Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Gustavo Machado e Suas Mentiras : A Contrarrevolução de Veludo
Gustavo Machado do PSTU, marxólogo da trupo de Chasin e Ester Vaismann, apresenta certo sucesso debatendo com ancaps na internet. Gustavo domina bem a crítica da economia capitalista, ele vê o capitalismo com realismo e os seus opositores são, por excelência, ideólogos que propagandeiam o capitalismo em sua ideologia mais senso comum e desconhecedora da crítica. Aí fica fácil para o trotskismo de Gustavo brilhar.
1) O que Gustavo tem a oferecer é marxologia acadêmica e blá blá blá eleitoreiro do PSTU. Gustavo quer a revolução sem etapas, mas o que está fazendo PSTU há uns trinta anos na fase de eleger representantes para o processo eleitoral? Isso deve-se perguntar também aos antietapistas do PCB e da UP. Não estão ocupando espaços, fazendo acúmulo de forças como fala o PT, numa eterna etapa eleitoral que não leva a nada? Por que, afinal, o esforço parece contraproducente e o liberalismo é que acaba se impondo entre nossas fileiras?
2)TROTSKISMO NÃO É MARXISMO. Embora Gustavo Machado esconda isso muito bem, noto que alguns pontos surgem evidências disso. Gustavo não ressalta nem que somos colônia do imperialismo norte-americano, ele fala em imperialismo citando o texto de Lênin, mas de forma parcimoniosa. Marx ele adora, desbunda ao falar e faz da voz de Marx a sua voz, fazendo ventriloquismo e como se Marx não falasse em revolução democrática e somente sem etapas. Lênin o humor já salga. Stálin já chama de monstro e tudo o que faz é barbaridade. Machado parece conhecer melhor times de futebol argentinos do que Nahuel Moreno, inspirador da linha do PSTU, que ele jamais cita. Moreno, em determinado momento, apoiou peronismo e a revolução cubana, depois voltou atrás. Resta explicar.
3) Gustavo parece não ressaltar que Marx não conheceu os monopólios (que vigora hoje) e sim o capitalismo de livre concorrência. Se ele admitir isso, talvez terá que admitir que não basta ser especialista em Marx, Marx é insuficiente nesse ponto.
4) Machado pouco conhece de China e alega que é uma revolução que já começou burocratizada. Há relatos de que o PSTU foca em sindicatos ricos, da aristocracia do proletariado. E atua neles de forma a criar uma burocracia sindical. A perceção do senso comum a respeito é muito, mas muito ruim. Por isso convidei Adauto, um pstuísta que muito costumeiramente fluda os grupos de zap, a debater o filme "Sindicato de Ladrões".
Gorbachev esteve aí para mostrar o que é realmente um burocrata no poder. Pergunta-se muito o que seria Trotsky no poder, talvez fosse algo semelhante a Gorbachev, que no passado os trotskistas chegaram a chamar de trotkista, como mostrou Ludo Martens em A Contrarrevolução de Veludo. Expressão aliás ótima para defini-lo, contrarrevolucionário de punhos de renda, contrarrevolucionário de sorriso de canto de boca, sorriso mineiro, de veludo.
5) Machado diz mentiras quando diz que Stálin perguntou se uma usina atômica poderia funcionar sem falar em relatividade e física quântica. É burrice afirmar isso. Lênin já falava no tema em Materialismo e Empirocriticismo. Lênin adiantou, inclusive, a problemática de aquilo seria usado para detonar o materialismo. Gustavo aceita toda tranqueira anticomunista, até o HOLODOMOR, que acaba de ser desmistificado pelo maior especialista em fome no mundo, Mark Tauger, PARTICIPANDO NO BRASIL DE UM CANAL MAOISTA E REAFIRMANDO: A FOME NA UCRÃNIA OCORREU POR CAUSAS NATURAIS. Gustavo Machado sai agregando Soljenitisin, a quem ele considera ficção fonte primária em História (enquanto até a mulher de Soljenitisin já admitiu que é anedota e folclore de campo, tamanho o dano realizado contra a Rússia no Ocidente por esse livro). E olha que Machado estudou História!!!
6)Adauto do PSTu indica Frank Garcia, que e´um membro do PCC cubano, como teórico trotsko --na verdade, posadista. E que stalinismo é esse de Cuba que permite até encontro internacional apologético de trotskos? E que é um verdadeiro ninho de trotskos, tanto que até vocês do PSTU estavam lá no encontro mas não puderam falar? Que stalinismo é esse? Existe stalinismo soft?
7) Mesmo como economista, o trotskismo e esse trotsko são capengas. Já vi inúmeros problemas nos vídeos dele. Ele afirma que não existe teoria universal da história. E vc pode ler lá no Manifesto que existe, a história tem sido a história da luta de classes. Machado diz que não há método em Marx, mas no Ideologia Alemã vc pode ler que é o materialismo histórico. Machado diz que fetichismo da mercadoria não tem aspecto psicológico e sim somente social, mas é evidente que, sim, existe, reflete-se na valorização das coisas contra as pessoas, aspecto da mente reificada, chega ao ponto de sacrificar as coisas às pessoas. Mas há mais, há mais. Gustavo Machado debate-se com o desafio de manter a mentirada a respeito de Stálin e estudar os livros editados no período Stálin, nos anos 30 (Ideologia Alemã e outros). Para justificar, diz que não houve deturpação (ain, Stálin resistiu a deturpar?) e a deturpação teria partido do Editorial Vitória que publicou os textos aqui no passado e que agora estaria tudo resolvido com as traduções da Boitempo! É muita mistificação o tempo todo. Em outro vídeo, só porque Marx não escreveu:"está é minha teoria do valor-trabalho", Machado acredita que Marx não tem teoria do valor trabalho (aff). Ele devaneia pensando que Marx apenas postula que a teoria dele é a do Ricardo, o que o torna um vulgar liberal (loucura desmentida até nos próprios comentários do vídeo, olha o absurdo). Esse tipo de pensamento o filia diretamente a José Chasin, que nega o tríplice amálgama (o socialismo francês, economia inglesa e filosofia alemã como fundamento do marxismo). Sim, Chasin nega que esses sejam os fundmaentos do marxismo!!! Em outros momentos, vi Gustavo até utilizando o vocabulário de Chasin, falando em abstração irrazoável. Chasin e Ester Vaismann, nos anos 90, chamavam o PSTU de marxistmo gnóstico, ou seja, falso marxismo, seita religiosa e fanática de alienados organizada em torno do marxismo. Mudou o natal ou mudou o PSTU???
Sumarizando: para Gustavo Machado ter sido aceito como marxólogo, como outros do grupo de Chasin, primeiro beijou a cruz do anticomunismo. Um exemplo a sempre ser lembrado é Rubens Enderle, um do grupo mais saliente que, depois de traduzir O Capital e muitos textos para a Boitempo, indicado como pessoa de confiança de Ester Vaismann (segundo Ivana Jinkings em nota publicada na web), escreveu tese sobre Marx e, mesmo assim, converteu-se a filosofia anticomunista vulgar e fascistóide de Olavo de Carvalho. Ou não aprendeu absolutamente nada ou evoluiu para um anticomunista liberal assumido, jogando o palavrório de marxólogo acadêmico no lixo. E fez isso em vista de obter lugarzinhos rendosos, em prol de um individualismo burro, porque não é preciso de muito para saber como o vomitório fascista de Olavo é danoso.
Críticas a "Por que não sou marxista, de Frederico Krepe": A Épica dos Impotentes
1) Qum perguntou? Sabemos que Frederico Krepe é trabalhista do PDT lulista e adepto do Ciro por outro lado. Um homem que vive com os pés em duas canoas, duas variantes de oportunismo eleitoreiro. Por que diabos pipocaria na cabeça de alguém esta questão?? Krepe quer, na melhor das hipóteses reformas para o país. Na pior, algum cargo bem remunerado.
2)Toda a argumentação é construída em cima da ideia de "se o marxismo me satisfizesse filosoficamente, eu seria marxista." Isso é falso, visceralmente. A questão é vivência política no gerenciamento semicolonial, no oportunismo eleitoreiro, isso tudo lhe parece satisfatório. Não é problema filosófico do marxismo não levar Krepe a um orgasmo.
3)Krepe propõe uma loucura: ele quer cientificidade e abertura para o simbólico e a mística ao mesmo tempo. Ele cobra isso do marxismo. Krepe postula que sua mente tem apenas acesso indireto ao real. Para Krepe, a coisa em si é incognoscível, o númeno não coincide com o fenômeno (falta ler materialismo e empirocriticismo do Lênin). Outros revisionistas eleitoreiros oportunistas dão razão em parte a suas elocubrações, destas bestagens tão bestas (Jones Manoel, Heribaldo Maia). Heribaldo pensa que é correto ainda dizer que não temos acesso ao real e a coisa em si é incognoscível. Jones acredita que Lucien Goldmann e outros revisionistas resolveram esses problemas e que o simples evocar de seus nomes já traz algum tipo de exorcismo ou benção --e solução de alguma coisa. Jones devaneia, elocubra, mas não consegue entender o básico: o problema de Krepe é sua opção por reformar o capitalismo, mas se você ler O Capital você verá que ele não é reformável. Tudo o que é feito de bom em termos de reformas no tempo da bonança (direitos trabalhistas, aumento da classe média, estado de bem estar social) é desfeito no tempo da crise (com o agravante que agora, no século XX, crise redunda em fascismo por parte da burguesia).Krepe é, portanto, o liberal progressista que quer reformar o capitalismo selvagem em tempos de crise, em tempos em que ele será mais e mais selvagem. Ou seja, Krepe fracassará miseravelmente, quem sabe até em seu intento de adquirir lugares rendosos.
4) Quando está reclamando de pouca cientificidade, Krepe reclama que Marx debate ditadura do proletariado. Hora, hora, ela foi aplicada nos anos 30/50 por Mao e Stálin, logo procede sim, debater.
5) Isso no primeiro vídeo. No segundo, o mito do dogmatismo. Para Krepe, seria possível um físico dizer: sou ptolomaico, isso satisfaz minha crença de que estou no centro do mundo, minha visão de mundo. Ou Galileu dizer algo como: "não quero ser dogmático, então não posso dizer que a terra gira. Estou aberto aos argumentos de quem diz que está parada ou é plana". Krepe quer só amoitar a ideia de que todo cientista trabalha com uma hipótese e batalha por ela. E ao defendê-la, se ela for derrubada, outra pode ser criada a partir das críticas apresentadas.
6)Não tem nada, mas nada a ver não ser materialista e não ser marxista. Se você não é materialista, se você supõe que existem forças além da matéria, você pode especular sobre o sobrenatural. A dúvida que paira é se você pode exigir cientificidade se você em parte deixa de lado a possibilidade seriamente de conhecer a realidade objetiva. Krepe acredita que afasta essa ideia falando que é diferente ser naturalista e ser materialista. Mas creio que o ponto de Krepe é outro, é especular até que ponto o mundo que vemos é apenas criação de sua mente e das formas e predisposições da mente, se existe matéria anterior a ela ser aprendida pela nossa mente e outras considerações. Ou Krepe pode especular que, se pular da janela, alguma forma extramaterial pode te pegar pelo pé e te colocar de novo na janela. Por que não? Felizmente Krepe não é empirista ao ponto de experimentar algo assim, ele recusa o empirismo.
7) Krepe já se mostrou antistalinista ferrenho e recusa o Stálin com base na acusação lukacsiana de que ele é empirista. Mas Krepe parece confundir empirismo (a supremacia da experimentação sensível sobre o intelecto) com a capacidade efetiva de atuar e conhecer sobre o real a partir da experiência sensível, uma vez que existe a tal coisa em si misteriosa, o númenom não coincide com fenômeno. KREPE APENAS REPETE UMA ACUSAÇÃO A MARX QUE JÁ É FEITA A STALIN! Marx e Stálin, tudo a ver. Fica mais difícil negar que Stálin seja marxista e, além de ferrenho antistalinista, Krepe esteja agregando trotskismo para assim melhor negar o marxismo.
8) Acuado, Krepe recorre ao truque de separar Engels de Marx (em seus vídeos só há desses truques). Isso possibilita que tudo o que eu julgo errado atribua a Engels, o que está certo a Marx, sendo assim que me preservo de eu, euzinho, insignificante, estar tentando refutar o gênio. Estou como Trotsky, usando Marx de boneco de ventríloquo.
Enfim, Frederico Krepe não é marxista, é apenas um liberal progressista no tempo dos monopólios e do capitalismo apodrecido. É a famosa Épica dos Impotentes.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2025
Uma Carta para Elizabeth: Breve Romance de Sonho
Minha tia e madrinha Elizabeth Madeira Morais, para nós, da família, simplesmente Beth, fazia aniversário no natal. As belas luzes de natal em Bom Despacho esse ano me lembram dela e das luzes do filme De Olhos Bem Fechados, aliás baseado num romance chamado Breve Romance de Sonho, título que define bem a curta vida de minha tia Elizabeth. Beth era admiradora do cinema, com ela vi várias vezes o filme Sonhos, de Akira Kurosawa. Um tempo depois de seu falecimento, tive um sonho semelhante ao sonho do túnel apresentado no filme, onde eu e Beth nos encontrávamos e eu, de repente, tive de lhe explicar que não podíamos estar conversando, pois ela tinha morrido, o que a deixou assustada e constrangida.
Elizabeth foi professora de francês aqui na cidade e trabalhou, inclusive, na escola Wilson Lopes onde eu estou hoje, jornada que era uma longa caminhada para um bairro ermo. Muito tempo depois, meu tio Bil Morais investigou a origem de nossa família e encontrou, ligada a história do Major da Piraquara, uma suposta filha de Padre Belchior, nascida na França, Júlia, a francesa. Ela teria nascido de uma relação furtiva do padre e foi mencionada como uma figura importante da cidade de Bom Despacho em seus primórdios. Beth também era uma admiradora da cultura francesa. Ela deixou o magistério em francês para tornar-se bancária concursada na Minas Caixa, seguindo a carreira do pai, Mário Morais. Sendo assim, comprou apartamento em Belo Horizonte, mudou-se definitivamente para lá, num lugar bastante próximo da Praça da Liberdade. A decisão mostrou-se trágica devido aos desdobramentos: com o fim da Minas Caixa em 1990, saqueada por governantes inescrupulosos, o banco findou como quase todos os bancos estaduais (sobraram somente o Banestado e o Banrisul). E Beth foi transferida para uma repartição pública onde não se adaptou, fato que a angustiou e pode ter sido um gatilho para sua doença. Beth chegou a viajar para a França, deixando a respeito um diário, tema de uma crônica minha aqui. No diário da viagem da Europa, ela comenta que trouxe roupas da França para mim (eu tinha então dois anos). No texto ela devaneia se ainda voltaria mais vezes à França, mas nunca voltou, sua vida mostrou-se curta.
Beth faleceu já há trinta anos, aos quarenta e três anos; eu já vivi mais que ela. Sua vida foi cheia de tragédias, coincidências e de mistério. Na juventude, apaixonou-se por um amigo e o amigo morreu, logo em seguida, da mesma doença (câncer no cérebro) que anos depois a levaria. Beth acompanhou corajosamente todo o trágico processo. Foi um de seus únicos grandes amores; ela morreu solteira. Um de seus pedidos era que queimássemos seu diário íntimo (o da Europa felizmente ela permitiu que existisse) e assim foi feito, junto da amiga Madalena, naquela casa ali na Vigário Nicolau que, demolida, infelizmente deu lugar a um lote vago. Foi muito doloroso para nós da família, infelizmente: foi como ela se morresse ali de novo, naquele momento. Um dos discos que ela tinha acabado de comprar, em 1991, ano em que descobriu ter um câncer no cérebro, foi o álbum Burguesia, de Cazuza, que também é canto de cisne desse poeta e músico, também morto de uma doença incurável. Algumas canções, Cazuza gravou até na cama do hospital, para que vocês possam ter ideia. Ele cantou na canção Azul e Amarelo:
Senhores deuses me protejam, de tanta mágoa
Tô pronto para ir ao teu encontro
Mas não quero, não vou, eu não quero
Não quero, não vou, não quero
Existem também drogas pra dormir
E ver os perigos no meio do mar
O sono pesado, tudo meio drogado
Existem pessoas turvas, pessoas que gostam
E eu tô de azul e amarelo
azul e amarelo
Reencontrei, em um livro de poesia que ainda não editei (Violetas de Aleluia), um poema para Beth datado daquela época, com o mesmo nome que dei para essa coluna:
Uma Carta para Elizabeth
Então você caiu de cama,
Naquele dia em que o rei imaginário
Exibia seu pálido sorriso.
Vieram avalanches luminosas
Dominar a cidade...
Meu aniversário foi estranho,
Música e musgo na noite.
Mais cadáver do que nunca,
Não vejo novidade em viver nem em morrer,
O natal foi frio.
Você já esteve apaixonada em outros tempos,
Agora quando sente a leveza insustentável da pluma
Sabe que somos personagens da peça.
Tigres de papel sorrindo o tempo todo,
Todos estamos só ensaiando para quando cair o pano.
Mas por que só você não sai do palco e ri?
As lágrimas emudecem o sofá?
Sombras furtivas no eclipse
Procuram seu nome...
Minha tia Maria Lúcia Duarte Mateus definiu muito bem a Beth: “a Beth, ainda que tendo uma breve passagem por aqui, deixou marcante presença em muitas pessoas que passaram algum tempo com ela... Passava o ano inteiro escolhendo pequenos mimos pra distribuir na festa de Natal entre grandes e pequenos, idosos e crianças etc... Pessoa humilde e gigante em tudo que fazia.
Henrique Lelles: Luzes Para Um Campeão Aluno de escola pública em Bom Despacho é destaque na OBMEP
Henrique Lelles: Luzes Para Um Campeão
Aluno de escola pública em Bom Despacho é destaque na OBMEP
Henrique Lelles é meu aluno na escola Wilson Lopes do Couto. Há muito queria entrevistá-lo para o jornal, para tratarmos de suas vitórias. Enfim, sentamos, ele, eu, a mãe e a professora Miriam; a seguir está a nossa entrevista.
Sua história mostra como há males para que vem para bem. No caso, o mal foi a pandemia. Em 2021, Henrique, estudando no isolamento, estava no sétimo ano do Ensino Fundamental, tendo aulas com a dedicada professora Miriam. Ela continuou atendendo e tirando dúvidas pela internet. De início, não estávamos tendo aulas online. Empolgado com o apoio e sentindo facilidade, Henrique inscreveu-se na Olimpíada Brasileira das Escolas Públicas (OBMEP). E viu o trabalho conjunto dar frutos: foi aprovado e passou para a segunda fase. Rosimar Lelles Santos, a mãe, notando a importância da olimpíada, empenhou-se em que Henrique continuasse. E Henrique obteve, então, uma medalha de ouro na OBMEP e o direito de fazer o Projeto de Iniciação Científica Júnior (PIC). Foi bolsista durante um ano. Na foto, Henrique Lelles aparece junto a Sene Gebara Neto (coordenador regional da OBMEP). Em 2023, ano passado, Henrique já estava há dois anos fazendo o PIC e obteve novamente uma medalha de bronze na OBMEP nacional. Eles fizeram uma reclassificação e nosso aluno exemplar ganhou medalha de prata regional. Henrique ganhou então, uma viagem para Florianópolis, uma vez que ocorreu uma cerimônia de premiação nacional nessa cidade e depois, também, em uma regional em Divinópolis.
Em 2024 foram três novas medalhas, todas no mês de outubro (ouro e bronze nacional e prata regional). Ele também ganhou um troféu no curso de Oratória (Acibom). Ele e outro aluno, o Pedro Henrique Costa, ganharam o prêmio de melhor site no projeto Desenvolve (site para a padaria São Vicente). Parabéns, portanto, a todos os envolvidos: a dedicada professora Miriam, a mãe Rosimar, ao amigo Pedro e ao Henrique!
Eu Ainda Estou aqui --Ou não!
A esquerda revolucionária é a grande ausente ali --e ainda faz falta aqui. Os tempos heroicos da contracultura --outra ausência. Não é preciso mais ir para Londres para não virar revolucionária --como foi a intenção de Rubens Paiva fez com a filha Veroca. Rubens não era a favor da esquerda revolucionária.
Essa também é uma situação ausente hoje em dia: um trabalhista que radicaliza ao ponto de em alguma medida apoiar a esquerda revolucionária. O PTB, em parte, evoluiu para o fascismo --como Roberto Jefferson nos prova.
A sólida classe média do pai engenheiro --outra ausência. Ou se fazia a revolução ou se obtinha um emprego --se você fosse classe média --Outra ausência.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Quem sou eu?
Quem sou eu?
Por Canek Sánchez Guevara
Oaxaca (México)
Nasci em Havana em 1974, numa mansão em Miramar, na Quinta Avenida: enfim, no meio da Aristocracia, na esquina da Burguesia. A vida em casa, porém, era tudo menos burguesa. Além dos meus pais (Hilda Guevara Gadea e Alberto Sánchez Hernández), morava lá um grupo de guerrilheiros mexicanos que chegaram à ilha há alguns anos . Não eram Técnicos Estrangeiros nem nada parecido, eram uns malditos encrenqueiros que estavam em Cuba - digamos - sem terem sido convidados pelo governo (ou seja: sequestraram um avião no México e pousaram em Havana; para fazer a história curto ).
(Da esquerda para a direita: Hilda Gadea, primeira esposa de Ernesto "Che" Guevara e aquela que o apresentou às ideias comunistas, Ernesto "Che" Guevara e nos braços Hilda Guevara Gadea, mãe de Canek) --->
Acho que aí moravam naquela casa umas doze ou quinze pessoas, não sei - claro, minhas lembranças daquela época não são minhas, mas lembranças de lembranças de outras pessoas, lembranças de conversas, enfim. A dada altura, os rebeldes mexicanos (comunistas, anarquistas, socialistas libertários, sei lá) decidiram que esta realidade socialista estava longe do ideal de liberdade que tinham, por isso enviaram a realidade para o inferno e deixaram Cuba em busca da Ideia. (Lembro-me que alguns deles foram até convidados a deixar o país...). E lá fomos todos – eles me levaram, quero dizer – para a distante Itália.
Durante a década de 1970, a Itália era um foco de refugiados latino-americanos de todas as tendências esquerdistas. Não “refugiados” no sentido passivo do termo, mas militantes das suas respectivas causas no exílio. Havia argentinos, colombianos, nicaragüenses, salvadorenhos, peruanos e sim, mexicanos também. O que meus pais fizeram na Itália é algo que não diz respeito ao texto em questão, basta saber que quando me perguntam algo relacionado a canções infantis, eu sempre respondo: Bandiera Rossa... Sim, acho que Bandera Roja e La Internacional foram as primeiras músicas que aprendi quando criança. Lembro-me (não sei porquê) que naquela época usava sempre uma pulseira de couro preta com um punho verde azeitona pendurado no pescoço. Também tenho vagas lembranças (como flashes) do minúsculo apartamento em que morávamos em Milão. Sério minimalista...
Quando eu tinha cinco anos, minha mãe e eu voamos para Havana. Durante vários meses (e vocês sabem como é o tempo na Era das Crianças: um verão pode ser infinito e um ano inteiro apenas um segundo) moramos num apartamento num prédio novo, logo atrás do hotel Riviera. Na realidade eram dois edifícios, um deles denominado Microbrigada, com cerca de sete pisos, pequenas janelas e varandas ainda mais pequenas. E eu me diverti muito: havia tantas crianças com quem brincar, tanto sol e tanta vida...
Bom, naquele ano em Havana frequentei a pré-escola e, francamente, não tenho muitas lembranças da escola... Na verdade sim: lembro-me dos dias da vacinação (vocês não têm ideia de como eu era - sou - covarde em relação às injeções). Lembro-me também de um par de gêmeos (jimaguas) que juntos eram um verdadeiro desastre, e agora me vêm à mente as intermináveis repetições de exercícios caligráficos. Enfim, coisas pré-escolares.
Depois desse curso, minha mãe e eu viajamos para Barcelona para conhecer meu pai. Passaram-se alguns anos desde a morte de Francisco Franco (falo de 79 ou 80) e a esquerda estava, por assim dizer, libertada. Meus pais sempre colaboraram com sindicatos e diversas publicações, tanto jornais quanto revistas de esquerda. Eles colaboraram profundamente, quero dizer.
O fato é que cresci entre redações e manifestações de três dias; a sala escura de revelação e um show de rock; entre mesas de design e discussões intermináveis sobre o sujeito e objeto da revolução. Estudei o primeiro ano do ensino fundamental em uma escola bilíngue (espanhol-catalão) de acordo com o discurso libertário da época na Espanha: o resgate das Autonomias e de seus valores culturais, a começar pela língua, claro. Lembro-me dos meus amigos argentinos, filhos de refugiados amigos dos meus pais, e lembro-me também das discussões abertas que os adultos tiveram à mesa – e dos vinhos – sobre a revolução permanente, global, num só país, não sei ; e sempre citando nomes em russo, alemão, italiano ou francês (vamos lá, não me lembro do que estavam discutindo, mas do fato de discutir - algo que, claro, se tornou parte intrínseca do meu ser). Não entendi nada e, para ser sincero, também não me interessei: se o Batman luta pelo bem, com o que esses idiotas se importam, pensei...
O meu pai conseguiu regressar ao México quando o Presidente López Portillo emitiu uma amnistia geral para todos os envolvidos nos movimentos armados dos anos setenta. Minha mãe estava grávida de sete meses e eu tinha sete anos. (Aqui devo esclarecer que há apenas dois anos, quando saímos de Itália, pude dizer abertamente os nomes verdadeiros dos meus pais, sempre sujeitos ao rigor da clandestinidade. A minha família era então a companheira de viagem dos meus pais, e os seus nomes —os de todos eles—outros bem diferentes dos reais...) Meu irmão Camilo nasceu em Monterrey, cidade de onde é meu pai e no meio de sua grande família paterna, tão estrangeira e ao mesmo tempo acolhedora tempo: o desconhecido para mim.
Pouco antes do primeiro aniversário do meu irmão, nos mudamos para a Cidade do México – uma massa impressionante que contém um mundo incrível – e meus pais, por ironia ou sei lá o quê, me matricularam em uma escola chamada José Martí. Meu irmão era asmático e estudei um ano e meio naquela escola. (Sei que uma coisa não tem relação com a outra, só estou tentando resumir dois fatos em uma única frase). Camilo passou o segundo aniversário numa câmara de oxigênio do hospital perto da nossa casa, e a casa inteira media cerca de sete metros de comprimento por quatro de largura: a sala também era o quarto dos meus pais, com a cozinha de um lado, mal separada. perto de um bar ou de uma mesa, não me lembro. O banheiro micro-mini-nano e um cômodo estreito que Camilo e eu dividíamos completavam nossa casa.
Tive três bons amigos quando morei naquele lugar; Um deles morreu, não voltou das férias e quando perguntei a mãe dele, ela começou a chorar. Aí minha mãe me explicou. Foi meu primeiro contato com a morte. Perdi muitos amigos. (O confronto com a Morte, diz Savater, marca o início do pensamento nos humanos. Quando você pensa na morte pela primeira vez, na verdade você pensa pela primeira vez porque a morte desperta a consciência da vida, desperta o medo. e levanta questões também ...)
Concluí a escola primária na Cidade do México, numa pequena escola da qual guardo boas lembranças e onde fiz bons amigos. Naquela época morávamos na zona sul da cidade, num conjunto habitacional com quarenta e sete prédios, lembro bem. Ficava perto da Universidade Nacional, então alguns professores e pesquisadores daquela instituição moravam... com suas famílias, claro. Durante as ditaduras latino-americanas da década de 1970, o México acolheu muitas pessoas perseguidas politicamente de várias nacionalidades, especialmente argentinos e chilenos. Alguns deles encontraram trabalho na UNAM e alguns viviam em edifícios próximos ao meu. Na verdade, meu melhor amigo naquela época era um chileno de quem me lembro com muito carinho... desde então nos vimos algumas vezes, ainda somos amigos. Tínhamos um pacto entre nós, um segredo que ninguém mais deveria compartilhar: éramos comunistas... (isto é, sabíamos que havia algo diferente no nosso passado, na nossa história, e tínhamos a vaga ideia de que uma vaga o sentimento de justiça justificava essa diferença... Enfim, um trava-língua bastante infantil).
Minha mãe, meu irmão e eu fomos morar em Havana no verão de 1986 e logo depois ingressei no Colégio Carlos J. Finlay, na Línea e G, no coração de Vedado. Honestamente, foi um choque tremendo. Não tanto pelas diferenças tangíveis, materiais, mas pelas outras, pelo incorpóreo, pelas não-coisas: de utopia ou de conversa, a revolução tornou-se para mim uma realidade absoluta. Vamos nos entender, eu não entendia absolutamente nada da revolução, apenas sentia que ela era o cerne da nossa vida (da vida que vivi com minha família) e que era algo que só se falava em voz alta quando você estava em confiança. Na verdade, a minha relação familiar com Ernesto Guevara nasceu em Cuba, onde fui inevitavelmente batizado como neto de Che, e isso aos doze anos.
Foi-me difícil aprender a lidar com aquela suficiência revolucionária tão cheia de lacunas, com aquele discurso que se contradizia quando saí da sala de aula e com a maldita obsessão de alguns dos meus professores com a ideia de que eu tinha que ser o melhor. Por outro lado, lembro com especial carinho do meu professor de espanhol, a quem sempre agradecerei pela severidade com que revisou o meu trabalho; a um certo professor de Matemática com quem fiz amizade imediatamente, e a outro da mesma matéria, que era ao mesmo tempo sério e bem-humorado; Lembro-me de uma professora de Química com quem não aprendi muito mas gostei muito dela, e de uma professora de Fundamentos do Conhecimento Político que, involuntariamente, me fez pensar.
Ser neto de Che era extremamente difícil; Eu estava acostumada a ser apenas eu e de repente começaram a aparecer pessoas me dizendo como me comportar, o que devo fazer e o que não devo fazer, o que dizer e o que devo calar. Imagine, para um pré-anarquista como eu, isso era demais. Claro, insisti em fazer o oposto. Meus pais me criaram (assim como meus irmãos) com absoluta liberdade. Na verdade, às vezes penso que fui criado para ser desobediente... embora talvez esteja apenas procurando desculpas, não sei. A verdade é que logo comecei a me sentir incomodado com esta situação.
Morávamos num apartamento espaçoso e confortável (talvez o único inconveniente fosse que ficava no décimo segundo andar e o elevador raramente funcionava), mas bem longe da nomenklatura. Dos poucos contactos que tive com a "alta sociedade" cubana não tenho recordações memoráveis (e não incluo aqui os bons amigos que encontrei nessas camadas: poucos mas sinceros), excepto o gosto amargo que senti ao comparar as suas palavras e seu modo de vida com as palavras e a vida do chamado Povo. Mas eu era ainda adolescente, faço as avaliações agora, naquela época não entendia direito.
Não quero que passe pela sua cabeça a ideia de que fui uma criança superdotada ou algo parecido, fui simplesmente educado em análise, e a análise disse que algo estava errado. Digamos que ele soubesse sem compreender; ou que eu entendi sem saber ao certo o que diabos estava acontecendo ao meu redor. Porque eu não vivia fechado numa pequena bolha de vidro, de forma alguma. Meus amigos moravam no próprio Vedado, ou no Centro Habana, ou em Marianao, ou em Miramar, ou em Alta Habana, ou em Alamar ou em La Lisa. A minha vida não se limitou ao discurso oficial, embora tenha feito, consciente ou inconscientemente, parte desse discurso... Assisti a concertos de rock (semi-clandestinos mas tolerados... às vezes), vaguei pela cidade como um dos seus habitantes; Ele era jovem e, portanto, desconfiado. Suspeito de quê? Bem, sendo jovem, eu acho. Às vezes eles me paravam na rua e revistavam meus papéis e pertences, e uma vez revistaram minha bunda. Sério, lembro que estava na fila da Coppelia e um cara veio até mim vendendo comprimidos (psicotrópicos, claro). Eu disse a ele que não queria e assim que ele deu dois passos eles caíram em cima de mim. Levaram-me aos banheiros da sorveteria, obrigaram-me a me despir e a me agachar enquanto um deles, em seu uniforme civil (a eterna guayabera branca), olhava para fora para ver se havia algum comprimido saindo do meu ânus. .O que?obsessões da polícia...
Em suma, eu era apenas mais um cara peludo, "insatisfeito", "anti-social" e algo muito próximo - segundo os cânones policiais - de um vagabundo. Claro que não, mas isso não importava, e também assim que surgiu minha árvore genealógica, eles simplesmente me deixaram ir, mas não antes de me lembrar que essas não eram as atitudes esperadas de alguém como eu: Neto do Che não é que eu poderia frequentar tais empresas; Ou seja, que eu não me associe às pessoas, que não me contamine com elas. Comecei a entender que Pueblo é uma bela abstração que tem múltiplos usos, principalmente retóricos... Eu tinha uns quinze ou dezesseis anos e já havia abandonado o Pré.
Sim, como tantos outros estudantes da minha geração, abandonei a escola. Naveguei sob a bandeira do NadaMeImporta, entre outras coisas, para minimizar a minha importância ou, melhor ainda, para minimizar a imagem que se esperava de mim (se é que se esperava alguma coisa de mim neste momento). Durante esses anos adquiri o hábito de discutir, mesmo que superficialmente, sobre o real e o simbólico, sobre a substância e a forma, sobre a essência e a aparência. Comecei a me apaixonar por palavras e ideias. Fiquei apaixonado por Kafka e – admito com vergonha – o primeiro pensador que realmente “me alcançou” foi Schopenhauer, tão antitropical. Eu estava igualmente interessado no rock e no mito de Trotsky, nos dadaístas e no som eletrônico; e ao mesmo tempo, tudo não importava para mim. Fui um menino um tanto calado: não fiquei triste nem nada parecido, pelo contrário, sempre fui feliz; Quer dizer, era bastante introspectivo: Existencialista, disseram meus amigos mais velhos, e embora não estivesse muito claro para mim o que isso significava, gostei da palavrinha.
Comecei a me interessar por formas culturais, a ler sobre pintura e música, a mergulhar em romances e filmes, ensaios filosóficos e teorias artísticas; Não sei, basta pesquisar. A minha luta, começo a perceber, sempre foi cultural: digamos que o homem é um homem apesar de si mesmo, mas ele se torna plenamente humano acima do seu ser. Ser o que somos é natural; O cultural, então, é nos perguntarmos o que somos, para onde vamos e também de onde viemos. E quando digo que sou um homem “culto”, não me refiro ao sentido aristocrático que se esconde por trás do termo; Entendo por homem culto aquele que sabe que além da sua cultura existem outras, nem melhores nem piores, apenas diferentes. E em Cuba a ditadura também é cultural. Ou, sobretudo, talvez... (Lembro-me agora de um acontecimento que, como tantos cubanos, me marcou como um ferro em chamas. Refiro-me ao julgamento telenovela do General Arnaldo Ochoa, dos irmãos De la Guardia e de outros envolvidos no tráfico de drogas, marfim, diamantes e moeda.
Se uso o termo “novela” é apenas para acentuar a forma como a vivi: através da televisão, noite após noite, às oito horas, à espera de um desfecho que sabíamos de antemão, com a morbilidade exacerbada e aquele tom desagradável de inquisição que permeou todo o (pré)julgamento... Entendamos, não estou insinuando que esses homens eram inocentes, mas sim que seus superiores sabiam claramente de tais ações. Ninguém poderia imaginar (a menos que o cérebro deixasse muito espaço livre dentro da cavidade craniana) que o próprio Comandante não tivesse conhecimento de todo o assunto.
Evidentemente foi uma operação de Estado, como tantas outras que testemunhamos; uma operação destinada a obter preciosos dólares do governo cubano... Ninguém em sã consciência poderia aceitar tamanha loucura, tamanha farsa, tamanha piada de péssimo gosto. Porém, muita gente perdeu a cabeça nesses meses... Eles agiram como loucos, para dizer o bom cubano; Eles admitiram completamente a mentira judicial, mas o que mais poderiam fazer? Também não falei em voz alta o que pensava, discutimos entre amigos, nada mais.
Discutimos isso como um dos muitos temas que nos interessavam naquele momento: os peitos da Fulanita ou a festa de amanhã, a exibição de Metrópolis ou o show do Carlos Varela, não sei... Discutiu-se muito mas nada foi dito: Como expressar a ausência de expressão; aquele que silencia o indivíduo e o transforma em um zumbi falante?)
Mais tarde morei em El Cerro, num minúsculo apartamento a poucos quarteirões da Biblioteca Nacional, onde aliás trabalhei: restaurei livros. Esqueci de contar que entre os quinze e os dezessete anos fui aprendiz de fotógrafo, primeiro na Juventud Rebelde e depois no Granma (além de me aprofundar no que, com algum auto-elogio, se chama fotografia artística). Junto com alguns amigos editei uma pequena revista fotocopiada dedicada ao rock (alguns exemplares, nada mais) e comecei a escrever. Devo dizer que fiz tudo isso com a maior engenhosidade do mundo, não como parte de um plano diretor, mas com a espontaneidade do capricho. Interessei-me pelas vanguardas artísticas, culturais e estéticas, e também, claro, pelas ideológicas e políticas. Afundei em ismos, tenho que admitir. Comecei a me dedicar ao design gráfico, ao mesmo tempo em que fazia fotografia, compunha músicas e escrevia terríveis poemas “abstratos”. Tornei-me um bom leitor e, aos poucos, um editor.
Em 1996 deixei Cuba, um ano depois da morte da minha mãe e dez anos depois da minha chegada a Havana – o meu irmão deixou Cuba logo após a morte de Hilda. Saí com o coração partido e com as ideias mais confusas do que quando cheguei: morei lá dos doze aos vinte e dois anos. Eu me fiz em Cuba: amei e odiei como só se pode amar e odiar algo valioso, algo que é parte fundamental de alguém...
Agora moro na cidade de Oaxaca, no México, afastado voluntariamente da comunidade cubana neste país, e do exílio em geral – devo admitir, me canso da simples ideia de me dedicar a falar de Cuba: Estou interessado em muitas coisas. Sou designer, editor, às vezes promotor cultural ou crítico cultural, conforme o caso. Colaboro com algumas publicações culturais ou políticas; Continuo compondo músicas e me envolvendo em discussões artísticas. Estou editando uma revista cujo número 0 vai aparecer em breve (chama-se El Ocio Internacional e vai aparecer no papel e na internet ao mesmo tempo - avisarei): uma revista dedicada à análise e discussão cultural; E também estou escrevendo um romance, A Imortalidade do Caranguejo, do qual tenho cerca de 280 páginas. (Em 1996 publiquei um livrinho intitulado Diário de Yo - que para piorar não é nem diário -, texto que em breve colocarei online caso algum desavisado se interesse... A publicação foi realizada por um editora muito pequena que já desapareceu e, pelo que eu sei, não foi vendido um único exemplar, o que aumenta o meu orgulho anticapitalista... Heh.)
Quanto a mim... o que posso dizer? Sou apenas um egoísta que aspira ser um homem livre. Um egoísta que sabe que o egoísmo pertence a todos nós e que deve ser solidário para ser completo: ou seja, que a minha liberdade só é válida se a sua também for válida, se a minha liberdade não esmagar a sua liberdade ou a sua .para o meu... Como disseram os ---- Pistols: E eu sou anarquista...
14 de julho de 2006
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http://lisdb.blogspot.com/2006/03/clebres-pero-por-otra-cosa-7.html
Hilda Guevara (1956-1995).
A filha mais velha de "Ché" Guevara. Foi bibliotecária da Casa de las Américas em Havana (Cuba). Ernesto "Ché" Guevara conheceu Hilda Gadea no México em 1954, onde ela o doutrinou no marxismo; Casaram-se na Guatemala em 1955 e Hilda o apresentou a Raúl e Fidel Castro. Em 1956 nasceu sua filha primogênita, Hilda "Hildita" Guevara. Ele tinha 11 anos quando seu pai morreu na selva boliviana. Ele aparentemente viveu uma vida tranquila em Cuba, em um importante centro de propaganda oficial e ansiando por ver chegar “a face humana do comunismo”. Ele morreu aos 39 anos de um tumor cerebral. Numa famosa carta póstuma de Ché aos seus filhos, ele lhes disse: "Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poder dominar a técnica que lhes permite dominar a natureza. Lembrem-se que a revolução é o que importa e que cada um de nós , sozinho, não vale nada." Acima de tudo, ser sempre capaz de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário." Tenho aqui uma bela nota escrita de Cuba para o seu aniversário. Seu filho, o mexicano Canek Sánchez Guevara, neto mais velho de Che, diz: "A revolução em Cuba não foi democrática e também não é comunista agora,mas um capitalismo de estado vulgar também chamado de “fidelismo”.
domingo, 20 de outubro de 2024
Adélia Prado Lá em Casa: Gísila Couto
Adélia Prado Lá em Casa: Gísila Couto
Recentemente, a poeta, filósofa e romancista Adélia Prado ganhou dois prêmios muito importantes: Prêmio Machado de Assis e Prêmio Camões. Eu, tio Bil e mamãe fomos em busca de seus rastros em Divinópolis. Ao contrário do que pensávamos, Adélia Prado não é objeto de culto em sua cidade natal. Não havia cartazes, nem faixas ou pôsteres pelas ruas. No centro cultural ali ao lado da Catedral há uma frase em uma placa na entrada. Fomos, então, a uma livraria no shopping Bom Pastor. Os livros de poesia –que não estavam na vitrine, reparei-- dela estavam disponíveis em um combo, mas não sua prosa reunida.
Adélia Prado tem muita afinidade conosco. Como é de uma cidade vizinha, há sintonias com a poesia dela, que utiliza expressões coloquiais usadas por nós, tais como “é na mesma toada”, no sentido de “canto monótono”. E ela foi capa de revista aqui, graças ao meu amigo Alex “Musquito”, poeta autor de Arraial dos Lobos, hoje policial civil vivendo no Paraguai. A revista, infelizmente extinta, chamava-se Tipura, um verbo de origem banto que pode ter vários significados conforme a frase, o que chamamos “passe-partout”. Nessa época, Adélia protagonizou uma palestra na Academia Bom-Despachense de Letras. Alex gravou essa palestra em DVD, mas não consegui acesso a el. Ainda quero ter.
Cheguei a entrevistar Gísila em 2006, grande admirador de Adélia Prado, num artigo chamado Gísila Cecilane Couto: A Poesia Como Janela da Alma, num finado jornal local. Hoje ela utiliza mais o nome “Gísila Couto”. Gísila escreveu desde os quatorze anos. Em 1998 ela publicou o livro de poesias Eterna Procura. Gísila admira Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais. E sua poesia, conforme ela mesma disse, nasce do contato com a natureza. Gísila passa os textos para o irmão Iru, que lê e dá opiniões a respeito. Depois de Eterna Procura, Gísila publicou Janela dos Olhos. Depois que nasceu seu filho Gabriel, ela voltou-se para o público infanto-juvenil e publicou Fazendinha, livros de poemas em que fala do gato Toró e do cão Napoleão: “Napoleão é um cão muito esperto,/vigia toda a fazenda/e os animais, bem de perto./ Adora caçar com seu dono,/brincar com a criançada,/correr, pular/mas só não gosta do banho,/que às vezes, tem que tomar./Quando vê a água e o sabão,/corre logo para outra direção./Mas não tem jeito não, é só pulga que salta/do coitado do Napoleão”.
Gísila Couto, com a nossa Adélia Prado, é advogada, autora consagrada da Academia bom-despachense de Letras, empresária e autora de vários livros (Eterna Procura, Padre Júlio Maria de Lombarde e Rua do Céu). Nesse último livro, homenageou esse momento mágico em um poema no livro acima supracitado:
Adélia Prado lá em Casa
Da cidade mineira de Divinópolis para o mundo,
A escritora Adélia Prado. Contista de estilo único,
Cujos textos encantam pela forma que retratam
O cotidiano, pela espiritualidade e fé cristã
Que norteiam seus versos saídos do interior
De Minas para espalhar poesia mundo afora.
Poeta que embala suas poesias junto ao fogão,
Cozinhando, poetando, dizendo verdades,
Vasculhando, cutucando a vida na sua forma
Mais íntima. Adélia com suas poesias nos faz enxergar
O que o cotidiano às vezes nos oculta, recriando a vida com originalidade e lirismo, valorizando-a nos mínimos detalhes, sem ostracismo.
E do alto de sua generosidade, Adélia Prado nos honrou com sua ilustre presença na diplomação dos 22 fundadores da Academia Bom-despachense de Letras, no dia 10 de agosto de 2012, no Sesc/Laces Bom Despacho.
Momento de encantamento e magia, que contagiou a todos os presentes
Amantes da poesia e uma comunidade eclética
E vibrante que aplaudiu de pé a dama primeira da poesia primeira
Findado o evento no salão do Sesc, Adélia Prado
Nos presenteou com sua permanência entre nós
Por mais algum tempo, participando de um coquetel
Oferecido a ela pela Academia Bom-despachense
De Letras em minha residência
Guardo em minha memória com carinho:
Adélia Prado em minha casa, roda de viola,
Prosa da boa, cantoria até altas horas
E a alegria da confraternização entre Acadêmicos
E uma das maiores poetas do Brasil e do mundo,
Muito nos enriqueceu com sua presença entre nós
E os momentos mágicos foram eternizados
Na memória de cada um dos acadêmicos.
Hoje, aos 88 anos de idade, Adélia se faz representar nos eventos por sua filha. Gísila representa Bom Despacho com brilho e elegância, na luta, como ela mesmo escreveu em seu poema Realidade, que aqui relembro para fechar essa crônica: “somente a vontade, não mais do que a vontade, de vencer a batalha sangrenta da vida”.
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