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segunda-feira, 28 de setembro de 2026
A Pressa de Che e a Semicolônia Soviética
Há um problema na interpretação habitual da Revolução Cubana: costuma-se discutir a velocidade com que Fidel Castro e Che Guevara passaram do nacionalismo revolucionário ao socialismo como se fosse apenas uma questão de linguagem política. Não era.
Havia ali uma questão econômica decisiva: quanto tempo é necessário para que uma revolução deixe de ser dependente de uma economia que ela herdou e passe a reproduzir-se autonomamente?
Minha tese é que Che Guevara errou justamente na resposta a essa pergunta. Houve uma pressa política em transformar uma revolução nacional-democrática em revolução socialista e, depois, em falar na construção do comunismo antes que estivessem criadas as condições econômicas para isso.
O problema não era simplesmente declarar-se socialista. O problema era confundir estatização com socialização e, sobretudo, imaginar que a propriedade estatal poderia substituir rapidamente a construção de uma economia nacional integrada, produtiva e independente.
A experiência posterior mostrou o preço dessa aceleração.
A revolução contra a monocultura
Che compreendia perfeitamente um dos problemas históricos de Cuba. Em 1961, escreveu que o subdesenvolvimento implicava uma especialização perigosa em matérias-primas e numa economia dependente de um único produto e de um único mercado. A crítica era correta: a dependência açucareira era uma das marcas da economia cubana.
A ironia é que a ruptura com os Estados Unidos não eliminou essa estrutura.
Ela mudou o seu centro.
A economia cubana continuou fortemente especializada em produtos primários e passou a depender da União Soviética para absorver esses produtos e fornecer petróleo, máquinas, equipamentos e outros bens indispensáveis. Estudos recentes sobre o comércio cubano-soviético mostram que a demanda soviética e do Comecon sustentou artificialmente a especialização cubana em açúcar e níquel, enquanto o bloco soviético fornecia os insumos necessários à reprodução da economia.
Segundo os dados do World Factbook de 1990, a URSS absorvia 67% das exportações cubanas em 1988 e fornecia 71% das importações. As exportações eram compostas sobretudo por açúcar, níquel, cítricos, tabaco e outros produtos primários; as importações incluíam bens de capital, matérias-primas industriais, alimentos e petróleo.
Mudou-se a metrópole, mas não se aboliu a periferia.
É aqui que entra o conceito de semicolônia soviética.
Semicolônia, não simples satélite
Não se trata de afirmar que Cuba fosse uma colônia soviética no sentido jurídico. Não era. Cuba tinha Estado próprio, diplomacia própria, Forças Armadas próprias e, em vários momentos, capacidade de contrariar Moscou.
O conceito de semicolônia é justamente mais adequado para descrever essa situação intermediária: soberania formal combinada com uma dependência econômica, tecnológica, financeira e estratégica extraordinária.
Carmelo Mesa-Lago já formulava a questão em 1982 de maneira bastante direta: era preciso saber se a antiga dependência econômica e política de Cuba em relação aos Estados Unidos não havia sido substituída por uma relação de subordinação semelhante em relação à União Soviética.
Bertil Dunér, em estudo publicado em 1987, foi além ao falar da dependência de segurança de Cuba em relação à URSS: a proteção soviética sustentava materialmente a segurança cubana e, ao mesmo tempo, tornava possível o ativismo internacional de Havana.
E há uma literatura política que empregou explicitamente a expressão “semi-colonial status” para descrever a posição cubana diante da União Soviética. Uma compilação que recupera Lester A. Sobel, Theodore Draper, Boris Goldenberg e Hugh Thomas registra a tese de que a ajuda soviética vinha acompanhada da aceitação de uma posição semicolonial; Sobel é citado especificamente ao relacionar a industrialização e diversificação que Che desejava com a posição semicolonial que Cuba acabou assumindo em relação à URSS.
É uma interpretação controversa, evidentemente. Mas não é uma invenção retrospectiva.
A ajuda que sustentava o sistema
O ponto decisivo é que a dependência não era retórica.
O estudo do FMI sobre o colapso cubano dos anos 1990 calculou que, entre 1986 e 1990, os subsídios soviéticos não reembolsáveis representaram em média cerca de US$ 2 bilhões anuais, enquanto os empréstimos soviéticos alcançaram aproximadamente US$ 2,3 bilhões por ano. Somados, esses fluxos correspondiam a cerca de 15% do PIB cubano, usando a taxa oficial de conversão adotada no estudo.
Isso ajuda a compreender o que aconteceu quando a União Soviética desapareceu.
O Período Especial não foi simplesmente uma crise provocada pela maldade de Gorbachev ou pelo desaparecimento de um aliado. Foi também um experimento histórico involuntário: o que acontece com uma economia construída durante décadas sob condições extraordinárias de dependência quando o fornecedor desaparece?
A resposta veio rapidamente.
O comércio com o antigo bloco soviético praticamente desapareceu. O petróleo subsidiado deixou de chegar nas mesmas condições. Cuba teve de reduzir drasticamente suas importações de petróleo e procurar no mercado mundial aquilo que antes obtinha dentro de uma relação privilegiada com Moscou.
A crise revelou aquilo que a prosperidade soviética havia escondido.
E se Moscou não viesse?
Aqui está, para mim, a contradição mais profunda.
Uma revolução que se apresentava como uma sociedade sitiada precisava ser particularmente cuidadosa com a sua autonomia econômica.
Uma cidade sitiada pode aceitar alimentos enviados por um aliado. O que ela não pode fazer, se pretende sobreviver ao cerco, é construir sua estrutura de sobrevivência de tal modo que, sem o aliado, deixe de funcionar.
Quem vive sitiado pode aceitar ajuda de fora; o que não pode é depender dela para continuar vivo.
E isso não era apenas uma questão econômica. Era militar.
Em dezembro de 1982, Raúl Castro foi a Moscou para discutir com Andropov justamente a segurança cubana. O documento da conversa é extraordinariamente revelador. Raúl pediu que a União Soviética transmitisse aos Estados Unidos uma advertência clara de que uma agressão contra Cuba não seria tolerada. Entre as formas de dissuasão discutidas estavam visitas de navios soviéticos e manobras conjuntas.
A resposta de Andropov foi muito mais fria.
Ele explicou que a União Soviética não poderia combater em Cuba. A distância tornava uma intervenção militar soviética direta inviável. E lembrou que Moscou já havia discutido questão semelhante com Che Guevara.
É uma passagem extraordinária porque desmonta uma fantasia retrospectiva: a de que a dependência soviética significava uma garantia absoluta de proteção.
Não significava.
A URSS fornecia armas, petróleo, crédito, mercado e proteção política. Mas isso não significava que estivesse disposta a entrar numa guerra mundial por Cuba.
E 1983 tornou essa questão ainda mais concreta.
Granada
No mesmo período, Cuba estava profundamente envolvida em Granada. Havana mantinha trabalhadores e cooperação militar com o governo revolucionário de Maurice Bishop. A documentação disponível registra inclusive um protocolo de colaboração militar entre Cuba e Granada e um plano de cooperação de 1983.
Quando a crise de Granada chegou ao seu desfecho e os Estados Unidos invadiram a ilha, a União Soviética não entrou militarmente em defesa de seu aliado caribenho.
Não poderia.
E isso é exatamente o que torna a conversa entre Andropov e Raúl Castro tão importante. A questão não era saber se Moscou gostava ou não da revolução cubana. A questão era saber até onde chegava a garantia soviética.
A resposta de Andropov foi: até certo ponto.
Isso é perfeitamente compreensível do ponto de vista estratégico soviético. A própria documentação da época mostra que Moscou não considerava Cuba um interesse vital pelo qual estivesse necessariamente disposta a correr o risco de uma confrontação nuclear com os Estados Unidos.
Mas, para Cuba, havia uma consequência lógica.
Se a sua segurança dependia de uma potência estrangeira que poderia decidir não entrar numa guerra por você, sua segurança continuava sendo, em última instância, dependente.
E uma economia cuja reprodução dependia da mesma potência apresentava o mesmo problema.
A pressa
É aqui que volto a Che.
Che queria romper com a economia dependente da monocultura. Queria industrializar Cuba, diversificar sua produção e construir uma economia capaz de superar o subdesenvolvimento.
Mas o processo político tomou outro caminho.
A revolução estatizou rapidamente a propriedade. A economia passou a ser organizada pelo Estado. A linguagem socialista avançou. Depois, avançou a linguagem comunista.
Mas a construção de uma economia independente não acompanhou a mesma velocidade.
A estatização podia transferir a propriedade para o Estado.
Não podia, por decreto, criar máquinas que não existiam, tecnologia que não existia, produtividade que não existia, petróleo que não existia ou mercados industriais que não existiam.
E, sobretudo, não podia eliminar a divisão internacional do trabalho.
A contradição tornou-se ainda mais evidente porque a própria União Soviética passou a sustentar uma estrutura que, em certa medida, contrariava o projeto original de diversificação cubana. A literatura sobre o comércio cubano-soviético destaca precisamente como o sistema de preços e demanda preferenciais contribuiu para preservar a especialização exportadora de Cuba.
A revolução que pretendia romper com a dependência acabou encontrando uma forma diferente de dependência.
Não era a mesma dependência.
E é justamente por isso que semicolônia é mais adequado do que simplesmente “colônia”.
Cuba não deixou de ser politicamente soberana. Também não foi um simples fantoche soviético. A pesquisa histórica recente mostra, inclusive, que a relação entre Havana e Moscou era marcada por conflitos, negociações e interesses divergentes; a hegemonia soviética existia, mas não se confundia com controle absoluto.
Mas soberania política não elimina dependência econômica.
A lição do Período Especial
Quando a URSS desapareceu, desapareceu também o mecanismo que sustentava boa parte da reprodução material cubana.
Não foi preciso esperar uma invasão americana.
Bastou desaparecer o fornecedor.
A história produziu, assim, uma experiência quase laboratorial. Durante três décadas, Cuba recebeu enormes vantagens comerciais, créditos, petróleo subsidiado e outros mecanismos de transferência. Quando essa relação terminou, a economia sofreu uma contração brutal.
A questão, portanto, não é negar a agressão americana, o embargo ou a ameaça militar enfrentada por Cuba. Esses elementos fazem parte da história e não podem ser simplesmente apagados.
A questão é outra.
Uma revolução que pretendia construir uma sociedade autônoma acabou construindo sua reprodução econômica sobre a dependência de outra potência.
E foi justamente aí que a pressa de Che revelou seu limite histórico.
A passagem do nacional-democrático ao socialista não poderia ser resolvida apenas por uma mudança de propriedade. E a passagem do socialismo ao comunismo não poderia ser acelerada por palavras, decretos ou mobilização política.
Antes de construir o comunismo, seria preciso construir uma economia que pudesse sobreviver sem uma metrópole.
A União Soviética desapareceu.
A semicolônia ficou.
E o Período Especial foi a conta.
Bibliografia
CHOMSKY, Aviva. “Barbados or Canada? The Politics of Nationalism in Cuba.” Hispanic American Historical Review, 2000.
DUNÉR, Bertil. “Cuba: Dependent Interventionism.” Cooperation and Conflict, vol. 22, n. 1, 1987.
GUEVARA, Ernesto. “Cuba: Exception or Vanguard?” 1961. In: John Gerassi (org.), textos sobre Cuba e a Revolução.
MESA-LAGO, Carmelo. “La dependencia económica externa de Cuba y su repercusión sobre su política exterior.” Estudios Internacionales, vol. 15, n. 57, 1982.
PÉREZ-LÓPEZ, Jorge F. The Cuban Economy in the 1990s: A Brief Assessment of the Impact of the Soviet Collapse. Washington, D.C.: International Monetary Fund, 2001.
SOBEL, Lester A. (ed.). Castro’s Cuba in the 1970s. New York: Facts on File, 1978.
TERENTEV, Pavel; VAVICHKINA, Tatiana; VLASOVA, Yulia. “Cuba y Soviet Union: Trade Pattern Pitfalls (1970–1988).” América Latina en la Historia Económica, 2023/2025.
THOMAS, Hugh. The History of Cuba. London: Weidenfeld and Nicolson, 1971–1986.
DOCUMENTOS SOBRE A CONVERSA ANDROPOV–RAÚL CASTRO, Moscou, 29 de dezembro de 1982.
U.S. DEPARTMENT OF STATE. Foreign Relations of the United States, documentos sobre Cuba e a política soviética, 1969–1976.
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A Cuba que Altman Não Conta
Breno Altman tem razão em uma coisa que a esquerda brasileira frequentemente esquece: o bloqueio americano é parte indispensável da história econômica de Cuba. O problema começa quando essa explicação se transforma em explicação total. Quando tudo o que acontece na ilha passa a ser explicado pelo bloqueio, a própria história do poder cubano desaparece.
É o que acontece, a meu ver, quando se conta o Maleconazo de 1994 simplesmente como explosão da crise do Período Especial.
A crise existia. Era brutal. A União Soviética havia desaparecido, Cuba perdera seu principal parceiro comercial e econômico e a ilha mergulhara numa crise de abastecimento sem precedentes. Mas o Maleconazo não nasceu apenas da fome.
Há um acontecimento imediatamente anterior que não pode ser retirado da narrativa: o caso do rebocador 13 de Marzo. Em 13 de julho de 1994, apenas 23 dias antes da explosão do Malecón, dezenas de cubanos tentaram deixar a ilha no velho rebocador. O barco foi interceptado e afundou. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, 41 pessoas morreram; a versão oficial cubana contestou a narrativa dos sobreviventes e apresentou o episódio como acidente. A reportagem contemporânea do Washington Post, porém, registrou que o caso alimentou diretamente a crise migratória de 1994 e foi seguido por novas tomadas de embarcações e, finalmente, pelos acontecimentos de 5 de agosto.
Não se trata, portanto, de escolher entre “crise econômica” e “repressão”. Trata-se de entender a sequência: crise econômica, desejo de emigrar, repressão da fuga, morte no 13 de Marzo, nova tensão migratória e explosão do Malecón.
É justamente aí que a palavra “repressão” deixa de ser uma abstração.
Fidel no Malecón
Há outro detalhe revelador na narrativa do episódio.
Quando Fidel Castro apareceu no Malecón, depois que a polícia havia começado a controlar a manifestação, houve grupos que passaram a gritar “Viva Fidel”. Esse fato é real e importante. Mas não foi a totalidade da cena. Reportagem posterior do Washington Post registra também que, durante os protestos de 1994, manifestantes gritavam “Freedom!” e “Down with Fidel”.
A diferença não é pequena.
Uma coisa é dizer: Fidel chegou e foi recebido por grupos que gritavam “Viva Fidel”.
Outra é transformar isso na imagem de uma multidão espontaneamente reconciliada com o comandante.
A cena era contraditória. Havia manifestação contra o governo, havia grupos governistas e havia a intervenção pessoal de Fidel. O poder não se relacionava com uma massa homogênea, mas com uma rua dividida.
Eu chamaria isso de massas contra massas.
A expressão é minha, não de Altman.
E ela ajuda a compreender algo que reapareceria quase três décadas depois.
2021: a rua novamente
Em 11 de julho de 2021, Cuba voltou a conhecer manifestações de massa em escala nacional. Desta vez, o presidente era Miguel Díaz-Canel. Quando ele apareceu em San Antonio de los Baños, a reação não reproduziu a cena de Fidel em 1994: manifestantes o hostilizaram.
Mas há uma continuidade ainda mais interessante.
Díaz-Canel convocou os “revolucionários” para sair às ruas e defender a Revolução. A Human Rights Watch documentou que, logo depois do início dos protestos, o presidente conclamou apoiadores e forças de segurança a responderem, dizendo: “The order to fight has been given.” O mesmo relatório documenta detenções arbitrárias, espancamentos, processos abusivos e outras formas de repressão.
Aqui aparece novamente aquilo que proponho chamar de massas contra massas: não apenas Estado contra manifestantes, mas a mobilização de uma massa política governista contra outra massa que ocupa a rua.
A diferença histórica é significativa.
Em 1994, Fidel ainda podia aparecer no centro da crise e produzir uma cena ambígua, na qual a oposição e a adesão se misturavam. Em 2021, Díaz-Canel apareceu diante de uma contestação que não conseguiu absorver da mesma maneira. A imprensa internacional chegou a destacar justamente essa diferença entre os dois momentos.
Não é preciso concluir daí que a crise de 2021 tenha sido causada apenas por razões políticas. Havia escassez, apagões, pandemia, inflação, dificuldades econômicas e também o endurecimento das sanções americanas. O ponto é outro: a explicação econômica não elimina a questão do poder.
A velha questão agrária
É aqui que entra uma questão que praticamente desapareceu do debate brasileiro sobre Cuba: o que aconteceu com as relações sociais existentes no campo depois da Revolução?
Antes de 1959, a própria literatura cubana descrevia a sociedade rural como uma combinação de capitalismo com relações e resíduos semifeudais. Um estudo cubano sobre a estrutura agrária da década de 1950 descreve latifúndios, arrendamento, parceria, pagamento de renda em dinheiro ou em espécie e a convivência de formas capitalistas com “rasgos semifeudales”.
A própria documentação oficial cubana da época da Reforma Agrária utilizava a linguagem de eliminação das condições semifeudais. Em junho de 1959, o governo revolucionário afirmava que a grande propriedade precisava ser abolida e mencionava expressamente as “semifeudal conditions” existentes em muitos países latino-americanos como obstáculo ao desenvolvimento agrícola.
Até aqui, portanto, não há novidade.
A novidade começa quando perguntamos: a estatização da terra eliminou automaticamente as relações sociais que davam conteúdo à semifeudalidade?
Minha hipótese é que não necessariamente.
E é nesse ponto que a observação recente de João Pedro Fragoso sobre a possibilidade de falar em semifeudalidade em Cuba merece ser levada a sério. Não como uma palavra mágica, mas como uma hipótese de investigação que recoloca uma questão abandonada: podem sobreviver relações sociais arcaicas dentro de formas modernas de propriedade estatal?
Félix Torres
Carlos Franqui fornece um material incômodo para essa investigação.
Em Family Portrait with Fidel (Retrato de família com Fidel), ao tratar do Escambray, Franqui descreve Félix Torres, comandante comunista, como chefe local responsável por perseguições, prisões e execuções. Mas sua acusação vai além da violência política.
Franqui afirma que Torres havia reintroduzido o chamado “payment by job”, um sistema de pagamento por tarefa que, segundo sua descrição, substituía o salário mínimo por jornada pelo pagamento conforme a quantidade de trabalho realizado. Sua conclusão é seca: na prática, significava mais trabalho e menos pagamento. Franqui acrescenta que Torres e outros administradores tomavam terras de camponeses — inclusive terras que estes haviam recebido pela Reforma Agrária.
E vem a passagem mais escandalosa: Franqui afirma que o comandante Torres “set up a harem of peasant girls”, relacionando esse poder sexual diretamente ao poder político e administrativo que o comandante possuía.
Não tomo essas acusações de Franqui como prova independente de que tudo ocorreu exatamente como ele descreve. Franqui era um adversário de Fidel e sua narrativa precisa ser confrontada com outras fontes. Mas também não há razão para simplesmente apagar o testemunho porque ele é inconveniente.
O interessante é a combinação dos elementos.
Terra. Trabalho. Renda. Poder pessoal. Violência. Dependência. Dominação sexual.
É precisamente essa combinação que torna possível perguntar se a categoria de semifeudalidade merece ser reconsiderada.
Não estou dizendo que Cuba continuou sendo uma sociedade feudal depois de 1959. Estou propondo uma hipótese mais modesta e, talvez, mais fecunda: relações semifeudais podem ter sobrevivido, sido recriadas ou assumido novas formas dentro da propriedade estatal.
A propriedade jurídica mudou. Mas a propriedade jurídica não é, sozinha, uma descrição suficiente das relações sociais.
Che e o trabalhador “novo”
Isso também ajuda a entender uma questão que Altman levanta e que considero interessante: a preferência de Che Guevara pelos incentivos morais, em oposição aos incentivos materiais.
O trabalho voluntário era uma das manifestações dessa concepção. O trabalhador deveria deixar de ser movido prioritariamente pelo salário e passar a trabalhar pela consciência revolucionária, pelo dever e pela construção do “homem novo”.
A intenção era produzir uma ruptura com o trabalhador capitalista.
Mas há uma contradição que merece ser examinada: quando o Estado controla a terra, as empresas e grande parte da economia, quem decide onde, quando e quanto o trabalhador deve trabalhar?
A palavra “voluntário” pode esconder uma relação de poder.
Se uma fazenda é estatizada e o trabalhador é convocado a trabalhar gratuitamente em nome da Revolução, a abolição do proprietário privado não significa necessariamente a abolição da subordinação. Pode significar apenas que o antigo proprietário foi substituído pelo administrador estatal.
Não é preciso chamar isso de feudal para reconhecer o problema.
Mas é justamente aqui que a hipótese da semifeudalidade volta a adquirir interesse.
O salto para o socialismo
A discussão também toca o problema mais amplo da revolução cubana.
A Revolução aboliu relações agrárias que eram efetivamente arcaicas. Mas a pergunta histórica não pode terminar na lei que estatizou a propriedade. É preciso perguntar o que aconteceu dentro da propriedade estatizada.
O marxismo frequentemente tratou a propriedade como chave para identificar o modo de produção. Mas uma propriedade estatal pode abrigar diferentes relações de trabalho e diferentes formas de dominação.
Daí a necessidade de distinguir:
propriedade estatal ≠ socialismo;
fim do latifundiário ≠ fim de toda relação senhorial;
salário estatal ≠ emancipação do trabalhador;
trabalho voluntário ≠ ausência de coerção.
Isso também lança uma luz diferente sobre Che. Seu problema não foi simplesmente ter preferido “incentivos morais” aos materiais. O problema mais profundo talvez tenha sido imaginar que uma nova consciência poderia ser produzida rapidamente por cima de relações econômicas que ainda não haviam criado suas próprias condições materiais.
O que fica fora da narrativa
É nesse ponto que minha divergência com Altman se torna mais clara.
Não é necessário negar o bloqueio americano para questionar a narrativa que faz dele a chave explicativa universal.
Não é necessário negar a crise econômica de 1994 para lembrar o 13 de Marzo.
Não é necessário negar a existência de grupos que gritaram “Viva Fidel” para lembrar que também houve “Abajo Fidel”.
Não é necessário negar que Díaz-Canel tenha enfrentado uma crise econômica real para lembrar que convocou os “revolucionários” às ruas e que o governo reprimiu sistematicamente os protestos de 2021.
E não é necessário negar as conquistas sociais da Revolução para perguntar se a estatização realmente eliminou todas as relações sociais que a Revolução dizia ter eliminado.
A questão é justamente essa.
Altman é interessante quando critica Che por transformar o incentivo moral em instrumento econômico. Mas sua leitura de Cuba fica estreita quando a história do regime começa e termina na agressão americana.
Uma história mais incômoda precisa incluir o camponês, o trabalhador, a terra, o Estado, a coerção, a fuga, a prisão, o sexo, a burocracia e a rua.
Talvez seja por isso que a palavra semifeudalidade, aparentemente anacrônica, mereça voltar ao debate.
Não para provar antecipadamente uma tese.
Mas para fazer uma pergunta que o vocabulário habitual sobre Cuba deixou de fazer:
o que acontece quando uma revolução elimina o proprietário, estatiza a terra e, ainda assim, não elimina todas as relações sociais de dominação que existiam antes dela?
É uma pergunta que começa em 1959, passa pelo Escambray, chega ao Malecón em 1994 e reaparece, de outra forma, nas ruas de Cuba em 2021.
E talvez seja justamente essa continuidade — e não apenas a continuidade do bloqueio — que precise ser explicada.
Referências bibliográficas
FRANQUI, Carlos. Family Portrait with Fidel. New York: Seaver Books, 1984, especialmente p. 113. A passagem sobre Félix Torres, o “payment by job”, a tomada de terras e o “harem of peasant girls” está nessa página.
GUEVARA, Ernesto Che. El socialismo y el hombre en Cuba. Havana, 1965.
HUMAN RIGHTS WATCH. Prison or Exile: Cuba’s Systematic Repression of July 2021 Demonstrators. 11 jul. 2022.
ROBBERSON, Tod. “Story of Tug’s Sinking Incited Cubans”. The Washington Post, 11 set. 1994.
SCHMIDT, Samantha. “Cuba’s president confronts a nation in crisis. Among his challenges: ‘He’s no Fidel.’” The Washington Post, 17 jul. 2021.
ALBA MORENO, María del Carmen. “La estructura social en el campo cubano en la década del 50 del siglo pasado y su relación con los ajustes del modelo económico”. O estudo discute a coexistência de formas capitalistas e “rasgos semifeudales” na agricultura cubana pré-revolucionária.
ROA, Raúl. Nota sobre a Lei de Reforma Agrária, 15 jun. 1959, em Foreign Relations of the United States, 1958–1960, Cuba, vol. VI. O documento oficial registra a linguagem de “semifeudal conditions” utilizada no contexto da Reforma Agrária.
“Cuba: el problema agrario y la transición al socialismo.” O estudo recupera a discussão cubana sobre a liquidação das relações agrárias semifeudais e sua transformação após 1959.
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