quinta-feira, 9 de julho de 2020

Anticristo Superstar

Estou andando obcecado com o "gênio louco doloroso" de que falou Heraldo

Barbuy na introdução de O Viandante e Sua Sombra.



O desejo de virar um super-homem começou cedo a influenciar minha vida. Tudo começou quando

tinha sete anos de idade. Eu ganhei a roupa do super-homem, e passei a me

achar o próprio. Eu subia na sacada de nossa casa em Uberaba e ameaçava

alçar voô. Minha mãe, preocupada, me advertiu de que se eu caísse, morreria.

Disse que isso ocorreu com um menino nas mesmas circunstâncias (?).

Esse mito é o que move todos os super-heróis, inclusive os x-men,

provavelmente. É sempre um indivíduo que se torna um homem mais evoluído,

mesmo em Zaratustra, e por isso Heraldo Barbuy afirma que Zaratustra morreu

e que gosta dos homens, espera agora em diante o advento da super-humanidade

e não do super-homem. Uma boa solução a posteriori.

Outro dia na Folha disseram que o sonho de Nietzsche era uma

aristocracia planetária de bestas loiras germânicas. Podemos supor que os desenhistas norte-americanos que criaram o super-herói (sabidamente o pai de todos os demais) se

apropriaram desse mito, tornando-o mais liberal e mais cósmico, digamos

assim. Vide o desenho animado "Super-Amigos" que animou minhas tardes de

infância (e adolescência). Eles eram nada mais nada menos do que essa aristocracia, esses

humanos com super-poderes trabalhando de polícia do universo na Hall of

Justice dos States. Exterminavam as ameaças à ordem e terminavam sempre

rindo. Eles eram super-heróis de uma humanidade sofredora, que não se

tornava protagonista de seu destino como um todo e ficava submetida a essa

elite. Mesmo entre os super-amigos havia uma hierarquia (a hierarquia é uma das obsessões de Nietzsche), com o Super-homem e a Mulher Maravilha sendo os mais fortes e os super-gêmeos sempre, literalmente, pagando mico...



Talvez para evitarem esse tipo de associação que estou fazendo, os

nietzschianos traduzem "übermensch" por além do homem e deixam o mito do

super-homem prá lá.



Ora, no próprio hino nacional alemão está: "deutschland über alles", a

Alemanha acima de tudo. Notemos que nem na Marselhesa, nem no Hino Nacional

ou da Bandeira há algo assim. O hino francês chama os cidadãos a defenderem

o solo pátrio, o brasileiro fala que devemos nos orgulhar do que já temos,

que é do bom e do melhor. Há, no próprio hino germânico, a obsessão com

hierarquia e superação que perpassa a obra nietzschiana. Mas não acho, no

entanto, que a obra de Nietzsche seja compatível com nazismo ou o

neonazismo, a não ser se forem realizadas muitas distorções.

Devemos0 notar que existiram seguidores do filosófo alemão

em países pobres e fracos, ex-colônias, como a Colômbia (Vargas Villa) e o México (José Vasconcellos). Esse último,

coincidentemente, dizia que a "raça cósmica" nasceria em algum lugar entre o

Amazonas e o Prata...O super-homem nascerá nos trópicos!



O fato inegável é que o capitalismo desenvolvido chegou, ainda que tardio. E seu

local é a América do Norte. O mito do Super-homem foi retrabalhado pela indústria cultural, surgiu então o super-homem de massa

de que fala Umberto Eco, o superist, superflit, superbacana de que tratou

Caetano Veloso: vivemos no dia-a-dia uma versão degradada das idéias de

Nietzsche e cada um de nós imergiu em sua própria arrogância, esperando dos

demais seres inferiores, fracotes, um pouco de afeição...Até Jô Soares

pintou um quadro chamado "O Filho do Super-homem" em que ele se retrata

enquanto o próprio, dormindo sobre jornais na poltrona, enquanto atrás vemos

um quadro do autor de A Vontade de Potência, como um retrato de

antepassado...O problema de quem fala em superação do homem é esse, esse

"eu" que enuncia essas profecias é sempre o profeta desse "homo superior" ou

é ele próprio esse fruto dessa (r)evolução darwinista.

Só Jesus Cristo não teve esse problema, mas ele se dizia um semi-deus -- e

depois Deus matou o filho de Deus em nome de Deus.



É ao mesmo tempo divertido e assustador saber que estamos às voltas com

Dionísios Pop tais como Jorge Mautner e o finado Jim Morrison. Será o rock

sobrevivência de Dionísio, romantismo desesperado, como supôs Mautner em

Deus da Chuva e da Morte?

O rock pode e poderá ser nietszschiano, mas Nietzsche jamais será roqueiro.

David Bowie fez um disco muito obcecado com os jovens dos anos 70 como uma

nova raça (Hunky Dory) e que tinha uma música (The Supermen) em que ele

narra uma "queda original" da humanidade, que era formada por super-homens

imortais, que viviam pela eternidade, guardava uma ilha sem amor e dormiam

sofrendo com esse peso, até que um deles matou o seu semelhante, provocando

a morte dos super-deuses e (supomos) gerando esse ciclo de nascimento e

morte em que estamos agora.

Para encerrar esse assunto, o que podemos dizer com certeza é que o rock

é uma música negro-mestiça e portanto bem pouco parecida com Debussy, Wagner

e outros compositores da preferência do profeta do eterno retorno, esse

verdadeiro Anticristo Superstar que morreu há cem anos. Quem será hoje o jovem

nietzschiano, aquele que escreve um trabalho acadêmico ou aquele que

exprime enunciados nietzschianos no decorrer de uma vivência?

Mas com isso não quero dizer que ambos se excluam

Da Utopia à Antropofagia

Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior*



Ainda nos anos 2000, muitos não sabem que Oswald de Andrade, além de escritor, jornalista e dramaturgo, possuía um projeto filosófico. Essa dimensão do autor não foi, até hoje, levada a sério entre os que estudam Filosofia. Nos anos 20, Oswald escreveu duas influentes exposições de idéias, configurando um pensamento altamente moderno: o Manifesto Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Seus textos filosóficos dos anos 40 e 50 (reunidos em dois volumes: Estética e Política e A Utopia Antropofágica) foram uma tentativa de sistematizar e fundamentar as idéias outrora esboçadas em uma forma fragmentária, ou seja, na breve e agressiva exposição de motivos que pediam os Manifestos.

Vejamos um exemplo da revisão de suas idéias. Primeiramente, Oswald escreveu no Manifesto Antropófago: “Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem” (ANDRADE, 1990, p. 101). Mais tarde, na Crise da Filosofia Messiânica, explicou esse ponto de vista, defendendo a Antropofagia da acusação inquisitorial de amoralidade: “A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto ao valor favorável. A vida é devoração pura (…). Antes pertence como ato religioso ao rico mundo espiritual do homem primitivo” (ANDRADE, 1990, p. 101).

Pode-se dizer que sempre pulsou, em Oswald, um componente romântico, no sentido da busca de ideais. Mas, para Oswald, essas eram idéias que devoravam. O conceito de Antropofagia foi aquele que teve a melhor recepção em toda sua obra. Ele foi pensado, originalmente, como um diálogo com Montaigne, especialmente seu ensaio Os Canibais. Montaigne viu, naqueles índios brasileiros que visitavam a França, homens “recém-saídos das mãos de Deus”, revertendo a acusação que se fazia de serem bárbaros.

Em Filosofia, Oswald resolveu ir além de Montaigne, aproveitando a senda aberta para a revisão da cultura européia a partir do olhar dos “selvagens” do Novo Mundo. Na maturidade de seus ensaios filosóficos, Oswald misturou, a esse sonho de um homem antes da corrupção social, a consciência da luta de classe, deu a esse homem utópico a vontade de potência, temperada com a dialética de Hegel, separando sempre o caldo das liberdades individuais; a sobremesa foram os dilemas existenciais e “odontológicos”, afirmados por ele como mais importantes do que os “ontológicos”. “Le cannibal c´est moi”, poderia ter escrito a partir da leitura desse ensaio. Oswald passou a falar a partir do lugar desse habitante da América que vivia num mundo onde não existiam as palavras para “pecado” e “perdão”. O inventor da Antropofagia profetizou que o Brasil ficaria marcado por ter sido “um grilo de oito milhões de quilômetros quadrados” e que os conflitos entre a posse (o posseiro efetivamente instalado, o índio dono da terra) e a propriedade (o dono do título, a grande empresa detentora do capital) continuariam a se reproduzir, mesmo na atualidade, entre índios e colonos, sem-terra e latifundiários, etc.

Antropofagia era, em relação ao que veio antes, uma resposta somente cultural ao problema de identidade brasileiro, mas acabou indo além. A partir da Semana de Arte Moderna, não se trata mais de rejeitar o estrangeiro, é preciso incorporar o outro e ver o que há de si nele, além do que há de outro em si mesmo. Há uma convergência entre o Oswald dos anos 50 e o Ricoeur da maturidade: ambos tratam do “Le soi-même comme un autre”. Como foi explicado no Manifesto Antropofágico: “Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu” (ANDRADE, 1990, p. 49).

Assim, enquanto princípio organizador de uma apropriação seletiva, a partir da Antropofagia pode-se organizar uma Bienal: a Antropofagia seria útil para brasileiros e estrangeiros, seria um conceito já exportado, indo além das condições e tempo de sua criação, um princípio transcendente. Será que a cultura brasileira conheceu algo semelhante antes?

Antes de Oswald, Machado de Assis tinha apresentado, satiricamente apenas, o conceito de Humanitas através de seu personagem Quincas Borba. A busca de um princípio universal para todas as coisas foi um dos fundamentos a partir dos quais nasceu a filosofia entre os sofistas. A Humanitas em Quincas Borba era a sátira de uma filosofia do século XIX que acabava justificando a lei do mais forte. Mesmo que muitas outras interpretações possam ser realizadas, a Antropofagia é sempre uma seleção crítica. O princípio funciona agregando valores: as idéias que servem são assimiladas, o que não interessa é descartado. Para além da dialética do senhor e do escravo, surge uma do “devorador” e do “devorado”.

Para refletirmos sobre a Humanitas, tomemos a palestra Sobre o Humanismo, de Martin Heidegger. Machado de Assis, ao escrever sobre esse termo, provavelmente sabia que, ao tempo da república romana, Humanitas foi pela primeira vez expressamente pensada e vista sob esse nome. O homo humanus só surgiu em comparação ao homo barbarus. A Paidéia era então traduzida por Humanitas. O primeiro humanismo era o encontro da romanidade com a cultura do helenismo. A Antropofagia seria, então, produto do encontro das civilizações indígena e africana com a latinidade européia.

Em Machado de Assis, Humanitas permanece a preocupação original de reconduzir o homem novamente à sua essência. E essa apareceu em Quincas Borba como sendo a devoração do mais fraco, o triunfo dos fortes. Na Antropofagia, essa essência é, como no primeiro humanismo, a necessidade do homem de encontrar a si mesmo no outro, assim como as culturas humanas se revigoram encontrando-se umas nas outras. Machado transformou, com sua ironia distanciada, a norma civilizatória (Paidéia) naquilo que deveria ser desvio, mas prosseguiu sendo a lei oculta da sociedade (lei da selva). Assim, em Quincas Borba, o Humanitas deixou de ser uma bagagem civilizatória para tornar-se desvio determinista na compreensão da complexidade da vida.

Quem sabe moldada a partir do Humanitas, a Antropofagia também propõe que a humanidade vive uma devoração universal, mas se opõe a simplesmente chancelar a lei da selva: é contestadora do poder e propõe superá-lo através da razão que devora a si mesma na dialética, assim como na síntese.

O marco temporal da Antropofagia foi a devoração do corrupto Bispo Sardinha, ou seja, a rebeldia sadia e pagã contra o colonialismo corruptor. Oswald também fez oposição a Sócrates, afirmando que foi um parasita ao mesmo tempo moralista e libertino, vivendo às custas das famílias ricas de Atenas. Ao contrário de moralizar, buscando esconder a contradição interna, Oswald propôs que as contradições fossem assumidas em vista de gerarem sínteses e superações futuras. Ele praticou ativamente esse programa: manifestou-se contra e favor de Getúlio Vargas e de Villa-Lobos. Porém, quando Oswald assim agia, não era por gosto de “virar a casaca”; com esse tipo de atitude, assumia que era um “homem em movimento”. Sobre Freud, observou de maneira arguta que aquilo que o fundador da psicanálise designou como ações dominadas pelo inconsciente eram atividades que apelavam fortemente à consciência: comer e fazer sexo (e chamou-as “consciente antropofágico”).

Pelo motivo mesmo de assumir a contradição interna e não ocultá-la, propondo sua própria contínua atualização, a Antropofagia possibilitou, por exemplo, prever o surgimento dos boêmios hippies e beatniks (jovens que queriam fruir o ócio possibilitado pela sociedade tecnológica e a liberdade de costumes trazida pela emancipação feminina, junto com o divórcio e a pílula): do choque entre o matriarcado primitivo, ainda que imaginário, com o patriarcalismo, surgiria um novo matriarcado, onde o ócio criativo seria possibilitado pela tecnologia. Os jovens boêmios de hoje, depois do surgimento dos beatniks e hippies, (e, na atualidade, dos ciberpunks e hackers), passaram a ser novos bárbaros, ou seja, desviantes das normas e convenções que usam a tecnologia contra elas.

Portanto, é preciso superar o dilema posto na abertura do Serafim, recolocado nos seguintes termos na contemporaneidade: entre os intelectuais e os brasileiros cultos, a opção ainda está entre dizer piadas e paradoxos em Nova York para encantar as elites vegetais ou tornar-se apresentador do circo mambembe da revolução (o que equivale a mitificar o operário).

Assim, encerrando essa reflexão que seguiu na trilha de Oswald, façamos uma última consideração: um verdadeiro socialista não pode mais confundir humildade com grosseria, hábitos de higiene e sofisticação com meras convenções burguesas; precisa conscientizar-se (e aos demais) de que o objetivo é que melhoremos todos como seres humano

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Meu Canal no Youtube


Estou com um canal no youtube. Convido todos a verem os vídeos e a opinar sobre eles. Meu último foi sobre o filme Lou, de Kordula Koblitz, filme alemão de 2017.


terça-feira, 5 de maio de 2020

Minha Live com o Geacb sobre o Foquismo

Nesses tempos de quarentena, fiz uma live com o pessoal do Grupo Americanista Cipriano  Barata. Vejam no youtube aqui

sexta-feira, 3 de abril de 2020

História da esquerda proletária




O colapso da liderança da UJC (ml) [União da Juventude Comunista e Marxista-Leninista] mostrou os limites “althusserianos” da ideologia desenvolvida. E por causa do momento de maio de 1968, a pressão foi muito grande e, acima de tudo, não há um entendimento real das preocupações colocadas pela questão da liderança.
A resposta, portanto, não é ideológica, mas prática: a militarização e a proletarização deveriam formar a resposta adequada, e o nome escolhido se refere-se à Grande Revolução Cultural Proletária: "Gauche Prolétarienne" (GP, Esquerda Proletária).

A reorganização da antiga UJC (ml)

Começou um movimento em duas etapas: primeiro foi a republicação, a partir de 1º de novembro de 1968, do jornal A Causa do Povo, como “jornal proletário comunista."
Depois, houve a reaproximação do Movimento de 22 de março, nascido em Nanterre e que esteve no centro do ativismo de maio de 1968. Encontramos seu estado de espírito em uma obra publicada em março de 1969 e intitulada Rumo à Guerra Civil. Os autores são Serge July e Alain Geismar, Herta Alvarez e Évelyne July, que se juntaram à Esquerda Proletária.
Em conseqüência, saiu em abril de 1969 a primeira edição do Cahiers de la Gauche Prolétarienne, que substituiu os Cahiers marxistes-léninistes; o tema se junta à temática do Movimento de 22 de março: "Da revolta anti-autoritária à revolução proletária".

Violência

A Esquerda Proletária segue o caminho da violência; seus ativistas estão na vanguarda. Muito presente nas escolas de Ensino Médio parisienses, é no mais prestigiado de todos, Louis-le-Grand, que ocorreu um ataque fascista em 2 de maio de 1969, que se viu diante de uma reação maciça, terminando os fascistas por jogar uma granada caseira, que rasga a mão de um estudante do Ensino Médio.
Em 15 de junho, o EP emboscou a polícia no mercado de Montrouge, perto dos subúrbios de Paris. Em 17 de junho, 200 jovens “com ferramentas” invadiram a fábrica de Flins, que terminou em combate próximo com os vigilantes da fábrica e com a CGT.

O GP multiplica esses ataques, como quando a sede dos empregadores em Paris é assaltada por quarenta atividades que lançam pedras, flechas e fumaça, ou com o confronto na fábrica de Coder em Marselha com os guardas e os capatazes.
Os resultados são rápidos: o GP tem comitês básicos nas fábricas da Renault - Le Mans e Renault - Billancourt, Citroën - Choisy, Peugeot - Sochaux, Renault - Flins, Vitho - Saint-Ouen, Girosteel - Le Bourget etc.

Anti-capitalismo romântico

A EP pertence a uma corrente que não é apenas francesa; encontramos a mesma dinâmica na Alemanha Ocidental e em outros países. Há também a mesma porosidade ao anti-semitismo, e isso, apesar da presença de muitos judeus na liderança da GP (Esquerda Proletária).
A razão para isso é, obviamente, o anticapitalismo romântico, como quando em 25 de setembro de 1969 a mansão do bilionário Rotschild foi atacada e as frases tais como paredes "Rotschild, o povo francês e o povo palestino varrerão você", foram inscritas nas paredes.
O "povo" substitui o proletariado e o socialismo anticapitalista romântico; O dia 26 de setembro foi o banco de Rotschild que foi atacado por uma centena de ativistas, incluindo uma parte de origem árabe, e depois as instalações do diário L'Aurore (jornal de direita) por causa de seu apoio ao sionismo.
Se a luta contra o sionismo é um componente do internacionalismo, não é com isso que estamos lidando aqui. A EP realmente jogou com o populismo em todos os níveis: com os árabes usando a questão palestina, com os jovens pedindo uma revolta romântica contra a autoridade, etc.
A EP chegou ao ponto de apoiar os sindicatos de pequenos comerciantes na luta contra a tributação. O ponto culminante dessa tendência populista é então a afirmação da "Nova Resistência".

A "nova resistência" em face do "novo fascismo"

A Esquerda Proletária precisava justificar sua linha populista, forjando a teoria de que a situação na França era equivalente à da ocupação. Uma posição totalmente idealista e até negacionista em sua abordagem e, acima de tudo, refletindo a visão de mundo pequeno-burguesa diante do gaullismo.

O teórico era André Glucksmann, que na década de 1980 se tornou um defensor do liberalismo e dos Estados Unidos, depois de ter sido, em meados da década de 1970, um teórico anticomunista frenético.
André Glucksmann explicou mais adiante no artigo Novo Fascismo, Nova Democracia, publicado em maio de 1972, a concepção do que se supõe ser um novo fascismo.
"O fascismo está no estado, é onde está mais bem localizado e [o ministro do Interior] Marcelino não tomou de assalto seu próprio gabinete. O fascismo de hoje não significa mais a tomada do Ministério do Interior por grupos de extrema direita, mas a captura da França a partir do Ministério do Interior.”
Na verdade, ele retoma a teoria trotskista, para derrubá-la: em vez de ser o "lumpen" que se revolta a serviço do aparato estatal, é o último quem toma o  por conta própria:

"O novo fascismo baseia-se, como nunca antes, na mobilização bélica do aparato estatal, que recruta menos os excluídos do sistema imperialista do que as camadas autoritárias e parasitárias produzidas pelo sistema (...). A peculiaridade do novo fascismo é que ele não pode mais organizar diretamente uma fração das massas (...). Doravante, é o próprio fascismo que é o trabalho do aparato estatal. A polícia, o sistema de justiça, o monopólio da informação, as burocracias autoritárias que outrora forneceram as bases para a revolução fascista devem agora lutar na linha de frente. "

Violência generalizada, mas a recusa da luta armada

Isso não impediu a Esquerda Proletária de refutar a luta armada, por mais lógico que seja o raciocínio de uma "ocupação". Durante as discussões que ocorreram em Paris com Andreas Baader, que construiu com Ulrike Meinhof a Fração do Exército Vermelho, os líderes da Esquerda Proletária recusaram esse salto.
Da mesma forma, disseram não às organizações palestinas neste ponto, principalmente durante uma visita de oficiais da Esquerda Proletária em um campo palestino na Jordânia, assim como um representante da Esquerda Proletária disse não a Zhou Enlai, durante uma viagem oficial à China popular pelo 20º aniversário da revolução.
A “nova resistência” da esquerda proletária é, portanto, violenta, mas desarmada, é uma espécie de guerra “simbólica” dos guerrilheiros equipados com coquetéis molotov e barras de ferro, multiplicando em setembro de 1969 as ações, desde o ataque às delegacias de polícia até o assalto à estação de metrô Passy, no 16º arrondissement de Paris, para pegar os bilhetes e redistribuí-los, ou até a organização do passe livre no metrô de Boulogne.
O estilo ideológico pretende ser resumo, com a Causa do Povo tirando 40.000 cópias, criando fórmulas chocantes: "Contra os inimigos que fazem ouro com nosso sangue, há apenas uma atitude possível: o revide”,“ Vida cara, vida de escravos, chega!","Temos razão em sequestrar os patrões"," Tremem  os pequenos patrões, somos os mais fortes!"
A linha teórica também é muito reduzida: “Você precisa de energia: para realmente garantir o bife e efetivamente garantir a liberdade."
Além disso, a Esquerda Proletária não era uma organização comunista no sentido estrito: há uma direção que decide tudo sem consultar a base, sendo que essa direção não era de membros formais da organização. A abordagem era puramente ativista.
A Esquerda Proletária também acabou se opondo regularmente ao PCF, em Argenteuil, nos subúrbios de Paris, onde a luta no mercado de domingo era regular e transformada em uma batalha campal em 14 de setembro de 1969.
As ações eram múltiplas e difusas; em fevereiro de 1970, o ataque aos coquetéis molotov ocorreu na sede da administração da [empresa de carvão] Les Houillères em Hénin-Liétard, a sabotagem de 2 guindastes em Dunquerque, o ataque a dois escritórios do Serviço de Serviço Técnico para Trabalhadores Estrangeiros, o ataque à sede dos empresários Isère em Grenoble, o incêndio dos Grands Moulins em Corbeil-Essonnes, etc.
A linha da Esquerda Proletária é então resumida na famosa música "Os Novos Partisans", cantada anonimamente por uma cantora que desistiu da carreira pop para se tornar uma guarda vermelha (depois ela se tornará anarquista e negará categoricamente qualquer relação com o maoísmo, tudo assumindo as músicas da época apenas nos anos 2000).

Novos apoiadores diante da repressão

O Estado decidiu então reagir fortemente contra esse movimento semi-legal que atacou-o abertamente. O Ministério do Interior abriu hostilidades com uma queixa por "xingamentos e difamação contra a polícia, causando assassinatos, saques, incêndios criminosos e crimes contra a segurança do Estado."
Foi proibida uma reunião agendada no salão Mutualité, em 14 de março de 1970, em Paris, e o jornal A Causa do Povo foi massivamente apreendido, enquanto seu diretor de publicação é preso. Finalmente, a “Lei Antiterror” foi introduzida em 30 de abril de 1970: os organizadores de uma manifestação tornaram-se legalmente responsáveis por qualquer violência.
Mas a repressão não era o problema real. Quando se decide pedir a Jean-Paul Sartre para tornar-se diretor de publicação do jornal A Causa do povo, o encontro acontece na padaria chique parisiense chamada La Coupole.
No mesmo espírito, a liderança da Esquerda Proletária se reúne novamente e logo a seguir na École Normale Supérieure, e se uma frente democrática de advogados foi montada, sendo que o responsável pelas relações com a imprensa era Serge July, que então administrava as relações com uma grande quantidade de intelectuais de esquerda "unidos" em face da proibição do jornal A Causa do Povo.

Solidariedade dos intelectuais "de esquerda" e proibição

Toda a Paris intelectual estava se aproximando dos maoístas, eles próprios burgueses que escolheram o campo do povo, como mostra a ação ultra-populista de saque do fornecedor de luxo Fauchon, produzindo uma distribuição improvisada, marcada por prisão de um ativista cujo pai era um bom cliente de Fauchon.
O apoio liberal ao jornal A Causa do Povo significava que, mesmo proibido, era vendido sem medo no Quartier Latin de Paris, às vezes até por uma personalidade como Jean-Paul Sartre.
Além disso, foi Sartre quem abriu a grande reunião de solidariedade no salão de Paris, chamado Mutualité, em 25 de maio de 1970, onde também falaram representantes da LCR e da PSU.
Em 27 de maio, dia do julgamento de duas editoras do jornal A Causa do Povo, centenas de ativistas organizaram escaramuças com a polícia por causa da proibição de todas as manifestações. É então que a Esquerda Proletária foi proibida.
Com razão, em uma autobiografia de 1978, o então ministro do Interior, Raymond Marcelin, diria o seguinte: "A esquerda proletária, em 1970, tentou uma fuga revolucionária, mas foi rapidamente bloqueada, porque estávamos prontos."

A ex-esquerda proletária

Aconteceu que o apoio "intelectual" e "democrático" existiu, com Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Michel Leiris, Cavanna, François Truffaut, etc.
A Esquerda Proletária publicou um novo jornal, (J'accuse )(Eu Acuso), cuja primeira edição apareceu em 15 de janeiro de 1971 e que eventualmente se fundiu com a Causa do Povo; o Comitê Djellali, em homenagem a um jovem argelino morto pelo amigo de um guarda durante uma briga, também reuniu uma multidão de intelectuais.
Pode gerar, em junho de 1970, uma "segurança vermelha", onde Sartre desempenha um papel central como figura unificadora.
A esquerda proletária é então notícia na França. Os números 15 a 19 da Causa do Povo são apreendidos e uma tentativa de reimprimir os Cadernos da Esquerda proletária também foi proibida, com uma prisão no final.
Contudo, em muitas cidades, ativistas da extrema esquerda venderam a imprensa da Esquerda Proletária em solidariedade e, de 1 a 25 de setembro de 1970, houve a primeira greve de fome de trinta detentos maoístas para obter da "dieta especial". Um segundo ocorrerá em janeiro de 1971.
Há também o destaque de Alain Geismar, figura de maio de 1968 como secretário-geral adjunto da União Nacional de Ensino Superior (Snesup) e que se tornou a figura pública da Esquerda Proletária, Benny Lévy, era o líder.
E quando, em 20 de outubro de 1970, Alain Geismar foi condenado perante a 17ª câmara correcional a 18 meses de prisão por "reconstituir uma liga dissolvida", ele foi reconhecido como prisioneiro político, pela prisão e pela imprensa (os diretores de publicação da Causa do Povo, Jean-Pierre Le Dantec e Michel Le Bris, foram presos ao final de março e no início de abril, ficaram ao seu lado oito meses cada).
Aconteceu até que Sartre, em 20 de outubro de 1970, na saída das fábricas da Renault em Billancourt, fez um discurso subindo em um barril, chamando intelectuais e trabalhadores a se unirem, e em apoio a Alain Geismar, diante da imprensa nacional e internacional. Ao mesmo tempo em Paris, a Esquerda Proletária atacou a polícia, o que resultou em 375 prisões.
Os cineastas estavam próximos à contestação e dois apoiadores práticos estiveram envolvidos em filmes militantes: Marin Karmitz fez "Golpe por Golpe" e Jean-Luc Godard "Tudo Está Bem".

Revisionismo "armado"

Nesse contexto, a Esquerda Proletária decidiu usar sua estrutura chamada "Nova Resistência Popular" (NRP) que foi fundada clandestinamente em maio de 1970.
No entanto, tanto a repressão quanto o NRP não foram duros: em dezembro de 1970, foram os ativistas da Esquerda Proletária que tentaram detonar as garagens da Peugeot e levaram apenas 6 meses até serem libertados em janeiro de 1971.
Quando no segundo julgamento no Tribunal de Segurança do Estado, em 24 de novembro de 1970, Alain Geismar foi condenado a 2 anos de prisão, o PRN sequestrou brevemente o deputado gaullista Alain de Grailly, envolvido no escândalo de la Villette, em 26 de novembro.
Quando, em meados de dezembro de 1970, o Tribunal de Segurança do Estado julgou os réus no caso Hénin-Liétard, eles foram absolvidos, excetoquem fugiu e foi condenado a cinco anos de prisão.
Nesse espírito de luta social "abafada", em que a Esquerda Proletária apareceu como um reformista armado com apoio "democrático", um tribunal do povo foi organizado em Lens para julgar simbolicamente os responsáveis.
É um revisionismo "armado" que nasceu, como apoio a uma luta democrática aberta. Em 26 de janeiro de 1971, ocorreu uma reunião de apoio aos prisioneiros maoístas, presidida pelos intelectuais burgueses Simone de Beauvoir e Michel Leiris, sob um retrato de Mao Zedong.
Em meados de fevereiro, a Igreja do Sagrado Coração foi ocupada, em "resposta" à repressão à manifestação proibida dos vermelhos, onde um ativista perdeu o olho.
Por um lado, em meados de maio, as instalações da publicação semanal de extrema direita O Minuto foram emplastadas, mas em 18 de junho foi fundada a Agência de Notícias da Libertação.
No mesmo dia, 18 de junho, foi organizada uma colocação de veteranos em Mont-Valérien para homenagear "As vítimas do fascismo, antigas e novas".

Os Rolling Stones

Em 24 de junho de 1970, no Palais des Sports, em Paris, Serge July pôde falar no meio do show, graças a Mick Jagger. Ele então fez o discurso a seguir, expressando os limites ultra-democráticos da esquerda proletária.

"Os Stones me pediram para falar esta noite. Enquanto estou conversando com você, enquanto os Stones vão cantar, uma centena de presos políticos estão na prisão (...). Se hoje estão presos, é porque lutaram contra a polícia, que acredita poder continuar por muito tempo, com impunidade, os espancamentos nas delegacias de polícia, contra a boca suja que nos irrita em todas as esquinas , no final do ensino médio, fábrica, faculdade, bola.
Se eles estão na prisão, é porque não têm medo de dizer que quando você recebe um cassetete no rosto, você tem que estragar o cara que o enviou, que quando farto de ser incomodado por um chef da fábrica, estamos certos em irritá-lo, que quando estamos fartos, estamos certos em lutar, em revoltar-nos. "

A ex-esquerda proletária levou seu mito a sério: o NRP possuía esconderijos, uma fábrica de papéis falsos, armas e explosivos, equipamentos para captar as freqüências da polícia.
Seu objetivo era servir às lutas populares, e os ex-esquerdistas proletários estavam multiplicando iniciativas: Grupos de Trabalhadores Anti-Policiais, Grupos de Retirada de Trabalhadores, Milícias Multinacionais de Trabalhadores, Movimento Juvenil, Comitês de Luta de Oficinas ou até mesmo um "costume" trabalhador ”em maio de 1971 para verificar os casos de executivos e gerentes da fábrica.
Até os pequenos comerciantes que se opuseram às autoridades fiscais  que são chamados de “pequenos comerciantes”. Um folheto dos vermelhos em dezembro de 1971 ainda atestou esse populismo: "Quem rouba pão vai para a prisão. Quem rouba milhões vai para o Palais-Bourbon! "

Pierre Overney e a morte do esquerdismo

Os riscos são grandes, no entanto; em uma manifestação pró-palestina, um ativista do EP foi ferido por balas pela polícia. E em fevereiro de 1972, o grande choque ocorreu na fábrica da Renault-Billancourt.
No dia 14, um ex-EP acompanhado por Sartre conseguiu brevemente distribuir folhetos por lá.
No dia 25, foi organizada uma operação semelhante, com vontade de entrar em vigor. O ativista Pierre Overney, que distribuiu panfletos pedindo uma manifestação pelo 10º aniversário do massacre de Charonne no mesmo dia, desafia a arma apontada por uma vigília, que atirou e matou.
Em 29 de fevereiro, ocorreu um primeiro comício unitário, com 30.000 pessoas, incluindo figuras do PSU e do trotskismo. E em 4 de março de 1972, 200.000 pessoas participaram do funeral, o que marcou uma virada política.
Porque a liderança do ex-EP rejeitou qualquer transcendência da violência simbólica e se opôs formalmente à sua base.
Essa linha se materializou rapidamente para manter o revisionismo "armado", quando, em 8 de março, o NRP sequestrou uma pessoa encarregada do pessoal da Renault-Billancourt, Robert Nogrette, libertada dois dias depois.
Então, quando um jovem trabalhador foi encontrado morto em Bruay-en-Artois, o ex-GP lançou uma campanha quando um notário foi preso, numa linha ultra populista, resumida por esta fórmula do jornal A Causa do Povo: "E agora eles estão massacrando nossos filhos".
A revista intelectual Les Temps Modernes completou a formação dessa linha com a edição especial "Novo fascismo, nova democracia".
Então, rapidamente, o diário Liberátion foi criado, aparecendo em 18 de abril de 1973, após uma primeira falha em 5 de fevereiro. O jornal A Causa do Povo parou em 13 de setembro, pedindo apoio à greve autogerida da LIP. E no início de novembro, a direção reuniu-se e liquidou a organização.








segunda-feira, 23 de março de 2020

Psicanálise e Vida Cotidiana



Eduardo Lucas, Victor Cruz e Paulo Ceccarelli (org.)

            Psicanálise e Vida Cotidiana, obra que tem inúmeros autores, organizada por Eduardo Lucas Andrade, Victor Cruz de Freitas e Paulo Roberto Ceccarelli, é um livro que vai bem além do tema proposto. Os dois primeiros textos, o de Alexandra Martins e o de Alexandre S. Barbosa tocam em temas interessantes, tais como a relação entre o biológico e a mente, entre o pensamento e o corpo orgânico, mas seu vocabulário é mais técnico, afastado de temas da vida cotidiana.
O texto de Eduardo sobre o suicídio aborda esse interessante assunto. O senso comum acredita que, quando alguém está estudando o suicídio, essa pessoa quer suicidar-se, por isso esse tema seria “deprimente”. No entanto, refletir sobre nossa morte é valorizar nossas vidas, bem como saber como lidar com algo tão doloroso que parece não caber na vida.
            O texto mais bem humorado é de Victor Cruz, texto que aborda a operação bariátrica que trata da obesidade, pois desmistifica o “balão mágico” que faz emagrecer. A obesidade demanda um tratamento psicanalítico sério, bem mais além da mera intervenção cirúrgica.
            Victor Cruz realizou, em conjunto com Ceccarelli, o texto sobre o xamanismo, assunto fascinante devido ao fato de que esse tipo de ritual está presente entre os índios brasileiros. É bastante inovador aliar psicanálise e xamanismo em experiências teóricas e práticas com as chamadas “plantas de poder” sendo utilizadas para poder investigar conteúdos do inconsciente.
            Outro texto mais que pertinente, esse sim o mais próximo da nossa vida cotidiana, refere-se à agressividade no mundo virtual. Ela desvenda essa crescente agressividade a partir do escândalo que é a transmissão de dados dos usuários para as empresas, o que fez com que essa agressividade fosse potencializada com finalidades eleitorais.
            Um texto saboroso e significativo, a meu ver, é o que trata da erotomonia. A pessoa apaixonada tende a perder parte de seu senso crítico e sua capacidade de avaliar verdadeiramente a realidade. Isso é comparado e definido pelos autores com rara sagacidade:

O sujeito vive uma relação amorosa com seu objeto de amor assim como um toxicômano pela sua droga de preferência. O amor patológico em si, se caracteriza pelo comportamento de prestar cuidados e atenção, de maneira repetitiva e sem controle, ao objeto de amor (parceiro) com a intenção (nem sempre revelada) de receber o seu afeto e evitar sentimentos pessoais de menos valia (SILVA, MONTEIRO, 2019).

            Pode-se, então, considerar que a situação acima leva ao chamado amor patológico, pois a pessoa passa a pensar seguidamente na pessoa amada, o que faz sofrer muito, pois focaliza nos obstáculos a esse amor.
            O texto de Dircilene sobre a mulher e sexualidade tem também duas passagens que considerei muito significativas: a de que, para a mulher, o desejo de um homem é o desejo de um bebê, pois só através do homem ela pode ter o bebê. Outro é que a agressividade da mulher, por razões sociais e históricas, é voltada contra si mesma e, por isso, no homem o masoquismo é um traço feminino.
Esse texto liga-se a outros textos do volume: aquele sobre feminicídio: o homem teria mais tendência ao sadismo, daí sua opressão do feminino na mulher e no homossexual. A agressividade do homem estaria voltando-se à mulher, em traços sádicos e perversos, ou seja, do sofrimento do outro ele tira prazer. E também aquele que trata do prazer de ser mãe enquanto construção histórico e cultural, discussão presente no texto de Mireli Barbosa Martins, texto que debate e desconstrói o mito do amor materno. A mulher, por vezes, deixa-se levar por pressões sociais e nota, depois de ter o filho, que não tem essa realização prometida de forma automática pela cultura na maternidade. Muito pelo contrário.
            No texto de Lavarini sobre a formação dos analistas, texto com um tema que a meu ver é original, creio que é brilhante que tenha lembrado da distinção entre a escuta do analista e a escuta do padre, esclarecida nos seguintes termos por Freud: “Há uma grande diferença, por que o que desejamos ouvir de nosso paciente não é apenas o eu ele sabe e esconde de outras pessoas: ele deve dizer-nos também o que ele não sabe” (LAVARINI, 2019, P. 221).
            A análise do conto de Caio Fernando Abreu (“Não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo) através da psicanálise encanta pela riqueza de sentidos que foi possível encontrar nesse conto. Por fim, o texto sobre feminicídio de Thaís e Luciano debate o horror ao feminino, mas também deveria debater o sadismo do homem, o masoquismo como traço feminino e o desejo do homem como um veículo para ter um bebê, o que em si é problemático, pois o homem não é visto como um fim em si mesmo e sim como meio para um fim. Isso gera conflito e precisa ser abordado.





quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Risco de Vida, Da Doença Crônica à Crônica da Doença



O livro Risco de Vida, embora aborde um assunto que, à primeira vista, é assustador para o senso comum, bem como o tema do suicídio abordado em uma obra anterior, é também um livro cheio de vida. O autor tem diabetes tipo 1, que é a “paralisação dos operários dos pâncreas, que não mais produzem insulina” (ANDRADE, 2019, p. 13). Ao invés de ser um obstáculo, a diabetes ensinou ao escritor o cuidado de si.
Outro poema que chamou-me a atenção trata do diálogo entre dois artistas: “capturar detalhes é para os fortes e perspicazes. Ela capturou-me pelo diálogo e detalhes mais profundos; pelo simples jeito de ser ela mesma?” (ANDRADE, 2019, p. 12). Para tratar de sua doença, Eduardo canta a vida e os cuidados que se tem de ter com a vida e o corpo. Para combater a morte insidiosa, cria uma poética do corpo, enquanto operário da vida e da escrita.
Eduardo tem abordagens muito vívidas e talentosas, abordando temas originais, tais como o aumento dos analistas numa determinada cidade ou ambiente como sendo concorrência: “A prática mostra e que quem faz análise sabe disso, que elegemos analista com o inconsciente” (ANDRADE, 2019, p. 20). Além de ter excelentes crônicas, o livro traz humor, como em Lacan para Mineiros. A verve do poeta-analista surge em Dedo Podre, texto em que ele trata do dedo que só aponta para os mesmos vínculos horrendos e insustentáveis. Em repetições como essas, Andrade encontra material para análise. Mais do que poemas, seus textos são lampejos, poemas em prosa. É importante viver a tristeza, é curva de vida.
Andrade encontra em temas como suicídio e diabetes um impulso para escrever, para estar existencialmente vivo. Estar doente, falar sobre suicídio, tudo isso para ele é impulso que convoca à vida. Ele entende que viver é vencer a morte a cada instante, é fazer existir. Nesse livro ele toma a doença crônica como uma crônica da doença, fazendo belas imagens, tais como quando compara a diabetes com um cactos: “Os sintomas da diabetes são espinhos que o organismo gera para tentar sobreviver, mas sozinho não consegue, e como somos corpo habitado de alma ele nos acorda para nós mesmos cuidarmos, aguando sem excessos e trocando a fértil terra já carcomida pelas balizas da vida” (ANDRADE, 2019, P. 83). São assim as crônicas de Eduardo, relato alucinado de suas pupilas, imagens que se agarram às pálpebras fechadas do corpo e abertas da alma: um processo onírico de tentar organizar o real visto. E com belas metáforas e uma escrita talentosa.