quinta-feira, 19 de maio de 2016

Leituras e Releituras de A Revolução dos Bichos

LEITURAS E RELEITURAS DE A REVOLUÇÃO DOS BICHOS


Valdirene Leite


RESUMO
Esse artigo irá tratar das diversas leituras e releituras que o livro Revolução dos Bichos já inspirou no decorrer da história. Essa obra constitui-se de uma fábula que remete ao tempo em que os animais falavam. Seu fundo moral, no entanto, tem sido interpretado de várias formas. Uma vertente, ligada, digamos, à releitura feita em Fazenda Modelo, de Chico Buarque, considera o livro uma alegoria universal sobre o autoritarismo. Logo, essa alegoria inspira uma alegoria sobre a ascensão e queda do regime militar brasileiro. Outra leitura, mais comum, associa o enredo da fábula à narrativa da história da União Soviética, o que a torna polêmica. Abordamos aqui algumas das releituras que o livro teve na história. O livro teve duas adaptações para cinema: uma em 1954 e outra em 1999. Ambas fizeram alterações de sentido político. As adaptações apontavam sempre no sentido da leitura voltada para a história da União Soviética. Finalmente, foi realizada uma análise sobre qual é a leitura de Orwell na escola: pode-se supor que essa leitura, ao invés de levantar uma reflexão, tem avaliado, na prática, a habilidade em vomitar chavões da Guerra Fria.


Palavras-chave: Orwell, Revolução dos Bichos, guerra fria, ficção, literatura


ABSTRACT
This monograph will deal with various reading and rereading the book Animal Farm has inspired throughout history. This work consists of a fable which refers to the time when animals spoke. Its moral bottom, however, has been interpreted in various ways. A shed, on, say, the remake made in Model Farm, Chico Buarque, considers the book a universal allegory about authoritarianism. So this allegory inspired an allegory about the rise and fall of the Brazilian military regime. Another reading, more common, joins the plot of the story to the narrative of the history of the Soviet Union, which makes it controversial. Here we address some of the readings that the book had in history. The book had two film adaptations: one in 1954 and another in 1999. Both have made changes in political sense. Adaptations always pointed towards reading focused on the history of the Soviet Union. Finally, an analysis of what the Orwell reading at school was made: it can be assumed that this reading, instead of raising a reflection, has evaluated, in practice, the ability to spew platitudes of the Cold War.


Keywords: Orwell, Animal Farm, Cold War, fiction, literature


INTRODUÇÃO


O texto Animal Farm (A Revolução dos Bichos) de autoria de George Orwell, tornou-se um dos grandes clássicos do romance político do século XX. O texto, muito polêmico já quando foi publicado em 1948, gerou inúmeras releituras século afora. Foi traduzido em outros sistemas semióticos: tornou-se um filme ao tempo da Guerra Fria, filme esse que modificava o final do texto para melhor adaptar-se aos propósitos ideológicos de combater o comunismo. Igualmente, inspirou releituras devido ao seu formato de fábula. Nessa pesquisa iremos citar duas: a novela Fazenda Modelo, de autoria de Chico Buarque e o romance satírico Os Bichos na Pós-Revolução, A Perereka, de Aluízio Alves Filho, que tentam utilizar o método de Orwell para falar do período da queda do regime soviético.
A novela de Chico Buarque, embora ofuscada pela produção recente do escritor/compositor, prossegue sendo estudada. Buarque notabilizou-se pela resistência à ditadura militar através de sua arte, em posições engajadas. A novela é tida como parte constituinte dessa produção dos anos 70. Sua forma alegórica seria típica da época: era uma crítica velada ao regime militar, que era a fazenda modelo nominada no título, mas na verdade era uma farsa, uma ditadura tecnocrática. Utilizando-se do recurso da fábula, o ensinamento moral era que devemos sempre lutar contra o autoritarismo e pela democracia.
Há várias hipóteses sobre A Revolução dos Bichos. Primeiramente, há que classificar qual o estilo utilizado. Trata-se, pode-se supor, de uma fábula ficcional, que deseja ensinar alguma moral. É uma novela do tempo em que os animais falavam. Mas qual é a moral que esse texto traz? Uma das versões interpretativas supõe que trata-se de uma fábula que analisa e critica qualquer tipo de autoritarismo e se opõe a ele. Pode-se dizer, assim, que foi a partir de uma leitura como essa que surgiu a releitura de Chico Buarque, o texto Fazenda Modelo, publicado em 1974. Chico fez uma releitura da fábula adaptando-a para o contexto do Brasil dominado por uma ditadura militar tecnocrática.
Outra hipótese que pode ser desenvolvida é que Revolução dos Bichos, texto atualmente utilizado como literatura infanto-juvenil, foi baseado em uma determinada narrativa histórica. Pode-se tomar como base para sua redação o argumento de A Revolução Traída, de Leon Trotsky. O que A Revolução dos Bichos trata, afinal, é também de uma revolução traída. Sendo assim, no entanto, a novela não trataria de uma fábula adaptável a qualquer tipo de autoritarismo e sim focalizaria mais especificamente um tipo de suposto autoritarismo que ela desejava atingir e criticar: a experiência socialista soviética.


1 A NOVELA PECUÁRIA DE CHICO BUARQUE


Possivelmente inspirado por George Orwell, Chico Buarque fez, em 1974, sua primeira incursão pelo gênero novela. Os bois e outros animais representam o povo que, na ditadura militar brasileira, são enganados com um falso milagre econômico, enquanto padecem no autoritarismo.
Os homens são a ditadura militar (Chico aproveita a imagem dos homens como exploradores em Revolução dos Bichos). Fala, no entanto, somente dos bois e das vacas, ou seja, dos explorados.
O texto é uma parábola sobre o poder. A forma mais radical de dominação é tirar do indivíduo o direito de decidir seu próprio destino. As pessoas são, então, transformadas em rebanho humano.
A fazenda modelo da narrativa é uma comunidade que, composta em boa parte por bovinos, passa a viver transformações sob a liderança do boi Juvenal. Aumentam as formas de controle: a reprodução passa a ser através de inseminação artificial, abolindo o contato sexual entre o rebanho.
Tudo passa a ser regulado de forma técnica e científica. A reprodução é garantida pelo banco de esperma do touro Abá. A liderança de Juvenal prepara Lubino, filho de Abá. Como explica Adélia Bezerra de Menezes:

O livro tem uma história extremamente semelhante à obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell, escrita 30 anos antes, na qual o autor também cria um mundo fictício, este composto por uma fazenda na qual seus habitantes, animais, promovem uma revolução para que pudessem se libertar da opressão do fazendeiro, antigo proprietário do local. A disputa por poder entre os bichos leva, no entanto, a desenrolares imprevistos, reforçando a tese defendida tanto por Orwell quanto por Buarque, em suas respectivas obras, de que o poder político, concentrado nas mãos de uma lite dominante, acaba por gerar grande opressão, em detrimento do bem comum (BEZERRA DE MENESES).

A ideia de Fazenda Modelo é ser uma alegoria do Brasil do tempo dos generais, em especial do Brasil do milagre econômico e de sua intensa propaganda. O texto faz paródia dos discursos militares, moralistas e tecnocráticos característicos da propaganda do regime na época. Para isso, por vezes ele se utiliza de vocabulário técnico tirado de manuais de agropecuária, vocabulário esse que complica a leitura do texto.
Se Revolução dos Bichos é negação da utopia socialista, Fazenda Modelo é a negativa de um regime militar autoritário. No caso da alegoria de Brasil, trata-se de uma situação distópica, ou seja, uma situação opressiva que continua no tempo. Mostra-se a postura autoritária do boi Juvenal, contraposta a um discurso irreal de um paraíso onde vive um gado natural e sexualmente liberado.
O fim da liberdade sexual dos touros e vacas antes da instalação da gestão do boi Juvenal é a metáfora escolhida por Chico para o fim da liberdade existente antes do regime de 64.
Para demonstrar a reprodução por meios técnicos, o narrador reproduz manuais agropecuários que narram, detalhadamente, processos de coleta do sêmen do boi: fala-se em vagina artificial, coleta de sêmen, coleta por massagem no reto, assim como a obtenção da ejaculação por meios elétricos. Essas descrições têm como objetivo mostrar o esmagamento do indivíduo pelo estado.
Assim como o milagre brasileiro durou apenas de 1969 a 1974, a virilidade do touro reprodutor termina por ser destruída pelos métodos técnicos. A seleção dos indivíduos bovinos de melhor raça simboliza a repressão e os assassinatos realizados pela ditadura militar.
A Fazenda Modelo dura pouco tempo no status de modelo: dentro de pouco tempo, ela fracassa, deixando o gado insatisfeito pela falta de liberdade sexual. No final da novela, Juvenal substituiu o gado pela plantação de soja. Pode-se supor que o narrador estava antecipando o momento político que o país viveria logo a seguir: a abertura política controlada a partir das elites e dos militares.
Também influenciado por Revolução dos Bichos, a novela satírica Os Bichos na Pós-Revolução, a Perereka, de autoria do cientista político Aluizio Alves Filho, aproveitou o desmoronamento do regime soviético para fazer uma sátira política. A veia propriamente humorística do texto utiliza-se do nome do animal “Perereka” muito comum em piadas, por também conotar a genitália feminina, associando-o, simbolicamente, ao processo chamado Perestroika, processo esse que, iniciado com otimismo, termina em desastre e dissolução da União Soviética em 1991. Tal trajetória possibilita um paralelo com o processo de degeneração burocrática analisado na novela de Orwell.


2 A HIPÓTESE DE REVOLUÇÃO DOS BICHOS COMO ARGUMENTO DA REVOLUÇÃO TRAÍDA


Essa hipótese tem considerável embasamento. Pode-se dizer, por exemplo, que em determinada altura da fábula, os porcos, animais privilegiados, desenvolveram padrões de consumo mais elevados do que os dos demais animais. Nessa altura pode-se dizer que há uma simbologia clara e que representa uma narrativa histórica:

Veremos mais adiante, ademais, que, apesar da União Soviética não ter mais classes possuidoras no sentido comum da palavra, ela continua a ter setores dirigentes altamente privilegiados que ficam com a parte do leão na esfera do consumo. Assim, se existe uma menor produção per capita de produtos de primeira necessidade na União Soviética que nos países avançados, isso significa que o nível de vida das massas da União Soviética ainda está muito abaixo do nível dos capitalistas (TROTSKY, 2015).

Sendo assim, pode-se dizer que as “classes dirigentes” na União Soviética poderiam ser representadas pelos porcos, alguns poucos privilegiados que consomem mais do que os outros. Os outros animais representariam as classes dominadas.
Dessa passagem pode ter saído a inspiração para a alegoria principal da novela: a das classes dirigentes como um animal, o porco, cuja representação é associada à sujeira e ao fedor. Seria, também, uma classe repugnante, suja. Essa é a associação que subjaz à alegoria realizada. Outras semelhanças podem ser encontradas, como na passagem seguinte:

Vinte e cinco milhões de egoísmos camponeses isolados, que ontem tinham sido o único motivo da força da agricultura – fracos como um cavalo velho, mas não obstante uma força – a burocracia tentou substituir com uma tacada só pelas ordens de 2000 escritórios administrativos de fazendas coletivas, com falta de equipamento técnico, conhecimento agrônomo e até mesmo o apoio dos próprios camponeses. As terríveis consequências desse aventureirismo rapidamente apareceram, e duraram por alguns anos (TROTSKY, 2015).

            A passagem acima compara os esforçados camponeses a um cavalo velho. A mesma imagem surge, na novela, na figura do cavalo Sansão. Depois de muito esforçar-se, Sansão, depois de velho, é mandado para a morte de forma impiedosa pelos dirigentes.
A experiência da coletivização das propriedades rurais foi tida, então, como aventureirismo com consequências negativas para os camponeses. Os porcos eram o que Trotsky chamava “a burocracia”.
Em A Revolução dos Bichos, Sansão, como o campesinato, trabalha duramente, mas mesmo assim só lhe é retribuída uma grande ingratidão: ele é mandado para o abatedouro de cavalos e mesmo seu corpo é explorado, utilizado comercialmente –da mesma forma que o operário é explorado no capitalismo:

Mais ou menos um quarto de hora depois, Garganta apareceu, cheio de simpatia e preocupação. Disse que o Camarada Napoleão tomara conhecimento, abaladíssimo, do mal que sucedera a um dos trabalhadores mais leais da granja, e já estava cuidando de enviar Sansão para tratar-se no hospital em Willingdon. Os animais sentiram certa inquietação (com exceção de Mimosa e Bola-de-Neve, nenhum deles jamais saíra da granja) e não gostaram da ideia de seu camarada ir parar nas mãos dos humanos (ORWELL, 2007, p. 96).

Esse tipo de caracterização iguala, na prática, a experiência soviética a um capitalismo clássico, desvalorizando-a.
Ao tratar de A Revolução dos Bichos, temos também de lidar com a hipótese de que a fábula fala do governo de Stálin, indo dos antecedentes da revolução russa até o tempo da Conferência de Teerã (1953). O texto não falaria, então, de um autoritarismo em geral, mas de uma determinada narrativa histórica. Ao tratarmos dessa hipótese, pode-se supor que a inspiração de A Revolução dos Bichos talvez fosse A Revolução Traída, de Leon Trotsky.
Essa hipótese de que Revolução dos Bichos é anticomunista será retomada, nos anos 2000, pelo autor norte-americano John Reed, que criou a ficção A Volta do Bola de Neve. Reed, escritor norte-americano formado em Colúmbia, volta os elementos da sátira de Orwell contra o imperialismo norte-americano dos dias atuais, buscando aniquilar a posição de Orwell.


3 A VOLTA DO BOLA-DE-NEVE


Essa ficção do escritor John Reed, publicada nos Estados Unidos, escreve uma ficção a partir da Revolução dos Bichos, mas buscando assumir uma posição anti-Orwell. Essa analogia em relação aos bichos também trata da história.
Essa ficção tratou do momento em que Napoleão morre e todos os sucessores de Napoleão vão morrendo. Bola de Neve reaparece na Granja e vem com um Bode que entende de marketing. Bola de Neve vem cheio de ideias capitalistas. Essa Granja torna-se, aos poucos, um parque de diversões.
Essa granja modifica-se aos poucos, passando a ter luz elétrica, tendo água quente, tendo dois moinhos, os Moinhos Gêmeos. Todos os animais passam a usar roupas, assim como a andar em duas patas. Um exemplo de uma passagem de A Vez do Bola de Neve:

Os porcos informaram com muito gosto que os cofres da Granja dos Bichos estavam sustentando-se muito bom, e que não havia sido necessário tomar um empréstimo bancário (o que quer que isso significasse) para concluir as obras. No momento apropriado, contrataram-se especialistas, e muitos dentre os bichos ficaram inquietos com a presença de eletricistas, soldadores e inspetores humanos. Mas Bola-de-Neve estava certo. O caminhar bípede e o uso de roupas ajudavam a evitar problemas, tanto da parte dos humanos quanto da parte dos bichos. Depois de tanto tempo lidando com os humanos, muitos porcos estavam tão aclimatados a eles que os bichos da granja tinham alguma dificuldade em perceber a diferença entre homens e porcos (no fim das contas, tudo virou uma questão de nariz versus focinho, sapatos versus patas). Com o passar dos dias, quase todos concordavam que a melhor maneira de lidar com um humano era tratá-lo como um porco. Ambos gostavam de um pouco de bajulação (REED, 2002, p. 34).

Reed quis contar a história capitalista dos Estados Unidos, fase rural até a industrialização e urbanização. O livro culmina com um atentado terrorista aos Moinhos Gêmeos, evidente representação das Torres Gêmeas situadas em New York.
O personagem Benjamin toma partido de seus interesses e Moisés, o corvo, volta como uma representação da religião. Os castores seria a representação dos muçulmanos, dos árabes. A granja teve, graças ao Bola de Neve, uma expansão. Bola de Neve anexa o território dos castores e vai irritando mais e mais os castores, que no final da narrativa atacou os Moinhos Gêmeos. Como explica Marcelo Cavallari:

O livro de Reed não é só uma continuação da Revolução dos Bichos. Trata-se de uma paródia de uma das mais representativas obras saídas do debate em torno do comunismo soviético que ocupou boa parte do pensamento do século XX (...) Publicado em 2002, o livro de Reed faz Bola-de-Neve voltar à fazenda depois que a primeira geração de líderes já morreu e propor, como alternativa à estagnada vida dos bichos, a transformação da fazenda num parque temático. O novo lema do porco é o suprassumo da ideologia da competição e do sucesso pessoal: 'Todos os bichos nascem iguais: o que vêm a se tornar é problema deles'. A fazenda-parque se enche de dinheiro, mas acaba tendo seu maior símbolo - os moinhos gêmeos - atacado pelos fanáticos castores que habitam miseravelmente a floresta que cerca a fazenda. A óbvia semelhança com o 11 de setembro ressalta a preocupação primordial de Reed com a política. Respondendo sobre o que tinha em mente quando decidiu parodiar Orwell, Reed não fala em nenhuma preocupação literária. 'Escrevi o livro em três semanas depois do 11 de setembro, bastante próximo das torres gêmeas sob cuja sombra eu cresci. Era nisso que eu estava pensando.' O ataque levantou no jovem autor nova-iorquino a pergunta: por que os Estados Unidos são tão odiados? O livro é uma tentativa de resposta (CAVALLARI, 2015).

Na representação de Reed, há temas como imigração, globalização e, principalmente, o porco inspirado no trotsquismo volta para instalar o capitalismo avançado, o individualismo e o consumismo.
Os ratinhos, por exemplo, representam os imigrantes que vão à Granja e não conseguem trabalhar com outras coisas, a não ser lavar privadas, limpar o chão, trabalhos que os nativos da Granja não querem mais fazer.
A leitura que Reed faz é uma paródia que volta-se como um desafio para os admiradores de Orwell, fazendo uma crítica ao estilo de vida norte-americano.


4 REVOLUÇÃO DOS BICHOS EM OUTROS SISTEMAS SEMIÓTICOS


Revolução dos Bichos já teve pelo menos duas adaptações marcantes, uma em 1954, diretamente financiada pelo departamento de inteligência norte-americano, muito embora o filme fosse uma produção inglesa; e outra adaptação, essa realizada em 1999. Ambas adotaram variantes a respeito da narrativa original, sempre para adotar um sentido político em relação ao socialismo e à União Soviética.
A obra de 1954 optou por um final que não iguala os porcos e os animais e sim deixa bem claro que a tirania de Napoleão era bem pior do que a do fazendeiro Jones. A narrativa termina com os animais revoltando-se contra a tirania do porco Napoleão. Igualmente, a narrativa também foi alterada no que diz respeito a Bola-de-Neve, personagem que é associado a Trotsky.
Em Revolução dos Bichos, muitos adjetivos positivos são associados a Bola de Neve: ele é brilhante, inteligente, etc. Já na narrativa inglesa dos anos 50, no auge da Guerra Fria, o texto foi alterado para dar a entender que, no lugar de Napoleão, Bola de Neve instalaria uma ditadura tão autoritária quanto a dele.
O filme, que adapta uma obra de Orwell, deixa bem claro que rejeita o suposto socialismo do autor, tanto quanto o socialismo de Stálin. Essa adaptação rejeita a ideia de ser um libelo contra qualquer autoritarismo. Ela é voltada claramente contra o socialismo de Stálin, mas também parece extensiva a qualquer socialismo. Observemos o que escrevem Gomes e Correa:

As manipulações do texto de "A Revolução dos Bichos" não demoraram a acontecer. No fascinante estudo "The Cultural Cold War" (A Guerra Fria Cultural), Frances Stonor Saunders relata que, logo após a morte de Orwell, a CIA (Howard Hunt era o agente encarregado do caso) comprou secretamente da viúva do autor os direitos para filmar o livro e mandou produzir na Inglaterra uma versão em desenho animado, por ela distribuída no mundo inteiro. (...) Assim, depois de morto, Orwell foi submetido às fraudes e aos estratagemas da propaganda ideológica, pelas mãos dos combatentes americanos da Guerra Fria que viriam a exaltá-lo como o maior inimigo dessa mesma propaganda (ASH, apud: ALMEIDA, CORREA, 2015).

A adaptação de 1999 (adaptação para a televisão do diretor John Stepheson) modifica o texto para trazer a situação de fracasso da fazenda dos animais, episódio ausente do livro. O livro apenas mostra a situação em que porcos e homens estão negociando escondidos dos demais animais, mas são flagrados por Quitéria: não há mais como diferenciar homens de porcos, ou seja, capitalistas de socialistas. Mas não há um levante dos animais contra os porcos e não se sabe se a Fazenda dos Animais entrou em colapso ou se a dominação dos porcos se eternizou.
O filme mostra a família sendo comprada por uma família de homens, depois do colapso do regime de Napoleão. Há, inclusive, promessas aos animais de que os homens não repetirão mais os erros do passado. Os novos donos da fazenda são o protótipo de uma família feliz norte-americana. Sendo assim, a narrativa, surgida depois do colapso do bloco soviético, coloca uma situação que representa esse colapso: o colapso da própria fazenda. A seguir, finalizando fazendo o elogio pouco crítico da volta do capitalismo clássico.
Embora não se referindo diretamente a Revolução dos Bichos, há também uma canção de Engenheiros do Hawaaii que refere-se a essa fábula: Ninguém é Igual a Ninguém:

há tantos quadros na parede
há tantas formas de se ver o mesmo quadro
há palavras que nunca são ditas
há muitas vozes repetindo a mesma frase:
(ninguém = ninguém)
me espanta que tanta gente minta
(descaradamente) a mesma mentira
todos iguais
todos iguais
mas uns mais iguais que os outros
Há pouca água e muita sede
Uma represa, um apartheid
(A vida seca, os olhos úmidos)
Entre duas pessoas
Entre quatro paredes
Tudo fica claro
Ninguém fica indiferente
Ninguém é igual a ninguém
Me assusta que justamente agora
Todo mundo (tanta gente) tenha ido embora
Todos iguais, todos iguais
Mas uns mais iguais que os outros
O que me encanta é que tanta gente
Sinta (se é que sente) ou
Minta (desesperadamente)
Da mesma forma
Todos iguais, todos iguais
Mas uns mais iguais que os outros
Tão desiguais, tão desiguais
Tão desiguais, tão desiguais (ROVER, 2015).

Essa letra, no entanto, preserva apenas uma frase do texto: a perversão das ideias do Major e a persistência da desigualdade, mesmo quando se pensa na transição para um regime supostamente melhor. Originalmente, a frase falava dos animais: “todos os animais são iguais”.
Quando a frase é pervertida, pois a revolução foi traída pela burocracia, a frase é mudada para “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”. Ou seja: deve-se aceitar a desigualdade de classe e da dominação (que no caso da fábula, é a formação de uma nova classe dominante entre os próprios animais, os porcos).
O que espanto o autor da letra é a desigualdade, as grandes diferenças entre os seres humanos, assim como a pluralidade das interpretações que se pode dar à obra de arte. A letra trata de muitas das contradições geradas no relacionamento entre as pessoas devido a essa desigualdade.


5 OS BICHOS NA PÓS-REVOLUÇÃO, “A PEREREKA”


No ano de 1994, sob o impacto da queda da União Soviética, o professor e escritor brasileiro Aluízio Alves Filho escreveu uma sátira dedicada a Orwell. Desde o título o livro buscou ser a continuação de um livro clássico. O pano de fundo histórico passou a ser “perestroika” de Mikhail Gorbachev, que alguns anos antes tinha feito um verdadeiro furor midiático.
A personagem de Mikhail Gorbachev e sua política de reformas são representadas pela figura de um animal, a “Perereka”. Aluízio Alves Filho não tomou os mesmos personagens para narrar a história da queda da União Soviética. Ele mostrou a subida ao poder da Perereka e a relação que a União das Fazendas Organizadas (UFO, um paralelo com a URSS) tinha a fazenda de Seu Malaquias (que representa o capitalismo).
A narrativa demonstrou, a partir do jornal Tribuna dos Tribunos, pertencente ao Seu Malaquias, a leitura que a mídia tinha a respeito da posse de Perereka nas fazendas organizadas e o contraste que se deu a seguir, quando a imprensa percebe as intenções conciliatórias da Perereka em relação a Seu Malaquias. No editorial se podia ler, a respeito da posse de A Perereka:

Mais uma monstruosidade na fazenda das Rochas. Energúmenos fazem da perereka o novo ditador. A perereka é um bicho asqueroso, estúpido, anêmico e raquítico que subiu na vida puxando o saco de porcalhões. A perereka só não vai piorar as Rochas porque isso é impossível. Ela vai dar sequência ao regime de opressão e incompetência implantado por seus irracionais antecessores. Falta-lhe massa encefálica. Falta-lhe inteligência. Falta-lhe o mais elementar bom senso (ALVES, FILHO, 1994, P. 39).

O que se pode dizer é que, retrospectivamente, a imprensa e os poderosos do Ocidente entenderam muito bem que, quando Gorbachev dizia que Perestroika é revolução, ele queria criar um estado burguês mais completamente assumido do que existia na União Soviética. Somente isso explicava que, nos editorais do jornal de Seu Malaquias, a política da Perereka fosse defendida em termos tão diferentes do que anteriormente era referida a própria Perereka e a UFO. Como se pode ler no jornal capitalista fictício a respeito da nova política da Perereka:

A perereka propõe-se a tirar a fazenda das Rochas do atraso milenar em que se encontra. Com tal objetivo, diminuiu o orçamento das forças de guerra e nomeou uma comissão para planejar reformas urgentes. A julgar pelo currículo dos escolhidos, o projeto reformista pode dar bons resultados. A perereka vai ter que quebrar a resistência dos conservadores que estão acostumados a viver em chiqueiros. Não esperemos milagres para amanhã. O que a chuva fez num dia, o sol não desmancha em dois (ALVES, 1994, P. 74).

Na fábula de Alves Filho, a Glasnost aparece como sendo o “Caos”, o chamado “Comitê de Aprovação de Obras Sociais”. Trata-se de um trocadilho: para Alves Filho, a Glasnost teria semeado o caos. E de fato, a Glasnost teria simplesmente aberto para a propaganda capitalista em todas as instâncias, a propósito de gerar a transparência.
A esquerda, no entanto, acreditou que o que estava acontecendo era a democratização do sistema soviético. Na realidade, Gorbachev desenvolveu e continuou as posições de Kruschev e Brejnev. Como explicou a respeito Ludo Martens:

Em finais de 1989, impõe-se a conclusão de que dois anos de glasnost levaram a União Soviética à beira do abismo. Em nome do anti-stalinismo todas as concepções socialistas são postas de lado e, em nome dos valores universais, a ideologia liberal faz a sua entrada. No momento em que os nacionalismos burgueses se desencadeiam e ameaçam estilhaçar a União Soviética, o país aproxima-se do Ocidente e orquestra, como prova das suas boas intenções, golpes de Estado de feição liberal na Europa de Leste. No princípio de 1991, o XXVIII Congresso do PCUS aparece como o congresso da ruptura e da restauração do capitalismo. A glasnost preparou os espíritos para o capitalismo, destruindo todas as concepções políticas. Assim, o XXVIII Congresso pôde transmutar o partido comunista em partido social-democrata e transformar as estruturas políticas soviéticas segundo o modelo ocidental. A crise política e económica tornou-se inextricável, agravada ainda pela guerra entre a burguesia liberal pró-ocidental, em redor de Éltsine e Lansbergis, por um lado, e, por outro, os partidários de uma economia capitalista mista e de um poder central forte, em redor de Gorbatchov. A política externa insere-se cada vez mais nitidamente na lógica do capitalismo mundial (MARTENS, 1991, p. 10).

A política externa de Gorbachev foi claramente apresentada em A Perereka: a política de coexistência pacífica com os Estados Unidos e o Ocidente. Ela apareceu da seguinte forma em A Perereka:

Pensem bem: o que temos ganho brigando com Seu Malaquias? A verdade nua e crua é o seguinte: NADA. Apenas gastamos energia e reservas. Para quê? Ora, para fabricarmos armas, armas e armas. Quanto mais armas temos, mais armas fabricamos. Nossos arsenais estão cheios e nossas barrigas vazias. Não demora muito, vamos ficar numa completa pindaíba, sem poder com um gato pelo rabo. Rogo aos senhores: mudemos de tática. Menos canhão e mais ração. Isso pela grandeza a UFO! Pela unidade indestrutível da UFO! Pela solidariedade dos animais de todas as fazendas do mundo! (ALVES FILHO, 1994, p. 65).

Essa posição da personagem Perereka, de fato defendida por Gorbachev, apresentava-se como sendo a tese da coexistência pacífica historicamente defendida por comunistas. Na prática, a política de Gorbachev era de tentar retornar de forma controlada ao capitalismo, mas mantendo a União Soviética como um grande potência mundial. Para isso, buscou conciliar-se com as grandes potências ocidentais e passar a aprovar a exploração do terceiro mundo pelo imperialismo. Somente depois da queda da URSS é que Gorbachev revelou, numa palestra na Turquia, quem ele realmente era e quais foram, desde o princípio, seus intentos:

O objetivo da minha vida era a eliminação do comunismo, uma ditadura insuportável sobre o povo. A minha mulher, que tinha compreendido esta necessidade mesmo antes de mim, apoiou-me inteiramente. Foi justamente para o alcance deste objetivo que me servi da minha posição no partido e no país. Precisamente por isso, a minha mulher incentivava-me constantemente para que ocupasse sucessivamente posições cada vez mais altas no país. Quando conheci pessoalmente o Ocidente, percebi que não podia renunciar ao objetivo definido. E, para ser alcançado, precisava substituir toda a direção do PCUS e da URSS, bem como a direção em todos os países socialistas. O meu ideal nessa altura era a via dos países sociais-democratas. (GORBACHEV, apud: GOSWEILLER, 2011, p. 12).

O que efetivamente Gorbachev liderou, com sua Perestroika, foi a privatização do patrimônio público da União Soviética, gerando uma nova e mafiosa elite capitalista.
Gorbachev, embora fizesse discursos dizendo que a perestroika era revolução, era representante de uma burocracia partidária que monopoliza o controle das questões-chave. Há controvérsia para ter certeza se essa “nomenclatura” surgiu após a saída de Trotsky da URSS em 1929 ou se emergiu depois do golpe dado por Kruschev e os revisionistas em 1956.
O fato é que a burocracia tornou-se uma elite parasitária e explorada. Mais e mais as relações estabelecidas por ela passaram a se assemelhar às atitudes de elites como elas nos países que eram abertamente capitalistas. Sendo assim, a URSS de Gorbachev seria falsamente comunista. Há muito estaria restaurando elementos do capitalismo.
            Pode-se dizer, então, que essa elite conseguiu continuar no poder. Gorbachev, Ieltsin, Putin e outros líderes da URSS são antigos membros da direção do partido e ainda continuam em evidência enquanto políticos influentes.
Durante muito tempo, eles atuaram como funcionários privilegiados e exploraram os cidadãos da União Soviética. E foi essa elite quem presidiu, a partir de Gorbachev, a privatização de toda a propriedade coletiva que pertencia aos trabalhadores soviéticos.
Em meio a esse processo, empobreceram os trabalhadores e também vitimaram a ampla classe média. Esse processo pode ser considerado o maior roubo, a maior expropriação da história da humanidade.


6 ORWELL NA ESCOLA: UMA POLÊMICA


Desde a publicação de Revolução dos Bichos em 1945, a obra de George Orwell passou a ter um lugar permanente no currículo escolar tanto de países como a Inglaterra quanto, por vezes, do Brasil. A presença de um partido trabalhista que utiliza símbolos tais como a estrela de cinco pontas e a bandeira vermelha também tem motivado comparações e aproximações da obra de Orwell com a nossa realidade atual.
Orwell foi elogiado como um gênio literário, um talento que combinou talento e princípios: o continuador da tradição de sátira de Swift e outros. Por vezes, foi até comparado com um santo (BRAR, 2012).
O que ocorre é que os estudantes chegam a ler Revolução dos Bichos sem nenhuma ideia dos eventos nos quais a narrativa foi baseada. Embora seja elogiado como uma grande obra de arte, uma fábula sobre totalitarismo em geral, as questões das avaliações sempre referem-se aos eventos da revolução russa.
O que é avaliado, afinal, é a habilidade de regurgitar clichês da Guerra Fria. A narrativa só funciona se o leitor entender e aceitar as conclusões que Orwell está tentando demonstrar desde o começo da novela. No entanto, Orwell não tem, como Swift, humor e paixão. O que Orwell tenta provar e o que leitor tem que aceitar é que em política, as pessoas não são melhores do que animais. Os dominadores tradicionais podem ser ruins, mas tire-os e uma nova tirania irá ocupar o lugar. Essa é a premissa da qual a fábula parte (BRAR, 2012).
Na prática, a fábula é usada para propósitos políticos pelo imperialismo, seguindo o modelo de Trotsky de pretensamente defender a Revolução de Outubro. Orwell protestou contra a corrupção dos ideais do comunismo na União Soviética de Stálin. Então, tendo lido apenas Revolução dos Bichos, as pessoas sentem-se bem equipadas para tornarem-se “experts” a respeito da União Soviética e pontificar sobre a degeneração dos ideais da revolução russa a partir de qualquer meio ou plataforma (BRAR, 2012).
Muitos estudos ensinam didaticamente aquilo que o estudante tem que pensar sobre a narrativa. A consequência é que esse ensino modela as respostas em seus exames. Esses livros didáticos são mais candidamente anticomunistas do que o próprio Orwell em seus textos (BRAR, 2012).
Em livros didáticos ingleses do passado, Revolução dos Bichos não era apresentado diretamente como um texto anticomunista, mas isso passou a ocorrer a partir de livros didáticos ingleses dos anos 90 (BRAR, 2012).
Anteriormente, obviamente constrangidos pelas mentiras explícitas e alegações sem fundamento, os livros didáticos diziam para o leitor ler a história como um texto a respeito das ditaduras em geral. O fato de que as gerações que viveram a guerra estão agora muito longe da escola auxilia a entender isso, mas também pode-se dizer que, com ou sem Guerra Fria, o comunismo ainda é uma ameaça. Observe-se, então, o livro didático inglês York Notes e sua versão a respeito dos propósitos da narrativa de Orwell e sua versão da história:

O comunismo foi fortemente influenciado pelas ideias de Karl Marx, que acreditava que a vida poderia ser explicada em termos econômicos e sociais. A rica classe capitalista explorava o proletariado pobre. E essa situação poderia ser revertida pela revolução. Muitas das ideias de Marx estão presentes na fala do Major no capítulo I (York Notes, Animal Farm, Wanda Opalinska: 1997, London, p.12, apud: BRAR, 2012)

Note-se, então, que a teoria de Marx é vista como uma ideia fabricada pelo cérebro dele, sem nenhuma relação com a realidade concreta ou prova válida advindo do mundo real. O uso do passado é para dar a ideia de que o capitalismo não mais age dessa forma. Sendo assim, o uso de terror por Napoleão é associado ao uso do terror por Stálin nesse mesmo livro didático (BRAR, 2012).
Em A Revolução dos Bichos há um contraponto binário e bem claro entre Trotsky e Stálin: Napoleão, que é Stálin, é rude, tirânico, vaidoso, hipócrita, feio. Bola de Neve é visto como jovem, bonito, modernizador, inovador, brilhante estrategista, idealista. Há, então, um certo corporativismo trotsquista em aceitar esse tipo de contraposição binária na arte de Orwell sem criticá-lo. E isso tem acontecido repetidamente nesses últimos cinquenta anos. O que diz o Major, cujos ensinamentos seriam supostamente os de Marx, conforme a autora dos livros didáticos ingleses? Leiamos:

Homem é único real inimigo que temos. Remova o homem de cena e a raiz da fome e do trabalho forçado serão abolidos para sempre. Não há argumento que te possa te fazer pensar de forma diferente. Nunca se lembre quando te dizem que o homem e os animais tem um interesse comum, e que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. Isso são mentiras (ORWELL, 2007, p. 24).

Não se pode, portanto, igualar esse falatório com as teorias de Marx em sã consciência. Claro que homem e animais têm interesses em comum. Orwell colocou deliberadamente o marxismo sob uma luz absurda igualando-o com os devaneios do Major. Marxismo é apresentado como uma teoria de idealismo ingênuo, que na prática leva uma tirania cínica (BRAR, 2012).
A principal assertiva da Fazenda Modelo, portanto, parece ser que homens não são melhores do que animais e que a “natureza humana” decide tudo. Algumas pessoas são nascidas para comandar e outras para serem objeto dessas primeiras.
Todo esforço para mudar vai sempre levar para algo pior, então devemos ser gratos por ter o que temos. Infelizmente para Orwell, há falhas nesse plano. Ele usou espécies diferentes para representar diferentes classes. No entanto, alguns animais são mais inteligentes, rápidos, fortes que os outros, assim como outros acabam sendo mais fracos. No entanto, a estrutura de classe não é reflexo das diferenças naturais (BRAR, 2012).
A humanidade é uma espécie só. Todas as formas de justificar o domínio da classe dominante somente porque ela é mais inteligente e mais preparada, enquanto os pobres são mais tolos e preguiçosos, é o pior lixo reacionário, algo como o pensamento nazista (BRAR, 2012).
O argumento de Revolução dos Bichos é que o socialismo não oferece às pessoas mais esperança do que o capitalismo. As pessoas de boa fé serão as primeiras a serem traídas e então conduzidas pelas forças que os seres humanos têm em comum com os animais.
O capitalismo pelo menos deixa as bestas e a animalidade aprisionadas. Ele é ruim, mas pode ser benigno ocasionalmente. O capitalismo é, no final das contas, menos mal. Isso é a orientação que move toda a fábula Revolução dos Bichos (BRAR, 2012).
No entanto, é preciso pontuar que não se trata do capitalismo somente, mas do imperialismo. Sendo assim, se o capitalismo na Inglaterra parece ser benigno de certo modo, o fato é que um setor dos operários desta nação foram providos com os superlucros extraídos das nações oprimidas. Orwell trabalhou para a polícia birmanesa e deveria saber exatamente quão benigno era o capitalismo para as colônias britânicas.
Orwell, sem nunca ter ido à Rússia e baseando-se somente em jornais e livros, julgou-se na posição de poder apontar quem traiu o socialismo. Revolução dos Bichos também entra em detalhes sobre o socialismo. Não se sabe ao certo se Orwell não tinha conhecimento dos princípios do marxismo-leninismo que ele aparentemente pretendia defender (BRAR, 2012).
Orwell também não ser um profundo conhecedor do jogo político, pois desejou publicar Revolução dos Bichos em pleno ano de 1943, justamente quando o futuro da humanidade estava sendo decidido na União Soviética, juntamente com todo o sacrifício em Stalingrado. Editor após editor rejeitou o livro, até que a guerra acabou e o uso do texto como arma na Guerra Fria foi reconhecido. O livro foi lido como o livro de um ex-socialista exorcizando seus fantasmas (BRAR, 2012).
Pode-se dizer que o sucesso de Orwell não é tanto devido ao seu ideário supostamente socialista, mas pela sua intenção de desmistificar a União Soviética. Sabe-se hoje que os serviços de inteligência britânicos promoveram a publicação do livro em países como a Arábia Saudita, onde havia forte militância contra o imperialismo, ameaçando o fornecimento de petróleo (BRAR, 2012).
Hoje pode-se dizer que não só Orwell, mas também escritores conhecidos como Bertrand Russell, Stephen Spender e Arthur Koestler disseminaram desinformação sobre a União Soviética e a Europa Oriental. Se a imagem de Stálin descrita por Orwell correspondesse à realidade, ele teria se tornado o queridinho da burguesia imperialista, teria destruído os princípios revolucionários e a Rússia teria sido sufocada pelo imperialismo, pois teria afundado sob a ditadura de um grupo de cínicos dominadores. A Rússia de Stálin teria sido sufocada pelo imperialismo, acaso fosse assim (BRAR, 2012).
É precisamente o fato de que a verdade sobre a URSS não corresponde à imagem pintada por Orwell que ela coloca uma ameaça tão grande ao imperialismo. Isso também explica o fato de que a burguesia recomenda a leitura das novelas assustadoras de Orwell para os estudantes mundo afora (BRAR, 2012).


CONCLUSÃO


            A Revolução dos Bichos é uma fábula política e já teve várias releituras críticas. Uma de suas leituras é de que ela simboliza o autoritarismo em geral. Uma outra possível análise: o livro seria uma parábola sobre a história da União Soviética, utilizando, então, uma determinada narrativa sobre ela (e que identificamos em A Revolução Traída, de Leon Trotsky).
O texto Fazenda Modelo, de autoria de Chico Buarque, inspirou-se em A Revolução dos Bichos para criticar a ditadura militar brasileira, antevendo sua queda. Essa leitura indica que seria possível escrever uma fábula genérica contra todo tipo de totalitarismo – e parece ser essa a leitura de Buarque, uma vez que ele inspirou-se em Revolução dos Bichos e fez um texto que aponta em um sentido totalmente diferente, no sentido de contestar não a revolução soviética, mas a ditadura militar brasileira de 64.
A hipótese de que Revolução dos Bichos tratava de uma narrativa sobre a União Soviética é reforçada pela narrativa elaborada em 1994 por Aluizio Alves Filho. Essa fábula, os Bichos na Pós-Revolução, A Perereka, aproveita o fundo histórico que presidiu ao fim da União Soviética para fazer uma fábula que aproveita o clima de otimismo com a perestroika e o desfecho trágico no ano de 1991, com a implosão da União Soviética, para traçar um paralelo ao que é descrito em A Revolução dos Bichos.
A leitura de Orwell na escola também foi problematizada nesse estudo. Ele é lido como narrativa neutra que é capaz de engajar e de politizar a juventude. Isso precisa ser questionado e uma visão mais objetiva, que não repita, meramente, os clichês da Guerra Fria. E essa fábula foi apresentada do ponto de vista trotsquista e antissoviético. O texto constrói uma dicotomia pobre entre Stálin (“Napoleão”) e Trotsky (“Bola de Neve”). Não há dúvidas de que o texto tomou claro partido por Trotsky e o anticomunismo. No entanto, os estudiosos brasileiros nunca mostram isso, pelo contrário, dão à hipótese da neutralidade da narrativa o caráter de verdade inquestionável.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALMEIDA, Alessandro de. CORREA, Girlânio Gomes. Revolução dos Bichos: o poder midiático das mudanças. Disponível em: . Acesso em 22 de setembro de 2015.


BRAR, Jodi. George Orwell, Anti-communist Propagandist, Champion of Trotskyism and State Informer. February 1998. Stalin Society. Disponível em: . Acesso em 16 de setembro de 2015.


CAVALLARI, Marcelo Musa. A Volta dos Bichos. Disponível em: <http://revistaepoc a.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR61122-6011,00.html>. Acesso em 16 de setembro de 2015.


FILHO, Aluízio Alves. Os Bichos na Pós-Revolução ‘A Perereka’. Rio de Janeiro:  Obra Aberta, 1994.


_______________. Stalin e a luta pela reforma democrática. Disponível em: . Acesso em 17 de setembro de 2015.

GOSSWEILER, Kurt. As várias cascas da cebola Gorbachev. Disponível em: . Acesso em 14 de setembro de 2015.


MENEZES, Adélia Bezerra de. Desenho mágico: poética e política em Chico Buarque. Disponível em: <http://periodicos.unemat.br/index.php/reacl/article/view/1 74>. Acesso em 14 de setembro de 2015.


ORWELL, G. A Revolução dos bichos. Trad. por: Heitor Aquino Ferreira. 4 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


REED, John. A Vez do Bola de Neve. Rio de Janeiro: Ed. Planeta, 2002.



ROVER, Rodrigo. Teoria da Lírica: Ninguém = Ninguém Disponível em: <http://selet adeprosa.blogspot.com.br/2009/06/teoria-da-lirica-ninguem-ninguem.html>. Acesso em 17 de setembro de 2015.

Laerte Braga: um grande amor demora a morrer



            Fui amigo de Laerte Braga durante vinte anos. Fui a um Encontro Nacional de Filosofia em 1995 e fiquei fascinado por essa figura. Eu queria fazer jornalismo antes de fazer Filosofia. Eu só ficava em sua barraquinha, ouvindo suas histórias interessantíssimas.
            Posteriormente, prosseguimos conversando em contatos telefônicos e, partir dos anos 2000, pela internet. Eu fui a Juiz de Fora duas vezes no ano de 2003. Na segunda vez, registrei uma entrevista com ele para a revista de um amigo, onde eu tinha uma coluna, Passando em Revista, realizando uma de suas raríssimas entrevistas e talvez a única autobiográfica. Expressei a ele inúmeras vezes a enorme injustiça que era ele não ter reunido seus artigos em um livro. A partir de 1999, mais ou menos, passei a receber seus artigos diariamente e, por vezes, mandava comentários. Isso prosseguiu por e-mail e em facebook. E isso durante vinte anos.
            Ele chegou a ter um jornal em Juiz de Fora, o chamado Correio da Cidadania. Ele não teve pejo de me contar que, para fechar as contas do jornal, teve que recorrer à mãe. Eu cheguei a contribuir comentando o texto O Príncipe da Moeda, do sociólogo Gilberto Vasconcellos. Ele fez uma chamada assim: “Lúcio Emílio comenta” como se eu fosse realmente um grande pensador. Eu sempre retribuí esses elogios, sempre o reconheci como mestre e eu apenas um aprendiz. Ele foi pioneiro em alertar para o suposto golpe contra o governo do PT, num artigo postado em meu blog já em 2007 e que deu enorme repercussão, produzindo um manifesto de intelectuais. Eu nunca aceitei esse discurso e continuo não aceitando, mas nunca me afastei de Laerte e seus comentários ora argutos, ora tendentes a produzir versões convenientes a uma determinada vertente política. No entanto, pode-se dizer que esse episódio em 2007 foi o primeiro grande teste que mostrou a capacidade de viralização desse discurso.
            O grande amor e grande projeto da vida de Laerte Braga foi o Partido dos Trabalhadores. Mesmo por José Dirceu ele parecia, mesmo depois de tudo, ainda ter carinho e confiança. Ele conciliava isso com a simpatia pelo comunismo, deixando de lado a incompatibilidade entre PT e comunismo. Laerte Braga era o homem da esquerda possível. Disse que o mundo institucional está podre. Constatou que o governo Lula foi uma falácia, assim como o PT deu o filé para a direita e os adereços para a esquerda. Agora, simplesmente, a direita exigiu a retirada dos adereços e surgiu esse monstruoso governo Temer. Ele foi simpatizante do PCB nos anos 50 e voltou ao partido no início dos anos 2000. Nesse novo casamento aberto com o PCB, ele continuava namorando o PT às escondidas, utilizando seus dons para as artes amorosas. O PCB parece que tolerava isso muito bem, pois até o indicou para candidato a prefeito de Juiz de Fora, um cargo majoritário, afinal. Foi extremamente crítico ao PT nos anos 90 e início dos anos 2000, mas na derrocada agora a partir de 2013 resolveu compensar e ser extremamente leniente –e nisso há um sentido que aponta sua dialética muito particular. Havia muito disso nele. Nos anos 90 para 2000, minha namorada de então, uma jornalista, lia os textos dele e achava hilário o contraste entre os comentários críticos frios e ácidos sobre a sociedade brasileira e a assinatura melosa que ele utilizava e mandava aos que dele recebiam ao final de seus textos: “beijos carinhosos de quem te ama”.
Ele contava que os comunistas, em seus tempos de juventude, eram muito atrasados, distribuíam balinhas e refresco e faziam festas caretas, enquanto existiam reuniões muito mais divertidas em casas de gente mais “prá frente”, onde se ouvia jazz, bebida alcóolica e o comportamento sexual era muito mais liberado. Ele também registrava a oposição de seu pai à sua aproximação em relação ao PCB. Ele foi profundamente marcado pela crise de Suez de 56, quando as grandes potências aliadas a Israel quiseram sufocar o Egito do nacionalista Nasser. Isso marcou-o profundamente e fez com que guardasse grandes esperanças em quem se opunha ao imperialismo norte-americano, tais como Putin e Ahmadinejad. Em sua última mensagem, no meu aniversário, chamou-me de grande pensador e se disse com saudade de nossas conversas. Eu também vou sentir, mas esse homem não morrerá jamais enquanto eu viver. Lembrarei sempre dele.

Camarada Laerte Braga, presente!

            Saudades eternas!