segunda-feira, 27 de julho de 2015

Leonardo Padura: Um Escritor na Borderline

Alejandro Padura, escritor cubano, está com frequência visitando o Brasil e divulgando sua literatura policial, assim como seu romance histórico O Homem e Os Cachorros.


Logo quando ele passou a vir com mais frequência ao Brasil, tive acesso a um texto de Yoani Sánchez, escritora e dissidente profissional, a seu respeito: Stalinismo Vivo em Cuba. Já tratei brevemente desse texto aqui, uma vez que encontrei nele uma contradição bem ao estilo de Yoani: enquanto John Lee Anderson, num perfil para a revista Piauí, menciona que os livros de Padura estão em todo lugar na ilha, Yoani mentiu dizendo que saíram apenas uns cem exemplares. Dizer que Yoani é mentirosa  é pleonasmo. Além de que, afinal, não fez uma carreira literária ou jornalística na ilha como Padura. Ou seja: Yoani não é uma escritora cubana, é uma nulidade adotada e promovida por brasileiros tolos como Jaime Pinsky, Augusto Nunes e Eduardo Suplicy. 


Já foi notado o quanto a figura de Yoani é conveniente ao sistema em Cuba. O fato é que sua figura de dissidente pró-americana exaltada ofusca a crítica às privatizações no país, por exemplo, assim como a presença, lá, de empresas como a Odebrecht, envolvida em escândalos de corrupção ligados ao PT desde os anos 90. Além do que, segundo  a própria Dilma, a Odebrecht opera com capitais holandeses. Alguém que sabe o beabá do marxismo sabe que os capitais estrangeiros, ao serem exportados, vão para as regiões produtoras de matérias-primas, ou seja, das metrópoles para as colônias ou semi-colônias. Isso configura um processo colonial de exploração. Daí que fica bem mais complexo explicar porque o "socialismo" cubano aceita isso --a menos que seja um falso socialismo, um revisionismo onde de fato há avanços democráticos, mas pouca ou nenhuma construção socialista efetiva.

Aqui, Padura fez sucesso de Frank Sinatra, encontrando-se com Dilma e Lula e sido elogiado pelo escritor fascista (ele chega a usar pseudônimos como Guerreiro do Sigma, utilizando um sigma do integralismo brasileiro) Olavo de Carvalho. Ou seja, como escritor que trabalha sempre na fronteira, ora como dissidente político, ora com escritor que vive em Cuba e apenas critica de leve o regime, adquire ampla aceitação, tendo feito sucesso nos dois lados do espectro político.


Vendo suas entrevistas, verifiquei que Padura tem a pretensão, além de ficcionista, de que os fatos narrados em seu livro sobre Trotsky sejam verdade, afinal ele diz ter feito pesquisas em Moscou. No entanto, mesmo em uma simples entrevista para outra encontramos contradições. Ele diz que na juventude, apenas dispunha de dois livros sobre Trotsky: Trotsky Traidor e Trotsky Inimigo do Comunismo. Em outro momento, em outra entrevista, afirma que os livros de que dispunha em Cuba pulavam a morte de Trotsky, como se ele tivesse subido aos céus --e por isso, também, Padura teria escrito esse romance histórico que, esse sim, parece realmente colocar Trotsky --cada vez mais comprovadamente, em termos históricos, um traidor e um disseminador de uma doutrina que destrói o comunismo, conforme estou verificando em minha tradução do texto do professor Grover Furr, Evidências da Colaboração de Trotsky com os Nazis e Japoneses --no céu.


Igualmente, Padura aproveita a ligação entre Jacson Monard e Cuba (ele viveu um tempo lá, depois de cumprir sua pena no México) para fazer um ataque mais generalizado ao socialismo e ao comunismo em Cuba e na URSS.

No fluxo de resenhas favoráveis a Padura, lançadas quando o livro O Homem e os Cachorros saiu, uma delas dizia que não se sabia da morte de Trotsky na URSS em 1940, pois "quase nada saiu". Falso! A morte de Trotsky saiu no editorial do jornal Pravda. O editorial foi revisado pelo próprio Stálin. O documento está disponível na web, traduzido em língua portuguesa e chama-se a morte de um espião internacional. O documento tem anotações do próprio Stálin, realizadas durante sua redação. As anotações confirmam o que se pode ler também em outras fontes, como um telegrama de Trotsky para o Comitê Central em 36, coligido por Grover Furr: mesmo na esfera privada, Stálin acreditava que Trotsky era culpado.


Obviamente, poderemos navegar pelas 400 páginas de Padura sem nunca sonhar com informações ou documentos como esse. Para esse tipo de livro, ainda vale o que dizia o grande Oswald de Andrade: NÃO LI E NÃO GOSTEI.


Padura insiste na teoria de que Jacson Monard, para ele Ramon Mercader, teria sido treinado na URSS por um agente da família Eitingon, família da qual levantou uma história mirabolante. Mas e o Jacson Monard histórico, o que dizia em sua defesa? Vamos dar voz a ele, citado por Harpal Bar em Trotsquismo x Leninismo:


"Trotsky estava querendo mandar-me para a Rússia,com o objetivo de organizar um novo estado de coisas na URSS...Nossa missão era produzir a desmoralização no Exército Vermelho,cometendo diferentes atos de sabotagem em indústria de armamentos e outras fábricas (...). Em lugar de encontrar-me frente a frente com um chefe político que estava dirigindo e luta pela libertação da classe operária, vi-me diante de um homem que desejava nada mais do que satisfazer suas necessidades e desejo de vingança e de ódio e que não utilizava a luta dos operários para nada mais do que um meio de esconder sua própria ligação, insignificância e seus cálculos desprezíveis...em relação a sua casa,que ele me disse muito acertadamente ter sido convertida em um fortaleza. Eu me perguntei muitas vezes de onde tinha vindo o dinheiro para tal trabalho...Talvez o Cônsul de uma grande nação estrangeira que muitas vezes visitou-o nos possa responder essa pergunta...
Foi Trotsky que destruiu minha natureza,meu futuro e todas as minhas afeições. Ele converteu-me em um homem sem nome, em um instrumento de Trotsky - Trotsky esmagou-me em suas mãos como se eu fosse de papel." 

A fala de Jacson converge com o que foi escrito no Pravda: Trotsky foi assassinado por um de seus colaboradores. Saiba mais aqui. Padura chega a admitir a hipótese de que Trotsky foi assassinado numa operação dirigida pessoalmente por Stálin, assim como insinuou que o fato de Trotsky ser judeu foi um elemento motivador de seu assassinato. 


O que o professor Grover Furr levantou foi que Sudoplatov, ex-agente do comitê de segurança pública (NKVD), escreveu suas memórias ao tempo de Yeltsin e admitiu que existia uma operação anti-trotsquista no México. No entanto, mesmo escrevendo depois do fim da URSS, mesmo tendo ficado anos na prisão na URSS, ainda escreve, nos anos 90, certo de que Trotsky estava colaborando com os nazis --e daí a razão de seu assassinato.

Em resenha recente, Manoel Urbano Rodrigues, ligado ao PCB, verificou com espanto a audácia de Padura no romance ao colocar arrependimento na boca de Trotsky no que diz respeito à repressão contra a base de Kronstadt. Em Muito Barulho por Kronstadt, artigo de Trotsky, ele repudiou violentamente os que o cobravam pela repressão na base: chamou-os uma frente de delatores. Igualmente, chamou nesse artigo os marinheiros da base de algo como "coxinhas", ou seja, pequenos-burgueses mimados, escória, gente mais preocupada com o topete ou a calça boca-de-sino do que com qualquer coisa consequente em termos de política. Outro crítico, do jornal Sul 21, observou com espanto o sucesso do estilo prolixo e cafona de Padura. Sucesso obtido num romance de 400 páginas...

Os espantos não param por aí. Padura é muito mimado pela mídia por ser dissidente enrustido de regime de Fidel Castro e teve um vídeo de sua participação no Roda Viva viralizado por petistas em defesa de Cuba, apenas porque rebateu uma jornalista da revista Veja que comentou sobre a fome em Cuba e foi desmentida por Padura. No perfil para a revista Piauí, Padura vitimizava-se, dizendo-se isolado em Cuba. No entanto, verifiquei que ele tem twitter. Nesse twitter, ele chama a Interpresse, site de Cuba, de cachorros de Mercader, numa aparente crítica. Ao verificar o site, notei que há artigos ali falando bem...do próprio Padura!

Igualmente, Padura insiste em que Trotsky desapareceu das fotografias na URSS. Essa hipótese desse tipo de falsificação foi examinada por meu amigo Icaro Alves. Esse tipo de pressuposição vai de encontro ao que o próprio Padura fala: ele admite que em Cuba existia UMA DETERMINADA NARRATIVA sobre Trotsky. E uma narrativa que o apontava como traidor. Ele não foi apagado da história --foi apontado como inimigo.

Minha aposta é que o falastrão e carreirista Padura deixou de lado qualquer pesquisa histórica em prol de uma boa narrativa convincente e vendável. Para Padura, Trotsky e Mercader eram fanáticos, mas Stálin era um psicopata. Se Trotsky é fanático, Stálin psicopata, Padura é praticante da duplicidade política, é personalidade fronteiriça, Alejandro FATURA na borderline. Padura segue a cartilha dos vendilhões e escreve pensando no mercado, sim. É como diz ia George Orwell, material antistalinista é sempre muito vendável.




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