domingo, 2 de novembro de 2014

Lobão e Thomas Giuliano não conhecem Oswald de Andrade


Não resisto a comentar o debate entre Lobão e um tal Thomas Giulliano. Eles conhecem muito pouco Oswald, associando-o a um "mau caráter simpático".

Oswald não era um homem desonesto em relação às suas várias mulheres. Ele buscou a liberdade nos relacionamentos, mas, ao contrário dos homens de sua época, não tinha uma só mulher oficial e várias amantes. Daí tantos casamentos (uns sete). Quando ele se apaixonava por uma mulher, casava-se com ela, deixando de lado a anterior e não mantendo amantes. Ele também foi bastante leal com Tarsila, falando a ela de seu desejo por outras mulheres com bastante franqueza. Oswald, portanto, mesmo não sendo fiel, muitas vezes era leal.

O fato de que ele namorou as mulheres mais interessantes de sua época, tais como Tarsila e Pagu, é um elemento desencadeador da inveja de muitos intelectuais na época de Oswald e, com certeza, também de gente como Lobão e Thomas.

Eu noto Lobão como movido pela inveja da tropicália. Ele inveja a perenidade das canções, assim como a importância histórica que tem Caetano e Gil, pois as dele em boa parte vão caindo no esquecimento. É a Legião Urbana que tem tido uma maior perenidade e repercussão entre os jovens. Daí a figura histérica do músico fracassado produzindo notícia não com a música, mas com posições politicamente reacionárias.

A partir da ideia de que Semana de Arte Moderna, Cinema Novo, tropicália e outros movimentos que ficaram na história da cultura brasileira teriam como denominador comum Oswald de Andrade, Lobão ataca Oswald intentando sair da irrelevância histórica.

Lobão não sabe nem sequer de quando data O Rei da Vela (1937) e ficou querendo atribuí-la a uma influência de Lênin (!).

Um erro terrível também é dizer que Oswald nunca teve crises. Oswald fez a Semana de Arte Moderna contra si mesmo, escreveu ele. Ele se jogou numa aventura e acreditou, mas já tinha trinta anos e tinha publicado livros que tinham mais a ver com Machado de Assis do que com Marinetti.

Outra crise séria foi sua expulsão do partido comunista, ocorrida em 1945. A partir daí, ele faz uma crítica muito dura ao marxismo. Para Lobão, ele "continuou comunista". Isso é erro. Ele continuou levando Marx em conta em suas análises. No entanto, boa parte do que Oswald levanta ainda são críticas muito interessantes a Marx (ele se aproxima do revisionismo dos marxianos universitários europeus e norte-americanos, assim como dos anarquistas). Ele jamais recorre à vulgaridade do argumento trotsco de dizer que "Stálin matou milhões". Não foi à toa que um ex-aluno de Oswald, Gianotti, foi quem chefiou o Seminário de Marx na USP, seminário ao qual devemos a interpretação revisionista de Marx que se faz hoje na academia no Brasil, interpretação essa que circula no PT e no PSDB.

E ele jamais, jamais recorre ao insulto, ao ad hominem e outros recursos de um Olavo de Carvalho. Para Oswald, Olavo de Carvalho seria descrito como aquilo que aparece quando a privada entope e a "vasa sobe". Olavo, Lobão e Thomas...Tudo bem valorizar o rei português Dom João VI, mas chamá-lo de "pai fundador", opondo-o a Oswald, é simplesmente absurdo!

Sendo assim, no final da vida, Oswald ficou totalmente em crise, pois ficou isolado, hostilizado tanto pelo partido comunista quanto pela direita, que, como Lobão e Thomas, não o aceitava porque gostava de fazer discursos moralistas e sentia inveja de suas conquistas, tanto entre as mulheres quanto no ambiente literário. Afinal, a Semana de Arte Moderna, pouco importante em sua época, só fez crescer com o tempo, mostrando que muito do que Oswald disse eram profecias.

Oswald falava de seu teatro como "profecia". A montagem de Zé Celso confirmou essas profecias em 67, fazendo com que O Rei da Vela tenha supostamente encerrado um ciclo iniciado em 43, com a peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Ao contrário do que diz Lobão, a literatura dos anos 40 e 50 também apresentou uma volta aos cânones clássicos, portanto contra Oswald. A chamada Geração de 45 retomou o soneto. Oswald de Andrade entrou em choque direto com alguns expoentes dessa geração, tal como Ledo Ivo, a quem chamou "chulé de Apolo".

Lobão seria chamado seguramente por ele de chulé de Elvis Presley ou algo assim. O movimento do qual Lobão participou, o rock brasileiro dos anos 80 (que nós amávamos tanto), infelizmente decantou, com o passar do tempo, como sendo justamente o contrário da Semana de Arte Moderna: um movimento que confirma nosso lugar periférico como cultura e como nação. É por isso que ninguém do Foo Fighters chama Lobão para uma jam session. É José Ramos Tinhorão que está certo: ao usar a linguagem do outro, o que o brasileiro faz, aos olhos do outro, será sempre algo inferior. 

Oswald de Andrade, considerado representante da inveja e da malandragem nacionais, no entender superficial e "chutador" de Lobão, efetivamente começou sua carreira com duas peças em francês: Leur Ame e Mon Coeur Balance. Ao contrário de nacionalista, começou como absolutamente cosmopolita. As peças eram representadas entre a elite paulista, que fala correntemente francês. Não era incomum, no início de sua carreira, que ele escrevesse frases como "morra o cateretê!" para Monteiro Lobato. Ele descobriu o Brasil na Place Clichy, na França, ou seja, através da vivência no exterior é que conseguiu dar valor ao país.

Nunca ouvi falar de uma prova de mestrado que cobrasse O Rei da Vela. Oswald não é assim tão amado pela maioria da academia.

Oswald levou bomba num concurso para professor na USP. Triste destino, num país onde FHC, Lula e Caetano Veloso recolhem doutorados honoris causa aos punhados.






2 comentários:

fabio libertario disse...

Um texto que no geral se apresenta bastante bom; acho apenas que por vezes desce quase ao nível do pessoal na crítica ao Lobão. Não que não tenha ciência do quanto é difícil evitar, quando se trata de falar sobre a geração nóiacom de epígonos do Olavo de Carvalho. Mas peca se ´por descer ao nível deles, fanáticos desqualificados que só sabem, porque só podem, emitir um ponto de vista sobre alguém ou alguma coisa, desqualificando o seu objeto. Sua agressividade mal consegue esconder suas fragilidades e essa é sua função maior. É o legado que Olavo vai deixar lhes quando for habitar as esferas purgatoriais. Esse nivelamento por baixo, muito baixo mesmo afetou de alguma maneira o texto, mas não letalmente.

Revistacidadesol disse...

Ok, Fábio, obrigado.

O problema é que, mesmo querendo manter o nível, eu noto que o hangout e´justamente uma provocação dirigida a mim, daí a entrada abrupta de Mao Tsé Tung na conversa deles.
Sim, é o que vc falou: eu sinto isso tanto em Olavo quanto em Bertone SOusa. A agressividade é trazida para poder ocultar sua fragilidade.

Se o Lobo Bobo lesse o Oswald antimarxista, teria melhores argumentos do que as asneiras que vomita. Ele é tolo mesmo...ainda agora esteve numa passeata onde se pregava o golpe militar contra Dilma e se fez de desentendido: "naõ tem ninguém golpista aqui". É uma anta mesmo...

Att Lúcio Jr.