segunda-feira, 6 de novembro de 2023

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23 de julho de 2021


Gabriela Mello




ontem fiquei pensando na frase

ingrata do deleuze —

deus é uma lagosta ou uma dupla pinça,

um double bind ¹;


hoje sonhei que sentou colo de uma mulher

e ela pedia:

“tire meu buço com a pinça”.


e eu era líquido e forma ao mesmo tempo

e o banheiro onde tudo se passava — frio e

claro — derretia

com o seu pescoço branco


_______ que eu encarava em

intensa atividade mental e cética.

tinha — o que era aquilo? — perebas vermelhas

rompendo a pele

_______ como pequenos beiços

eu não me pareceu importar


acho que até beijei os seus lábios sobressalentes


agora lembrei o que isso me lembrava:

vulcões. o lindo ralo da terra

(ou seria a boca?)

pra bataille, era o ânus (um problema, evidentemente,

de ordem)


pra ele a terra não comia, só expelia.


aliás, vomitei muito na primeira parte do sonho,

nesse mesmo vaso onde depois a mulher enviou

de pernas cruzadas

_______ e disse “venha”


acho que tive um sonho terrível. a paisagem

do banheiro já diz isso


também é a paisagem primária de um outro

tipo de expulsão (sinto que agora a terra está muito

_____ perto de mim expulsar)


(choro)


você escreve nas costas da minha mão —

__ nunca esqueça o bebê polimorfo dentro de você


e eu sou líquido e forma ao mesmo tempo.


-


¹DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. 1995–1997. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, pág. 71.

sábado, 28 de outubro de 2023

Lúcio Espírito Santo: Eu Marginal

 

Lúcio Espírito Santo: Eu Marginal

 

Quando Florescem os Ipês

 

            Meu pai, Lúcio Espírito Santo, prestou bons serviços à PM de Minas durante muitos anos. Ele corrigiu monografias de cursos como Curso de Formação de Oficiais, presidiu a revista O Alferes. Seu livro Entendendo a Nossa Insegurança é muito citado em pesquisas de segurança pública, ele é cidadão honorário de Austin, etc. mas nesse artigo quero destacar o seu “eu marginal”: o literato, poeta e contista.

            Eu Marginal, não por acaso, é o nome de um livro de poemas inédito de sua autoria. Há também um romance ambientado em Bom Despacho e ainda sem nome. Outro romance ainda na gaveta foi ambientado em Belo Horizonte e que tem como personagem um curioso personagem de filósofo que perde-se nos “abismos da subjetividade”, o professor Clarimundo, o romance Cidade Desencantada. Agora que meu pai está aposentado, mas tento convencê-lo de que é preciso deixar fluir um “eu marginal”, o poeta, o contista, o literato a tirar os livros da gaveta e publicar os livros pela editora do Eduardo (mencionado aqui em colunas anteriores). Colocar a Literatura em Cena.

            Ele é grande conhecedor da gramática e do “inferno divertido da análise sintática”. Outro dia estávamos comentando como as pessoas pensam que sabem as coisas, censurando arbitrariamente o gerúndio, como no caso do título de seu livro “Entendendo a Nossa Insegurança”. O gerúndio está em Camões, está nos clássicos. O fenômeno da correção excessiva e arbitrária é chamado de hipercorreção e tão grotesco e equivocado como os desvios do português padrão (para a Linguística não há erro de português, todo erro tem razão de ser).

            Ele desenvolveu seu talento para a escrita basicamente na fase em que viveu em Uberaba. Nesse período, final dos anos 70, era o auge do conto no Brasil e ele publicava muito no Suplemento Literário de Minas Gerais. Nesse período ele conviveu muito com os maiores intelectuais de Uberaba de então, Erwin Pühler e Joaquim Borges. Joaquim fez um conto magnífico, Gabrielão Solé, onde imaginava Che Guevara como um personagem ao estilo de Manoelzão nos contos de Guimarães Rosa. Olhando o Suplemento na época, era incrível quantas contribuições meu pai mandava, como o conto Quando Florescem os Ipês. Uma vez em Belo Horizonte, publicou um livro de contos junto a Fernando Gonzaga, com a editora Dez Escritos: Teatro de Fantoches. Um dos contos mais curiosos é Juízo Imperfeito, onde ele utiliza os verbos todos no imperfeito para contar uma história ao gosto de Luiz Ruffato, escritor mineiro de hoje em dia: o pai que esquece o filho para trás numa viagem.

 

Emílio Pescando Patos

 

            Os casos de papai são notáveis, os poemas também. Em uma viagem a São Mateus, no Espírito Santo, meu pai foi a um recanto da praia pescar. A ideia era ficar longe do serviço, da teoria, de tudo. A isca acabou, ele comprou uma espiga de milho cozido e resolveu pescar ainda mais longe, envergonhado de pescar com essa estranha isca. Mas lá longe no horizonte apareceu um barquinho. O barquinho foi aumentando, entrando na sua linha de visão, crescendo. E de repente aportou na praia. E tinha, junto dele, dois coronéis aposentados e colegas de trabalho! Os dois ficaram muito felizes com esse reencontro e curiosos em saber sobre sua pescaria. E debocharam muito quando perguntaram qual sua isca. Papai respondeu: “é milho”. Um deles respondeu: “quero saber da isca, não de seu nome”. E então, morrendo de vergonha, ele teve que suportar a gozação dos colegas: “mas você quer pescar é pato?” Igualmente, meu pai é bom poeta, escreveu sobre um episódio importante do tropicalismo, o dia em que os estudantes de esquerda vaiaram os poetas concretistas e Caetano Veloso na USP. E os tropicalistas vaiaram a vaia em resposta. É muito espirituoso o poema de papai a respeito, tendo em vista que ele é praticamente um contemporâneo dos concretos e tropicalistas:

 

 

Vaiar a Vaia

 

Só o incomunicável comunica" Augusto de Campos

O Veloso bafejo da semana caetanou poucos castros e bilaques

sentimentália, vana verba vana,

silasom, silasom, quadrados cáquis.

Complexo de Camões: os babilaques

sáfico safado, abreu bacana

Quebra dedo Parnaso tic taques

Contar sílabas é super cafona...

As zebras literárias andradinas

Marteladas tarsilam na Malfatti

Vaiaram que vaiaram o inventor

Abrace a tradição, ame a rotina

Mas muita atenção pro arremate: quem Kilkerry

por último ri Millôr

 

            Dedico essa coluna a meu pai no dia dos pais. Sonho com a publicação de seus textos. E que vejamos emergir, enfim, o “eu marginal” desse talentoso poeta. Garanto, a cidade vai ficar encantada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Fernando Humberto de Resende: Um Escritor que Constrói a Cidade


 

Fernando Humberto de Resende: Um Escritor que Constrói a Cidade

 

            Fernando Humberto de Resende nasceu em 4 de outubro de 1963, filho de Geraldo Ribeiro de Resende e Zilah Gontijo Resende. Ele é casado com minha prima Edna Aparecida Espírito Santo Resende. Ambos têm uma filha: Naira do Espírito Santo Resende.

            Membro da Academia Bom-despachense de Letras, graduou-se em 26 de julho de 2011 como tecnólogo em Gestão Pública pela Faculdade de Tecnologia Internacional. É funcionário efetivo da Prefeitura Municipal de Nova Serrana desde 2008.

            Escreveu artigos para jornal O Bom Despacho com o pseudônimo de El Terrível em 1978. Publicou em 2013 o livro Saga dos Resende & Gontijo. Escreveu a série Bom Despacho: 300 Anos, uma história de Bom Despacho em quatro volumes, uma obra de referência para todos os bom-despachenses A crônica que reproduzo logo abaixo, de autoria de Fernando, tratou em termos muito belos e afetivos da vida admirável da minha tia avó Dona Nenê:

 

Raimunda ou Nenê Espírito Santo, minha sogra

80 anos de vida dedicados à Família Cabral e Espírito Santo.

Nasceu num reino encantado - Coqueiros, em Santo Antônio do Monte em 1939, tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial (havia escassez de tudo, até querosene e sal).

Uma menina/moça faceira e determinada não queria ficar na roça e arrumou emprego na Fábrica de Tecidos de Bom Despacho, o primeiro mês era de experiência e sem salário.  As colegas recebendo seus salários e Nenê só olhando - lágrimas brotaram de seus olhos. Detesta seu nome, prefere que a chamem por Nenê - assim nunca ficará idosa!

No final dos anos 50, conheceu um jovem trabalhador, o soldado Alcino do Espírito Santo - Zi Coxinha - namoro breve, casamento. Foram os anos mais felizes de sua vida.

Em 1961 nasceu o Eder Espírito Santo, em 63 já moravam na cidade de Luz. Alcino pedalando, Dona Nenê grávida na garupa e o Éder no meio. Neste ano nasceu a Edna Espírito Santo - a meia noite, no escuro e em Luz.

Em 68 nasceu o Elton, depois a Elaine, o Eduardo.

Moraram em Medeiros, Tapiraí, Lagoa da Prata... Mas o porto seguro era a casa da Praça da Estação, 16. As grotas, os pés de mamão, o viveiro de pássaros. A Turma. O Colégio Tiradentes parecia o quintal desta casa. A locomotiva....  Jonas do Espírito Santo, pai do Alcino era Ferroviário, sua esposa era a doce Dinha - que adorava Guaraná. Os tios: Tereza, Lia, Ligia Espirito Santo, Berlim, Júlio, Antônio. O buraco da Joaninha, o Eti.

Passear na Casa do vovô materno Zé Cabral e Dona Maria, lá no Arraial dos Lobos, as tias Helena Cabral, Nina, Braz Taquinho, Zé Maria, Otaviano, Laurinda, Cornélio, Antônio.

Como eram felizes! Quantas lembranças! Saudades!  O tempo foi passando.... O Éder casou, as meninas - a Priscilla Amaral era uma boneca, depois nasceu a Adriele.

Alcino do Espírito Santo era um valoroso soldado que fez parte da 1ª Tropa do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Era destemido, quando acontecia uma calamidade era destacado e ia socorrer as vítimas. O soldo (salário) era minguado, atrasava até oito meses, mas nesta casa nunca faltou nada, Alcino fazia bicos para completar a renda. Reformou da Polícia, mas infelizmente teve um aneurisma e faleceu antes das bodas de prata.

Os filhos do Alcindo e Nenê um a um foram casando e saindo de casa para constituírem suas famílias. Depois de certo tempo, um ou outro se separaram e voltaram para o aconchego da casa paterna.

Aí veio a doença da Elaine e sua partida, tivemos que conviver com mais essa dor.

Queria que a vida fosse só alegria, mas a vida é assim e é o que Dona Nenê Espírito Santo passou e superou. Por isso devemos nos reunirmos e celebrar a vida. Celebrar os 80 anos de Dona Nenê. E agradecer as inúmeras bênçãos que abundantemente jorram em nossas vidas.

Parabéns Dona Nenê! Uma guerreira. Desejo-lhe muita saúde, paz e o aconchego do seu lar, rodeada de seus filhos.

 

 

 

 

 

Hélio Garcia: Tão Longe, Tão Perto

 

Hélio Garcia: Tão Longe, Tão Perto

 

            Itamar “Brasinha” é um de nossos grandes escritores. Jornalista, estudou em Paris, lecionou na UFMG, escreveu vários livros, é grande a sua trajetória. Jacinto Guerra escrevia sobre ele com admiração. Recentemente, Brasinha escreveu uma biografia do governador Hélio Garcia (1906-2015). Brasinha tem uma obra sobre Bom Despacho: Bom Despacho que Te Quero Bom: Fragmentos de um Painel Político. O livro saiu pela editora O Lutador em 1987.

            Brasinha foi vereador em Bom Despacho, secretário da indústria e Comércio de Belo Horizonte e presidente da Fundação Ulysses Guimarães. Itamar também é autor das biogrfias de João Bosco Murta Lages, Manoel Cunegundes e Ronan Tito. Também pesquisou a trajetória da PucMinas, por ocasião de seus cinquenta anos, vindo a lançar “O Sonho é Possível” em 2008. Hélio Garcia lembra-se que a sede da Academia Mineira de Letras foi viabilizada graças a Célio Garcia.

            Essa biografia me dá a curiosa impressão de um tempo “tão longe, tão perto”. Tão perto de nós no tempo, mas ao mesmo tempo longe, pois a atualidade é muito diferente. Como estudante de Direito e político, Garcia vivia no “Chez Bastião”, no Minas Tênis Clube. Gostaria de uísque e de festas, indo mesmo a inferninhos e lugares populares. Na atualidade, o perfil do executivo, bem como do estudante de Direito, é mais um gestor, um técnico. Não há mais espaço para boêmios chegarem ao alto escalão. Bom Despacho foi citada na biografia, o que dá medida do carinho que Brasinha dedica a Bom Despacho:

 

            O bem contra o mal faz muito bem às elites. O bem contra o mal faz muito mal ao povo. Mas quem decide o que é o bem e o mal é o político. Filhos, netos e famílias governamentais da elite. É assim em qualquer lugar do mundo. Em Abaeté, Bom Despacho, em Dores do Indaiá, Lagoa da Prata, Pompéu e Bambuí não é diferente (GARCIA, 2022, p 90).

 

            Igualmente, o tempo em que um líder como um governador tirava fotos com astros da MPB mineira como Hélio tirou ao lado de Milton Nascimento não ocorre mais. Ao lado de que astro da MPB local o governador posaria? Fernanda Takai? Paula Fernandes? Podemos dizer que sequer existe esse astro da MPB que é consensual.

            Outro ponto que achei bastante destoante do momento atual é que o líder político do governo Hélio Garcia foi um comunista do atual PCB, o advogado Arutana Cobério Turuna. Cobério tinha muito pouco a ver com Hélio Garcia e disse que o político era golpista e corrupto, ao ser chamado para ser líder dele na Assembleia Legislativa. Foi uma conjuntura específica da redemocratização e uma tentativa de Tancredo Neves de fazer uma reparação dos erros do passado, mas curiosamente creio que é uma circunstância que dificilmente irá se repetir. Tancredo Neves estava por trás da manobra. Ao agir assim, reparava as cassações de pessoas de esquerda no passado e conclamava todos a experimentar, de fato, a abertura democrática.

Arutana, de início, recusou-se a trabalhar junto a Hélio Garcia, que, segundo Brasinha, foi um dos articulares do golpe civil-militar de 1964 ao lado de Magalhães Pinto (que efetivamente foi um mentor político de Garcia).

Parafraseando o filme de Wim Wenders, a arte mineira de fazer política de Hélio Garcia está, ao mesmo tempo, tão longe e tão perto de nós.

 

Luisa Garbazza, a Adélia Prado de Bom Despacho

 

 

 

Luisa Garbazza, a Adélia Prado de Bom Despacho

 

 

            Luisa Maria Garbazza Andrade, que usa o codinome beija flor de Luisa Andrade, é uma das nossas mais encantadoras escritoras. Até os doze anos de idade viveu no Lajão, zona rural na direção da Rua do Céu.

            Luisa formou-se professora pela Escola Estadual Miguel Gontijo, na Vila Aurora. O gosto pelas letras levou-a a formar-se em Luz. Durante muitos anos trabalhou com alfabetização rural, depois na Escola Irmã Maria. Na crônica A Menina em Mim ela reflete sobre sua foto mais antiga e pensa no passado: a família grande, a casa humilde, o uniforme remendado, mas sobretudo fixa-se no terno rosto da criança que ela foi.

            Casada com Flávio, mãe de dois filhos, publicou também Onde Mora o Coração e Igreja do Rosário (coautoria). Tem também Lição de Passarinho e Dança da Chuva, voltados para o público infanto-juvenil.

            A partir de 2010, começou a escrever seus textos no jornal A Paróquia. Passou a ser um destaque na rede social e em seu blog (históriasdavidaeparavida.blogspot.com).  Em 2013 teve um conto incluído em uma coletânea em Lisboa, no livro “Magia das Chaves”.

            Em 2014 Luisa lançou Histórias da Vida e Para a Vida. O livro é inspirado na beleza literária da Bíblia e em Guimarães Rosa. Lendo um de texto de Histórias para a Vida, pode-se ler uma crônica fascinante de sua visita a Cordisburgo, berço desse escritor, intitulada Nas Veredas de Guimarães Rosa:

 

            Muita coisa está conservada naquele museu: roupas, chapéu, gravatas, espadim que acompanhava o fardão da Academia Brasileira de Letras –1967—móveis, máquina de escrever, livros e vários objetos. No quarto que era de sua avó, tudo remonta à religiosidade: oratório, imagens, véu, terço, livro de orações. Segundo o guia do museu, ela rezava por todos da família e acompanha os movimentos de cada um. Um último olhar pela casa vem acompanhada pela visão de Miguilim. É fácil materializá-lo, vê-lo percorrendo aqueles espaços com o olhar tão inocente. Difícil é esquecer aquele menino tão sensível e observador que nos provoca imensa ternura.

            A venda está bem preservada. Tantos objetos antigos provocam uma saudade nostálgica em quem viveu, pouco que seja, os costumes daquela época. A caixa registradora, enorme, resiste ao tempo, assim como alguns arreios, uma capa para viagem, diversas caixas –inclusive uma bem grande, onde eram guardados cereais. Uma pequena vitrine –típica da época –em cima do balcão, ainda guarda alguns produtos. Em primeiro plano, destacam-se caixas de pó de arroz. Mais baixo, isqueiros (as tradicionais bingas), caixinha de rapé, cachimbos, canivete e outros. A memória logo busca figura do vaqueiro Manuelzão que “andou” por aquelas bandas.

            Muito interesse é ver, em uma parede, lá no fundo do quintal, algumas fotos ampliadas de determinadas originais desse gênio da literatura. Folhas datilografadas, cheias de marcas, revisões, cortes, rabiscos –até uma página toda cortada da trama. Lembra as palavras de Olavo Bilac: “torce, aprimora, alteia, lima/a frase; e, enfim, /No verso de ouro/engasta a rima, /como um rubim”. O trabalho com a escrita é sempre assim, ideias que combinam, se completam, se sobrepõem, ou ainda, se contrapõem.

 

 Luisa Garbazza é como Rosa, menina sertaneja, tomou gosto nas letras, ganhou o mundo e não parou mais. A infância foi difícil, muitos irmãos, a casa muito simples, representou o Brasil por esse mundo afora, não perdeu sua alma literária, seu amor por sua gente e sua cidade natal.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

A Lua dos Uivos de Prata

 

A Lua dos Uivos de Prata, Duas Estórias de Pedro Ramos

 

            O Uivo de Nascimento do Escritor Pedro Ramos

 

            Pedro Ramos, que conheci quando ele era criança, mas com quem não tenho contato, é um estudante da escola Tiradentes, tem dezoito anos e lançou um livro. Esse fato é um fenômeno que deve ser saudado, uma vez que uma cultura baseada na imagem, como é a nossa, não favorece de forma alguma o desenvolvimento da cultura literária. Em outra crônica, verifiquei como as bancas de revista e jornal estão em extinção em nossa cidade. E que, curiosamente, é uma cidade com muitos escritores, mas sem livrarias.

            O livro de Pedro levanta, logo de saída, uma questão: o estilo. Ter um estilo é dar um tratamento sintático original à língua. O estilo é o homem, disse o filósofo Pascal. O Fernando Cabral, que escreve nesse Jornal de Negócios, tem um estilo, bastante próprio, mas ele não nos convida a refletir sobre seu próprio estilo –e Pedro chama a atenção sobre a forma como ele conta a “estória”. Na verdade, são duas novelas, não propriamente “estórias”. Em “Os Pássaros Não Nadam Contra a Correnteza, por exemplo, quando Pedro vai contar que um personagem vai abrir uma porta e não consegue, ele escreve: “Diante da porta, mirou os olhos à maçaneta e tentou abri-la: estava inapta a executar esse serviço tão necessário.” Sem dúvida, o rapaz tem estilo.

 

            Pedro Não Nada Contra a Correnteza

 

            A primeira novela (“Os Pássaros Não Nadam Contra a Correnteza”) é, desde o título que é uma frase ao estilo do saber popular, baseada num achado desse jovem escritor: sua avó, matriarca da família, falava um pouco como os personagens de Guimarães Rosa, assim como suas construções (ela era analfabeta) lembram as narrativas desse nosso conterrâneo grande escritor, o que não deixa de ser fascinante, pois existe letramento sem alfabetização. Não nadar contra a correnteza é um conselho de alguém que quer dizer que, na vida, é preciso ser flexível. Encontrar a corrente, o caminho que irá te levar onde você quer. Pedro parece ter encontrado isso na literatura.

            A novela conta história de dois personagens, Matteo e o narrador. Ambos saem em família para pescar num rio e vivem peripécias: pescam peixes alados, ouvindo o curioso saber de Apolinário: “bebo, pois assim o mundo me parece digerível”. A lua dos uivos de prata é a bela lua que surge em meio às aventuras da pescaria.

Esse livro do jovem escritor Pedro Ramos utiliza-se do termo “estórias” da mesma forma como Guimarães Rosa utilizou em seu livro “Primeiras Estórias”. A primeira “estória”, “Os Pássaros Não Nadam Contra a Correnteza” trata das narrativas escutadas por sua velha avó que mantinha uma cultura que tinha letramento, mas não escrita, relidas por seu neto que cultiva a cultura literária, que cita Guimarães Rosa e Dostoiévski.

 

Cinderela, Drácula e Marquês de Sade

 

 A segunda história, “o Baile das Duas Cinderelas” recontou a seu estilo a história que todos conhecemos. Ele mudou o ponto de vista: ao contrário do ponto de vista da Cinderela, temos uma crítica aos nobres e à aristocracia: ele cita o Marquês de Sade e o Conde Drácula que, de certa forma, estariam “no baile”. Não seriam, portanto, boas companhias para nenhuma Cinderela, convenhamos, pois um deles gostava de bater em mulheres e o outro sugar sangue. Na narrativa original, Cinderela queria fazer parte da aristocracia e seus bailes. Pedro evocou o personagem Fiódor Pávlovitch como exemplo de narrador debochado que inspirou a novela, o que é curioso, pois Fiódor não era um herói positivo em Os Irmãos Karamazov. Era um bêbado desonesto e insuportável que, embora fosse pai dos irmãos da história, já ficamos pensando em que filho o teria matado, tão aborrecido o cara era.

Por fim, saúdo e espero as novas produções de Pedro Ramos, esse escritor que nos deu essa “lua de Bom Despacho”, esse belo vagido ao nascer.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

What Is Socialism?

 

What Is Socialism?

 

 

[This is a letter I sent to my friend Bob Weil on Dec. 20, 2013. I’m very saddened to report that Bob died in March 2014. This brought to a sudden end the many valuable political conversations I had with Bob over the years. We did not always agree, but we certainly helped each other think through many issues more deeply. I will really miss those conversations. The letter below is my response to one of these conversations we had the day before it was sent. Although I’m sure that Bob intended to respond to this letter in one way or another, unfortunately he never got the chance to do so. However, I am posting this letter anyway, because I think it raises some issues of interest to many other people as well. Several links to the Dictionary of Revolutionary Marxism have also been added as an aid to readers who may not be familiar with other Marxist terms and events. —Scott H.]

 

Hi Bob,

In our conversation yesterday you made some criticisms of me with regard to my use and conception of the word ‘socialism’, and specifically pointed to what you considered to be an inconsistency in my previously having said that the Soviet Union during the Stalin era was socialist while at the same time claiming that Cuba is not socialist. As usual in my verbal discussions I didn’t do a very good job in defending my position; so I’ll try to do a better job now.

If I were setting out to write an essay on this topic I would begin by first emphasizing and elaborating on a couple points that are not widely or sufficiently appreciated:

1) The great importance of definitions in science (and the fact that elaborating scientific theory in part means specifying the meaning of various key technical terms).

2) The fact that as sciences develop, the definitions of these technical terms often need to be refined or change along with the scientific theory as a whole.

These things are true in social science too. For example the term ‘morpheme’ in linguistics was originally defined as the “smallest element of meaning”, but is now (despite what it still says in dictionaries) defined in a more complex way about the occurrence of distinguishable phoneme clusters, etc.

I’m going to assume we fully agree on these two points, but if we don’t then we can get into those matters further. I am also assuming that we view Marxism-Leninism-Maoism as being a science and are striving to use scientific methods in its elaboration and employment. If we don’t fully agree on that, then we need to explore that issue a lot more too.

 

*     *     *


Obviously, it depends on what we mean by the word ‘socialism’ whether it is correct to say that Stalin’s USSR or Cuba were (or are) socialist countries. And, in conversations among our fellow revolutionary Marxists I think it is reasonable to assume that the definition or conception that we need to employ is the Marxist one.

Thus the fact that many people use the term ‘socialism’ in very different ways is totally irrelevant, just as is the fact that many non-scientists use the term ‘mass’ differently than it is used in physics. (As we joked yesterday, some people consider America under Obama to be “socialist”!) Similarly, European welfare states, established by “Social Democratic” parties, have commonly been called “socialist”. But this is NOT what is meant by socialism in Marxist theory.

It seems to me that there are three central principles in what we Marxists mean, or should mean, by socialism (all explicit in Marx, Lenin & Mao, and each of which can be considerably elaborated on):

1) The economic aspect: I.e., a society in which the basic economic principle is “From each according to their ability, to each according to their work.” [This is of course opposed to not only capitalist society, but is also different from a future communist society where the basic economic principle is “From each according to their ability, to each according to their needs.”] Note that even this economic aspect of socialism should NOT be considered as just “state ownership” of the means of production. However, ownership by a proletarian state and the existence of socialist planning are generally important parts of the economic aspect of socialism.

2) The political aspect: I.e., actual political power and rule by the proletariat and its genuine representatives, in the genuine interests of the proletariat and broader masses.

3) The transformational aspect: The fact that we view socialism as a dynamic (and unstable!) transitional stage between capitalism and communism.

Although all these points are already in Marx’s own writings, the special emphasis on this third point is today most characteristic of those of us who call ourselves Maoists.

There are of course many other things which can reasonably be said to characterize socialism. One such is the central concern about both the short-term and long-term interests and welfare of the people. I would consider that to be a corollary of the political aspect of socialism (principle #2), and perhaps to some degree a corollary of principle #1 as well. Similarly, socialism can and should be viewed as an era when the capitalist law of value is ever more restricted. I would consider that to be a corollary of principle #3.

So I am saying that from a Marxist theoretical point of view deciding whether or not a country (at some particular time) is socialist or not is basically the same as deciding whether or not all three of these principles truly apply.

Of course there will be clear cases in both directions, and some cases which are less clear. (This means there is indeed, as you suggested, a continuum of sorts, but this continuum does NOT include welfare states, Obama “socialism” and other bourgeois conceptions of socialism.)

Calling the U.S. today “socialist” is indeed laughably false! But why, exactly? From the MLM perspective it is because NONE of the three principles above hold at all for the U.S. today.

A clear case in the other direction was China in, say, 1975, in which all three principles certainly held. Of course, there were still some weaknesses with those principles even then and there, as there is always going to be in the real world. (Despite reaching the greatest levels so far in human history, the direct democratic control of the people over their collective lives, at work and everywhere else, still had plenty of room to further improve in a major way, for example.)

How about Russia in 1917 immediately following the Bolshevik revolution? Was it socialist? No, strictly speaking it was not yet socialist. Few economic transformations had yet been made. However, Lenin stated that it was proper to call this a socialist revolution, and Russia a socialist country, because of the class and party ruling it, and because of the changes they were definitely going to make.

Similarly, we can’t be unreasonably strict about any of the specific three aspects or principles of socialism. When it became necessary to end “war communism” in Russia and establish the NEP, this was in fact a step backward toward capitalism and away from communism. But it was a temporary retreat, recognized full well by Lenin and (most of) the Bolsheviks as a necessary short-term backward step. But the overall transformation of society in Russia in that era was still in the direction of first fully establishing socialism (socialist planning, etc.) with the genuine goal of transforming that socialism into communism.

So then, how about Stalin’s Soviet Union?

From an economic aspect, there was indeed some very substantial transformation of capitalism into socialism in both industry and agriculture. (True, this transformation in the countryside was done horribly incorrectly, without the mass line and even downright criminally, but it was nevertheless a transformation into cooperative socialist forms and away from capitalism.)  So the principle of “... to each according to his work” was pretty much established.

But any further socialist economic transformation then pretty much ceased by the mid-1930s. From that point on Stalin promoted what I call “socialist economism”, that is, the program of expanding production but without further changes to the relations of production, and with little or no progressive diminution of the law of value. Mao later explicitly criticized Stalin for not developing and implementing any further transformations in the direction of communism. He said that Stalin seemed to be “at a loss” about how to do this.

From the political aspect, the state was in the hands of representatives of the proletariat (the CPSU), certainly to begin with. But the picture here is quite clouded. Stalin ruled from above in a paternalistic manner, as Mao appropriately described it. So in one sense he (and his regime) did represent the interests of the proletariat, but in another sense he didn’t. A new bourgeois class developed within the Party, and Stalin even inadvertently promoted this! But as long as Stalin was alive they didn’t come to power as a “class for itself”.

So how to sum this all up? I think the most rational summary is that, yes, the Soviet Union became socialist economically in the Stalin era, and should be overall described as socialist in that period despite its very serious shortcomings (which Stalin himself was mostly responsible for) which led to the overthrow of socialism after Stalin’s death.

The Soviet Union was no longer socialist when Khrushchev came to power because: 1) A new bourgeoisie within the CPSU had come to power; i.e., politically it was no longer socialism. And 2) Because there was no longer even the possibility that eventually under this regime new social transformations in the direction of communism would be made. It is true that state planning and state ownership of the means of production continued, but given that society was now ruled by a new bourgeoisie in its own interests, this now became not socialism, but rather state capitalism.

To think of the USSR in the revisionist era as “socialist” is to completely reject the concept of socialism as a proletarian ruled society governed by the principle of “... to each according to his work”, and which is a transitional period between capitalism and communism. We Maoists take that idea about socialism being a period of transition toward communism seriously!

What about Cuba?

In my view this was originally an anti-imperialist, nationalist revolution against a comprador puppet dictator. And, as such, it was certainly something to be supported. After seizing power Castro did in fact move to what is commonly called “the left”, i.e. in the direction of state ownership of the means of production and improving the condition of the people. To a considerable degree they also implemented the principle of “... to each according to their work.”

Far more than Stalin, Castro and his associates have operated in a very paternalistic manner. They truly do care about the welfare of the people, about improving mass education and health, etc., and have in fact made great strides in those directions. But this definitely does not mean that the working class itself is running Cuba.

Within a few years of the revolution most of the progressive social transformations in the relations of production also stopped in Cuba. Moreover, while Cuba largely escaped the clutches of U.S. imperialism, it did so by voluntarily coming under the clutches of Soviet social-imperialism—including ideologically (for the most part).

The reasons these things happened is that Cuba was not ruled by representatives of a revolutionary proletariat, but by a paternalistic national bourgeoisie who happened to favor state capitalism (under the name of “socialism”).

So Cuba is in many ways quite an anomaly, and certainly not a model for revolutions elsewhere.

In my view the primary reason why Cuba is not socialist (and never was) is that it was never ruled by a revolutionary proletariat determined to transform the economy from capitalism to communism. I.e., I’m stressing again the importance of that third aspect (or principle) of what socialism really is, that “Maoist” principle.

Of course objective conditions meant that a complete transformation to communism in Cuba alone was out of the question. (Generally we Marxists believe this can only be completed on a worldwide basis.) But many more steps in that direction could certainly have been taken. The opposition of Castro to the Great Proletarian Cultural Revolution in China and its siding with and supporting Soviet state capitalism speaks volumes, I’d say.

And all the changes in Cuban society are now back in the direction of Western style monopoly capitalism, never in the direction of communism.

Of course we should continue to oppose U.S. attacks on Cuba, the blockade, etc. It is even fine to admire many of the things that Cuba has done for its people, especially in the areas of health and education. I admire those things myself, which have been accomplished under very difficult circumstances.

But it is very wrong to put Cuba forward as a model for socialist revolution. That’s what I most object to. Real socialism is a step toward communism. Cuba is no such step, and has actually been more of an ideological obstacle to promoting real socialist revolution around the world.

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One thing I didn’t mention yet is the point [another friend] D. raised: That the conception in the world revolutionary movement of what socialism is has changed quite a bit since the days of Marx. In a way this is strange, since all three main aspects/principles of socialism I mentioned were already clearly in Marx. But there has nevertheless been a very noticeable shift in emphasis over time. And that third “transformational” aspect of socialism has greatly increased in importance in our conception. It has become central in place of state ownership and planning.

We would no longer talk in the way Lenin occasionally did about socialism being the nationalization of monopolies that had developed under capitalist-imperialism. We have such things as the experience of Soviet state capitalism, the Labour Party’s bailing out of failing British corporations through nationalization (and similar things in the U.S.) and the experience of the struggles against the bourgeoisie in the GPCR to give us a much more sophisticated understanding of socialism now.

At this point, looking back at socialism in the Soviet Union in the Stalin era, we have a lot more criticisms than Communists of that era did. We see more clearly the serious weaknesses it had. We have the knowledge of how things later developed as well as the knowledge of democratic method of mass line leadership, for example. We have to be smarter now given our movement’s increased experience.

So this is also part of the reason we may seem “harder” on Cuba than we are on Stalin’s USSR when it comes to calling one but not the other “socialism”. Castro has much less of an “excuse”!

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Well, I know very well that we still don’t agree about most of this, Bob. And that’s OK! But I just wanted to explain why I see no contradiction at all in my views about socialism in Stalin’s Russia and Castro’s Cuba.

I would even admit that these are both somewhat “difficult” cases to decide (in comparison with China in 1975 and the U.S. today, for example!).

But I do insist that we have to have some theoretical principles to guide us in deciding whether a country is socialist or not. And if they are not the three principles I listed, then what are they?

Scott