Revista Cidade Sol
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
sábado, 20 de dezembro de 2025
Campo, Um Poderoso Fermento Revolucionário
O Campo, um Poderoso Fermento Revolucionário
- dezembro 19, 2025
Escrito Original Por: Partido Comunista Sol Rojo - Equador
Disponibilizado Por: A Nova Democracia
Tradução Por: Soichiro
A contradição principal de nosso tempo se desenrola entre o imperialismo de toda laia, especialmente, o ianque, e as nações oprimidas do mundo. As potências imperialistas competem e as vezes, conspiram para repartir territórios, recursos e rotas; no entanto, o jogo decisivo dessa contradição é o Terceiro Mundo, cenário onde se concentram as guerras, ocupações, bloqueios e contrarrevoluções. Aqui estão, entre outros, Palestina, Síria, Líbano e Yemen; Afeganistão, Iraque e Líbia; Sudão e Sudão do Sul, Etiópia e Somália no Chifre da África; Mali, Nigéria e Burkina Faso; a República Democrática do Congo e Moçambique; o Saara Ocidental e Haiti. Na Ásia se estendem conflitos e resistências em Mianmar, Bangladesh, Paquistão, Índia, Filipinas e Papua Nova Guiné; na Ásia Ocidental sediam Irã, e na Turquia e Curdistão persiste com suas guerras multiformes ou híbridas. Na América Latina os tambores de guerra, sanções e ingerências retomam sobre Cuba, México e Venezuela, a militarização e a guerra interna atravessam Colômbia, Peru, Equador, Haiti e amplas faixas da América Central e o cenário náutico de convergência no Caribe.
Nesse quadro, as guerras populares que apontam ao Poder como as que desenvolvem na Índia, Turquia, Filipinas e no Peru; e as guerras de libertação nacional em outros países, expressam uma lei inelutável: onde o imperialismo estrangula e embate, as massas aprendem no curso da guerra a combater, levantando as bandeiras da guerra justa contra a guerra injusta. Em muitos lugares, armadas de maneira precária e rudimentar, as massas transbordantes de otimismo põem o peito e a cota à ameaça nuclear, tecnológica e numérica que o imperialismo pretende aplicar factualmente. Nesse sentido, nos corresponde converter a indignação em organização, a defesa em ofensiva e a crise em oportunidade estratégica para abrir um passo à derrota do imperialismo e seus lacaios, e impor a Nova Democracia, que é a ditadura conjunta de operários-camponeses e pequena burguesia, sendo centro o proletariado: e, sobre suas conquistas e transformações, ao socialismo.
Sujeitos à essa análise, podemos entender da melhor maneira a agressiva presença do imperialismo ianque na América Central e Sul; : sua ameaça de invadir Venezuela, estrangular a Colômbia e pôr em funcionamento, a seu favor, a máquina latifundiária do velho Estado do Equador, em um contexto de luta que mantém com Rússia e China e, de fato, com alguns países da Europa.
Nesta ofensiva ianque, o Equador, e nele, o governo fantoche de Noboa, é um papel importante na medula desse esquema. Não é gratuito o processo de fascistização de Noboa, suas pretensões legais para reformar ou gerar uma nova constituição, cujo o centro é apoiar a presença de bases militares estrangeiras (não russa, chinesa, ou de qualquer outro país, aspecto que também será rechaçado e combatido), senão ianque, especificamente; entretanto conceder super poderes ao governo e as FFAA, que, precisamente neste momento, são absolutamente controlados pelos EUA e Israel.
Quando aprendemos que Noboa é fascista e marionete, nos redimimos aos fatos; sobretudo, marionete, porque sua condição de fascista deriva de sua posição servil ao imperialismo. Basta ver que, pela primeira vez, Equador, dá mão a Cancillería, dirigida por um agente do sionismo internacional, se absteve ante a ONU de votar contra o criminoso bloqueio a Cuba; mas isso sim, declarou a Hamas, Hezbollah e a Guarda Revolucionária do Irã como organizações “terroristas” seguindo o mandato dos EUA.
Isto deve entender em sua verdadeira dimensão: servilismo, testa de ferro político de Noboa e, sobretudo, a crescente incidência política dos EUA no país. É dizer, pouco a pouco que estamos perdendo essa relativa independência política que acreditam que temos e que nos caracteriza como um país semicolonial/semifeudal.
O Equador atual é uma sociedade semicolonial e semifeudal. Quando dizemos que é semifeudal, não estamos dizendo que não tem capitalismo; o que queremos dizer é que o imperialismo se desenvolveu, de maneira tardia, um capitalismo atado aos interesses dos grandes latifundiários na segunda metade do século XIX; que isso, antes e hoje, não tem intenção alguma de eliminar esses remanescentes feudais, senão de evolui-los a novas formas. Capitalismo (burocrático) que não desenvolve as forças produtivas, que fomenta a indústria nacional, mas sim que é entregue ao imperialismo, fundamentalmente ianque. Que é quem delineia as formas e relações de produções próximos a seus interesses.
Esse capitalismo está em crise, doente, manco, cujas contradições não se resolvem pensando em “levantes” ou rebeliões circunstanciais, conjunturais, mas também com um programa e processo revolucionário profundo, dilatado, com correta direção ideológica e com guerra popular.
Entender isto é fundamental para uma apropriada compressão das dinâmicas de luta no país, particularmente no campo, onde o papel do campesinato pobre tem sido determinante, sobretudo nos três últimos levantes populares.
Nós, os comunistas, não concebemos a sociedade como um todo delimitado por raças, grupos étnicos, nacionalidades ou de atores que promovem as reivindicações de gênero. Nós concebemos a sociedade a partir de uma análise materialista histórico-dialético e que, por ele, prevalecerá sempre a análise de classe: sua composição, campos e contradições. Nesse sentido, observamos camponeses e sua relação com os meios de produção; as relações de produção; no fato de que, na atualidade, alguns camponeses que estão alinhados com reivindicações étnicas, sendo o principal, sua condição de camponês pobre, sem-terra; outros que, de lavrar terra alheios, também se tornam, eventualmente em mineradores artesanais; aspectos que determinam a particularidade e diversidade de centros de contradição no âmbito produtivo. Entendemos que, ao não se haver materializado a revolução democrática-burguesa de velho tipo; o campesinato pobre é a classe que se torna a mais explorada já que está imerso e atrelado a relações de produção pré-capitalistas ou, dizendo de maneira mais clara, feudais e semifeudais.
Com esses antecedentes queremos centrar-se em aspectos contextuais do país.
Tem culminado o levante indígena-popular depois de 31 dias de crítica e incansável luta; uma briga na qual as massas, se mobiliza-se, tem posto sua gota de sangue: mortos, feridos, mutilados; além do mais, detidos e perseguidos.
Igual nos levantes de 2019 e 2022, as massas camponesas foram a força principal da mobilização, acompanhadas por operários, estudantes, comerciantes e setores populares que se rebelaram com determinação contra governos que, como o atual, tem ignorado os interesses da grande maioria. É bom dizer, que nessas rebeliões, o campesinato tem sido a força principal.
Esse ciclo demonstra que o campo continua sendo um “poderoso fermento revolucionário” e que, ao estabelecer correta aliança de classes com operários e demais massas exploradas, nesses contextos e formas de luta, se converte em uma força capaz de desestabilizar o velho Estado.
A combatividade das bases do movimento indígena-camponês, mas além do discurso etnocultural da direção oportunista que tem focalizado o vórtice das contradições existentes no campo na pluriculturalidade, os direitos coletivos e a defesa do “território”, subsumindo a contradição principal: massas-semifeudalidade, que tem rosto e voz própria: camponeses sem terra ou com pouca de mal qualidade; produção artesanal como estratégia de subsistência; mutação cíclica do campesinato pobre em semiproletariado na miséria informal, servilismo, expropriação de terras e migração forçada. Todas, expressões na mais abjeta semifeudalidade que mantém o campesinato, seja este “indígena” ou não ao limite da rebelião.
Isso é o que tem que ver e processar. O movimento indígena, incentivado por sua direção, fala de “territorialidade”; no entanto, em seu seio coexistem latifúndios e minifúndios: tem terras em mãos de membros da comunidade, mas também grandes extensões controladas por latifundiários nacionais e estrangeiros. Curiosamente, os indígenas/camponeses que habitam os chamados 'territórios', que na verdade são propriedades privadas, minifundios, são os peões, lavradores, e trabalhadores dos grandes latifúndios que estão dentro dessas circunstâncias.
O latifundiarismo, no lugar de diminuir se tem incrementado. Há exemplos de sobra: o consórcio dos Wong, ex-ministro do interior de Noboa, concentra ao redor de 30.000 hectares em Guayas (Marcelino Maridueña); em Esmeraldas e Santo Domingo dos Tsáchilas com cerca de 300.000 hectares de dendezeiro estão em mãos de um punhado de proprietários; o consórcio Nobis, do próprio Noboa, possue terras em distintos pontos do país; a açucareira Valdez administra cerca de 10.000 hectares; além de extensas fazendas bananeiras. Em Cotopaxi, Aglomerados Cotopaxi e Durini somam aproximadamente 19.000 hectares em pleno coração do que a CONAIE denomina “territórios indígenas”. A isso se adiciona os milhares de hectares da fazenda Fukurama, sim, a mesma denunciada por práticas de escravidão em pleno século XXI. Os jornalistas, aconchegados, arrendatários e trabalhadores que trabalham nestes prédios costumam estar submetidos a relações de trabalho de corte feudal ou semifeudal.
Os pescadores de camarão têm em seu poder 233.000 hectares, a mesma quantidade de terras com as que tem 1.800.000 camponeses pobres. A este “fenômeno”, devemos somar os milhões de hectares entregadas as grandes empresas mineradoras; veículo que tem gerado uma nova corrente de latifundiários vinculados a estas transnacionais da mineração, cenários onde as massas camponesas pobres são despojadas violentamente de suas pequenas parcelas, além do mais, são quem põe o trabalho, e também a vida, ante os desaforos e violência estatal, para estatal e assassinos.
Além da alta concentração extrema da terra: prédios individuais ou consorciados de 10.000, 20.000 ou 30.000 hectares apresenta a monocultura e controle de cadeias completas: cana, coco, banana e florestas com integração vertical (terra-processamento-exportação).
Cenários com relações trabalhistas precárias ou servis: pago por tarefa, terceirização, endividamento com lojas internas, vivendo dentro de fazendas e imigrações forçadas. Recrutamento forçado de camponeses para trabalhar na mina; arrendamento de terra e trabalho sob a modalidade de “ao partir”. Controle de bens comuns e servidões: acúmulo de água, caminhos e servidões de passagem como segurança privada e criminalização de protesto. Captura reguladora e fiscal: vantagens normativas e logísticas que reforçam a concentração e dificultam a reforma agrária real.
Estes dados, somados aos casos concretos citados, mostram que o problema não é só de “territorialidade” como consigna geral, vazia; senão de poder de classe sobre a terra e o trabalho, expressado em um regime que reproduz relações feudais e semifeudais em pleno século XXI.
É essa questão que se deve preocupar a direção do movimento indígena, de que os camponeses vivem em condições precárias, que isso tem que eliminar, e que não se faz com consultas, com votos ou no casebre da Assembleia, não, impossível, isso se faz com violência revolucionária. Tem que acabar com o poder coronelista e para fazê-lo, tem que combater todas as formas de seus representantes, os caciques locais, aqueles camponeses vendidos ao coronelismo que são quem reproduzem o velho Estado nas relações de produção e os executores diretos dos processos de corporativização das massas camponesas.
Nesse contexto, urge reconhecer que, ante a ausência da correta linha ideológica, a luta camponesa, sem rejeitar sua constância, sobre tudo em torno à necessidade de resolver o problema agrário, tem um certo caráter espontâneo, muitas vezes estimulado pela sua direção, a mesma que historicamente tem demonstrado que, além de traidora e oportunista, tem agenda própria, sem mais norte que o eleitoralismo e a burocratização do movimento indígena-indígena-camponês. Além, própria da incidência do trotskismo, sustentando por Iza e seus colaboradores, promovendo a ideia de lançar o movimento indígena a jornadas “insurrecionais”; pois consideram que é o mecanismo e forma de luta que permitiria que essas massas “conquistem o poder”. É algo assim como pretender seguir o caminho russo combinado com eleitoralismo e oras mentiras burocráticas.
O último levante indígena-popular, como os anteriores, foi traído por sua direção; desta vez sob o mando de Marlon Vargas, um instável e covarde representante de uma plêiade de dirigentes que tem tido a mesma folha de rota: inicialmente com discurso radical, incendiário; posteriormente, amigável, conciliador com o governo e as classes dominantes, e o corolário, a cereja do bolo, terminam como candidatos presidenciais!
Toda esta verborreia vai da mão de um “projeto” centrado no “comunismo indo-americano”, uma mentira que descontextualiza Mariátegui que se apresenta como uma releitura “originária” do marxismo para América Latina que privilegia o indígena/andino como núcleo civilizatório, que toma elementos soltos do Amauta, do indigenismo e do comunistarismo andino, e os combina com agendas que tratam de buscar programa no passado; que absurdamente desloca o eixo da luta de classes para uma identidade étnico-cultural, mistifica a “comunista originária” como forma superior 'pré-capitalista' e resolve examinar suas contradições internas (patriarcais, hierárquicas (caciques), mercantilização crescente). Sem crítica dessas relações, o “retorno ao comunitário” funciona como romanticismo restauracionista. Um comunismo “nem desenho nem cópia” que emite no seu núcleo, o fundamental: revolução agrária e socialista dirigida pela classe trabalhadora em aliança com o campesinato indígena.
Nesta ocasião, Vargas, com o pretexto de “salvar a vida dos manifestantes” e de “preparar a campanha pelo NO na consulta popular”, desmobilizou as massas e as arremessou, uma vez mais, ao chiqueiro eleitoreiro. Não atuou só: contou com o apoio cúmplice de Lourdes Tibán, desde a Prefeitura de Cotopaxi, e de outros atores “indígenas” de ideologia domesticada que repetem, de forma cacofônica, que “só com trabalho podemos fazer com que o país melhore”.
Estes cachorros do velho Estado substituíram o levante popular, pela campanha eleitoreira do NO na consulta popular. Temos que combatê-los, sem lugar às dúvidas.
Por sua parte, o governo de Noboa, fascista, entreguista e tremendamente violento, tinha utilizado meios, táticas e estratégias vezes vistos para reprimir o povo. Já se tinha indicado: Noboa tinha convertido o Equador em um laboratório da nova linha militar do imperialismo com suporte sionista para neutralizar a insurreição e as lutas populares nos países do Terceiro Mundo. Não tinha economizado em bombardear com artilharia e aviões de guerra seus objetivos militares, como sucedeu em Imbabura e Azuay; mobilizar milhares de tropas escoltadas por veículos blindados, helicópteros de guerra e demais equipamentos militar para combater massas basicamente armadas com fogos de artifício, pedras e paus: expressões, sim, de luta, mas que, como sempre, resultam insuficientes para enfrentar a um inimigo que, sem consideração, reprime abjetamente o povo, sempre com o anúncio de dirigentes revisionistas e/ou oportunistas que tem servido de catalisadores para corporativizar às massas utilizando um grosseiro, e em certo modo, efetivo populismo baseado em bônus, dias de feriado no trabalho, presente de porcos, sorteio de veículos nos motins que organiza; e outras bugigangas que lembram as épocas do colonialismo espanhol, onde o espaço de então, tinha vindo em “bônus”.
Hoje o velho Estado burocrático-latifundiário, sob o governo de Daniel Noboa, expressão concentrada da burguesia compradora e dos grandes latifundiários, se recompõe subordinado aos interesses do imperialismo ianque e do capital comercial e de intermediação financeira israelense.
O país opera como lugar estratégico: logística militar, inteligência, penetração econômica e tecnológica. Não se trata de uma “desviação” conjuntural, senão de uma forma concreta de dominação semicolonial e de transição corporativa.
O imperialismo exige “estabilidade”, “segurança” e “controle social” para sua expansão. Daqui as reformas de Noboa: incremento do IVA, eliminação de subsídios, privatização de setores estratégicos e endurecimento repressivo sob a retórica de “segurança nacional”, “luta contra o terrorismo” e a convocatória a uma nova Constituinte convertida, desde já, em um “cheque em branco” para o imperialismo e a reação. A atual constituição pouco ou nada serve às massas; muito menos à reação, eles, a reação, requerem uma constituição que avalie e projete o que já estão fazendo, um processo de militarização da velha sociedade onde o executivo e as FFAA contem com todo o Poder coercitivo e repressivo. Estas medidas correspondem a um reajuste geral corporativo do Estado nos planos econômico, político e ideológico.
À ditadura de grandes latifundiários e grandes burgueses não lhe alcança bombardear dentro do país, reprimir, matar, encarcerar, perseguir e subornar pessoas; também necessita enche mão de seu discurso eleitoreiro. Agora combinam a violência e a repressão com a farsa eleitoral. Querem fazer-nos acreditar que, com a consulta popular, o povo escolherá uma nova Constituição, quando não é senão a expressão concentrada da política do velho Estado, do capitalismo burocrático e do imperialismo. Não é nada mais que isso.
O que o povo recebeu com a Constituição de 2008? Nada! Como sempre nos explorado, oprimido, agredido e violentado; além disso, nós temos sufocados em sangue e nós temos visto forçados a migrar ou a morrer no intento. Agora nos querem impor outra Constituição. Mudará com relação à anterior? Possivelmente em suas formas, mas não corresponde ao proletariado, ao campesinato pobre é às demais massas exploradas avaliar um instrumento político que legítima ao velho Estado e o apresenta em sua versão mais “sutil” no terreno do sistema de governo. Povo do Equador, lembra: assistir às urnas, seja para escolher autoridades ou para uma nova Constituição, só avalia o atuado por todos os governos, particularmente por este último, sustentado na violência imperialista, a mentira e governar em função dos interesses da grande burguesia e dos grandes latifundiários
O problema da constituinte não é um problema das massas; é um assunto das contradições inter-burguesas levado ao plano popular. Nós não negociamos a nossos mortos nas urnas nem caímos no papo dos oportunistas, dos eleitoreiros e dos vendedores de votos. Fortalecemos a organização, lutemos, preparemos e desenvolveremos a guerra popular: é o que devemos fazer.
Não podemos nem devemos garantir o velho sistema eleitoreiro do país; não devemos participar na consulta, pelo contrário, devemos boicota-la. É algo que compromete aos princípios; é não fomentar um velho sistema de governo que nos faz acreditar que, participando nele, estamos definindo ou marcando as pautas da participação popular nos desígnios de um Estado que não nos pertence.
Nessa perspectiva, o levante reabre mais uma vez o caminho histórico que deve ser qualificada da melhor maneira: cercar as cidades desde o campo.
As jornadas em Imbabura, Cotopaxi, Chimborazo e Loja mostram uma aprendizagem profunda e já exposta em outras ocasiões: tem que destruir os “Kurakas”, os “caciques” da direção das organizações camponesas-populares e conceder as massas um instrumento que se ponha a frente de suas lutas, instrumento que não pode ser outro senão o Partido Comunista de Novo Tipo, que, sem rodeios nem cálculos oportunistas, impede toda a decomposição que envolve o campo popular.
Estabelecer uma aliança de classe correta não significa negar as particularidades, e sim reconhecê-las e convertê-las em um organismo concreto e operativo, capaz de encarar as contradições que o governo gera e exacerba estruturalmente, e de avançar para a resolução das contradições fundamentais: nação contra o imperialismo; massas e campesinato contra à semifeudalidade e o coronelismo; e o povo contra o capitalismo burocrático da grande burguesia. Tudo isso sem perder de vista a colisão e luta entre burguesia compradora, hoje personificada por Noboa, e a burguesia burocrática, o Correísmo, cenário na qual se tem arrastado às massas, desviando-as de seus objetivos históricos. Tem que entender. As reivindicações indígenas não podem seguir nas mãos da direção ideológica da pequena burguesia, ou do nacionalismo burguês, é e será, sem lugar às dúvidas, uma tarefa do proletariado. A burguesia tem caducado como classe encarregada de levar as tarefas democráticas que compromete o indígena e o campesinato em geral; essa tarefa só pode ser concluída na revolução de Nova Democracia, transição ao socialismo.
Povo do Equador: temos entrado em etapa de inflexão, carregada de nós críticos que freiam ou entorpecem as tarefas necessárias para abrir um passo à revolução de Nova Democracia. Não podemos seguir endossando o esforço vital das massas à oportunistas e traidores. A direção da CONAIE, Pachakutik e os sindicatos centrais tem reiterado, sem vergonha nem consequência, sua traição em favor do velho Estado; tem sido um dos obstáculos mais sérios para que se desate a tormenta da guerra popular de operários e camponeses. Nos interessa desmascara-los, localiza-los onde estão e destruí-los. Já disse o magistral Presidente Gonzalo: “arranquemos as ervas venenosas... expulsaremos essas sinistras víboras... estouremos esse pus, senão o veneno se espalhará. Venenos, purulência, devemos destruí-los.”
O momento é difícil, sim, mas nós sustentamos um otimismo histórico que desborda travas e dificuldades. A rota é sinuosa e exige confrontar sem titubear ao inimigo: imperialismo, grande burguesia e grandes latifundiários, e também a seus operadores internos: caciques, oportunistas e revisionistas. A esta altura, nada fica fora do mapa: todos são peças da estratégia global do imperialismo e seus lacaios para manter o povo oprimido e explorado.
Não arrastaremos às massas à mobilização sem uma classe dirigente nem uma ideologia que trazem o rumo. É inviável persistir em discursos frustrantes sobre “direitos coletivos” ou em saídas eleitoralistas que maquiam o continuísmo e conjuram qualquer transformação de fundo. Não se trata de “indianizar” o comunismo, mas sim de proletarizar ideologicamente o movimento indígena para, em sua agenda nacional, se considerem as contradições de classe existentes; que suas reivindicações se articulem com as de operários, camponeses e demais setores populares; só assim as lutas estruturais deixaram de ser explosões episódicas e se converteram em processos sustentados por mobilização, militarização e combate.
Temos um cenário político favorável para a revolução. As condições históricas estão em seu ponto: devemos aproveitá-las. Devemos resolver todos os problemas políticos que teremos na frente com a luta armada: não tem outro caminho; é o que nos convém fazer.
Sem um Partido Comunista que organize, eduque e conduza, toda ação, pelo contexto que for, ficará atrepada no corporativismo administrado por uma direção oportunista. Se impõe construir uma direção capaz de converter o descontentamento em programa, o programa em organização e a organização em uma força avassaladora nucleada no Partido Comunista de Novo Tipo; na Frente e, obviamente no Exército Popular, a forma mais importante e decidida para que, com a guerra popular, avançaremos ao comunismo.
O PROLETARIADO É A CLASSE FUNDAMENTAL DA REVOLUÇÃO!
O CAMPESINATO, É A FORÇA PRINCIPAL DA REVOLUÇÃO DE NOVA DEMOCRACIA!
SEM UM EXÉRCITO POPULAR, NADA TEM O POVO!
VIVA O MARXISMO-LENINISMO-MAOÍSMO-PENSAMENTO GONZALO!
POVO DO EQUADOR, NÃO VOTAR NA CONSULTA POPULAR!
PREPARAR E DESENVOLVER A GUERRA POPULAR!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Notas
Notas Sobre a Frente Única em 2026
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
A tese da frente de esquerda para 2026, com todos partidos apoiando Lula já no segundo turno tem sido um bizarro postulado que passou a circular em artigos recentes da esquerda governista (Altman, Arcary). O termo que se usa é frente única –e que traz os haustos malévolos de Trotsky. A política de Trotsky nunca foi essa de fato, segundo o historiador Grover Furr. Trotsky de boca falava em defesa da URSS, mas secretamente aliou-se a nazistas e imperialistas japoneses. Há muitas evidências recolhidas no texto Evidências da Colaboração de Trotsky com Nazistas e Japoneses. Recentemente Gustavo Machado do PSTU alegou que prefere Hitler a Stálin, revelando novamente essa faceta –ele não deturpa Trotsky, é fidelíssimo a ele.
A argumentação de Valério Arcary para postular o apoio de toda esquerda institucional a Lula já no primeiro turno (ou seja, PCB, PC do B, PCO, PSTU, PCBR, etc) numa frente gira em torno da necessidade não de um programa a ser cumprido, mas da necessidade de derrotar a extrema-direita bolsonarista. Essa alegação tem justificado a adoção do mesmo programa neoliberal, mas sem o “avatar” fascista. E quanto mais se aplica o programa neoliberal, mais a sociedade é empurrada para o fascismo, mais se esgarça o tecido social. A tendência é encarceramento em massa estilo Nagib Bukele em El Salvador.
Che Guevara postulou que a luta institucional deve ser levada até o final, esgotada, para então deixar de ser a luta principal. No entanto, ele e Castro não participaram das eleições de dezembro de 1958 organizadas por Batista –e ainda ameaçaram de morte os candidatos Carlos Marques Sterling e Ramon Eros Grau, pois Castro em especial sempre praticou o assassinato de seus rivais políticos, como era corrente em sua geração, segundo Enrique Ros, no livro Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre.
Em primeiro, a frente só tem sentido para quem está na etapa do acúmulo, ou seja, numa fase em que se está fazendo quadros para obter reformas no velho estado. Estranhamente, boa parte dessas organizações e mesmo a Revolução Brasileira renega quaisquer etapas –mas está eternamente na etapa eleitoral ou, como no caso da RB, do nacionalismo revolucionário! Se nacional-desenvolvimento não resolve nada, se só a revolução socialista salva, porque perder tempo com nacionalismo revolucionário? PC do B não utiliza o termo maldito “etapas”, mas fala em defesa do “nacionalismo-socialismo” (!) Não é nada mais que do propor desenvolver capitalismo selvagem.
A seguir Arcary elenca vários outros pontos: processos positivos tais como aumento do consumo popular e diminuição da pobreza extrema, isenção de imposto de renda – e tudo apesar das taxas de juros reais mais altas do mundo! Arcary fala em “respostas atrasadas” do PT diante da PEC da blindagem. Mas na prática, parte do PT apoiou a PEC e chamou-a “pec das prerrogativas”! O texto segue confiando em “pesquisas de opinião” –outro ponto que é preciso desmistificar, pesquisas são manipulatórias, a classe trabalhadora entende como “corrida de cavalos”. A linha correta é boicotar 2026 e organizar frente única em prol de uma democracia mais evoluída, uma nova democracia, é priorizar outras lutas como fizeram os anarquistas do Movimento Passe Livre. A luta eleitoral está falida.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Sou ex-petista
Sou ex-petista. Fui vereador pelo PT de 2021 a 2024, o mais jovem na história da minha cidade, e candidato à prefeito pelo PT na última eleição em 2024, no Município de Carmo do Cajuru-MG. Na candidatura ao Executivo, embora tivéssemos uma boa desenvoltura para a nossa campanha, nos defrontamos com o antipetismo no seio da classe trabalhadora. Discordo absolutamente do Breno. O antipetismo se consolidou na classe trabalhadora, que se sente traída por Lula e pelo PT. Ou seja, o antipetismo tem razão de existir, não só por causa da campanha burguesa esperada de combate ao partido, mas principalmente por causa da adesão do PT ao neoliberalismo, que representa a deterioração progressiva das condições de vida do trabalhador e a redução dos seus horizontes. Essa escolha é uma incoerência, uma contradição irreconciliável, percebida pela consciência popular.
Como resultado, os petistas são cada vez mais uma parte diminuta e desmobilizada do eleitorado. Cheguei a conclusão após a campanha que não há qualquer possibilidade de disputar a consciência popular estando no PT. Essa “pátria petista” que Breno descreve não existe mais. O que existe é uma admiração da figura do Lula, mas que é totalmente despolitizada, desprovida, por escolha do próprio, de qualquer sentido de transformação profunda da realidade brasileira. Pelo contrário, o PT fez uma opção explícita pela adesão ao neoliberalismo, que é sentida pela povo como uma ideia de que o PT é parte do sistema, e não uma mudança. Encontrei, enfim, imensas dificuldades para que nossa candidatura fosse aceita, justamente por carregar o símbolo do PT, não só por parte da classe média, mas também por parte dos trabalhadores. Senti na pele que é falsa e ilusória essa ideia do Breno de disputar pela esquerda o que sobrou dessa “pátria petista”.
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Bom, após o resultado pífio das eleições Municipais, eu pensei que o Partido pudesse ser disputado para mudar sua política econômica, que é o cerne da aflição da classe trabalhadora. Triste engano. Participei do último Encontro Nacional do PT para dar posse aos eleitos para a direção partidária pelo PED (Processo Eleitoral Direito), e constatei, com meus próprios olhos, que a esquerda do PT está totalmente esmagada, e não representa nem 10% do Partido. No encontro, a nova direção do Partido reafirmou e aprofunda a sua opção por uma política de austeridade neoliberal, de privatizações, de ataques à direitos sociais, de cumplicidade ao imperialismo. Não há mais possibilidade de pensamento crítico no PT. Não faz mais sentido Valter Pomar, por exemplo, continuar dentro do PT, pois o campo hegemônico neoliberal, liderado por Lula, tem o controle absoluto da máquina e da opinião. Ao contrário do que Breno diz, não há espaço de mudança interna. Vejam bem, embora Breno defenda o PT, reparem como a própria direção do PT trata um dos seus principais intelectuais: fingem que ele não existe, o lança à irrelevância.
Essas situações foram, para mim, a gota d’água. Estou em processo de desfiliação. É tempo de construir a verdadeira esquerda, socialista, radical, sem medo de dizer quem é e qual o seu propósito, e especialmente, que ataque o neoliberalismo frontalmente que chicoteia a classe trabalhadora. O PT já morreu. O novo está prestes a nascer.” Anthony Alves Rabelo
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Por que Vargas Pode ser Chamado de Fascista?
Muito embora eu considere Vargas uma figura complexa e fascinante, a hipótese de que ele foi fascista deve ser levada a sério. Devemos trabalhar com ela e refutar vigorosamente o que diz Frederico Krepe.
Primeiro, Krepe ao definir o fascismo não utiliza nenhum autor marxista, apenas outros burgueses liberais como ele. E nos basearmos, então, em Gonzalo:
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O que entendemos por fascista e corporativo? Para nós, o fascismo é a negação dos princípios demoliberais, é a negação dos princípios demoburgueses nascidos e desenvolvidos no século XVII na França; esses princípios tem sido abandonados pela reação, pela burguesia no mundo, assim como já na I Guerra Mundial nos fez ver a crise na ordem demoburguesa, por isso é que posteriormente o fascismo surge como insurgência.”
“Consideramos também o fascismo como uma ideologia eclética, feita de retalhos, que recolhe aqui e ali o que lhe convém (...). Ele toma o que estiver mais à mão”.
“O corporativismo seria organizar a economia em corporações. E seria a negação do parlamentarismo” (GONZALO, 1988).
Vargas preencheu todos esses elementos: seu sucesso durante sua carreira implicou em pegar o que estava mais à mão. Embora ele leia Saint-Simon, é na ditadura de Júlio de Castilhos é que está sua identidade. E essa ditadura, embora modernizadora sob alguns aspectos, nega desde sempre a divisão em três poderes estabelecida pela revolução francesa, concentrando os poderes no executivo, criando absolutismo presidencialista que é sempre presente no fascismo. Krepe sabe disso:
O projeto de Vargas, desde o início, é de modernização do Estado e de centralização do poder (KREPE, 2025),
E também nega o direito de liberdade de expressão democrática perseguindo a oposição e reorganizando o sistema político e, com sua ideologia eclética, essa colcha de retalhos que possibilita disfarces (positivismo, socialismo utópico, castilhismo, doutrina social da igreja católica, fascismo e nazismo). E ao chegar ao poder, Vargas nega o parlamentarismo, dissolvendo o congresso, não governando inicialmente nem sequer com aquela apodrecida fachada liberal de latifundiários e assumindo a ditadura burguesa sob a forma do absolutismo presidencialista. Ele nega também a ideia de ser regulado por uma constituição, ele só a promulga depois de um outro levante e logo a seguir coloca em seu lugar uma constituição de corte fascista, abertamente copiada da ditadura militar polonesa.
Vargas mesmo advogava por soluções dentro do sistema, até que, de ministro da fazenda de Washigton Luís, assumiu o poder numa quartelada que insistia em chamar de “revolução democrática”.
Vargas, como Alvarado no Peru anos antes, fez reformas e trouxe direitos trabalhistas apenas para poder corporativizar as massas em seu favor. Alvarado falava em reforma agrária apenas para fazer evoluir o semifeudalismo. E o varguista Darcy Ribeiro trabalhou ativamente para Alvarado, identificando-se com ele como se identificou com Vargas anteriormente —e não por acaso! Por isso Vargas fala em reforma agrária nos anos 50, bem como Jango e Brizola, apenas para corporativizar as massas no campo. Mesmo quando realiza estatizações, sua finalidade é corporativizar toda a sociedade. Ele levanta a bandeira do nacionalismo, mas é sempre no sentido de negar a luta de classes, de negar os “elementos dissolventes do caráter nacional”. A nação como a negação da bandeira vermelha dos trabalhadores, a nação como conciliação do trabalho e do capital. Esse elemento reaparece até mesmo no fascismo bolsonarista. Krepe “esquece” a repressão brutal do levante antifascista da ANL em 35 e isso é intencional. E esquece que esse PC que ele detrata como “stalinista” rachou o exército nessa episódio e fez com que o comunismo fosse altamente levado a sério pelo exército e por todo o aparato de repressão brasileiro até hoje. E lembremos que Brizola e Jango não conseguiram efetivamente rachar esse exército em 64. Em 35 houve embate entre grupos no exército, em 64 não.
Fausto Arruda, sociólogo, considerou-o o fundador do capitalismo burocrático brasileiro. Em outras palavras, do capitalismo selvagem brasileiro, esse capitalismo associado ao capital estrangeiro e ao latifúndio, em um importante artigo publicado em A Nova Democracia.
Em primeiro, Vargas é uma figura muito mais oligárquica e conservadora do sistema do que Krepe imagina. Ele não foi contra as elites. Ele mesmo era uma figura da oligarquia gaúcha castilhista. Advogou, conforme Fausto Arruda, pela mudança dentro do pacto das oligarquias, até que não foi mais possível. Mas depois de sua quartelada, logo fez pacto com as oligarquias e imperialismos estrangeiros, optando pelo imperialismo yankee, que preferiu descartá-lo em 1945 em uma nova quartelada feita pelos mesmos generais reacionários que apoiaram sua ditadura fascista em 37. Os generais fascistas e os USA recusaram sua jogada perigosa com a URSS e os comunistas, pois só aceitam o serviçal por inteiro.
No fim das contas, foi altamente perniciosa a aproximação dos comunistas com o social-fascismo varguista em 1945 e depois de 1954. Faltou realizar uma análise mais rigorosa do fenômeno desde sempre, o que não foi feito. Foram atraídos para um abraço de afogado em 1945-47, sendo ridicularizados “queremistas” e querendo “constituinte com Vargas”, para depois serem surrados em 54 por não apoiá-lo. Apanharam por apoiá-lo, apoiaram por não apoiá-lo. Constituinte com um inimigo da constituição, um espertalhão que advogava que “as constituições são como as virgens, nasceram para ser violadas”. Atacados pelas massas lumpen incitadas pelo varguismo —afinal, os varguistas sabem que os comunistas são seus inimigos e, com sua queda, poderiam se beneficiar —fazem aliança novamente, apenas para naufragar novamente em 64, apenas para perceber que, sem o líder, o projeto varguista já estava acéfalo e com a validade vencida desde 54.
Os comunistas confundiram burguesia burocrática varguista com burguesia nacional. Não podemos reclamar porque até mesmo até hoje o equívoco continua e Frederico Krepe traz água para esse moinho, sem dúvida. E com o lulismo o erro continua vigente até a exaustão.
Krepe apenas insiste em repor o varguismo como horizonte para pensar um projeto nacional, repor todos os equívocos sem aprender nada, enquanto o único horizonte possível é a nova democracia: no horizonte do país surge o dilema: nova democracia ou subcapitalismo (autocracia burguesa). Isso é querer girar a roda da história para trás devido à falência do projeto petista. Krepe sonha, em seus delírios platônicos e idealistas social-fascistas, que uma nova autocracia burguesa varguista possa assumir o poder e aí ele “galgar o caminho florido das posições”.
Durante o período Vargas estavam vigentes leis que proibiam a imigração de pessoas de origem semita, ou seja, judeus. A ideia era trazer imigrantes para um projeto de embranquecer o país, imigrantes como os italianos, que se misturassem para que a raça branca fizesse valer sua superioridade “natural”. Daí que os judeus ficavam sendo esse grupo que não se integrava e não se prestaria ao projeto racista. A eugenia estava na Constituição de 34.
O varguismo foi um projeto com data de validade. Na atualidade, o projeto petista assumiu seu lugar e, sob alguns aspectos, assumiu uma face de UDN operária, ligada a igreja católica (a doutrina social da igreja novamente, desta vez com liberais católicos criando o MST e tomando a bandeira da luta pela terra das mãos dos comunistas). Ao contrário do confronto anterior entre burguesia burocrática e burguesia exportadora, quando encenava-se um confronto entre desenvolvimentismo e entreguismo tendo como pivô a figura de Vargas, o confronto já é mais rebaixado: entre a UDN operária que congrega trotskistas, católicos liberais ligados ao partido democrata e burocracia sindical, opondo-se a UDN abertamente entreguista de Collor, FHC, Bolsonaro, Temer. Embora assuma faces grotescas de combate, não há projeto algum em disputa, bem menos do que antes. O que antes era esporte radical virou jogo de porrinha.
Em termos de gerar confusão e divisões no seio do partido comunista brasileiro, o varguismo foi incrivelmente bem sucedido, bem como o sr. Darcy Ribeiro ao desenvolver na UNB as teses trotskistas. Krepe também apresenta essa face: por um lado flerta com Aldo Rebelo, hoje um bolsonarista mais abertamente fascista que advoga a anistia, por outro comunga com Jones Manoel em convescotes trotskizantes e bolivarizantes, tendo ao lado outros órfãos do lulismo. A evolução de Aldo Rebelo do PC do B revisionista ao fascismo aberto é digna de ser estudada por Elias Jabbour. Jabbour por um lado trabalha contra o Brasil para o imperialismo chinês e por outro para a degenerada burguesia burocrática carioca, com Eduardo Paes. Nada de bom pode sair de algo assim. Os revisionistas costumam, como o passar do tempo, assumir posições mais abertamente burguesas. Jabbour advoga tolices como “Lula se conciliou com Vargas na cadeia”. Absolutamente não ocorreu tal. Lula intui sabiamente que o projeto anterior da burguesia burocrática está falido, ao contrário das tolices de Krepe —até porque ele veio para parasitar sua carcaça. Lula não instaurará uma autocracia burguesa, abrirá alas para ela, como por pouco não aconteceu em 2022. .
Foram todos muito bons nisso, desde Brizola falando em “socialismo moreno” e na prática seguindo o castilhismo fascistizante e autoritário.
O trabalhismo, por sua natureza social-fascista, em suas alas à direita se aproxima do fascismo e à esquerda, liga-se ao trotskismo. Mesmo Nildo Ouriques e Jones Manoel apresentam essa oscilação, alternando-se entre os polos do bolivarianismo e do trotskismo em suas inúmeras variantes.
Júlio de Castilhos gerenciou o estado do Rio Grande do Sul com reeleições sucessivas, concentração do poder no executivo e perseguição aos seus opositores. E o resultado de sua longa ditadura no poder foi uma guerra civil sangrenta. É bem curioso que o varguismo quase levou a essa guerra civil em 64 e o lulismo em 2022. As frações da burguesia sabiamente preferem a conciliação, pois a guerra civil sempre acelera a história; com ela, ambas terão muito a perder.
Vargas assumiu um lado naquela guerra, era ligado a Borges de Medeiros e aos centralistas contra os federalistas que usavam lenço vermelho. O pai de Brizola era desse grupo que usava o lenço vermelho como símbolo, mas foi morto pelos seguidores de Borges de Medeiros, mas mesmo assim conciliou-se com eles. Tanto Vargas quanto Brizola utilizaram o lenço vermelho simbolizando uma conciliação local. Tanto Brizola e Vargas não deixaram a herança autoritária castilhista, pelo contrário, eles a dvogavam.
Brizola, fundador do PDT onde pontifica o filósofo Krepe, advogava claramente que seu objetivo era transformar o Brasil num país como a Austrália, um país imperialista, ou seja, algo inatingível. Brasil jamais será país imperialista, ou será subcapitalista ou socialista. Krepe insiste em um hipotético “estado de bem-estar social brasileiro” que só seria possível se o país pudesse se tornar um país imperialista como a Austrália, país, inclusive, que mandou tropas para o Vietnã, segundo a ativista vietnamita Luna Oi comentou em vídoe recente. Por outro lado, Brizola, como o Kuomintang de Chiang Kai Shek, nunca escondeu que queria esmagar com uma mão o imperialismo yankee e com o outro o comunismo de Moscou. Para tanto, escudava-se na doutrina social da Igreja Católica (assim como fizeram ditadores fascistas como Mussolini e Dolfuss, da Áustria). Mesmo Hitler também conseguiu essa conciliação com a religião.
Darcy Ribeiro, um trânsfuga do PCB que passou ao trabalhismo, igualmente serviu a essas ideias quando trouxe um não-marxista pernicioso e trotskizante, André Gunder Frank, para a UNB e disseminar teorias trotskiszantes contra o PCB de Nelson Werneck Sodré. Foi incrivelmente bem sucedido. Teorias semelhantes são até hoje hegemônicas na universidade brasileira em seus poucos núcleos que estudam marxismo. Francisco de Oliveira diz que o país não é subdesenvolvido, é um “ornitorrinco”, enquanto Florestan Fernandes chegou à absurda conclusão de que aqui temos um “capitalismo completo”. Todas teorias nessa linha de achincalhar as teorias do velho PCB que, apesar de tudo, elaborou hipóteses que devemos repensar, mas jamais levando em conta hipóteses tolas. Apenas porque o país tem industrialização dependente (e mais e mais, retrocede para economia agro-exportadora), é que devemos deixar de lado a hipótese de que é um país semifeudal e semicolonial.
Vargas ao chegar ao poder aboliu a fachada podre de liberalismo e adotou no governo federal uma ditadura bastante similar ao seu castilhismo natal. E podemos dizer que nunca governou bem sem ela. Um dos motivos para seu suicídio em 54 foi não conseguir governar sem ser dessa forma ditadorial com a qual estava acostumado.
Frederico Krepe liga-se ao PDT, partido que até bem pouco tempo estava na base do governo petista. E escreve na blogosfera petista, em blogs como O Cafezinho, Disparada, etc. Dialoga alegremente com o petucano Haddad em podcasts conservadores, etc. E defende que não chamemos Vargas de fascista. Mas o que dizia de Vargas o professor Marco Aurelio Garcia, um importante intelectual petista já falecido? Vejamos sua fala citada numa coletânea de Martha Hornecker:
No caso brasileiro, a única forma pela qual a classe operária tinha aparecido na política brasileira tinha sido através do mecanismo do populismo, muito submissa ao Estado. Alguém poderá dizer que na Argentina também houve populismo, mas na Argentina surgiu através de um movimento operário já muito organizado e forte, que tem uma certa capacidade de negociação com o líder, o Perón. O presidente argentino tem que fazer mais concessões aos sindicatos e, por isso, o peronismo é muito mais radical que o varguismo. No caso brasileiro, o varguismo tem uma inspiração fascista muito mais pronunciada, a idéia de paz social, de equilíbrio, de modelo corporativo. (Garcia, Marco Aurélio. Apud: HONECKER, 1992: p. 28)
Essa posição era a predominante nos primeiros tempos do PT. Ela só mudou a partir de quando Lula chegou ao poder em 2002. Sua posição passou a ser simpática a Vargas, mas simpática principalmente a uma de suas práticas: corporativizar os sindicatos com o nosso velho estado.
Autocracia Burguesa ou Nova Democracia
Krepe não verá realizados seus sonhos mofados de uma nova autocracia burguesa que caminhe para um “projeto nacional” (quando em realidade é da burguesia burocrática) e que saiba “mediar conflitos sociais” corporativizando as massas. O que surgiu no horizonte desde 2013 é uma autocracia burguesa que garanta a situação semicolonial, o semifeudalismo. Krepe não verá um outro autocrata burguês que como aquele que “(…) suspendeu a ordem liberal para construir instituições de Estado”. Ao dizer isso, depois não adianta reclamar que é ruim “associar nacional-desenvolvimentismo a autoritarismo” —se você acaba de fazê-lo. O dilema do Brasil em nosso tempo é entre autocracia burguesa ou nova democracia, subcapitalismo ou socialismo. A tentativa de reviver PTB de Vargas é uma tentativa de arregimentação dos trabalhadores em prol dos interesses de um setor da burguesia burocrática-latifundiária no capitalismo selvagem. Seus rótulos e apelos ao estilo desse de Krepe sobre Vargas sempre os tornarão massa de manobra para seus objetivos.
Frederico Krepe https://fredkrepe.substack.com/p/por-que-getulio-vargas-nao-foi-um/comments?utm_source=post&comments=true&utm_medium=web>>
Memórias do Subdesenvolvimento
Memórias do Subdesenvolvimento
Para Glauber Rocha, o filme Memórias é a execução do intelectual pequeno burguês. Vejamos o que ele diz: “o melhor filme cubano, e esta é a opinião mundial unânime, é Memórias, porque é a execução do intelectual burguês com o rigor antimoralista capaz de convencer os inimigos do comunismo à revolução” (ROCHA, 1997, P. 466). Lembremos, no entanto, que há uma ambiguidade em centralizar a narrativa em um contrarrevolucionário –ele não deixou de ser o herói do filme.
Gutierrez Alea focalizou seu filme em um contrarrevolucionário, Sergio. E não foi o único filme em que ele fez isso: Os Sobreviventes também é focado em uma família de contrarrevolucionários; o filme mais famoso de Gutierrez Alea, Morango e Chocolate, nos anos 90, também tem como eixo a relação entre um militante e um gay religioso que lê Vargas Lhosa (rompido com Cuba por ocasião do caso Padilla, em 1971). Sergio também ressalta o subdesenvolvimento que, apesar da revolução, em Cuba continua existindo. “Nada mudou”, diz ele. “É uma Tegugigalpa do Caribe”, diz ele, ou seja, cidade pequena, provinciana, subdesenvolvida. E de fato continuou: mudou de caudilho (de Batista para Fidel) e mudou de amo (do imperialismo yankee para o social-imperialismo soviético), mas continuou dependente, subdesenvolvida.
Sarcasticamente, Sérgio comenta que é cômodo ser comunista em Paris, como Neruda. Esses comodistas deveriam “ir para Cuba” – lema hoje onipresente no Brasil. A queixa dos cubanos em relação ao discurso dos estrangeiros do esquerda é muito recorrente e também aparece nos textos de Alina Hernandez, professora de História de centro-esquerda, no Centro Cívico de Cuba. Essa consigna reapareceu depois com Reinaldo Arenas, o romancista de Antes que Anoiteça, no filme Conduta Impropria e, possivelmente, a partir daí ganhou o mundo.
O filme Memórias passa das falas de Sergio sozinho vendo Havana à distância para uma fala mais alinhada com o castrismo a respeito do desembarque dos dissidentes em Playa Girón (Baía dos Porcos). Não eram os homens de Batista que chegaram ali e sim os liberais que se sentiam traídos por Fidel, com objetivo de ajudar a guerrilha liberal em Camaguey que começou em 1961 e foi até 1965, mais, inclusive, do que a guerrilha de Sierra Maestra. No filme, analisa-se que os homens que chegavam a Baía dos Porcos era uma miniatura de uma sociedade burguesa: havia um padre, um empresário, um filósofo e, finalmente, um torturador. Calvino, o torturador, traz a verdade do grupo: “sou parte de um grupo”, enquanto o padre diz: “não é porque fiz parte da conspiração que sou um conspirador, meu papel foi somente espiritual”. A verdade do grupo burguês estava no assassino. Vale ressaltar que a abordagem do desembarque em Playa Girón é engajada com a versão oficial. O que se pode dizer, no entanto, é que os camponeses de Camaguey e os camponeses em geral queriam terra, mas não foram atendidos, passaram a trabalhar em fazendas estatais ganhando pouco dinheiro. É muito importante esse ponto, pois comprova a teoria da revolução da nova democracia e nega as ideias trotskistas: a coletivização é um processo gradual, sem atender aos camponeses numa primeira etapa de nova democracia. O desembarque em Playa Girón era para dar força para a guerrilha liberal em Camaguey e, não obstante, essa guerrilha continuou até 1965.
A abordagem dos acontecimentos de Playa Girón de forma a coincidir com a propaganda do castrismo a respeito foi uma passagem conflitante e inverossímil do filme. Um contrarrevolucionário não poderia dizer aquilo.
Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre
Ramos Grau San Martin estava no seu segundo mandato, no ano de 1945. O primeiro tinha sido nos anos 30, o governo dos cem dias. Cuba tinha propensão a resolver as coisas na base do revólver. Em 46, a corrupção já estava muito disseminada. A violência política virou o pão de cada dia. De 1944 a 1948 foram 64 assassinatos políticos. Centenas desses revolucionários eram pagos pelo estado, como no ministério da educação. Essas pequenas organizações (MSR, UIR) matavam antigos policiais de Batista e Machado. E também se matavam entre si em rixas armadas violentas. A universidade de Havana era um epicentro dessa violência política. Enrique Ovares, antigo líder estudantil, comentou que, para essa geração de Fidel, era bastante válido o assassinato politico.
Nessa conjuntura é que chegou a Havana para estudar Direito o jovem Fidel Castro, um rapaz superdotado e ambicioso, mas complexado por ser filho bastardo. Ele de início entrou no MSR, Movimento Social Revolucionário. Eles exigiram um atentado como ritual de iniciação. Ele e seu grupo supostamente o fizeram, mas não mataram Leonel Gomez Pérez, o líder estudantil rival, líder da União Insurrecional Revolucionária. No entanto, eles erraram o alvo e feriram outro estudante e um menino de doze anos. A UIR marcou Fidel por isso.
Fidel passou então a desenvolver a obsessão com segurança –e com bastante razão. E também a tendência a recorrer ao terrorismo individual contra os seus rivais, assassinando-os, resolvendo as diferenças na base do assassinato, mesmo na esquerda. Ele não tinha conseguido entrar no MSR e tinha se queimado com a UIR. Poderia, então ser morto e ficou preocupado com isso. Procurou, então, graças a um amigo em comum, o líder da UIR, Emilio Tro Rivero, veterano da Segunda Guerra Mundial. Fidel pediu perdão a Emilio Tro e foi aceito na UIR.
A tarefa passou, então, a atacar um líder importante da organização da qual tinha acabado de sair. E o grupo de Fidel supostamente esteve envolvido na morte de Manolo Castro (que não era parente), presidente da Federação Estudantil Universitária (FEU). Num domingo de carnaval de 1948, dois homens mascarados balearam e mataram Manolo Castro na saída de um cinema. Castro foi preso devido a esse assassinato, mas um colega do curso de Direito, Frank Balart, da família Diaz-Balart de quem era amigo e até se casou com uma deles (Mirta Diaz-Balart, sua única esposa oficial), conseguiu tirá-lo do processo. Castro foi a Colômbia para fugir do processo político, mas também envolveu-se em violência política no chamado bogotazo.
O conflito entre MSR e UIR escalou até o massacre de Orfila, onde foi morto o líder da MSR, Rolando Masferrer, uma verdadeira campal entre as duas organizações.
No verão de 1948, foi morto Oscar Fernandez Caral, um sobrevivente do MSR no massacre de Orfila. Castro foi indicado pelo assassinato, mas o caso foi encerrado por falta de provas. Fichado pela polícia desde 1949, Castro estava também muito marcado pela UIR, o que deixou-o paranoico e deu trabalho a seu pai, que teve de ajudá-lo a pagar sua defesa nos processos. Rolando Masferrer perseguiu Castro várias vezes, quando ele aparecia, Castro voava para outro lugar.
A saída de Castro foi formar-se e mudar de vida, queimado como estava. Casou-se com Mirta Diaz-Balart, mulher de alta sociedade e família ligada a Batista, abriu escritório de advocacia e passou a sonhar em candidatar-se ao parlamento. O golpe de Batista em março de 52, instalando uma ditadura, fazendo com que o presidente Prio Socarrás tenha de se exilar, frustra a carreira política de Castro. E ele tenta, então, trazer sua experiência nas organizações revolucionária para a juventude de um partido legalista, o Partido Popular Cubano. E daí parte com a juventude ortodoxa de origem pobre para ação violenta em La Moncada, mas essa é outra história.
Fidel Castro e os Tempos do Gatilho Alegre, Enrique Ros.
João Carvalho e Cuba
João Carvalho e Cuba
João Carvalho, admirável professor e ativista, editorialista de A Nova Democracia, comenta por vezes um tema muito caro a nós, a revolução cubana. Algumas de suas posições me parecem problemáticas. Ele chega a afirmar que os Estados Unidos deveriam deixar Cuba evoluir tranquilamente sem embargo, de forma que pudessem, então, verificar que o socialismo de fato funciona. Essa declaração tem dois problemas: 1) considerar que o arquiimperialismo estadunidense poderia permitir esse tipo de evolução naquele período, o que é ignorar a natureza agressiva do imperialismo, é ser kruschevista e acreditar na “emulação pacífica”. 2) Considerar que Cuba construiu efetivamente o socialismo; supomos que Cuba mais se declarou socialista do que efetivamente foi além do capitalismo de estado e completou a revolução democrática.
João Carvalho cita o vídeo de Michael Parenti, em que Parenti começa dizendo que não se importa se chamamos Cuba de capitalismo de estado, chame da forma que quiser. Isso já é um erro grave. É muito importante termos uma análise crítica a respeito dessa experiência que se diz socialista. A partir disso, Parenti ressalta que foi a Camaguey (justamente onde houve mais repressão a camponeses devido a uma guerrilha liberal) e alega que lá disseram que, ao contrário de antes, no tempo do Batista, agora havia saúde e não havia mais analfabetismo. Mas a educação cubana é usada para a propaganda do castrismo, a educação, segundo Frank Garcia, do blog comunistas, não é dialógica como Paulo Freire pensava. Foi importante fornecer esse serviço de saúde em Camaguey justamente para debelar a rebelião que durou de 61 a 65, mais do que a rebelião de Castro em Sierra Maestra. Se Che quisesse combater, ele poderia ficar e combater essa guerrilha. Portanto, Che partiu para o exterior por outros motivos –sua excessiva criticidade foi um deles. Creio que sim, é verdade, houve melhoras desses índices, mas vendo no que deu hoje em dia, creio que é injustificável o grau de repressão contra quem pede simplesmente “energia” e “comida”.
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