sábado, 15 de outubro de 2016

Erik: Um Marxiano Contra a Dialética



Um bate bola entre eu e um marxiano antidialético. O texto dele, na íntegra, está disponível no blog dele, as minhas observações estão em itálico.




Marx: o materialismo contra a dialética

Certos marxistas gostam de dizer que o marxismo se corrige e se apura ao longo de sua história, através de “contribuições” dos mais díspares autores, cujo marxismo e contributo são garantidos por sua fidelidade ao “método do materialismo dialético”. São incapazes, entretanto, de corrigir ou eliminar essa farsa chamada “dialética marxista”.


Erik: como assim? Quem são seus inimigos, Erik? Que marxistas seriam esses? Eu? Engels? Stálin? Você vai desfazer essa farsa para nós? Aguardo ansioso. Marx é contra a dialética? Que interessante! Que descoberta.


Há, dentre outros mais, um texto de Marx claríssimo na crítica à dialética. É o capítulo “O Método da Economia Política”, de seu livro “Miséria da Filosofia”, onde mostra que o pensamento dialético está na verdade em Proudhon, de quem Marx critica o procedimento de encaixotar as categorias econômicas em categorias lógicas, produzidas por um ato especulativo que consiste em galgar os graus da abstração até se chegar em um patamar vazio de determinações, donde tais categorias serem “puras”; posteriormente, tais categorias são organizadas logicamente, e pronto: nasce mais um sistema dialético.

Vejamos o que diz João Quartim de Moraes a respeito:

A singularidade do texto que apresentamos no original, acompanhado da sólida e elegante tradução preparada por Fausto Castilho em 1996, está em que é a mais longa, densa e sistemática discussão sobre o método na obra de Marx. Ele também tratou do tema no Posfácio à 2ª edição alemã de O capital, mas principalmente para comentar resenhas sobre a 1ª edição. Cita uma longa passagem de uma delas, publicada no Correio Europeu de São Petersburgo, em que o autor expõe o que chama o método efetivo (wirkliche) de O capital. Ora, nota Marx, o que essa exposição, “acertada” e “benevolente”, descreve é o “método dialético”. Mas, por mais pertinente que tivesse sido a caracterização de seu método pelo resenhista russo, ele julgou útil consagrar à questão os cinco parágrafos restantes do Posfácio, principalmente para esclarecer as relações entre sua dialética e a hegeliana. Declara primeiro que seu método “é a antítese” do hegeliano, mas, defendendo Hegel contra os que pretenderam enterrar-lhe a obra, enuncia o célebre tema da inversão materialista da dialética, que separa o núcleo racional do envoltório místico. É evidente a importância desse Posfácio para o debate sobre a postura de Marx perante a dialética e a herança hegeliana, porém é no texto sobre o método da economia política que ele mostra como seu método funciona.


Falar de um “materialismo dialético” é cair imediatamente em uma contradição nos termos, pois enquanto o materialismo é ontológico – trata “o ser” não como categoria pura comum a tudo que existe (e que, portanto, nada tem a dizer de coisa alguma), mas considera “o ser” como um ser, uma coisa, um objeto, síntese de múltiplas determinações, ou seja, concreto, particular, específico, que apela não apenas ao pensamento mas também aos sentidos (pois dentre sua riqueza singular de predicados estão os que o tornam material) -, a dialética é um logicismo, uma fórmula metafísica dotada de “princípio”, não importa que não seja o ser “positivo, estático, eterno, imutável, infinito, perfeito, uno, em-si, esférico, absoluto” da metafísica tradicional (categorias do tempo, do espaço, da forma, do conteúdo, do ato etc. abstraídas e hipostasiadas ao vácuo total), mas sim o “devir”, o movimento tornado categoria pura, síntese da relação contraditória entre a pura “positividade” e a pura “negatividade” (Hegel inicia a “Ciência da Lógica” com a “análise” abstrativante da relação entre os puríssimos “ser” e “nada”, para fazer pipocar daí o “devir”); e de toda essa construção ideal pura, este “processo de contradições e sínteses que põe tudo (?) em movimento”, pretende alcançar o que é a verdade daquilo que é ontológico, concreto, impuro, que apela ao sensível muito antes de apelar ao pensamento filosófico, o que é verdadeiramente um absurdo e só pode se destinar ao fracasso ridículo, como todo bom sistema metafísico.

Erik: Pelo contrário, historicamente ontologia é o estudo do “ser do ser”. É abstração e inicialmente era voltada para o estudo de Deus, da Teologia. No final do seu confuso texto o termo ontológico voltou a significar abstração, metafísica. Mas o seu materialismo não era ontológico? É isso que é seu confuso “marxismo”. Tudo isso não passa de revisão absconsa do marxismo-leninismo, para os Eriks da vida se masturbarem na cátedra.

Donde Marx não partir de nenhuma dialética hegeliana, muito menos enxertando nela “o material” (o que seria um transplante totalmente estranho ao pensamento hegeliano) e retirando dela a “casca” de idéias irracionais do idealismo; algo que, convenhamos, teria sido extremamente banal de se ajeitar e não faria Marx merecer lugar nenhum na história da filosofia e da ciência.


Leia meu texto Marx, Conceitos Básicos, disponível no site da Comunidade Josef Stálin (Ui! Sentiu um arrepio?!): o método para chegar à realidade escolhido por Marx, como vimos, foi a dialética de Hegel repensada, assim como o conceito de história como um valor para o entendimento de qualquer ciência, arte ou religião. Estudando sua história e situando-a nela, esse saber será bem melhor entendido e mais frutífero. Hegel entendia a história do homem como uma sucessão de eras, ordenadas pelo espírito absoluto, chegando ao final dos tempos num continuum inspirado pelo cristianismo. Marx aproveita esse esquema mental, mas adapta-o ao materialismo: a sucessão histórica é de modos de produção: comuna primitiva, escravismo, capitalismo, socialismo, comunismo. E o “espírito absoluto” que move a história, ao invés de ser Deus, é o homem, através do processo histórico dialético (ou seja, através da tese/antítese/síntese), que seria para ele uma das leis fundamentais da natureza e da cultura.
         Muitas vezes se fala em “dialética” a propósito de Marx ou do marxismo, de tal forma que praticamente um virou sinônimo do outro. No entanto, a dialética é uma palavra de origem grega e de forma alguma foi inventada por Marx e por seus seguidores.
         A dialética, ou seja, a possibilidade de que o mundo seja formado pela luta dos contrários (dialegein) foi primeiramente estudada na Grécia Antiga por Heráclito (e o materialismo, por Epicuro e Demócrito). Dialética vem da palavra grega “dialektiké” que significa conversar, debater. Esses dois últimos foram, inclusive, objeto de estudo de Marx em sua monografia de conclusão de curso de doutorado em Filosofia (que era o equivalente à nossa graduação em Filosofia). Os gregos é que esboçaram a dialética. O filósofo Heráclito dizia que o todo se transforma: “jamais entramos no mesmo rio”. A luta dos contrários já tinha, para eles, muita importância, principalmente para Platão, que acentua a fecundidade dessa luta; os contrários se geram mutuamente. A palavra dialética vem diretamente de dialegein, que significa discutir. Exprime a luta de idéias contrárias.
            A dialética estuda as leis gerais do universo, leis comuns a todos os aspectos da realidade, desde a natureza física até o pensamento, passando pela natureza viva e pela sociedade.
            A dialética interessou especialmente a Marx porque é uma filosofia que pensa que o mundo está constantemente em transformação, que é a forma que assume essa luta à qual ele se refere.


O que Marx faz, ao contrário de partir de um método dialético – que só serve para enquadrar as coisas numa lógica -, é buscar “a lógica específica do objeto específico”, entender o objeto a partir de si mesmo, extrair suas diferenças específicas, compreendê-lo em sua especificidade.


Erik, você nas notas admite que Marx utilizava a dialética como método de exposição, ou seja, o método dialético. Mais aí em cima você diz que “ao contrário de partir de um método dialético”...decida-se. Você não consegue manter a coerência nem um texto!Quiçá tornar-se esse grande filósofo que você que ser. Mas juntos chegaremos lá! Continuemos a aulinha básica.
Na antiguidade, dialética era a arte de chegar à verdade. O método seria o dialético, ou seja, através das contradições do pensamento em um diálogo. Essa forma de entender o mundo foi estendida aos fenômenos da natureza. O método dialético marxista olha a natureza como um todo unido, coerente, em que os objetos e fenômenos estão ligados entre eles de forma orgânica, dependendo uns dos outros e condicionando-se de forma recíproca. Nenhum fenômeno pode, então, ser tomado fora das condições que o rodeiam, se for separado das condições. A natureza, para a metafísica, é imóvel, estagnada e imutável. Já para o método dialético, ela anda num estado de movimento e transformação perpétuos, numa renovação e desenvolvimento incessantes. Para o método dialético, o fenômeno tem de ser considerado também do ponto de vista de seu movimento, transformação, aparecimento e desaparecimento. O dialético focaliza naquilo que nasce e se desenvolve, não focando na estabilidade como o método metafísico.
            Toda a natureza está num processo de aparecimento e desaparecimento, num fluxo incessante de transformação perpétua. A dialética observa as coisas principalmente no seu encadeamento, no seu movimento, aparecimento, desaparecimento e relações recíprocas.
            O dialético considera que o desenvolvimento é sempre um processo progressivo, onde as mudanças quantitativas se sobrepõem às qualitativas; o processo poderia ser ilustrado por uma espiral. São o resultado de mudanças quantitativas insensíveis e graduais.
            A natureza é a pedra de toque da dialética. Para o dialético, Darwin mostrou que o mundo existente é um mundo orgânico que se transforma há milhões de anos. Já a concepção metafísica, cada vez mais criticada e desvalorizada entre os cientistas, começou com o Aristóteles e sua idéia de Deus como “motor imóvel”.


Daí que não se trata nunca de ficar no âmbito abstrato da “aplicação” de categorias abstratas, tais como modo de produção tal, relação social de produção tal, forças produtivas contraditórias a tal, infraestrutura assim, superestrutura assado, logo revolução. Marx, ao contrário disso, investiga as coisas a fundo, e a tal ponto que desmente uma série enorme de receitas distribuídas pelo marxismo de apostila, como p.ex. a idéia de etapas necessárias no desenvolvimento de uma economia para poder transitar ao comunismo (o etapismo, está claro, é fruto do logicismo, da dialética aplicada do éter teorético do mundo das idéias abstratas sobre a realidade concreta da prática – uma tremenda imbecilidade intelectual). O procedimento de Marx é materialista, crítico-ontológico.
Materialismo não é uma lógica, uma aplicação de métodos ou uma combinação nova de idéias (extraídas, arbitrariamente, do sistema filosófico alheio no qual fazem sentido); como bem viu Lenin, ao proceder ontologicamente, “Marx não nos deu uma Lógica, mas sim a lógica do capital”.
P.S. – Um interlocutor insistiu na existência de uma dialética em Marx, citando o famoso Posfácio à Segunda Edição de O Capital, onde encontramos um rol de elogios a Hegel e à “forma racional e revolucionária” da dialética, que será “enfiada na cabeça dos novos-ricos do novo Sacro Império Prussiano-Germânico” pela vindoura e intensa “crise geral”.
Chamei-lhe a atenção para as palavras que se encontram dez parágrafos antes: “O Correio Europeu, de São Petersburgo, em um artigo inteiramente dedicado ao método de O Capital (maio de 1872), considera meu método de investigação estritamente realista, mas o modo de exposição, desgraçadamente, dialético-alemão”.

E em meio à resposta de Marx, temos essas linhas:

“Sem dúvida, deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma do modo de investigação. A investigação tem de se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Se isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se encontrar diante de uma construção a priori”.

O método dialético de Marx é, pois, um método de exposição.

Mas ainda há uma carta escrita a Engels em 1867, na qual se lê:

“Você tem toda razão a respeito de Hofmann. A propósito, você verá na conclusão do meu capítulo III, onde eu esboço a transformação do mestre-artesão em capitalista – como resultado de mudanças puramente quantitativas – que, no texto, eu cito a descoberta de Hegel sobre a lei de transformação de uma mudança meramente quantitativa em uma mudança qualitativa como sendo atestada pela história e, de forma semelhante, pelas ciências naturais”.

A passagem aludida por Marx está no capítulo “Taxa e Massa de Mais Valia” (O Capital) e diz o seguinte:

“As corporações de ofício da Idade Média procuraram impedir pela força a transformação do mestre-artesão em capitalista, limitando a um máximo muito exíguo o número de trabalhadores que um mestre individual pode empregar. O possuidor do dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente num capitalista quando a quantidade desembolsada para a produção ultrapassa em muito o máximo medieval. Aqui, como na ciência da natureza, mostra-se a exatidão da lei, descoberta por Hegel em sua Lógica, de que alterações meramente quantitativas, tendo atingido um determinado ponto, convertem-se em diferenças qualitativas”.

Quanto a isso, cabe dizer que os princípios da dialética hegeliana se assentavam no que Lukács chamou de “a autêntica ontologia de Hegel” (devidamente tornada falsa por meio do logicismo dialético). E quando Marx aponta tais princípios (ou “leis”) no próprio objeto, não está aplicando a dialética de Hegel nele, mas extraindo do objeto o próprio arrimo da aplicação da dialética como método de exposição. Só por isso, aliás, é que tal aplicação é possível e não-arbitrária.
Mas tais princípios não são a afirmação de uma ontologia dialética, uma dialética da natureza ou da realidade dialética em si mesma. Por exemplo, a contradição: é na investigação da mercadoria que Marx a identifica atravessando sua essência constituída por valor-de-uso e valor. De modo algum a contradição é natural aos produtos do trabalho humano, enquanto simples valores-de-uso, mas é assumida por estes em seu existir concreto no modo de produção capitalista, em sua existência objetiva como mercadoria.
Hegel mesmo era um entusiasta da Economia Política. Não retirou seus princípios dialéticos de nenhuma dialética originária, porém os recobriu com os resultados lógicos – a que chegou por via especulativa – e transformou tais princípios em fundamentos de uma verdadeira metafísica, reduzindo a historicidade a uma teologia, com a qual traduziu filosoficamente a Bíblia: no início temos a Idéia, que então é negada por sua alienação original sob a forma de Natureza, para que, ao fim de todo seu trabalho de resgate de si, atinja o estágio absoluto do Espírito revelado.
Ao contrário disso, e do que crê o marxismo da dialética marxiana a priori, o método dialético de Marx é totalmente a posteriori. Pois bem, nem todos os marxistas retiraram a “casca irracional” da teologia hegeliana e ainda aguardam o Juízo Final sob o comunismo; mas, dentre aqueles que a descascaram, alguns não perceberam que o “invólucro racional” está por ser descoberto nas coisas mesmas, e insistem na metafísica hegeliana de uma lógica dialética pairando sobre a realidade.

Erik, você toca num ponto muito interessante: é um indicativo de que você mistura o pensamento idealista hegeliano ao pensamento marxista, baseando-se nisso nos textos do jovem Marx, totalmente embebidos do pensamento e do vocabulário hegeliano. Isso fica bastante evidente em todo o seu texto.


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