quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Gramsci e Gonzalo

 Gramsci e Gonzalo: Considerações na conquista do combate das paredes internas da hegemonia

Com seu artigo “Rumo à guerra da posição: Gramsci em continuidade e ruptura com o marxismo-leninismo”, Amil iniciou o processo — muito atrasado no movimento comunista internacional — de resgatar Gramsci do domínio da academia liberal e colocar seus desenvolvimentos teóricos em serviço de elaboração de estratégias para a revolução. O fato de demorar tanto tempo para Gramsci ser considerado sob essa luz é prova de dois problemas:
1 — A verdade da teoria da hegemonia de Gramsci — nesse caso expressa na capacidade aparentemente interminável da academia liberal de interpretar e distorcer mal as ideias revolucionárias para ajustar-se a suas visões estreitas e reformismo mesquinho, ajudadas aqui pela autocensura necessária de Gramsci ao escrever em uma cela de prisão.
2 — O circuito intelectual doutrinário e fechado que definiu praticamente todo o movimento comunista internacional (MCI) nas últimas décadas.
No interesse de abordar o segundo problema e postular considerações, este texto analisa a noção de Gramsci da guerra de posição à luz de experiências recentes no lançamento de guerras populares. Enquanto no MCI tem havido muita energia e pouco intelecto gasto defendendo a necessidade e a estratégia da prolongada guerra popular, as tentativas de entender como as guerras das últimas décadas foram lançadas em primeiro lugar têm faltado. O resultado foi que aqueles ocupados pontífices para a guerra popular não conseguiram iniciar suas próprias.
Gramsci, como Mao, enfatizou o papel decisivo do fator subjetivo na revolução. Ele chamou a atenção para a necessidade de construção à longo prazo de uma força comunista, consistindo de quadros intelectualmente astutos e uma grande base de massa organizada, “que pode ser colocada em campo quando se julga que uma situação é favorável” ao invés de ver a emergência da possibilidade de uma revolução, pela maioria, dos desenvolvimentos da situação objetiva, Gramsci viu o desenvolvimento do fator subjetivo como chave para criar uma situação favorável à tomada do poder, que ele escreveu “só pode ser favorável na medida em que tal força [o fator subjetivo] existe, e está cheia de espírito de luta”.
A questão que nos confronta é a de como desenvolver o fator subjetivo na maneira qual Gramsci argumenta ser necessário. Fazer isso exige confrontar o poder burguês não apenas em seus aparatos repressivos, mas também em seus aparatos de hegemonia intelectual e cultural — o que Althusser chamou de Aparato Ideológico do Estado (AIE).
Este é um aspecto crucial da guerra de posição e tem a ver tanto com a acumulação de um número crescente de pessoas revolucionárias, quanto com a preparação dessas pessoas para administrar a sociedade após a revolução. Ao sistematizar a teoria da hegemonia de Gramsci, Althusser observa que, embora não haja praticamente espaço para a luta das classes exploradas nos aparelhos repressivos, nos aparatos ideológicos do estado “a resistência das classes oprimidas é capaz de encontrar meios e ocasiões para se expressar lá. , seja pela utilização de suas contradições, seja pela conquista de posições de combate neles na luta. ”
Dia de Pré-Iniciação no Peru
Muito ignorado no MCI é o método do Professor Abimael Gúzman de acumular e organizar forças revolucionárias antes do lançamento da guerra popular no Peru, em 1980. Gúzman (conhecido pela maioria de nós como Presidente Gonzalo) foi professor de filosofia na Universidade Nacional de San Cristóbal de Huamanga em Ayacucho em 1962. A então recém-criada universidade fazia parte do programa de modernização nacionalista do governo peruano, que atribuía uma importância crucial à educação. Tanto os partidos eleitorais de esquerda quanto as ditaduras militares de 1968 a 1980 viram a criação de universidades e a educação em geral como uma forma de lidar com a instabilidade e o empobrecimento da periferia. No Peru, o poder estatal e o desenvolvimento econômico estavam concentrados em algumas cidades, especialmente em Lima. A região de Ayacucho era a epítome da negligência do governo, e sua população indígena de língua quéchua não podia ser tão facilmente integrada às estruturas hegemônicas da sociedade peruana. Para os que estão no centro do poder, a expansão da educação na periferia foi uma maneira de incorporar essa população à hegemonia ideológica burguesa. Nisto existiu um elemento da classe dominante branca e mestiça continuando aquilo que os conquistadores espanhóis pararam na sua missão de “civilizar” os índios.
A recém-criada universidade ofereceu a Gúzman e seus companheiros a chance de definir os termos e usar a universidade como um centro de recrutamento para o Sendero Luminoso. A promessa da educação era oferecer uma oportunidade aos jovens camponeses de criarem suas comunidades, mas, após a formatura, a grande maioria destes alunos se via na mesma pobreza, sem os meios de melhorar as condições de suas comunidades. Essa contradição inerente estrutural — que Gramsci chamaria de orgânica, em vez de conjuntural — forneceu amplo terreno, a partir do qual o Sendero Luminoso poderia atrair membros cujas esperanças no sistema haviam sido frustradas pelas falsas promessas da educação. As animadas palestras de filosofia de Gúzman, que ofereciam uma explicação materialista histórica das contradições que os estudantes camponeses estavam enfrentando e encaixavam essas contradições nos maiores antagonismos do capitalismo em escala mundial, atraíram os recrutas iniciais que realizariam o trabalho de base para a iniciação da guerra popular.
Gúzman organizou esses apaixonados estudantes revolucionários para realizar censos de bairros pobres e organizar seus residentes. O jornalista Gustavo Gorriti descreveu os esforços de Gúzman na universidade nestes termos:
“Seu objetivo era claro: usar a universidade para recrutar, educar, organizar e subsidiar o crescimento de quadros comunistas. Guzmán fez com que a universidade criasse uma escola de treinamento para professores, composta principalmente por membros do Partido Comunista ou simpatizantes. Aqueles estudantes que se tornaram primeiros recrutas forneceram uma maneira ideal de forjar um relacionamento com suas cidades e comunidades. Muitos voltariam para casa para lançar as bases para o trabalho revolucionário.”
Os esforços de Gúzman na Universidade Nacional de San Cristobol de Huamanga não resultaram simplesmente em uma influência ideológica comunista geral. Dentro de um aparato ideológico estatal(AIE) que ainda não estava totalmente formado e longe dos centros de poder, os comunistas conseguiram se firmar e finalmente, nas palavras de Althusser, “conquistar posições de combate”. Gorriti caracteriza a Universidade de Huamanga como virtualmente sob o controle do Sendero Luminoso no final dos anos 60 e início dos anos 70. O Sendero estava envolvido no dia-a-dia dos alunos, incluindo sala e diretoria e controle administrativo, e a maior parte da liderança do Partido ensinava na universidade. Assim, uma combinação de controle organizacional e influência ideológica trouxe ao Sendero seus membros. Estrategicamente e taticamente, o saudável desrespeito de Gúzman pelos procedimentos da política e das organizações burguesas permitiu que Sendero aproveitasse ao máximo as situações em que ganhava vantagem. Gorriti afirma que o Sendero usou seu controle organizacional para purgar seus adversários ideológicos da universidade, e cita Gúzman que, “ou você usa o poder ou eles o usarão contra você”.
Além disso, Gúzman reconheceu a maneira pela qual a ambição do estado burguês peruano de enviar um número crescente de professores para a periferia poderia ser usada contra ele. Aqueles treinados pelo Sendero na escola de treinamento de professores da Universidade de Huamanga foram enviados para cargos de ensino em cidades e aldeias em todo o campo, fornecendo ao Sendero um meio crucial de organização de camponeses ao redor de Ayacucho. O Sendero reconheceu a importância das posições de autoridade em influenciar e conquistar as pessoas ao seu lado, e assim tirou proveito do respeito que os camponeses Ayacucho tinham pelos professores que chegavam às suas comunidades. Além disso, os estudantes universitários fizeram o trabalho de investigação social e estabeleceram laços com as massas. Tudo isso permitiu ao Sendero lançar uma guerra popular com quadros treinados, uma sólida base de massa e uma organização clandestina.
O controle do Sendero sobre a Universidade de Huamanga foi, obviamente, tênue e chegou ao fim em meados da década de 1970, em grande parte devido a organizações rivais de esquerda ganharem a vantagem. O objetivo dos comunistas, entretanto, não é manter algumas posições dentro dos aparatos burgueses de estado ideológico, mas usar instâncias em que essas posições possam ser temporariamente obtidas para acumular forças para a revolução. Fazer este último, mais cedo ou mais tarde, resultará na perda dessas posições, mas ganhará na organização revolucionária, ao passo que fazer o primeiro resultará em tornar-se um apêndice à esquerda da hegemonia burguesa, da qual há uma grande quantidade nos dias de hoje.
No entanto, mesmo após o lançamento de uma guerra popular, o Sendero continuou a utilizar oportunidades para se infiltrar nos AIE e, de maneira mais geral, para criar uma contra-hegemonia ideológica duradoura. O jornalista Michael Smith assinalou que “apenas no último ano do governo Garcia [1989–1990], o Sendero colocou cem professores nas isoladas favelas da Rodovia Central” de Lima. A ex-promotora Gabriela Tarazona-Sevillano observou que “as crianças são o foco principal dos esforços de doutrinação da insurgência, o que dá ao Sendero uma oportunidade de preparar a próxima geração de quadros e ilustra a perspectiva de longo prazo da organização”.
O “fator subjetivo”
As pessoas não simplesmente pegam em armas. Elas fazem isso conscientemente, com uma explicação coerente do por que eles tem sofrido por tanto tempo, com uma consciência aguçada dos inimigos de suas classes, com um plano de como vencer esses inimigos e com uma visão da nova sociedade.
Esses são alguns dos componentes do Fator Subjetivo e desenvolver os fatores subjetivos é uma necessidade para desenvolver e lançar uma guerra popular.
Implicações
A experiência do Sendero na construção, antes do início da guerra popular, indica a maneira pela qual a infiltração e o uso adequado das AIE da burguesia é um método crucial para acumular forças revolucionárias. Além disso, três das quatro guerras populares que reuniram uma massa substancial de seguidores e se tornaram uma ameaça significativa ao poder do Estado burguês nas últimas décadas construíram pelo menos algumas de suas forças iniciais através de posições em instituições educacionais burguesas. Além do exemplo do Sendero, Jose Maria Sison lecionou na Universidade das Filipinas nos anos 1960 e recrutou grande parte do núcleo de liderança inicial do PCP entre seus alunos, e Prachanda e outros membros proeminentes do PCN (maoísta) eram professores em distritos dos quais a guerra das pessoas no Nepal foi iniciada.
A situação na Universidade de Huamanga, na década de 1960, talvez tenha sido um evento excepcional e unicamente favorável e não possa ser replicado, mas nos fornece várias lições importantes. Em primeiro lugar, Althusser estava inteiramente certo em apontar a natureza mais contraditória das AIEs. Uma maneira pela qual essa natureza contraditória é expressa é quando as classes dominantes procuram criar novas instituições e ainda não estabeleceram firmemente como essas novas instituições serão operadas ou treinadas para fazê-lo. A Universidade de Huamanga, na década de 1960, era exatamente uma dessas instituições e, assim, o Sendero pôde se infiltrar e até controlá-la por algum tempo. Sua distância dos centros de poder no Peru fez com que o estado, assim como outras organizações de esquerda, que tendiam a concentrar seus esforços em Lima, fossem um tanto quanto ignorantes e impotentes diante da presença do Sendero na Universidade de Huamanga.
A descrição de Althusser da natureza contraditória dos AIEs aponta para o fato de que a hegemonia deve ser continuamente reformulada e restabelecida em meio ao constante movimento e desenvolvimento do capitalismo. Embora possamos identificar os princípios centrais da filosofia burguesa que persistiram ao longo do tempo, não há uma ideologia dominante imutável que seja congelada e atirada às massas através dos AIEs, mas sim uma que vai constantemente mudando seus discursos forjados e reforjados em relação às necessidades das classes dominantes. Isso tem incluído, cada vez mais, a capacidade de incorporar desafios ao governo burguês no próprio exercício da hegemonia. Por exemplo, a revolta cultural dos anos 60 nos Estados Unidos foi amplamente cooptada e incorporada à cultura capitalista. Além disso, em suas impressionante histórias no Partido dos Panteras Negras, Joshua Bloom e Waldo Martin argumentam que as concessões da classe dominante foram, na verdade, muito mais responsáveis ​​pelo desaparecimento dos Panteras do que foi a própria repressão. Eles falavam em como os departamentos de Estudos Negros foram criados nas universidades dos EUA e uma ação afirmativa, uma política de contratação pelo governo e o aumento de representantes negros eleitos deram à pequena e média burguesia negra um maior acesso as posições de poder no início dos anos 70 (sob o governo Nixon, curiosamente) e fizeram com que os Panteras perdessem cada vez mais aliados da pequena e média burguesias e, assim também, perdessem o amplo apoio das massas. Aquilo que a repressão não conseguiu destruir, porém, na verdade, auxiliou a ampliar a estrutura e nível de apoio popular dos Panteras Negras, as concessões e a cooptação funcionou para derruba-los.
Muitos, então, consideram que a crescente capacidade do capitalismo de incorporar os desafios à sua dominação para a sua hegemonia, torna a oposição (à sua dominação) impotente. Essa visão unilateral, geralmente voltada exclusivamente para a pequena e média burguesia, que são muito mais suscetíveis a concessões e cooptação, deixa de reconhecer o outro lado da contradição. É, na verdade, justamente porque a hegemonia precisa ser continuamente remodelada que existem aberturas para os comunistas conquistarem posições de combate dentro das AIEs. Realmente, é nesses momentos em que o conteúdo e as formas de hegemonia estão sendo restabelecidos que a parede interna da hegemonia é mais penetrável. Aqui vale a pena notar que o período de preparação, iniciação e expansão da guerra popular do Sendero Luminoso na década de 70 e no início da década de 80 coincidiu com os governos esquerdistas no poder enquanto eles promulgavam reformas sociais.
Em segundo lugar, e relacionado a este último ponto: é quando a anarquia do capital e, as tentativas da classe dominante de reconfigurações estruturais na sociedade de colocarem seções das massas básicas em estados transitórios, em relação à sua classe e posição social, que as condições se tornam, muitas vezes, mais maduras para estes seções de massas básicas serem receptivas à ideologia contra-hegemônica comunista. Na Universidade de Huamanga, jovens camponeses estavam sendo criados para esperar um futuro melhor através da educação, mas a realidade das relações capitalistas significava que, até mesmo, essas baixas expectativas seriam frustradas. Não obstante, a experiência universitária mudaria significativamente sua perspectiva social e, se não, sua posição de classe. Ofereceria, assim, uma oportunidade para a ideologia comunista ganhar uma posição segura. Além disso, a base de apoio mais forte (do Sendero) estava nos centros urbanos, entre os moradores das favelas, que eram, na maior parte, camponeses da periferia sendo proletarizados e passando pelo processo de urbanização com toda a sua pobreza e miséria. Foi exatamente nesses estados transitórios que o Sendero encontrou maior receptividade aos seus esforços. A cientista política Cynthia McClintoch afirmou que:
O estereótipo de um militante do Sendero Luminoso é um filho ou filha de camponeses do planalto, ele é um dos primeiros membros de sua família a terminar o ensino médio e talvez até frequentar uma universidade; subsequentemente, suas expectativas são bloqueadas e elas se sentem frustradas pelas desigualdades na sociedade peruana e desconfortáveis ​​tanto no mundo andino tradicional de seus pais, quanto no mundo urbano “ocidental”.
Às vezes, esses dois fatores se combinam, como no caso do Peru, para criar um mix ainda mais volátil, que as classes dominantes não têm facilidade em controlar. Estes são os tipos de situações que os comunistas devem procurar ativamente e procurar fazer o trabalho de longo prazo para aproveitar. Nos EUA de hoje, uma reforma abrangente da imigração provavelmente envolveria a exigência de que imigrantes ilegais fizessem aulas de inglês e cidadania (ou seja, de “americanização”) para legalizar seu status de imigração. “Escolas charter”* decolaram em bairros oprimidos e, embora elas tenham tudo a ver com a privatização da educação e com deixar grandes seções das massas nos guetos urbanos para que, essas massas, frequentem escolas públicas cada vez mais deterioradas, ao invés disso elas poderiam ser utilizadas com sutileza para conseguir uma maior independência e financiamento do estado. Os programas de educação de dentro das prisões, bem como programas de treinamento e educação profissional para ex-prisioneiros são exemplos em que as massas básicas têm uma chance limitada de atividade intelectual e educacional institucionalizada. Esses são apenas exemplos de possibilidades em que os comunistas poderiam se infiltrar em instituições educacionais burguesas e usá-las para treinar e recrutar massas básicas.
Terceiro, as tentativas de usar aparatos burgueses de estado ideológico para acumular forças revolucionárias não podem ser executadas com sucesso por indivíduos díspares, mas esses indivíduos precisam fazer parte de uma estratégia geral sob uma liderança comunista que esteja estrategicamente e taticamente conectada à construção do fator subjetivo, a fim de aproveitar o poder do Estado. Houve uma série de tentativas frustradas, de intelectuais radicais, de usar suas posições institucionais nas universidades para criar, nas suas próprias concepções, algum tipo de “intelectual orgânico”, a partir de estudantes da classe trabalhadora. O Centro de Estudos Culturais de Birmingham foi um desses exemplos e, embora a bolsa de estudo e a análise produzidas sejam de alta qualidade e, provavelmente, tenham algum impacto positivo nos estudantes universitários, sua desconexão de qualquer estratégia ou organização revolucionária fez com que essa sua posição desafiante ao governo capitalista fosse insignificante.
Além disso, numerosos radicais e ativistas de mentalidade revolucionária nos EUA se voltaram, nas últimas décadas, para atividades culturais e educacionais em comunidades oprimidas. Se estas fossem tratadas como servindo à construção da organização revolucionária em vez de como coisas em-si e colocadas em disputa com o estado burguês, elas poderiam ser empreendimentos qualitativamente diferentes, mas como estão no momento, elas são um recuo para o reformismo.
Realmente, sem fazer parte de uma estratégia revolucionária global e sem que os envolvidos estejam conectados à liderança comunista de vanguarda e às massas básicas que formam a espinha dorsal da revolução, qualquer tentativa de penetrar nas paredes internas da hegemonia está fadada ao fracasso. Os esforços do Sendero na Universidade de Huamanga sempre foram tratados como um meio para um fim. O objetivo nunca era manter posições de ensino ou administrativas ou elevar os oprimidos dentro dos limites do presente, mas sim usar essas posições para recrutar os quadros e, através deles, organizar a base de massa que seria necessária para lançar a guerra das pessoas.
A infiltração das AIEs da burguesia é a adoção de uma abordagem demorada e a necessária devoção adequada de pessoal para que se concentre em contradições orgânicas (estruturais), ao invés de apenas focarem na construção de um movimento de agitação e propaganda, ou deslocando forças limitadas de uma situação conjuntural para a próxima. Isso envolveria uma reconfiguração na estratégia, nas táticas e na mobilização dos comunistas, o que seria um desvio substancial das atividades do MCI na China pós-socialista.
*NT: Na América do Norte é uma escola independente financiada com fundos públicos e privados, estabelecida por professores, pais ou grupos comunitários sob os termos de uma carta com uma autoridade local ou nacional.
Lucasz
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sábado, 12 de setembro de 2020

Jorge Amado, trecho de Subterrâneos de Liberdade

 O senhor não vai quer me convencer que é com a ditadura do proletariado que o homem se liberta…

– Não quero convencê-lo de nada, doutor. Para mim é suficiente que os operários o compreendam. Sim, a ditadura do proletariado libera o homem da miséria, da ignorância, da exploração, do egoísmo, de todas as cadeias em que o amarra a ditadura da burguesia e dos latifundiários a que os senhores chamam de democracia e que agora se transforma no fascismo. Democracia para um grupo, ditadura para as massas. A ditadura do proletariado quer dizer democracia para as grandes massas.

O juiz forçou um sorriso:

– Já li isso em qualquer parte: “tipo superior de democracia…” Chega a ser divertido. Nem liberdade de expressão, nem liberdade de crítica, nem de religião…

– O senhor está descrevendo o Estado Novo e não o regime socialista – comentou João. Num Estado socialista, na URSS, existe liberdade de expressão, de religião, de crítica. Basta ler a Constituição Soviética. O senhor a conhece? Eu recomendo-lhe a leitura, doutor. Para um jurista é essencial.

– Liberdade na Rússia… Liberdade de ser escravo do Estado, de trabalhar para os demais. Liberdade de não possuir nada, de não ser dono de nada.

– Sim, a liberdade de explorar os demais, de possuir os meios de produção, essa não existe na URSS. Essa existe aqui , doutor, liberdade para os ricos, para uns quantos. Para os demais, para a imensa maioria dos brasileiros, o que existe é liberdade de passar fome e de ser analfabeto. E a cadeia, as pancadas, a solitária, se protestar contra isso. O senhor se esquece que está falando com um preso, doutor, uma vítima da vossa liberdade. Os senhores se contentam com a liberdade para sua classe. Nós queremos a verdadeira liberdade: liberdade do homem com sua fome saciada, do homem livre da ignorância, do homem com trabalho garantido, sem problemas para o sustento dos filhos. Doutor, não fale de liberdade aqui, na Casa de Detenção. Aqui a nossa liberdade vale bem pouco. É abusar de uma palavra que para nós, comunistas, tem um significado muito concreto.

– Com os senhores não se pode conversar. Querem impor as idéias pela força.

– Pela força? – João sorriu novamente. – cuidado, doutor, assim o senhor vai terminar afirmando que fui eu quem espancou a polícia…

– O senhor é um moço inteligente – a voz do juiz fazia aconselhadora. – Até é difícil acreditar que o senhor seja mesmo um operário. Se o senhor abandonasse essas idéias ainda poderia vir a ser um homem útil ao país, quem sabe não poderia ainda…

– Não, não poderia, doutor. Sou comunista, esta é minha honra, meu orgulho. Não troco esse título por nenhum outro – seus olhos se estenderam além das grades das janelas, viam-se diante dos muros, os tetos das casas na rua.

http://mepr.org.br/cultura-popular/literatura


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

O que é Stalinismo

 O que é o “stalinismo”?




José Paulo Netto











Escrito em 1985 para a coleção Primeiros Passos, esse esquecido livrinho apresenta a forma como o assunto “Stálin” é tratado ainda hoje, mesmo no campo da esquerda, ou seja, a esquerda continua ignorando totalmente o paradigma histórico pós-Guerra Fria, ou melhor dizendo: consegue sintetizar uma boa quantidade de afirmações contra Stálin, sem nunca imaginar nem sequer a hipótese de que as coisas não tenham se passado como ele apresenta. Para Netto, Stálin “não tinha talento teórico” (p.14), “poucas de suas obras merecem citação” (p. 14), “nessa política prática (...) deu provas de maquiavelismo e genialidade” (p. 16), “foi destruída toda a velha guarda bolchevique” (p. 43), “surge um discreto antissemitismo” (p. 44), “é inegável que a transição socialista vai exigir, mais cedo ou mais tarde, a liquidação total da herança stalinista”. Essa passagem é a mais curiosa, pois Gorbachev e Yeltsin parecem ter levado a ferro e a fogo essa tarefa de liquidar a “herança stalinista” e realizar o que Trotsky não conseguiu realizar. Talvez porque Trotsky nunca foi reabilitado na União Soviética, o marxismo ocidental insiste em ver, após a morte de Stálin, Kruschev, Brezhnev e Gorbachev como “neostalinistas”. Netto chega a dizer que métodos “como a tortura, autorizada pessoalmente por Stálin” (p.43). Que evidências históricas comprovam isso?

As análises de José Paulo Netto baseiam-se principalmente em Lukács (“democracia socialista versus stalinismo”), mas estranhamente esse autor, que participou pessoalmente da contra-revolução de 1956, está quase ausente do texto, talvez porque Lukács é muitas vezes acusado de stalinismo. Netto chega festejar o renascimento do marxismo em 1985. Mal sabia o autor o que lhe esperava: com o tombo do bloco soviético, o marxismo ocidental leva, também, um golpe violentíssimo, ele que, arrogante, se achava bem longe daquela “ideologia de estado”. As obras de Stálin sequer são discutidas a fundo. A teoria da revolução permanente é apresentada como internacionalista e a teoria de Stálin seria nacionalista. A realidade foi bem diversa: Trotsky propôs a restauração do capitalismo ou aventuras militaristas para fazer a revolução na Europa, enquanto Stálin foi fiel ao pensamento de Lênin de que dificilmente o socialismo venceria em vários países e que, mesmo em somente um, ele poderia ser construído e estimular as outras revoluções.

Netto só reconhece que o culto da personalidade não partiu do próprio Stálin, assim como existiam, bem antes de 1941, ameaças fascistas e capitalistas contra a União Soviética, mas ele nunca associa essas ameaças às conspirações de Trotsky, Bukharin e Zinoviev.

O autor conjura Kruschev, Karl Korsch, Anton Pannekoek e Trotsky, sem citar a leitura de Mao e Enver Hohxa. Impressionante “frente” anti-Stálin, ou melhor diria, contra Lênin, pois Stálin foi a vida inteira muito fiel a Lênin e liderou um grupo norteado por seu legado. Kruschev apresentou um leninismo muito próprio (que fracassou definitivamente com Gorbachev), assim como o leninismo de Trotsky (que também terminou mal, ou seja, em colaboração com os alemães e japoneses). Ressalte-se que Kruschev julgava Trotsky liquidacionista e nunca o reabilitou. Pannekoek, assim como Trotsky (“urso menchevique, traiçoeiro”) polemizou com o próprio Lênin e foi chamado de esquerdista, assim como Lukács foi criticado por seu “marxismo puramente verbal”.

Em primeiro, o stalinismo para José Paulo Netto é deformação burocrática do estado operário soviético nos anos 20. No entanto, “stalinismo” não existe; Stálin é um seguidor de Lênin e sempre se definiu assim. E, como disse Stálin em Fundamentos do Leninismo: “o leninismo é o marxismo do nosso tempo”. Mas o problema que obviamente levou Netto a escrever o livro foi o fato de que, no entender de revistas e jornais, toda a esquerda é habitualmente aproximada ao stalinismo. Como a própria esquerda tenta se desvencilhar falando mal do stalinismo e aceitando uma versão histórica que é claramente feita no calor da Guerra Fria, esses ataques voltam-se contra ela própria. Por ignorar totalmente o que se passou no período Stálin, a esquerda como um todo se desqualifica e se desvaloriza aos olhos da opinião pública. Esse é, talvez, o maior imbróglio teórico da esquerda no início do século XXI.

A versão da história da URSS que Netto apresenta é totalmente marcada pelo trotsquismo, ao ponto de que, na bibliografia, está completamente ausente uma biografia de Stálin e alguns de seus livros, mas sugere-se como leitura a biografia de Trotsky por Isaac Deutscher!



Bibliografia: NETTO, José Paulo. O que é o stalinismo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Graciliano Ramos e o Realismo Socialista


 Graciliano Ramos e o Realismo Socialista

 

Marina de Oliveira [1]

RA 2730022

Janice Costa [2]

RA: 2730014

 

RESUMO

 

 

 

Esse artigo baseia-se em textos analíticos de Denis Moraes e Janer Cristaldo, dentre outros, para analisar o romance realista socialista, focando na obra de Graciliano Ramos.  Graciliano, escritor que foi ligado ao partido comunista brasileiro, ficou famoso por ter contestado o teórico Andrei Jdanov e suas propostas para um certo tipo de romance. No entanto, essa contestação não foi movida por uma argumentação refutando as ideias de Jdanov. Inclusive, pode-se dizer que Vidas Secas aproxima-se do romance realista socialista por adotar o ponto de vista do camponês e ter um sentido forte de denúncia social. Graciliano Ramos, formalmente, alegou não aceitar as discussões ideológicas propriamente ditas da maneira como eram colocadas no romance realista socialista. Não aceitava, então, nenhum romance realista socialista russo, mas ao mesmo tempo elogiava Jorge Amado, autor que ganhou o prêmio Stálin em 1954 e escreveu uma trilogia que pode sem dúvida ser classificada como romance realista socialista: os Subterrâneos da Liberdade.  A crítica ligada aos comunistas, em contrapartida, criticou o excesso de subjetividade em seus romances e alegou que ele só chegava ao realismo crítico burguês, não chegando ao realismo socialista propriamente dito. A única concessão que Graciliano Ramos fez efetivamente foi dizer que São Bernardo foi uma tentativa no sentido do romance realista socialista. O que se pode dizer, no entanto, foi que Graciliano Ramos sempre guardou certo distanciamento dos direcionamentos mais diretos do partido comunista, adotando certas posições favoráveis a elementos subjetivos dentro dos romances, assim como mantinha um estilo autoral.

 

 

 

 

Palavras-chave: realismo socialista, Graciliano Ramos, Stálin, Jdanov, crítica literária, São Bernardo

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

 

Em nossa época dita pós-moderna, a ficção perdeu o status de atividade central na sociedade, decaindo a um espaço marginal, substituída por outras mídias tais como a televisão, o best-seller (quase sempre um livro estrangeiro traduzido) e a reportagem jornalística.

Embora as narrativas realistas ainda sejam hegemônicas, especialmente na produção ficcional mais extensa, o realismo é objeto de crítico nas universidades. A teoria separa entre o autor biográfico e o narrador dos textos, desresponsabilizando o autor, o chamado autor empírico, das posições políticas e sociais tomadas por sua literatura. A teoria crítica predominante nas universidades valoriza muitos autores que fogem ao realismo do século XIX: Joyce, Kafka, Jorge Luís Borges, autores que criam um mundo próprio, muitas vezes com uma lógica muito própria, com uma estética muitas vezes derivada do surrealismo francês, do dadaísmo e, no geral, das vanguardas do início do século XX. O público, embora esteja mais aberto a esse tipo de escritor, prossegue preferindo o realismo ao estilo canônico do século XX. No entanto, como denunciar a alienação se o mundo apresentado por esses romancistas é todo ele absurdo, ou seja, é todo um mundo alienado?

É preciso, então, indagar, numa época em que ele está praticamente morto: o que é o realismo socialista? Que obras gerou? Nesse artigo, por questões de brevidade, essas questões são respondidas de forma a focalizar como esse debate refletiu-se na obra de um grande escritor brasileiro: Graciliano Ramos. Em seu tempo, Ramos foi contemporâneo desse tipo de realismo, tem alguns elementos em comum com ele (ao apresentar o mundo dos sertanejos de forma cru, áspera, sem enfeites ou meios-tons, apresenta também uma denúncia social), mas efetivamente Ramos não aprofundou-se em sua teorização, rejeitando o seu teórico, Andrei Zdanov. Nesse artigo serão abordados alguns elementos dessa relação entre esse tipo de realismo e o referido escritor brasileiro.

 

1 GRACILIANO E O ROMANCE REALISTA E SOCIALISTA: contrastes e aproximações

 

Na atualidade, o realismo socialista não encontra lugar nem entre os best-sellers realistas e nem na academia. Graciliano Ramos rejeitou o realismo socialista, mas continuou tendo pontos em comum com ele. Ele não pretende fazer uma literatura falando de coisas agradáveis; ele rejeita, então, a literatura burguesa. Para a burguesia, os outros não teriam motivo para estar descontentes. Esses literatos, então, não questionam conflitos importantes. Graciliano Ramos questionava a literatura que se entregava ao subjetivo em termos semelhantes, pois quando o ficcionista envereda por temas subjetivos, tende a fazer “criações mais ou menos arbitrárias, complicações psicológicas, às vezes um lirismo atordoante, espécie de morfina, poesia adocicada, música de palavras” (RAMOS, APUD. MORAES, 2014).

A literatura de Graciliano Ramos é fortemente marcada pelo convívio de perto que ele teve com os sofrimentos que provinham da opressão econômica em Pernambuco e na cidade alagoana de Palmeira dos Índios, onde chegou a ser prefeito.

Assim, Vidas Secas, embora não sugira o socialismo como solução, expõe as brutalidades no sertão nordestino, articulando diversos elementos: o homem e seu destino errante numa paisagem calcinada e árida.  Os bichos, a seca, a humilhação, o todo compõe um quadro que realista que remete a Emile Zola e o retrato que ele fez, no século XIX, da vida entre os trabalhadores das minas. Essa forte preocupação social e essa denúncia chocante interessa ao ponto de vista da classe operária e, ao não florear uma realidade áspera, serve como denúncia da opressão semi-feudal no Nordeste, assim como do latifúndio, problemas profundamente enraizados na realidade nacional e até hoje presentes.

 

Vidas secas expõe, sem meias verdades, o entorno de brutalidades no sertão. [...] Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e a injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense — e os meus personagens são quase selvagens —, o que ele pensa merece anotação (RAMOS apud MORAES, 2014).

 

É curioso notar que, embora apresente adjetivos críticos no que diz respeito ao sertanejo, tal como “bronco”, “rude”, “primitivo”, é bastante notória, em seus romances, a injustiça humana voltada contra esses camponeses. Ao invés de chamá-lo de preguiçoso e supô-lo analfabeto e ignorante, o narrador de Vidas Secas apresenta interesse humanista pelos humildes, cuja voz é importante escutar. Era uma voz ignorada, escutada por poucos até então.

Ao dar voz aos camponeses do mais profundo sertão, faz o que a estética socialista propõe: leva os oprimidos e suas questões até um campo em que eles não estavam presentes ou não tinham sua voz escutada. Ele exibe as exclusões e não usa preconceitos para torná-las mais digeríveis. Numa carta para Portinari, ele analisa a curiosa relação entre realidade e estética, observando que existiam modelos reais para as obras dele e do amigo. Ambos vinculam-se ao povo humilde dos grotões, retratando-os e dando-lhes voz. Comenta Graciliano Ramos:

 

Você fixa na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e a miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram (RAMOS apud MORAES, 2014).

 

Essa questão apresentada acima é premente ainda hoje: embora os pobres e famintos não apareçam mais nas obras de arte que cultivam mundos sonhados ou imaginários, eles continuam a existir na realidade. Ainda que o refinado professor universitário não remeta aos desvalidos, eles continuam a existir na realidade e o estado muitas vezes tolera e administra essa pobreza. Como escreve Graciliano Ramos:

 

Os inimigos da vida torcem o nariz diante da narrativa crua, da expressão áspera. Querem que se fabrique nos romances um mundo diferente deste, uma confusa humanidade só de almas, cheias de sofrimentos atrapalhados que o leitor comum não entende. Põem essas almas longe da terra, soltas no espaço. Um espiritismo literário excelente como tapeação [...]. A miséria é incômoda. Não toquemos em monturos [...]. São delicados, são refinados, os seus nervos sensíveis em demasia não toleram a imagem da fome e o palavrão obsceno. Façamos frases doces. Ou arranjemos torturas interiores, sem causa [...]. E a literatura se purificará, tornar-se-á inofensiva e cor-de-rosa, não provocará o mau humor de ninguém, não perturbará a digestão dos que podem comer. Amém (RAMOS apud MORAES, 2014).

 

Sendo assim, tem-se acima mais um norteamento adotado pelos romances do realismo socialista: literatura interessada nas grandes questões sociais de seu tempo, tomando partido dos trabalhadores e camponeses contra os burgueses e latifundiários.  Literatura voltada para a sociologia e não para o aprofundamento em questões psicológicas.

O chamado ciclo regionalista de 1930 foi elogiado por Graciliano Ramos, opondo-se às investigações formais da Semana de 22. Havia preocupações, entre esses escritores (Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e, há quem considere, dentro desse ciclo, o próprio Graciliano) em recriar um nordeste que as elites esqueceram, um nordeste árido. Ou seja, só por tomarem esse tema, já estariam se opondo ao conservadorismo, assumindo posição política, revolucionária. Os personagens bebem cachaça, matam gente e vão para a cadeia, passam fome em quartos sujos de uma hospedaria. Trata-se, então, de uma literatura próxima da vida dos próprios escritores. Mesmo a literatura torre de marfim seria um trabalho e uma luta social, dessa perspectiva: seria um esforço para fazer esquecer os problemas. Os romances com preocupação social não atingiram a massa e sim a pequena burguesia do sudeste brasileiro. E sem citar o romance realista socialista, ele tratou de um conceito correlato, o “romance social”:

 

Se fôssemos conceituar romance social como romance dos problemas do povo, só haveria um romance social quando escrito pelo próprio operário, como já ficou dito. Um escritor pode escrever para a massa e o operário nem o ler. Eu já tentei isso quando escrevi São Bernardo, mas o povo não leu e continuo sem saber por quê. De qualquer modo, o romance social terá que ser sentido e é preciso que o personagem seja o próprio autor. Gênero popular é o folhetim, que a massa vai aceitando como entorpecente (RAMOS apud MORAES, 2014).

 

Embora tivesse todos esses pontos em comum em relação ao realismo socialista, é em relação ao realismo socialista russo que ele exprime irritação ou rejeição, mas não em reação ao realismo socialista de Jorge Amado. A raiz do dissenso quanto ao realismo socialista parece estar, não no tal culto da personalidade (que é debatido na própria União Soviética no livro A Viagem), mas na questão de que, embora preocupado com as questões sociais, Graciliano ainda era, mesmo assim, um autor individual, que não gostava de ser pressionado por grupos e nem ser constrangido por preceitos ideológicos, podendo criar mais livremente. A esse respeito, o próprio Graciliano esclareceu:

 

Acho que transformar a literatura em cartaz, em instrumento de propaganda política, é horrível. Li umas novelas russas e, francamente, não gostei. O que é certo é que não podemos, honestamente, apresentar cabras do eito, homens da bagaceira, discutindo reformas sociais. Em primeiro lugar, essa gente não se ocupa com semelhante assunto; depois os nossos escritores, burgueses, não poderiam penetrar a alma dos trabalhadores rurais (...). Eu não admito literatura de elogio. Quando uma ala política domina inteiramente, a literatura não pode viver, pelo menos até que não haja mais necessidade de coagir, o que significa liberdade outra vez. O conformismo exclui a arte, que só pode vir da insatisfação. Felizmente para nós, porém, uma satisfação completa não virá nunca. A raiz da equação, portanto, era entrelaçar arte e ideologia, sem que uma subjugasse a outra (...). Esse troço não é literatura. A gente vai lendo aos trancos e barrancos as coisas que vêm de Moscou. De repente, o narrador diz: ‘O camarada Stalin...’ Isto no meio de um romance?! Tomei horror (RAMOS apud MORAIS, 2013).

 

No entanto, não se pode dizer que Ramos desconhece e rejeitasse qualquer romance inspirado no realismo socialista, pois Graciliano aceitava e reconhecia os romances de seu contemporâneo Jorge Amado. Pode-se supor que a discussão de questões ideológicas por parte de pessoas da classe trabalhadora, o que muito raramente ocorre no Brasil, quem sabe devido ao atraso cultural, à violentíssima repressão e à despolitização, não é elemento propagandístico na União Soviética. Esse debate de fato acontecia, ainda que de modo simples ou primário, não sendo mero recurso propagandístico ou artificialismo.

Ramos rejeita em bloco o realismo socialista, o que incluiria também rejeitar o autor de Subterrâneos da Liberdade. Ele não acredita nem sequer em melhorar o estilo do romance socialista. Diante disso, Graciliano julga que o importante para caracterizar uma literatura como revolucionária seria que “a literatura é revolucionária em essência, e não pelo estilo do panfleto” (RAMOS, apud: MORAES, 2014).

É bastante curiosa a observação acima, pois sabe-se que Graciliano tinha obsessão em trabalhar o estilo e seu estilo é bem característico. A essência, quem sabe, seria o próprio tema abordado. No entanto, tal formulação é falha: um literato burguês pode abordar a fome no nordeste e fazer dela uma descrição realista, mas ao mesmo tempo justificá-la de forma preconceituosa: há fome porque “têm preguiça” de trabalhar, porque são demasiado sensuais, rudes, analfabetos, incapazes, “inferiores”, já nascidos de negros e índios e condenados a não aderir à civilização, inclusive devido ao calor de sua terra, etc. Assim, para criar o realismo socialista, o estilo, o tema e o ponto de vista ligam-se uns aos outros e não podem ser separados.

Assim, Dênis de Moraes registra que Graciliano Ramos, segundo críticos da época, chegou somente até o realismo crítico burguês, não entrando propriamente no realismo socialista. Seus romances teriam, ainda que muito objetivos, um excesso de subjetividade, em detrimento de análises objetivas. Graciliano Ramos era, ainda segundo Paulo Mercadante, favorável a fazer intervenções ideológicas quanto a produção literária trazia, como em Balzac, o momento social e econômico em que os personagens viviam. Tal observação é curiosa, pois Balzac era monarquista. Ele julgava que não se deveria introduzir arroubos retóricos que artificializavam os sentimentos.

 

2 SÃO BERNARDO: romance socialista de Graciliano Ramos?

 

Graciliano Ramo considera São Bernardo um romance seria algo que ele fez de mais próximo do romance do realismo socialista. O romance São Bernardo tem como protagonista Paulo Honório, um prepotente dono de terras que coisifica todos ao seu redor. Paulo ascende socialmente e só passa a entender o que fez a todos ao seu redor depois do suicídio de sua esposa. Paulo saiu do nada e entrou em confronto com as ideias novas de Padilha, um bacharel de quem tomou a fazenda. Madalena, sua esposa, tem ideias progressistas que entram em choque com a rude incultura de Paulo Honório.

 

Padres! exclamou Luís Padilha com desprezo (...). Era ateu e transformista. Depois que eu o havia desembaraçado da fazenda, manifestava ideias sanguinárias e pregava, cochichando, o extermínio dos burgueses (...). Essas doutrinas exóticas não se adaptam entre nós. O comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome (...). Uma nação sem Deus! Bradava padre Silvestre a d. Glória. Fuzilaram os padres, não escapou um. E os soldados, bêbados, espatifavam os santos e dançavam em cima dos altares (RAMOS apud CRISTALDO, 2014).

 

É bastante curioso e atual o painel que Graciliano traça: o ateísmo de Padilha tende a levar ao socialismo (o que nem sempre acontece, mas é verdade).  Paulo Honório não é humanitário e trata de criticar com brutalidade as ideias da mulher, o que acaba causando seu suicídio. Paulo pode ser tomado como símbolo da incultura, da rudeza e das relações atrasadas no interior brasileiro, em especial no campo:

 

A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. Mas mulher sem religião é horrível (...). Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. ‘Palestras amenas e variadas’. Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo. Misturei tudo ao materialismo e ao comunismo de Madalena e comecei a sentir ciúmes (RAMOS apud CRISTALDO, 2014).

 

Paulo Honório deixa de pagar a seu empregado Padilha durante quatro meses, seu emprego, debochando de sua esperança na revolução socialista. Quando Padilha busca outro emprego, ele é ainda mais cruel:

 

Tenha paciência. Logo você se desforra. Você é um apóstolo. Continue a escrever os contozinhos sobre o proletário (...). Impossível, Padilha. Espere o soviete. Você se colocará com facilidade na guarda vermelha. Quando isso acontecer, não se lembre de mim não, Padilha, seja camarada (RAMOS apud CRISTALDO, 2014).

 

Assim como a própria exposição de suas ideias religiosas mostra que Paulo Honório está interessado é em usar a religião para explorar, sua relação com o empregado é a exploração sob a forma mais crua, expressão das relações atrasadas no interior do Brasil. No Nordeste brasileiro chegou a existir o direito dos senhores medievais, que era o direito de pernada: o senhor tinha direito a desvirginar a esposa do empregado.

A relação com a esposa gera uma dupla tensão: ao mesmo tempo a mulher não pode ser dominada e as ideias progressistas implicam em perda de sua posição de latifundiário. Paulo sentiu muito o suicídio de sua mulher, que considerava seu patrimônio, passando a repensar aquilo que fazia aos outros. Esse romance é militante no seguinte sentido: Madalena e Padilha são cultos, socialistas, comunistas, progressistas, pessoas civilizadas, que desejam a modernização. Paulo é tão bárbaro que admite suas atrocidades, adotando postura boçal e opondo-se às ideias novas que as vítimas professam. A tendência é o leitor entender a fala de Paulo Honório como denúncia da classe dominante brasileira como um todo e não tomar o seu partido.

Embora em entrevista tenha recomendado São Bernardo como romance que aborda o socialismo, Graciliano não o fez ao visitar a União Soviética. Perguntado, em viagem à URSS, sobre que romance seu deveria ser editado lá, responde secamente que nenhum e justificou:

 

São narrativas de um mundo morto, as minhas personagens comportam-se como duendes. Na sociedade nova ali patente, alegre, de confiança ilimitada em si mesma, lembrava-me da minha gente fusca, triste, e achava-me um anacronismo. Essa idéia, que iria assaltar-me com freqüência, não me dava tristeza. Necessário conformar-me: não me havia sido possível trabalhar de maneira diferente: vivendo em sepulturas, ocupara-me em relatar cadáveres (RAMOS apud CRISTALDO, 2014).

 

Assim, ao ter chance de recomendar São Bernardo, deprime-se ao ver o contraste entre a nova sociedade e a situação sofrida, maltrapilha, aniquilida do povo que descreveu, não conseguindo, então, fazer uma escolha ou abordagem adequada de seus textos a serem traduzidos. Evidentemente que São Bernardo, por tematizar o socialismo, teria interesse, assim como a denúncia social de Vidas Secas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Essa pesquisa buscou investigar a posição teórica e prática de Graciliano Ramos a respeito do romance realista socialista. Parece-nos que Graciliano Ramos praticou uma modalidade do realismo crítico, mas o romance, segundo ele próprio, que mais se aproxima do realismo socialista é São Bernardo. No entanto, Graciliano se posicionava diretamente contra as teorias de Jdanov e a discussão direta dos conteúdos ideológicos no interior dos romances, julgando que isso transformava os romances em propaganda ou cartaz.

Isto posto, Graciliano se colocou diretamente em oposição ao realismo socialista, alegando não ler ou aceitar nenhum romance realista socialista, nenhum romance russo. No entanto, é sabido que Graciliano Ramos admirava o seu contemporâneo Jorge Amado, autor de romances realistas socialistas como a trilogia Subterrâneos da Liberdade. Sendo assim, Graciliano aproxima-se, sim, do realismo socialista, mas afasta-se, ao mesmo tempo, de aceitar determinadas interferências do partido, resguardando o aspecto autoral de seus livros e sua individualidade. Um admirador de Graciliano, Paulo Mercadante, afirma que Graciliano estaria de acordo não com Zdanov, mas com Gorki. As observações de Gorki, no entanto, valeriam para todas as linhas políticas, o que nos parece um equívoco. O romance realista socialista, como se pode ver em exemplos como o já citado Subterrâneos da Liberdade, não produziu somente obras medíocres, sendo esse julgamento de Dênis Moraes, assim como alguns outros semelhantes, um tanto quanto apressados e derivados de críticas um tanto quanto exageradas.

Portanto, embora a narrativa realista esteja em alta, a academia tem se voltado para criticar o realismo e valorizar a ficção que não tem referência no real, enquanto a sociedade adere aos best-sellers estrangeiros, que são uma forma de realismo burguês pouco ou nada crítico. O realismo socialista não encontra espaço para debate, então, nem na academia e nem no mercado. Sempre que se trata do romance realista socialista, há questões políticas um tanto quanto que turvam o debate e deixam em segundo plano os debates estéticos.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

CRISTALDO, Janer. Engenheiros de Almas. Disponível em: <http://www.ebooksbra sil.org/eLibris/engenheirosdealmas.html>. Acesso em 26 de março de 2014.

 

 

MORAES, Dênis. Graciliano, literatura e engajamento. Disponível em: <http://ww w.pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=77:gracilianoliteratura-e-engajamento&catid=13:120-anos-de-graciliano>. Acesso em 26 de março de 2014.

 

 

OSTROVSKI, Nikolai. Assim foi temperado o aço. Disponível em: <http://www.mepr.org.br/cultura-popular/literatura/380-a-fortaleza-literaria-de-qassim-foi-temperado-o-acoq.html>. Acesso em 15 de março de 2014.



[1] Aluna do Curso de Letras, da FASF/UNISA, Polo Luz/MG.

[2] Aluna do Curso de Letras, da FASF/UNISA, Polo Luz/MG.