quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

David Bowie e Nietzsche

Estou andando obcecado com o "gênio louco doloroso" de que falou Heraldo Barbuy na introdução de O Viandante e Sua Sombra. 
O desejo de virar um super-homem começou cedo a influenciar minha vida. Tudo começou quando tinha sete anos de idade. Eu ganhei a roupa do super-homem, e passei a me achar o próprio. Eu subia na sacada de nossa casa em Uberaba e ameaçava alçar voô. Minha mãe, preocupada, me advertiu de que se eu caísse, morreria. Disse que isso ocorreu com um menino nas mesmas circunstâncias (?). Esse mito é o que move todos os super-heróis, inclusive os x-men, provavelmente. É sempre um indivíduo que se torna um homem mais evoluído, mesmo em Zaratustra, e por isso Heraldo Barbuy afirma que Zaratustra morreu e que gosta dos homens, espera agora em diante o advento da super-humanidade e não do super-homem. Uma boa solução a posteriori. Outro dia na Folha disseram que o sonho de Nietzsche era uma aristocracia planetária de bestas loiras germânicas. Podemos supor que os desenhistas norte-americanos que criaram o super-herói (sabidamente o pai de todos os demais) se apropriaram desse mito, tornando-o mais liberal e mais cósmico, digamos assim. Vide o desenho animado "Super-Amigos" que animou minhas tardes de infância (e adolescência). Eles eram nada mais nada menos do que essa aristocracia, esses humanos com super-poderes trabalhando de polícia do universo na Hall of Justice dos States. Exterminavam as ameaças à ordem e terminavam sempre rindo. Eles eram super-heróis de uma humanidade sofredora, que não se tornava protagonista de seu destino como um todo e ficava submetida a essa elite. Mesmo entre os super-amigos havia uma hierarquia (a hierarquia é uma das obsessões de Nietzsche), com o Super-homem e a Mulher Maravilha sendo os mais fortes e os super-gêmeos sempre, literalmente, pagando mico... 
Talvez para evitarem esse tipo de associação que estou fazendo, os nietzschianos traduzem "übermensch" por além do homem e deixam o mito do super-homem prá lá. 
Ora, no próprio hino nacional alemão está: "deutschland über alles", a Alemanha acima de tudo. Notemos que nem na Marselhesa, nem no Hino Nacional ou da Bandeira há algo assim. O hino francês chama os cidadãos a defenderem o solo pátrio, o brasileiro fala que devemos nos orgulhar do que já temos, que é do bom e do melhor. Há, no próprio hino germânico, a obsessão com hierarquia e superação que perpassa a obra nietzschiana. Mas não acho, no entanto, que a obra de Nietzsche seja compatível com nazismo ou o neonazismo, a não ser se forem realizadas muitas distorções. Devemos0 notar que existiram seguidores do filosófo alemão em países pobres e fracos, ex-colônias, como a Colômbia (Vargas Villa) e o México (José Vasconcellos). Esse último, coincidentemente, dizia que a "raça cósmica" nasceria em algum lugar entre o Amazonas e o Prata...O super-homem nascerá nos trópicos! 
O fato inegável é que o capitalismo desenvolvido chegou, ainda que tardio. E seu local é a América do Norte. O mito do Super-homem foi retrabalhado pela indústria cultural, surgiu então o super-homem de massa de que fala Umberto Eco, o superist, superflit, superbacana de que tratou Caetano Veloso: vivemos no dia-a-dia uma versão degradada das idéias de Nietzsche e cada um de nós imergiu em sua própria arrogância, esperando dos demais seres inferiores, fracotes, um pouco de afeição...Até Jô Soares pintou um quadro chamado "O Filho do Super-homem" em que ele se retrata enquanto o próprio, dormindo sobre jornais na poltrona, enquanto atrás vemos um quadro do autor de A Vontade de Potência, como um retrato de antepassado...O problema de quem fala em superação do homem é esse, esse "eu" que enuncia essas profecias é sempre o profeta desse "homo superior" ou é ele próprio esse fruto dessa (r)evolução darwinista. Só Jesus Cristo não teve esse problema, mas ele se dizia um semi-deus -- e depois Deus matou o filho de Deus em nome de Deus. 
É ao mesmo tempo divertido e assustador saber que estamos às voltas com Dionísios Pop tais como Jorge Mautner e o finado Jim Morrison. Será o rock sobrevivência de Dionísio, romantismo desesperado, como supôs Mautner em Deus da Chuva e da Morte? O rock pode e poderá ser nietszschiano, mas Nietzsche jamais será roqueiro. David Bowie fez um disco muito obcecado com os jovens dos anos 70 como uma nova raça (Hunky Dory) e que tinha uma música (The Supermen) em que ele narra uma "queda original" da humanidade, que era formada por super-homens imortais, que viviam pela eternidade, guardava uma ilha sem amor e dormiam sofrendo com esse peso, até que um deles matou o seu semelhante, provocando a morte dos super-deuses e (supomos) gerando esse ciclo de nascimento e morte em que estamos agora. Para encerrar esse assunto, o que podemos dizer com certeza é que o rock é uma música negro-mestiça e portanto bem pouco parecida com Debussy, Wagner e outros compositores da preferência do profeta do eterno retorno, esse verdadeiro Anticristo Superstar que morreu há cem anos. Quem será hoje o jovem nietzschiano, aquele que escreve um trabalho acadêmico ou aquele que exprime enunciados nietzschianos no decorrer de uma vivência? Mas com isso não quero dizer que ambos se excluam. 

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5 comentários:

Felipe Vasconcelos Carneiro disse...

Oi, Lúcio! Tudo bem com você? Há quanto tempo você não posta lá no Google Plus, hein? Queria te dizer que aquela postagem no Facebook em que você compartilhou, da página Irracionalismo Moderno, sobre o Nietzsche ser metafísico é interessante. Essa página Irracionalismo Moderno parece ser útil para combater o pós-modernismo, mas ela mesma parece ser meio idealista também (é lukacsiana), não? Você não tá deixando que ninguém te adicione no Facebook? Um abraço!

Revistacidadesol disse...

Sim, a pg é lukacsiana e tem problemas. Eu tou deixando, sim. Abs

Felipe Vasconcelos Carneiro disse...

É porque eu não tô conseguindo nem comentar nas suas postagens no Facebook. E você posta muita coisa por dia lá, hein?

Felipe Vasconcelos Carneiro disse...

Lúcio, você viu o meu último comentário? Gostaria de saber se esse O Viandante e sua Sombra, desse Heraldo Barbuy e O Deus da Chuva e da Morte, do Jorge Mautner, são livros? E são de que tipo (poesia, ensaio...)?

Revistacidadesol disse...

Oi, Felipe. O Viandante e Sua Sombra é um livro de Nietzsche e o prefácio do Barbuy, filósofo brasileiro, foi postado aqui no blog e chama-se A Nietzsche Romântico. Deus da Chuva e da Morte é um romance, digamos assim.