sexta-feira, 21 de março de 2014

Crítica do Humanismo Proletário e Contra o Nazi-bolchevismo

Nunca imaginei que fosse me dar ao trabalho de escrever isso, mas vou ter que escrever. Marco posição ao me manifestar contra uma vertente por aí pela web, com a qual alguns estudiosos da União Soviética e mesmo do professor Grover Furr mostram-se coniventes.

Aliás, quando enviei a Furr o texto de Arthur Fillipov, autor de livro didático que provocou polêmica na Rússia, ele achou uma porcaria os termos nacionalistas burgueses russos em que o texto trata Stálin. 

O Brasil, como dizia Glauber Rocha, que além de cineasta era importante pensador do Brasil, é um país extremamente colonizado, é colonizado até no sexo. Por isso, com a crise internacional, assim como a emergência de bibliografia marxista-leninista convincente para poder demolir o paradigma Guerra Fria, surgem alguns poucos, mas aguerridos, militantes decididos a procurar a verdade. A tendência, no entanto, parece ser de recaírem em velhos equívocos, muitos já desmistificados por Oswald de Andrade e Glauber Rocha.

O primeiro é exaltar a Rússia, fato muito bem apontado por Oswald de Andrade no antigo PCB. Rezar pela União Soviética, algo também comentado por Glauber Rocha. O Brasil é um país onde a colonização é algo ainda forte demais para que alguém não corra risco de ser colonizado pela Rússia e tornar-se um russófilo. É preciso espelhar-se em Glauber Rocha, sertanejo que conquistou o mundo, assim como em Luiz da Camara Cascudo, Gilberto Vasconcellos, o grande Oswald, Gilberto Freyre, dentre outros artistas e pensadores importantes. É preciso romper com a tendência brasileira de caboclo querer ser inglês --ou ser russo.

Sendo assim, muitos querem aproveitar  a mudança de paradigma histórico da Guerra Fria e cobram que eu deveria arremeter, também, contra o que chamam pós-modernismo. Mas o que seria isso? Não me prendo a meros rótulos. Eu sempre encontro um ou outro elemento progressista ou avanço nos ditos pós-modernos. Há muito o que rejeitar em pensadores como Deleuze, Foucault, Derrida, mas há também o que preservar. O próprio Maksim Gorki admirava muito Nietzsche e Nietzsche é a base dos pós-modernos.

Sendo assim, me oponho com veemência à postura de Cristiano Alves, dono do blog Página Vermelha, em suas posições recentes. A partir da posição do governo de Putin e de jornalistas russos, posições que ele confunde com marxismo-leninismo, pois na Rússia a margem de opinião respeitável a respeito de Stálin é bem mais larga do que aqui, ele se confunde totalmente, repetindo tolices e inversões. Ele se baseia em um texto de Gorki sobre o humanismo. Numa passagem do artigo, que é até bom em linhas gerais, Cristiano reproduz uma passagem que tem, a partir da enorme repercussão negativa na esquerda, se tornado o centro enlouquecido de suas reflexões: "já se criou um provérbio sarcástico: destruam os homossexualistas e o fascismo desaparecerá". Isso seria certo acaso estivéssemos falando sobre homossexuais reprimidos como Ernest Rom, das SA nazistas, assim como Roy Cohn, perseguidor de homossexuais na Guerra Fria e que era ele, também, homossexual. Aí sim: liberem os homossexuais reprimidos e o fascismo, se não desaparecerá, perderá com certeza alguns de seus defensores.

 Cristiano, em seu entusiasmo de colonizado pela mãe Rússia, liga o governo Putin e sua relativa tolerância com estudos sobre Stálin --mas que não deixa, também, de desestalinizar como todo bom anticomunista, tendo promulgado uma legislação que visa desestalinizar e punir os funcionários públicos que estejam de alguma forma ligados a essa linha de ação e pensamento.

A partir dessa reflexão datada e hoje totalmente anacrônica, Cristiano tem feito o seu cavalo de batalha contra "o pós-modernismo". A arte abstrata foi chamada, em um comentário em seu canal no youtube, de "quadros em que só tem um risco". Ora, tem um só risco, ou seja, só uma linha, algumas vezes, para você perceba: TODO QUADRO É COMPOSTO DE RISCOS, OU SEJA, DE LINHAS, DE COR, DE TEXTURAS, ETC. O pós-modernismo foi apontado, mais do que o imperialismo, como "aquilo que está acabando com o mundo", o que é falso e confunde conceitos.

 Cristiano também se mostra conivente com uma ideologia esdrúxula, uma proposta "jovem" de misturar nazismo e bolchevismo, o tal "nazbol". É até uma tribo urbana, durante algum tempo divulgada pelo "poser" Felipe Maestrello pelo facebook afora. A União Soviética foi, desde sempre, o extremo oposto do nazismo, um estado construído por trabalhadores e camponeses. Confundir isso é disseminar a confusão ideológica.

A verdade sobre esse estado é que o socialismo foi construído por Lenin e Stalin e desmantelado por Kruschev, Brejnev e Gorbachev. O capitalismo volta a ser reintroduzido por Kruschev, Brejnev continua o trabalho (o que muitos, infelizmente, contestam) e Gorbachev, implanta um estado burguês descarado, fato já denunciado por Abimael Guzmán em uma entrevista a El Diario em 1986.

Cristiano, no entanto, ao invés de rever sua posição, cada vez mais se enterra numa posição equívoca, bradando que Bolsonaro e Jean Wyllys são abominações e, com base numa leitura um tanto quanto mecanicista de que a ditadura militar apoiou a pornochanchada porque a Embrafilme fez pornochanchadas e a Embrafilme era uma empresa estatal --ora, a Embrafilme também apoiou o Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Idade da Terra e filmes bons, como Macunaíma, que não são pornochanchada. Ora, para seu governo,a Embrafilme foi construída em CIMA DO MITO GLAUBER ROCHA, foi construída em cima desse sertanejo destemido e do Cinema Novo. Só uma leitura muito rasa da pornochanchada pode levar a uma conclusão que elas "não faziam diferença entre hetero e homossexualidade". O olhar da pornochanchada, que era uma comédia erótica, era um olhar masculino. A homossexualidade entrava de uma forma que ela é aceita dentro desse código: são comuns, nesses filmes, as bichas estereotipadas, com as quais repete-se o ato realizado pelo machão junto à mulher, o homem "afeminado". Na realidade, a "bicha" pode ser o amigo do jogador de futebol que tatua "amor eterno" em seu corpo, mas que mesmo assim pode ser capaz das maiores brutalidades contra mulheres, chegando até mesmo ao assassinato, quando pode ser alguém como Jean Wyllys, que, por mais diferenças que eu tenha com ele, tem um papel progressista e quase sempre aponta o que eu gostaria de apontar.

Cristiano parece desvairado no desejo de polemizar e alcançar fama. Chega a dizer que no tempo da ditadura militar "era comum a iniciação sexual de jovens com travestis, como contou Pelé". Ora, ora, Cristiano, Pelé contou sua iniciação sexual nos anos 50, com outro rapaz, não com travestis. Que eu saiba, a ditadura militar não começou nos anos 50.

Wyllys, certa vez, ao ser entrevistado por Jô, observou: "Jô é um conservador". É muito importante ventilar esse tipo de opinião.

O reforço da ideologia dominante está no estereótipo, no clichê. Por isso filmes como Crô, da Globo Filmes, disseminam um reforço aos poderes dominantes, assim como a maior parte dos filmes e, no geral, no material erótico que circula na web. Não acho sofisticado substituir Silas Malafaia por padres ortodoxos da "Mãe Rússia". É completamente absurdo e alienado dizer que "a ditadura fez mais pelos homossexuais do que políticos como Jean Wyllys", por Cristiano chamado, sem melhores argumentos, de "porco" e beira a insanidade bradar, agora, aos cinquenta anos do golpe, que "defender a volta da ditadura fascista é defender o homossexualismo".

E é sempre bom lembrar que, se a ditadura apoiou a pornochanchada, o PCB também a apoiou. O diretor de A Dama do Lotação, assim como alguns outros que fizeram pornochanchada e ganharam dinheiro, fazendo sucesso com o dinheiro do estado financiando filmes comerciais, era ligado ao PCB e isso foi denunciado por Glauber Rocha em várias ocasiões.

ENTÃO, MINHA POSIÇÃO É A SEGUINTE: PELA BUSCA DA VERDADE CIENTÍFICA SOBRE TODOS OS ASSUNTOS, DESDE A HISTÓRIA DO SOCIALISMO ATÉ A SEXUALIDADE HUMANA! FORA COM O RETROCESSO!!!






3 comentários:

Felipe disse...

Lúcio, eu enviei um comentário pro blog do Cristiano, dizendo que não podemos ter esperanças com relação à Rússia atual pelo fato dela ser uma potência imperialista emergente e ele até deixou de postar coisas abertamente favoráveis à Rússia. Mas discordo da sua opinião sobre o Glauber Rocha e o Jean Willys. O primeiro parece que era mais um nacionalista do que um socialista. Tanto que se submeteu a bajular escancaradamente o general-presidente Geisel, chamando-o de "gênio da raça" pra poder voltar ao Brasil. O segundo, recentemente numa conferência sobre mídia, disse que a ninguém fez tanto como a Globo no combate à homofobia. Aliás, esse negócio de dizer que fulano ou sicrano fazia parte do PCB me parece até aquelas pessoas que possivelmente nunca foram à uma missa e adoram se dizer católicas.

Revistacidadesol disse...


Felipe: cuidado com Cristiano! Ele tem valor, mas está cheio de vaidade e arrogância, expulsando todo mundo dos grupos do facebook, a mim inclusive, apenas porque desafiei o "império" do tzar cristiano com argumentos.

Glauber errou nesse ponto, alimentando esperanças sobre militares nacionalistas no terceiro mundo. Ele esperou um Chávez e encontrou um Geisel. Mesmo Chávez eu creio que foi muito menos do que o pCB gosta de assumir. O único consolo é que FHC odeia Geisel, note. Isso demonstra que apesar de tudo, Glauber ainda demonstrou algum acerto.

Mas sim, o PCB nunca apoiou o Cinema Novo não, sempre combateu. Isso está documentado.

Abs do Lúcio Jr.

Felipe disse...

Engraçado que vendo os quadros que o Jô Soares fazia em programas como O Planeta dos Homens e Viva o Gordo, parecia que ele tinha um viés progressista.