e ativo, sendo sócio da Rede Globo em seu estado, longa tradição de mando em função da tradição oligárquica, "boa aparência" (ser branco e rico, etc).

Uma vez no poder, Collor impôs um programa econômico neoliberal duríssimo, que em pouco tempo o tornou impopular, mas que era um remédio amargo que os empresários sabiam que alguém teria que ministrar. Diante das sérias consequências, Collor comportou-se como playboy mimado. Passou a permitir invasão de jornais, como fez com a Folha, quebrando sua aliança com sua principal militância, os jornalistas da mídia monopolizada. Sem partido consistente  e com o ego inflado, contanto apenas com adesistas,  foi deixado pela Globo ao se aproximar de Brizola e, já tendo realizado a tarefa mais dura, que era implantar a receita amarga do neoliberalismo e sua dolorosa reação na estrutura produtiva do país, foi descartado pela classe política como uma fruta chupada. 

Os rearranjos a seguir deixaram claro que, em troca do fim da inflação, seria bastante fácil para a classe empresarial conseguir privatizar até mesmo os setores estratégicos da economia. Com o carisma inegável de um velho estudioso e, agora, administrador da condição dependente do país, traquejado ao ter detonado o marxismo-leninismo usando a linguagem marxista em seu Seminário de O Capital, FHC levou a termo o projeto neoliberal no Brasil.

O projeto estava instalado, mas havia um problema: os sindicatos, ainda irredentos, na mão da CUT e do PT. Seguiu-se, então, um processo de adaptação do PT a gestor da dependência. Sua principal moeda de troca era introduzir o neoliberalismo nas centrais sindicais, campo onde esse pensamento não tinha a penetração total  e consensual que ele persegue.

Lula levou o pensamento neoliberal a um ponto de consenso que ele jamais voltará a atingir, pois coincidiu com um bom momento internacional. Dilma, política sem expressão, é a continuação de Lula sob uma face mais tecnocrática, aplicando o remédio amargo sem destruir o capital político do líder. 

As pesquisas continuam apontando o mesmo que apontavam anteriormente: que Dilma, nesse tempo de crise, é a preferida dos empresários. O PT consegue a façanha de, ao mesmo tempo, neutralizar adversários como os comunistas e ainda utilizar retórica de esquerda. A coalização que Lula gerou, aliado ao seu capital político inalterado, é um grande triunfo para os empresários brasileiros, em especial o setor burocrático.


O setor burocrático da classe empresarial nasceu com as inversões dos latifundiários no início do século. Durante um tempo, aliou-se a Vargas, JK. O "namoro" terminou com Jango, quando esse quis impelir esse setor a assumir a hegemonia enquanto burguesia nacional e ele recuou, aliando-se a setores do capital estrangeiro e agro-exportadores e manobrando uma quartelada para afastar o presidente e seu grupo reformista do estado. O setor burocrático está firmemente atado ao latifúndio desde nascença, assim como à dominação estrangeira. O real desconhecimento do que é a burguesia burocrática leva o PCB, há cinquenta anos, a comprar gato por lebre, ou seja, a sucessivamente aliar-se à burguesia burocrática acreditando que está se aliando a um setor burguês nacional que é capaz de fazer uma revolução nacional e democrática. O PCB fez isso em 1961-64, repetiu o erro entre 1967-1989, assim  como não resistiu ao repeteco em 2002-2005. O PCB confunde os rearranjos do setor burocrático com uma etapa da revolução burguesa e, feitas umas microrreformas, quando ela não precisa mais dele, passa a hostilizá-lo ou a abertamente adotar políticas conservadoras, botando o pé no freio, que o desgastam e o repelem até um novo relacionamento mais adiante. 

A relação do setor burocrático com o capital estrangeiro, o setor agro-exportador e com o latifúndio é sempre maior e de maior fidelidade do que a um movimento de trabalhadores. As diferenças com esse não tardam a ficar evidentes.

Note-se a resposta de Dilma no que diz respeito a uma das mais ruidosas ações desse setor, o porto realizado pela Odebrecht em Cuba com apoio de verba estatal do BNDES. Dilma alegou, ao ser atacada pelo representante do setor agro-exportador, Aécio, que o porto será "gerido por empresas holandesas". Isso desvela o caráter do setor burocrático ao qual hoje aliou-se o PT. Esse setor está sempre aliado a empresas estrangeiras como sócio menor e ao latifúndio. Ele usa o estado para lucrar, por isso precisa de um estado minimamente estruturado, levando adiante ações que o empresário privado não consegue fazer, pois não lucra. Assim, o setor burocrático precisa de uma universidade para produzir quadros para as empresas, assim como de uma estatal para fazer as pesquisas e desenvolver a tecnologia e a ciência com a qual ele vai lucrar. O estado encontra o mapa da mina, põe na mão do empresário burocrático e fica com o prejuízo.

Por fim, a militância da mídia agora elegeu Marina como a segunda candidata nas pesquisas, movida pela "bolha emocional" causada pela morte de Eduardo Campos, segundo afirmam revistas como a Veja. Será que existe esse voto "fiquei com dó, vou votar na vice dele"? Ora, ela já estava no páreo! Mas o que se trata é bem uma outra política. A política do setor da mídia é não dar um cheque em branco ao PT, que tem claro apetite de hegemonia. Assim, ele eleva Marina a um segundo lugar, como representante dos setores agro-exportadores que não têm seus interesses totalmente contemplados pela coalizão de Lula e Dilma. 

Minha aposta, no entanto, é que no futuro haverá a polarização entre o aglomerado de Lula/Dilma, engordando ao máximo, polarizando com a esquerda não petista, a Frente Independente Popular ou algum similar. A "frente de esquerda" inexistente, composta por PCB-PSOL-PCO-PSTU, tenderá mais e mais a ficar atomizada e perder força, sendo engolida pelos dois lados ao ficar no centro. Randolfe Rodrigues, do PSOL, já teve anunciada sua ida ao PC do B, mas que não se concretizou. Creio que após a derrota de Luciana Genro esse tipo de coisa se tornará mais e mais comum.

A polarização do futuro será, portanto, entre os movimentos de junho e o gigantesco bloco lulista-dilmista. A sobrevida do projeto de Lula e Dilma dependerá do tempo de vida ativa de Lula. Como se verificou no projeto de Eduardo Campos/Marina, dificilmente é possível agregar tantos oportunistas sem a figura do líder.

Marina não é líder e pratica a mitose trotsquista: ambicionou ser a sucessora de Lula, mas não conseguiu, buscou ser alternativa interna ao sistema, o mesmo caso de Eduardo. Rachou no PT, entrou no PV, rachou o PV com exigências tais como riscar os direitos dos gays e lésbicas, gerando o Partido dos Livres, buscou dominar totalmente o PV dando um golpe e chamando uma convenção fora do tempo, ao estilo do de Roberto Freire no PCB em 92. No entanto, a direção do PV conseguiu isolá-la e expulsá-la a tempo, ao contrário do que se deu com Freire. Marina não conseguiu criar seu partido próprio e criou a "Rede" de oportunistas, levando agora o seu "ebola" trotsko para dentro do PSB. Marina é tudo o que se diz de Stálin: personalista, centralista, autoritária, amante do culto da personalidade e afeita a reunir-se a uma patotinha que resolve tudo na cúpula, embora discurse a favor da democracia e a "velha esquerda". Por baixo das vestes novas e da retórica sustentável, Marina tem uma face encarquilhada de continuidade da velharia e dos pandarecos.

Ela tinha marcado  a data para completar uma nova fase e rachar novamente, mas o acaso quer agora que ela complete sua infecção. Lá, ela já começou a rachar. Com a derrota nas eleições, o que será bastante provável, pode-se prever consequências atomizantes para o PSB e um novo racha de Marina para ir construir aquele que deveria chamar-se "PM", Partido da Marina.

 A expectativa de que um rearranjo futuro incorpore Marina é grande, ela de está certa ao candidatar-se sucessivamente, de fato, é promissor ser alternativa interna do presidencialismo de coalizão. Ela preparou isso minuciosamente, por exemplo, a espelhar a aliança entre o capital e o trabalho de José de Alencar/Lula em sua chapa Marina/Guilherme Leal. Derrotada uma primeira vez e obrigada ceder espaço a um coronel carismático que obteve espaço também como face alternativa ao sistema, Marina tem agora uma sobrevida como cabeça de chapa. 










sábado, 9 de agosto de 2014

resposta de Makaveli sobre o "esquerdismo"



Algumas respostas ao Makaveli:


  • Sua introdução falando das derrotas da Internacional Comunista está inserida dentro de um tipo de argumentação que os trotsquistas também fazem sempre que falam do período posterior a Lênin. Eles sabem que o partido, presidido por Stálin, conseguiu enormes vitórias em 45, contra Hitler, assim como na China, Coreia e teve ampla participação no processo de libertação dos povos da América Latina, Ásia e África, no mesmo período. Os trotsquistas gostam de fantasiar que seria necessária uma aliança com os social-democratas na Alemanha antes de 33. No entanto, criticam a política da frente popular na Espanha e atribuem a essa frente a derrota. O "bloco histórico" de que tanto fala o PCB nada mais é do que um tipo de frente popular. Sabendo disso, os teóricos do PCB argumentam que trata-se de "frente anticapitalista". Ora, fazer frente anticapitalista teria que ser excluindo o PSOL, pois o partido não é anticapitalista. Recentemente, o PCB fez manifestações contra o nazismo na Ucrânia ao lado de uma tendência do PT, a Esquerda Marxista. O objetivo da reflexão é atacar o "esquerdismo" que supostamente não permite as tais "frentes antifascistas" ou "blocos históricos", quando o partido julgar interessante levantar essa bandeira. No fundo, no fundo, ele levanta essa discussão apenas para melhor detratar Stálin e recolocar suas verdades cripto-trotsquistas. Embora o PCB também tenha defensores de Stálin e Mao, é bastante forte a influência dos trotsquistas. O caderno de teses desse ano está praticamente igual ao do ano passado, palavra por palavra. Alguma coisa aconteceu no congresso do PCB. Talvez a balança interna entre leninistas e trotsquistas tenha pesado a favor desses primeiros e a direção resolveu "bater o bastão de mando" e manter as mesmas teses do ano passado. Senão, como explicar que tenham sido praticamente repetidas, palavra por palavra?
  • A crítica de Makaveli à Venezuela nunca busca desmentir que a Venezuela seja um nacionalismo reformista e sempre prossegue com a mistificação de aquele projeto seja um "socialismo do século 21" e não um projeto de conciliação de classes. Nunca pontua que Chávez renegou o marxismo-leninismo, assim como deu razão a Kropotkin quando este assinalava a degeneração da URSS já em 1921; esquece que ele deu também razão a Trotsky, dizendo "vamos com Trotsky" e afirmando que sua revolução era permanente. O PCB chega a agregar essa mistificação, dizendo-se "um partido do século 21", utilizando-se do número 21 que é o número do partido nas eleições. 
  • Em nota o PCB deu a entender, sim, que algumas das ações violentas em junho teriam seriam movidas por agentes de direita infiltrados, que eu me lembre, em especial foi dito isso no caso do Palácio do Itamaraty. Os agentes quebrariam para depois reforçar e exigir a repressão. Pelo menos no caso de um molotov jogado na PM foi comprovadamente verdade que o autor era um policial infiltrado (isso aconteceu no Rio) e também os ataques ao PSTU tiveram origem, supostamente, em grupos de direita infiltrados.
  • O PCB fez coro ao PSTU e várias outras organizações trotsquistas quando os anarquistas, no caso os Black Blocks, entraram em conflito aberto com o PSTU, após o PSTU ter expulsado dois anarquistas de perto de seu grupo numa manifestação. Embora o PCB não hostilize abertamente os Black Block, ele se alia a quem os ataque intensamente, sempre com argumentação nesse sentido, de ser uma linha auxiliar da direita, que é a linha que o PSTU assumiu contra os anarquistas desde junho. Sem caracterizar as jornadas de junho como uma rebelião popular anárquica contra o estado, em que povo demonstra repudiar o estado e, ao invadir os prédios públicos, demonstra querer revolução, O PCB embarcou na ideia, disseminada desastrosamente por Randolfe do PSOL, de que seria possível aferir dividendos eleitorais das jornadas de junho, enquanto a lição que se deve tirar das jornadas é outra: as massas repudiam a natureza do nosso estado e exigem mudanças estruturais que não podemos prometer que virão através do processo eleitoral. A melhor maneira de atender às massas é através da tática do boicote eleitoral. Mauro Iasi chega perto dessa reflexão ao dizer que as manifestações de junho configuraram o sonhado "bloco histórico". Ele estava tendo em mente os black block, suponho, como frente que congrega onze organizações. No entanto, pode-se supor que o bloco histórico é a Frente Independente Popular, é a FIP, da qual está ausente o PCB. O bloco histórico, ou seja, a colaboração das organizações, é possível sem a divisão interna, os gastos, personalismo, inevitável frustação e a contaminação de cretinismo parlamentar que causa organizar-se para eleições.
  • Gramsci é o autor  mais usado para reforçar as tais "táticas legais", ou seja, eleitorais. O que fazem os anarquistas, senão utilizar, de fato, as "táticas ilegais" das quais o PCB tanto fala, aliás, desde o tempo de Roberto Freire? E as táticas ilegais dos black block são simbólicas, são ataques onde as pessoas não são envolvidas, apenas coisas: atacar concessionárias, quebrar vitrines de banco, caixas eletrônicos, dentre outros símbolos do capitalismo. O PCB fala em táticas ilegais, mas na prática se mantém legalista até quando se trata de pular uma catraca. Quando alguém de fato usa uma tática ilegal, sua intenção, tudo indica, é "sartar de banda". O que indica, portanto, embora aceite táticas ilegais de boca, seguindo Lênin em teoria, não as planeja, não as admite verdadeiramente e as rejeita quando são praticadas.
  • Mauro Iasi retoma, em palestra no Instituto Lula (sic), um texto semelhante de Valter Pomar, falando do muito que se tem de aprender com Allende (revisionismo eleitoral) e Che (revisionismo armado). Não é um déficit teórico, é um déficit de leninismo, por isso se fala em "ir até Lênin, apenas", rejeitando o continuar do leninismo que é Stálin.  Na prática, vê-se que é Marx (sem Engels) quem é verdadeiramente estudado e até cultuado, pois o estudo se faz em função da academia. Enquanto o MEPR recusa compor mesa com petistas, o PCB o faz em sentido sempre de confirmar uma posição conciliadora e centrista. Troca o culto da personalidade de Stálin pelo culto da personalidade Lula, o que, pontuemos, como trocar um dragão por um piolho.
  •  O PSTU chegou a afirmar que os anarquistas "acabam com muitas manifestações", agindo o PSTU como linha auxiliar da direita junto às manifestações, repetindo um discurso bastante presente em editoriais conservadores. O discurso de que existia uma "minoria subversiva" em meio a uma maioria pacífica também se mostrou presente entre militantes do PCB. O que se notou foi algo diverso, no entanto. O protagonismo do PSTU foi recusado nas manifestações. Só foi possível a uma minoria de direita atacar os militantes do PSTU porque a massa recusou o protagonismo com o qual o partido atuava em junho.
  • Em muitos casos, como em vídeo de José Paulo Netto, intelectual ligado ao PCB cujo vídeo pode ser visto no youtube, intelectuais pecebistas embarcam em teorias favoráveis ao petismo, como dizer que a investigação sobre a corrupção em Passadena tem como objetivo privatizar a Petrobrás.  Petrobrás não será privatizada, ora, ora, pelo motivo próprio que ela tem cumprido um papel para os empresários que querem usar o estado como alavanca para lucrar: o estado pesquisa e investiga os pré-sais da vida, gastando o dinheiro para localizar o mapa da mina. Uma vez obtido o mapa do tesouro, são empresas privadas que botam a mão nesse mapa e faturam, enquanto o setor público fica no prejuízo. Levantar a bandeira alarmista para assustar as massas de que "o PSDB quer privatizar a Petrobrás" é fazer o jogo do governismo e da direita, portanto.
  • Não só a esquerda governista defendeu a teoria de que as manifestações eram um golpe da direita. O partido da causa operária também defendeu que até o "Não vai ter copa" era tentativa de golpe da direita.


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Resposta ao texto “fascismo, oportunismo e farsa eleitoral”: os equívocos do esquerdismo!

O Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) publicou em sua página nacional no Facebook um texto em resposta ao meu escrito chamado “O “social-fascismo” e a “farsa eleitoral”: convergências e aproximações”. Vou me deter em escrever uma breve resposta ao texto publicado na página do MEPR, que é de autoria da “Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo – FRDDP”.

Antes de tudo, cabe dizer que o texto do FRDDP é longo, enfadonho, chato, cheio de “argumentos de autoridade” e não toca nas questões principais do meu texto, além disso, o texto afirma que sou militante do PCB, algo equivocado. Sou militante da União da Juventude Comunista (UJC). O autor do texto do FRDDP quase morre do coração com as criticas que fiz a direção da Internacional Comunista durante o “terceiro período”. Quando afirmo que uma direção teórico-política equivocada levou a derrotas vergonhosas. Aí os camaradas, que pelo visto não sabem o que é processo histórico, respondem isso:

“Que derrotas vergonhosas foram estas? Este foi um período de muita luta, muita resistência e enfrentamentos dos comunistas em todo o mundo, com a criação de partidos comunistas na maioria dos países de todos os continentes. Foi o período do avanço da construção socialista na URSS, da coletivização da terra, da preparação das condições sobre as quais se derrotou o nazi-fascimo na Segunda Guerra Mundial.”

Eu não disse que não foi um “período de luta” ou que não houve vitórias. Afirmei que pela direção política errada tivemos derrotas vergonhosas, pois foi período de vitória do fascismo na Alemanha, Itália e Áustria. O fortalecimento do fascismo na França. A paralisia da revolução proletária na Europa e a derrota da revolta chinesa de 1927. Os erros foram tantos que a própria Internacional Comunista (IC) reconheceu sua linha política errada e em 1935 mudou de posição. A famosa “virada Dimitrov” onde a IC adota da tática de Frente Populares onde pregava a aliança dos Partidos Comunistas com os partidos burgueses e pequeno-burgueses anti-fascistas. Tática tão acertada que possibilitou um enfrentamento exitoso contra os fascistas, colocou os comunistas na vanguarda das resistências antifascistas e proporcionou um crescimento assombroso dos Partidos Comunistas da Europa Ocidental. Nem quero muito entrar nesse ponto. A própria Internacional Comunista admitiu que sua estratégia e tática durante o “terceiro período” estavam erradas. Stálin, Dimitrov e vários camaradas do grupo dirigente da U.R.S.S fizeram uma justa autocrítica. O pessoal do MEPR me acusa de oportunista por criticar uma postura da Internacional Comunista que a mesma Internacional reconheceu que estava errada! Será ignorância ou uma espécie de interpretação maoísta-pós-moderna da história?!

Depois o texto tenta afirmar que eu sou seguidor de Kautsky, centrista e tento reabilitar a social-democracia. Não vou nem me deter a responder isso. No meu próprio blog tenho um texto onde critico a “Revolução Bolivariana” na Venezuela por seus aspectos “reformistas e institucionais” algo que passa longe de um seguidor de Kaustky (leia aqui:http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2014/05/a-venezuela-bolivariana-e-o-programa.html”). Depois disso, o texto enfadonho como é, faz um resgate totalmente desnecessário ao debate da história da Primeira Internacional, da II e da criação da Terceira. Essa parte não convém nenhuma reposta especifica. Foi apenas para o autor do texto encher lingüiça e mostrar “erudição histórica”.

Depois disso o texto começa seus festivais de mentiras e falácias, algo típico de quem não têm argumentos. Primeiro diz:

““Durante as manifestações de junho de 2013, embarcaram no discurso petista que dizia que os protestos seriam uma manobra da direita. Nas manifestações que se seguiram, nos embates de rua da juventude combatente apareceram muito menos””

Eu nunca disse que os protestos de Junho eram manobras da direita. Nem o PCB. Até onde eu saiba nem o PSTU, PSOL, PCLCP, Esquerda Marxista ou Levante Popular. Pelo que acompanhei só a esquerda governista é que falou isso. O texto afirma algo grave desse jeito sem qualquer prova. Uma irresponsabilidade digna de quem não tem argumentos e está desesperado para “ganhar” o debate. No prosseguimento do texto temos várias e várias acusações até chegar a um dos argumentos principais: afirmar que vivemos num fascismo e que a democracia burguesa e o fascismo não a mesma coisa. Para afirmar que o governo Dilma é fascista dizem isso:

““Não teremos tempo aqui para analisar, teórica e historicamente, o caráter fascista do governo Dilma. Apenas citaremos a lei anti-terrorista, criticada em nota pelo próprio PCBrasileiro, a violenta repressão às manifestações e as ameaças de lançar mão do Exército Brasileiro para reprimir os protestos, ademais de todo o cinismo em afirmar que “estes manifestantes são fascistas”, referindo-se claro, à juventude combatente””

E depois isso:

““ Então o que é a propapaganda sistemática de um “Brasil país de todos”, criação de uma nova e suposta “classe média”, campanhas de empreendedorismo e os programas assistencialistas dirigidos às massas empobrecidas, cadastradas, fiscalizadas e chantaeadas do Bolsa Família? Que dizer do sindicalismo cooptado por verbas polpudas e altos cargos na burocracia? E por fim, tudo isto a serviço de que e para quem, senão da perpetuação da exploração e opressão para as classes exploradoras retrógradas do país, os latifundiários e a grande burguesia, ademais do imperialismo, particularmente o capital financeiro?””

Bem, como todo esquerdista, o MEPR confunde governos autoritários – como é todo governo burguês com as classes populares –com governos fascistas. Aliás, usa a categoria histórico-concreta de fascismo como slogan. Não vou me deter muito refutando isso. Gostaria apenas de pegar exemplos diários concretos para exemplificar o quanto errado isso é. O MEPR tem uma banquinha de livros no Centro de Educação (CE) onde vende materiais da sua linha política. Seus militantes são conhecidos. Muitos são universitários, estão todo dia na UFPE, sua rotina é conhecida. Sempre podem ser vistos no Recife Antigo. Os repórteres da Nova Democracia usam colete de identificação quando fazem suas coberturas jornalistas. Os militantes do MEPR também disputam cargos em DA’s, DCE’s e sindicatos. Agora compare com a situação dos comunistas na Itália fascista ou Alemanha nazista. Ou mesmo com ditadura empresarial-militar no Brasil. Parece semelhante? Aliás, para dar outro exemplo. Renato Natan, dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), braço camponês da Nova Democracia, foi assassinado a mando de latifundiários da região de Rondônia. Os camaradas do MEPR estão recorrendo ao Ministério Público, OAB e a polícia para punir os assassinos. Esse seria o primeiro caso na história onde um Estado Fascista pode ser usado legalmente – via instituições – para pressionar pela punição de um assassinato político. Acho que os militantes do MEPR são os únicos comunistas na história que vivem sobre um “Estado Fascista” e não estão na ilegalidade, usam instituições públicas e atuam legalmente. Sobre o caráter autoritário do Estado Brasileiro, basta ler as formulações de Florestan Fernandes sobre a “autocracia burguesa” no capitalismo dependente. Não precisa de slogans vazios para isso.

Ao termino, os “argumentos finais” são uma série de lugares-comuns repetidos como mantras. A estratégia do MEPR é deduzir dos textos clássicos uma posição política de boicote eleitoral. Dos textos clássicos podemos pegar citações que mostram ao contrário. Desde Marx e Engels até passando por Lênin, Stálin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Fidel e Che podemos achar várias citações. Mas eu, particularmente, não sou adepto da “guerra de citações”. O fato concreto e inescapável é que o MEPR não respondeu NENHUM dos argumentos centrais dos meus textos questionando a tática do boicote na atual conjuntura. No próprio texto chamado “O “social-fascismo” e a “farsa eleitoral”: convergências e aproximações” não tive nenhuma resposta sobre as diferenças concretas entre um governo fascista ou uma ditadura militar e uma democracia burguesa na formulação da estratégia e tática dos comunistas. Aliás, a resposta do MEPR é que é tudo a mesma coisa. Deve ser mesmo. Acho que os militantes durante a ditadura empresarial-militar podiam expor publicamente que eram comunistas, faziam propaganda comunista na universidade, usavam bandeiras comunistas em protestos públicos, debater sobre comunismo com qualquer pessoa, vender seu jornal comunista em qualquer lugar (com exceção, é claro, dos ambientes onde a legalidade é relativa e a democracia burguesa usa mais a coerção do que o consenso, como no campo e favelas), etc. Realmente, a mesma coisa. Depois escrevi outro texto chamado “Boicote às eleições, mas não a teoria marxista: considerações sobre a tática do boicote.”, onde depois de ler vários textos do jornal A Nova Democracia (foi um saco escrever esse texto) formulei questionamentos e criticas aos principais argumentos para puxar o boicote usado pelos maoístas. Nenhum desses questionamentos foi respondido. Nenhum. Faço questão de mostrar um dos principais questionamentos que fiz e não foi respondido:

“O quarto ponto é central para os que defendem o boicote como a tática mais adequada aos comunistas. Como já foi dito para os camaradas já existe um boicote feito por amplos setores populares e é dever dos revolucionários organizar, potencializar e dar um sentido revolucionário a esse boicote. Fica implícito também que o boicote é politizado e tendencialmente de esquerda. Vejamos, as objeções poderiam ser muitas. Nunca vi uma análise de classe desse suposto boicote. Sendo mais claro: é fato que em toda eleição várias pessoas deixando de votar – em média 40 milhões nas eleições presidenciais -, mas para podermos avaliar isso como um fato politizado, potencialmente de esquerda e revolucionário seria necessário, no mínimo, uma analise do componente de classe desse “boicote”. Qual é a proporção de trabalhadores pobres, classes médias e burgueses que deixam de votar? Segundo quais os principais motivos, pois é uma falácia (e das grandes) deduzir que todo ato de não votar é uma rebeldia não organizada contra o Estado burguês. O sujeito pode não votar por puro “niilismo político”, ou seja, porque não acredita em qualquer mudança política das suas condições de vida. Porque é classe média, acha que não depende do governo para nada, porque eleição é apenas um feriado e ele vai para praia, etc. Deduzir sem qualquer pesquisa que esses 40 milhões (ou mesmo maioria) não votam com o intuito de não legitimar o Estado burguês é algo absurdo. É querer adequar o real à sua vontade.” (texto completo em: http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2014/07/boicoteas-eleicoes-mas-nao-teoria.html)

Por trás de toda fraseologia sobre oportunismo, eleitoralismo, etc. Existe na verdade é uma ausência de argumentos sólidos para sustentar a tática do boicote na atual conjuntura. Tirando o sofismo, os “argumentos de autoridade” e o senso comum não sobra nada do texto do FRDDP publicado na página do MEPR.

Para terminar gostaria de deixar textos de verdadeiros comunistas sobre a questão da tática frente ao processo eleitoral:



Farsa eleitoral ou luta eleitoral: a prioridade das ruas e a disputa nas urnas:http://blogdaboitempo.com.br/2014/05/14/farsa-eleitoral-ou-luta-eleitoral-a-prioridade-das-ruas-e-a-disputa-nas-urnas/


Entre Che e Allende: déficit teórico e busca de uma estratégia:http://blogdaboitempo.com.br/2013/02/20/entre-che-e-allende-deficit-teorico-e-busca-de-uma-estrategia/

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Jones Makaveli (UJC) X FRDDP



Um diálogo bastante interessante entre os argumentos da esquerda que quer participar das eleições (vejam no blog de Makaveli o artigo ao qual esse artigo se refere) e a esquerda que prega o boicote (FIP, MEPR, etc). A meu ver, esse é o grande debate dessas eleições e não a proposta de nenhum candidato.

Nesse contexto de crise, o que todos terão de praticar e o que terão a realizar é o arrocho. Não se pode esperar nada. Como toda a classe política depende dos empresários, não pode resolver o problema das contas públicas às custas deles e nem de quem trabalha para eles, como deputados e vereadores que recebem valores vultosos. Eles tenderão é a passar a conta para os trabalhadores, todos eles.

Eu estou a favor de votar nulo esse ano. Makaveli cita, no final de seu artigo em seu  blog, uma palestra de Mauro Iasi no Instituto Lula (!). Ora, ora, como dar palestra no Instituto Lula e não denunciar o flagrante culto da personalidade? Como se desvencilhar da acusação de centrismo e conciliação com o governo do PT, nestas circunstâncias? Cultuar um político cujo passado mais e mais aparece de forma sombria em vários livros, como o de Mário Granero e um recente de um ex-aliado, como, no mínimo, confirmando os cursos de que Lula fez no sindicato americano AFL-CIO durante a Guerra Fria, acusação feita desde sempre por Darcy Ribeiro? O PCB comprometeu-se a denunciar o culto da personalidade ou só denuncia quanto é interessante ou conveniente? Quanto é o culto da Stálin e todo mundo concorda? E o culto a Marina e Fernando Henrique Cardoso em seus respectivos institutos, na verdade, ONGs que vivem atrás de dinheiro de governos, como aliás, a maior parte das ONGs? Como se não bastasse, quem sabe para não chatear o amigo Valter Pomar, Mauro Iasi não chama o PT de neoliberal e sim de "social-liberal", assim como o latifúndio  é também chamado pelo eufemismo de "agronegócio". Parece ser mais um caso em que a pessoa sai do PT, mas o PT não sai dele!

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Acabamos de receber esse texto interessante sobre a farsa eleitoral no e-mail do MEPR Recife, enviado pela Frente Revolucionária.

“Proletários de todos os países e povos do mundo, uni-vos!”

Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo - FRDDP
Núcleo Recife - Pernambuco
Fascismo, oportunismo e farsa eleitoral

Em março deste ano, um jovem que se identifica por militante do PCBrasileiro, estudante de história da UFPE, publicou em seu blog pessoal o texto “O ‘social-fascismo’ e a ‘farsa eleitoral’: convergências e aproximações” com o qual critica o Movimento Estudantil Popular Revolucionário e o chamado “terceiro período” da Internacional Comunista. Visto que o debate sobre o fascismo, a ruptura ou não com as correntes oportunistas e o boicote à farsa eleitoral estão na ordem do dia, aproveitamos da explanação revisionista destes temas para, a partir de sua crítica, sustentar a defesa das concepções revolucionárias do marxismo. O jovem militante do PCBrasileiro diz basear sua argumentação na teoria de Marx, Engels e Lenin, mas na verdade deturpa estas concepções para defender as proposições oportunistas da direção de seu partido, a saber: a posição centrista e conciliadora com o governo Dilma (PT/Pêcêdobê) e a defesa de uma estratégia eleitoreira como caminho da revolução socialista no Brasil. Partindo dos próprios clássicos da ideologia científica do proletariado, e não de confusas e ecléticas interpretações das mesmas, fundamentaremos nossas críticas.

Imperialismo e a cisão do socialismo

O estudante de história inicia seu texto com duras críticas à III Internacional (IC ou Cominter), afirmando que: “o chamado ‘terceiro período da Internacional Comunista (IC) foi um período de amplo esquerdismo teórico e prático que contribuiu para derrotas vergonhosas e acachapantes para o movimento comunista internacional. Uma das principais características do famoso ‘terceiro período’ da IC era a formulação do ‘social-fascismo’.” O denominado “terceiro período” da Internacional Comunista corresponde ao VI e VII Congresso da mesma (1928 e 1935, respectivamente). Antes de mais nada, somos obrigados a rebater o tom arrogante e carente de fundamentos expresso no termo “derrotas vergonhosas”. Que derrotas vergonhosas foram estas? Este foi um período de muita luta, muita resistência e enfrentamentos dos comunistas em todo o mundo, com a criação de partidos comunistas na maioria dos países de todos os continentes. Foi o período do avanço da construção socialista na URSS, da coletivização da terra, da preparação das condições sobre as quais se derrotou o nazi-fascimo na Segunda Guerra Mundial.

O termo social-fascista foi utilizado pelo Partido Comunista da Alemanha, naquela época, para caracterizar os setores oportunistas do movimento operário alemão, a socialdemocracia como então eram conhecidos. A terminologia correspondia a avaliação de que a prática da socialdemocracia alemã se assemelhava a dos fascistas e, portanto, ambos deveriam ser combatidos com a mesma energia. O nosso estudante de história se levanta em defesa do oportunismo socialdemocrata alemão dizendo: “a socialdemocracia alemã foi, inclusive, mais combatida pelos comunistas alemães que o nazismo até 1934-5”. Esta afirmação é falsa, mas a contestaremos um pouco mais adiante. Antes é preciso fazer uma rápida retrospectiva da luta de linhas no movimento comunista internacional nas primeiras décadas do século XX.

A II Internacional fora fundada por Engels em 1889, ela cumpriu um papel fundamental na formação de Partidos marxistas em toda a Europa. Com a morte de Engels, em 1895, Karl Kautsky tornou-se a principal liderança da II Internacional. Dirigente do Partido Operário Social-Democrata Alemão e reconhecidamente o mais destacado marxista depois de Marx e Engels, viu recair em suas mãos a grave responsabilidade da edição e publicação do Livro 4 de O Capital, de acordo com os manuscritos dos dois mestres e prosseguir o combate ao revisionismo de Bernstein. Os anos iniciais da II Internacional corresponderam ao que o grande Lenin denominou por “período ‘mais ou menos pacífico’ do desenvolvimento do capitalismo”. Tal situação muito contribuiu para que os partidos socialdemocratas vissem no movimento sindical e no parlamento o centro de sua atuação revolucionária. Este também é o período em que o capitalismo transita para um novo estágio de seu desenvolvimento, o do capital monopolista, o imperialismo, que foi assim definido por Lenin:





“O imperialismo é um estágio histórico particular do capitalismo. Esta particularidade é tripla: o imperialismo é 1) capitalismo monopolista; 2) capitalismo parasitário ou em decomposição; 3) capitalismo moribundo (agonizante).” (V.I. Lenin, O imperialismo e a cisão do socialismo)

Com o advento do imperialismo, encerra-se o período “mais ou menos pacífico” do desenvolvimento do capitalismo; surgem os conflitos regionais entre as potências imperialistas, tal como a guerra russo-japonesa; destampa a revolução Russa de 1905 (temporariamente derrotada); e, em 1914, eclode a Primeira Guerra Mundial. A Guerra Mundial marcará uma profunda e necessária divisão no movimento comunista. A maioria dos partidos da II Internacional passaram a apoiar a burguesia de seus respectivos países no conflito entre as potências pela partilha do mundo, votando no parlamento a favor dos créditos de guerra e consequentemente quebrando a unidade internacional da classe operária. Lenin caracterizou muito precisamente a Primeira Guerra como uma guerra entre potências imperialistas por uma nova partilha do mundo, dos mercados e das colônias. Defendeu que os operários não deveriam morrer nas trincheiras lutando pelos interesses da burguesia de seu país, mas que ao contrário, a única tática revolucionária da socialdemocracia era a de “transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária”.

Lenin caracterizou os partidos que se aliavam às burguesias de seus países como “social-chauvinistas”, socialistas em palavra e patrióticos fanáticos na prática. Com a passagem do capitalismo à seu estágio monopolista imperialista, muitos marxistas capitulam da luta de classes, inclusive o destacado Kautsky, que do combate ao revisionismo de Bernstein passa ao campo do social oportunismo. Com a guerra imperialista, ele defende a aprovação dos créditos de guerra no parlamento alemão e uma posição “centrista” ao propor a unidade, no mesmo partido e na mesma internacional, com os “social-chauvinistas”. Foi acusado por Lenin de passar de social-oportunista a social-chauvinista, que assim disse:

“Foi no seio da socialdemocracia alemã que se delineou com maior evidência a cisão no socialismo contemporâneo. Vemos aqui com toda clareza 3 correntes: os oportunistas-chauvinistas, que em parte nenhuma como na Alemanha atingiram um tal grau de decadência e de renegação; o ‘centro’ kautskista, que se mostrou aqui completamente impotente para desempenhar qualquer outro papel além do de servidor dos oportunistas; e a esquerda, que representa os únicos sociais-democratas da Alemanha.” (V.I. Lenin, O socialismo e a guerra”)

São os partidários do social-chauvinismo na Alemanha (Ebert, Scheidmann, Noske e cia), que mais tarde serão acusados de “social-fascistas” pelo Partido Comunista e pela IC. Mas voltemos ao retrospecto da luta de duas linhas no movimento comunista internacional. Diante desta situação, qual foi a proposição de Lenin? Combatendo as posições conciliadoras de Kautsky, internacionalmente, e de Trotsky, na Rússia, Lenin defenderá a cisão com o oportunismo e o combate inconciliável aos seus defensores. E mais, em decorrência de sua análise do imperialismo defenderá que nesta etapa do capitalismo, dos monopólios e do lucro-máximo, a cisão no seio do socialismo era inevitável e definitiva. Segundo Lenin, os superlucros obtidos pelo imperialismo na espoliação das nações atrasadas permitiam a burguesia das potências imperialistas corromper uma camada do proletariado, a “aristocracia operária”. Esta camada aburguesada, conformada pelos chefes e subchefes e a burocracia sindical, é a base objetiva do oportunismo.

“Existe uma ligação entre o imperialismo e a vitória monstruosa e abominável que o oportunismo (na forma de social-chauvinismo) alcançou sobre o movimento operário na Europa? É esta a questão fundamental do socialismo contemporâneo. (...)

Sobre a base econômica apontada [imperialismo, monopólios e lucro-máximo] as instituições políticas do capitalismo moderno – a imprensa, o parlamento, as associações, os congressos, etc. – criaram para os empregados e operários respeitadores, mansos, reformistas e patrióticos os privilégios e esmolas políticas correspondentes aos privilégios e esmolas econômicas. Lugarzinhos rendosos e tranquilos num ministério ou num comitê industrial de guerra, no parlamento ou em diversas comissões das redações de jornais legais ‘sérios’ ou nas direções de sindicatos operários não menos sérios e ‘burguesmente obedientes’ – é com isto que a burguesia imperialista atrai e recompensa os representantes e partidários dos ‘partidos operários burgueses’.” (V. I. Lenin, O imperialismo e a cisão do socialismo)




“O imperialismo é um estágio histórico particular do capitalismo. Esta particularidade é tripla: o imperialismo é 1) capitalismo monopolista; 2) capitalismo parasitário ou em decomposição; 3) capitalismo moribundo (agonizante).” (V.I. Lenin, O imperialismo e a cisão do socialismo)

Com o advento do imperialismo, encerra-se o período “mais ou menos pacífico” do desenvolvimento do capitalismo; surgem os conflitos regionais entre as potências imperialistas, tal como a guerra russo-japonesa; destampa a revolução Russa de 1905 (temporariamente derrotada); e, em 1914, eclode a Primeira Guerra Mundial. A Guerra Mundial marcará uma profunda e necessária divisão no movimento comunista. A maioria dos partidos da II Internacional passaram a apoiar a burguesia de seus respectivos países no conflito entre as potências pela partilha do mundo, votando no parlamento a favor dos créditos de guerra e consequentemente quebrando a unidade internacional da classe operária. Lenin caracterizou muito precisamente a Primeira Guerra como uma guerra entre potências imperialistas por uma nova partilha do mundo, dos mercados e das colônias. Defendeu que os operários não deveriam morrer nas trincheiras lutando pelos interesses da burguesia de seu país, mas que ao contrário, a única tática revolucionária da socialdemocracia era a de “transformar a guerra imperialista em guerra civil revolucionária”.

Lenin caracterizou os partidos que se aliavam às burguesias de seus países como “social-chauvinistas”, socialistas em palavra e patrióticos fanáticos na prática. Com a passagem do capitalismo à seu estágio monopolista imperialista, muitos marxistas capitulam da luta de classes, inclusive o destacado Kautsky, que do combate ao revisionismo de Bernstein passa ao campo do social oportunismo. Com a guerra imperialista, ele defende a aprovação dos créditos de guerra no parlamento alemão e uma posição “centrista” ao propor a unidade, no mesmo partido e na mesma internacional, com os “social-chauvinistas”. Foi acusado por Lenin de passar de social-oportunista a social-chauvinista, que assim disse:

“Foi no seio da socialdemocracia alemã que se delineou com maior evidência a cisão no socialismo contemporâneo. Vemos aqui com toda clareza 3 correntes: os oportunistas-chauvinistas, que em parte nenhuma como na Alemanha atingiram um tal grau de decadência e de renegação; o ‘centro’ kautskista, que se mostrou aqui completamente impotente para desempenhar qualquer outro papel além do de servidor dos oportunistas; e a esquerda, que representa os únicos sociais-democratas da Alemanha.” (V.I. Lenin, O socialismo e a guerra”)

São os partidários do social-chauvinismo na Alemanha (Ebert, Scheidmann, Noske e cia), que mais tarde serão acusados de “social-fascistas” pelo Partido Comunista e pela IC. Mas voltemos ao retrospecto da luta de duas linhas no movimento comunista internacional. Diante desta situação, qual foi a proposição de Lenin? Combatendo as posições conciliadoras de Kautsky, internacionalmente, e de Trotsky, na Rússia, Lenin defenderá a cisão com o oportunismo e o combate inconciliável aos seus defensores. E mais, em decorrência de sua análise do imperialismo defenderá que nesta etapa do capitalismo, dos monopólios e do lucro-máximo, a cisão no seio do socialismo era inevitável e definitiva. Segundo Lenin, os superlucros obtidos pelo imperialismo na espoliação das nações atrasadas permitiam a burguesia das potências imperialistas corromper uma camada do proletariado, a “aristocracia operária”. Esta camada aburguesada, conformada pelos chefes e subchefes e a burocracia sindical, é a base objetiva do oportunismo.

“Existe uma ligação entre o imperialismo e a vitória monstruosa e abominável que o oportunismo (na forma de social-chauvinismo) alcançou sobre o movimento operário na Europa? É esta a questão fundamental do socialismo contemporâneo. (...)

Sobre a base econômica apontada [imperialismo, monopólios e lucro-máximo] as instituições políticas do capitalismo moderno – a imprensa, o parlamento, as associações, os congressos, etc. – criaram para os empregados e operários respeitadores, mansos, reformistas e patrióticos os privilégios e esmolas políticas correspondentes aos privilégios e esmolas econômicas. Lugarzinhos rendosos e tranquilos num ministério ou num comitê industrial de guerra, no parlamento ou em diversas comissões das redações de jornais legais ‘sérios’ ou nas direções de sindicatos operários não menos sérios e ‘burguesmente obedientes’ – é com isto que a burguesia imperialista atrai e recompensa os representantes e partidários dos ‘partidos operários burgueses’.” (V. I. Lenin, O imperialismo e a cisão do socialismo)


O fato é que os ‘partidos operários burgueses’, como fenômeno político, se formaram já em todos os países capitalistas avançados, que sem uma luta decidida e implacável em toda a linha contra estes partidos – ou grupos, correntes, etc., tanto faz – nem sequer se pode falar de luta contra o imperialismo ou de marxismo ou de movimento operário socialista. (...)

Explicar às massas a inevitabilidade e a necessidade da cisão com o oportunismo, educá-las para uma luta revolucionária implacável contra ele, ter em conta a experiência da guerra para revelar todas as infâmias da política operária nacional-liberal, e não para as ocultar – tal é a única linha marxista no movimento operário do mundo.” (V. I. Lenin, O imperialismo e a cisão do socialismo).

Caso fizéssemos a última citação sem dizer o nome do autor, provavelmente seríamos acusados de sectários pelo jovem militante do PCBrasileiro. Mas isto não é sectarismo, meu caro, isto é leninismo.

Como fora previsto por Lenin, o centrismo de Kautsky se uniu definitivamente ao social-chauvinismo, a II Internacional veio à bancarrota e, em 1919, foi fundada a III Internacional, a Internacional Comunista. De maneira a demarcar campo entre as linhas opostas no movimento proletário, a corrente de Lenin, desde às vésperas da Revolução Socialista de Outubro de 1917, passa a se assumir como comunista, o Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique) passa a se chamar Partido Comunista da Rússia (bolchevique). Todos os partidários da II Internacional (chauvinistas e centristas) passam a ser denominados como socialdemocratas, termo que se torna o sinônimo de revisionismo, para os oportunistas que teimavam em falar em nome do marxismo, e de oportunismo e reformismo, para os declaradamente renegados do marxismo.

A socialdemocracia, internacional e na Rússia, se levanta contra a Revolução Socialista de 1917. Na Alemanha, os sociais-democratas assumem a maioria no governo no final da Primeira Guerra. Será esta mesma socialdemocracia, cuja aliança é tão cara ao nosso historiador, que reprimirá a ferro e fogo a revolução socialista na Alemanha em 1919. Será a socialdemocracia alemã a opção da burguesia para administrar a crise após a renúncia do imperador, em fevereiro daquele ano. O presidente do partido socialdemocrata, Ebert, é escolhido primeiro-ministro da chamada República de Weimar. Os corifeus da socialdemocracia alemã, caracterizada pela IC como social-fascistas, foram os que mandaram assassinar a dirigente comunista internacionalista Rosa Luxemburgo, que teve o corpo jogado na sarjeta. Foram os mesmos que mandaram assassinar o líder comunista e internacionalista Karl Liebknecht. Não por acaso, Lenin chega a falar em luta armada contra o oportunismo, o que certamente deve ser considerado “delirante esquerdismo” por nosso historiador revisionista.



“A cisão internacional de todo o movimento operário mostra-se agora com inteira nitidez (II e III Internacionais). A luta armada e a guerra civil entre as duas tendências é também um fato evidente: na Rússia, apoio a Koltchak e Deníkin pelos mencheviques e pelos ‘socialistas-revolucionários’ contra os bolcheviques; na Alemanha, os partidários de Scheidmann, Noske e Cª ao lado da burguesia contra os spartakistas; e o mesmo na Finlândia, na Polônia, na Hungria, etc.” (V.I. Lenin – Prefácio às edições francesa e alemã da obra O Imperialismo, fase superior do capitalismo)

Por fim a refutação à mentira de que “os comunistas na Alemanha combateram mais a socialdemocracia do que o nazismo”. A verdade é exatamente o oposto, a socialdemocracia, esta sim, combateu muito mais os comunistas do que os nazistas. Ou melhor, compactuaram muitas vezes com os nazistas e contribuíram, assim, para a ascensão de Hitler. Vejamos dois exemplos: em 1923, o governo socialdemocrata, enfrenta uma grave crise econômica e social, greves operárias, levantamentos dirigidos pelos comunistas e outros pela extrema-direita. A saída socialdemocrata foi aplicar o artigo 48 da constituição, decretando estado de sítio e transferindo o poder para o ministro do Exército. Este golpe, foi fundamental para aumentar a perseguição aos comunistas e facilitou os planos de Hitler. Um exemplo menor, mas significativo, aconteceu no dia 17 de abril de 1934, quando um confronto de rua estourou entre comunistas e nazistas na cidade de Hamburgo, o prefeito era o socialdemocrata Eggerstadt, este enviou a polícia em socorro dos fascistas e prendeu 17 revolucionários.

Ao defendermos a posição dos comunistas da Alemanha e da Internacional Comunista nos anos de 1920/30, não estamos dizendo que os mesmos não incorreram em erro algum neste período. O movimento revolucionário foi temporariamente derrotado pelo nazismo na Alemanha. Houve uma derrota, mas de forma alguma “vergonhosa”. Vergonhoso teria sido a traição, a capitulação diante das dificuldades. Os comunistas alemães, ao contrário, demonstraram muito heroísmo, destemor e internacionalismo. O principal erro do Partido, naquele período, foi a subestimação da influência do nazismo na classe operária e no campesinato. Ao avaliar que os nazistas não ganhariam apoio do povo, os comunistas descuidaram da denúncia entre as massas da farsa do discurso “nacional-socialista” de Hitler. Isto contribuiu para que os nazistas, com um programa semelhante ao dos social-chauvinistas, ganhassem importantes setores do povo para o discurso do fim da luta de classes e de unidade nacional para o desenvolvimento da Alemanha. Estes erros foram identificados e corrigidos pela Internacional Comunista, em seu VII Congresso (1935), que lançou a política de Frente Única contra o fascismo.

No próprio Partido Comunista da Alemanha, antes deste congresso da IC, uma importante luta de duas linhas foi travada. A linha que predominou foi a defendida pelo dirigente Ernest Tälmann, em contraposição a ela levantou-se Artur Evert defendendo uma posição mais acertada para o combate do nazismo. O camarada Evert tem particular importância na história do Partido Comunista do Brasil, importância ainda não devidamente reconhecida. Este internacionalista convicto, ademais de toda sua atividade no Partido Comunista da Alemanha e após ter atuado no USA e na China, foi destacado pela Internacional para apoiar a direção do PCB-Partido Comunista do Brasil na organização do Levante Popular de 35. Foi preso, brutalmente torturado, juntamente com sua companheira, a camarada Elise Saborovski. Evert não forneceu nenhuma informação aos seus algozes, sequer admitiu que estava no país atuando politicamente, foi tão seviciado que enlouqueceu nas masmorras de Getúlio Vargas. Saborovski foi deportada para a Alemanha nazista, juntamente com Olga Benário, ambas foram assassinadas nos campos de concentração. A defesa jurídica de Artur Evert é conhecida na história do direito brasileiro, pois seu defensor conseguiu barrar as torturas infligidas contra ele baseado na legislação de proteção dos animais, já que não existiam leis no Brasil da época que garantisse qualquer tratamento humanitário a opositores do regime. Na Alemanha, Tälmann foi preso, brutalmente torturado pelos nazistas até o final da guerra e friamente assassinado. Ainda hoje seu nome aparece nas manifestações revolucionárias e anti-fascistas na Europa, como símbolo da luta antinazista.

Todas estas histórias de heroísmo e resistência não podem ser apagadas ou denegridas por acusações superficiais, arrogantes e infundadas, seja por provocadores, aventureiros ou desinformados; muito menos ainda quando estes pretendem se utilizar dos nomes de Marx, Engels e Lenin para dar-lhes cobertura de verdades. O nosso historiador tem todo o direito de fazer suas críticas à Internacional Comunista e ao Partido Comunista da Alemanha, mas que não faça isto dizendo defender as posições de Lenin. Se quer fazer citações coerentes com sua posição política deveria buscar em Kautsky ou Trotsky a sua fonte, ali encontraria muitos argumentos para fundamentar suas opiniões, o primeiro por ter renegado do marxismo e o segundo cujos seguidores dentro e fora da URSS colaboraram intensamente com os nazistas, antes e durante a Grande Guerra Pátria. Sustentar suas posições em Lenin é impossível, tanto que em seu texto não consegue se referir a sequer uma passagem das obras do líder da revolução russa.

A posição do PCBrasileiro, em relação ao oportunismo, realmente é muito semelhante com o “centrismo” de Kautsky. Fazem críticas pontuais ao PT e ao PCdoB, mas no fundo procuram preservar a boa convivência com estes representantes, no Brasil, do “partido operário burguês”. No segundo turno das eleições de 2012, por exemplo, lançaram a seguinte palavra de ordem: “derrotar Serra nas urnas e Dilma nas ruas”. Que maravilha de dialética! Posição centrista e conciliadora com o oportunismo petista; posição vacilante fundamentada no falso argumento de votar no “menos pior”. Na verdade, manifestando o cacoete do velho cacarejo direitista das direções oportunistas, que na história do movimento comunista no Brasil, jogaram sempre para por a classe operária e as massas populares à reboque da grande burguesia, a quem falsamente denominavam de burguesia nacional, ou de seus governos, supostamente divididos em parte progressista e parte reacionária, brandindo o também surrado conto do perigo de “golpe da direita”. Posição oportunista agravada por um “apoio crítico”, ou melhor, envergonhado a um aliado estratégico sobre o qual depositam esperanças de uma “virada à esquerda”.



Mas o PCBrasileiro com a magra votação de seu candidato no primeiro turno, apenas 20 mil votos em todo Brasil, contribuiu muito pouco para a derrota de Serra nas urnas. Por outro lado, contribuiu muito menos com a derrota de Dilma nas ruas. Mas não é o número de votos que faria valer tal dialética na luta de classes, pois quanto mais se empenha um partido num processo eleitoral farsante, mais estaria servindo a legitimar como república democrática, esse flagrante arremedo de Estado Democrático de Direito vigente no país. Durante as manifestações de junho de 2013, embarcaram no discurso petista que dizia que os protestos seriam uma manobra da direita. Nas manifestações que se seguiram, nos embates de rua da juventude combatente apareceram muito menos.

Na conclusão de seu texto, o militante do PCBrasileiro afirma: “Daí pra dizer que socialdemocracia e fascismo são a mesma coisa é um pulo.” Não teremos tempo aqui para analisar, teórica e historicamente, o caráter fascista do governo Dilma. Apenas citaremos a lei anti-terrorista, criticada em nota pelo próprio PCBrasileiro, a violenta repressão às manifestações e as ameaças de lançar mão do Exército Brasileiro para reprimir os protestos, ademais de todo o cinismo em afirmar que “estes manifestantes são fascistas”, referindo-se claro, à juventude combatente. Para se concluir que a socialdemocracia brasileira tem um caráter fascista não é preciso nenhum “salto”, senhor historiador, basta “dar um pulo” nos protestos contra a Copa, nas greves operárias, especialmente nas das obras do PAC ou na luta dos camponeses pela terra e ver de perto a repressão violenta das Polícias Militares com todo apoio e suporte de sua guarda pretoriana da Força Nacional de Segurança, criada por Lula, e da Polícia Federal, ou da intervenção direta das mesmas com o suporte das Forças Armadas.

Isto o dizemos certos de que pensamentos tais como expressa nosso historiador, reduz a noção de fascismo apenas à prática intolerante, repressiva e sanguinária, o que só é uma parte de suas monstruosidades. Até mais que a repressão, o fascismo se caracteriza por ideologia eclética e manejo da política através da mentira, da prestidigitação e do maniqueísmo, da corporativização das massas e sua manipulação via alienação e idiotização seja no ufanismo reverenciado a um salvador da pátria ou ao ufanismo chauvinista de grande potência. Nada disto tem a ver com o gerenciamento de turno de Lula/Dilma/PT-Pecedobê, ou seria mera coincidência? Então o que é a propapaganda sistemática de um “Brasil país de todos”, criação de uma nova e suposta “classe média”, campanhas de empreendedorismo e os programas assistencialistas dirigidos às massas empobrecidas, cadastradas, fiscalizadas e chantaeadas do Bolsa Família? Que dizer do sindicalismo cooptado por verbas polpudas e altos cargos na burocracia? E por fim, tudo isto a serviço de que e para quem, senão da perpetuação da exploração e opressão para as classes exploradoras retrógradas do país, os latifundiários e a grande burguesia, ademais do imperialismo, particularmente o capital financeiro?

O boicote a farsa eleitoral e a concepção marxista de Estado

Uma das questões centrais na cisão dos marxistas-leninistas com a socialdemocracia da II Internacional foram as posições opostas acerca da democracia burguesa e da ditadura do proletariado. Os oportunistas (social-chauvinistas e centristas) reuniram-se na Conferência de Berna, realizada em fevereiro de 1919, com o objetivo de restaurar a esgotada II Internacional. Esta conferência, essencialmente, serviu para atacar a ditadura do proletariado e encobrir a intervenção armada de 14 potências imperialistas à Rússia Socialista. Um mês depois, realizou-se o I Congresso da III Internacional, aonde Lenin combateu fortemente as teses da socialdemocracia e a concepção burguesa do Estado, defendendo assim a ditadura do proletariado.

Consequentemente, não é coincidência que o jovem militante do PCBrasileiro ao mesmo tempo em que procura resgatar à derrotada socialdemocracia, está pela exumação das suas velhas teses sobre o Estado e contra a ditadura do proletariado. Em seu texto afirma: “A teoria do ‘social-fascismo’ – que partindo da proclama que todo ‘estado é uma ditadura de classe’ não considera as diferenças concretas entre fascismo e socialdemocracia, considerando, inclusive, a socialdemocracia como até um mal maior que o fascismo”. Já descrevemos como os comunistas foram os que mais combateram o fascismo, e o fizeram de forma inseparável do combate ao oportunismo e ao revisionismo da socialdemocracia. Agora analisemos a crítica à “proclama” de que todo “Estado é uma ditadura de classe”. Esta proclamação que tanto incomoda nosso historiador nada mais é que uma tese básica e central da teoria marxista sobre o Estado. Todo Estado é uma ditadura de classe, inclusive o Estado socialista, que é a ditadura do proletariado contra a burguesia derrotada. Exatamente cumpre a ditadura do proletariado a missão histórica de abolir as classes e não o Estado, pois que por ser produto da existência de classes antagônicas e instrumento da classe dominante para exercer a opressão e assegurar seu sistema social, o Estado não pode ser abolido e sim extinguir-se. O comunismo só será o comunismo científico quando a extinção completa das classes e de todas as suas derivações estiverem realizadas e só então o Estado se extinguirá e o fará no longo processo de transição, onde por falta de bases materiais irá perdendo uma a uma suas funções. Como veremos nas citações a seguir, o que incomoda o jovem historiador, advogado do velho oportunismo da II Internacional, não são as posições da Internacional Comunista, mas a própria concepção de Marx, Engels e Lenin sobre o Estado.



Karl Marx, em 05 de março de 1852, numa carta, bastante conhecida, a Joseph Weydemeyer, assim se referiu sobre seu próprio pensamento:

“No que me concerne, eu não tenho o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade contemporânea, nem o de ter descoberto a luta dessas classes entre si. Os historiadores burgueses expuseram, muito antes de mim, o desenvolvimento histórico dessa luta de classes, e os economistas burgueses a anatomia econômica das classes. O que eu fiz de novo consiste na demonstração seguinte: 1º) que a existência das classes só se prende a certas batalhas históricas relacionadas com o desenvolvimento da produção; 2º) que a luta das classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; 3º) que essa própria ditadura é apenas a transição para a supressão de todas as classes e para a formação de uma sociedade sem classes”.

Esta explanação de Marx clarifica sua tríplice contribuição, onde destaca que a luta de classes é uma luta histórica e política, isto é, que corresponde ao desenvolvimento histórico das forças produtivas e essencialmente é uma luta antagônica pelo Poder estatal que conduz, e isto é fundamental, à ditadura do proletariado como transição a sociedade sem classes (e sem Estado).

Lenin, comentando esta síntese de Marx, diz: “O fundo da doutrina de Marx sobre o Estado só foi assimilado pelos que compreenderam que a ditadura de uma classe é necessária, não só a toda sociedade dividida em classes, em geral, não só ao proletariado vitorioso sobre a burguesia, mas ainda em todo o período histórico que separa o capitalismo da ‘sociedade sem classes’, do comunismo”. (V.I. Lenin – O Estado e a Revolução). Ou seja, segundo Lenin, “o fundo da doutrina de Marx sobre o Estado” é que a ditadura de classe é uma necessidade histórica: em “toda sociedade de classes”, para o “proletariado vitorioso sobre a burguesia” e “ainda em todo o período histórico que separa o capitalismo da ‘sociedade sem classes’, do comunismo”. Assim fica claro, que a teoria de que “todo Estado é uma ditadura de classe”, não é uma invenção do “terceiro período” da IC, mas de Marx, Engels e Lenin.

Esta tese foi fundamentada por Marx e Engels a partir do desenvolvimento do materialismo histórico e dialético. Frederich Engels defende: “O Estado não é, de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à sociedade. Não é, tampouco, ‘a realidade da Ideia moral’, ‘a imagem e a realidade da Razão’ como pretende Hegel. É um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da ‘ordem’. Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado”. (F. Engels – A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado). 



Vejamos a diferença entre esta citação e a afirmação do estudante do PCBrasileiro que diz: “A IC, influenciada por uma ‘versão’ positivista do marxismo, argumentava que todo estado é uma ditadura de classe e, na sociedade capitalista, todo estado é uma ditadura da burguesia, logo; não fazia diferença se tivéssemos um governo fascista ou socialdemocrata”. O sublinhado foi colocado por nós para destacar uma passagem “surpreendente” do texto. Ora, afirmar que “todo estado é uma ditadura de classe” e que “na sociedade capitalista, todo estado é uma ditadura da burguesia” seria uma “versão positivista” do marxismo? Vejamos o que diz Lenin em sua obra o Estado e a Revolução:

“Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, no próprio conflito dessas classes, resulta, em princípio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças a ele, se torna a classe politicamente dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada.”

A afirmação acima, caro historiador, não é positivismo, é marxismo. Você é quem parte de uma visão pós-moderna e revisionista do Estado burguês como uma “abstração”, uma “ontologia”. Protegido por seu reformismo não conhece a realidade “ôntica”, concreta, das baionetas e da opressão de classe. Numa sociedade capitalista, onde a burguesia é a classe economicamente dominante, a partir do Poder do Estado torna-se também a classe politicamente dominante.

O estudante do PCBrasileiro, em seu texto, assim prossegue o arrazoado revisionista: “O sistema político existente em uma formação social concreta não é, necessariamente, funcional à ordem do capital. (...) O fato de se afirmar que o ‘Estado é burguês’, não diz nada, por exemplo, sobre a forma do sistema de governo existente: se existe possibilidades institucionais de participação das massas populares como forma de barrar alguns ataques do capital ou até usar a institucionalidade como forma de iniciar uma ofensiva contra o capital; qual o nível de ‘liberdades democráticas’ existentes, como são usados os aparelhos coercitivos, etc.” Para completar ele argumenta: “Mas se compararmos o Brasil com o Chile ou a Coréia do Sul veremos que o sistema político do Brasil é bem mais ‘democrático’ que o desses países e que a tática dos comunistas, lhe dando com estruturas de poder ‘diferentes’, só podem ser diferente, adequada às condições concretas”. (Os sublinhados são nossos) Antes de falar das “táticas”, escutemos o que diz o marxismo sobre a contradição entre sistema de Estado e sistema de governo.

Numa palestra de Lenin, na Universidade Sverdlov em 1919, o grande marxista disse: “Todo Estado em que existe a propriedade privada da terra e dos meios de produção, em que domina o capital, por mais democrático que for, um Estado capitalista será sempre uma máquina nas mãos dos capitalistas para a sujeição da classe operária e dos camponeses pobres”, e assim conclui: “E o sufrágio universal, a Assembleia Constituinte ou o Parlamento são meramente formas, espécies de obrigação de pagamento que não mudam a essência do assunto”. (V.I. Lenin – O Estado) – (sublinhado nosso)

Vemos que Lenin fez uma clara distinção entre dois aspectos que conformam a realidade da dominação da burguesia sobre as classes exploradas. Por uma parte, a essência da questão é que o Estado é uma ditadura da burguesia que corresponde com a estrutura econômica capitalista, mas também, que esta ditadura toma variadas formas que podem se resumir em duas fundamentais: o fascismo aberto e o sistema demo-liberal, que não mudam a essência da dominação. Em síntese, o sistema de Estado, é o principal e essencial; o sistema de governo serve e dá forma ao primeiro. Identificar a diferença entre as formas de governo do regime militar fascista e do regime civil, que se seguiu no Brasil, não é uma tarefa difícil, pois estas são evidentes. O desafio para a ideologia científica do proletariado é identificar e revelar às massas a identidade do conteúdo nas duas formas de governo distintas, revelar o caráter de classes, o sistema de Estado que se manteve inalterado. Isto é, após a chamada “redemocratização”, o sistema de Estado brasileiro se manteve com a grande burguesia e o latifúndio, serviçais do imperialismo, principalmente ianque, como classes dominantes; e o proletariado, o campesinato, a pequena-burguesia e a burguesia nacional (média burguesia) como classes dominadas. Sobre a relação entre forma essência, Marx disse: “Toda ciência seria supérflua se a forma de manifestação (a aparência) e a essência das coisas coincidissem imediatamente” (K. Marx – O Capital).



Vejamos a precisão com que o Partido Comunista do Peru coloca esta questão: “Por sua vez, destaca a diferença entre o sistema de Estado e o sistema de governo, que são partes de uma unidade; sendo o primeiro o lugar que ocupam as classes dentro do Estado e o segundo a forma em que se organiza o Poder, como o ensina o Presidente Mao, destacando que o principal é definir o caráter de classe de um Estado já que as formas de governo que se introduza podem ser civil ou militar, com eleições ou não, demoliberal ou fascista, e sempre representarão a ditadura das classes reacionárias. Ao não se ver assim o velho Estado se cai no erro de identificar ditadura com regime militar e pensar que um governo civil não é ditadura, colocando-se a reboque de uma das frações da grande burguesia sob o conto de ‘defender a democracia’ ou ‘tomar cuidados com os golpes militares’, posições que no lugar de destruir o velho Estado o sustentam e o defendem.” (PCP – Linha Política Geral).

Em decorrência de uma visão incorreta sobre o Estado burguês, sobre sua essência e suas formas, decorrem inúmeras táticas oportunistas, dentre elas o reformismo e o eleitoralismo. Voltemos ao texto objeto de nossa crítica: “A luta de classe, às resistências, conquistas e perdas da classe trabalhadora perpassam todos os aparelhos de poder. Configuram e reconfiguram o Estado, o sistema político, a correlação de forças.” Desculpem-nos por citar novamente a passagem seguinte: “(...) usar a institucionalidade como forma de iniciar uma ofensiva contra o capital (...)”. Eis dois exemplos batidos da velha tática oportunista: “reconfigurar a correlação de forças no Estado” e “usar a institucionalidade para iniciar uma ofensiva contra o capital”. Insistimos, o Estado é uma máquina gestada, construída e desenvolvida segundo a natureza de uma classe e moldada à sua imagem e semelhança, que no caso das classes dominantes exploradoras, são para subjugar e oprimir as classes que explora, exercendo sua ditadura. Então, qual é a correlação de forças que existe dentro do Estado? Acaso ele está falando das diversas frações do partido único das classes dominantes que brigam pelo controle do Estado, mas se unem na sua defesa? O objetivo da luta de classe, das resistências, conquistas e perdas da classe trabalhadora devem estar em função de “perpassar” e aperfeiçoar o garrote do seu inimigo ou devem estar em função de lutar de forma antagônica contra ele para destruí-lo? Aqui está o abismo existente entre as táticas oportunistas e as táticas revolucionárias. Ou como disse Lenin, em o Estado e a Revolução:

“De um lado, os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena burguesia, obrigados, sob a pressão de fatos históricos incontestáveis, a reconhecer que o Estado não existe senão onde existem as contradições e a luta de classes, ‘corrigem’ Marx de maneira a fazê-lo dizer que o Estado é o órgão da conciliação das classes. Para Marx, o Estado não poderia surgir nem subsistir se a conciliação das classes fosse possível.”



Por fim a questão da farsa eleitoral. Pontuaremos apenas algumas questões, pois já temos um documento bastante detalhado sobre o tema: Eleição Não! Revolução Sim! Roteiro para a campanha de boicote à farsa das eleições, que pode ser encontrado na internet. Neste documento, publicado em 2010, afirmamos: “A participação ou não nas eleições burguesas não é uma questão de princípio para os comunistas. Esta deve ser tratada como um problema tático que deve ser enfocado segundo o desenvolvimento da luta de classes historicamente e na atualidade.”

Procurando fazer uma análise do desenvolvimento da tática dos comunistas, de acordo com as modificações históricas, dissemos:

“Breve histórico das formas de luta do proletariado

A história da luta de classes do proletariado e a atuação dos comunistas nela, passou por várias etapas. Nestas etapas se utilizou diferentes formas de luta de acordo com as circunstâncias. No caso das eleições e seu emprego na etapa de nascimento e formação do movimento comunista na Europa, permitiram efetivamente a ampla difusão das ideias de Marx e Engels. Foi tanto o crescimento da propaganda de ditas ideias no seio do movimento operário e revolucionário entre 1848 e 1895, que Marx e Engels foram advertindo, em vários momentos, alguns perigos que se apresentaram no movimento prático. Entre eles o de, ao utilizar as eleições no afã de alcançar uma maior influência entre as massas, terminar por adaptar ou rebaixar o conteúdo da organização revolucionária à legalidade.

Inclusive advertiram que as eleições só determinavam quem iria explorar e oprimir o povo por um determinado período de tempo, e de que era perigoso semear ilusões a respeito delas. A fins do século XIX o problema surge justamente que ao favorecer a amplitude da difusão do socialismo, como dizia Lenin, tendeu-se a diluir o conteúdo revolucionário do marxismo e isto abriu espaço à influência de correntes alheias as da classe. É por isso que o revolucionário russo denunciava já nesse momento os revisionistas (como Bernstein) por querer converter Marx em um “medíocre liberal”.

Com Lenin e a Revolução Russa, a participação nas eleições se conformou apenas em um apêndice para a luta. Há muito que se esquece o que ele indicara, de que em períodos de ascenso revolucionário das massas, as eleições, e as instituições derivadas delas, são mais um obstáculo à luta. Disto se depreende a tática do boicote formulada por ele, a dizer, impedir pela força a criação de ditas instituições, que por sua natureza de classe são essencialmente contrarrevolucionárias. Esquece-se também de mencionar que Lenin, já antes de 1914, validava a luta de guerrilhas e inclusive defendeu, como aplicável para a Rússia, aquilo que sentenciara Marx sobre a necessidade de que: “Na Alemanha tudo dependerá da possibilidade de apoiar a revolução proletária com uma espécie de segunda edição da guerra camponesa”. Não se pode negar que tanto Lenin como Marx e Engels não rechaçaram por inteiro nenhuma forma de luta, sempre e quando estivesse sujeita a uma análise materialista histórica das condições em que se deviam empregar. Igualmente sabiam que as eleições tinham um limite e que sua importância era relativa no marco da luta revolucionária de classes.

Marx por exemplo, em seu célebre apelo da Internacional de 09 de setembro de 1870, punha em guarda o proletariado francês contra uma insurreição prematura, mas quando, apesar de tudo, ela se produziu (1871), saudou com entusiasmo a iniciativa revolucionária das massas que “tomam o céu de assalto” (carta de Marx a Kugelmann).

Com a primeira guerra mundial o centro da revolução se trasladava à Rússia, rompendo-se em outubro de 1917 o elo mais débil da cadeia de dominação imperialista. Este transcendental acontecimento dá inicio, por uma parte, a uma nova era na história da humanidade, a da revolução proletária mundial, assim como por outra implica em um salto significativo no desenvolvimento do movimento comunista internacional. Deste fato se depreende que as eleições perderam sua vigência como tática revolucionária. Mas insistimos no fato de que para Marx e Lenin as eleições burguesas e a participação nelas jamais tiveram nenhum caráter estratégico, e eles sempre alertaram sobre os perigos de seu emprego.

A Revolução de outubro de 1917 terminou de varrer com a tática eleitoral, ao mesmo tempo em que colocou em discussão o papel estratégico da violência revolucionária para a conquista do poder e com ele, o estabelecimento da ditadura do proletariado. Na história universal este fato não é uma trivialidade e dele justamente se depreende a caducidade das eleições e do cretinismo parlamentar, questões que só fizeram se comprovar amplamente com a Guerra Popular e o triunfo da Revolução de Nova Democracia na China. Mas não somente ali, ao longo de grande parte do século XX e no transcurso do presente, em nenhum país as eleições, os parlamentos (constituintes ou não) e as distintas instituições burguesas criadas para todos esses efeitos, lograram o que as lutas armadas alcançaram na resistência ao nazi-fascismo na Europa. O mesmo com respeito às lutas armadas contra a ofensiva do imperialismo japonês na Ásia, ou também a luta anticolonial na África. A luta armada, seja na Coréia, no Vietnã ou na Argélia, foi determinante para a libertação destes povos. Na América Latina seus países só alcançaram sua emancipação do domínio colonial através da violência; tampouco se pode negar o impacto causado pela Revolução Cubana e mais ainda no presente, a Guerra Popular no Peru. Da mesma forma se verifica nos processos revolucionários da Índia, Turquia e Filipinas, bem como nas resistências armadas contra a ocupação imperialista no Iraque, Afeganistão, Irã e na heróica Palestina.

Todos estes fatos confirmam o papel estratégico da violência revolucionária e a invalidez da tática eleitoral. Grande parte destas heroicas lutas foram e estão sendo dirigidas por comunistas.”

Finalizando seu texto, o jovem militante do PCBrasileiro afirma: “Para concluir, cabe dizer o seguinte: o boicote eleitoral não é um princípio, mas um expediente tático. Deve ser usado de acordo com a conjuntura concreta.” Isto é fácil dizer, difícil é encontrar na história do PCBrasileiro algum exemplo de utilização, mesmo que tática, do boicote eleitoral. O eleitoralismo, o pacifismo e o reformismo constituem a base da estratégia desta agremiação. O PCBrasileiro foi fundado em 1960, a partir da usurpação da direção do PCB (Partido Comunista do Brasil) pela linha revisionista kruschovista de Luiz Carlos Prestes. O PCBrasileiro adota este nome para se adequar a legislação eleitoral vigente na época, que não permitia a existência de um partido que fosse a seção de uma organização internacional. Além disto, a direção revisionista do PCBrasileiro modificou os estatutos suprimindo a denominação “marxista-leninista” e retirando de seu programa a defesa da ditadura do proletariado. Tudo isto para se adequar a legislação burguesa e obter o que passou a ser sua maior bandeira imediata, a legalidade e não a tática revolucionária. O PCBrasileiro durante o regime militar não participou da resistência armada contra o regime militar pró-imperialismo ianque. Por isto, perdeu praticamente toda a sua base que de diferentes formas, com erros e acertos, enfrentaram o regime instituído. Esta resistência pacífica ao regime militar, no entanto, não assegurou a proteção de seus dirigentes e é claro que em seu direitismo sem limites sempre culpou por isto os revolucionários em armas. Pois para o imperialismo e para os fascistas, particularmente para seus “serviços de inteligência” mais refinados, que estudam a trajetória dos militantes comunistas quadro por quadro, sabem por experiência que determinados militantes só seguem uma linha reformista por adotarem uma disciplina cega, mas no momento de qualquer viragem à esquerda da linha estarão prontos para a revolução. E foi o que se passou com quadros comunistas como David Capristano, que apesar de estarem numa linha política incorreta foram presos e brutalmente torturados e assassinados pelos facínoras das forças armadas brasieliras.


Na década de 1980, Luiz Carlos Prestes rompe com o PCBrasileiro e de forma honrada faz a autocrítica de sua direção, assumindo a responsabilidade pelos desvios de direita na história do Partido. No entanto, não leva esta autocrítica à fundo, ao ponto de reconhecer os desvios ideológicos, o revisionismo, como causas dos desvios políticos, não consegue, assim, tirar as lições mais acertadas das experiências das revoluções proletárias e não alcançou fazer uma correta análise de classes de nossa sociedade. Morreu acreditando que a URSS ainda era um país socialista e defendendo a Perestroika de Gorbatchov. Por fim, uma grande parte do PCBrasileiro, chefiados pelo reacionário Roberto Freire, fundaram o PPS e aderiram abertamente ao discurso neo-liberal do PSDB. Os que seguiram no PCBrasileiro, não aprodundaram a autocrítica de Prestes, ao contrário, defendem o direitismo e o reformismo das práticas das ilusões constitucionais de 1946/47 e dos anos de 1960/70 como acertadas. A atual direção do PCBrasileiro, após a eleição de Lula em 2002, se esforçou muito para a fusão com o PCdoB, mas pela negativa deste, o projeto não foi adiante.

A estratégia eleitoral e não a tática eleitoral, esta é a política do PCBrasileiro. Foi baseada nesta estratégia que PT e PCdoB ascenderam ao aparato central do velho Estado. Estes dois “partidos operários burgueses”, utilizando a expressão de Lenin, na década de 1980 e 1990, tinham o mesmo discurso hoje repetido por PCBrasileiro, PSTU e PSOL, de que as eleições serviriam apenas como um acúmulo para um processo revolucionário. É a famosa “acumulação fria” dos construtores de socialismo no papel e calejados reformistas de fato. O parlamentarismo petista deu nisto aí que estamos vendo hoje, comparar isto com a tática bolchevique de participação no parlamento russo antes de 1917, isto sim é uma “bizarrice”. Pensemos nesta comparação feita por Lenin:

“Há parlamentarismo e parlamentarismo. Uns utilizam a arena parlamentar para agradar aos seus governos, ou, no melhor dos casos, para lavar as mãos como a fração de Tchkheídze. Os outros utilizam o parlamentarismo para se manterem revolucionários até ao fim, para cumprirem o seu dever de socialistas e de internacionalistas mesmo nas mais difíceis circunstâncias. A atividade parlamentar de uns leva-os às cadeiras governamentais, a atividade parlamentar dos outros leva-os à prisão, ao desterro, aos trabalhos forçados. Uns servem a burguesia, os outros servem o proletariado. Uns são sociais-imperialistas. Os outros são marxistas revolucionários.” (V. I. Lenin, O Socialismo e a guerra)

O parlamentarismo do PT, no máximo, levou alguns de seus deputados para o presídio da Papuda, não por serem internacionalistas, mas por cometerem os mesmos crimes de varejo, o peculato e a corrupção, das velhas oligarquias. Mas a extensa camada de dirigentes e burocratas petistas não têm a menor dúvida de que, para eles, tudo isto valeu a pena, afinal são muitos os “lugarzinhos rendosos”.

Conclusão

O presente texto é muito mais do que uma resposta. É um chamado. Sabemos que muitos militantes do PCBrasileiro, do PSTU e do PSOL, não concordam com suas direções nem com as posições criticadas acima. A estes fazemos um apelo: estudem a teoria revolucionária, o marxismo-leninismo-maoísmo, desçam diretamente nas fontes, não se detenham nas interpretações e deformações de nossa ideologia científica. Conclamamos, também às novas organizações surgidas a partir de junho a conhecer a teoria comunista e sua potência revolucionária. Convocamos as companheiras e companheiros que se identificam com o anarquismo a lerem as obras de Marx, Engels, Lenin, Stalin, Presidente Mao Tsetung e Presidente Gonzalo; aí está a teoria comunista e não nos discursos e práticas dos partidos oportunistas que só fazem desmoralizar a nossa história.

Os símbolos do comunismo, a foice e o martelo, a cada dia ressurgem estampados em escudos e alçados em estandartes dos manifestantes que, com seu rumor contagiante e sua fúria inconciliável, desafiam nas ruas o velho Estado burguês-latifundiário, opressor e genocida. É na linha de frente da juventude combatente, entre os professores que se insurgem contra a pelegada das centrais sindicais, entre os intelectuais honestos, na classe operária rebelada nas grandes obras, entre os camponeses pobres na luta radical pela revolução agrária, nas massas mais profundas do proletariado enfim, como bem dizia Lenin em seu “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, é aí onde estão os verdadeiros comunistas. Afinal, como disse o Presidente Mao: “Os comunistas são os heroicos combatentes.” Será, seguramente, em meio a estas batalhas, com idas e vindas, voltas e reviravoltas que o Partido Comunista do Brasil, P.C.B., fundado em 25 de março de 1922, com o nome de Partido Comunista Seção Brasileira da Internacional Comunista, finalmente, será reconstituído. Estamos vivendo a véspera de grandes enfrentamentos, sacudidas de uma luta prolongada que levará nosso povo a libertação. “O caminho é ziguezagueante, mas as perspectivas são brilhantes.”

Saudações a todos que lutam, mesmo com entendimentos diversos, pela derrubada violenta do Estado burguês e de toda a ordem social existente!

Abaixo o revisionismo e todo o oportunismo!
Viva o marxismo-leninismo-maoismo!
Viva a reconstituição do Partido Comunista do Brasil – P.C.B.!
Morte aos fascistas!
Eleição não! Revolução sim!

Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo – Núcleo Recife