A PESTE E O TEATRO ALEGÓRICO
Recomendações de autoridades sanitárias:
Evite o contato físico com outras pessoas.
Não beije, não aperte a mão, diga olá.
Quisera fazer uma abordagem mais profunda do assunto em pauta. Porém, a necessidade e a urgência me obrigam a não adiar esta postagem.
Sendo um arauto da Terra Sem Mal, isto é, o Paraíso terrestre, que parece cada vez mais impossível, dado o grau extremo de deterioração da qualidade de vida, em nível planetário, vou abordar agora este assunto, à luz de minha proposta de teatro alegórico. O assunto é a gripe suína, a aids e outros males da Terra.
Antes, porém, peço àqueles que ainda têm saco para me aturar, que leiam a apreciação justa e honesta do jornalista e poeta Fernando Gasparini sobre a minha “peça de lycra azul e rosa”, o espetáculo “Terra Sem Mal – um mistério bufante e deleitoso”. Está no seguinte endereço:
http://www.overmundo.com.br/overblog/apontamentos-sobre-a-terra-sem-mal
Agora, vamos ao que prometi acima.
Eu desafio a peste. Eu desafio a morte. Eu desafio o mal. Eu desafio a deusa Vênus e suas enganações. Eu desafio o Diabo e suas mentiras.. Eu desafio Deus e seus decretos implacáveis.
Eu sou Motta, tenho mato e mata em mim, e deveras vim do mato, mito das matas mateenses.
Eu sou Waldo, que vem de Wald, em alemão, floresta, bosque. Sigam a via analógica, por favor. Eu sou Edivaldo, o governante, o guia; riqueza, prosperidade.
E vejam que sou a Waldelícia do paraíso, sou um Mottagal repleto de bichos e bichices.
Assim como o poeta florentino, e como o poeta itabirano, no meio do caminho desta vida, me encontrei em uma selva escura, e vi a cara do capeta, e que o bicho era apenas invenção para isolar e separar o sagrado do contato do poviléu. E a esfinge disse: ou me decifra ou te devoro. Po is bem, eu desvendei o enigma, e matei a charada; enra bei o capeta, o leão, a onça, o jaguar azul, enfim a monstra guardiã do lugar sagrado. E arrebatei o graal, e libertei o Rei encarcerado. E disse-lhe: Levanta-te, ó Deus, para socorrer os justos e fazer justiça aos que te amam. E ele me escolheu como seu bem amado para anunciar o seu reino, a sua verdade, à luz da qual todos devem andar, para o bem de cada um e o livramento da alma.
Ataquemos a peste!
Notei que o nome do vírus da gripe suína H1N1, em numerologia soma 15, que reduz a 6.
E há muitos anos atrás, desde que surgiu a AIDS, notei que este nome também somava 15. Pois bem, meu sobrenome MOTTA soma 15. E meu prenome EDIVALDO soma 36, que é 6 vezes 6. A soma de EDIVALDO MOTTA dá 51, ou 15 invertido. Eu disse: 51 é o 15 invertido! Aqui está um grande segredo.
Somando-se os números de 1 até 36, a soma será 666. Portanto, eu posso combater o mal que assola o mundo. Quem conhece a minha poesia, sabe que não estou brincando.
No Tarô, a carta 15 representa o Diabo e apresenta um quadro em que este ser imaginário está sobre um cubo ao qual estão aprisionados um homem e uma mulher. A carta 15 simboliza os interesses sexuais, financeiros, assuntos de ordem material. Notem que a carta 6, do Tarô, representa os Namorados, ou o Enamorado, ou a Encruzilhada, e apresenta um homem jovem em atitude dubitativa, meditabunda, na encruzilhada de dois caminhos, guardados por duas mulheres, que alguns intérpretes entendem ser a mãe e a esposa.
Por outro lado, em hebraico, 15 é o número do nome secreto de Deus que não pode ser lido ou pronunciado e, por isso, na Torá, este número é escrito de for ma indireta, como 9 mais 6, para evitar o emprego das letr as Yod e Hé, que valem respectivamente 10 e 5, e estão no nome sagrado YHWH, que alguns pronunciam como Javé. E este nome vem de um verbo que significa ser e estar. Aquele ou aquilo que é, que está; que foi, que é, e que será.
Todos sabem que a estrepolia de Adão e Eva é o núcleo ou nó dramático principal de todas as narrativas bíblicas; situação em torno da qual todas as outras orbitam. E dá origem à sucessão de tragédias e farsas da própria História, esta que vivemos (fazemos?) em nossa vida laica, secular. O crítico literário Harold Bloom afirma que a Cabala é uma espécie de misticismo sexual e teologia erótica, opinião que endosso em todos os sentidos.
A repressão sexual e a privação dos saberes ligados ao sagrado (vale dizer: ao sacro) levou o mundo a esta situação deplorável. Em vez de repressão, as pessoas necessitam de informação, esclarecimento, franqueza, verdade. Somente a verdade a respeito do sagrado poderá erigir um mundo novo. Porque a repressão ao sagrado é a origem de todo o mal que existe na Terra. Adorar o sagrado, em seu lugar devido, isto é, o sacro, é o princípio da solução de todos os problemas. Adorar o Deus dos deuses em seu próprio trono é conquistar o paraíso e o reino do Céu. O lugar sagrado é o próprio Céu, a casa da felicidade.
C é U
Deuses e senhores mesquinhos, opressores, transformaram o sagrado em algo medonho, aquilo que não pode ser pronunciado, o indizível, o inefável, o sublime, todas essas bobagens. Por outro lado, conforme deduram os próprios dicionários, o sagrado é também o vergonhoso, o infame, o intocável, proibido. Huuuuuummmm!!!
Com esses prolegômenos, agora posso dizer o que todos precisam saber. Acabou a era do crescei e multiplicai-vos. Este planeta é muito pequeno e tem gente demais. Já disse alhures e repito: chega de hipocrisia. Não pensem que plantar árvores, salvar tartarugas, baleias e outras sandices vão resolver o problema e livrar o planeta da grande tragédia iminente.
A balela do crescimento econômico ilimitado não iludirá mais ninguém. Ao invés de crescer e multiplicar, chegou a hora de diminuir o crescimento e dividir as riquezas, os bens. Todos deveriam pensar seriamente no fato simples e elementar de que somente o crescimento populacional justifica o crescimento econômico…
A natureza está reagindo, o meio ambiente está reagindo. E corrigindo os males e estragos causados pela espécie humana. É ridículo demais sermos vítimas de micróbios, bactérias e vírus associados a mosquitos, ratos, chipanzés, porcos, frangos. É tragicômico saber que o arroto e o peido das vacas é um dos piores vetores do chamado efeito estufa… E tem vacas demais neste planeta, para alimentar e produzir lucros para uma humanidade que não pára de crescer e multiplicar.
Sempre entendi que 666 tem a ver com o excesso, com os excessos da raça humana. Afinal, a humanidade foi criada no sexto dia. E o Apocalipse afirma que o famoso número da besta é um número de homem. O reino da besta é o reino ou império da quantidade, da multiplicação sem fim, da acumulação excessiva, da reprodução desenfreada , da produção insana das indústrias, fábricas etc.
Uma certa passagem bíblica afirma que no processo de depuração da iniqüidade, dois terços da humanidade serão eliminados. Ora, dois terços correspondem a 66,6 por cento. Esta depuração está ocorrendo agora.
Para mim, a Besta do Apocalipse é a humanidade vivendo no plano animal, bestial. Satisfeita com o reino da quantidade. Pois a vida dos animais resume-se a comer, beber, reproduzir e morrer. Não só isso, mas também o poder da ciência, da arte, da política, da economia e até das religiões que negam e desprezam o SAGRADO. Que privam os seres humanos do conhecimento libertário, que impedem ou negam o acesso ao SAGRADO. Como disse Jesus: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
Em numerologia, o número 6 está associado ao planeta e à deusa Vênus, que regem, entre outros, os seguintes assuntos: amor, sexo, casamento, família; relações afetivas, sociais. Assim como a AIDS, a gripe suína está disseminando o medo de contatos, toques, abraços, beijos, relações íntimas e até mesmo um simples aperto de mão.
Assim como o 3 e 9, o número 6 representa o elemento AR, e a patologia numerológica o associa a todas as doenças do sistema respiratório. Todos sabem que as vítimas da AIDS e da gripe suína sucumbem principalmente devido às afecções do sistema respiratório.
Observem que o lugar de origem da gripe suína, o México, é uma palavra que tem 6 letras. E o valor numerológico desta palavra, pelos métodos numerológicos usuais, é 33, número este que reduz a 6.
Já o propalado lugar da origem da AIDS, isto é, a África, é uma palavra com 6 letras, embora a soma dê outro número.
É isso por e nquanto.
Agora, o escândalo maior: EU POSSO RESOLVER ESTE PROBLEMA!!!
Quem não acredita em mim, dane-se. Eu sou o ARLEQUIM DO APOCALIPSE.
Eu conheço o ponto fraco, o calcanhar de aquiles do MAL.
Contudo, não farei nada em prol de ninguém. A menos que me implorem, e reconheçam todas as injustiças que já cometeram contra mim, simplesmente por falar a VERDADE. E principalmente me paguem, olho por olho, dente por dente, por todo o mal que me causaram.
Eu sou a alegoria viva do CU – o lugar sagrado, o centro divino, a casa de Deus.
Quem viver verá: no CU está a salvação da humanidade.
Um beijo da BOCA REPELENTE para todos!
Waldo Motta
Tels.: 8841 7348 / 3056 0024″
William Berger
ator
Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
domingo, 13 de setembro de 2009
Tirada do Bicho Grilo no JÔ
Do programa dessa semana que passou:
JÔ:Será que nunca vamos nos livrar de Michael Jackson?
André (bicho-grilo à la Dylan): Pois é, é igual a você, né?
JÔ:Será que nunca vamos nos livrar de Michael Jackson?
André (bicho-grilo à la Dylan): Pois é, é igual a você, né?
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sábado, 12 de setembro de 2009
The South Beach (Oliver Stone)
A Cristiane Pelaja quase sibilou ao falar desse filme no Jornal da Globo. Segundo ela, o filme retratou Chávez como "um santo". E Jim Morrison, Kennedy, Nixon e Bush? É a hagiografia do Stone?
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Está na hora de explodir as outras torres gêmeas
Por Sebastião Nunes
Tem gente que não me perdoa, mas continuo achando que a maior obra de arte do século 21 até agora – incluindo literatura, cinema, música, teatro e todo o resto – foi mesmo a explosão das torres gêmeas. Tudo perfeito. A hora escolhida, a beleza crua dos aviões detonando os edifícios, a transmissão em tempo real, a monumentalidade da realização... e até algumas vítimas inocentes (sic: ninguém é inocente, não é mesmo, João Paulo Sartre?) para temperar com sangue o grandioso espetáculo da manhã em chamas, que mergulhou em pânico e espanto os sentimentais, e encheu de sádico prazer os que não rezam pela cartilha do Tio Sam.
Mas meu assunto não é este. Estou pensando mesmo é em livro e leitura, embalado pela crônica de Geraldo Maia, “Bienal do Livro: cadê a leitura?”, publicada aqui em 23/2/2009, e pelo post-resposta de Ney Ferraz Paiva, de 28/2/2009, “mercar, sim, mas assim não”.
A resposta que eles procuram e não encontram, e eu também não encontrei, mas sei que tangenciaram, aponta pelo menos o problema maior: o livro transformado em mercadoria, e só mercadoria, foda-se o mundo e dane-se o leitor.
A questão básica é a seguinte: por que, existindo tantos programas de compra de livro e de incentivo à leitura, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes?
A resposta, alegórica: porque os empata-fodas continuam empatando a foda. E os empata-fodas são os vendedores de livros fantasiados de produtores de livros ou, se preferem eufemismo, em editores, distribuidores e livreiros, argh!
Perguntinha número 1: quais são, pela ordem, os três produtos mais vendidos nas tão badaladas bienais e feiras de livros?
Resposta: estandes, comida e bebida. Em quarto lugar ficam os livros, mas só em quarto lugar, assim mesmo com 99% de best-sellers vagabundos, biografias e fofocas de e sobre gente famosa, e obras de auto-ajuda, que não ajudam ninguém, é claro, só ajudam a encher o bolso dos autores de tais babaquices e das grandes empresas que mamam no público que sucumbe aos cantos das sereias do mercado.
Perguntinha número 2: por que as bienais de livro são tão badaladas, se em vez de servirem à cultura servem apenas a seus promotores e paus-mandados?
Resposta sintética: porque a grande imprensa está cheia de autores editados na base da troca de favores e precisa desovar seus próprios produtos pseudoculturais, ou seja, incrementar o círculo vicioso da mútua badalação.
Perguntinha número 3: quem são os “famosos autores” que ajudam a promover essas bienais de livros?
Resposta cínica: exatamente os autores de best-sellers, quase todos encastelados na grande imprensa do mundo todo (que culturalmente também está globalizado), que a cada peido recebem um milhão de dólares, e a cada arroto, idem.
Perguntinha número 4: por que, apesar de comprar e distribuir de graça tanto livro, o governo federal ainda não conseguiu, com seus milhares de “parceiros” da iniciativa privada, consolidar programas de leitura e escrita consistentes, seja a curto ou a médio prazo?
Resposta dedo-duro e longa, relendo a crônica de Geraldo Maia:
Sim, 70% dos livros editados no país são comprados e distribuídos de graça pelo governo federal, que mantém há alguns anos o maior programa de compra de livros do mundo. Pequena mas importante parcela é constituída de livros literários de boa e ótima qualidade. Falo do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, ligado ao FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, órgão do MEC. Os outros, a grande maioria, são didáticos, também indispensáveis nas escolas públicas.
Por outro lado, boa parte das entidades ligadas a livro e leitura, sejam elas editoras ou fundações, são pouco ou nada confiáveis.
Exemplo número 1: os governos da cidade e do estado de São Paulo fizeram expressiva compra de livros literários em 2008, meio por baixo dos panos, com aval da CBL (Câmara Brasileira do Livro), que privilegiou editoras paulistas, lógico. O garoto-propaganda, com sempre, foi nosso sorridente Ziraldo, o que faz tudo por dinheiro e holofotes, mesmo estando velhote e rico. Não preciso citar Maurício de Souza, claro.
Exemplo número 2: A Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, lançou edital para compra de cerca de 2.000 títulos pré-escolhidos não se sabe por quem, já que a divulgação só apareceu depois do edital pronto, isto é, dos livros já escolhidos, se não loteados entre as editoras mais espertas. O CEM, Clube de Editoras Mineiras (do qual faço parte como sócio da Dubolsinho, de literatura infanto-juvenil), entrou na justiça contra a licitação. Perdemos, porque atiramos contra o que vimos (a licitação) e não visamos quem ordenou a compra (a FBN). Parece que a tramoia melou parcialmente, pois deve ter chegado aos ouvidos do Juca Ferreira, que quase certamente não sabia do rolo. Bravo editor cearense (não estou autorizado a escrever seu nome) recusou participação na gandaia, declarando em carta-aberta que não venderia seus dois títulos escolhidos, por não concordar com os critérios sombrios e sem transparência da escolha. Por outro lado, mesmo sendo Minas um importante polo na produção nacional para jovens, numa briga feroz por qualidade contra quantidade, as editoras do estado não tiveram um único titulo incluído na lista.
Exemplo número 3: a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), baseada no Rio de Janeiro, e que fica a dois ou três quarteirões da FBN, promove todo ano o julgamento da produção editorial para jovens, com ênfase na badalada distinção “Altamente Recomendáveis”. Dos 25 votantes, 11 moram no Rio.
Perguntinha número 5: e então, como ficam a leitura e a escrita nesse país?
Resposta final: é preciso separar o joio do trigo, com perdão pelo truísmo.
As mais badaladas instituições ligadas a livro e leitura não passam de entidades de fachada, criadas por grandes empresas para não pagaram impostos e se promoverem na mídia. Literatura não faz parte de seus interesses, a não ser como meio.
Por mais que os “intelectuais” torçam o nariz para o governo Lula (a maioria inclusive não se cansa de fazer piada com seu pretenso “analfabetismo”, sem perceber que é o primeiro presidente digno do título em 110 anos de república patrimonialista, seus programas educacionais são motivo de admiração (e de reprodução) em muitos países, tanto mais ricos quanto mais pobres que nós.
Literatura com L maiúsculo, ou seja, aquela magnífica escola de vida que fez a glória dos grandes autores de todo o mundo, é dinossauro soltando os últimos suspiros. Me refiro especialmente aos romances de alto nível. Sobrou a escória, os que não sabem escrever porque nunca leram nada. São esses que alimentam a cadeia do toma-lá-dá-cá, a nojenta cadeia “produtiva” de livros que assola o país e que infesta tanto as editoras quanto a grande imprensa, ou seja, a que se vende em tempo integral.
Voltando às feiras de livro, com as famosas bienais (Rio e São Paulo) à frente: seu objetivo, não faz mal repetir, é encher de grana o rabo dos grandes editores, das grandes distribuidoras, das montadoras de estandes e das entidades que as promovem, além dos periféricos vendedores de cachorro-quente e refri. Só. Apenas isso. Nada mais do que isso. Leitura e literatura não foram – e nunca serão – convidadas para a festa, por mais que as duas palavras sejam citadas e usadas todo o tempo, como uma espécie de “abre-te sésamo” para a mais deslavada picaretagem livresca.
Enfim, e depois de tanto malhar em ferro frio, será que ainda preciso revelar o nome das novas torres gêmeas, infinitamente mais perniciosas que as outras? Aquelas, coitadas, eram apenas edifícios arrogantes e cheios de empáfia, produtos da grosseira megalomania ianque. As nossas, ah, essas fazem um mal danado a este pobre Brasil, tão precisado de seriedade e tão entregue às baratas do mau-caratismo e do pseudo-intelectualismo da classe média.
Sebastunes Nião, também conhecido como Sabião Bestunes, Nastião Sebunes e diversos outros codinomes, é ex-poeta, cronista e ficcionista, autor de vários livros de prosa satírica, entre eles Decálogo da Classe Média e Somos Todos Assassinos, relançados em dezembro pela Editora Altana, de São Paulo. Sobre sua obra, poética ou não, a Editora UFMG lançou recentemente, organizado por Fabrício Marques, o livro Sebastião Nunes (o título é esse mesmo). Passou dos 70 anos, está quase caduco mas, ainda assim, continua metendo o bico na vida alheia, tanto de vivos quanto de mortos, principalmente de mortos-vivos. E-mail: dubolso@uai.com.br
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Tem gente que não me perdoa, mas continuo achando que a maior obra de arte do século 21 até agora – incluindo literatura, cinema, música, teatro e todo o resto – foi mesmo a explosão das torres gêmeas. Tudo perfeito. A hora escolhida, a beleza crua dos aviões detonando os edifícios, a transmissão em tempo real, a monumentalidade da realização... e até algumas vítimas inocentes (sic: ninguém é inocente, não é mesmo, João Paulo Sartre?) para temperar com sangue o grandioso espetáculo da manhã em chamas, que mergulhou em pânico e espanto os sentimentais, e encheu de sádico prazer os que não rezam pela cartilha do Tio Sam.
Mas meu assunto não é este. Estou pensando mesmo é em livro e leitura, embalado pela crônica de Geraldo Maia, “Bienal do Livro: cadê a leitura?”, publicada aqui em 23/2/2009, e pelo post-resposta de Ney Ferraz Paiva, de 28/2/2009, “mercar, sim, mas assim não”.
A resposta que eles procuram e não encontram, e eu também não encontrei, mas sei que tangenciaram, aponta pelo menos o problema maior: o livro transformado em mercadoria, e só mercadoria, foda-se o mundo e dane-se o leitor.
A questão básica é a seguinte: por que, existindo tantos programas de compra de livro e de incentivo à leitura, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes?
A resposta, alegórica: porque os empata-fodas continuam empatando a foda. E os empata-fodas são os vendedores de livros fantasiados de produtores de livros ou, se preferem eufemismo, em editores, distribuidores e livreiros, argh!
Perguntinha número 1: quais são, pela ordem, os três produtos mais vendidos nas tão badaladas bienais e feiras de livros?
Resposta: estandes, comida e bebida. Em quarto lugar ficam os livros, mas só em quarto lugar, assim mesmo com 99% de best-sellers vagabundos, biografias e fofocas de e sobre gente famosa, e obras de auto-ajuda, que não ajudam ninguém, é claro, só ajudam a encher o bolso dos autores de tais babaquices e das grandes empresas que mamam no público que sucumbe aos cantos das sereias do mercado.
Perguntinha número 2: por que as bienais de livro são tão badaladas, se em vez de servirem à cultura servem apenas a seus promotores e paus-mandados?
Resposta sintética: porque a grande imprensa está cheia de autores editados na base da troca de favores e precisa desovar seus próprios produtos pseudoculturais, ou seja, incrementar o círculo vicioso da mútua badalação.
Perguntinha número 3: quem são os “famosos autores” que ajudam a promover essas bienais de livros?
Resposta cínica: exatamente os autores de best-sellers, quase todos encastelados na grande imprensa do mundo todo (que culturalmente também está globalizado), que a cada peido recebem um milhão de dólares, e a cada arroto, idem.
Perguntinha número 4: por que, apesar de comprar e distribuir de graça tanto livro, o governo federal ainda não conseguiu, com seus milhares de “parceiros” da iniciativa privada, consolidar programas de leitura e escrita consistentes, seja a curto ou a médio prazo?
Resposta dedo-duro e longa, relendo a crônica de Geraldo Maia:
Sim, 70% dos livros editados no país são comprados e distribuídos de graça pelo governo federal, que mantém há alguns anos o maior programa de compra de livros do mundo. Pequena mas importante parcela é constituída de livros literários de boa e ótima qualidade. Falo do PNBE, Programa Nacional Biblioteca da Escola, ligado ao FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, órgão do MEC. Os outros, a grande maioria, são didáticos, também indispensáveis nas escolas públicas.
Por outro lado, boa parte das entidades ligadas a livro e leitura, sejam elas editoras ou fundações, são pouco ou nada confiáveis.
Exemplo número 1: os governos da cidade e do estado de São Paulo fizeram expressiva compra de livros literários em 2008, meio por baixo dos panos, com aval da CBL (Câmara Brasileira do Livro), que privilegiou editoras paulistas, lógico. O garoto-propaganda, com sempre, foi nosso sorridente Ziraldo, o que faz tudo por dinheiro e holofotes, mesmo estando velhote e rico. Não preciso citar Maurício de Souza, claro.
Exemplo número 2: A Fundação Biblioteca Nacional, ligada ao Ministério da Cultura, lançou edital para compra de cerca de 2.000 títulos pré-escolhidos não se sabe por quem, já que a divulgação só apareceu depois do edital pronto, isto é, dos livros já escolhidos, se não loteados entre as editoras mais espertas. O CEM, Clube de Editoras Mineiras (do qual faço parte como sócio da Dubolsinho, de literatura infanto-juvenil), entrou na justiça contra a licitação. Perdemos, porque atiramos contra o que vimos (a licitação) e não visamos quem ordenou a compra (a FBN). Parece que a tramoia melou parcialmente, pois deve ter chegado aos ouvidos do Juca Ferreira, que quase certamente não sabia do rolo. Bravo editor cearense (não estou autorizado a escrever seu nome) recusou participação na gandaia, declarando em carta-aberta que não venderia seus dois títulos escolhidos, por não concordar com os critérios sombrios e sem transparência da escolha. Por outro lado, mesmo sendo Minas um importante polo na produção nacional para jovens, numa briga feroz por qualidade contra quantidade, as editoras do estado não tiveram um único titulo incluído na lista.
Exemplo número 3: a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), baseada no Rio de Janeiro, e que fica a dois ou três quarteirões da FBN, promove todo ano o julgamento da produção editorial para jovens, com ênfase na badalada distinção “Altamente Recomendáveis”. Dos 25 votantes, 11 moram no Rio.
Perguntinha número 5: e então, como ficam a leitura e a escrita nesse país?
Resposta final: é preciso separar o joio do trigo, com perdão pelo truísmo.
As mais badaladas instituições ligadas a livro e leitura não passam de entidades de fachada, criadas por grandes empresas para não pagaram impostos e se promoverem na mídia. Literatura não faz parte de seus interesses, a não ser como meio.
Por mais que os “intelectuais” torçam o nariz para o governo Lula (a maioria inclusive não se cansa de fazer piada com seu pretenso “analfabetismo”, sem perceber que é o primeiro presidente digno do título em 110 anos de república patrimonialista, seus programas educacionais são motivo de admiração (e de reprodução) em muitos países, tanto mais ricos quanto mais pobres que nós.
Literatura com L maiúsculo, ou seja, aquela magnífica escola de vida que fez a glória dos grandes autores de todo o mundo, é dinossauro soltando os últimos suspiros. Me refiro especialmente aos romances de alto nível. Sobrou a escória, os que não sabem escrever porque nunca leram nada. São esses que alimentam a cadeia do toma-lá-dá-cá, a nojenta cadeia “produtiva” de livros que assola o país e que infesta tanto as editoras quanto a grande imprensa, ou seja, a que se vende em tempo integral.
Voltando às feiras de livro, com as famosas bienais (Rio e São Paulo) à frente: seu objetivo, não faz mal repetir, é encher de grana o rabo dos grandes editores, das grandes distribuidoras, das montadoras de estandes e das entidades que as promovem, além dos periféricos vendedores de cachorro-quente e refri. Só. Apenas isso. Nada mais do que isso. Leitura e literatura não foram – e nunca serão – convidadas para a festa, por mais que as duas palavras sejam citadas e usadas todo o tempo, como uma espécie de “abre-te sésamo” para a mais deslavada picaretagem livresca.
Enfim, e depois de tanto malhar em ferro frio, será que ainda preciso revelar o nome das novas torres gêmeas, infinitamente mais perniciosas que as outras? Aquelas, coitadas, eram apenas edifícios arrogantes e cheios de empáfia, produtos da grosseira megalomania ianque. As nossas, ah, essas fazem um mal danado a este pobre Brasil, tão precisado de seriedade e tão entregue às baratas do mau-caratismo e do pseudo-intelectualismo da classe média.
Sebastunes Nião, também conhecido como Sabião Bestunes, Nastião Sebunes e diversos outros codinomes, é ex-poeta, cronista e ficcionista, autor de vários livros de prosa satírica, entre eles Decálogo da Classe Média e Somos Todos Assassinos, relançados em dezembro pela Editora Altana, de São Paulo. Sobre sua obra, poética ou não, a Editora UFMG lançou recentemente, organizado por Fabrício Marques, o livro Sebastião Nunes (o título é esse mesmo). Passou dos 70 anos, está quase caduco mas, ainda assim, continua metendo o bico na vida alheia, tanto de vivos quanto de mortos, principalmente de mortos-vivos. E-mail: dubolso@uai.com.br
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Carta de Gunter Axt para Gerald
COMENTARIO ABSOLUTAMENTE COMOVENTE
DE UM GRANDE AMIGO:
GUNTER AXT
Gerald, querido;
Vc produziu um belo texto de balanço de tua obra. Um poderoso desabafo! Raras vezes vê-se nos dias de hoje um artista tão desnudo, tão exposto, tão autêntico, tão corajoso e, sobretudo, tão coerente. Vc vem partilhando com a gente a sua crise, pessoal e profissional, com o teatro, há alguns anos, pelo blog. Graças a esta moderna ferramenta de comunicação, o teu público pôde partilhar das tuas angústias e das tuas dúvidas nos últimos tempos, coisa que, no passado, os artistas confiavam aos seus diários, ou a cartas endereçadas a uns poucos amigos próximos, dramas que chegavam ao grande público apenas anos mais tarde, em geral, anos após a sua morte. Quando vc se remete a Rembrandt, fala em morte e em renascimento. Eis uma conexão instigante: se vc e sua arte morrem em tempo real, on-line, comunicando num piscar de olhos aquilo que os grandes artistas do passado levavam décadas para transmitir, então a chance do renascimento é mais forte do que nunca.
A tua peculiar proximidade a Beckett, experiência para ti de enorme intensidade e vivida por tão poucos, fez dele, creio, uma espécie de alter-ego para vc. Diante disso, entendo que o problema de não ver sentido em continuar é, sim, bastante real e palpável. Pode parecer uma aporia, em se tratando justamente de Beckett, que dizia: “fracasse outra vez, fracasse melhor”. Estranho otimismo às avessas, otimismo encontrado na inversão, haurido da dupla negação, desse pessimista para com a condição humana, condição cujo destino se afiguraria melancólico e desamparado, como que sintetizando o desencanto agressivo de Schopenhauer, proclamando que a vida mais parece uma catástrofe e que a salvação, embora prometida, jamais chegará. Em minha modesta opinião, Beckett revolucionou o teatro não apenas pela sua técnica e pelo seu estilo únicos. Mas porque ele conduz, com estonteante naturalidade, seus leitores às fronteiras da razão, instaurando a instabilidade absoluta – e absurda – do Humano, que, como dizia Ortega y Gasset, está pela primeira vez na História integralmente diante de si mesmo, sem a âncora identitária do passado a lhe guiar os passos para o futuro, precisando, por isso mesmo, de uma nova revelação. Ortega era um conservador que preconizava a idílica restauração da erudição, a reconciliação reacionária com a tradição. Vc entende Beckett muito melhor do que eu, mas eu sempre achei que, bem ao estilo irlandês, ele seria irreverente de mais para um niilismo satírico à la Kafka, ou para, como Gasset, levar água ao moinho do discurso conservador. Joyce sinalizou para esta nova revelação, ao celebrar, em seu magnífico Ulisses, apesar de toda a deliciosa ironia obscena, o poder construtivo do homem comum, libertado, justamente, pelo século XX que, para Gasset não passava de uma rota expressa para a decadência. Creio que foi com este valor que Beckett dialogou, antecipando um mundo onde a verdade estaria erodida e a relatividade do signo estabelecida. É nesse contexto que o absurdo limiar do pensamento racional converte-se em poderosa ferramenta de libertação, pela confrontação do establishment, pela desestabilização dos sentidos. Sim, L.H.O.O.Q, cinco letras que em 1919 questionaram todos os alicerces da arte ocidental. A “loucura do inesperado” bombardeando a “arte da retina”. Ou o caos organizado do Caberet Voltaire como reflexão enfurecida sobre o caos letal fora de suas paredes – esse sim, absurdo! – de uma guerra cujo único objetivo parecia ser a carnificina em massa. Ou Ensor, antes ainda, irreverente, irônico, investindo contra o público apreciador de arte convencional. Não foi Picasso quem definiu o conjunto da arte moderna como uma soma de destruições? Quando Beckett escreveu, os móbiles de Calder, com seu equilíbrio precário, ainda não haviam cumprido o seu papel de tornar mais rasa a fossa abissal entre as vanguardas e o gosto da classe média. Escrevendo em outra língua que não a sua, adotando um outro país de residência, partilhando a diluição das identidades de um indivíduo, o mundo fluído que Backett antecipou chegou. Por que confrontar pela desestabilização do signo se ele já se tornou instável, se o relativismo já se tornou regra, se a verdade deixou de existir?
Sim, o East Village não tem mais a mesma graça. As cidades também cansam, tornam-se presas da própria atitude que ajudam a construir, já que atraem uma massa de viajantes ávidos por fruir a atitude que acabam ajudando a disseminar, mas também a matar. A Nova Iorque do Max’s Kansas City, com Warhol, Iggy Pop, Bowie, com happenings de Rauschenberg, de Simone Forti, Phil Glass, Steve Reich, Michael Snow, Eva Hesse… – não podia ser eterna. A linguagem ali fundada ganhou o mundo. O que antes era um diálogo de um coletivo de jovens brilhantes, hoje está nos mais consagrados museus, teatros e filarmônicas. Pode não ter logrado preencher todos os corações do planeta, mas… Se caras como Richard Serra eram então marginais, hoje se converteram em pontos de referência. E sem terem se rendido àquilo que o mercado então queria deles. Foram coerentes com os seus conceitos e, pelo contrário, moldaram o mercado e o público aos seus conceitos. Algo que vc tb logrou alcançar, Gerald, com eficácia, em diversos momentos. E, enfim, num mundo amalgamado pela rede, onde a lógica da disciplina, tal qual descrita por Foucault, cede rapidamente espaço à lógica das redes, as distâncias diminuem, o tempo se acelera, os centros perdem sentido.
O dramático nisso tudo é que, mesmo com o fim da verdade, com a desestabilização do signo, com dinâmica de rede, com a descentralização, a promessa de realização da herança libertária dos anos 1960 não se cumpriu. E aqui, penso, reside o impasse. Qual é a linguagem capaz de reconhecer as mudanças que aconteceram, e das quais o mundo, em minha opinião, precisava, com a necessidade de manter viva a herança libertária dos anos 60?
Rimbaud, aos 17 anos, em 1871, disse que o primeiro passo para um poeta tem de ser o estudo do autoconhecimento. Este fenômeno cosmopolita que foi o modernismo desde o seu princípio, e no qual Duchamp, Beckett e vc se inscrevem, teve sempre este compromisso da busca da criação no olhar para dentro de si mesmo, sendo a arte uma expressão de sentimentos e sensações interiores. Nada mais coerente, portanto, que vc prestar atenção na sua voz mais íntima.
Tudo indica que a criação, no seu caso, é uma necessidade. Vc fundiu sua vida com o teatro. E um teatro em múltiplas direções: você dirige, atua, escreve, produz, comenta. Despedir-se dos palcos, do blog, é o primeiro passo para libertar-se desse compromisso de vida. Vc só pode encontrar a sua nova linguagem se não se sentir obrigado e compelido a fazê-lo.
Querido, desculpe se me estendi nesta carta. Mas, dessa vez, não poderia deixar de comentar com vc o que senti ao ler o seu texto. Pensei em postá-la nos comentários ao teu texto, mas fico sempre meio envergonhado de fazê-lo. Te mando ela por mail, mas fique à vontade se quiser postar no blog. E tomei tb a liberdade de ligar para a Dona Eva. Simplesmente pq há momentos em que mesmo os homens que são exércitos de guerra de um homem só precisam da mãe.
Love, G
Gunter Axt
http://www.gunteraxt.com/
DE UM GRANDE AMIGO:
GUNTER AXT
Gerald, querido;
Vc produziu um belo texto de balanço de tua obra. Um poderoso desabafo! Raras vezes vê-se nos dias de hoje um artista tão desnudo, tão exposto, tão autêntico, tão corajoso e, sobretudo, tão coerente. Vc vem partilhando com a gente a sua crise, pessoal e profissional, com o teatro, há alguns anos, pelo blog. Graças a esta moderna ferramenta de comunicação, o teu público pôde partilhar das tuas angústias e das tuas dúvidas nos últimos tempos, coisa que, no passado, os artistas confiavam aos seus diários, ou a cartas endereçadas a uns poucos amigos próximos, dramas que chegavam ao grande público apenas anos mais tarde, em geral, anos após a sua morte. Quando vc se remete a Rembrandt, fala em morte e em renascimento. Eis uma conexão instigante: se vc e sua arte morrem em tempo real, on-line, comunicando num piscar de olhos aquilo que os grandes artistas do passado levavam décadas para transmitir, então a chance do renascimento é mais forte do que nunca.
A tua peculiar proximidade a Beckett, experiência para ti de enorme intensidade e vivida por tão poucos, fez dele, creio, uma espécie de alter-ego para vc. Diante disso, entendo que o problema de não ver sentido em continuar é, sim, bastante real e palpável. Pode parecer uma aporia, em se tratando justamente de Beckett, que dizia: “fracasse outra vez, fracasse melhor”. Estranho otimismo às avessas, otimismo encontrado na inversão, haurido da dupla negação, desse pessimista para com a condição humana, condição cujo destino se afiguraria melancólico e desamparado, como que sintetizando o desencanto agressivo de Schopenhauer, proclamando que a vida mais parece uma catástrofe e que a salvação, embora prometida, jamais chegará. Em minha modesta opinião, Beckett revolucionou o teatro não apenas pela sua técnica e pelo seu estilo únicos. Mas porque ele conduz, com estonteante naturalidade, seus leitores às fronteiras da razão, instaurando a instabilidade absoluta – e absurda – do Humano, que, como dizia Ortega y Gasset, está pela primeira vez na História integralmente diante de si mesmo, sem a âncora identitária do passado a lhe guiar os passos para o futuro, precisando, por isso mesmo, de uma nova revelação. Ortega era um conservador que preconizava a idílica restauração da erudição, a reconciliação reacionária com a tradição. Vc entende Beckett muito melhor do que eu, mas eu sempre achei que, bem ao estilo irlandês, ele seria irreverente de mais para um niilismo satírico à la Kafka, ou para, como Gasset, levar água ao moinho do discurso conservador. Joyce sinalizou para esta nova revelação, ao celebrar, em seu magnífico Ulisses, apesar de toda a deliciosa ironia obscena, o poder construtivo do homem comum, libertado, justamente, pelo século XX que, para Gasset não passava de uma rota expressa para a decadência. Creio que foi com este valor que Beckett dialogou, antecipando um mundo onde a verdade estaria erodida e a relatividade do signo estabelecida. É nesse contexto que o absurdo limiar do pensamento racional converte-se em poderosa ferramenta de libertação, pela confrontação do establishment, pela desestabilização dos sentidos. Sim, L.H.O.O.Q, cinco letras que em 1919 questionaram todos os alicerces da arte ocidental. A “loucura do inesperado” bombardeando a “arte da retina”. Ou o caos organizado do Caberet Voltaire como reflexão enfurecida sobre o caos letal fora de suas paredes – esse sim, absurdo! – de uma guerra cujo único objetivo parecia ser a carnificina em massa. Ou Ensor, antes ainda, irreverente, irônico, investindo contra o público apreciador de arte convencional. Não foi Picasso quem definiu o conjunto da arte moderna como uma soma de destruições? Quando Beckett escreveu, os móbiles de Calder, com seu equilíbrio precário, ainda não haviam cumprido o seu papel de tornar mais rasa a fossa abissal entre as vanguardas e o gosto da classe média. Escrevendo em outra língua que não a sua, adotando um outro país de residência, partilhando a diluição das identidades de um indivíduo, o mundo fluído que Backett antecipou chegou. Por que confrontar pela desestabilização do signo se ele já se tornou instável, se o relativismo já se tornou regra, se a verdade deixou de existir?
Sim, o East Village não tem mais a mesma graça. As cidades também cansam, tornam-se presas da própria atitude que ajudam a construir, já que atraem uma massa de viajantes ávidos por fruir a atitude que acabam ajudando a disseminar, mas também a matar. A Nova Iorque do Max’s Kansas City, com Warhol, Iggy Pop, Bowie, com happenings de Rauschenberg, de Simone Forti, Phil Glass, Steve Reich, Michael Snow, Eva Hesse… – não podia ser eterna. A linguagem ali fundada ganhou o mundo. O que antes era um diálogo de um coletivo de jovens brilhantes, hoje está nos mais consagrados museus, teatros e filarmônicas. Pode não ter logrado preencher todos os corações do planeta, mas… Se caras como Richard Serra eram então marginais, hoje se converteram em pontos de referência. E sem terem se rendido àquilo que o mercado então queria deles. Foram coerentes com os seus conceitos e, pelo contrário, moldaram o mercado e o público aos seus conceitos. Algo que vc tb logrou alcançar, Gerald, com eficácia, em diversos momentos. E, enfim, num mundo amalgamado pela rede, onde a lógica da disciplina, tal qual descrita por Foucault, cede rapidamente espaço à lógica das redes, as distâncias diminuem, o tempo se acelera, os centros perdem sentido.
O dramático nisso tudo é que, mesmo com o fim da verdade, com a desestabilização do signo, com dinâmica de rede, com a descentralização, a promessa de realização da herança libertária dos anos 1960 não se cumpriu. E aqui, penso, reside o impasse. Qual é a linguagem capaz de reconhecer as mudanças que aconteceram, e das quais o mundo, em minha opinião, precisava, com a necessidade de manter viva a herança libertária dos anos 60?
Rimbaud, aos 17 anos, em 1871, disse que o primeiro passo para um poeta tem de ser o estudo do autoconhecimento. Este fenômeno cosmopolita que foi o modernismo desde o seu princípio, e no qual Duchamp, Beckett e vc se inscrevem, teve sempre este compromisso da busca da criação no olhar para dentro de si mesmo, sendo a arte uma expressão de sentimentos e sensações interiores. Nada mais coerente, portanto, que vc prestar atenção na sua voz mais íntima.
Tudo indica que a criação, no seu caso, é uma necessidade. Vc fundiu sua vida com o teatro. E um teatro em múltiplas direções: você dirige, atua, escreve, produz, comenta. Despedir-se dos palcos, do blog, é o primeiro passo para libertar-se desse compromisso de vida. Vc só pode encontrar a sua nova linguagem se não se sentir obrigado e compelido a fazê-lo.
Querido, desculpe se me estendi nesta carta. Mas, dessa vez, não poderia deixar de comentar com vc o que senti ao ler o seu texto. Pensei em postá-la nos comentários ao teu texto, mas fico sempre meio envergonhado de fazê-lo. Te mando ela por mail, mas fique à vontade se quiser postar no blog. E tomei tb a liberdade de ligar para a Dona Eva. Simplesmente pq há momentos em que mesmo os homens que são exércitos de guerra de um homem só precisam da mãe.
Love, G
Gunter Axt
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Não és Beckett, não és nada
WINNIE_LIBERTADA: Godot é uma criança com amnésia. Por isso está sempre a começar.
ESTRAGON: A começar?
WINNIE-LIBERTADA: A começar.
BOY: Vou começar agora?
WINNIE-LIBERTADA: Sim.
VLADIMIR: Não!
ESTRAGON: Viver tudo outra vez?
BOY: Então volto amanhã. Esperem por mim. (Sai a correr.)
VLADIMIR: Continuar à espera dele? Assim não brinco.
WINNIE-LIBERTADA: Que havemos nós de fazer senão brincar?
Últimas falas que encerram a minha peça NÃO ÉS BECKETT, NÃO ÉS NADA, ou Espera Apócrifa reloaded (Lisboa: ApenasLivros, Setembro de 2009)
Neste dia em que li a sua impressionante declaração de ansiosa vida na arte, estreia-se e publica-se em Lisboa esta minha peça epigonal com um grupo de quatro jovens actores que a quiseram fazer, no Teatro da Comuna. Não quis deixar de lhe escrever esta mensagem, com as falas destas personagens, do inimitável Beckett, que reinventei para tudo e para nada, como é próprio do teatro. E que tal se no regresso do seu retiro, seja quando for, nos pudéssemos cruzar um dia, para um brainstorming cénico, num qualquer palco deste globo em aquecimento acelerado?
Esperando por Gerald
Um Abraço de Portugal
Armando Nascimento Rosa
(dramaturgo)
ESTRAGON: A começar?
WINNIE-LIBERTADA: A começar.
BOY: Vou começar agora?
WINNIE-LIBERTADA: Sim.
VLADIMIR: Não!
ESTRAGON: Viver tudo outra vez?
BOY: Então volto amanhã. Esperem por mim. (Sai a correr.)
VLADIMIR: Continuar à espera dele? Assim não brinco.
WINNIE-LIBERTADA: Que havemos nós de fazer senão brincar?
Últimas falas que encerram a minha peça NÃO ÉS BECKETT, NÃO ÉS NADA, ou Espera Apócrifa reloaded (Lisboa: ApenasLivros, Setembro de 2009)
Neste dia em que li a sua impressionante declaração de ansiosa vida na arte, estreia-se e publica-se em Lisboa esta minha peça epigonal com um grupo de quatro jovens actores que a quiseram fazer, no Teatro da Comuna. Não quis deixar de lhe escrever esta mensagem, com as falas destas personagens, do inimitável Beckett, que reinventei para tudo e para nada, como é próprio do teatro. E que tal se no regresso do seu retiro, seja quando for, nos pudéssemos cruzar um dia, para um brainstorming cénico, num qualquer palco deste globo em aquecimento acelerado?
Esperando por Gerald
Um Abraço de Portugal
Armando Nascimento Rosa
(dramaturgo)
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