sábado, 20 de dezembro de 2025

Campo, Um Poderoso Fermento Revolucionário

O Campo, um Poderoso Fermento Revolucionário - dezembro 19, 2025 Escrito Original Por: Partido Comunista Sol Rojo - Equador Disponibilizado Por: A Nova Democracia Tradução Por: Soichiro A contradição principal de nosso tempo se desenrola entre o imperialismo de toda laia, especialmente, o ianque, e as nações oprimidas do mundo. As potências imperialistas competem e as vezes, conspiram para repartir territórios, recursos e rotas; no entanto, o jogo decisivo dessa contradição é o Terceiro Mundo, cenário onde se concentram as guerras, ocupações, bloqueios e contrarrevoluções. Aqui estão, entre outros, Palestina, Síria, Líbano e Yemen; Afeganistão, Iraque e Líbia; Sudão e Sudão do Sul, Etiópia e Somália no Chifre da África; Mali, Nigéria e Burkina Faso; a República Democrática do Congo e Moçambique; o Saara Ocidental e Haiti. Na Ásia se estendem conflitos e resistências em Mianmar, Bangladesh, Paquistão, Índia, Filipinas e Papua Nova Guiné; na Ásia Ocidental sediam Irã, e na Turquia e Curdistão persiste com suas guerras multiformes ou híbridas. Na América Latina os tambores de guerra, sanções e ingerências retomam sobre Cuba, México e Venezuela, a militarização e a guerra interna atravessam Colômbia, Peru, Equador, Haiti e amplas faixas da América Central e o cenário náutico de convergência no Caribe. Nesse quadro, as guerras populares que apontam ao Poder como as que desenvolvem na Índia, Turquia, Filipinas e no Peru; e as guerras de libertação nacional em outros países, expressam uma lei inelutável: onde o imperialismo estrangula e embate, as massas aprendem no curso da guerra a combater, levantando as bandeiras da guerra justa contra a guerra injusta. Em muitos lugares, armadas de maneira precária e rudimentar, as massas transbordantes de otimismo põem o peito e a cota à ameaça nuclear, tecnológica e numérica que o imperialismo pretende aplicar factualmente. Nesse sentido, nos corresponde converter a indignação em organização, a defesa em ofensiva e a crise em oportunidade estratégica para abrir um passo à derrota do imperialismo e seus lacaios, e impor a Nova Democracia, que é a ditadura conjunta de operários-camponeses e pequena burguesia, sendo centro o proletariado: e, sobre suas conquistas e transformações, ao socialismo. Sujeitos à essa análise, podemos entender da melhor maneira a agressiva presença do imperialismo ianque na América Central e Sul; : sua ameaça de invadir Venezuela, estrangular a Colômbia e pôr em funcionamento, a seu favor, a máquina latifundiária do velho Estado do Equador, em um contexto de luta que mantém com Rússia e China e, de fato, com alguns países da Europa. Nesta ofensiva ianque, o Equador, e nele, o governo fantoche de Noboa, é um papel importante na medula desse esquema. Não é gratuito o processo de fascistização de Noboa, suas pretensões legais para reformar ou gerar uma nova constituição, cujo o centro é apoiar a presença de bases militares estrangeiras (não russa, chinesa, ou de qualquer outro país, aspecto que também será rechaçado e combatido), senão ianque, especificamente; entretanto conceder super poderes ao governo e as FFAA, que, precisamente neste momento, são absolutamente controlados pelos EUA e Israel. Quando aprendemos que Noboa é fascista e marionete, nos redimimos aos fatos; sobretudo, marionete, porque sua condição de fascista deriva de sua posição servil ao imperialismo. Basta ver que, pela primeira vez, Equador, dá mão a Cancillería, dirigida por um agente do sionismo internacional, se absteve ante a ONU de votar contra o criminoso bloqueio a Cuba; mas isso sim, declarou a Hamas, Hezbollah e a Guarda Revolucionária do Irã como organizações “terroristas” seguindo o mandato dos EUA. Isto deve entender em sua verdadeira dimensão: servilismo, testa de ferro político de Noboa e, sobretudo, a crescente incidência política dos EUA no país. É dizer, pouco a pouco que estamos perdendo essa relativa independência política que acreditam que temos e que nos caracteriza como um país semicolonial/semifeudal. O Equador atual é uma sociedade semicolonial e semifeudal. Quando dizemos que é semifeudal, não estamos dizendo que não tem capitalismo; o que queremos dizer é que o imperialismo se desenvolveu, de maneira tardia, um capitalismo atado aos interesses dos grandes latifundiários na segunda metade do século XIX; que isso, antes e hoje, não tem intenção alguma de eliminar esses remanescentes feudais, senão de evolui-los a novas formas. Capitalismo (burocrático) que não desenvolve as forças produtivas, que fomenta a indústria nacional, mas sim que é entregue ao imperialismo, fundamentalmente ianque. Que é quem delineia as formas e relações de produções próximos a seus interesses. Esse capitalismo está em crise, doente, manco, cujas contradições não se resolvem pensando em “levantes” ou rebeliões circunstanciais, conjunturais, mas também com um programa e processo revolucionário profundo, dilatado, com correta direção ideológica e com guerra popular. Entender isto é fundamental para uma apropriada compressão das dinâmicas de luta no país, particularmente no campo, onde o papel do campesinato pobre tem sido determinante, sobretudo nos três últimos levantes populares. Nós, os comunistas, não concebemos a sociedade como um todo delimitado por raças, grupos étnicos, nacionalidades ou de atores que promovem as reivindicações de gênero. Nós concebemos a sociedade a partir de uma análise materialista histórico-dialético e que, por ele, prevalecerá sempre a análise de classe: sua composição, campos e contradições. Nesse sentido, observamos camponeses e sua relação com os meios de produção; as relações de produção; no fato de que, na atualidade, alguns camponeses que estão alinhados com reivindicações étnicas, sendo o principal, sua condição de camponês pobre, sem-terra; outros que, de lavrar terra alheios, também se tornam, eventualmente em mineradores artesanais; aspectos que determinam a particularidade e diversidade de centros de contradição no âmbito produtivo. Entendemos que, ao não se haver materializado a revolução democrática-burguesa de velho tipo; o campesinato pobre é a classe que se torna a mais explorada já que está imerso e atrelado a relações de produção pré-capitalistas ou, dizendo de maneira mais clara, feudais e semifeudais. Com esses antecedentes queremos centrar-se em aspectos contextuais do país. Tem culminado o levante indígena-popular depois de 31 dias de crítica e incansável luta; uma briga na qual as massas, se mobiliza-se, tem posto sua gota de sangue: mortos, feridos, mutilados; além do mais, detidos e perseguidos. Igual nos levantes de 2019 e 2022, as massas camponesas foram a força principal da mobilização, acompanhadas por operários, estudantes, comerciantes e setores populares que se rebelaram com determinação contra governos que, como o atual, tem ignorado os interesses da grande maioria. É bom dizer, que nessas rebeliões, o campesinato tem sido a força principal. Esse ciclo demonstra que o campo continua sendo um “poderoso fermento revolucionário” e que, ao estabelecer correta aliança de classes com operários e demais massas exploradas, nesses contextos e formas de luta, se converte em uma força capaz de desestabilizar o velho Estado. A combatividade das bases do movimento indígena-camponês, mas além do discurso etnocultural da direção oportunista que tem focalizado o vórtice das contradições existentes no campo na pluriculturalidade, os direitos coletivos e a defesa do “território”, subsumindo a contradição principal: massas-semifeudalidade, que tem rosto e voz própria: camponeses sem terra ou com pouca de mal qualidade; produção artesanal como estratégia de subsistência; mutação cíclica do campesinato pobre em semiproletariado na miséria informal, servilismo, expropriação de terras e migração forçada. Todas, expressões na mais abjeta semifeudalidade que mantém o campesinato, seja este “indígena” ou não ao limite da rebelião. Isso é o que tem que ver e processar. O movimento indígena, incentivado por sua direção, fala de “territorialidade”; no entanto, em seu seio coexistem latifúndios e minifúndios: tem terras em mãos de membros da comunidade, mas também grandes extensões controladas por latifundiários nacionais e estrangeiros. Curiosamente, os indígenas/camponeses que habitam os chamados 'territórios', que na verdade são propriedades privadas, minifundios, são os peões, lavradores, e trabalhadores dos grandes latifúndios que estão dentro dessas circunstâncias. O latifundiarismo, no lugar de diminuir se tem incrementado. Há exemplos de sobra: o consórcio dos Wong, ex-ministro do interior de Noboa, concentra ao redor de 30.000 hectares em Guayas (Marcelino Maridueña); em Esmeraldas e Santo Domingo dos Tsáchilas com cerca de 300.000 hectares de dendezeiro estão em mãos de um punhado de proprietários; o consórcio Nobis, do próprio Noboa, possue terras em distintos pontos do país; a açucareira Valdez administra cerca de 10.000 hectares; além de extensas fazendas bananeiras. Em Cotopaxi, Aglomerados Cotopaxi e Durini somam aproximadamente 19.000 hectares em pleno coração do que a CONAIE denomina “territórios indígenas”. A isso se adiciona os milhares de hectares da fazenda Fukurama, sim, a mesma denunciada por práticas de escravidão em pleno século XXI. Os jornalistas, aconchegados, arrendatários e trabalhadores que trabalham nestes prédios costumam estar submetidos a relações de trabalho de corte feudal ou semifeudal. Os pescadores de camarão têm em seu poder 233.000 hectares, a mesma quantidade de terras com as que tem 1.800.000 camponeses pobres. A este “fenômeno”, devemos somar os milhões de hectares entregadas as grandes empresas mineradoras; veículo que tem gerado uma nova corrente de latifundiários vinculados a estas transnacionais da mineração, cenários onde as massas camponesas pobres são despojadas violentamente de suas pequenas parcelas, além do mais, são quem põe o trabalho, e também a vida, ante os desaforos e violência estatal, para estatal e assassinos. Além da alta concentração extrema da terra: prédios individuais ou consorciados de 10.000, 20.000 ou 30.000 hectares apresenta a monocultura e controle de cadeias completas: cana, coco, banana e florestas com integração vertical (terra-processamento-exportação). Cenários com relações trabalhistas precárias ou servis: pago por tarefa, terceirização, endividamento com lojas internas, vivendo dentro de fazendas e imigrações forçadas. Recrutamento forçado de camponeses para trabalhar na mina; arrendamento de terra e trabalho sob a modalidade de “ao partir”. Controle de bens comuns e servidões: acúmulo de água, caminhos e servidões de passagem como segurança privada e criminalização de protesto. Captura reguladora e fiscal: vantagens normativas e logísticas que reforçam a concentração e dificultam a reforma agrária real. Estes dados, somados aos casos concretos citados, mostram que o problema não é só de “territorialidade” como consigna geral, vazia; senão de poder de classe sobre a terra e o trabalho, expressado em um regime que reproduz relações feudais e semifeudais em pleno século XXI. É essa questão que se deve preocupar a direção do movimento indígena, de que os camponeses vivem em condições precárias, que isso tem que eliminar, e que não se faz com consultas, com votos ou no casebre da Assembleia, não, impossível, isso se faz com violência revolucionária. Tem que acabar com o poder coronelista e para fazê-lo, tem que combater todas as formas de seus representantes, os caciques locais, aqueles camponeses vendidos ao coronelismo que são quem reproduzem o velho Estado nas relações de produção e os executores diretos dos processos de corporativização das massas camponesas. Nesse contexto, urge reconhecer que, ante a ausência da correta linha ideológica, a luta camponesa, sem rejeitar sua constância, sobre tudo em torno à necessidade de resolver o problema agrário, tem um certo caráter espontâneo, muitas vezes estimulado pela sua direção, a mesma que historicamente tem demonstrado que, além de traidora e oportunista, tem agenda própria, sem mais norte que o eleitoralismo e a burocratização do movimento indígena-indígena-camponês. Além, própria da incidência do trotskismo, sustentando por Iza e seus colaboradores, promovendo a ideia de lançar o movimento indígena a jornadas “insurrecionais”; pois consideram que é o mecanismo e forma de luta que permitiria que essas massas “conquistem o poder”. É algo assim como pretender seguir o caminho russo combinado com eleitoralismo e oras mentiras burocráticas. O último levante indígena-popular, como os anteriores, foi traído por sua direção; desta vez sob o mando de Marlon Vargas, um instável e covarde representante de uma plêiade de dirigentes que tem tido a mesma folha de rota: inicialmente com discurso radical, incendiário; posteriormente, amigável, conciliador com o governo e as classes dominantes, e o corolário, a cereja do bolo, terminam como candidatos presidenciais! Toda esta verborreia vai da mão de um “projeto” centrado no “comunismo indo-americano”, uma mentira que descontextualiza Mariátegui que se apresenta como uma releitura “originária” do marxismo para América Latina que privilegia o indígena/andino como núcleo civilizatório, que toma elementos soltos do Amauta, do indigenismo e do comunistarismo andino, e os combina com agendas que tratam de buscar programa no passado; que absurdamente desloca o eixo da luta de classes para uma identidade étnico-cultural, mistifica a “comunista originária” como forma superior 'pré-capitalista' e resolve examinar suas contradições internas (patriarcais, hierárquicas (caciques), mercantilização crescente). Sem crítica dessas relações, o “retorno ao comunitário” funciona como romanticismo restauracionista. Um comunismo “nem desenho nem cópia” que emite no seu núcleo, o fundamental: revolução agrária e socialista dirigida pela classe trabalhadora em aliança com o campesinato indígena. Nesta ocasião, Vargas, com o pretexto de “salvar a vida dos manifestantes” e de “preparar a campanha pelo NO na consulta popular”, desmobilizou as massas e as arremessou, uma vez mais, ao chiqueiro eleitoreiro. Não atuou só: contou com o apoio cúmplice de Lourdes Tibán, desde a Prefeitura de Cotopaxi, e de outros atores “indígenas” de ideologia domesticada que repetem, de forma cacofônica, que “só com trabalho podemos fazer com que o país melhore”. Estes cachorros do velho Estado substituíram o levante popular, pela campanha eleitoreira do NO na consulta popular. Temos que combatê-los, sem lugar às dúvidas. Por sua parte, o governo de Noboa, fascista, entreguista e tremendamente violento, tinha utilizado meios, táticas e estratégias vezes vistos para reprimir o povo. Já se tinha indicado: Noboa tinha convertido o Equador em um laboratório da nova linha militar do imperialismo com suporte sionista para neutralizar a insurreição e as lutas populares nos países do Terceiro Mundo. Não tinha economizado em bombardear com artilharia e aviões de guerra seus objetivos militares, como sucedeu em Imbabura e Azuay; mobilizar milhares de tropas escoltadas por veículos blindados, helicópteros de guerra e demais equipamentos militar para combater massas basicamente armadas com fogos de artifício, pedras e paus: expressões, sim, de luta, mas que, como sempre, resultam insuficientes para enfrentar a um inimigo que, sem consideração, reprime abjetamente o povo, sempre com o anúncio de dirigentes revisionistas e/ou oportunistas que tem servido de catalisadores para corporativizar às massas utilizando um grosseiro, e em certo modo, efetivo populismo baseado em bônus, dias de feriado no trabalho, presente de porcos, sorteio de veículos nos motins que organiza; e outras bugigangas que lembram as épocas do colonialismo espanhol, onde o espaço de então, tinha vindo em “bônus”. Hoje o velho Estado burocrático-latifundiário, sob o governo de Daniel Noboa, expressão concentrada da burguesia compradora e dos grandes latifundiários, se recompõe subordinado aos interesses do imperialismo ianque e do capital comercial e de intermediação financeira israelense. O país opera como lugar estratégico: logística militar, inteligência, penetração econômica e tecnológica. Não se trata de uma “desviação” conjuntural, senão de uma forma concreta de dominação semicolonial e de transição corporativa. O imperialismo exige “estabilidade”, “segurança” e “controle social” para sua expansão. Daqui as reformas de Noboa: incremento do IVA, eliminação de subsídios, privatização de setores estratégicos e endurecimento repressivo sob a retórica de “segurança nacional”, “luta contra o terrorismo” e a convocatória a uma nova Constituinte convertida, desde já, em um “cheque em branco” para o imperialismo e a reação. A atual constituição pouco ou nada serve às massas; muito menos à reação, eles, a reação, requerem uma constituição que avalie e projete o que já estão fazendo, um processo de militarização da velha sociedade onde o executivo e as FFAA contem com todo o Poder coercitivo e repressivo. Estas medidas correspondem a um reajuste geral corporativo do Estado nos planos econômico, político e ideológico. À ditadura de grandes latifundiários e grandes burgueses não lhe alcança bombardear dentro do país, reprimir, matar, encarcerar, perseguir e subornar pessoas; também necessita enche mão de seu discurso eleitoreiro. Agora combinam a violência e a repressão com a farsa eleitoral. Querem fazer-nos acreditar que, com a consulta popular, o povo escolherá uma nova Constituição, quando não é senão a expressão concentrada da política do velho Estado, do capitalismo burocrático e do imperialismo. Não é nada mais que isso. O que o povo recebeu com a Constituição de 2008? Nada! Como sempre nos explorado, oprimido, agredido e violentado; além disso, nós temos sufocados em sangue e nós temos visto forçados a migrar ou a morrer no intento. Agora nos querem impor outra Constituição. Mudará com relação à anterior? Possivelmente em suas formas, mas não corresponde ao proletariado, ao campesinato pobre é às demais massas exploradas avaliar um instrumento político que legítima ao velho Estado e o apresenta em sua versão mais “sutil” no terreno do sistema de governo. Povo do Equador, lembra: assistir às urnas, seja para escolher autoridades ou para uma nova Constituição, só avalia o atuado por todos os governos, particularmente por este último, sustentado na violência imperialista, a mentira e governar em função dos interesses da grande burguesia e dos grandes latifundiários O problema da constituinte não é um problema das massas; é um assunto das contradições inter-burguesas levado ao plano popular. Nós não negociamos a nossos mortos nas urnas nem caímos no papo dos oportunistas, dos eleitoreiros e dos vendedores de votos. Fortalecemos a organização, lutemos, preparemos e desenvolveremos a guerra popular: é o que devemos fazer. Não podemos nem devemos garantir o velho sistema eleitoreiro do país; não devemos participar na consulta, pelo contrário, devemos boicota-la. É algo que compromete aos princípios; é não fomentar um velho sistema de governo que nos faz acreditar que, participando nele, estamos definindo ou marcando as pautas da participação popular nos desígnios de um Estado que não nos pertence. Nessa perspectiva, o levante reabre mais uma vez o caminho histórico que deve ser qualificada da melhor maneira: cercar as cidades desde o campo. As jornadas em Imbabura, Cotopaxi, Chimborazo e Loja mostram uma aprendizagem profunda e já exposta em outras ocasiões: tem que destruir os “Kurakas”, os “caciques” da direção das organizações camponesas-populares e conceder as massas um instrumento que se ponha a frente de suas lutas, instrumento que não pode ser outro senão o Partido Comunista de Novo Tipo, que, sem rodeios nem cálculos oportunistas, impede toda a decomposição que envolve o campo popular. Estabelecer uma aliança de classe correta não significa negar as particularidades, e sim reconhecê-las e convertê-las em um organismo concreto e operativo, capaz de encarar as contradições que o governo gera e exacerba estruturalmente, e de avançar para a resolução das contradições fundamentais: nação contra o imperialismo; massas e campesinato contra à semifeudalidade e o coronelismo; e o povo contra o capitalismo burocrático da grande burguesia. Tudo isso sem perder de vista a colisão e luta entre burguesia compradora, hoje personificada por Noboa, e a burguesia burocrática, o Correísmo, cenário na qual se tem arrastado às massas, desviando-as de seus objetivos históricos. Tem que entender. As reivindicações indígenas não podem seguir nas mãos da direção ideológica da pequena burguesia, ou do nacionalismo burguês, é e será, sem lugar às dúvidas, uma tarefa do proletariado. A burguesia tem caducado como classe encarregada de levar as tarefas democráticas que compromete o indígena e o campesinato em geral; essa tarefa só pode ser concluída na revolução de Nova Democracia, transição ao socialismo. Povo do Equador: temos entrado em etapa de inflexão, carregada de nós críticos que freiam ou entorpecem as tarefas necessárias para abrir um passo à revolução de Nova Democracia. Não podemos seguir endossando o esforço vital das massas à oportunistas e traidores. A direção da CONAIE, Pachakutik e os sindicatos centrais tem reiterado, sem vergonha nem consequência, sua traição em favor do velho Estado; tem sido um dos obstáculos mais sérios para que se desate a tormenta da guerra popular de operários e camponeses. Nos interessa desmascara-los, localiza-los onde estão e destruí-los. Já disse o magistral Presidente Gonzalo: “arranquemos as ervas venenosas... expulsaremos essas sinistras víboras... estouremos esse pus, senão o veneno se espalhará. Venenos, purulência, devemos destruí-los.” O momento é difícil, sim, mas nós sustentamos um otimismo histórico que desborda travas e dificuldades. A rota é sinuosa e exige confrontar sem titubear ao inimigo: imperialismo, grande burguesia e grandes latifundiários, e também a seus operadores internos: caciques, oportunistas e revisionistas. A esta altura, nada fica fora do mapa: todos são peças da estratégia global do imperialismo e seus lacaios para manter o povo oprimido e explorado. Não arrastaremos às massas à mobilização sem uma classe dirigente nem uma ideologia que trazem o rumo. É inviável persistir em discursos frustrantes sobre “direitos coletivos” ou em saídas eleitoralistas que maquiam o continuísmo e conjuram qualquer transformação de fundo. Não se trata de “indianizar” o comunismo, mas sim de proletarizar ideologicamente o movimento indígena para, em sua agenda nacional, se considerem as contradições de classe existentes; que suas reivindicações se articulem com as de operários, camponeses e demais setores populares; só assim as lutas estruturais deixaram de ser explosões episódicas e se converteram em processos sustentados por mobilização, militarização e combate. Temos um cenário político favorável para a revolução. As condições históricas estão em seu ponto: devemos aproveitá-las. Devemos resolver todos os problemas políticos que teremos na frente com a luta armada: não tem outro caminho; é o que nos convém fazer. Sem um Partido Comunista que organize, eduque e conduza, toda ação, pelo contexto que for, ficará atrepada no corporativismo administrado por uma direção oportunista. Se impõe construir uma direção capaz de converter o descontentamento em programa, o programa em organização e a organização em uma força avassaladora nucleada no Partido Comunista de Novo Tipo; na Frente e, obviamente no Exército Popular, a forma mais importante e decidida para que, com a guerra popular, avançaremos ao comunismo. O PROLETARIADO É A CLASSE FUNDAMENTAL DA REVOLUÇÃO! O CAMPESINATO, É A FORÇA PRINCIPAL DA REVOLUÇÃO DE NOVA DEMOCRACIA! SEM UM EXÉRCITO POPULAR, NADA TEM O POVO! VIVA O MARXISMO-LENINISMO-MAOÍSMO-PENSAMENTO GONZALO! POVO DO EQUADOR, NÃO VOTAR NA CONSULTA POPULAR! PREPARAR E DESENVOLVER A GUERRA POPULAR!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Notas

Notas Sobre a Frente Única em 2026 Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior A tese da frente de esquerda para 2026, com todos partidos apoiando Lula já no segundo turno tem sido um bizarro postulado que passou a circular em artigos recentes da esquerda governista (Altman, Arcary). O termo que se usa é frente única –e que traz os haustos malévolos de Trotsky. A política de Trotsky nunca foi essa de fato, segundo o historiador Grover Furr. Trotsky de boca falava em defesa da URSS, mas secretamente aliou-se a nazistas e imperialistas japoneses. Há muitas evidências recolhidas no texto Evidências da Colaboração de Trotsky com Nazistas e Japoneses. Recentemente Gustavo Machado do PSTU alegou que prefere Hitler a Stálin, revelando novamente essa faceta –ele não deturpa Trotsky, é fidelíssimo a ele. A argumentação de Valério Arcary para postular o apoio de toda esquerda institucional a Lula já no primeiro turno (ou seja, PCB, PC do B, PCO, PSTU, PCBR, etc) numa frente gira em torno da necessidade não de um programa a ser cumprido, mas da necessidade de derrotar a extrema-direita bolsonarista. Essa alegação tem justificado a adoção do mesmo programa neoliberal, mas sem o “avatar” fascista. E quanto mais se aplica o programa neoliberal, mais a sociedade é empurrada para o fascismo, mais se esgarça o tecido social. A tendência é encarceramento em massa estilo Nagib Bukele em El Salvador. Che Guevara postulou que a luta institucional deve ser levada até o final, esgotada, para então deixar de ser a luta principal. No entanto, ele e Castro não participaram das eleições de dezembro de 1958 organizadas por Batista –e ainda ameaçaram de morte os candidatos Carlos Marques Sterling e Ramon Eros Grau, pois Castro em especial sempre praticou o assassinato de seus rivais políticos, como era corrente em sua geração, segundo Enrique Ros, no livro Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre. Em primeiro, a frente só tem sentido para quem está na etapa do acúmulo, ou seja, numa fase em que se está fazendo quadros para obter reformas no velho estado. Estranhamente, boa parte dessas organizações e mesmo a Revolução Brasileira renega quaisquer etapas –mas está eternamente na etapa eleitoral ou, como no caso da RB, do nacionalismo revolucionário! Se nacional-desenvolvimento não resolve nada, se só a revolução socialista salva, porque perder tempo com nacionalismo revolucionário? PC do B não utiliza o termo maldito “etapas”, mas fala em defesa do “nacionalismo-socialismo” (!) Não é nada mais que do propor desenvolver capitalismo selvagem. A seguir Arcary elenca vários outros pontos: processos positivos tais como aumento do consumo popular e diminuição da pobreza extrema, isenção de imposto de renda – e tudo apesar das taxas de juros reais mais altas do mundo! Arcary fala em “respostas atrasadas” do PT diante da PEC da blindagem. Mas na prática, parte do PT apoiou a PEC e chamou-a “pec das prerrogativas”! O texto segue confiando em “pesquisas de opinião” –outro ponto que é preciso desmistificar, pesquisas são manipulatórias, a classe trabalhadora entende como “corrida de cavalos”. A linha correta é boicotar 2026 e organizar frente única em prol de uma democracia mais evoluída, uma nova democracia, é priorizar outras lutas como fizeram os anarquistas do Movimento Passe Livre. A luta eleitoral está falida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Sou ex-petista

Sou ex-petista. Fui vereador pelo PT de 2021 a 2024, o mais jovem na história da minha cidade, e candidato à prefeito pelo PT na última eleição em 2024, no Município de Carmo do Cajuru-MG. Na candidatura ao Executivo, embora tivéssemos uma boa desenvoltura para a nossa campanha, nos defrontamos com o antipetismo no seio da classe trabalhadora. Discordo absolutamente do Breno. O antipetismo se consolidou na classe trabalhadora, que se sente traída por Lula e pelo PT. Ou seja, o antipetismo tem razão de existir, não só por causa da campanha burguesa esperada de combate ao partido, mas principalmente por causa da adesão do PT ao neoliberalismo, que representa a deterioração progressiva das condições de vida do trabalhador e a redução dos seus horizontes. Essa escolha é uma incoerência, uma contradição irreconciliável, percebida pela consciência popular. Como resultado, os petistas são cada vez mais uma parte diminuta e desmobilizada do eleitorado. Cheguei a conclusão após a campanha que não há qualquer possibilidade de disputar a consciência popular estando no PT. Essa “pátria petista” que Breno descreve não existe mais. O que existe é uma admiração da figura do Lula, mas que é totalmente despolitizada, desprovida, por escolha do próprio, de qualquer sentido de transformação profunda da realidade brasileira. Pelo contrário, o PT fez uma opção explícita pela adesão ao neoliberalismo, que é sentida pela povo como uma ideia de que o PT é parte do sistema, e não uma mudança. Encontrei, enfim, imensas dificuldades para que nossa candidatura fosse aceita, justamente por carregar o símbolo do PT, não só por parte da classe média, mas também por parte dos trabalhadores. Senti na pele que é falsa e ilusória essa ideia do Breno de disputar pela esquerda o que sobrou dessa “pátria petista”. Become a member Bom, após o resultado pífio das eleições Municipais, eu pensei que o Partido pudesse ser disputado para mudar sua política econômica, que é o cerne da aflição da classe trabalhadora. Triste engano. Participei do último Encontro Nacional do PT para dar posse aos eleitos para a direção partidária pelo PED (Processo Eleitoral Direito), e constatei, com meus próprios olhos, que a esquerda do PT está totalmente esmagada, e não representa nem 10% do Partido. No encontro, a nova direção do Partido reafirmou e aprofunda a sua opção por uma política de austeridade neoliberal, de privatizações, de ataques à direitos sociais, de cumplicidade ao imperialismo. Não há mais possibilidade de pensamento crítico no PT. Não faz mais sentido Valter Pomar, por exemplo, continuar dentro do PT, pois o campo hegemônico neoliberal, liderado por Lula, tem o controle absoluto da máquina e da opinião. Ao contrário do que Breno diz, não há espaço de mudança interna. Vejam bem, embora Breno defenda o PT, reparem como a própria direção do PT trata um dos seus principais intelectuais: fingem que ele não existe, o lança à irrelevância. Essas situações foram, para mim, a gota d’água. Estou em processo de desfiliação. É tempo de construir a verdadeira esquerda, socialista, radical, sem medo de dizer quem é e qual o seu propósito, e especialmente, que ataque o neoliberalismo frontalmente que chicoteia a classe trabalhadora. O PT já morreu. O novo está prestes a nascer.” Anthony Alves Rabelo

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Por que Vargas Pode ser Chamado de Fascista?

Muito embora eu considere Vargas uma figura complexa e fascinante, a hipótese de que ele foi fascista deve ser levada a sério. Devemos trabalhar com ela e refutar vigorosamente o que diz Frederico Krepe. Primeiro, Krepe ao definir o fascismo não utiliza nenhum autor marxista, apenas outros burgueses liberais como ele. E nos basearmos, então, em Gonzalo: Obrigado por ler Substack de Lúcio! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho. O que entendemos por fascista e corporativo? Para nós, o fascismo é a negação dos princípios demoliberais, é a negação dos princípios demoburgueses nascidos e desenvolvidos no século XVII na França; esses princípios tem sido abandonados pela reação, pela burguesia no mundo, assim como já na I Guerra Mundial nos fez ver a crise na ordem demoburguesa, por isso é que posteriormente o fascismo surge como insurgência.” “Consideramos também o fascismo como uma ideologia eclética, feita de retalhos, que recolhe aqui e ali o que lhe convém (...). Ele toma o que estiver mais à mão”. “O corporativismo seria organizar a economia em corporações. E seria a negação do parlamentarismo” (GONZALO, 1988). Vargas preencheu todos esses elementos: seu sucesso durante sua carreira implicou em pegar o que estava mais à mão. Embora ele leia Saint-Simon, é na ditadura de Júlio de Castilhos é que está sua identidade. E essa ditadura, embora modernizadora sob alguns aspectos, nega desde sempre a divisão em três poderes estabelecida pela revolução francesa, concentrando os poderes no executivo, criando absolutismo presidencialista que é sempre presente no fascismo. Krepe sabe disso: O projeto de Vargas, desde o início, é de modernização do Estado e de centralização do poder (KREPE, 2025), E também nega o direito de liberdade de expressão democrática perseguindo a oposição e reorganizando o sistema político e, com sua ideologia eclética, essa colcha de retalhos que possibilita disfarces (positivismo, socialismo utópico, castilhismo, doutrina social da igreja católica, fascismo e nazismo). E ao chegar ao poder, Vargas nega o parlamentarismo, dissolvendo o congresso, não governando inicialmente nem sequer com aquela apodrecida fachada liberal de latifundiários e assumindo a ditadura burguesa sob a forma do absolutismo presidencialista. Ele nega também a ideia de ser regulado por uma constituição, ele só a promulga depois de um outro levante e logo a seguir coloca em seu lugar uma constituição de corte fascista, abertamente copiada da ditadura militar polonesa. Vargas mesmo advogava por soluções dentro do sistema, até que, de ministro da fazenda de Washigton Luís, assumiu o poder numa quartelada que insistia em chamar de “revolução democrática”. Vargas, como Alvarado no Peru anos antes, fez reformas e trouxe direitos trabalhistas apenas para poder corporativizar as massas em seu favor. Alvarado falava em reforma agrária apenas para fazer evoluir o semifeudalismo. E o varguista Darcy Ribeiro trabalhou ativamente para Alvarado, identificando-se com ele como se identificou com Vargas anteriormente —e não por acaso! Por isso Vargas fala em reforma agrária nos anos 50, bem como Jango e Brizola, apenas para corporativizar as massas no campo. Mesmo quando realiza estatizações, sua finalidade é corporativizar toda a sociedade. Ele levanta a bandeira do nacionalismo, mas é sempre no sentido de negar a luta de classes, de negar os “elementos dissolventes do caráter nacional”. A nação como a negação da bandeira vermelha dos trabalhadores, a nação como conciliação do trabalho e do capital. Esse elemento reaparece até mesmo no fascismo bolsonarista. Krepe “esquece” a repressão brutal do levante antifascista da ANL em 35 e isso é intencional. E esquece que esse PC que ele detrata como “stalinista” rachou o exército nessa episódio e fez com que o comunismo fosse altamente levado a sério pelo exército e por todo o aparato de repressão brasileiro até hoje. E lembremos que Brizola e Jango não conseguiram efetivamente rachar esse exército em 64. Em 35 houve embate entre grupos no exército, em 64 não. Fausto Arruda, sociólogo, considerou-o o fundador do capitalismo burocrático brasileiro. Em outras palavras, do capitalismo selvagem brasileiro, esse capitalismo associado ao capital estrangeiro e ao latifúndio, em um importante artigo publicado em A Nova Democracia. Em primeiro, Vargas é uma figura muito mais oligárquica e conservadora do sistema do que Krepe imagina. Ele não foi contra as elites. Ele mesmo era uma figura da oligarquia gaúcha castilhista. Advogou, conforme Fausto Arruda, pela mudança dentro do pacto das oligarquias, até que não foi mais possível. Mas depois de sua quartelada, logo fez pacto com as oligarquias e imperialismos estrangeiros, optando pelo imperialismo yankee, que preferiu descartá-lo em 1945 em uma nova quartelada feita pelos mesmos generais reacionários que apoiaram sua ditadura fascista em 37. Os generais fascistas e os USA recusaram sua jogada perigosa com a URSS e os comunistas, pois só aceitam o serviçal por inteiro. No fim das contas, foi altamente perniciosa a aproximação dos comunistas com o social-fascismo varguista em 1945 e depois de 1954. Faltou realizar uma análise mais rigorosa do fenômeno desde sempre, o que não foi feito. Foram atraídos para um abraço de afogado em 1945-47, sendo ridicularizados “queremistas” e querendo “constituinte com Vargas”, para depois serem surrados em 54 por não apoiá-lo. Apanharam por apoiá-lo, apoiaram por não apoiá-lo. Constituinte com um inimigo da constituição, um espertalhão que advogava que “as constituições são como as virgens, nasceram para ser violadas”. Atacados pelas massas lumpen incitadas pelo varguismo —afinal, os varguistas sabem que os comunistas são seus inimigos e, com sua queda, poderiam se beneficiar —fazem aliança novamente, apenas para naufragar novamente em 64, apenas para perceber que, sem o líder, o projeto varguista já estava acéfalo e com a validade vencida desde 54. Os comunistas confundiram burguesia burocrática varguista com burguesia nacional. Não podemos reclamar porque até mesmo até hoje o equívoco continua e Frederico Krepe traz água para esse moinho, sem dúvida. E com o lulismo o erro continua vigente até a exaustão. Krepe apenas insiste em repor o varguismo como horizonte para pensar um projeto nacional, repor todos os equívocos sem aprender nada, enquanto o único horizonte possível é a nova democracia: no horizonte do país surge o dilema: nova democracia ou subcapitalismo (autocracia burguesa). Isso é querer girar a roda da história para trás devido à falência do projeto petista. Krepe sonha, em seus delírios platônicos e idealistas social-fascistas, que uma nova autocracia burguesa varguista possa assumir o poder e aí ele “galgar o caminho florido das posições”. Durante o período Vargas estavam vigentes leis que proibiam a imigração de pessoas de origem semita, ou seja, judeus. A ideia era trazer imigrantes para um projeto de embranquecer o país, imigrantes como os italianos, que se misturassem para que a raça branca fizesse valer sua superioridade “natural”. Daí que os judeus ficavam sendo esse grupo que não se integrava e não se prestaria ao projeto racista. A eugenia estava na Constituição de 34. O varguismo foi um projeto com data de validade. Na atualidade, o projeto petista assumiu seu lugar e, sob alguns aspectos, assumiu uma face de UDN operária, ligada a igreja católica (a doutrina social da igreja novamente, desta vez com liberais católicos criando o MST e tomando a bandeira da luta pela terra das mãos dos comunistas). Ao contrário do confronto anterior entre burguesia burocrática e burguesia exportadora, quando encenava-se um confronto entre desenvolvimentismo e entreguismo tendo como pivô a figura de Vargas, o confronto já é mais rebaixado: entre a UDN operária que congrega trotskistas, católicos liberais ligados ao partido democrata e burocracia sindical, opondo-se a UDN abertamente entreguista de Collor, FHC, Bolsonaro, Temer. Embora assuma faces grotescas de combate, não há projeto algum em disputa, bem menos do que antes. O que antes era esporte radical virou jogo de porrinha. Em termos de gerar confusão e divisões no seio do partido comunista brasileiro, o varguismo foi incrivelmente bem sucedido, bem como o sr. Darcy Ribeiro ao desenvolver na UNB as teses trotskistas. Krepe também apresenta essa face: por um lado flerta com Aldo Rebelo, hoje um bolsonarista mais abertamente fascista que advoga a anistia, por outro comunga com Jones Manoel em convescotes trotskizantes e bolivarizantes, tendo ao lado outros órfãos do lulismo. A evolução de Aldo Rebelo do PC do B revisionista ao fascismo aberto é digna de ser estudada por Elias Jabbour. Jabbour por um lado trabalha contra o Brasil para o imperialismo chinês e por outro para a degenerada burguesia burocrática carioca, com Eduardo Paes. Nada de bom pode sair de algo assim. Os revisionistas costumam, como o passar do tempo, assumir posições mais abertamente burguesas. Jabbour advoga tolices como “Lula se conciliou com Vargas na cadeia”. Absolutamente não ocorreu tal. Lula intui sabiamente que o projeto anterior da burguesia burocrática está falido, ao contrário das tolices de Krepe —até porque ele veio para parasitar sua carcaça. Lula não instaurará uma autocracia burguesa, abrirá alas para ela, como por pouco não aconteceu em 2022. . Foram todos muito bons nisso, desde Brizola falando em “socialismo moreno” e na prática seguindo o castilhismo fascistizante e autoritário. O trabalhismo, por sua natureza social-fascista, em suas alas à direita se aproxima do fascismo e à esquerda, liga-se ao trotskismo. Mesmo Nildo Ouriques e Jones Manoel apresentam essa oscilação, alternando-se entre os polos do bolivarianismo e do trotskismo em suas inúmeras variantes. Júlio de Castilhos gerenciou o estado do Rio Grande do Sul com reeleições sucessivas, concentração do poder no executivo e perseguição aos seus opositores. E o resultado de sua longa ditadura no poder foi uma guerra civil sangrenta. É bem curioso que o varguismo quase levou a essa guerra civil em 64 e o lulismo em 2022. As frações da burguesia sabiamente preferem a conciliação, pois a guerra civil sempre acelera a história; com ela, ambas terão muito a perder. Vargas assumiu um lado naquela guerra, era ligado a Borges de Medeiros e aos centralistas contra os federalistas que usavam lenço vermelho. O pai de Brizola era desse grupo que usava o lenço vermelho como símbolo, mas foi morto pelos seguidores de Borges de Medeiros, mas mesmo assim conciliou-se com eles. Tanto Vargas quanto Brizola utilizaram o lenço vermelho simbolizando uma conciliação local. Tanto Brizola e Vargas não deixaram a herança autoritária castilhista, pelo contrário, eles a dvogavam. Brizola, fundador do PDT onde pontifica o filósofo Krepe, advogava claramente que seu objetivo era transformar o Brasil num país como a Austrália, um país imperialista, ou seja, algo inatingível. Brasil jamais será país imperialista, ou será subcapitalista ou socialista. Krepe insiste em um hipotético “estado de bem-estar social brasileiro” que só seria possível se o país pudesse se tornar um país imperialista como a Austrália, país, inclusive, que mandou tropas para o Vietnã, segundo a ativista vietnamita Luna Oi comentou em vídoe recente. Por outro lado, Brizola, como o Kuomintang de Chiang Kai Shek, nunca escondeu que queria esmagar com uma mão o imperialismo yankee e com o outro o comunismo de Moscou. Para tanto, escudava-se na doutrina social da Igreja Católica (assim como fizeram ditadores fascistas como Mussolini e Dolfuss, da Áustria). Mesmo Hitler também conseguiu essa conciliação com a religião. Darcy Ribeiro, um trânsfuga do PCB que passou ao trabalhismo, igualmente serviu a essas ideias quando trouxe um não-marxista pernicioso e trotskizante, André Gunder Frank, para a UNB e disseminar teorias trotskiszantes contra o PCB de Nelson Werneck Sodré. Foi incrivelmente bem sucedido. Teorias semelhantes são até hoje hegemônicas na universidade brasileira em seus poucos núcleos que estudam marxismo. Francisco de Oliveira diz que o país não é subdesenvolvido, é um “ornitorrinco”, enquanto Florestan Fernandes chegou à absurda conclusão de que aqui temos um “capitalismo completo”. Todas teorias nessa linha de achincalhar as teorias do velho PCB que, apesar de tudo, elaborou hipóteses que devemos repensar, mas jamais levando em conta hipóteses tolas. Apenas porque o país tem industrialização dependente (e mais e mais, retrocede para economia agro-exportadora), é que devemos deixar de lado a hipótese de que é um país semifeudal e semicolonial. Vargas ao chegar ao poder aboliu a fachada podre de liberalismo e adotou no governo federal uma ditadura bastante similar ao seu castilhismo natal. E podemos dizer que nunca governou bem sem ela. Um dos motivos para seu suicídio em 54 foi não conseguir governar sem ser dessa forma ditadorial com a qual estava acostumado. Frederico Krepe liga-se ao PDT, partido que até bem pouco tempo estava na base do governo petista. E escreve na blogosfera petista, em blogs como O Cafezinho, Disparada, etc. Dialoga alegremente com o petucano Haddad em podcasts conservadores, etc. E defende que não chamemos Vargas de fascista. Mas o que dizia de Vargas o professor Marco Aurelio Garcia, um importante intelectual petista já falecido? Vejamos sua fala citada numa coletânea de Martha Hornecker: No caso brasileiro, a única forma pela qual a classe operária tinha aparecido na política brasileira tinha sido através do mecanismo do populismo, muito submissa ao Estado. Alguém poderá dizer que na Argentina também houve populismo, mas na Argentina surgiu através de um movimento operário já muito organizado e forte, que tem uma certa capacidade de negociação com o líder, o Perón. O presidente argentino tem que fazer mais concessões aos sindicatos e, por isso, o peronismo é muito mais radical que o varguismo. No caso brasileiro, o varguismo tem uma inspiração fascista muito mais pronunciada, a idéia de paz social, de equilíbrio, de modelo corporativo. (Garcia, Marco Aurélio. Apud: HONECKER, 1992: p. 28) Essa posição era a predominante nos primeiros tempos do PT. Ela só mudou a partir de quando Lula chegou ao poder em 2002. Sua posição passou a ser simpática a Vargas, mas simpática principalmente a uma de suas práticas: corporativizar os sindicatos com o nosso velho estado. Autocracia Burguesa ou Nova Democracia Krepe não verá realizados seus sonhos mofados de uma nova autocracia burguesa que caminhe para um “projeto nacional” (quando em realidade é da burguesia burocrática) e que saiba “mediar conflitos sociais” corporativizando as massas. O que surgiu no horizonte desde 2013 é uma autocracia burguesa que garanta a situação semicolonial, o semifeudalismo. Krepe não verá um outro autocrata burguês que como aquele que “(…) suspendeu a ordem liberal para construir instituições de Estado”. Ao dizer isso, depois não adianta reclamar que é ruim “associar nacional-desenvolvimentismo a autoritarismo” —se você acaba de fazê-lo. O dilema do Brasil em nosso tempo é entre autocracia burguesa ou nova democracia, subcapitalismo ou socialismo. A tentativa de reviver PTB de Vargas é uma tentativa de arregimentação dos trabalhadores em prol dos interesses de um setor da burguesia burocrática-latifundiária no capitalismo selvagem. Seus rótulos e apelos ao estilo desse de Krepe sobre Vargas sempre os tornarão massa de manobra para seus objetivos. Frederico Krepe https://fredkrepe.substack.com/p/por-que-getulio-vargas-nao-foi-um/comments?utm_source=post&comments=true&utm_medium=web>>

Memórias do Subdesenvolvimento

Memórias do Subdesenvolvimento Para Glauber Rocha, o filme Memórias é a execução do intelectual pequeno burguês. Vejamos o que ele diz: “o melhor filme cubano, e esta é a opinião mundial unânime, é Memórias, porque é a execução do intelectual burguês com o rigor antimoralista capaz de convencer os inimigos do comunismo à revolução” (ROCHA, 1997, P. 466). Lembremos, no entanto, que há uma ambiguidade em centralizar a narrativa em um contrarrevolucionário –ele não deixou de ser o herói do filme. Gutierrez Alea focalizou seu filme em um contrarrevolucionário, Sergio. E não foi o único filme em que ele fez isso: Os Sobreviventes também é focado em uma família de contrarrevolucionários; o filme mais famoso de Gutierrez Alea, Morango e Chocolate, nos anos 90, também tem como eixo a relação entre um militante e um gay religioso que lê Vargas Lhosa (rompido com Cuba por ocasião do caso Padilla, em 1971). Sergio também ressalta o subdesenvolvimento que, apesar da revolução, em Cuba continua existindo. “Nada mudou”, diz ele. “É uma Tegugigalpa do Caribe”, diz ele, ou seja, cidade pequena, provinciana, subdesenvolvida. E de fato continuou: mudou de caudilho (de Batista para Fidel) e mudou de amo (do imperialismo yankee para o social-imperialismo soviético), mas continuou dependente, subdesenvolvida. Sarcasticamente, Sérgio comenta que é cômodo ser comunista em Paris, como Neruda. Esses comodistas deveriam “ir para Cuba” – lema hoje onipresente no Brasil. A queixa dos cubanos em relação ao discurso dos estrangeiros do esquerda é muito recorrente e também aparece nos textos de Alina Hernandez, professora de História de centro-esquerda, no Centro Cívico de Cuba. Essa consigna reapareceu depois com Reinaldo Arenas, o romancista de Antes que Anoiteça, no filme Conduta Impropria e, possivelmente, a partir daí ganhou o mundo. O filme Memórias passa das falas de Sergio sozinho vendo Havana à distância para uma fala mais alinhada com o castrismo a respeito do desembarque dos dissidentes em Playa Girón (Baía dos Porcos). Não eram os homens de Batista que chegaram ali e sim os liberais que se sentiam traídos por Fidel, com objetivo de ajudar a guerrilha liberal em Camaguey que começou em 1961 e foi até 1965, mais, inclusive, do que a guerrilha de Sierra Maestra. No filme, analisa-se que os homens que chegavam a Baía dos Porcos era uma miniatura de uma sociedade burguesa: havia um padre, um empresário, um filósofo e, finalmente, um torturador. Calvino, o torturador, traz a verdade do grupo: “sou parte de um grupo”, enquanto o padre diz: “não é porque fiz parte da conspiração que sou um conspirador, meu papel foi somente espiritual”. A verdade do grupo burguês estava no assassino. Vale ressaltar que a abordagem do desembarque em Playa Girón é engajada com a versão oficial. O que se pode dizer, no entanto, é que os camponeses de Camaguey e os camponeses em geral queriam terra, mas não foram atendidos, passaram a trabalhar em fazendas estatais ganhando pouco dinheiro. É muito importante esse ponto, pois comprova a teoria da revolução da nova democracia e nega as ideias trotskistas: a coletivização é um processo gradual, sem atender aos camponeses numa primeira etapa de nova democracia. O desembarque em Playa Girón era para dar força para a guerrilha liberal em Camaguey e, não obstante, essa guerrilha continuou até 1965. A abordagem dos acontecimentos de Playa Girón de forma a coincidir com a propaganda do castrismo a respeito foi uma passagem conflitante e inverossímil do filme. Um contrarrevolucionário não poderia dizer aquilo.

Fidel e os Tempos do Gatilho Alegre

Ramos Grau San Martin estava no seu segundo mandato, no ano de 1945. O primeiro tinha sido nos anos 30, o governo dos cem dias. Cuba tinha propensão a resolver as coisas na base do revólver. Em 46, a corrupção já estava muito disseminada. A violência política virou o pão de cada dia. De 1944 a 1948 foram 64 assassinatos políticos. Centenas desses revolucionários eram pagos pelo estado, como no ministério da educação. Essas pequenas organizações (MSR, UIR) matavam antigos policiais de Batista e Machado. E também se matavam entre si em rixas armadas violentas. A universidade de Havana era um epicentro dessa violência política. Enrique Ovares, antigo líder estudantil, comentou que, para essa geração de Fidel, era bastante válido o assassinato politico. Nessa conjuntura é que chegou a Havana para estudar Direito o jovem Fidel Castro, um rapaz superdotado e ambicioso, mas complexado por ser filho bastardo. Ele de início entrou no MSR, Movimento Social Revolucionário. Eles exigiram um atentado como ritual de iniciação. Ele e seu grupo supostamente o fizeram, mas não mataram Leonel Gomez Pérez, o líder estudantil rival, líder da União Insurrecional Revolucionária. No entanto, eles erraram o alvo e feriram outro estudante e um menino de doze anos. A UIR marcou Fidel por isso. Fidel passou então a desenvolver a obsessão com segurança –e com bastante razão. E também a tendência a recorrer ao terrorismo individual contra os seus rivais, assassinando-os, resolvendo as diferenças na base do assassinato, mesmo na esquerda. Ele não tinha conseguido entrar no MSR e tinha se queimado com a UIR. Poderia, então ser morto e ficou preocupado com isso. Procurou, então, graças a um amigo em comum, o líder da UIR, Emilio Tro Rivero, veterano da Segunda Guerra Mundial. Fidel pediu perdão a Emilio Tro e foi aceito na UIR. A tarefa passou, então, a atacar um líder importante da organização da qual tinha acabado de sair. E o grupo de Fidel supostamente esteve envolvido na morte de Manolo Castro (que não era parente), presidente da Federação Estudantil Universitária (FEU). Num domingo de carnaval de 1948, dois homens mascarados balearam e mataram Manolo Castro na saída de um cinema. Castro foi preso devido a esse assassinato, mas um colega do curso de Direito, Frank Balart, da família Diaz-Balart de quem era amigo e até se casou com uma deles (Mirta Diaz-Balart, sua única esposa oficial), conseguiu tirá-lo do processo. Castro foi a Colômbia para fugir do processo político, mas também envolveu-se em violência política no chamado bogotazo. O conflito entre MSR e UIR escalou até o massacre de Orfila, onde foi morto o líder da MSR, Rolando Masferrer, uma verdadeira campal entre as duas organizações. No verão de 1948, foi morto Oscar Fernandez Caral, um sobrevivente do MSR no massacre de Orfila. Castro foi indicado pelo assassinato, mas o caso foi encerrado por falta de provas. Fichado pela polícia desde 1949, Castro estava também muito marcado pela UIR, o que deixou-o paranoico e deu trabalho a seu pai, que teve de ajudá-lo a pagar sua defesa nos processos. Rolando Masferrer perseguiu Castro várias vezes, quando ele aparecia, Castro voava para outro lugar. A saída de Castro foi formar-se e mudar de vida, queimado como estava. Casou-se com Mirta Diaz-Balart, mulher de alta sociedade e família ligada a Batista, abriu escritório de advocacia e passou a sonhar em candidatar-se ao parlamento. O golpe de Batista em março de 52, instalando uma ditadura, fazendo com que o presidente Prio Socarrás tenha de se exilar, frustra a carreira política de Castro. E ele tenta, então, trazer sua experiência nas organizações revolucionária para a juventude de um partido legalista, o Partido Popular Cubano. E daí parte com a juventude ortodoxa de origem pobre para ação violenta em La Moncada, mas essa é outra história. Fidel Castro e os Tempos do Gatilho Alegre, Enrique Ros.

João Carvalho e Cuba

João Carvalho e Cuba João Carvalho, admirável professor e ativista, editorialista de A Nova Democracia, comenta por vezes um tema muito caro a nós, a revolução cubana. Algumas de suas posições me parecem problemáticas. Ele chega a afirmar que os Estados Unidos deveriam deixar Cuba evoluir tranquilamente sem embargo, de forma que pudessem, então, verificar que o socialismo de fato funciona. Essa declaração tem dois problemas: 1) considerar que o arquiimperialismo estadunidense poderia permitir esse tipo de evolução naquele período, o que é ignorar a natureza agressiva do imperialismo, é ser kruschevista e acreditar na “emulação pacífica”. 2) Considerar que Cuba construiu efetivamente o socialismo; supomos que Cuba mais se declarou socialista do que efetivamente foi além do capitalismo de estado e completou a revolução democrática. João Carvalho cita o vídeo de Michael Parenti, em que Parenti começa dizendo que não se importa se chamamos Cuba de capitalismo de estado, chame da forma que quiser. Isso já é um erro grave. É muito importante termos uma análise crítica a respeito dessa experiência que se diz socialista. A partir disso, Parenti ressalta que foi a Camaguey (justamente onde houve mais repressão a camponeses devido a uma guerrilha liberal) e alega que lá disseram que, ao contrário de antes, no tempo do Batista, agora havia saúde e não havia mais analfabetismo. Mas a educação cubana é usada para a propaganda do castrismo, a educação, segundo Frank Garcia, do blog comunistas, não é dialógica como Paulo Freire pensava. Foi importante fornecer esse serviço de saúde em Camaguey justamente para debelar a rebelião que durou de 61 a 65, mais do que a rebelião de Castro em Sierra Maestra. Se Che quisesse combater, ele poderia ficar e combater essa guerrilha. Portanto, Che partiu para o exterior por outros motivos –sua excessiva criticidade foi um deles. Creio que sim, é verdade, houve melhoras desses índices, mas vendo no que deu hoje em dia, creio que é injustificável o grau de repressão contra quem pede simplesmente “energia” e “comida”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Sobre a Entrevista de Aleida Guevara no Podcast Três Irmãos

Sobre a entrevista de Aleida Chevara: ela fez bem em criticar os Conselhos de Defesa da Revolução, pois hoje eles se tornaram uma micromáquina de repressão, alguém cobiça a mulher do vizinho, aí faz uma denúncia política contra o vizinho e consegue que ele seja preso, facilitando seu intento. Virou um lugar de fofoca e denúncia falsa. Igualmente, ao responder sobre o paredón, os fuzilamentos aleatórios, realmente vale o questionamento, pois Castro e Che lutaram não como comunistas, mas numa frente prometendo eleições e restauração da Constituição de 40. A Constituição não permitia pena de morte. Ao contrário do que disse Aleida, Che não estava cumprindo as leis, de fato, estava descumprindo suas promessas durante o período da guerra civil e, ademais, mostrando que Castro não repetiria o erro de Batista com ele, ao anistiá-lo e permitir-lhe fazer de seu julgamento um tribunal para que ele conseguisse seu intento com Moncada, que era projetar-se como uma figura de expressão nacional na oposição a Batista, coisa que ele não era em março de 1952. Sobre o documentário de Eduardo Moreira, Vai para Cuba, apresento três pontos: 1) Betto fala coisas como o governo dá cesta básica para cada família; o que é mentira. 2) Não trata da monocultura de açúcar e seus problemas, nem do fato de que Cuba hoje importa oitenta por cento dos alimentos; 3) Diaz-Canel defende-se da acusação de neoliberal. Mas quem acusou? O próprio documentário fala em “socialismo” o tempo todo.

Críticas ao Filme Vai para Cuba, Eduardo

<i>Críticas ao filme Vai para Cuba, Eduardo O filme é bom em termos técnicos, mas a presença de Frei Betto é comprometedora. No jogo sujo das eleições burguesas, é muito comprometedor alguém se apresentar como representante de Jesus Cristo na Terra. Ele mente que o governo dá uma cesta básica para todo cubano, a realidade é o exato oposto, há escassez e desabastecimento, enfim, há fome em Cuba. Os conceitos religiosos apenas complicam. Frei Betto deveria analisar a situação de Pedro Luis Boitel, estudante católico progressista que participou na revolução e que se opôs ao corporativismo fascista que Castro ao propor chapa única na Federação Estudantil Universitária, bem como acabar com a autonomia universitária, algo que nem o ditador Batista ousou fazer. Discurso por unidade não é marxismo. Boitel ficou preso de 1961 a 1971 e não foi solto, morreu em greve de fome. Beto precisava tocar nesse mártir do liberalismo católico. Para nós, é unidade na diversidade. Beto buscou tornar a igreja católica um braço do castrismo, buscou corporativizar a igreja, que é uma opositora até hoje do regime castrista. Outro ponto: a questão dos alimentos. Cuba não produz os alimentos que ela consome, importa oitenta por cento dos alimentos. Ali se promete que irá conseguir, etc e tal. Não se toca na monocultura do açúcar. Para romper a monocultura, é preciso uma revolução cultural tanto lá quanto aqui. Nem o Brasil consegue superar a monocultura para exportação para obter dólares. Cuba está, então, numa situação semelhante ao Brasil nesse ponto. E finalmente: no documentário Diaz-Canel rechaça quem o chama de neoliberal. Na realidade, ele preocupa-se em rebater essa acusação devido ao arrocho, o pacote ao estilo neoliberal que estão vivendo em Cuba. Mas quem chamou Diaz-Canel, o líder do “socialismo” cubano, de neoliberal? A quem Diaz-Canel responde?

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Vida e Morte da Revolução Cubana

Vida e Morte da Revolução Cubana “Impressionou-me ver tantos símbolos revolucionários atirados ao chão e pisoteados (...), inclusive um retrato enorme de Che Guevara (...). Entre os símbolos vi, por um instante, o cadáver de meu pai e de seus companheiros, estavam todos ali, pisoteados e ensanguentados.” Jorge Ricardo Masseti, O Furor e o Delírio. Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior No ano de 2016, traduzi um texto do Partido Comunista do Equador, de linha maoista, denunciando a bancarrota do revisionismo cubano. Desde então o que o artigo apresentava está mais e mais se realizando: sem conseguir fornecer água, luz elétrica, comida e outras condições mínimas às massas, o revisionismo cubano provocou um levante das massas em julho de 2021. O desafio é entender com o marxismo o processo histórico que fez com que chegassem a essa situação degradante de hoje sem simplesmente repetir o argumento de que tudo é culpa do embargo do imperialismo estadunidense –sem deixar de lado que a guerra econômica dos Estados Unidos é um elemento, sem dúvida. De todos os desdobramentos, um dos mais trágicos foi a morte de Che Guevara, ponto que focalizaremos aqui. A revolução cubana foi uma esperança. No entanto, ela foi uma revolução democrática incompleta. A revolução democrática implica em se desvincular de qualquer imperialismo e criar capitalismo autônomo e minifúndio. Nossa suposição é que houve a passagem de um caudilhismo a outro, sem transitar para socialismo e sim para um capitalismo selvagem pintado de vermelho. E de um imperialismo ao outro. Há avanços em termos de saúde e educação, pois em termos de América Latina, é um estado burguês mais evoluído: legalizou o aborto, por exemplo. No entanto, em termos mais gerais, ao analisar o processo podemos dizer que revolução democrática refluiu foi decapitada pelo grupo de Castro. E esse ponto vale a pena desenvolver aqui, pois em certa medida, o próprio Che possivelmente foi um alvo, conforme os indícios que obtivemos na revisão bibliográfica. Che Guevara nunca participou de partidos comunistas no decorrer de sua vida e deixou bem claro que recusava neles um ponto em especial: sua disciplina. O que é bastante curioso, pois o próprio Che assume ser autoritário, mas nunca indisciplinado. E isso em dois momentos: na Guatemala e no México. Carlos Franqui, jornalista que esteve em Sierra Maestra, encontrou-se com Che naquele período pré-revolução no México e viu que ele estava lendo Fundamentos do Leninismo, texto de Stálin em que ele sistematizou o marxismo-leninismo. E logo a seguir questionou Che a respeito do relatório Kruschev. Che teria respondido, então, que Kruschev estaria iludido pela propaganda do imperialismo norte-americano. Podemos dizer que Che era um aventureiro eclético e não um marxista propriamente. Como Che era eclético, ele ao mesmo tempo criticava trotskistas e adotava um pilar do pensamento trotskista, o antietapismo. Para isso, ele delimita que a revolução cubana já teria vencido a etapa nacional e democrática no período da guerra civil de 1952-59. Tanto no texto de Debray (Revolução na Revolução?) quanto na Tricontinental reaparece a concepção da “revolução socialista de um só golpe”, ou seja, “revolução socialista ou caricatura de revolução”. Podemos considerar que essa concepção foi compartilhada por Che e Castro. Esse ponto do antietapismo é importante, pois rompe a aliança operário-camponesa: os camponeses em geral se engajam na revolução sonhando com o minifúndio e não em trabalhar assalariado em fazendas estatais capitalistas, que foi o que ocorreu em Cuba. Sendo assim, Che pouco agregou do pensamento Mao Zedong, mesmo tendo visitado a China, mas há alguns pontos em que permaneceu compatível com a linha chinesa, como numa carta a Armando Hart (que chegou a ser ministro da educação em Cuba), quando montavam um programa de estudos de marxismo no pós-revolução cubana: (...)Já está sendo feito, mas sem nenhuma ordem e faltam obras fundamentais de Marx. Aqui seria necessário publicar as obras completas de Marx e Engels, Lenin, Stalin [sublinhado por Che no original] e outros grandes marxistas. Ninguém leu nada de Rosa Luxemburgo, por exemplo, que tem erros em sua crítica a Marx (volume III), mas ela foi assassinada, e o instinto do imperialismo é superior ao nosso nesses aspectos. Também estão desaparecidos pensadores marxistas que mais tarde se desviaram do caminho, como Kautsky e Hilfering (não escrito assim) [Che está se referindo ao marxista austríaco Rudolf Hilferding], que fizeram contribuições, e muitos marxistas contemporâneos, não totalmente escolásticos. VII). Aqui viriam os grandes revisionistas (se quiser, pode incluir Khrushchev), bem analisados, mais profundamente que ninguém, e deve estar seu amigo Trotsky, que existiu e escreveu, ao que parece. (32) (CHE, apud: KOHAN, 2025). Note-se, então, no texto acima, que Che mantinha uma posição totalmente compatível ao maoismo: Trotsky e Kruschev são grandes revisionistas e Stálin foi um marxista-leninista. Infelizmente, o antietapismo de Che parece ser um elemento que compromete seu pensamento com o trotskismo de forma grave. Em linhas gerais, podemos dizer que Che apostou tudo num revisionismo armado e, contava com isso com a linha soviética, embora tivesse essas críticas. Che Guevara, embora nunca atacasse diretamente a linha chinesa e até tivesse tentado fazer contato com essa linha em sua aventura africana, foi conivente como os absurdos que faziam Castro e Debray a respeito. Um exemplo é terem trazido Debray a Cuba depois que ele escreveu o artigo “Castrismo, a Longa Marcha da América Latina”. Ou seja: além de não concordar, as ideias de Che, Castro e Debray abertamente sobrepunham as de Mao na América Latina. A vinda de Debray consagrou esse objetivo. Esse antietapismo juntou-se a outros fatores em Cuba e produziu uma guerrilha liberal na região de Escambray que durou de 1961 a 1966. Carlos Franqui ressaltou que o governador do PC degenerado, Felix Torres, reinstalou o regime do pagamento em trabalho (estilo corvéia ou cambão, de pagamento em trabalho não remunerado), odiado pelos camponeses, bem como criou um harém de garotas camponesas, outro elemento presente nos abusos dos senhores feudais: o uso e abuso do corpo das mulheres dos camponeses, presente no chamado direito de pernada, direito que o senhor feudal se arrogava de deitar na primeira noite de núpcias com a esposa do camponês. Um aprendizado muito importante é que o governador revisionista do PC cubano de linha soviética simplesmente recolocou esses elementos feudais e causou uma revolta camponesa armada de vários anos –o que confirmou, a nosso ver, as consequências do revisionismo e do antietapismo. Inclusive é bem importante ressaltar que o desembarque da Baía dos Porcos era em grande parte dos liberais traídos pelo castrismo e não dos homens de Batista. Esse desembarque aconteceu para ajudar a guerrilha em Escambray e foi derrotado. Ou seja, Che, se queria lutar, poderia ter permanecido em Cuba e lutando em Escambray contra uma guerrilha anticastrista. Em carta durante a guerrilha em Sierra Maestra, Che observou com argúcia que Castro não buscava as soluções no mundo socialista como pensava Che. Alimentava, ainda, ilusões a respeito do mundo liberal e ocidental e era um burguês de esquerda e não um socialista. Diante disso, Che avaliou que se o processo se virasse para a direita ele partiria para novas aventuras. E assim foi e por isso ele partiu em 65. Mas precisamos detalhar esse processo. Primeiro, Che já pensava o que apontei; Castro como um burguês de esquerda e o risco do movimento cubano virar à direita (e isso ocorreu). Uma vez como ministro da economia, Che se opôs a Rafael Rodriguez (ex-ministro de Batista e figura de proa do PC revisionista, intitulado Partido Socialista Popular) proposta vinda da União Soviética, que propunha empresas autônomas sem planejamento central. Com o passar do tempo, na União Soviética, esse modelo destruiu o socialismo, instalou capitalismo de estado e daí evoluiu para um capitalismo clássico entre 1989/91. Em Cuba parecem estar num processo semelhante. Che propôs planejamento central ao estilo dos anos 30 e terminou derrotado. Como ministro da economia, Che anotou em seus diários, somente editados apenas recentemente nos anos 2000, que o Comecon era um “balaio de gatos”, não tinha um ideal que somente poderia se estabelecer pela verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas este, lamentavelmente, “está ausente hoje em dia”. Ao analisar a realidade em um cargo privilegiado em informações, fatos e dados, Che chegou quase que às mesmas conclusões dos comunistas de linha chinesa. Na prática, Che verificou o social-imperialismo soviético, só não o chamou desse nome. Verificou “fenômenos de expansionismo, de troca desigual, de concorrência, até certo ponto de exploração e certamente de submissão dos Estados fracos aos fortes”. De constatação privada, Che levou um fragmento dessa reflexão a Argel, onde afirmou que os países socialistas estavam agindo de forma cúmplice com os imperialistas na exploração do terceiro mundo. A fala causou conflito com a linha cubana, mais e mais servil ao social-imperialismo soviético. Logo a seguir, já lutando no Congo, Che escutou pelo rádio, ao lado de Benigno, a famosa carta onde ele abre mão dos cargos. Benigno contou que Che ficou irritado, pois a carta era para ser lida somente se depois que ele morresse em combate. E que teria dito: “até onde [Fidel Castro] é capaz de chegar em nome do culto da [sua própria] personalidade”. Se sem ele morrer foi lida essa carta, a ideia era anunciar a ele, se estivesse vivo, que não deveria fazer críticas como as de Argel e nem retornar a Havana, era demonstrar que ele estava sendo abandonado pelo regime cubano em prol de centralizar a liderança somente em Fidel Castro com decapitação dos demais líderes de seu movimento. Daniel Alarcón Benigno, militar cubano que participou da revolução cubana, escreveu a respeito de seu convívio com Che. Daniel, rompido com o castrismo desde o fuzilamento do general Ochoa em 1989, alegou em seu livro Vida e Morte da Revolução Cubana que Che e seu grupo foram abandonados para morrer na Bolívia. A respeito disso, Benigno alegou que, em circunstâncias igualmente dramáticas, na selva da Venezuela, conseguiu contornar a situação com base no apoio de Havana: Bem, eu digo que Castro nos abandonou nas selvas bolivianas. Existem muitos fatores. Primeiro, sei perfeitamente tudo o que [os cubanos teriam] sido capazes de fazer para tirar alguém de qualquer lugar. O caso de Arnaldo Ochoa (revolucionário cubano) é um exemplo. Quando Arnaldo Ochoa foi à Venezuela lutar ao lado de Douglas Bravo (revolucionário venezuelano), mas as relações entre o movimento venezuelano e o Partido Comunista Cubano se romperam, Arnaldo Ochoa teve que fugir atravessando as selvas brasileiras e Cuba parecia interessada em saber tudo o que aconteceu na Venezuela, fez tudo e se esforçou para ajudar não só Arnaldo Ochoa, mas também seu grupo, a sair pelas selvas brasileiras. E isso foi muito próximo da época. Especificamente naquela época em que Che Guevara estava na Bolívia. E ele abandonou Che Guevara e nos abandonou (BENIGNO, 2024). Para nós brasileiros a citação acima é incrível, pois no período em questão, fugir atravessando as selvas brasileiros deve ter sido fugir através de Roraima e Amazonas, estados próximos da Venezuela, para algum ponto do Brasil de onde foi possível que um grupo guerrilheiro tivesse voltado a Cuba sem que ninguém descobrisse, o que não deixa de ser um feito incrível. Essa acima é a posição de Daniel Benigno e ele a reforça com outras observações: em Bolívia ele receberam uma emissão de rádio vinda de Havana, pois tinham um rádio comunicador, mas totalmente confusa e sem sentido. Na Bolívia, os contatos que Guevara esperava não existiam. Nem sequer a língua dos povos originários da região escolhida tinha sido informada e estudada corretamente: os nativos de Nancahuazu falavam tupi-guarani e não quéchua, língua que Che e os outros estudaram. Mario Monje, líder do PC boliviana, viajava à Bulgária, mas não tinha sido informado por Havana do porquê da vinda de Che (“para quê veio”, pergunta Monje ao vê-lo, conforme o Diário de Che na Bolívia). Conclusões Che foi um aventureiro eclético e não um marxista; seu pensamento, embora tenha valor, foi comprometido seriamente por incorporar o antietapismo trotskista, pensamento que teve como consequência, em Cuba, facilitar uma guerrilha civil de direita. Castro conduziu o processo a um retrocesso, a um cóagulo histórico. De uma revolução democrática embrionária, regressou-se a um capitalismo de estado burocrático pintado de vermelho, organizado politicamente como um caudilhismo. Castro era um burguês de esquerda e sempre foi, embora tenha adotado tintas de revisionismo kruschevista, linguagem marxista-leninista. Che teve intuições do processo de transformação do socialismo em social-imperialismo, mas não se aprofundou em suas análises; igualmente, em carta considerava Stalin marxista-leninista e Kruschev e Trotsky revisionistas, ou seja, tem pontos compatíveis como o que hoje chamamos maoismo, mas são pontos isolados, no todo seu pensamento se liga ao revisionismo armado e ao trotskismo antietapista. O processo virou para a direita mais claramente depois da saída de Che, pois representou também a derrota de sua linha crítica. Che possivelmente foi abandonado por Castro na Bolívia, abandono esse que foi prefigurado pela leitura da carta demitindo-se dos cargos, carga essa que só seria lida após sua morte e significou seu abandono simbólico pelo regime cubano já no período da aventura africana.

sábado, 20 de setembro de 2025

Krepe e o "socialismo" não-soviético

Krepe e o “socialismo” não-soviético Causou polêmica recente, em meu canal do youtube, a minha contestação da fala de Frederico Krepe, um trabalhista platônico ligado ao PDT lulista e ao cirismo ao mesmo tempo. Ele reiterou, em debate recente, que a URSS de Stálin mandou um espião para matar Tito. No entanto, não encontrei evidências ou provas materiais para isso até hoje. A fala circula como piada e como memória oral. Num vídeo recente, onde reformistas de linguagem marxista confrontavam os social-fascistas trabalhistas, os social-fascistas pegaram o anticomunista Jones ao escolher justamente a linha maoista como seus alvos: Stálin, Pol Pot, revolução cultural. A solução de Jones é negar tudo, alegar que Pol Pot foi apoiado por Thatcher e Reagan, ou seja, ele estaria à esquerda de Pol Pot, o que é falso, visceralmente. Mas o importante não é esse ponto, é que Frederico Krepe criou, a partir dessa piada, todo um castelo nas nuvens: a ideia de que a URSS não aceitou outras experiências socialistas. Ele toma o exemplo de Tito e outros dois: o da Tchecoslováquia e da Hungria. E Kruschev, em vídeo, sai elencando outros argumentos anticomunistas, pinçados aqui e ali: 1) Krepe manifesta-se contra a dissolução da Assembleia Constituinte em 1918; algo desmistificado pelo próprio Lênin e que é defesa da ditadura capitalista sobre a forma da democracia burguesa; 2) repete as posições de Rosa Luxemburgo contra os bolcheviques em 1918, já bastante desmistificadas, pois Rosa estava mal informada e na clandestinidade na época; 3) retoma a carta ao stalinismo de Lukács, um texto bastante ruim em que Lukács retoma, na prática, conceitos como o “stalinismo” de lavra trotskismo. Che, num texto inédito da revista Praga, que tem uma frase que Fausto Arruda, fundador do jornal A Nova Democracia, comentou comigo aqui em Bom Despacho na única conversa que tivemos quando de uma rápida visita desse grande sociólogo aqui em minha cidade: E por exemplo, aquela coisa tão interessante, que o companheiro Kruschev havia dito na Iugoslávia, que inclusive, mandou gente para estudar ali. que o companheiro Kruschev havia dito na Iugoslávia e que lhe pareceu tão interessante, nos Estados Unidos está muito mais desenvolvido porque é capitalista (...).. Mas isto acontece na Iugoslávia. Na Polônia, vai-se pelo caminho iugoslavo, claro, retira-se toda uma série de coletivizações, retorna-se à propriedade privada da terra, estabelece-se toda uma série de sistema de trocas especiais, tem-se contato com os Estados Unidos. Na Tchecoslováquia e na Alemanha Oriental já se começa a estudar também o sistema iugoslavo para aplicá-lo (GUEVARA, 1998, p. 126). Ou seja: o próprio Che já considerava que o bloco socialista já estava retornando ao capitalismo. E Krepe não sabe isso até hoje. Ele idealiza os acontecimentos da Hungria em 56, que são contrarrevolução, bem como a Primavera de Praga. Paul Sweezy, citado no artigo de Che acima, mostra como é bobagem completa o que diz Frederico Krepe, tanto sobre a Iugoslávia quanto a Tchecoslováquia: «O capital ocidental assegurou-se de uma importante testa de ponte na Jugoslávia e contribui para transformar o que outrora não passava de um país principalmente agrícola num novo Estado industrial. Investimentos efectuados por empresas tão diversas como a Fiat, o gigante italiano do automóvel, e a Printing Developments, Inc., de Nova Iorque, uma sucursal de Time Inc., são característicos, ao mesmo tempo, das imperiosas necessidades que o capital tem de novos mercados e dos objectivos conscientes de um país comunista que aceita a economia de mercado e a maior parte das suas consequências. Conversas com os representantes oficiais de Belgrado que se especializam nas actividades económicas demonstram a sua firme convicção de que esta via será seguida pelos outros países da Europa Oriental. Para eles, a Jugoslávia desempenha um papel pioneiro no Leste e constitui uma vitrina de exposição para o capital ocidental. As sociedades ocidentais que atuem na Jugoslávia disporão de enormes vantagens ao nível da concorrência a partir do momento em que se abrirem mercados noutros países da Europa Oriental. Após as reformas que deslocaram a direcção das empresas, do Estado para as próprias empresas, e que introduziram a disciplina do mercado livre e o estímulo do lucro, a Jugoslávia promulgou uma lei igualmente revolucionária, no decurso do último ano, a fim de atrair o capital estrangeiro. Esta lei não deixou de encontrar uma forte oposição nos que temiam que o capital ocidental viesse dominar os sectores-chave da economia. Para precaver uma tal eventualidade, estipulou-se que o capital estrangeiro não tem o direito de adquirir uma participação superior a 4% numa empresa jugoslava. As companhias jugoslavas são dirigidas pelos seus trabalhadores através dos conselhos operários, que, por sua vez, designam um conselho de especialistas, tais como contabilistas ou engenheiros da produção, para gerir a sua empresa. De início, as sociedades estrangeiras hesitaram em comprometer-se, temendo que a regra que lhes impunha posições minoritárias as impedisse de controlar directamente os seus investimentos. Durante um seminário realizado neste país para homens de negócios ocidentais, os jugoslavos esforçaram-se por demonstrar que existem numerosas maneiras de contornar esta regulamentação, por exemplo, confiando ao investidor estrangeiro o controlo dos custos de produção. Os estrangeiros têm o direito de transferir lucros para fora do país na condição de manterem 20 % desses lucros sob forma de depósito num banco jugoslavo. Podem vender a sua participação a outras companhias estrangeiras na condição de começarem por oferecer essa participação à companhia jugoslava, que pode então resgatá-la. Esta lei produziu já resultados surpreendentes. A Fiat, que fornece as técnicas e a maior parte dos equipamentos produtivos de uma grande fábrica soviética de automóveis, investiu dez milhões de dólares numa companhia jugoslava, a Crvena Zastava (Bandeira Vermelha), que fabrica automóveis Fiat sob licença. A sociedade americana, segundo informações publicadas na Jugoslávia, lançou-se numa empresa comum com a Beogradski Graficki Zavod (Sociedade Gráfica de Impressão de Belgrado) para efectuar impressão a cor utilizando novos equipamentos excepcionalmente rápidos provenientes dos Estados Unidos.» (SWEEZY Assim, nota-se que Krepe está tomando a nuvem por Juno, como todo idealista faz.Krepe é a ala esquerda do trabalhismo, ou seja, uma ala que flerta com o trotskismo. Ele também flerta com a ala direita, próxima do fascismo, que é Aldo Rebelo. E essa foi a trajetória de Krepe: ele esteve próximo do PSTU e do PSOL, formando sua forma altamente sofisticada de trotskismo. E são os trotskistas que verifiquei repetindo essa história dos espiões querendo matar Tito, ainda que sem evidências materiais. Bibliografia Checoslováquia Capitalismo e Socialismo. >

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Descaminhos, Prosa do Adorável Sílvio Neves

Descaminhos, Prosa do Adorável Sílvio Neves (Descaminhos, Sempre-Viva, 2021) traz um Sílvio Neves mais translúcido, menos barroco do que o anterior Ecos de Não-Lucidez. Nesse temos a adorável prosa do adorável Sílvio Neves. Na trilha de Rosa, temos não a nonada, mas a “inopinada”. O primeiro conto é uma história de amor e nostalgia contada com muito estilo. A história de Nereu e Falésia tem ressonâncias mitológicas, uma história de amor com sabor grego de mar. Eu gosto de Sílvio líquido (Estranhez, seu livro de poemas), Silvio Sólido (música com Pablo Aquiles). As obras de Sílvio são como os ladrilhos alucinógenos em que ele vê, em cada uma das telas, uma imagem de sua vida, uma história, uma música, narrativas. Ele apresenta Nereu: Nereu nasceu na proa do velho Aricó, o imemoriável barco de seu pai. Na margem, o povo via o velho pescador sacudir o menino vermelho, envolto em sangue, idêntico à cor da embarcação, vermelha como o peixe inspirador do nome de batismo do barco grafado em letras brancas. Ele bradava sorrindo: “É caguçu, cacuçu baixu!” (NEVES, 2021). Olegário Maciel é a avenida adversativa, representa um passeio por essa avenida que representa um passeio pela mente do artista atormentado, do poeta lírico, boêmio e suas memórias doloridas, seus amores. Asegurada de Incêndios é bela uma carta fictícia da Espanha, num eu lírico feminino. O poeta, pelo contrário, não está seguro de incêndios, vive sua prosa e sua poesia plena deles. Em Olegário Maciel, Avenida Adversativa, ressurge a sensibilidade de Belo Horizonte num poeta, mas fazendo prosa: No azo de a porta de a Casa Cabana sugerir o fim do expediente, loja de chapéus e afins, resolveu amainar com uma boina o frio que se anunciava. No balcão leu e se inteirou sobre o estabelecimento: chamara-se Casa Cubana, por receio da revolução na ilha teve o nome alterado” (NEVES, 2021, p. 45). Lisboas, a Urbe Vitimada, é uma narrativa de viagem a Portugal, viagem apaixonante em que o artista reencontra-se consigo mesmo. É um deslocamento interior que corresponde a uma paixão interior, a um desabrochar literário e poético que termina em muito boa prosa. Aprendi até que uma forma de chamar Lisboa que achava absurda, “Lissabona”, é na verdade existente, com esse conto, que também tem a subdivisão “Belém, Belém”. Lisboas são parentes de viagem à Espanha. O Óculos dos Defuntos parte inopinadamente de uma nonada, uma simples consulta oftalmológica que dá lugar a devaneios etílicos e cinematográficos. Nesse livro de contos Sílvio ocupa-se menos da lente com que vê o mundo do que em filmar, à sua maneira, com a prosa literária, a sua “escadaria do acaso”. O adorável Sílvio de Neves recolhe casos do Vale do Jequitinhonha, registra seu falar: é nessa toada que vão Sem-Graceza, Árvaro Andejo, Sétimo Dia, O Acordeão Adormecido e Descaminhos. A Minas de Sílvio é o sertão metafísico de Guimarães Rosa. Se E sua poesia dialoga até com o Clube da Esquina. Tanto dentre os poemas e os contos somos instados a perguntar se os sonhos envelhecem ou são raptados pela fortuna. Na prosa de Sílvio ele esbate o regionalismo e a vida cotidiana no interior de Minas com a experiência sofisticada de viagens e influências artísticas internacionais, tem também um tempero de Belo Horizonte. Não acho que Sílvio esteja num descaminho. Esse Descaminhos é justamente o autor em busca de um caminho, muito além além da “escadaria do acaso”, o prosador é nem sempre seguro de incêndios, mas eles, como as bruxas, mesmo sem ser objeto de nossa crença, parece que existem.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Sobre Cuba --2

Aleida Guevara no podcast Três Irmãos coloca dois pontos interessantes: 1) sobre os CDR, conselhos de defesa da revolução. Há relatos de que estão degenerados em locais de fofoca e delação. Mas ela não foi ouvida. 2) Ela alega que Che fuzilou legalmente em La Cabana, mas não foi, a Constituição de 40 não permitia a pena de morte.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Poemas para Pedro Moraleida

Como no quadro de um homem nu Pintado por Pasolini No quadro nenhum monstro de moral Animal de enigma pintando Um corpo luminoso, preto, laranja Verde com pinça nos mamilos Os traços são violentos São fibras da carne viva Da própria carne canibália O poeta não está mais nem aí, Nevermind Shit’n’ walkin’ como na Revista Negócio Showbizz! Pop-fuckers Separando o joyo do trygo E publicando o joyo. Réquiem para um peso-pesado Para Jim Morrison Paris foi pouco Mucho loco! O amor fati é amar a dor Para que haja o superómi é preciso MORTE! Mas a morte é contra-revolucionária... O nada é de direita... Surgem novos valores, Gabeira de tanga John Travolta caindo na gandaia Superação ou morte? Ou não! A Internet é mar risonho & vagalhante Tomo um banho de lua, Fico branco como a neve, Num protesto viril contra a própria impotência. Mas há contradições: Os mitos se orientaram contra o socialismo, O colonizado se olhou com as lentes do colonizador. & esqueceu o socialismo como doença superada. A luta pelo mínimo estado & clama contra o fantasma de Vargas, vox rouca Na terra de sol: em todas as palavras do nórdico há um grão de desprezo O Anticristo da Bahia retruca, gira os guizos do mundo girassol & Deleuze: “Eu digo para mim mesmo: quem é hoje o jovem nietzschiano? (...) Será aquele que produz enunciados nietzschianos no decorrer de uma ação, Uma paixão, uma experiência?” Quero ordenhar-vos, vacas das alturas! Os nietzschianos brazyleyros TRANSBORDAM Traficam pornografia com criança e fogem para a França! O superómi pulará & se for fraco, fenecerá Como uma mariposa Como mosca nas rosas secas Como feto no Arrudas Como na planície dos MORTOS Cristo é que soube morrer, pois sim! Madalena é que gozava com o pau do outro Na última tentação de Cristo O amor banal O amor pungente dos animais A virtuose perversa da linguagem Feito Hamlet Feito Paulo Martins/Caetano Veloso Nos quadros de Bosch parece que vemos Moraleyda parece que também viu Caranguejos do sexo É assim que se vive nesse mundo merda “You don’t know me Bet you never get to know me” Dizia Rotten em Roliúde m Poema para Moraleida Mautner queria fazer os ditirambos de Dionísio Em ritmo de rock Será que Nietzsche gostaria? O artista botando frutos envenenados Para matar as gralhas do jardim plantado À beira-mar. Todo mundo tem Jesus Cristo demais Inclusive quem estava falando que seu sangue era nobre demais & se limpou na carne de Dionísios E não na lamacenta água de Jesus Cristo pensante Sem pensar, pirando e engolindo a tragédia Aos pedaços Pensando aos pedaços Amando aos pedaços O pulo é a morte O pulo é a trama do Superman Que não trepa com a Mulher Maravilha A elite planetária aparece no desenho animado Colonizado & colorizado por computador & com puta dor A dor do parto póstumo A virgem recebeu o anjo Tendo entre as pernas o amor fati! A verdade é como uma vaca!

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Lúcio Júnior — Efeitos Especiais de Georg Lukács

Lúcio Júnior — Efeitos Especiais de Georg Lukács Publicado em 13/07/2012 por Marcio Lukács é um autor interessante. Tido por stalinista por alguns, é um dos grandes inspiradores do marxismo ocidental, juntamente com Trotsky e Gramsci. Em um artigo recente de Brian Williams na revista Socialist Action, Williams explicou bem as diferenças entre Lenin e Lukács. Resumindo, são as seguintes: para Lukács, o importante é que o sujeito conheça o objeto, ou seja, que a classe proletária tome consciência de si mesma: aí ela está pronta para a revolução. Para Lenin, a revolução não depende somente da própria classe operária e sim da correlação das classes, massas, partidos e forças, assim como, num dado país, a revolução só irá acontecer quando a classe superior não puder levar as coisas da mesma maneira e quando a classe operária não puder mais viver da antiga maneira. Além disso, é preciso estudar e levar em conta todas as forças e classes que estão em jogo – e não somente se trata de uma identificação entre a classe operária consigo mesma, numa tomada de consciência iluminadora que enche o seu ser de poder. O poder é exterior, não está na consciência. Lukács tende ao idealismo subjetivo, a pensar que a consciência da revolução gera a revolução, a ideia gera a matéria. Lenin escreve: “O Partido Comunista (…) deve agir segundo princípios científicos. Ciência…demanda que se tome conta de todas as forças, grupos, partidos, classes e massas operando num dado país”. (Lenin V. I., 1920, p. 81, apud: WILLIAMS, 2011). Para Brian Williams, é Lenin que está de acordo com Marx e é bem claro. Por seu turno, Lukács escreve uma teoria diferente em um ensaio sobre o Oportunismo e o Golpismo: “Por causa de sua noção de mecânica da luta de classes, oportunistas e golpistas são igualmente obrigados a ter um conceito estático da classe, vendo-a como algo que é para sempre, algo invariável numa dada realidade, e não como o que emerge, cresce e é trazido à vida no curso da luta. No entanto, é somente quando a constituição do proletariado como classe é considerada como o objetivo e a tendência da revolução que podemos descobrir uma base firme para as táticas em constante mudança de atividade comunista. A realidade econômica e científica da classe [trabalhadora] é, naturalmente, o ponto de partida para considerações táticas. Mas a outra realidade, a realidade de vida da classe afetada pelo proletariado – só é interessante como um alvo da ação revolucionária. Todo verdadeiro ato revolucionário diminui a tensão, o abismo entre o ser econômico e consciência ativa do proletariado. Uma vez que essa consciência atingiu, penetrou e iluminou o ser [do proletário], ele é imediatamente possuído do poder de superar todos os obstáculos e de completar o processo da revolução”. (Lukács, 1920a, p.79, apud: WILIAMS, 2011). Como se pode ler acima, muito embora Lukács tenha até um livro sobre o pensamento de Lenin, eles divergem num determinado ponto, claramente. Lenin refutou Lukács em termos duros: “Seu marxismo é puramente verbal; sua distinção entre táticas ‘ofensivas’ e ‘defensivas’ é artificial; ele não fornece uma análise concreta, precisa e definida das situações históricas; não leva em conta o que é essencial”. (Lenin V. I., Kommunismus, 1920b, p.165, apud: WILLIAMS, 2011). E numa questão que Lukács atacará em Stalin: a questão das táticas. Em 1951, ele ainda tinha certeza de que Lenin e Stalin eram a mesma linha de pensamento, o que ele irá negar depois: “É um grande mérito de Lenin e Stalin de haver concretizado também as doutrinas do marxismo e ter-las desenvolvido nas circunstâncias do imperialismo, nas vésperas das guerras mundiais e revoluções”. (LUKÁCS, 1966, p. 486). Como a proposição de Lenin em questão acima é bem mais próxima da de Marx, portanto, para Williams toda a moldura teórica de História e Consciência de Classe está errada, pois parte desse pressuposto. Williams vê nas posições do jovem Lukács um ultra-esquerdismo tal como o de Karl Korsch, Pannekoek e de outros. Lenin percebeu que Lukács estava em desacordo com ele. Já o Lukács maduro parece dado, em seus próprios termos, a fazer mimetismo teórico. O que seria isso? Mudar algo em sua aparência conforme uma situação exterior desfavorável, permanecendo o mesmo e ficando a salvo de transtornos. Vejamos como ele faz esse movimento, que tem desdobramentos sérios devido à sua associação com Kruschev. Na introdução à edição italiana de 1957 de seu trabalho Introdução a uma Estética Marxista, Lukács escreve que: “Muitas coisas aconteceram no mundo, e também no âmbito da teoria marxista, desde 1954, ano no qual o presente volume apareceu nas línguas alemã e húngara (…). O leitor atento comprovará sem dificuldade que minha conferência refuta diretamente –ou corrige, pelo menos, de um ponto substancial – as afirmações de Stalin em dois pontos importantes (…). Essa polêmica contra Stalin não podia expressar-se mais que sob: 1) uma superestrutura pode também atacar a base existente, e, até pode tentar desagregá-la e destruí-la, mas não somente servir a uma base determinada e somente a uma. 2) Para Stalin, ao desaparecer a base, tem que desaparecer a superestrutura inteira. Eu, ao contrário, quero demonstrar que esse destino não afeta em absoluto a toda a superestrutura”. (LUKÁCS, 1966). Ele fala que foi obrigado a fazer “mimetismo teórico”, mas o artigo não trata em absoluto disso. Entender o que ele afirma acima foi absolutamente impossível para mim, como leitor. O artigo em questão é sobre a língua como superestrutura, foi pronunciado na Hungria e é de 1951, ou seja, antes da morte de Stalin e da subida de Kruschev, com quem Lukács se alinhou, renegando Stalin e dissociando Stalin de Lenin. É um artigo totalmente elogioso e que de forma alguma apresenta as posições que Lukács escreve acima. Na verdade, pelo que pude observar lendo o texto, ele afirma exatamente o contrário do que escreve nessa introdução. Tanto que, na edição, o texto dele sobre Stalin ficou sendo o último texto, provavelmente devido a oportunismos miméticos. Provavelmente foi pouco lido, porque nele Lukács elogia desvairadamente as posições de Stalin: “Não faz mais do que um ano que apareceram os trabalhos de Stalin sobre as questões de linguística, mas já agora podemos dizer que essas introduções têm uma importância histórica (….). E aqui precisamente se manifesta o caráter superestrutural da linguagem, definido por Stalin (…). Com apoio das importantes afirmações de Stalin (…). As tradições do marxismo se concretizam e se desenvolvem com as afirmações de Stalin sobre o seu caráter superestrutural (…). Nosso exemplo confirma inclusive e sublinha a correção da afirmação de Stalin”. (LUKÁCS, 1966, p. 488, 489, 491). Donde subentende-se que as posições apresentadas na introdução são uma revisão completa, uma volta em torno de si mesmo (possivelmente para aliar-se com o poder) que Lukács elaborou. Stalin argumentou – e Lukács concordou –que a literatura e a arte pertencem à superestrutura, mas a língua não. Já a respeito da superestrutura, ele apenas concorda com Stalin: “Tudo isto confirma de outro ponto de vista uma velha afirmação de Stalin, por todos conhecida: uma superestrutura não somente reflete a realidade, senão toma ativamente posição a favor ou contra a velha ou nova base, e quando a superestrutura deixa de exercer esta função, deixa também de ser superestrutura”. (LUKÁCS, 1966, p. 505). Essa é apenas uma das afirmações totalmente positivas que ele volta e meia faz a favor de Stalin no artigo. Lukács sempre mostrou divergências, fez autocrítica, voltou a elas de maneira transformada. Segundo um “marxiano” como Chasin, Lukács teria feito apenas um despiste, agregando palavras críticas a elogios apenas formais de Stalin, mas pelo visto é algo mais grave. No entanto, há uma grande riqueza em Lukács. O problema é que passa por um filósofo exemplarmente marxista-leninista, senão “stalinista”, o que é falso. Ele é sempre um filósofo que tenta conciliar sua formação hegeliana com a teoria marxista-leninista, e também ambiciona associar-se ao poder: é um camaleão fazendo mimetismo teórico

Nietzsche Sobre os Judeus

Nietzsche sobre os Judeus (...) Por exemplo, sobre os judeus: ouçam. –Ainda não encontrei nenhum alemão que tivesse afeição pelos judeus; e por mais incondicional que possa ser repúdio ao antissemitismo propriamente dito da parte de todos os cautelosos e políticos, essa cautela e política não se dirige, no entanto, contra o gênero do próprio sentimento, mas somente contra seu perigoso descomedimento, em particular contra a repugnante e vergonhosa expressão desse sentimento descomedido –sobre isso não nos podemos iludir. Se é para falar do “eu”, Nietzsche tinha como amigo Paul Rée. Rée fez o livro Origem das Sensações Morais, no qual está inspirado o livro Genealogia da Moral, um dos mais importantes do próprio Nietzsche. E sobre a expressão descarada do antissemitismo, ele parece estar falando sobre ele mesmo, afinal, não fica bem para um filósofo trabalhar com ideias preconcebidas, tal como dizer que “todo alemão gosta de comer chucrute” e colocar isso em meio aos seus textos. Que a Alemanha tem judeus mais que o bastante, que o estômago alemão, o sangue alemão tem dificuldade (e ainda por muito tempo terá dificuldade) para dar conta desse quantum de ‘judeu’ –como deram conta o italiano, o francês, o inglês graças a uma digestão mais vigorosa--:tal é o claro enunciado e linguagem de um instinto geral, ao qual é preciso dar ouvidos, pelo qual é preciso agir. `Não deixar entrar mais judeus! E em especial ao Oriente (e mesmo à Áustria) aferrolhar os portões!” –Assim ordena o instinto de um povo cuja espécie ainda é fraca e indeterminada, de modo que poderia facilmente ser extinguida por uma raça mais forte. Lendo isso eu entendo porque o nacionalista judeu Theodore Herzl gostava de ser Nietzsche: judeu é raça mais forte e poderia, então, extinguir os alemães, que tornaria todos judeus (!). Retomando: judeus nem são raça, são um grupo religioso. Mas creio que isso é simplesmente um preconceito religioso disfarçado de raciocínio sobre raça. E por trás disso, está a cobiça da burguesia alemã de expropriar os judeus, que eram um grupo desde a Idade Média bem estabelecido como comerciantes, ou seja, burgueses. Os pressupostos raciais e nacionais só escondem a ambição de uma classe. E os judeus são, sem dúvida nenhuma, a raça mais forte, mais tenaz e mais pura que vive agora na Europa; eles sabem impor-se, mesmo sobre as piores condições (e é até mesmo melhor do que sob as favoráveis), graças a algumas virtudes que hoje em dia se prefere taxar de vícios –graças, antes de tudo, a uma resoluta crença, que não precisa envergonhar-se, diante das ´ideias modernas´; eles só se modificam, quando se modificam, do mesmo modo que o império russo faz suas conquistas –como um império, que não tem tempo e não é de ontem --: ou seja, segundo o princípio: ´o mais lentamente possível!´ Um pensador, que tem na consciência o futuro da Europa, contará, em todos os projetos que faz consigo sobre esse futuro, com os judeus assim como com os russos, como os fatores que, de imediato, se apresentam como os mais seguros e prováveis no grande jogo e combate de forças (...). Para além de Bem e de Mal, parágrafo 251. Aqui, a respeito dos russos tudo bem, fez a maior diferença a revolução russa porque a Rússia czarista era um peso enorme a favor da reação na Europa. Só que vamos lembrar: os russos eram muito ruins justamente na adoção das tais “ideias modernas”. Foram uma autocracia absolutista até 1905. Já judeus só tiveram esse peso para a Europa depois da criação do estado sionista de Israel.

domingo, 17 de agosto de 2025

O Vietnã de Jones Manoel: Elogio da Fábrica Exploradora Global

O Vietnã de Jones Manoel: Elogio da Fábrica Exploradora Global Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior Resumo Esse artigo debate o revisionismo vietnamita e suas características, conforme apresentado de forma apologética em textos de Jones Manoel e Breno Altman. O Vietnã gerou muita esperança internacionalmente, no período de sua guerra com o imperialismo estadunidense, mas logo em seguida, de forma frustrante, passou a agressor, ao atacar o vizinho Cambodja. Os dois comentadores, que são de esquerda, tendem a fazer o elogio da “fábrica exploradora global” que é o Vietnã hoje. Nesse artigo tentamos investigar como esses autores fazem uma leitura propagandística do capitalismo desse “tigre asiático”. Palavras-chave: Vietnã, revisionismo, Jones Manoel, vídeos, maoismo Introdução Em vídeo recente, o ativista, professor e historiador Jones Manoel informou que vai ao Vietnã em novembro de 2025 e expôs sua análise a respeito desse país. A seguir, em uma série de três vídeos, baseado principalmente em reportagens liberais do jornalista Breno Altman sobre o Vietnã, teceu uma imagem predominantemente favorável a esse país autointitulado socialista. Embora não trabalhe diretamente com a hipótese de que o Vietnã é socialista, Jones Manoel deixa essa ideia implícita em suas considerações. Ele caminhou, então, para a apologia disfarçada desse revisionismo em específico e do revisionismo como um todo, bem como do caminho burguês burocrático-latifundiário. Nesse artigo vamos analisar esse debate sobre o socialismo vietnamita à luz do marxismo e, para tanto, buscaremos um enfoque alternativo, na linha do marxismo-leninismo-maoismo. 1.Jones, Que Socialismo é Esse? Tanto Sangue Para Quê? Jones Manoel começou sua abordagem do Vietnã sem definir o que ele considera socialismo. Suas análises são baseadas, nos três vídeos, não em um autor marxista-leninista, mas em reportagens elogiosas a “fábrica exploradora global” que se tornou o Vietnã por parte do jornalista liberal Breno Altman. Em certa altura, Jones comentou que: (...) Na realidade a reforma em abertura começa no campo a partir de uma descentralização da estrutura produtiva comunas são desmontadas e surgem milhares de pequenas propriedades familiares com responsabilidade familiar com obrigações ainda de cotas de produção e tal não sei o quê mas com liberdade para negociar o excedente como as famílias quiserem o Vietnã seguiu um caminho parecido e segue um caminho parecido dentro de uma lógica bem errada que o Vietnã adotou que era eh no período por assim dizer de economia centralmente comandada os agricultores no Vietnã eram meio que obrigados a entrarem nas cooperativas né e nas fazendas públicas só que não existia incentivos econômicos para entrar nas cooperativas e fazendas públicas né então do ponto de vista de acesso a crédito do ponto de vista de acesso a maquinário do ponto de vista de apoio técnico não existia diferença para o agricultor está numa cooperativa ou não isso foi imposto meio que juridicamente politicamente o que prejudicou bastante a produtividade no campo isso remete inclusive ao clássico debate da União Soviética que veja você pode achar o Bukharin ruim revisionista traidor não sei o quê enfim não tô entrando nesse mérito mas assim Bukharin tinha uma razão quando ele fazia o debate de que a coletivização forçada ia criar um problema porque ia antagonizar o camponês soviético com o estado soviético e que o caminho mais adequado seria buscar uma coletivização progressiva a partir das cooperativas em que o Estado soviético ia garantir incentivos econômicos para se cooperativizar evitando traumas políticos e violência o Bukharin tinha razão do ponto de vista de princípio geral (MANOEL, 2025). Nessa passagem Jones Manoel apresentou oposição justamente a uma política que podemos definir como socialismo: cooperativas socialistas no campo. E ele deu razão a Bukharin em querer uma diferente coletivização, mas não foi isso o que o teórico russo propôs, que era, sutilmente, apoiar os grandes fazendeiros (kulaks) que, enquanto classe, deixaram bem claro que se opunham ao poder soviético durante a guerra civil, fato registrado por Lênin. No entanto, para Lênin, a pequena propriedade sempre gera e gerou capitalismo. No Vietnã não tinha como ser diferente. Bukharin já foi consagrado como um inspirador da restauração do capitalismo na União Soviética e na China e um revisionista, no sentido em que o revisionismo é a burguesia dentro do partido. Isso aniquila as inquietações em que Jones e Jabbour pensam que, apenas porque formalmente não há partidos burgueses no poder, um partido formalmente comunista está ali, mas, como aliado das multinacionais chinesas e yankees, dos bilionários (burguesia imperialista), no caso da China. Bukharin dizia que era preciso “desenvolver forças produtivas” primeiro, posição revisionista clássica. Os maoistas do Vietnã comentaram a respeito: Os revisionistas assumem a teoria das forças produtivas, semelhantes a Deng Xiaoping em todos os lados. Isso liquidou o Partido, transformando-o num cãozinho de estimação dos imperialistas estrangeiros. O Vietnã atualmente é um Estado policial, uma ditadura burguesa. A economia é fortemente controlada pelos imperialistas ianques e chineses, o estado também possui uma relação de camaradagem com corporações e imperialistas estrangeiros, pois cooperam com eles contra o povo em geral e o proletariado em particular (GRUPO VALE DOS PALMARES, 2025). Ao observar o Vietnã com um olhar marxista, verificamos que depois de uma guerra tão dura contra o imperialismo francês e o arquiimperialismo estadunidense, os que tomaram o poder no Vietnã era mais nacionalistas do que marxistas-leninistas. Aliaram-se a União Soviética e, depois de vitoriosos, criaram o que a URSS propunha para eles: o mesmo modelo soviético a partir de 56, um capitalismo de estado, onde a sociedade torna-se uma grande corporação. É muito diferente tomar como referência um marxista para falar do Vietnã e tomar Breno Altman, Bukharin ou algum pensador vietnamita revisionista como Dai Luoc. O marxismo que deveria ser o ponto de partida sempre esteve no que o presidente Gonzalo disse em 1988: Se olharmos para o Vietnã, o caminho que ele segue é o de um instrumento da União Soviética, que hoje clama por socorro ao imperialismo, com uma economia em crise e ruína; tanto sangue, para quê? Havia um Ho Chi Minh lá, um homem indefinido, como evidenciado em seu famoso testamento, onde ele diz que lhe dói ver a luta dentro do Movimento Comunista Internacional, quando o problema era qual lado tomar na luta entre o marxismo e o revisionismo, e um comunista só tem uma solução: ficar do lado do marxismo; Ho Chi Minh nunca ficou. Então veio Le Duan, um revisionista podre. Daí a situação atual no Vietnã (GONZALO, 2025). A diferença, então, é muito grande para o ponto de vista de Altman e Manoel, que converge para fazer o elogio do Vietnã depois do revisionismo e da “reforma” de Doi Moi, que na realidade transformou o Vietnã, de uma semi-colônia soviética, em uma semi-colônia dos chineses e dos estadunidenses. Igualmente, Jones Manoel, outrora apoiador do ataque do Vietnã contra o Cambodja democrático, parece ter silenciado esse tema intencionalmente, dado o evidente drama humanitário causado por esse ataque, claramente a mando do social-imperialismo soviético –e também pelo fato de nós o termos denunciado com contundência nesse ponto. O que na realidade Altman e Manoel estão elogiando é um capitalismo burocrático pintado de vermelho. Essa hipótese não é sequer aventada por Jones e Altman, o que é exaltado é seu suposto crescimento econômico (mesmo dependente ou explorador da classe operária sob forma de ditadura burguesa). Como explicou o professor César Aprile: Por outro lado, países de capitalismo burocrático “vermelho” como Vietnã e Laos, que não são considerados ameaças diplomáticas ou possuem maior abertura ao capital ocidental, enfrentam menos agressões do arquiimperialismo estadunidense (APRILE, 2023, p. 94). De fato, parece-nos que há um diferente tratamento dado a Cuba e Coreia do Norte e China e Vietnã: esses dois últimos estão incluídos no sistema swift (sistema financeiro internacional) e recebem investimentos dos Estados Unidos e seus aliados. Podemos supor que o Vietnã nem sequer completou a revolução democrática (como Cuba, Laos e, possivelmente, até Coreia do Norte) e todos esses caíram nas garras de um outro imperialismo. Como se lê no texto O Aborto da Revolução: [A ] experiência no Vietnã e em outros lugares demonstrou que o processo de desenvolvimento da revolução democrática burguesa e da revolução socialista envolve tarefas extremamente complexas e difíceis, e que existem muitas armadilhas e obstáculos. Como a luta deve passar pela primeira etapa da luta pela libertação nacional e como a classe trabalhadora e o partido comunista devem tentar unir todos os setores da nação, incluindo muitos elementos capitalistas, que lutarão por esse objetivo, há uma tremenda atração espontânea pela ideologia do nacionalismo, para ver as coisas do ponto de vista dos interesses da nação (na verdade, dos capitalistas da nação), em vez do ponto de vista da classe trabalhadora e seu objetivo final de erradicar a exploração e a opressão em todo o mundo e construir um mundo sem classes. O nacionalismo é uma forma de ideologia burguesa, a perspectiva da classe capitalista. E foi essa ideologia burguesa, primeiro na forma de nacionalismo e depois como revisionismo descarado, que infectou e, por fim, levou a liderança da revolução vietnamita a um beco sem saída — com a consequência de que nem mesmo o primeiro estágio da revolução foi concluído, e o Vietnã caiu nos braços dispostos de mais uma potência imperialista (PCSUA, 2025). E, como podemos ver acima, foi no interesse de uma potência social-imperialista (URSS), no caso, que o Vietnã atacou o Cambodja, ao contrário do que postula uma youtuber governista como Luna Oi, que alinhada ao revisionismo soviético e ao nacionalismo vietnamita, utilizando os piores clichês idênticos aos chavões ocidentais anticomunistas contra Pol Pot e o partido comunista do Cambodja. Podemos definir que socialismo ocorre quando existe economia planificada, cooperativas socialistas no campo e a democracia popular no campo da política. E no campo da política, o que temos? Veja o que diz um pensador do Vietnã citado pelo próprio Jones: O velho socialismo morreu, afirma Dai Luoc não existe mais nenhum país socialista no mundo, apenas nações que estão em transição para esse sistema, o Vietnã é uma delas, mas esse objetivo só é possível com o desenvolvimento riqueza e prosperidade, a garantia de que seguiremos esse processo é o poder político dos trabalhadores (ALTMAN, apud: MANOEL, 2025). O ponto é justamente esse da última linha: não existe mais o poder político dos trabalhadores e sim o oposto, o estado revisionista servindo as corporações sob a forma de capitalismo de estado, uma grande corporação (o que Jones chama de sociedade de comando). Essa reflexão acima nos pareceu ilustrativa e deveria ser levada a sério. Se Jones Manoel a levasse realmente a sério, partiria da hipótese de que Cuba e Coreia Popular estão incluídos nos países que não são socialistas e estão apenas em processo de transição, logo vale debater, sim: (...) E o Vietnã ainda for uma experiência socialista considerando que para mim Cuba e Coreia Popular não existe debate viu assim para mim quem não considera Cuba e Coreia Popular experiências socialistas é isso enfim dá pra gente conversar e tal mas eu acho meio absurdo (MANOEL, 2025). Jones deveria levar em conta que, se não existe mais país socialista no mundo, conforme o pensador vietnamita, então Cuba e Vietnã não são experiências socialistas e sim capitalismos que se dizem em transição ao socialismo –mas notem: são capitalismos, existe burguesia, ainda existe exploração assalariada, então estão “preparando” e não experimentando o socialismo. Ou seja, o debate sobre Cuba e Coreia Popular serem países socialistas hoje não é fora de cogitação, conforme Dai Luoc. O próprio Jones Manoel postou em seu blog um artigo sobre a China chamando “Neoliberalismo com Características Chinesas”? que, ainda que nessa posição errônea e de apologia ao revisionismo como a de agora, ao menos deixa entrever a hipótese, ao nosso ver correta, de que Deng Siaoping e seu regime são apenas capitalismo (neoliberalismo) com características chinesas. A cegueira de Jones quanto ao drama da invasão do Cambodja democrático, no entanto, parece ter diminuído devido a uma série de vídeos nossos direcionados a ele, alguns com audiência bastante significativa. Sendo assim, temos: negação das cooperativas no campo em prol da pequena propriedade, que é a base do capitalismo no campo em um país capitalista desenvolvido. E nega-se, acima, que exista socialismo no Vietnã e sim, possivelmente, assume que existe escravidão assalariada e o capitalismo de estado na atualidade. Na realidade, a Doi Moi representou o final de um processo de vitória da linha oportunista de direita do partido começada com a morte de Ho Chi Minh em 1969 e, com ela, a restauração total do capitalismo no Vietnã. O centrismo de Ho Chi Minh no grande debate e sua negação do marxismo quando da luta do marxismo contra o revisionismo preparou o caminho para a vitória do oportunismo e do revisionismo. O imperialismo estadunidense conciliou-se em grande parte com o país e colocou-o no sistema financeiro internacional, passando também a investir capital no Vietnã. Mas por que tanta conivência de Jones Manoel, professor e ativista comunista com a “fábrica exploradora global” que é o Vietnã e ainda alguém que se diz comunista ficar exaltando um crescimento econômico semi-colonial? Pela simples razão que tanto Breno Altman quanto Jones preconizam o mesmo caminho para o Brasil: o caminho do desenvolvimento burocrático-latifundiário feudal. Breno Altman e Jones apenas imaginam que poderiam fazer parte dessa burocracia gestora, na prática capitalista, conciliadora com o imperialismo yankee, o social-imperialismo chinês e até o imperialismo russo, mas com disfarce eficaz de “comunista”. Querem posições confortáveis na gerência desse capitalismo burocrático pintado de vermelho. E pior: para os maoistas vietnamitas, mesmo a semifeudalidade não foi superada no país. E isso converge com a opinião de Elias Jabbour a respeito: em seu livro sobre China, ele argumentou, discretamente, que existem resíduos “pré-capitalistas” em “áreas rurais atrasadas” no Vietnã e na China. 2.Lógica de mercado e sem planejamento soviético Jones, em outros vídeos, deixa bem claro alguns pontos acima expostos. Ele se nega a comentar sobre o Cambodja, como fez anteriormente, mas se opõe ao ataque da China ao Vietnã –mas uma coisa só aconteceu devido a outra. Jones acredita no revisionismo vietnamita, mas não considera a invasão de Cambodja algo desastroso ou reacionário, uma guerra de agressão inspirada pelo social-imperialismo soviético. Ele, que já falou sobre o assunto, agora a omite. Igualmente, Jones mesmo comentou que mesmo o setor estatal do Vietnã “segue a lógica do mercado”. Mas não há, nesse estágio da economia capitalista, livre mercado: existe a economia mundial dominada por grandes monopólios, uma boa parte associada ao arquiiimperialismo americano, um imperialismo que dominou os demais, outros nem tanto. O que se chama “Brics”, para um marxista, é associação entre dois imperialismos, o imperialismo russo e o social-imperialismo chinês (esse seria seu núcleo, os demais países são semicoloniais). O que não quer dizer que ambos não estejam, até certo ponto, ainda tendo que negociar e se dobrar ao arquiimperialismo estadunidense. Ou seja: o setor estatal segue a lógica capitalista e logo, burguesa e com selo de classe contra o proletariado. Ao mesmo tempo Jones mostra-se seguro de que no Vietnã existe socialismo afirmando ter certeza de que “a burguesia não tem influência no partido”. Se as estatais seguem a lógica do mercado, é um indício claro de que as estatais já comportam-se abertamente como burguesas e os dirigentes estatais, como parte das classes dirigentes e dos patrões. Na União Soviética esta tendência já foi estudada: Ainda que a organização empresarial seja uma organização monopolista, a empresa estatal do revisionismo soviético tem sido desde muito tempo uma empresa capitalista. Nas em presas do revisionismo soviético, as massas trabalhadoras tem sido rebaixadas de donas das empresas a escravos da burguesia monopolista burocrática. Os diretores das empresas são agentes do grupo dirigente do revisionismo soviético. De acordo com as normas de “Regulação das Empresas de Produção do Estado Socialista”, o diretor da empresa exerce a “faculdade de contratar e demitir pessoas e toma decisões quanto aos prêmios e castigos para os funcionários da empresa”. Tem a autoridade para fixar os salários e as bonificações da organização e dos trabalhadores, e também para vender ou alugar os meios de produção da empresa. Em suma, ainda que sem o truste, o diretor e chefe de planta são já patrões que tem todas as faculdades nas empresas estatais, enquanto as massas trabalhadoras são já escravas da burguesia monopolista burocrática. Agora, com o truste como organização monopolista, a burguesia monopolista burocrática pode fortalecer seu controle sobre o pulso da economia nacional da União Soviética. Esta grande burguesia de novo tipo, fazendo uso das empresas do Estado e dos trustes, controla e se aproveita do Estado, utiliza a arrecadação tributária e os ganhos recebidos para roubar sem medida os frutos do trabalho do trabalhador soviético, para financiar o extravagante estilo de vida dos poucos capitalistas monopolistas, reprimindo o povo soviético, levando a agressões e seguindo uma política social-imperialista (PCCH, 2025). Sendo assim, foi esse o modelo de empresas estatais acima que a URSS exportou depois de 1956 para o Vietnã, mas numa conjuntura em que o Vietnã caiu no domínio de outro imperialismo. Podemos supor, então, que a transição da revolução democrática para a socialista é acidentada e cheia de obstáculos e recuos. Um obstáculo é o nacionalismo, que tem de ser entendido como ideologia burguesa e que acabou, no final desse processo, facilitando o revisionismo e a exploração da classe trabalhadora. E quando ouvimos a youtuber vietnamita Luna Oi, observamos o quanto é difícil enfrentar e desmentir todas essas propagandas do governo e outros tópicos falaciosos. Luna Oi é uma youtuber que produz conteúdo governista é bastante diferente, implica em censura, cerceamento, processos e prisão. A liberdade de imprensa no Vietnã é muito cerceada. Ao contrário de Jones Manoel, é bastante descarada a defesa que Luna Oi faz da invasão do Cambodja aliado do social-imperialismo russo, indicando, inclusive, o filme Primeiro Mataram Meu Pai, filme que toma o partido escancarado do imperialismo yankee no episódio. Luna Oi, youtuber governista, faz apologia de anticomunismo mais gritante. A posição de Jones foi também de apoio obsceno às agressões do social-imperialismo russo: É nesse contexto que surge Pol Pot e o Khmer Vermelho. Não temos a mínima intenção defendê-lo. Seu governo foi genocida e autoritário. Mas não foi uma deriva necessária da ideologia comunista. A lunática idéia de Pol Pot de deportação em massa da cidade para o campo foi resultado de fugas em massa do campo para a cidade para fugir dos bombardeios dos EUA. Uma sociedade destruída, arrasada e com a imensa maioria do seu povo vítima de violências brutais produz fenômenos aberrantes como Pol Pot. O Khmer Vermelho também comprava armas do governo neoliberal de Margaret Thatcher (que não tinha quaisquer problemas em vender). O presidente do EUA Ronald Reagan, outro neoliberal, também apoiou nas sombras o Khmer Vermelho, pois ele em seu confronto com o Vietnã enfraquecia o campo socialista na Ásia (MANOEL, 2014). Ao mesmo tempo, Jones Manoel afirmou também que no Vietnã “nunca teve o planejamento soviético” e sim “economia de comando”. Mas o que seria essa “economia de comando”, senão um capitalismo de estado, um sistema corporativista? E o pior: na conjuntura de um capitalismo burocrático pintado de vermelho, conforme muito bem explicou o professor Aprile. Em dado momento de outro vídeo, Jones Manoel admitiu que o Vietnã não segue o que Marx previu como sendo a transição para o socialismo em Crítica do Programa de Gotha. O que Marx falava para a transição era estatizar os meios de produção – e é evidente que o Vietnã está privatizando e não estatizando. E tampouco tem ditadura do proletariado –Jones evita cuidadosamente esse termo, utilizando, na melhor das hipóteses, o termo “poder popular”, utilizado usualmente em Cuba. Mas o que efetivamente o Vietnã não segue e está nesse texto? Com certeza não segue a ditadura do proletariado; se não segue, é ditadura da burguesia. Não há outra alternativa, não há outros “socialismos”, os outros são a burguesia em evolução. O próprio Jones admite que o Vietnã não tem nem planejamento econômico ao estilo soviético e nem as cooperativas socialistas, substituídas desde 1986 pelo minifúndio. E podemos colocar em dúvida se mesmo antes essas cooperativas não eram meramente fazendas estatais capitalistas e, antes de privatizadas depois de 1986, muitas empresas não eram apenas parte de um capitalismo de estado em país de capitalismo associado a algum imperialismo, ou seja, capitalismo burocrático. 3.Conclusão Jones, em seus textos e vídeos sobre Vietnã, não definiu o que ele chamou de socialismo e seu ponto de partida teórico. O que se tem são as reflexões de um liberal conivente (Breno Altman) com a transformação do país na “fábrica exploradora global”, caminho do capitalismo burocrático e latifundiário que Jones seguiu e desenvolveu de forma conivente. Enquanto Jones e Altman exaltam o capitalismo burocrático pintado de vermelho, sonhando em um dia gerenciar algo semelhante no Brasil, verificamos o quanto o nacionalismo é uma ideologia burguesa e que complica a transição da revolução democrática para a revolução socialista. A experiência vietnamita mostra o quanto essa transição tem idas e vindas, tendo o nacionalismo como um ingrediente complicador, uma vez que é ideologia burguesa. Podemos dizer, então, que o Vietnã nem sequer completou a revolução democrática e caiu nas garras do social-imperialismo soviético (o Cambodja e o Laos seria uma situação semelhante). Tivemos, então, a tragédia: o Vietnã, de guerra de libertadora em tudo semelhante a uma guerra popular maoista, transformou-se em um agressor contra o Cambodja apoiado por uma potência imperialista de fato e socialista de boca –ou seja, uma enorme tragédia e um retrocesso que buscamos entender aqui como foi possível. Podemos dizer que, então, ao não definir socialismo, Jones Manoel abriu para que o critério para conceituar socialista seja chamar os seus aliados de socialistas por critérios obscuros, ou seja, critérios oportunistas. Não se importou, portanto, que o Vietnã não tenha tanto o planejamento econômico, a ditadura do proletariado e as cooperativas socialistas no campo. E nem levou em conta a reflexão do próprio pensador vietnamita citado: não existem países socialistas hoje, apenas países capitalistas que afirmam estar em transição ao socialismo, o que é uma hipótese para ser posta em dúvida. Se Cuba e Coreia Popular estão somente em transição, abre-se a necessidade de debater o fato de que ainda não são experiências socialitas. De acordo com nossas reflexões, essas transições são apenas promessas vãs realizadas por partidos revisionistas que, ao lado de grandes corporações imperialistas, impõem uma ditadura capitalista aos seus povos. 4.Bibliografia: APRILE, César Alexandre da Silva. O Novo Paradigma do Imperialismo. São Paulo: SP, 2023. CAP Chu Van; Tạp chí Cộng Sản. Tradução de Gabriel Deslandes. Consenso sobre a economia ‘socialista de mercado’ do Vietnã <>. ESPÍRITO SANTO JÚNIOR. Lúcio Emílio. >>. <>. __________________________________.<>. <>. GONZALO. Entrevista do Século. São Paulo: Ciências Revolucionárias, 2023. GRUPO VALE DOS PALMARES. Entrevista com o Servir ao Povo (Vietnã): Comunistas em um País Revisionista. >. PCCH. O Capitalismo Monopolista de Estado é a Principal Base Econômica do Social-Imperialismo. <> PCUSA. Vietnam, Miscarriage of Revolution. The magazine Revolution, vol. 4, #7 8, July/August 1979, published by the Revolutionary Communist Party, USA. <>. LUNA OI. <>. <>. MANOEL, Jones. Chegou o momento de falar do Vietnã. <>. ________________. Vietnã: um país forjado na guerra e na luta anticolonial. <>. MANOEL, Jones. SONNENBERG, Victória Hissa Hirosue. Neoliberalismo com características chinesas? Notas sobre a estratégia de desenvolvimento chinês. <>