sexta-feira, 20 de julho de 2012

Melancolia: uma obra-prima?

Melancolia: obra-prima de Lars Von Trier?

            Neste filme, pode-se dizer que Lars Von Trier usou uma estética inspirada na ópera de Wagner, com as primeiras cenas, por exemplo, funcionando como um prelúdio. No filme, Isolda é Justine e o planeta Melancolia é Tristão. O diretor interpreta a lenda como sendo um êxtase da morte e não do amor. Isolda (Justine) tem seu cavalo negro e seu desejo de morte. A chegada de Tristão virá restabelecer a ordem. Para a visão de mundo presente no filme, a vida na Terra é tudo menos boa. Não se perde nada se ela tiver um fim. Justine é o alter ego de Lars Von Trier no filme. 
       A teoria sobre a vida na Terra ser triste é exposta nas imagens do casamento: a família é rica e bela, mas vazia e descrente. A personagem Claire simboliza a beleza e a limpeza. Na medida em que o planeta Melancolia se aproxima, trazendo o risco da morte, mais Justine fica segura e tranqüila. Isolda vem trazer a sua redenção e cura. A mensagem é que quem é doente e´quem aparentemente é equilibrado. Além de Wagner, o filme também faria referência a quadros medievais, entre os quais um de Tristão e Isolda e do beijo de Klimt, substituindo quadros de Malevitch. A visão de Von Trier seria totalitária, no sentido de tentar fazer uma obra de arte total, falando de tudo. A referência à sinfonia de Beethoven se deveria ao fato de que Wagner rejeitou Beethoven devido ao uso do coro. A cabana mágica que Justine, Claire e seu sobrinho alemão fizeram juntos seria referência às obras do artista Joseph Beuys.
        A intenção de Lars Von Trier é fazer a gesamtkunstwerk, ou seja, a obra de arte total, tal como Richard Wagner. O encontro de Tristão e Isolda seria marcado pela imagem onde ela é jogada numa pedra –daí viria essa imagem do encontro entre os dois planetas. A gesamtkunstwerk (obra de arte total) seria a visão cósmica de Wagner, com Isolda envolvida em brumas espaciais e cósmicas. O que Von Trier quer tratar aqui é de um processo radical de dissolução. Videografia: Filmanalysis.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A trajetória de um "traveco bolchevique": Paulo Francis

Hoje às onze horas a GNT alimentará mais uma vez  o mito Paulo Francis, apresentando um documentário dele ao lado de documentários sobre Tom Zé e Niemeyer. Francis voltou à baila no debate político brasileiro, com sua voz mediunizada por Luiz Felipe Pondé, cronista da Folha e defensor apaixado do senso comum que se traveste, conforme o contexto, em professor universitário das privadas, teólogo, psicólogo, judeu, ateu, ideólogo da direita brasileira, filósofo paulofranciscano e o escambau. Pondé "cita" livremente Francis, acho que, colocando na boca dele frases e ataques que Pondé gostaria de fazer e dizer.

Pondé hoje faz o papel de Paulo Francis em 1989, quando a Folha colocou-o para detratar Lula e o PT. Assim como Caio Túlio Costa qualificou Francis de ficcionista, os textos de Pondé são crônicas, são textos ficcionais onde as informações não devem ser levadas a sério, pois operam no campo ideológico, fazendo sistematicamente inversões, transmitindo falsas informações e disseminando falsa consciência. O mesmo se pode dizer de seu "besta-seller" O Manual do Politicamente Correto. Quanto aos seus outros livros como Crítica e Profecia, como felizmente ele os submeteu ao poder disciplinar da academia, ele não conseguiu exercer seu dom fabulesco. Na Folha, atuando em "sintonia fina" com o chefinho Otavinho Frias Filho, Pondé age como ponta de lança da linha editorial do jornal e é muito mais manso do que Francis, que, anarco-trotsquista, rebelava-se e criticava os próprios pares, causando um desequilíbrio que terminou em sua demissão. Isso agora não acontece, pois Pondé, frouxo e covarde, jamais cita o nome de ninguém. Ele critica, veladamente, até mesmo o leitor da Folha, que chama de idiota, assim como Foucault (que para ele seria um ideólogo gay xiita), mas não critica ninguém vivo que lhe possa responder.

Pondé supõe que as universidades federais são um aparelho ideológico do PT, esquecendo que, antes disso, elas são aparelho ideológico do estado numa sociedade capitalista, estado com o qual elas estabelecem uma delicada e complexa relação de aproximação e afastamento, assim como estabelecem relação semelhante a TV Globo e os jornais.

Pondé, ao aliar-se com o chefinho, solta as amarras da imaginação no jornal, onde, estando em sintonia com o chefinho e sem citar nomes, ele pode simplesmente mandar ver qualquer besteira.

Pondé tem em comum com Francis o conservadorismo cultural e o liberalismo econômico, assim como o gosto pelas inversões. Francis diz, em Diário da Corte, que Machado de Assis é coloquial, que Malcolm X e Lukács são conservadores, que Freud não gostava de psicanálise (na verdade, supõe-se que ele não era um bom clínico). E por aí vai. Os erros pululam, são quase um por linha, como se disse da biografia de Glauber Rocha por Nelson Motta. Pondé diz que Paulo Francis entendia muito de psicanálise. Na verdade, Paulo Francis demandava tratamento psiquiátrico, uma vez que sofria de um transtorno mental: era um depressivo crônico. Isso é bem notável em seus textos, onde o impulso dele é colocar tudo e todos para baixo, degradando todo mundo.

Em Diário da Corte, no verbete incesto, Francis diz que o texto Três teorias sobre a sexualidade, de Sigmund Freud, seria sobre "nossas ambivalências profundas". Huum. Ora, o texto inicia-se falando justamente dos invertidos, que é como ele chama os homossexuais. Em outro verbete do mesmo livro, Francis diz que Freud não falou sobre a homossexualidade em textos, "somente em cartas". Será que ele não leu o texto que ele indica?

Esse "Da Mata" em seu nome que apareceu lido por um jornalista global provavelmente é parte de suas ambivalências. Sempre se diz dele que ele era filho de alemães, mas parece que esconde que também tem uma origem brasileira. Ambivalências de um trotsquista da nobre linhagem de Reinaldo Azevedo e Gerald Thomas...

Eu até gosto do Paulo Francis de Opinião Pessoal (1966), livro de Francis com prefácio de Glauber Rocha, infelizmente não reeditado pela família, de autoria de Franz Paul Trannin Da Mata Heilborn. Esse tipo de gesto, a não-edição de obras por supostamente serem de esquerda, só demonstra sectarismo e a burrice. Lendo com atenção, pode-se observar que Francis sempre teve "ambivalências profundas". E isso em muitos sentidos...

Filho de um comerciante, passou um tempo em Nova Iorque na adolescência, mas nunca foi de estudo sistemático. Esse traço curioso parece unificar os escolhidos para o programa Manhattan Connection: nem Francis, nem Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi ou Gerald Thomas têm curso superior completo, terminaram apenas o ensino médio. Se não estivessem abençoados pela vênus platinada do monopólio, ficariam mal colocados até em concurso de gari no Brasil, concursos que hoje contam com muitos candidatos com doutorado.

Francis escreve, no ensaio sobre Jango em Opinião Pessoal, que a esquerda esquece o elementar leninismo que é organizar-se, mas que nunca militou em organizações (ou seja, não segue os próprios conselhos). Logo em seguida, debochado, ele alega que não milita porque já frequentou muito tempo a igreja católica (???). E ele é sempre assim, representa a classe média. Essa classe sempre oscila entre capital e trabalho, donde advém suas ambivalências. Trotsky era de uma família de classe média em Odessa. Francis era da classe média tradicional carioca. Mesmo quando elogia Eles Não Usam Black-Tie e parece estar em sintonia com o nacional e o popular, Francis ataca, em outro momento, o teatro de Ariano Suassuna. Sempre que a gente acha que ele se define, ele está num posição dúbia.

Há alguns foi citado na Folha a ideia de voltar com o CPC da UNE e veio à baila a proximidade de Francis com a proposta. Os tolos conhecedores somente do Francis terminal ridicularizaram a informação, de resto verdadeira. E só pode ser corretamente entendida se compreendermos a ambiguidade de Francis: ele se aproximava desse tipo de iniciativa na área do teatro para poder fazer valer a sua autoridade em teatro adquirida nos USA, onde, apesar de gargantear tanto, nunca se formou em nada.

Derrubado Jango, Francis se apressa em proclamar a "falência das esquerdas". O golpe de 64 foi o grande tombo da carreira de Francis. Até então ele tinha fracassado como diretor e ator de teatro, passando a atuar como crítico no Correio Carioca, que pagava mal e atrasava, de onde saiu para a Última Hora, que era o jornal mais moderno e progressista do País, jornal que Vargas criou para combater a imprensa golpista (lição que o PT até hoje não entendeu e que irá pagar caro, muito caro). Como ator, colocavam o Francis com papéis como o de padre em Romeu e Julieta, o que não deixava de ser lucidez por parte do diretor. Francis passou da área cultural (que era na verdade sua área) para política, buscando maior audiência. Trabalhando próximo aos governos de JK e Jango no Última Hora, ele teve tudo o que sempre quis: acesso franqueado a festas, informações privilegiadas para bravatear nos bares e restaurantes com os amigos. Seu grande tombo foi o golpe.

Sem acesso à elite do jornalismo devido ao golpe de 64, estigmatizado no Brasil por ter estado bem próximo a Jango e Arraes (e não a Brizola, que sempre achou muito radical), nos anos 70 Francis foi aos USA para reintegrar-se na ótica do colonizador e levar um "choque de capitalismo", tal como José Serra e Fernando Henrique Cardoso. A partir da metrópole, com o passar do anos ele consegue se reintegrar no jornalismo próximo ao poder, ficando bastante próximo dos amigos Serra e FHC no primeiro governo deste, com os quais inclusive acreditava que poderia contar para suas difamações e calúnias contra a Petrobrás.

Eu, pessoalmente, detestava o programa Manhattan Connection com ele ("locutor brega", como o chamou Gilberto Vasconcellos), assim como achava horrivelmente mal escritas suas crônicas do Diário da Corte em O Tempo. Possivelmente Daniel Piza também achava, tanto que opta por somente publicar alguns trechos em Diário da Corte, organizando o material como um dicionário e nos poupando da besteirada que eram essas crônicas.

Num desses programas, depois da morte de Francis, Lucas Mendes disse que o partido republicano era o partido do coração de Francis. Caio Blinder atalhou: "não só do coração, mas do bolso". Ora, Francis era financiado de fora para escrever aquelas coisas que escrevia? Talvez essa hipótese explique os Olavos de Carvalho e Mainardis da vida, assim como sua relação de amor com o exterior e ódio ao Brasil...

 O trotsquismo de Francis sempre foi um ataque a Lênin. No verbete Carlos Lacerda do Diário da Corte ele também critica Lênin, apontado-o como sendo um marxista ruim e pouco fiel a Marx e Engels ("os originais"). Também em Diário da Corte, Francis defendeu a inocência de Bukharin nos Processos de Moscou e ainda sugeriu que o sensato, no momento da revolução de 17, seria "entregar o governo para um regime burguês de esquerda". Nisso, Francis também é trotsquista. Trotsky, depois do fracasso da revolução alemã, colocou para o partido bolchevique esse dilema, na verdade a aplicação da teoria da revolução permanente: ou se volta ao que havia antes de 17 ou a União Soviética aplicava o bonapartismo invadindo a Alemanha e impondo o comunismo, ideia na qual Trotsky já tinha fracassado em 1920 ao invadir a Polônia junto ao Marechal Tukachevsky (ao qual ele se aliará para dar um golpe nos anos 30). Era o ídolo de Francis insistindo no erro.

 Nisso Francis interpretava Trotsky muito bem. Não é à toa que ele morreu sob um quadro de Trotsky. Ele tem realmente tudo a ver com Trotsky: personalista e egocêntrico, sempre com Napoleão na barriga, Trotsky começa como menchevique, vive atacando Lênin, a quem chama de ditador e burocrata. Lênin, em carta, observa com razão que ele é um burocrata que apenas se traveste de bolchevique. Traveste-se de bolchevique entre 1917 e 1929, mas sempre buscando fundir o partido por dentro e destruir o leninismo, até que é expulso. Ele passa, então, a repetir as acusações que fazia contra Lênin a Stálin, além de aprofundar, junto de seu grupo, a colaboração junto aos serviços secretos da Alemanha e o Japão, estando direta ou indiretamente envolvido em atentados violentos ocorridos na URSS nos anos 30, inclusive o atentado contra o prefeito de Leningrado. Apesar de tudo  isso, pela oportunidade que dá de fazer uma crítica "de esquerda" à revolução russa, Trotsky torna-se praticamente o grande inspirador do chamado "marxismo ocidental". Outro hábito dele, que é transformar Stálin em bode expiatório para todos os erros e problemas, ainda hoje é uma estratégia ativamente praticada na esquerda em geral e por marxistas em particular.

O único jornalista que tem algo de herdeiro de Francis e é homem de esquerda é o atual candidato a prefeito pelo PCB, Laerte Braga. Para mim, é o melhor jornalista do Brasil hoje. Mas essa é outra história...

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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Blognovela revista cidade sol: Ofendélia ataca!



 (Jô e Franciny oscilam entre encenar o Hamlet sem os nobres e uma versão engajada de O Processo de Kafka, com Gerald Thomas fazendo o papel do senhor K. Jô prefere encenar o Hamlet proletário, deixando de ser diretora e encarnando a louca Ofélia, transformando-se na louca Ofendélia).

(Ensaio da peça Hamlet, agora com discussões proletárias).

Hamlet (para Polônio): Nos comportamos como torcida de futebol, assumindo apaixonadamente um lado. Temos muito da moral judaico-cristã...

Polônio: Você é um centralista irracional, ignorante, Hamlet. Você quer que em El Senor fiquem só os ignorantes, os amorfos, os autoritários.

Hamlet: Sim, uma depuração às avessas.

Polônio: Para se conseguir o centralismo democrático é preciso muito diálogo.

(De repente, entra em cena Ofendélia, a louca).

Ofendélia (berra): EU TOU NESSA PEÇA MAS NÃO SOU TROTSQUISTA NEM STALINISTA, EU SOU QUENTIN TARANTINO!!! EU NÃO SOU POLITICAMENTE CORRETA NEM VOTEI EM DILMA NÃO, NÃO SOU LÉSBICA!

Hamlet (tenta acalmá-la): Ofendélia, não é isso que está em discussão aqui...

Ofendélia: Sim...Thomas, eu quero Thomas como o senhor K, de Kafka....Eu quero a Opera H...Eu quero ver Thomas Kafka...K... H...encenar...o domínio das loucas! A gangue das loiras!

Cláudio (voz em off): QUEM PERMITIU A VOLTA DESSA LOUCA??? RÁ-RÁ-RÁ (dá uma risada de gelar a espinha).

Ofendélia: Você é um GRAMSCIANO, Hamlet! (dá-lhe um tapa na cara). Ela se põe a rir loucamente como uma louca boba.

Hamlet: O sangue do povo é petróleo. O espírito de meu pai, Getúlio Vargas, vaga pelos espaços brasileiros em busca do povo, pois como ele era um suicida, Deus não o aceitou no paraíso nem o diabo aceitou sua alma, pois considerou-o um inimigo. Povo de quem ele foi escravo não será mais escravo de ninguém.

Ofendélia: A pátria é um suicida que morreu fazendo sessenta e nove! Acabou a ditadura do politicamente correto da Dilma e do caudilho Lula! Minha moral é a da Maria Paula, Pires, Pondé e Bial!

Polônio: Ofendélia, você está nervosa...louca, histérica, lésbica...

Ofendélia (dá um beijo violento na boca de Polônio e o leva para uma cama próxima): Vê se me Freud, Polônio...

Hamlet: Ofendélia, você vai me trair?!

Polônio (aos beijos e abraços na cama com Ofendélia): O socialismo marxista, depois da morte de Marx e Lênin, começou a cavar sua sepultura...

(E nesse momento nasce a primeira intriga da Ofendélia. Cláudio ao fundo está rindo, com ar de desespero, pois ele sabe o que tudo isso vai dar.)

Franciny (reflete enquanto vê o ensaio): Eu não mais o que é encenação e o que é vida real! Os personagens aos poucos foram tomando conta dos atores, ao contrário do que deveria ser!


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Chico de Oliveira e a falência das ciências humanas no Brasil

Para mim, essa entrevista do Chico representa a falência das ciências humanas no Brasil:

http://www.youtube.com/watch?v=HOGGLZMPaq8

O professor Xyko se pavoneia de muito crítico, mas como crítico de Lula e da conjuntura atual, acho um fracasso. Ele recorre a termos morais cristãos para criticar Lula --e não políticos. O problema principal não é o caráter malandro de Lula e sim o fato de que Lula apresenta seu projeto pessoal de sucesso como o interesse nacional.

Lula é profundamente paulista e tem a cabeça feita por intelectuais como Fernando Henrique, Weffort e Serra. Chico de Oliveira só é "espanhol" no sentido de anarco-trotsquista espanhol. Ele só considera de esquerda o Paulo Skromov.

Xyko de Oliveira, que conta ter sido torturado por Francisco Cuoco (um homônimo do ator), ficou no CEBRAP pelo menos até 1988. O que ele diria da entrada de dinheiro dos USA no CEBRAP, através da Fundação Ford?

Lula não é um caudilho à la Chávez, é um burocrata com traços messiânicos.  Para mim, Xyko é um reformista de classe média na linha de Bernstein que sonhava que Lula faria o bem-estar social...

No Brasil, a infra-estrutura é subdesenvolvida e a superestrutura é desenvolvida. Daí a tese da dependência, das ideias fora do lugar, da ideia de que o  Brasil é um país desenvolvido e do ornitorrinco de Xyko, que giram em torno dessa contradição. Porém, como a superestrutura colonizada e imitativa é a caricatura copiada e decadente dos países desenvolvidos, até mesmo os intelectuais passam a pensar que a infra-estrutura possa ser de um país desenvolvido e imperialista. Os intelectuais querem que o país seja desenvolvido para justificar que importam quase sem adaptações as suas teorias da europa ocidental.

O que ele deveria dizer é que a imprensa menospreza a inteligência de Lula e o peso de sua formação devido à sua origem de classe, suas bravatas e seu talento para ator cômico, bufão.

Ele acha a atual aliança de Lula/Haddad com Maluf um fracasso da política e do PT. Não vejo assim. Creio que é para contrabalançar o currículo de Haddad, fortemente marcado pelo marxismo e até pela pesquisa do sistema soviético, o que entre intelectuais brasileiros é raro e seria explorado pela direita. Com a aproximação do Maluf, ao invés de ser criticado como excessivamente marxista, ele passou a ser visto como moderado e conservador demais. É uma vitória do projeto de poder de Lula.

A questão é a análise do projeto de reformas neoliberais cosméticas de Lula e seu fôlego, não julgar, isoladamente, essa aliança fora do contexto.

 A grita contra essa aliança é pelo impacto simbólico da foto, por isso Erundina fugiu. Ela sabia do que se tratava.

Na entrevista Francisco de Oliveira nega Lula como líder das greves no ABC paulista, assim como nega o PSOL (mas ele já esteve também próximo do PSTU) e afirma, mostrando cegueira enorme, que FHC era de esquerda e que ainda conversam cordialmente. Logo, embora téorico razoável, a prática política de Chico é confusa e errática. O acerto é mostrar a pequenez de Lula diante de Vargas e observar que a esquerda tem dificuldade de lidar com Vargas porque ele foi ditador entre 1937 e 45.

A bomba da entrevista é Chico de Oliveira é ele dizer que FHC foi do PCB durante um tempo. FHC fez a tese de mestrado em 64 dialogando (e atacando) a teoria do PCB de que a burguesia nacional brasileira existia e poderia enfrentar o imperialismo. FHC fez uma pesquisa de campo ao estilo norte-americano e concluiu que a burguesia (ele centrou o "survey" em Sampa) não tinha consciência de classe nem consciência nacional alguma. FHC esteve próximo de comunistas no CEBRAP e no jornal Opinião, mas creio se entrou no partido comunista foi para disseminar as ideias de seu seminário de O Capital na USP.


terça-feira, 3 de julho de 2012

O tropicalismo musical é a semana de 22 na música popular

Pesquisando e notando que existe um documentário sobre tropicália prestes a ser lançado, faço uma notinha para opinar sobre o assunto.

O que jornalistas como Torquato Neto e Nelson Motta chamaram de tropicalismo a partir da instalação de Hélio Oitica, de Terra em Transe de Glauber e da canção Tropicália de Caetano foi, no campo musical, expressão da semana de 22 no campo da música popular.

Se a Semana de 22 afirmou o direito de pesquisa estética, a atualização da intelectualidade e a estabilização de uma consciência criadora nacional, o tropicalismo musical só realmente diverge nesse último item. Nesse quesito, além de atualizar a música popular com as conquistas de 22, ele se decidiu a violentar e desestabilizar a consciência criadora nacional, afirmando o "som universal". Nesse sentido, ao mesmo tempo em que atualizou a música popular com 22, o tropicalismo musical rompeu com um dos princípios e se projetou para a pós-modernidade.

Lembremos que na Semana de 22 não houve música popular, apenas erudita, com Villa-Lobos. A atualização veio, em parte, nos anos 60, inspirada no movimento de atualização do cinema liderado por Glauber Rocha, pois já havia acontecido com Noel Rosa, Orestes Barbosa, dentre outros, além do próprio movimento de bossa nova nos anos 50. Os ingredientes da tropicália já existiam nos anos 50  e início dos 60: o Cinema Novo com Rio Quarenta Graus (Nelson Pereira dos Santos), a bossa nova com João Gilberto e a bossa engajada de Sérgio Ricardo, o neoconcretismo de Ferreira Gullar e Oiticica, a poesia concreta de Haroldo de Campos (já inspirada por Oswald de Andrade). Na literatura, o poema Sujo do Gullar, o Pessach a Travessia do Cony e o Quarup de Antonio Callado aconteceram ao mesmo tempo do movimento, mostrando que a literatura estava totalmente de acordo com os princípios citados acima: pesquisa estética, consciência criadora nacional, atualização da intelectualidade.

Ao misturar bossa nova, rock and roll e poesia concreta, traduzindo a mistura com sons e letras que misturavam marchinha de carnaval com guitarra e orquestra erudita, músicas latinas sobre Che com brincadeiras citando Nouvelle Vague e Cinema Novo, o tropicalismo musical causou sensação por sintetizar muito do que vinha toda uma década antes, apresentando tudo como a última novidade! Virou, então, referência até hoje não ultrapassada, pois muitos supõem em sua absoluta originalidade.

Tudo isso estava no ar, mas o tropicalismo musical colocou marchinhas com guitarra elétrica e roquinhos anarquistas em festivais que deveriam ser para proteger a MPB e o público universitário do avanço do rock nos meios de comunicação de massa, daí a reação negativa dos estudantes.

A polêmica que se seguiu turbinou a carreira de Caetano e Gi, que viraram ícones de geração. Uma década depois, a indústria cultural passou a pressionar pela superação da estética original do Cinema Novo em prol da estética subroliudiana da Globo, obtendo adesões como a do cinemanovista Cacá Diegues, que ainda em 1979 proclamou "um cinema popular, sem ideologias". No transe que se seguiu, morreu Glauber Rocha, poucos anos depois a Embrafilme.

Cacá Diegues direcionou a pressão contra o modelo estatal e a estética nacional para um ataque genérico ao PCB e à esquerda. Falava em dissidentes na URSS presos em hospícios, mas os dissidentes eram gente como Zhores Medvedev, que escreveu um texto provando que Stálin era continuador de Lênin, o que arrebentava com os fundamentos do namoro eurocomunismo/URSS. Até hoje, Medvedev poderia ser considerado louco, por defender essa tese, pela intelectualidade do mundo ocidental.

O assunto tropicalismo rende rios de tinta na academia. O melhor analista, a meu ver, é o Marcelo Ridenti, da UNICAMP, que observa que o tropicalismo musical é fruto do mesmo contexto do teatro engajado, do cinema novo, mas é diferenciado. Também acho. Ele se lança muito mais como afirmação de uma indústria cultural então nascente, acabando com os festivais como resistência para a música nacional e popular. E o que a indústria cultural queria era uma música mais afinada com o que era produzido na matrix, tal como Beatles e Jimi Hendrix.

Por isso Caetano e Gil foram esse sucesso, cada vez maior, de mídia. É o prêmio da indústria cultural.




sábado, 30 de junho de 2012

Derrubando um mito



Derrubando um Mito
Adamir Gerson
novateologiadalibertacao.blogspot.com
Nas disputas entre stalinistas e trotskistas ambos chegam a um consenso: o reconhecimento de que não se pode saber se Trotsky esteve certo ou errado, simplesmente porque a sua visão de revolução não pode ser testada na prática. Com isto concordam trotskistas e stalinistas. Pois quê o poder passou das mãos de Lênin para as mãos de Stálin, com Trotsky não tendo a sua oportunidade.
Mas, o que poucos sabem é que a Teoria de Stálin, a construção do socialismo em um só país, surgiu justamente como reação à prática do pensamento de Trotsky, que não era pensamento exclusivo de Trotsky mas tal estava impregnado em todas as mentes revolucionárias. Antes de ser posto em prática a teoria da construção do socialismo em um país só, de Stálin, foi posto em prática a teoria da revolução mundial de Trotsky.
E como ela foi desastrosa, a dialética cuidou em engendrar a sua negação. Cuidou em descobrir um novo caminho. A revolução mundial, naqueles dias e naquelas condições, era inviável.
E quando é que a Teoria de Trotsky foi posta em ação? Por ocasião da invasão da Polônia pelos bolcheviques, em 1920. A Polônia era sim o portal por onde se ia começar a revolução mundial. Tudo já estava programado, da Polônia então se partir para conquistas universais. Primeiro a Alemanha, e então a França e a Inglaterra, e na esteira e no rastilho da revolução mundial, o resto da Europa.
Mas se formou uma aliança de vários países -- Alemanha, Inglaterra e França se puseram a enviar tropas para ajudar os polacos – e os bolcheviques e a revolução mundial foram derrotados na Polônia, com os bolcheviques sendo empurrados de volta para a Rússia (era como se uma voz invisível lhes dissesse: fica no teu país! Que é melhor para vocês).
Mas, antes da derrota da revolução mundial em terras da Polônia podemos dizer que ela tinha sido antes também posta em prática. Com certeza no acordo de Brest-Litov, onde Trotsky e Bukharin viram uma oportunidade para a revolução mundial, pois acreditavam piamente que se a Alemanha atacasse a Rússia revolucionária o proletariado alemão iria se levantar em sua defesa. E foi um fracasso, porque os alemães marcharam contra o governo bolchevique e o proletariado mundial não se levantou na sua defesa.
Quando analisamos tal e sabemos tal é então que se descobre em Stálin um gênio, o homem que salvou a revolução da destruição certa, pois naqueles dias era corrente entre todos os bolcheviques que a revolução não tinha pátria, mas a sua pátria era o mundo.

Outubro Vermelho em Bom Despacho




Nesse mês de outubro [de 2010] ocorreu uma manifestação histórica em Bom Despacho, mas, como costuma ocorrer com as lutas populares, obteve pouca repercussão na mídia. Na TV Alterosa, apenas algumas imagens em primeiro plano mostraram uma ou duas pessoas com cartazes, como se apenas a família de José Paulo, morto no dia 8 passado, tivesse se manifestado, enquanto os presentes somavam por volta de trezentas pessoas, entre amigos e parentes do rapaz e populares revoltados com o ocorrido.
            A versão da família e a da polícia, desde o início, entraram em contradição. Só existe acordo a respeito do fato de que José Paulo de Carvalho Lacerda (de dezesseis anos) pegou inadvertidamente a moto do pai e saiu com um amigo para as proximidades da cadeia local. Ali, não obedeceu a ordem de parar numa blitz, foi perseguido, sofrendo um acidente que terminou em sua prisão e morte horas depois. A polícia alega que sua morte decorreu do acidente; a família afirma que José Paulo foi algemado e, mesmo imobilizado no chão, foi agredido com chutes que teriam causado a quebra das três costelas e a destruição de seu fígado, agressões que o levaram à morte no mesmo dia, às 13 horas.
            Antecedida por uma manifestação de motociclistas a favor de José Paulo, a manifestação do dia 13 de outubro se deu diante do fórum local de Bom Desapcho e foi basicamente uma reivindicação por justiça. A cidade não tem uma ouvidoria de polícia e mesmo reclamações nas redes sociais ou na mídia têm sido constantes, embora não exista um grupo organizado, seja partido político, pastoral ou ONG, que as discuta, organize ou encaminhe. As queixas da violência policial têm andado de mãos dadas com aquelas a respeito do aumento de furtos, que acontecem seguidamente até em lojas na Praça da Matriz, no coração da cidade. Posso dizer, então, que a manifestação do dia 13 de outubro foi a expressão da crescente indignação da população com o aumento de furtos paralelo a casos de violência policial. Ou seja, o protesto ganhou força porque, embora dura com os cidadãos, a PM se mostra pouco operante para evitar a escalada da criminalidade na cidade.
            Estive presente no dia 13 e vi a postura até ponderada da família, que tomou a frente de um protesto muito espontâneo, não contando sequer com aparelhagem de som e nem participação de setores organizados da sociedade civil. A família chamou os policiais envolvidos de assassinos, mas esclareceu que eles não representam a corporação. Não estavam presentes, lá, nenhum representante da prefeitura local, nem partidos políticos nem igrejas. Os presentes na manifestação, fora a família e amigos do adolescente José Paulo, eram blogueiros, artistas, jornalistas, passantes e curiosos, a maior parte observando os protestos da família, assobiando e gritando as palavras de ordem que os familiares gritavam. Em dado momento, até mesmo a Lei da Palmada foi citada, mostrando a disparidade entre as nossas leis e a prática social. A Polícia Militar estava presente e um representante dela que viu toda a manifestação (Major Júlio Santos, subcomandante do Sétimo Batalhão) lançou pouco depois, no blog do vereador Fernando Cabral, uma nota pedindo condolências à família do falecido, assim como dizendo que já foi aberta uma investigação interna a respeito do caso.
            No entanto, a nota que foi publicada pela PM ainda não é suficiente. É preciso ainda, que ela responda, mesmo após a perícia, os seguintes pontos: 1) Quais as provas que se tem do alegado envolvido de José Paulo com o tráfico? 2) Em nome de que profissionais a Polícia Militar está pedindo desculpas como um todo? 3) Se for comprovada a violência policial, os responsáveis serão punidos com a expulsão? 4) Se os policiais responsáveis estão sofrendo ameaças, como dizem pela cidade, não cabe uma investigação e um esclarecimento a respeito?
            Finalmente, me estarreceu a solidão de uma família humilde, protestando por justiça sem apoio de nenhuma pastoral da igreja, partido político ou organização da sociedade civil.
            Pela punição aos responsáveis pela violência policial!!!
            Toda solidariedade dos comunistas à família de José Paulo de Carvalho Lacerda em sua busca por justiça!!!

Lúcio E. do E. S. Júnior, professor de Filosofia em Bom Despacho (MG).