sexta-feira, 27 de março de 2015

A Nação contra o Partido: Manifestações de 13 e 15


O grande assunto são as manifestações do dia 13 e 15 de março passados, entre muita gente que acompanha política. Não sou nem 13 e nem 15, sou pelo voto nulo. Estou pela organização de movimentos que não se organizem para eleições: Organização dos Guardas Vermelhos, MEPR, Movimento Passe Livre, Liga Operária e Camponesa, os anarquistas organizados na FIP. 

A principal estratégia da oposição é se esconder atrás do nacionalismo conservador, da bandeira verde e amarela, camisa da CBF, etc. Eles opõem nação x partido, num discurso que tem conseguido muito audiência. No jornal Cidade´s (março de 2015), aqui de Bom Despacho, traz a seguinte reflexão, de autoria de Renato Fragoso, reflexão pretensamente filosófica que ilustra muito bem o ponto de vista da oposição conservadora e seu discurso sutil, velado:


Segundo o filósofo alemão Immanuel Kant, o princípio supremo da moralidade reside na universalização de nossos atos, ou seja, quando agimos com base no interesse coletivo em detrimento  dos interesses individuais. O ato de votar, por exemplo, é um ato moral. No entanto, ele perde o caráter supremo da moralidade quando se vota por interesse pessoal ou em troca de algum benefício. É imoral, segundo Kant, colocar nossas necessidades e interesses acima das necessidades e desejos dos outros (...) (FRAGOSO, 2015).


Esclarecendo: o que Kant quis dizer é que devemos agir como se nossos atos pudessem ter valor universal. Sendo assim: se eu não quero ser criticado por Renato Fragoso, que eu não o critique publicamente. Num país onde existe pobre, onde existem miseráveis, eles não serão compelidos a vender o voto para comer? Evidentemente que esse "voto moral" de Fragoso é uma farsa, assim como o processo eleitoral como um todo num país onde ainda é forte a herança da colonização, onde campeiam o latifúndio e outras mazelas. A seguir, vem o discurso onde ele expõe que é a favor da oposição de direita, opondo nação versus partido, afinal, é um editorial:


O veto moral é o voto independente e sob a égide dos interesses coletivos. Logo, devem ser buscados novos caminhos para unir o Brasil em torno de programas que atendam as reais necessidades da nação, e não os interesses de um partido, qualquer que seja ele, ou de políticos espúrios. Para quem votou em um outro candidato com base em interesses pessoais, votou de forma imoral".

O discurso vazio e "universal" de Fragoso não é mais do que a moralista e arrogante universalização do particular, apenas um sofístico disfarce do discurso do PSDB e da extrema-direita em geral, inclusive no dia 15 emporcalhando-se entre os energúmenos que pregam o nojento discurso do golpe militar. 

O golpe militar: 1) abre espaço para a resistência armada a ele, sem que nem as feridas do golpe de 64 tenham sido curadas; 2) a mera invocação do exército brasileiro não significa vitória e não quer dizer que ele não possa ser batido pelo povo. Canudos é um exemplo das enormes perdas, derrotas e dificuldades que o exército brasileiro teve ao enfrentar os pobres organizados, dotados de líderes e com fortes motivações.

Se levarmos em conta que na última eleição esse voto "moral" não existiu, praticamente, pois Dilma e Aécio estavam envolvidos em escândalos de corrupção e mesmo a morte de Eduardo Campos também levantou suspeitas a respeito da corrupção na campanha de Marina, assim como a crise mundial implica em que o novo governo implante um arrocho, verifica-se que esse julgamento que Fragoso faz, rotulando o voto dos outros --os petistas, pois levam o partido em conta --é totalmente fútil, oco, vazio. Baseia-se, na verdade, na posição reacionária do próprio Renato Fragoso ao lado da oposição de direita. O editor de Cidade´s já fez isso antes, buscando "endireitar" os jovens nas manifestações de junho em Bom Despacho. O nosso kantiano chegou a lançar Joaquim Barbosa presidente, indo na esteira da imprensa dos monopólios que manda em nosso país! Assim se vê como o fôlego dessa extrema-direita que se esconde atrás da bandeira nacional, enrolando-se de saída no escudo da megacorrupta CBF, é curto.
















segunda-feira, 23 de março de 2015

O PCI aos Jovens (Um poema de Pasolini)

*trechos da histórica poesia que Pier Paolo Pasolini publicou na revista L’Espresso - Itália, junho de 1968 - em razão de uma manifestação estudantil em Roma).
Sinto muito. A polêmica contra
o PCI tinha que ser feita na primeira metade
da década passada. Vocês meus filhos, estão atrasados.
E não importa que vocês não tivessem ainda nascido...
Agora os jornalistas do mundo inteiro (inclusive os da televisão)
ficam puxando (como acho que ainda se diz na linguagem das universidades)
o saco de vocês. Eu não, meus amigos.
Vocês têm cara de filhos de papai.
Odeio vocês como odeio seus pais.
Filho de peixinho, peixinho é.
Vocês têm o mesmo olhar maligno.
São medrosos, inseguros, desesperados
(ótimo!), mas também sabem como ser
prepotentes, chantagistas, convencidos, descarados:
prerrogativas pequeno-burguesas, meus amigos.
Ontem no Valle Giulia, quando vocês brigavam
com os policiais,
eu simpatizava com os policiais!
Porque os policiais são filhos de gente pobre.
Vêm das periferias, rurais ou urbanas que sejam.
Quanto a mim, conheço muito bem
seu jeito de terem sido crianças e rapazes,
as preciosas mil liras, o pai que também continuou sendo um rapaz,
por causa da miséria, que não confere autoridade.
A mãe calejada como um carregador, ou delicada,
devido a alguma doença, como um passarinho;
os irmãos todos;
(...)
E depois vejam como os vestem: como palhaços,
com aquele pano grosseiro que fede a rancho,
caserna e povo. O pior de tudo, naturalmente,
é o estado psicológico a que são reduzidos
(por umas quarenta mil liras ao mês):
nem um sorriso mais,
nem amizade alguma com o mundo,
separados,
excluídos (numa exclusão que não tem igual);
humilhados pela perda da qualidade de homens
em troca da de policiais (ser odiado faz odiar).
Têm vinte anos, a idade de vocês, meus caros e minhas caras.
Estamos obviamente de acordo contra a instituição da polícia.
Mas voltem-se contra a Magistratura, e vocês vão ver!
Os jovens policiais
que vocês por puro vandalismo (de nobre tradição
herdada do Risorgimento) de filhos de papai, espancaram
pertencem a outra classe social.
No Valle Giulia, ontem, tivemos assim um fragmento
de luta de classes: e vocês, meus amigos (embora do lado da razão)
eram os ricos, enquanto os policiais (que estavam do lado errado)
eram os pobres.
Bela vitória, portanto, a de vocês! Nestes casos,
aos policiais se dão flores, meus amigos.
Popolo e Corriere della Sera, Newsweek e Monde
Puxam o saco de vocês. 
Vocês são os filhos deles,
a sua esperança, o seu futuro...
(...)
É isso, caros filhos, que vocês sabem.
E que aplicam através de dois sentimentos irrevogáveis:
a consciência dos seus direitos (como se sabe a democracia
só leva em conta vocês) e a aspiração
ao poder.
Sim, as suas palavras de ordem versam sempre
sobre a tomada do poder.
(...)
Vocês ocupam as universidades,
mas suponham que a mesma idéia ocorra
a jovens operários.
Nesse caso,
o Corriere delle Sera e Popolo, Newsweek e Monde
procurariam com a mesma solicitude
compreender os problemas deles?
A polícia se limitaria a levar umas pancadas
dentro de uma fábrica ocupada?
Trata-se de uma observação banal;
e constrangedora. Mas sobretudo inútil:
porque vocês são burgueses
e portanto anticomunistas...
(...)
Falando assim,
vocês pedem tudo com palavras,
ao passo que com os atos, vocês pedem só aquilo
a que têm direito (como bons filhos da burguesia que são):
uma série de reformas inadiáveis
a aplicação de novos métodos pedagógicos
e a renovação de um organismo estatal.
Bravo! que nobres sentimentos!
Que a boa estrela da burguesia proteja vocês!
(...)

domingo, 22 de março de 2015

Marxiano, Marxólogo, Marxista: Paulo Freire não é marxista!


1) O marxista seria o marxista-leninista, o "ortodoxo". Seria o que acredita no projeto político, participa de algum partido ao estilo marxista-leninista, o marxista "gnoseológico". Um exemplo: Althusser, que foi do PCF até o fim da vida e dialogou sempre com Stálin e Mao (e nunca com Gramsci e Trotsky). Atualmente, eu considero que não se pode ser marxista fora do maoísmo, pois o maoísmo tem as melhores hipóteses para explicar os fenômenos. Isso é importante, pois o marxismo é ciência.
2)O marxiano seria a vertente lukacsiana, originalmente, de onde suponho ter surgido o termo. Os frankfurtianos seriam marxianos, ou seja, estudiosos de Marx, mas que não são "ortodoxos", ou seja, não participam de partidos, recusam Stálin, Mao, Hoxha, etc. Em geral, formam patotinhas na universidade: na UFMG é em torno de Ester Vaismann, na UNICAMP é Ricardo Antunes e Berriel, na USP é Safatle e outros. Um exemplo seria o centro de difusão do comunismo da UFOP. Um outro bom exemplo de marxiano: José Paulo Netto, professor da UFRJ. Esse tipo vive propondo o "retorno a Marx" (na verdade, transferem culto da personalidade kruschevista para o culto a Marx, cortando Engels). E Paulo Freire, seria marxista? Não. Paulo Freire é social-democrata, é humanista ao estilo da Teologia da Libertação que bebe no marxismo-leninismo, pegando alguns elementos. Há doutrinação marxista na escola hoje? NÃO! Até porque Paulo Freire não é marxista. Ele errou ao se associar ao PT, infelizmente.
3)O marxólogo. Seria o inimigo que expõe o pensamento de Marx de forma relativamente honesta. Fala sobre Marx e expõe seu pensamento, mas logo em seguida movimenta-se contra ele, por vezes de forma subterrânea. Hoje em dia escasseia ou está quase extinto. Exemplos: José Arthur Gianotti, da USP (FHC e seu grupo do Seminário de O Capital também são bom exemplo), Raymond Aron e, se não me engano, padre Maritain.

domingo, 15 de março de 2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Do Retábulo de Jerônimo Bosch: Raul, Coelho e São João da Cruz

exta-feira, 3 de fevereiro de 2012



Quando ouvi a música Água viva (Raul Seixas e Paulo Coelho), algo me disse: conheço bem a fonte. A fonte, que é vinho, conforme observou um amigo crítico; vinho, transformado em sangria. Porque a fonte é um poema de San Juan de la Cruz, o Cantar da alma que se alegra em conhecer Deus pela fé. A fonte que mana e corre foi cantada pelas crianças da Funase, no auditório da Compesa. Qual delas um dia irá saborear a poesia do grande místico espanhol, despida de ‘adaptações’, na pureza de olho d’água da serra ou do vinho que também umedeceu a boca de Hafiz?

Água Viva
 Raul Seixas

Eu conheço bem a fonte
Que desce aquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida

O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Êta" fonte mais estranha,
que desce pela montanha
Ainda que seja de noite.

Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite

Sei que são caudalosas as correntes
Que regam os céus, infernos
Regam gentes
Ainda que seja de noite

Aqui se está chamando as criaturas
Que desta água se fartam mesmo
às escuras
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite...

Eu conheço bem a fonte
Que desce daquele monte
Ainda que seja de noite
Porque ainda é de noite!
No dia claro dessa noite!
Porque ainda é de noite
***
Cantar del alma que se huelga 
de conocer a Dios por fe

San Juan de la Cruz

Qué bien sé yo la fonte que mane y corre,
aunque es de noche.

1. Aquella eterna fonte está escondida,
que bien sé yo do tiene su manida,
aunque es de noche.

2. Su origen no lo sé, pues no le tiene,
mas sé que todo origen de ella tiene,
aunque es de noche.

3. Sé que no puede ser cosa tan bella,
y que cielos y tierra beben de ella,
aunque es de noche.

4. Bien sé que suelo en ella no se halla,
y que ninguno puede vadealla,
aunque es de noche.

5. Su claridad nunca es oscurecida,
y sé que toda luz de ella es venida,
aunque es de noche.

6. Sé ser tan caudalosos sus corrientes.
que infiernos, cielos riegan y las gentes,
aunque es de noche.

7. El corriente que nace de esta fuente
bien sé que es tan capaz y omnipotente,
aunque es de noche.

8. El corriente que de estas dos procede
sé que ninguna de ellas le precede,
aunque es de noche.

9. Aquesta eterna fonte está escondida
en este vivo pan por darnos vida,
aunque es de noche.

10. Aquí se está llamando a las criaturas,
y de esta agua se hartan, aunque a oscuras
porque es de noche.

11. Aquesta viva fuente que deseo,
en este pan de vida yo la veo,
aunque es de noche.

Um comentário:

Bhagavad Gita


Os três principais livros sagrados da Humanidade são : a Bíblia, com cerca de mil anos de tradição da História do Cristianismo. Depois temos o Tao-Te-King (Lao-Tse) da China, datado aproximadamente de 600 anos antes de Cristo. E finalmente o Bragavad-Gita, datado de aproximadamente 6 mil anos antes de Cristo e com o maior número de fiéis na face do Planeta. O Bragavad-Gita faz parte do Mahabarata. E foi no Bragavad-Gita que Raul Seixas e Paulo Coelho se inspiraram para compor a música Gita.

Segunda a tradição, o Senhor Krishna inicialmente o Bragavad-Gita ao deus Sol algumas centenas de milhões de anos atrás. Essa tradição foi sendo passada de iniciado para iniciado através dos séculos, mas acabou se perdendo. Finalmente o Senhor Krishna teve que retransmitir a mensagem ao guerreiro Arjuna, no campo de batalha de Kuruksetra. Arjuna estava muito angustiado porque teria que combater contra seus próprios irmãos, sua própria família. E nesse desespero pergunta ao Senhor Krishna quem era afinal o próprio Senhor Krishna, que o tinha colocado numa situação daquelas.

E o senhor Krishna responde. Evidentemente a resposta é extremamente extensa. O livro todo conta a história desse diálogo entre o Senhor Krishna e o guerreiro Arjuna. Raul Seixas e Paulo Coelho representam a resposta do Senhor Krishna a Arjuna assim:

.............I
Às vezes você me pergunta
Por que eu sou tão calado.
Não falo de amor quase nada
E não fico sorrindo ao teu lado.
Você pensa em mim toda hora
Me come , me cospe , de deixa.
Talvez Você Não Entenda,
Mas hoje eu vo lhe mostrar:

.............II
Eu sou a Luz das Estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O Blefe do jogador
Etc...

É interessante observar que na cultura oriental a Divindade é composta da União entre o Bem e o Mal. Bem diferente é da nossa cultura, que busca eliminar o Mal , o lado negativo da vida. Deus para os Orientais não é somente composto das coisas boas. Mas também do medo , da cegueira da visão, da miséria, da dor , do sofrimento, etc. No final da música O Trem das 7, nós temos novamente essa belíssima imagem da Unidade da Divindade, quando Raul diz: Ói, olha o céu, já nao é o mesmo céu que você conheceu , não é mais. Vê , ói que céu , é um céu carregado e rajado, suspenso no ar... Ói, olha o Mal, vem de Braços e Abraços com o Bem num Romance Astral. Em todos os sentidos, Raul Seixas propôs uma Nova Cultura. Que ele chamou Sociedade Alternativa. Mas , vejamos o texto original de Bragavad-Gita:

Eis o trecho do célebre livro que narra o diálogo entre o príncipe-guerreiro Arjuna e o Senhor Krishna, acontecido no campo de batalha de Kuruksetra, na Índia, há mais de 3 Mil anos:

Disse Arjuna: Você é o Brahman Supremo, o último, a suprema morada e o supremo purificador; a Verdade Absuluta e a pessoa divina eterna. Você é o Deus primordial, transcendental e original, e Você é a beleza não nascida e todo-penetrante. Todos os grandes sábios como Nãrada, Asita, Devala e Vyãsa proclamam isto de Você, e agora Você Mesmo me declara isto.

(Cap.10 - texto 16): Por favor, fale-me detalhadamente dos Seus poderes divinos pelos quais Você penetra todos estes mundos e mora neles.

(Texto 17): Como devo meditar em Você? Em que diversas formas Você deve ser contemplado, ó Bem-Aventurado Senhor?

(Texto 18): Fale-me outra vez detalhadamente, ó , Janãrdana (Krishna) de Suas poderosas potências e glórias, pois nunca me canso de ouvir Suas palavras ambrosíacas.

Responde Krishna:

(Texto 19): O Bem-Aventurado Senhor Disse: Sim , Eu lhe falarei de Minha manifestações esplendorosas, mas somente das que são proeminentes , ó Arjuna, pois Minha opulência é ilimtada.

Dos ádityas Eu sou Visnu, das luzes eu sou o Sol radiante , dos Marutas Eu sou Marici, e entre as estrelas eu sou a lua.

Dos Vedas Eu sou o Sãma-Veda; dos semideuses eu sou Indra; dos sentidos Eu sou a mente e nos seres vivos eu sou a força viva (conhecimento).

De todos os Rudras Eu sou o senhor Siva; dos Yaksas e Rãksasas Eu sou o senhor das riquesas (Kuvera) ; dos Vasus Eu sou o fogo (Agni) , e das montanhas Eu sou o Meru.

Ó Arjuna, dos sacerdotes saida que Eu sou o principal, Brhaspati, o senhor da devoção. Dos generais Eu sou Shanda , o senhor da Guerra; e dos copos d`água Eu sou o oceano.

Dos grandes sábios Eu sou Bhrgu; das vibrações Eu sou o om transcendental. Dos sacrifícios Eu sou o cantar dos santos nomes (Japa), e das coisas imóveis Eu sou os Himalaias.

De todas as árvores, Eu sou a figueira sagrada , e entre os sábios e semideuses Eu sou Nãrada. Dos cantores dos deuses (Gandharvas) Eu sou Cytraratha, e entre os seres perfeitos Eu sou o sábio Kapila.

Saiba que dos calavos Eu sou Uccaihsravã, que surgiu dos oceanos, nascido do elixir da imortalidade; dos elefantes senhoriais Eu sou Airãvata, e entre os homens Eu sou o monarca.

Das armas Eu sou o raio; entre as vacas Eu sou a surabhi, que dá leite em abundância. Dos procriadores Eu sou Kandarpa, o deus do amor , e das serpentes Eu sou Vãsuki, a principal.

Das cobras celestiais Nãga, Eu sou Ananta; das deidades aquáticas Eu sou Varuna. Dos ancestrais falecidos eu sou Aryamã, e entre os dispensadores da lei Eu sou Yama, o senhor da morte.

Entre os demônios Daitya Eu sou o devoto Prahlãda; entre os subjugadores Eu sou o tempo; entre os animais selvagens , Eu sou o Leão, e entre as aves Eu sou garuda, carregador emplumado de Visnu.

Dos purificadores Eu sou o vento; dos manejadores de armas Eu sou Rãma; dos peixes Eu sou o tubarão, e dos rios que fluem Eu sou o Ganges.

De todas as criações Eu sou o começo e o fim e também o meio, ó Arjuna.

De todas as ciências Eu sou a ciência espiritual do Eu, e entre os lógicos Eu sou a verdade conclusiva.

Das letras Eu sou a letra A, e entre os compostos Eu sou a palavra dual. Eu sou também o tempo inesgotável, e dos criadores Eu sou Brahman, cujos muitos rostos viram-se para todos os lados.

Eu sou a morte que tu devora , e Eu sou o gerador de todas as coisas ainda por existir. Eu sou as mulheres, Eu sou a forma, a fortuna, a fala, a memória, a inteligência, a fidelidade e a paciência.

Dos hinos Eu sou o Brhat-sãma cantado para o Senhor Indra , e da poesia Eu sou o verso Gãyatri, cantado diariamente pelos brãhmanas. Dos meses Eu sou novembro e desembro, e das estações eu sou a primavera florida.

Eu sou também o jogo de azar dos enganadores, e do esplêndido Eu sou o esplendor. Eu sou a vitória. Eu sou a aventura e Eu sou a força dos fortes.

Dos descendentes de Vrsni Eu sou Vãsudeva, e dos Pãndavas eu sou Arjuna. Dos sábios Eu sou Vyãsa,e entre os grandes pensadores Eu sou Usanã.

Entre as punições, Eu sou o açoite do castigo , e dentre aqueles que buscam a vitória, eu sou a moralidade. Das coisas secretas eu sou o silêncio, e dos sábios Eu sou a sabedoria.

Além disso, ó Arjuna, Eu sou a semente geradora de todas as exitências. Não há um ser - móvel ou imóvel - que possa existir sem mim.

Ó poderoso conquistador dos inimigos, não há fim para Minha manifestações divinas. O que Eu falei para você é apenas um pequeno indício de Minhas opulências infinitas.

Saiba que todas as criações belas , gloriosas e esplendosas brotam tão somente de uma centelha do Meu esplendor.

Mas qual é a necessidade , Arjuna , de todo este conhecimento detalhado? Com só um fragmento Meu Eu penetro e suporto este universo inteiro.

(Assim terminam os Significados de Bhaktivedanta correspondentes ao Décimo capítulo do Srimad-Bhagavad-Gita sobre o tema: A Opulência do Absoluto. No Capítulo décimo primeiro , Arjuna inicia dizendo:)

(Cap.11 - Texto 1): Eu ouvi Suas instruções sobre os temas espirituais confidenciais que você tao bondosamente me transmitiu, e agora minha ilusão se dissipou.
Conexão do texto com a letra de Raul e Paulo Coelho:

1) O texto acima foi retirado do livro O Bhagavad-Gita Como Ele É de autoria de Sua Dinina Graça A.C.Bhaktivedanta Suami Prabhupada (Livro que contém o texto original em sânscrito, a transliteração latina, os equivalentes em português, aqui apresentados, a tradução e significados elaborados).

2) A Música Gita foi lançado no LP de mesmo nome em 1974. Raul Seixas relançou a mesma música em inglês 14 anos depois. Chamou-a I Am (Eu Sou) e acrescentou alguns versos significativos como Eu sou a Lei de Thelema e Eu sou o poder da Vontade do Livro da Lei de Crowley. Assim , mais uma vez ele juntou o antiquíssimo Bhagavad-Gita ao contemporâneo Livro da Lei.

3) Certa vez ouvimos um psicólogo dizer que Raul Seixas tinha pirado por causa dos vários aspectos patológicos de sua personalidades, inclusive uma exacerbada megalomania. Essa megalomania estaria muito evidente no quarto Raul utiliza a primeira pessoa em Suas músicas ( Eu sou isso, Eu sou Aquilo, Eu sou Eu, etc... , inclusive a própria música Gita ele chamo I Am - Eu sou em inglês).

Gostaríamos de esclarecer que o psicólogo está enganado. Realmente, se nós verificarmos só os títulos das músicas de Raul, poderemos encontrar Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, Eu Quero Mesmo, Eu sou Egoísta , Eu Também Vou Reclamar , Eu vou Botar Pra Ferver, etc... Mas , segundo declarações do próprio Raul, ele utilizava essa forma para que as pessoa Que Cantam As Músicas falassem na primeira pessoa.

Numa cultura como a nossa que busca massacrar a individualidade em favor da massa , do rebanho, é muito mais importante que a pessoa aprenda a dizer Eu sou Eu, Eu Faço , Eu sou Capaz. Principalmente cantando , que é uma forma de se tornar feliz, de buscar a felicidade e auto-realização, auto-afirmação. Esta foi a intenção de Raul Seixas, que antes de tudo era um artista-filósofo.

Krig-Ha Bandolo! - http://jayvaquer.rockin.net/raul/ - Todos os Direitos Reservados®

segunda-feira, 2 de março de 2015

Progressismo na Música: Brado Comunista sobre Marighella

Progressismo na música: duas (semi)homenagens a Marighlella


Marighella: entre a difamação e a glória deturpada


Quando a hegemania cultural é da reação, como hoje em dia, é comum a esquerda ficar alegre, muitas vezes de maneira totalmente acrítica, com qualquer furo nesse acachapante cenário. Fica alegre e reivindica para si, sem nenhuma ponderação qualquer heróico esforço de se contrapor ao status vigente. Muitos riscos moram por aí.

Nessa virada de ano vivenciamos na mídia e na vida cultural do país um retorno do rosto mais odiado da ditadura: o de Marighella. Não é por menos, final de 2011 representou o centenário do internacionalmente conhecido comunista brasileiro. Foi lançado um filme Isa Grinspum Ferraz [1], sobrinha do revolucionário, narrado pelo grande ator Lázaro Ramos; um livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães [2]; uma música/clipe dos Racionais MC's, Mil faces de um homem leal, presente no filme de Isa [3] e que marca o retorno à ativa do maior grupo de rap da história do país; e uma música, mais recente, do dúbio artista Caetano Veloso, Um comunista, que integra seu mais recente álbum "Abraçaço" [4]. Além de outras atividades culturais e políticas de menor impacto na "opinião pública".

Quem foi Marighella, a quem interssa sua "fama"?

A mobilização popular no período de "redemocratização" do país obrigou constar na história oficial a heróica batalha de lutadores que pegaram em armas para defender seu país. Dentre eles Marighella. Mesmo que esse processo ainda não tenha, nem de longe se completado, só ver a fachada da Comissão de Verdade e Justiça tutelada pelo governo federal [5], ou tenha sido menor e menos expressivo, se comparado a outros países da America Latina que sofreram com as ditaduras fantoches do capital estrangeiro, o fato é que conseguiu-se minar, pelo menos para o povo, a legitimidade do terrorismo de estado daquela época.

O monopólio midiático, as forças armadas e diversos outros setores e aparelhos de Estado e das classes dominantes, obviamente, tentam constantemente difamar essa memória, apagar a verdade ou "relativizá-la" desse período histórico de intensa luta de classes em nosso país e no mundo. Um exemplo é o discurso liberal "anti-totalitarismo" que tenta igualar, de maneira ridícula, a violência dos "terroristas de esquerda" com o terror estatal-militar. Esquecem de ver, por exemplo, a maneira como era tratados os prisioneiros de guerra dos dois lados para ver o quão "igual" foi! 

Essa ameaça de difamação é constante, e tem ganhado, infelizmente, força nos últimos anos, junto com a reorganização do setor conservador.

Isso mostra que a luta pela memória é uma disputa contínua, uma das facetas da luta de classes. Por isso é importante defender nossos lutadores de toda e qualquer falácia ou ataque. Independente do viés ideológico e da luta política devemos lembrar que nossos mortos são nossos mortos.

Porém o inimigo também pode fazer seu serviço de maneira indireta, não explicitamente. Essa é a forma mais perigosa de ataque e que mais arrasta incautos.

Marighella, de fato, foi o "inimigo nº 1 da ditadura". Um militante revolucionário extraordinário, experiente, que estava disposto, como mostrou na prática, de dar sua vida pela causa do povo brasileiro e da revolução. Mas será que sua fama, mostrado como paradigma de luta contra a ditadura, de alguma forma indireta, favorece o inimigo?

Como se sabe, Marighella e sua organização ALN, foram fortemente influenciadas pelo foquismo, retirando de maneira errônea lição da experiência cubana e sua importação mecânica. Sua saída do imobilismo do velho PC foi em direção a uma linha política extremamente militarismo, de menosprezo da teoria, da política e das massas. A ALN era uma organização de ação, visava a guerrilha urbana como soma de forças para uma guerrilha rural. As armas controlava a política, e não a política as armas. Um erro fatal.

A falência dessa linha para o proletariado e as classes trabalhadoras ficou clara em nosso país. A repressão cirúrgica do regime extirpou durante anos do país organizações revolucionárias. Eliminou-se os quadros revolucionários, eliminou-se tudo. Isso podemos incluir até mesmo uma experiência que tentou escapar do foquismo, a guerrilha do araguaia, como ficou conhecida, liderada pela reconstrução do PC no nosso país.

"Se for para fortalecer uma linha política revolucionária, que seja a errada, mais confusão e esforços inúteis serão espalhados", "pensa" o inimigo (ou pelo menos, é a lógica de seu ataque ideológico). Por isso, de certa forma, a imagem personalista de Marighella e de sua linha política incorreta são um deserviço ao verdadeiro balanço que os revolucionários devem fazer de sua luta histórica e nacional. Isso, fique claro, de forma alguma retira a importância de Marighella, sua luta, sua organização. Como dito, estão do nosso lado, e devemos defendê-la. Porém, também não podemos dispensar a auto-crítica e cair na armadilha ingênua da reação fantasiada. Junto com nossa defesa, devemos levantar nossa crítica e outras organizações "apagadas" (intencionalmente) da fama, que aplicaram políticas mais justas, e tentaram superar o foquismo, o imobilismo de direita e o sindicalismo trotskista. De toda a derrota sofrida na ditadura o que mais devemos aprender é: sem partido e sem teoria revolucioária, a classe, mesmo com quadros armados naquele momento, está desarmada e não conseguirá realizar sua tarefa histórica.

Duas (semi)homenagens a Marighella: um desvio lumpen, um desvio pequeno burguês, ou duas faces da mesma moeda

Se vimos que nem toda reivindicação faz um serviço à nossa memória e à causa, que essa pode servir sim a um deserviço, vamos a dois exemplos práticos, sobre a imagem de Marighella: a música/clipe dos Racionais e a música de Caetano.

Como dito no início do texto, a esquerda cai nos cavalos de tróia do inimigo muitas vezes, pois acata acriticamente o que lhe vem aparentemente como progressista. E realmente caiu nesse caso. Apresentaremos uma breve análise crítica para evidenciar essa afirmação.

Música/Clipe da música dos Racionais:

Letra de Mil faces de um homem leal

A postos para o seu general, Mil faces de um homem leal (2x)/  Protetor das multidões/ Encarnações de célebres malandros/ De cérebros brilhantes/ Reuniram-se no cé/u O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer/ Tô somado, é o que é, assim foi escrito/ Mártir, Mito ou Maldito sonhador/Bandido da minha cor/ Um novo messias/ Se o povo domina ou não/ Se poucos sabiam ler/ E eu morrer em vão/ Leso e louco sem saber/ Coisas do Brasil, super-herói, mulato/ Defensor dos fracosassaltante nato(!)/ Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis/ Tramam 30 fariseus contra Moisés, morô/ Reaja ao revés, seja alvo de inveja Irmão,/ esquina de velas pra cima de um rebelde/ Que ousou lutar, honrou a raça/ Honrou a causa que adotou,/ Aplauso é pra poucos/ Revolução no Brasil tem um nome/ Vejam o homem/ Sei que esse era um homem também/ A imagem e o gesto/ Lutar por amor/ Indigesto como o sequestro do embaixador / O resto é flor, se tem festa eu vou/ Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show/ Presta atenção que o sucesso em excesso é cão/ Que se habilita a lutar, fome grita horrível/ A todo ouvido sensível que evita escutar/ Acredita lutar, quanto custa ligar? /Cidade chama vida que esvai/ Clama por socorro, quem ouvirá? /Crianças, velhos e cachorros sem temor /Clara meu eterno amor, sara minhas dores /Pra não dizer que eu não falei das flores / Da Bahia de São Salvador Brasil /Capoeira mata um mata mil, porque /Me fez hábil como um cão /Sábio como um monge/ Antirreflexo de longe/ Homem complexo sim /Confesso que queria /Ver Davi matar Golias /Nos trevos e cancelas /Becos e vielas /Guetos e favelas/ Quero ver você trocar de igual/ Subir os degraus, precipício /Ê vida difícil, ô povo feliz / Quem samba fica, /Quem não samba, camba /Chegou, salve geral da mansão dos bamba /Não se faz revolução sem um fuga na mão /Sem justiça não há paz, é escravidão/ Revolução no Brasil tem um nome/ A postos para o seu general/ Mil faces de um homem leal (2x)  Marighella / Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer /Por mim, por você, por ter coragem em dizer.*

*Em negrito queremos destacar certas aproximações do ideário lumpen. Já o sublinhado quer demonstrar os desvios personalistas.

Percebemos que a música, de sagazes melodia e letra, é uma homenagem a um homem corajoso que ousou lutar contra as injustiças do país e o regime que as sustentava. Tenta mostrar que esse homem brotou da cultura brasileira, era também um homem comum, dividia uma vida em comum. Sua defesa é a defesa de nossa honra.

As imagens que usa diversas vezes são oriundas de um certo misticismo/teologismo (vide as comparações com figuras bíblicas) e também da vida marginalizada do país (chega chamar Marighella de "malandro", assautante nato!). O clipe também faz referências sobretudo ao segundo aspecto. Há cenas que os membros do grupo estão em vielas escuras de favelas, portando armas, em supostas "ações revolucionárias". Eis um duplo desvio ideológico: o personalismo, que desliga Marughella das massas, de sua organização, de seu período histórico, para virar um homem que "faz história" com as próprias mãos, um super-homem; outro, a estetização da pobreza, claramente pequeno-burguês, de identificar na pobreza, na miséria, a força contra o sistema. Para o velho Marx, os Racionais ainda acreditam que são os lázaros do proletariado que são a tropa de choque da revolução, e não elementos de forte propensão reacionária.

Muita confusão para uma criativa homenagem. Mas o deserviço está feito: aqueles conservadores que comparam as expropriações de grupos revolucionários a meros assaltos, a luta política com o crime (e o contrário da mesma moeda, aqueles que acham que o crime é uma "resistência política"), agradecem; aqueles que tentam mostrar que a revolução é um golpe dado por intelectuais e grandes homens que enganam uma população ignorante, também.


Música de Cateano Veloso (e banda Cê):

Letra de Um comunista

Um mulato baiano,/ Muito alto e mulato/ Filho de um italiano/ E de uma preta hauçá/  Foi aprendendo a ler /Olhando mundo à volta /E prestando atenção /No que não estava a vista /Assim nasce um comunista / Um mulato baiano /Que morreu em São Paulo/ Baleado por homens do poder militar/ Nas feições que ganhou em solo americano /A dita guerra fria /Roma, França e Bahia / Os comunistas guardavam sonhos/ Os comunistas! Os comunistas! / O mulato baiano, mini e manual /Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas /Depois por Magalhães /Por fim, pelos milicos /Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas/ Como são os comunistas? / Não que os seus inimigos / Estivessem lutando / Contra as nações terror / Que o comunismo urdia / Mas por vãos interesses/ De poder e dinheiro / Quase sempre por menos/ Quase nunca por mais/  Os comunistas guardavam sonhos / Os comunistas! Os comunistas! / O baiano morreu / Eu estava no exílio / E mandei um recado: "eu que tinha morrido" / E que ele estava vivo, / Mas ninguém entendia / Vida sem utopia Não entendo que exista/ Assim fala um comunista  /Porém, a raça humana /Segue trágica, sempre /Indecodificável /Tédio, horror, maravilha / Ó, mulato baiano /Samba o reverencia /Muito embora não creia/ Em violência e guerrilha /Tédio, horror e maravilha / Calçadões encardidos /Multidões apodrecem /Há um abismo entre homens /E homens, o horror / Quem e como fará /Com que a terra se acenda? /E desate seus nós /Discutindo-se Clara /Iemanjá, Maria, Iara Iansã, /Catijaçara / O mulato baiano já não obedecia /As ordens de interesse que vinham de Moscou / Era luta romântica/ Era luz e era treva /Vento de maravilha, de tédio e de horror / Os comunistas guardavam sonhos /Os comunistas! os comunistas!

*Sublinhado frases "anti-comunistas", negrito apoio tácito e confuso "à causa".

Caetano é um artista dos mais perdidos ideologicamente da história contemporânea do país. Por vezes vem com uma crítica social, um certo anti-conservadorismo. Outras vezes, um anti-comunismo atroz. Essa música só refoça.

A música não vem com a estética feroz dos Racionais. É quase um rock minimalista, um tanto melancólico, nostálgico. Mas a letra também tende a prestar uma homenagem, contar a história, quase literal (e mais completa e contextualizada que na música dos Racionais), das ações de um grande homem. Só que fixa bem esse homem e seus sonhos no passado. Caetano abraça, ceticamente, a "democracia" como verdadeiramente fim da história. Defende Marighella, mas muito mais para se diferenciar dos conservadores, parar gerar polêmica pela polêmica, coisa que sempre gosta de fazer.

No fim da "guerra fria", Caetano lançou uma música com um viés ideológico bem semalhante. "Os outros romanticos" [6] , de 1989, é uma música destinada aos comunistas, que ele chama de românticos, como no caso de Marighella, homens com motivações subjetivas e utópicas que se chocam com a negra natureza humana, imutável, e o mundo muito mais complexo que seus pobres esquemas. O mundo não foi feito para ser mudado, e qualquer afirmação contrária é uma violência, um retorno ao obscurantismo totalitário: eis a tese de fundo. No final da música faz uma referência hegeliana, comparando o marxismo a uma profecia, uma escatologia. Aqui a letra completa:

Eram os outros românticos, no escuro /Cultuavam outra idade média, situada no futuro /Não no passado /Sendo incapazes de acompanhar /A baba Babel de economias/ As mil teorias da economia/ Recitadas na televisão/ Tais irredutíveis ateus /Simularam uma religião /E o espírito era o sexo de Pixote, então/ Na voz de algum cantor de rock alemão /Com o ódio aos que mataram Pixote a mão/ Nutriam a rebeldia e a revolução/  E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil /Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo/ E os primeiros mênstruos /Compunham as visões dos seus vitrais/ E seus apocalipses mais totais /E suas utopias radicais / Anjos sobre Berlim "O mundo desde o fim"/ E no entanto era um SIM /E foi e era e é e será sim.

Mais uma vez, muita confusão. A versão quase lumpen "radicalista" se assemelha com a versão pequeno burguesa desiludida. Duas faces da mesma moeda, dois desvios com origem em comum e final semelhantes.

Críticas exageradas?

De fato é difícil imaginar, em meio a uma correnteza tão forte do hegemônico, uma nova forma de cultura, que não guiadas pelas imagens de ações individuais, mistificadas ou não. Ainda é um caminho longo a ser percorrido, impossível sem mudança das bases sociais. De fato, as homenagens encerram um certo progressismo, é inegável. Um progressismo possível, dentro dessa realidade concreta. Porém, não sem contradições a serem superadas, como tentamos demonstrar aqui.

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[1] http://itaucinemas.com.br/filme/marighella
[2] http://www.youtube.com/watch?v=AOwddBi7u-o
[3] http://www.youtube.com/watch?v=G-OFK14m6s0
[4] http://www.youtube.com/watch?v=otiZAYPP200
[5]http://www.faccamp.br/letramento/2012/1sem/oficina4/consuelo_dieguez_conciliaCAo_de_novo_piaui64.pdf / ou http://www.anovademocracia.com.br/no-96/4259-comissao-da-meia-verdade-se-arrasta-
[6] http://www.youtube.com/watch?v=EVgP4398kdY

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