quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Amornheci Pensando em Nós


O livro de poemas Amornheci Pensando em Nós, Histórias de um Analista Apaixonado (Ginotri, 2016) trata de duas paixões de Eduardo: poesia e psicanálise. Ambas tratam do amor, daí Eduardo resolveu ligar as duas coisas. Amor, amanheci pensando em nós, esse é o trocadilho que instaura o livro.

Como ele escreve: "Ela aponta, tal como a análise, que é preciso separar um tempo para a vida. Nem sempre a vida rima" (ANDRADE, 2016, P. 33). É preciso tempo para a vida, é preciso ir além da lógica de tempo é dinheiro. Por vezes, como explica ele, ele tem tempo, mas não está à venda. Ele quer tempo para descansar na vida. Ele frisa que é preciso não comercializar a vida --e nem o tempo.
Muito bem sucedido em explicar a teoria psicanalítica e ilustrá-la em sua poesia,  um poema de Eduardo explica o ato falho de forma brilhante no poema Educação do Amor. O ato falho é quando a gente diz para a uma mulher bonita e atraente: "e aí, amada para o final de semana?" Ao trocar amada com animada, o que subjaz é uma cantada, é o desejo de saber se essa mulher bela e interessante está acompanhada e já tem uma companhia para o fim de semana.

Outro esclarece, sempre com belos exemplos, a diferença entre prazer, gozo e desejo em seu poema Prazer, Desejo:

 "Peguei o pedaço do pão, comi e disse:
--Hum, gostoso!
Sem terminar de mastigar, coloquei mais um pedaço de pão na boca e disse:
--Huum..Go...o som não saía. Quase engasgado pelo excesso, fiz sinal de espera. Engoli e expliquei:
--A delícia extraída no pedaço de pão era a experiência do prazer, um apoio ao instintual desenvolvido pelo singular. O prazer, difícil de abdicar, tende a promover traçados de repetição e ali se acabar por excesso. Esse era o gozo, destruição que toca no corpo também estaria de comer tudo de uma só vez em imediato tempo. Entendem? Goza-se com o que se tem. Satisfaz-se com o que experimenta e se podem extrair delícias (...). O desejo é quando eu estiver em casa, longe do pão, alucinando e fantasiando em imaginação a sua busca. Assim, não mais tendo, terei que buscar por outro, supostamente igual. Marca memória e faz avançar!"

 E isso, esse casamento entre poesia e psicanálise, isso ele faz de maneira sempre bela e intensa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Impressões de Cinema

Argumento


A luta de um rapaz para representar a própria vida. Ele gosta de encenar figuras e cenas.




Cena 1 (interior/dia)




O pai de Roberto traz um livro em que as imagens, ao serem postas em movimento, criam uma história. Um pré-cinema. Roberto fica fascinado.




Roberto: que bom!


Meu filho, você precisa ver o filme Gilda, de Rita Hayworth.


Pai de Roberto: Os homens ficam loucos por ela. Nunca houve uma mulher como Gilda.




Roberto: é mesmo?


Cena 2 (interior/noite)


Vendo o filme Gilda, Roberto tem uma intuição. Quer trabalhar com o cinema, ser um astro de Hollywood ou ser diretor de cinema.


Roberto: Gilda é deslumbrante. Nunca houve uma mulher como Gilda.


(Na tela, surge Roberto vestido como Gilda em sua imaginação).


Cena 3


(Exterior/dia). Belo Horizonte


(Roberto está vestido de centauro, fazendo uma intervenção cultural no centro de Belo Horizonte).


Rapaz malhado de academia (avança empurrando Roberto): Mas que veadagem é essa?


Moça feminista (Coloca-lhe o dedo no nariz): Respeite o rapaz! Estamos fazendo uma intervenção cultural! Somos do curso de Jornalismo da UFMG!














Cena 4


Interior (noite)


Na TV está passando Bonequinha de Luxo, de Audrey Hepburn e George Peppard.


Roberto (cantarola Moon River): -moooon river, I´ll cross you in style someday…


Pai de Roberto: O ator é mais bonito que ela.


Roberto: Também acho, papai.


Cena 5


Natal de 2007.


O pai de Roberto chama Roberto na cozinha.


Pai de Roberto: filho, estou te entregando meu clarinete. Aprenda a tocar e seja um grande artista.
Roberto: Vou aprender, sim, pai. Mas fique aqui, estou de férias.


(Dias depois, sabe da morte do pai.)


(Chorando, solitário no quarto, Roberto devaneia, fala sozinho): Meu pai não quis papo. Devolveu-nos seu esforço. Por escolha, também solitário como estou agora, seus lamentos, que resultaram naquele adeus histórico e humanista como bem quis, ou foi tomado por já não querer experimentar comigo e conosco, os filhos, relações na maturidade da vida. De um compartilhamento há anos aguardado por nós, seus filhos e sua esposa.


Cena 6


(Interior/noite)
Apartamento em Belo Horizonte


Diana, irmã de Roberto, diz: --Corre no Savassi Cineclube e assista à cópia recuperada do filme Blade Runner, o caçador de andróides. Assisti e achei magnífico, me encantou.


Roberto vai ao cinema e vê a cena do casal e do andróide Rutger Hauer ferido e chorando na chuva, soltando a pomba ao dizer. Fora do cinema, Roberto repete a fala do personagem:


Roberto (emocionado): Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.


Cena 7 (Interior, manhã)


Conversando com a sobrinha Bianca, Roberto conta sua infância:


Roberto: Minha infância foi na Vila Militar.


Bianca: Muito pelo contrário, vocês saíam para caçar cavalos à noite. Hoje quando quero ver um cavalo vou num sítio.


Roberto: Eu tinha a Turma dos Egípcios.


Bianca: Muito pelo contrário. Não entendo pessoas antigas, de outro tempo. Agora o terror que vejo vem da TV.


Cena 8


(Interior/dia). Roberto conversa com sua esposa Edilamar. São 4 horas da tarde, os dois estão lanchando suco de laranja e sanduíche.


Roberto: Sorri, vai!


Edilamar: Tá bom.


Roberto: Mais um pouco. Lembra daquele filme? Aquelas nossas brincadeiras? Aqueles lugares? Aquelas pessoas? Aquela viagem? Aqueles momentos?


Edilamar: Você diz, no começo?


Roberto: Sim, eles são o passaporte para a nossa felicidade.


Edilamar: É claro! Sim, vamos em frente, então!


Roberto: Não é para isso que estamos aqui?


Edilamar: Uma vez eu caminhava na Praia para ver o mar ou foi numa cidadezinha do interior?


Roberto: E hoje estou aqui. Voltei a caminhar livre em Minas e no mundo e não há nada melhor do que isso. E poder dizer: amiga, querida!






Cena 10


Roberto, rompido com Edilamar, encontra Edgar. Roberto tinha 27 anos e Edgar, 56. Surge uma grande amizade.


Edgar: Ei, meu jovem!


Roberto: Posso ajudá-lo, Sr?


Roberto: É a primeira vez que vejo o mar, sou de Minas.


Edgar: Eu também sou.


Roberto: Acontece que perdi algo


Edgar: Aqui na praia?


Roberto: É sim, na areia da praia.


Roberto: A praia de Copacabana é muito extensa! Com prédios, bares e luzes. Copacabana é bonita.


Edgar: É mesmo (concorda). Vamos lá que vou te ajudar a achar o que procura.


Roberto: Você já me ajudou muito. Eu estava aqui sentado tomando minha cervejinha quando vi você chegar ora lento, ora lépido. Seus olhos de felicidade. Felizes os felizes. Acho que já encontrei. Há momentos que valem uma vida. A sua educação por me ouvir e entender meu sentimento me fez encontrar o que tanto procurava. Um amigo. Em retribuição gostaria de convidá-lo para meu sítio em Teresópolis, o que acha?


O jovem feliz com o convite responde surpreso:


Roberto: Tudo bem para mim. Acho que pode ser.


(Saem os dois novos amigos do extenso areal da praia em direção ao calçadão).


Cena 11


O ônibus chega ao vilarejo de Vieira. Desço do ônibus. Meu amigo aproxima-se em sua Toyota Bandeirante. Para, Edgar abre a porta do carro:


Edgar: Roberto, que bom vê-lo.


Roberto: Estava com saudade, Edgar.




(Á noite, em frente ao fogo crepitando no fogão de ferro, comendo pinhões colhido ali mesmo no pomar, os dois amigos estão felizes por seu encontro e sua amizade). De manhã, Edgar desceu junto a Roberto a montanha rumo ao vilarejo.


Roberto: Você não se abre comigo. Você tem algo que gostaria de me dizer?


Edgar: Nada...


Roberto: Você fez pessoas felizes, eu gosto muito de você.


Edgar: Quantas vezes chorei sozinho, rapaz!


Roberto: Aos vinte anos implodi minha juventude e perdi o chão. Só consegui fazer a ponte que me liga aos 40 anos por ter feito análise e por conversar com amigos como você.


Edgar: Você é um cineasta.


Roberto: Ter te conhecido aquele dia me fez mais feliz. Sua amizade foi muito importante para mim e te quero bem.


Edgar: Viver...Felicidade...O social às vezes complica.


Roberto: Lembra daquela vez que você me disse que sentia muita fome.


Edgar: Eu tenho é fome de viver.


Roberto: Eu vou passar uns dias na casa de um amigo no Rio de Janeiro. Você é inteligente, bonito e suporta muita coisa.


Edgar: Precisei encontrar você para me perdoar.


Roberto: Viver prescinde todo entendimento.


Edgar: Não me condene ao isolamento, é o que peço.


Roberto: Já me magoei muito. A minha dor já foi grande. Fui dizendo adeus a todos...


Edgar: Tantas linguagens quanto desejos houver. É um luxo que toda sociedade deveria proporcionar a seus cidadãos.


Roberto: No Brasil tem carnaval. E em Teresópolis tem Neblina.






Cena 9


Carnaval no Rio. Vários estrangeiros.


Japonesa (sambando): espero que os financistas quebrem e o mato tome o Japão.


Maquinista do trem que ligava Teófilo Otoni até Ponta de Areia na Bahia: A gente era mais livre e tudo era mais misterioso.


Roberto (recitando em frente ao mar): Estamos jogados na vida para aprender. O susto da humanidade é que ela deu certo.


Edilamar (lírica): Nós ficamos, assim, cavalos domesticados. O que fazer para que uma gota nunca seque? É só jogá-la no mar. Enfrentamos nossas guerras, nossos demônios e nossas seduções. No fim, livres porque temos que dar conta de nossas vidas.


Roberto: É cedo para ter saudade. Tenho saudade de tudo. Eh, saudade. De quê, meu Deus? Não sei mais.


Philippe (sobrinho de Roberto): Você gostava era quando o Matão tomava conta!


Roberto: Sim, eu gosto do esplendor da Mata Atlântica no território brasileiro!


























terça-feira, 27 de agosto de 2019

Livrai-nos de Todo o Normal: Amém


   O texto Livrai-nos de Todo Normal, de Eduardo Andrade (Virtual Books, 20017), é um livro que trabalha reinventando a poesia a partir do lugar comum. A escrita atravessa os sentidos, escreve ele, a partir da frase: "escuta só para você ver", restaurando a potência poética do lugar comum. É um livro atípico, original, que não tem o nome do poeta na capa.

    O poeta é assim, com palavras e situações aparentemente banais, ele constrói momentos brilhantes de sua poética, tais como: "Na escola comemoram a nota azul. Adultos, já doentes, correm atrás da receita azul. Também é ilusão desenhar nuvens azuis. Essa poesia não rima, mas descreve um pedaço de mundo perdido".

  Eduardo também faz da poesia uma intervenção na realidade, expondo uma postura que é, em última análise política e alinhada com a luta antimanicomial de Michel Foucault, dentre outros: "Louco varrido é poeira perversa que resta na língua desbocada da lógica higienista. Enquanto varremos vidas para debaixo do tapete" (ANDRADE, 2017, p 21).

  Esse Andrade que não é parente de Drummond, mas que também é bom poeta, busca sempre combater a linguagem preconceituosa, assim como depurar os conceitos. Ele assume o lugar de fala de mineiro e enfrenta temas pesados como a tragédia da Vale, entrelaçando o seu drama de diabético com o do rio Doce. Ele realiza, em seus poemas, o sonho da fala própria enquanto poeta, estabelecendo um próprio estilo e uma temática preferida: os causos mineiros trabalhados literariamente, a psicanálise, os achados do cotidiano, o amor, o romance no escurinho do cinema, etc.

  Eduardo transforma seus "causos", suas situações cotidianas em poesia e consegue lidar bem com a temática melindrosa do amor, assunto a respeito do qual é fácil cair no lugar comum e no clichê: "O fim de um relacionamento não é o fim do amor vivido, é o fim de um futuro que não existiu. Quem crê que o fim do relacionamento é o fim do amor vivido, além de perder o futuro, apodrece o passado" (ANDRADE, 2017, p. 45). Um achado exemplo de achado muito interessante e que me faz lembrar o poema Ausência, de Carlos Drummond de Andrade: a falta não é a ausência. A ausência assimilada, ninguém mais tira de nós.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Suicídio e Clínica Psicanalítica (Eduardo Andrade)





Esse livro de Eduardo Andrade, publicado pela editora Literatura em Cena, é um livro cheio de vida. Há muita riqueza nele ao debater um tema tabu, mas fundamental: o suicídio. Falar sobre suicídio é falar sobre a vida, ele é algo que está entre nós a ser resolvido. Há passagens emocionantes como o “corte no osso e o corte no sonho”, relatos de pacientes que viveram episódios de autoextermínio.
Se não escolhemos quando vir ao mundo, deveríamos pelo menos escolher quando sair de cena, quando sair desse mundo. Isso Eduardo explica muito bem quando fala: “Defronte ao insuportável, confrontado com o desamparo, e por não conseguir abordar o real que é jogado na cara da existência, o sujeito se retira de cena numa tentativa de fugir do sofrimento existencial que o habita, não é o desejo de morrer que mune o suicídio.” Eduardo resgata pontos muito importantes para serem trabalhados a respeito do suicídio e sobre o impulso autodestrutivo que o move: mas nem todos são capazes de conter seus impulsos e acabam cometendo crimes. E sobre o que fazer para conter o suicídio, Eduardo tem apontamentos muito importantes sobre como fazer para evitar o suicídio, como quando cita Bukowski: “nós não precisamos de grandes realizações, só precisamos realizar pequenas coisas que nos façam sentir melhor ou não tão mal” (ANDRADE, 2019, p. 45). Senti falta, nesse livro, de Albert Camus (embora o mito de Sísifo se faça presente) e sua reflexão sobre o suicídio enquanto o único problema filosófico realmente sério: devemos julgar se a vida merece ou não ser vivida. Outros suicidas cujo trabalho pode também iluminar a análise são Silvia Plath, Emil Cioran e Maiakóvski.
Quando o suicídio é verbalizado, a tragédia parece desmaterializar-se, na medida em que se torna outra coisa e o sujeito vê sua própria face monstruosa. No mito da Medusa, quando a Medusa vê seu próprio rosto materializado no escudo de Perseu, ela perde boa parte de seu potencial para a tragédia. E Eduardo é muito feliz em escolher seus autores e seus amores, tais como Goethe, Bukowski, Tolstói, Dostoiévski, dentre outros.

domingo, 28 de julho de 2019

Lançamento do livro Léo e o Futebol


O escritor Alberto Coimbra estará lançando seu segundo livro na Biblioteca Pública de Bom Despacho, no dia 09/09/2019, às 19 horas.

O linque para o vídeo do lançamento do livro anterior, disponível no youtube, está aqui


domingo, 16 de junho de 2019

Madame Bovary

Lucia de Lamermoor e Madame Bovary


Lúcio Jr.

RESUMO


Esse artigo busca esclarecer a relação existente entre a ópera Lucia de Lammermoor e o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Compositor consagrado e popular, Donizetti era muito apreciado. No romance, Ema Bovary, personagem de Flaubert, identifica-se com Lucia de Lammermoor, personagem inspirada na novela de Walter Scott. Lucia se vê noiva de Artur, pressionada pela família, mas é assediada pelo homem que ama, Edgard, mas ao qual não pode se unir, pois Edgardo é de um clã inimigo de sua família. Lucia é observada por Ema e surge um efeito de espelhamento. Ema, ao acompanhar o drama da “noiva louca”      , reflete que não deveria ter casado com Charles, o médico que a levou à ópera. Ao encontrar um antigo amor ali mesmo no teatro, um rapaz chamado Léon, decide trair Charles, o que ela tinha feito anteriormente com um amor fracassado, Rodolfo. Pode-se dizer que Lucia de Lammermoor influencia a personagem Ema Bovary a entrar novamente em devaneio e ir buscar na vida aquilo com o que ela teve contato, primeiro, em romances açucarados. Analisou-se, aqui, a presença da metalinguagem: a ópera Lucia de Lammermoor apareceu como uma peça dentro da peça.


Palavras-chave: romance, ópera, Madame Bovary, adultério, Donizetti


Introdução

Nesse artigo vamos analisar a presença da ópera Lucia de Lamermoor na obra de Flaubert. Nossa hipótese é que essa presença não é casual e sim um exercício de metalinguagem por parte de Flaubert. Assim como em Hamlet, quando Shakespeare mostra o rei Cláudio vendo uma peça teatral encomendada por Hamlet e que interfere no enredo (Hamlet vê que aquilo que o fantasma de seu pai lhe disse é verdade, pois Cláudio fica atormentado e vai rezar), há uma peça dentro da peça, no caso, uma obra de arte dentro de outra obra de arte. Ao invés do caso ser fortuito, casual, como aparenta em um olhar apressado, pode-se dizer quea escolha dessa narrativa foi minuciosamente realizada para poder interagir com o enredo do romance.
O romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880), não é habitualmente analisado em sua relação com a música. Essa passagem tratando da ópera aparentemente foi casual, pois não foi uma passagem recorrente, não retornou novamente na narrativa. No entanto, ele pode ser analisada como amostra da arte sofisticada de Flaubert, imbricando uma narrativa em outra.
Flaubert não foi reconhecido em sua época como é hoje. Filho de um cirurgião, ele nasceu em Croisset, perto de Rouen, cidade onde ele ambientou Madame de Bovary. Flaubert chegou a estudar direito, mas abandonou os estudos, desiludido com os acontecimentos em torno da revolução liberal de 1848. Desde jovem, Flaubert foi tomado de entusiasmo pela poesia, pelas reconstituições históricas e pelos romances.
Esse romance lhe valeu um processo por ofensa à moral pública. O próprio Flaubert viveu um amor impossível por Elisa Schlesinger, casada, quinze anos mais velha e mãe de um filho. Ele inspirou Emma Bovary nesse seu amor impossível. Por isso, quem sabe, a precisão dos detalhes nesse romance. Ao ser interpelado, no processo, a respeito de quem teria inspirado a personagem adúltera, Flaubert respondeu: “Madame Bovary sou eu”. Segundo as análises mais recentes, o fato é que a publicação do romance na Revue de Paris provocou a irritação da burguesia, que através de seus representantes puniu o escritor. A obra é considerada uma depreciação muito dura dos costumes burgueses e é sua obra mais famosa. O romance Madame Bovary é um retrato da província francesa de seu tempo, assim como sua obra mais famosa, um consagrado romance, um dos mais famosos clássicos da literatura de todos os tempos. Hoje é de circulação universal.

1.1.             Lucia de Lamermoor, ópera de Donizetti

A ópera de Donizetti surge no romance de Flaubert num determinado ponto, um ponto decisivo: Emma, esposa de um médico, sonha com amores em romances açucarados, envolve-se com um amante e termina abandonada por ele. Como resultado, ela tem uma crise nervosa, que é tratada pelo marido médico, Charles. Para ajudar em seu reestabelecimento, Charles a leva até o teatro em Paris, para ver a ópera de Donizetti, Lucia de Lamermoor, inspirada na novela de Walter Scott A Noiva de Lammermoor, estreada em Nápóles em 1835. No teatro, Emma se identifica com a ópera e seus desejos renascem. Ela reencontra um velho amor, Rodolfo, deixa o marido vendo o final da ópera e sai com Rodolfo, arranjando uma desculpa.
GaetanoDonizetti foi um dos mais famosos compositores de ópera de seu tempo. No início do século dezenove, a ópera era um gênero musical em alta, em plena expansão. Donizetti brilho nesse período em que a ópera era basicamente sinônimo de ópera italiana, que era a ópera que era tida como de qualidade e era aceita internacionalmente.
Donizetti aproveitou esse período áureo e, junto de Bellini e Rossini, elaborou várias obras, tendo tido grande demanda. A ópera italiana, no entanto, sofreu duros reveses em um curto período de seis anos: Rossini aposentou-se aos trinta e sete anos e Bellini morreu prematuramente. Verdi ainda não tinha idade para compor sua primeira ópera, nesse período.
Assim,entre a morte de Bellini e o sucesso de Verdi com Nabuco em 1842, Donizetti foi o grande astro desse ambiente. Ele nasceu em Bergamo, em 1830, tendo obtido sucesso com uma ópera inspirada na tragédia da rainha injustiçada Anna Bolena. Da noite para o dia, Donizetti conseguiu comover por seu estilo pessoal e trágico e pelas melodias comoventes: logo ele obteve sucesso internacional.
            Compositor muito produtivo e em tempo de alta demanda, Donizetti escreveu setenta óperas, das quais sessenta e cinco chegaram até nós na forma completa. Os gêneros em que produzia eram: cômico, trágico e quase sério. As óperas estreavam em Viena, iam para Londres, depois São Petersburgo e Nova Orléans. A França foi praticamente um país conquistado por ele, chegando a estrear seis óperas em uma temporada só em Paris. As casas de ópera foram chamadas, então, de casas de ópera Donizetti pelo compositor Berlioz.
            O fato de que a ópera de Donizetti também apareceu no romance de Flaubert é também parte disso, desse grande sucesso de público. Emma se identifica com o amor de Lucia, como grande parte do público da época, que de fato recebia essa ópera assim, como ardor e identificação notáveis. De fato, era comum que o público “se entregasse ao fluxo das melodias” e sentisse “todo o seu ser vibrar como se os arcos do violino estivesse desenhado sobre seus nervos”. Lucia queria amor, queria asas. Emma também queria fugir da vida rotineira e fugir num abraço apaixonado como o de seus heróis de romances açucarados (BLUM, 2013).
            Donizetti é ímpar entre os compositores por ter sido bastante generoso: ao contrário da maioria, não demonstrou hostilidade ou antipatia declarada quanto aos colegas, nem mesmo ao seu principal rival, Bellini. O jovem Verdi foi estimulado por Donizetti, assim como o estilo de Verdi foi influenciado por ele (BLUM, 2013).
            No início de sua carreira, Donizetti esteve ligado ao Teatro San Carlo, em Nápoles. Nesse período, um rei devoto impunha censura e as tramas acabavam limitadas, reduzidas a bobagens. O compositor respirou aliviado quando foi chamado para compor óperas em Paris e Viena (BLUM, 2013).
            Melodramático, romântico, Donizetti se dava bem no gênero melodrama, que era o meio que ele julgava mais agradável. Ele sondava as profundezas emocionais, assim como favorecia contos amorosos, violentos e com desfechos trágicos. A partir de obras como “O Assédio de Calais”, “Maria de Rohan” e “Anna Bolena, LucreciaBorgia”, assim como “La Favorita”, Donizetti fez com que a forma vivenciasse um relaxamento progressivo, assim como das estruturas tradicionais, nas árias mais dramáticas ele é mais pesado, alterando inesperadamente a harmonia (BLUM, 2013).

1.2.            Uma obra dentro da obra: a metalinguagem

Lucia diLamermoor, ópera de Donizetti, se impôs como obra emblemáticas do romantismo. Será aqui estudada em sua relação com a obra Madame Bovary, romance de Gustave Flaubert.
Em Madame Bovary, é sensibilizada pela heroína da ópera Lucia de Lamermoor de Donizetti que Flaubert decide continuar com seu jovem amante. Existe uma relação entre Emma e Lucia. A ópera está inserida nesse romance.
A ópera ocupa em Madame Bovary um lugar de qualquer modo, secundário no romance, um capítulo entre os trinta e cinco. A cena se situa no capítulo 15 da segunda parte. Nessa altura desse romance, o campo dos possíveis está aberto. personagem Emma começa a remeter à ligação perigosa entre Rodolfo e essa “fugida” de Rouen com seu marido, Charles, elepode soar como um novo recomeço para o casal. Mas a forma como Emma vive esta ópera faz essa perspectiva improvável. Emma se lembra do romance de Walter Scott e que lhe permite e seguir o enigma.
Emma se identifica com um ar corajoso. E se identifica com ela. Lucie que amor, ela demanda liberdade. Emma, também desejosa, fugindo de sua vida, se sente envolver por ela. Note-se, então, a ironia de Flaubert. Lucie sonha com um amor etéreo, então Emma se envolve. Vem a seguir a cena do dueto e Edgar anuncia a Lucie sua saída pela França. Emma reconhece as angústias que a faz sofrer. A voz da cantora lhe parece a retenção da consciência. Não somente Emma se identifica com Lucie, mas ele se relembra das preocupações que atingem a heroína, seus próprios problemas. Edgar se torna Rodolfo e que, não chore como ele, não chore mais como Edgar, a última noite, à luz da lua. Quantoa ele, deseja não compreender a história. E de fato, é certo que as coisas não foram compreendidas.
Nisso, pouco a pouco, Emma se desliga daquilo que passa sobre a cena, que trata do desespero amoroso. Ele termina por adotar a opinião dos filistinos de Don Juan Hoffman, ou seja, os burgueses como diria Flaubert: “a arte exagera”. Quando os cantores cantam ao final do segundo ato, Emma identifica então o cantor Lagardy ao seu papel, Edgar. Emma é então absorvida no homem pela ilusão do personagem. E ela imagina aquilo que será sua vida em companhia do cantor. Ela é tomada de loucura, quando ela imagina que o tenor está olhando para ela, ao final do segundo ato. Num jogo teatral do romance, Charles reencontra Léon.
            Quando o terceiro ato começa, Emma não estará mais tão interessada no espetáculo, mas às suas lembranças, e desejará partir. Depois de ter amado Edgar/Rodolfo, Emma associa Lagardy com Léon. Mas Charles, lerdo que era, é envolvido pela música e deseja continuar na ópera. Para ele, Lucie prometia uma tragédia, devido a seus cabelos. É uma verdadeira sentença profética que proclama Charles nessa altura da cena. A essa altura se pode entender melhor a arte de Flaubert. Nesse capítulo, através da obra de Donizetti, ele expõe os problemas de seu próprio drama.

2.      Lucia e Emma: um encontro entre duas personagens

Flaubert realizou, dentro de sua narrativa, o encontro de duas personagens: Lucia e Emma.  Lucia de Lammermoor é um drama trágico com libreto de Salvatore Cammarano. Cammarano adaptou livremente a novela de Walter Scott, a Noiva de Lamermoor. O romance é marcado pelo interesse na cultura escocesa, com sua mitologia que a Europa do século dezenove então estava descobrindo: sua história violenta de guerras entre feudos e sua mitologia atraíam bastante.
A narrativa trata da frágil Lucia, emocionalmente instável, aprisionada numa luta entre feudos, o de sua família e o feudo de uma outra família, a dos Ravenswoods. A ação se passa nas colinas de Lammermuir, Escócia (no libreto, Lammermoor).
Essa ópera fez tanto sucesso que se tornou, junto com Dom Pasquale, a ópera mais executada de Donizetti. Desde 1903 até 1972, esteve, exceto uma temporada ou outra, sempre esteve em cartaz no Metropolitan Opera em Nova York. Depois da II Guerra Mundial, essaópera esteve um pouco em baixa, sendo considerada por alguns como uma ópera para treinar as sopranos em várias tonalidades. Mesmo assim, não tardou para que sopranos talentosas como Maria Callas e Joan Sutherland dessem a ela um novo colorido.
Na ópera, Lucia ama Edgardo, mas por razões políticas, sua família quer e seprepara para que ela se case com Arturo. Ela cede à família, mas Edgardo continua a assediá-la. Pressionada pelos dois lados, tanto pela família quanto por Edgardo, Lucia enlouquece e apunhala Arturo no dia de seu casamento, já noiva dele. Por isso ela é a chamada “noiva louca”. A ópera não revela claramente se Lucia se envenenou, mas dá a entender que estava morrendo. Ao final do romanceMadame Bovary, Emma se enreda em dívidas e complicações e termina por cometer o suicídio. A cena em que Lucia enlouquece é a chamada “Cena da Loucura”. A canção é “Il DolceSuono”. Essa passagem bastante famosa foi celebrizada pela soprano Inva Mula no filme O Quinto Elemento, numa cena onde aparece uma diva alien cantando com a voz da soprano albanesa acima referida.
Na narrativa, Emma está casada com o médico Charles, mas começou um romance com um amante, Rodolfo, mas fracassou (ele a abandonou). Ao observar o drama de Lucia, Emma, que está se recuperando de uma crise de nervosos e de uma recaída no misticismo, volta a desejar um antigo amor, Léon (que vê no teatro, durante a ópera), passando logo a seguir a envolver-se com ele.Como se pode ler em Madame Bovary:

            Entusiasmou-se desde a primeira cena. Prendia Lúcia nos braços, deixava-a, tomava-a de novo, parecia desesperado; vinham-lhe acenos de cólera seguidos de desabafos elegíacos de infinita doçura; e as notas partiam-lhe da garganta nua cheias de soluços e beijos. Ema inclinava-se para vê-lo, as unhas enterradas no veludo do camarote. Enchia o coração daquelas queixas melodiosas, que se vinham harmonizar com o acompanhamento dos contrabaixos, como gritos de náufragos no tumulto da procela. Reconhecia todos os anelamentos e angústias por que estivera quase a morrer. A voz da cantora nada mais lhe era que o eco da própria consciência; àquela ilusão que a empolgava, algo de sua própria vida. No mundo, contudo, ninguém a amara de tal forma. Ele não chorava como Edgar, na última noite, à luz da lua, quando diziam um ao outro: “até amanhã, até amanhã”. A sala vibrou de aplausos. A cena foi bisada. Os dois amantes falavam das flores na sua tumba, de juramentos, de exílio, de fatalidade, de esperanças; e quando soltarm um último adeus, Ema não conteve um grito agudo, que se foi misturar às vibrações dos últimos acordes.
--Por que estará aquele fidalgo a persegui-la –quis saber Bovary.
--Não, não !—explica ela. –é seu amante.
--E, todavia, jura vingar-se da família dela, enquanto o outro, o que surgiu há pouco, dizia: “Amo Lúcia, e creio que ela me ama”. Além disso, saiu com o pai, de braço dado. Pois não era pai dela aquele sujeitinho feio com pena de galo no chapéu? (FLAUBERT, 1979, p. 168)

            Emma explica, então, a Carlos que, desde o dueto recitativo em que Gilberto expôs a Ashton as suas manobras, Carlos, mesmo vendo o anel nupcial que irá iludir Lucia, supôs que se tratava de uma lembrança de amor enviada por Edgar. Assim, aí aparece a metalinguagem da narrativa: o próprio marido traído por Emma não compreende o que se passa, nem na ópera nem em sua vida. A narrativa de Flaubert deu a entender que a música prejudicava a letra, impedindo e justificando que o marido traído entendesse o que se passava. O romance, Emma via que Lúcia avançava, apoiada em suas companheiras, uma coroa de floresde laranjeiras nos cabelos, uma coroa, segundo a narrativa, mais branca que o cetim do vestido. Edgar Lagardy, bramindo furioso, dominava com voz clara todas as outras vozes. Prossegue a narrativa sobre a ópera em Madame Bovary:

Ashton lançava-lhe provocações homicidas; Lúcia soltava agudos queixumes; Artur, mais longe, modulava sons médios; e o baixo profundo do ministro ecoava tal um órgão, enquanto as vozes das mulheres, repetindo suas palavras, continuavam deliciosamente em coro. Estavam todos na mesma linha, gesticulando. E a raiva, a vingança, o ciúme, o terror, a misericórdia e a estupefação brotavam ao mesmo tempo das bocas entreabertas. O namorado brandia a espada nua; a gargantilha de rendas erguia-se-lhe com o movimento do peito, e o homem andava da direita para a esquerda, fazendo tinir no palco as esporas douradas de suas botas negras, enrugadas no tornozelo (FLAUBERT, 1979, P.169).


Na passagem acima, o narrador do texto de Flaubert, cuja prosa adota o realismo crítico, parece tomado de espírito bastante crítico em relação à obra de arte que ele está contemplando, que é bastante diversa da prosa de Flaubert. Se essa prosa é precisa e sem muitos adjetivos, ela tende desaprovar, claramente, a extravagante encenação da ópera, assim como seu estilo fora de moda. Acima, a descrição de Flaubert incide sobre o famoso sexteto do segundo ato, com sua linguagem precisa e econômica, contrastando com o exagerado e o fausto da encenação. Mais adiante, se dá uma aproximação entre a narrativa de Ema e a de Lucia. O narrador inclui um curioso “choque”, que é o momento em que tenor, personagem, a olha. Aí temos uma construção que produz o efeito que acontece quando colocamos um espelho diante do outro: o leitor olha Madame Bovary que olha a ópera e é olhada pelo tenor:

Devia possuí-lo, pensava Ema, um amor inesgotável, para derramar-se assim pela multidão, em tão grandes eflúvios. Toas as suas veleidades deprimentes se desvaneciam na poesia do papel, que a invadia; e, arrastada para o homem pela ilusão da personagem, tentou imaginar a vida dele –aquela vida ruidosa, extraordinária, esplêndida, que também ela poderia ter, se o destino o tivesse querido (...). Súbito, porém, tomou-a uma loucura: o tenor olhava-a, não podia duvidar! Teve ímpetos de correr para os braços dele, de refugiar-se em sua força, como na própria encarnação do amor, de lhe bradar: rapta-me, leva-me; partamos! Para ti, só para ti meus ardores todos, meus sonhos todos! (...) (FLAUBERT, 1979, p. 171 )

Até o momento referido acima (quando encontrou seu amante na ópera), Ema estava envolvida no espetáculo; dali por diante, ela se desinteressou. o marido não tinha conseguido ver o amante na própria ópera (assim como na realidade). Antes, o marido não tinha conseguido ver o amante. Dali por diante, Ema não ouviu mais nada. O coro dos convidados, a cena de Ashton e do criado, o grande dueto em ré maior, tudo se passou para ela muito longe, como se os instrumentos se houvessem tornado menos sonoros e as personagens mais distantes. A dama tem os cabelos soltos e isso promete ser trágico. Mas a cena da loucura não interessava a Ema; a cantora parecia exagerada. No romance, comenta-se que o último ato era admirável. No entanto, a Ema Bovary não ficou até o fim. Charles afirmou que estava começando a gostar quando saiu. Quando ocorreu, em Lucia de Lammermoor, a cena do casamento, Ema pensou que deveria ter resistido e não casado com Charles, sempre identificando-se com a heroína e associando a ópera com sua vida (COMPAGNON , 2001, P. 119).
A ópera Lucia de Lammermor serve, em Madame Bovary, para criar um “clima” em que Ema, como Lucia, entra em devaneio em busca do amor e se enreda em uma tragédia, perdendo o controle. O final da vida de Donizetti, o compositor, aconteceu numa clínica hospitalar, com ele enlouquecido pela sífilis. Diz a lenda que somente a cena da loucura de Lucia de Lammermoor fazia com que o então distante e alienado compositor prestasse atenção em música novamente (COMPAGNON,  2001, P. 119).
            Na ópera, Lucia aparece como um espelho do enredo de Madame Bovary. O marido traído não reconhece a traição na peça nem na vida real. Ema identifica-se profundamente com a angústia de Lucia de Lammermoor, que foi obrigada a casar-se. A seguir, Ema encontra o próprio amante na peça e eles saem antes do último ato, junto com Charles Bovary, o marido, que nada percebe. Ema se sente denunciada pelo tenor, como esclarece o narrador de Madame Bovary, mas nada acontece e logo ela retoma suas atitudes novamente.


Conclusão

            A ópera Lucia de Lammermoor surgiu em meio ao romance Madame Bovary como um exercício de metalinguagem por parte do autor, Gustave Flaubert. Trata-se de uma obra de arte citada em meio a uma outra obra de arte, com as duas relacionando-se. Há uma identificação entre Lucia de Lammermoor e Ema Bovary: ambas são sonhadoras e insatisfeitas com seus relacionamentos. Ema se sente, então, motivada a ter um novo amante, agora, Léon Dupuis, que ele encontra, coincidentemente, no dia em que foi ver a ópera Lucia de Lammermoor com seu marido, Charles. Como Ema sai com Léon antes do final, Charles, que ficou até o final, permite a Ema que fique sozinha, no dia seguinte, enquanto ele retorna para seus afazeres. Ema começa, então, uma nova história de amor adúltera que, depois de se endividar e se complicar, a leva ao suicídio ao final de Madame Bovary. O texto, ligado ao realismo crítico, contrasta a pompa extravagante e antiquada da ópera de Donizetti com seu estilo realista, preciso e econômico. Essa ópera até hoje é a mais executada de Donizetti na metropolitan Opera de New York. Ela fascinava as plateias e provocava ardor, sendo muito apreciada ainda hoje. A forma como a ópera desperta Ema Bovary para sonhar e gera um clima para o amor trágico que logo em seguida ela passa a viver torna essa descrição de ópera, que é apenas uma passagem de um capítulo dentre os trinta e cinco capítulos desse romance, um momento-chave desse romance. Assim como Ema Bovary, Lucia também é frágil emocionalmente; ambas, ao final da narrativa, têm um final trágico. Bovary supostamente se suicida. Em Madame Bovary, a ópera Lucia de Lamermoor assume um papel de preparadora de clima para a tragédia que a seguir se sucede. Essa passagem também mostra o quanto o médico Charles é lento e obtuso, pois não entende que Lucia de Lammermoor tem um amante. Trata-se, então, de mais um lance de metalinguagem: Charles não vê o amante nem na peça e nem na narrativa de Madame Bovary. Por fim, outro lance claro de metalinguagem, num efeito de espelhamento: Madame Bovary se sente olhada pelo tenor, e aí temos um efeito de espelhamento: o leitor observa Madame Bovary que ao mesmo tempo se sente observada pelo tenor. Madame Bovary é o romance mais conhecido de Flaubert, assim como Lucia de Lammermoor tornou-se a peça mais encenada de Donizetti. Pode-se supor que Flaubert inspirou-se em um amor impossível por uma mulher mais velha para poder inspirar-se para criar Madame Bovary, romance que lhe rendeu um processo judicial. Ele afirmou, em frase célebre, que Madame Bovary era ele mesmo.

Referências Bibliográficas:

BLUM, David. He couldmake Madame Bovary Swoon. <<http://www.nytimes.com/1997/12/21/arts/he-could-make-madame-bovary-swoon.html>>>.

COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria. Literatura e Senso Comum. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. São Paulo: Abril Cultural, 1979.