terça-feira, 1 de setembro de 2020

Ficção e História em 1984 de George Orwell

 

FICÇÃO E HISTÓRIA EM 1984 DE GEORGE ORWELL

 

 

Frank Bruno Cardoso Silva [1]

RA: 2738813

Elaine Cristina da Cruz [2]

RA: 2730031

 

RESUMO

 

 

Esse artigo analisa o romance 1984 de George Orwell e investiga a narrativa histórica do debate entre Trotsky e Stálin que foi base para a estruturação do romance entre os polos Grande Irmão e Goldstein. Ao investigar a narrativa histórica, nota-se o pano de fundo histórico do romance e pode-se notar o quanto George Orwell devia ao trotsquismo que inspirou a sua juventude. Esse texto foi ao mesmo tempo uma ficção científica futurista, uma alegoria política e um drama de horror.  A recepção crítica do romance notou, na época, os elementos que referiam-se à União Soviética, mas esse texto agregou, a alguns fatos e elementos históricos como o texto A Revolução Traída e os grandes expurgos, toda uma crítica das sociedades ocidentais, antecipando o papel de dominação das massas que teriam a televisão e a pornografia. Orwell, pode-se dizer, captou alguns elementos da Inglaterra do tempo em que vivia e projetou junto a uma fantasia sombria do que seria a vida na União Soviética de Stálin, localizando a narrativa em Pista de Pouso Número 1, lugar que seria a coisificada Inglaterra do futuro.

 

 

Palavras-chave: ficção científica, horror, romance, 1984, George Orwell, socialismo, Stálin

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

 

A influência do romance 1984 é tão grande na cultura popular que o programa de verão de grande audiência na TV brasileira chama-se Big Brother, em clara homenagem ao personagem do grande líder que, na narrativa de Orwell, pode facilmente ser associado a Josef Stálin, assim como o personagem de Goldstein, o dissidente a quem eram dedicados “dois minutos de ódio” pode ser associado ao líder político dissidente Leon Trotsky.

O  texto 1984 de Orwell passa a ser lido como um romance cuja terminologia e simbolismos podem ser utilizados para qualquer situação política do mundo moderno, sem preocupação alguma com o contexto político a que se referia originalmente. Sua grande popularidade foi aumentada recentemente graças aos escândalos internacionais de espionagem e que fazem aumentar o temor de ser espionado e monitorado na internet, dando ideia de que o “Grande Irmão” existe hoje em dia e que estamos todos sendo controlados o tempo todo.

Nossa hipótese é que o romance 1984 referia-se a uma determinada narrativa histórica: a União Soviética ao tempo em que era dirigida pelo partido comunista soviético. Essa narrativa histórica é projetada para outro momento histórico e outro país, a Inglaterra. Assim, a narrativa refere-se à narrativa da União Soviética repetindo-se na Inglaterra dos anos 80, então transformada num país onde o estado domina totalmente a sociedade e que planeja até mesmo os mínimos gestos dos cidadãos. A ideia de planejamento estatal da economia é estendida, pela narrativa, à vida privada dos cidadãos, trazendo uma sensação enorme de opressão. A narrativa pontua aqui e ali eventos históricos que realmente existiram: os grandes expurgos, o texto A Revolução Traída, de Leon Trotsky que é citado indiretamente. O texto serve, então, de alerta para o que pode gerar uma revolução socialista: uma opressão ainda maior do que a opressão vivida no sistema imperialista. Trata-se de uma forma singular de romance distópico: é o contrário das utopias fundamentais do pensamento ocidental, que falavam da fé no progresso humano e na capacidade do homem de criar um mundo de justiça e paz. O livro de Orwell é importante justamente porque exprimiu o novo sentimento de desesperança que agora é característico de nossa época, mas foi pioneiro ao apresentá-lo. Há outros romances distópicos, tais como Nós, de Eugene Zamiátin e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Nesse artigo, serão feitas algumas ponderações a respeito da narrativa histórica que permeia 1984, transformada pelo autor em ficção.

 

1 TROTSKY X STÁLIN EM 1984

 

A estrutura de 1984 é composta em torno de dois personagens: os líderes políticos Grande Irmão e Goldstein, cuja oposição estrutura o grande conflito da narrativa entre liberdade e opressão que até o fim tensiona o romance. O Grande Irmão é o oponente, Goldstein é aliado indireto de Winston: ele, como Winston, combate a opressão reinante no país. Sentindo a opressão vigente, Winston passa a escrever um diário e a bradar, num gesto de rebeldia individual: “abaixo o grande irmão!” Winston Smith é um habitante do que no passado era a Inglaterra. A descrição do Grande Irmão coincide com a de Stálin, que também usava bigode e cuja imagem era reproduzida em muitos lugares na União Soviética:

 

O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis (ORWELL, 2009, p. 12).

 

Aparentemente, o cenário em que vive Winston é o cenário opressivo da Inglaterra onde triunfou o socialismo à moda de Stálin, quarenta anos depois da Segunda Guerra Mundial. Não se trata tanto de um país invadido pela União Soviética quanto um país onde venceu uma versão do socialismo de Stálin, chamado então de socialismo inglês (aparece no romance sob a sigla “Socing”). No romance, a Inglaterra mudou de nome para “Pista de Pouso Um”, um nome estranhamente coisificado.

Se fosse outra versão de socialismo, Orwell talvez não tivesse escrito narrativa tão sombria projetando conteúdos negativos a respeito, pois se dizia a favor do socialismo. O conteúdo de 1984 parece ser de uma projeção de um futuro sombrio onde o socialismo de Stálin triunfou na Inglaterra, fato político que teve consequências extremamente opressivas. A narrativa mostra que, depois de divergir do pensamento do Grande Irmão em seu diário pessoal e viver um romance clandestino com Júlia, Winston aderiu ao sistema: aprendeu a amar o Grande Irmão. O romance não afirma o gesto libertário como importante. Ele cai no vazio. Ele funciona mais como um alerta: “se vocês não agirem no presente para combater Stálin enquanto é tempo, este será o futuro”.

Hoje em dia a crítica comenta que George Orwell era simpatizante do pensamento de Leon Trotsky e até mesmo participou da guerra civil espanhola ao lado de um pequeno grupo de trotsquistas, o POUM, o que gerou seu livro Lutando na Espanha (“Homenagem à Catalunha”). A teoria de Trotsky sobre a revolução russa ajuda a estruturar seus textos – e devemos recorrer a ela para entendê-los. A descrição do dissidente Goldstein em 1984 faz lembrar Trostky:

 

O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque –um rosto inteligente e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, onde se equilibrava um par de óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido –um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (ORWELL, 2009, p. 23).

 

Essas informações procedem a respeito da imagem de Trotsky: ele de fato era de origem judaica, usava cavanhaque, óculos, era reconhecidamente inteligente. Observe-se a descrição de Trotsky que foi feita por Michael Sayers e Albert E. Kahn:

 

Em 1919-1920, a imprensa mundial apelidou Trotsky de "Napoleão Vermelho" Trotsky era comissário de Guerra. Trajado num longo sobretudo espalhafatosamente militar; de altas botas luzentes, pistola automática à cintura, percorria as frentes de batalha fazendo inflamadas alocuções aos soldados do Exército Vermelho. Converteu um trem blindado em seu Q. G. privado e protegeu-se pessoalmente com uma guarda armada especialmente uniformizada. Ele possuía a sua própria facção no comando do Exército, no Partido Bolchevique e no governo soviético. O trem de Trotsky, a guarda de Trotsky, os discursos de Trotsky, as atitudes de Trotsky — seu vasto cabelo preto e sua barbicha em ponta, seus olhos penetrantes atrás do pince-nez fulgurante — ficaram mundialmente famosos. Na Europa e nos E.U.A. as vitórias do Exército Vermelho eram todas creditadas ao "comando de Trotsky (SAYERS, KAHN, 2013).

 

Trotsky, inclusive, escreveu um livro chamado A Revolução Traída, ou seja, também “gritava histericamente que a revolução tinha sido traída. Trotsky não deixou de ser parte da história da União Soviética. Ele não foi apagado da história, mas passou a ser apresentado, a partir de 1929, como alguém que quis liquidar o país. Nessa passagem há uma questão importante: então Goldstein tinha suas críticas apresentadas às massas num momento em que todos estão assistindo, ou seja, o regime apresentava publicamente críticas a ele mesmo, ainda que para promover o ódio? Então, isso não deixaria de ser liberdade de expressão: se as críticas fossem reais e fundamentadas, então alguns cidadãos as reconheceriam como verdadeiras. Essa passagem depõe contra a construção de um estado que, além do planejamento econômico, extrapola planejando também a vida privada dos cidadãos, ponto fundamental que permeia a narrativa de 1984. De fato, a crítica de Trotsky a partir de sua saída da União Soviética passou a ser exagerada: ele passou a comparar Stálin a Hitler, ao Rei-Sol, etc. Será que um regime totalitário resistiria a críticas feitas em pleno horário nobre, no horário em que todos estão vendo televisão? Harpal Bar cita algumas das críticas que fazia Trotsky à União Soviética:

 

'A política da direção atual, o pequeno grupo de Stalin, está levando o país a toda a velocidade a crises perigosas e ao colapso' (Letter to Members of the Communist Party of the Soviet Union, Março de 1930). 'A crise iminente da economia soviética virá inevitavelmente no futuro muito próximo, fará ruir a lenda açucarada [de que o socialismo pode ser construído em um único país], e não temos nenhuma razão para duvidar de que ela deixará muitos mortos... A economia [soviética] funciona sem reservas materiais e sem cálculo. A burocracia descontrolada vinculou seu prestígio com a acumulação subsequente de erros ... é iminente uma crise [na União Soviética] com seu cortejo de conseqüências tais como a falência de empresas e o desemprego' - Soviet Economy in Danger, 1932. 'Os operários famintos [na União Soviética] estão insatisfeitos com as políticas do Partido. O Partido está insatisfeito com a direção. O camponês está insatisfeito com a industrialização, com a coletivização, com a cidade.' - artigo em 'Militant(EUA), 4 de fevereiro de 1933. 'O primeiro choque social, externo ou interno, levará a sociedade soviética atomizada à guerra civil' (The Soviet Union and the Fourth International, 1933. 'Seria infantilidade pensar que a burocracia de Stalin pode ser removida por meio de um Partido ou Congresso Soviético. Os meios normais, constitucionais, não são capazes de remover a elite dirigente... Eles só podem ser compelidos a ceder o poder à vanguarda proletária pela FORÇA' (Bulletin of Opposition, outubro de 1933). 'A crise política converge para a crise geral que está avançando gradualmente' (The Kirov Assassination, 1935) (BRAR, 2013).

 

Assim, sendo, se Stálin era o Grande Irmão, imagine uma crítica pública ao Grande Irmão, na voz de Goldstein, pregando abertamente o assassinato e remoção violenta do grande líder da Oceânia. Seria viável que um estado totalitário transmitisse mensagens como a abaixo às massas? Leia-se o teor violento das críticas:

                                                                                     

'Dentro do Partido, Stalin tem se colocado acima de toda a crítica e do Estado. É impossível removê-lo exceto pelo assassinato. Todo oposicionista se torna ipso facto um terrorista' (Declaração na entrevista ao 'New York Evening Journal', de William Randolph Hearst, 26 de janeiro de 1937). 'Podemos esperar que a União Soviética saia da grande guerra vindoura sem derrota? A esta questão, colocada francamente, responderemos com a mesma franqueza: se a guerra continuasse sendo apenas uma guerra, a derrota da União Soviética seria inevitável. No sentido técnico, econômico e militar, o imperialismo é incomparavelmente mais forte. Se ele não for paralisado por uma revolução no Ocidente, o imperialismo liquidará o regime atual' (Artigo no 'American Mercury', Março, 1937). 'A derrota da União Soviética é inevitável caso a nova guerra não provoque uma revolução ... Se nós teoricamente admitimos guerra sem revolução, então a derrota da União Soviética é inevitável" (Testemunho em Depoimentos no México, abril de 1937." (pp. 224-227, Red Star Press) (BRAR, 2013).

 

Sendo as críticas de Trotsky semelhantes a essas, é bem difícil supor que pudessem ser apresentadas em circunstâncias tais como os “dois minutos de ódio” citados em 1984, pois um estado totalitário não as toleraria. Mas de onde falaria Goldstein até o país onde vive Winston? O narrador onisciente dessa narrativa faz o mesmo que o aparato estatal que combate Winston: investiga seus pensamentos, vigia-o, descreve suas atividades, por isso o texto transmite essa forte sensação de opressão. O leitor da época deve ter saído da leitura decidido a combater o comunismo para evitar algo assim no futuro da própria Inglaterra. O próprio narrador onisciente assume, também, esse papel de invadir a intimidade do personagem e devassá-la para o leitor. Como se pode ler a respeito de George Orwell:

 

Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam. Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa. A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro conspurcador da pureza do partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do mar, talvez até sob proteção de seus benfeitores estrangeiros –era o que se dizia ocasionalmente –em algum esconderijo na própria Oceânia (ORWELL, 2009, p. 22).

 

Assim, a narrativa sobre Goldstein coincide com a de Trotsky: ele foi uma figura destacada no partido bolchevique, mas tinha origem em outro partido, o partido menchevique. Ele rompeu com os bolcheviques em 1905, ficando junto aos mencheviques e só uniu-se ao partido bolchevique em julho de 1917, quando a revolução já era iminente. Trotsky participou da revolução de outubro com reservas: ele não acreditava na revolução em um só país. Quando a revolução alemã fracassou, Trotsky insistiu nessas reservas. Passou a formar uma fração (um grupo organizado dentro do partido, com regras próprias) e entrou em choque cada vez mais intenso com o poder soviético no decorrer dos anos 20. Trotsky apresentou nos seguintes termos a suas reservas quanto à revolução de outubro de 17:

 

Sem esperar os outros, começamos a luta e prosseguimo-la no nosso país, convencidos de que a nossa iniciativa sacudirá outros países. Mas se isto não acontecer, seria insensato acreditar— a experiência histórica e as considerações teóricas provam-no — que a Rússia revolucionária, por exemplo, possa resistir à Europa conservadora... Considerar as perspectivas da revolução social nos quadros nacionais significaria tornar-se vítima da mesma estreiteza nacional que é a própria essência do social-patriotismo (TROTSKY, apud: BRAR, 2013)

 

Trotsky, aí acima, polemizou com o próprio Lênin a respeito da possibilidade de construir o socialismo em um só país: Lênin não foi representado em 1984, como também já foi notado que ele foi omitido em A Revolução dos Bichos. A posição do narrador de 1984 a respeito de alguns episódios têm ressonância em episódios reais que também envolveram Trotsky, tais com os grandes expurgos:

 

Os grandes expurgos, que envolveram milhares de pessoas com julgamentos públicos dos traidores, e criminosos do pensamento que faziam confissões abjetas e em seguida eram executados, serviam como punições excepcionalmente exemplares e só aconteciam a cada dois ou três anos (ORWELL, 2012, p. 59).

 

Os grandes expurgos históricos são uma passagem muito controversa da história da União Soviética. A hipótese dos partidos comunistas da época referia-se aos Processos de Moscou como parte de uma série de expulsões, prisões e julgamentos públicos onde algumas altas autoridades da União Soviética foram acusadas de colaboração com a Alemanha e o Japão, tendo formado um bloco zinovievista e trotsquista, cometendo sabotagens, atentados e espionagem. Na opinião de boa parte da imprensa oficial, assim como na opinião de Trotsky, que negou envolvimento e montou a Comissão Dewey para fazer um julgamento paralelo, eram expurgos injustos e processos encenados, montados por Stálin para fortalecer sua ditadura e sua posição pessoal em um mundo em que a agressão da Alemanha e do Japão à União Soviética era cada vez mais iminente. A hipótese trotsquista, portanto, assemelha-se mais à descrição apresentada no texto de Orwell. Harpal Brar comentou a respeito dos grandes expurgos:

 

Numa grosseira violação da verdade histórica, falseando e distorcendo esta verdade, estas pessoas afirmam que os Julgamentos de Moscou foram um expurgo conduzido pela 'burocracia stalinista' contra os 'verdadeiros bolcheviques', os acusados nos Julgamentos. A burguesia e seus lacaios no movimento proletário, ao repetirem incessantemente essas categóricas mentiras, são assim capazes de induzir ceticismo nas mentes dos operários a respeito da prática do socialismo. Seria de fato fútil lutar pela vitória do socialismo, se tal vitória significasse apenas a eliminação dos revolucionários verdadeiros. A verdade, entretanto, é justamente o oposto. Os Julgamentos de Moscou foram de fato um expurgo - um expurgo revolucionário - pelo qual o movimento da classe operária revolucionária na União Soviética, sob a direção do PCUS(B), dirigido por Stalin, adotou ação contra os desertores do campo do comunismo que, incapazes de enfrentar os problemas da construção do socialismo em um país atrasado, adotaram a linha da rendição ao capitalismo internacional e nacional, fizeram alianças com os poderes imperialistas (BRAR, 2013).

 

Sendo assim, o ponto de vista de Trotsky parece ter sido considerado pela narrativa do romance de Orwell. A hipótese dos partidos comunistas foi silenciada. Na narrativa de 1984, o paradeiro de Goldstein não era conhecido. Ele poderia estar até mesmo dentro da própria Oceânia ou apoiado por estrangeiros. De fato, o fato de que o inimigo do estado tivesse apoio de benfeitores estrangeiros ou estivesse dentro do próprio estado talvez explique a sensação de paranoia presente no estado. Com um inimigo declarado conspirando internamente ou em algum lugar no exterior, com apoio de estrangeiros, a tendência natural era a tensão interna na Oceânia aumentar. Algo semelhante ocorreu na União Soviética: a acusação e o julgamento de altas autoridades envolvidas em conspirações não deixou, inclusive, de aumentar a tensão interna. Alguns intelectuais ocidentais romperam com o partido comunista nessa época, em função da péssima repercussão dos julgamentos, supondo ser uma repressão especificamente contra os intelectuais em geral.

 

2 A RECEPÇÃO CRÍTICA DO ROMANCE 1984 DE GEORGE ORWELL

 

O romance 1984 não é lido constantemente, na atualidade, como uma referência à União Soviética de Stálin. Ele é, em geral, visto como profecia pessimista sobre o futuro, assim como crítica às políticas tanto das democracias ocidentais quanto do “totalitarismo” nazista e soviético. Ele serve, então, a variadas interpretações, desde a ficção científica quanto a abordagens políticas. Ben Pinlott comentou a respeito em um posfácio:

 

Há aspectos do romance que certamente levam o crítico moderno a ser condescendente. Não apenas a suposta advertência contida no livro estava completamente equivocada no seu intervalo de tempo (não houve, até aqui, uma terceira guerra mundial ou uma revolução ocidental e os sistemas totalitaristas são hoje menos, e não mais, comuns do que há quarenta anos), mas as fraquezas literárias do romance podem ser vistas com mais clareza agora. Se 1984 é um romance acessível, isso se deve em parte à lucidez da escrita de Orwell. Mas isso também se deve à falta de sutileza de sua caracterização e a uma trama muito simples (ORWELL, 2009, P. 382).

 

Pode-se, além disso, aludir a uma outra questão: o uso de 1984 e da outra obra de Orwell, Revolução dos Bichos, como propaganda anticomunista durante a Guerra Fria. Ou seja: os textos foram recebidos efetivamente como propaganda ficcional anticomunista. E 1984 tinha semelhanças com o romance Nós, do escritor Eugene Zamiatin, exilado em Paris depois da revolução de outubro. Tudo indica que 1984 tem bem mais do que relações intertextuais com Nós. Parece que Orwell fez um plágio consciente, já que Orwell mesmo admitiu essa semelhança em outro de seus trabalhos. A trama dos argumentos, os principais personagens, os símbolos e o clima de sua narração, pertenciam ao romance esquecido de Zamiatin. O russo, desiludido com o fracasso da revolução de 1905, dedicou seus esforços a atacar o partido social-democrata operário criado por Plekanov. Ele escreveu sua obra anticomunista depois da revolução de outubro, quando se exilou em Paris. Mesmo Isaac Deutscher, em seu livro O Misticismo da Crueldade, afirmou que Orwell tomou emprestada a ideia de 1984, o argumento, os principais personagens, os símbolos e toda a situação do argumento da obra Nós, de Eugene Zamiatin. No entanto, se o estilo de Zamiátin era prosa poética, em Orwell predominam descrições naturalistas (PIMLOTT, 2009, p. 396).

Vemos, então, que por trás da imagem do grande escritor, há alguém que copia histórias. E o mais curioso é a recepção dos textos de Orwell, que serviram para elaborar modelos teóricos para o funcionamento da União Soviética, com ampla aceitação acadêmica no mundo ocidental. O que o romance 1984 postula é muito bem ajustado àquilo que precisava o imperialismo na Guerra Fria contra o comunismo. O impacto de 1984 foi enorme em sua época. A população de fato acreditou que viver na União Soviética era daquele jeito. O romance ajudou a criar um ambiente de paranoia anticomunista e antissoviética muito palpável entre as massas. O depoimento de Isaac Deutscher (biógrafo de Trotsky) é claro a respeito:

 

Você leu esse livro? Você precisa lê-lo, senhor. Então saberá porque temos que jogar a bomba atômica nos bolcheviques! Com essas palavras, um miserável cego e vendedor de periódicos recomendou-me em New York [a novela] 1984, poucas semanas antes da morte de Orwell (ESCUSA, 2012).

 

O romance funciona, então, como entretenimento, ao mesmo tempo em que efetivamente pode ser usado – e foi —como propaganda anticomunista. O texto tem limitações enquanto arte. A narrativa e os diálogos poderiam ser melhor desenvolvidos. Talvez o repúdio ao “duplipensar”, ao pensamento que lida com a luta dos contrários, ou seja, a dialética, parece fazer com que os personagens não sejam, também, contraditórios. Cada personagem tende a caricaturar uma posição política. Assim, Parsons é um bobo alegre, Syme é um fanático, características que são atribuídas aos ativistas políticos. Os proletas parecem tirados de revistas de humor britânicas e Sr. Charrington, antiquário que aluga um quarto para o ninho de amor de Winston, e que se revela um Policial do Pensamento disfarçado, parece ter sido extraído de um romance de suspense barato.

Outro personagem que é totalmente caricatural é O´Brien. Não é alguém humano, é apenas a imagem sombria e definitiva do totalitarismo. Mesmo Winston, personagem com quem o leitor é levado a se identificar, não é um personagem totalmente simpático. É apresentado, desde o princípio, como um perdedor. Não é fácil para o leitor sentir a queda de Winston como uma tragédia.

O romance 1984 foi um sucesso instantâneo ao ser publicado em junho de 1949, apenas sete meses antes da morte do autor por tuberculose, o que levou à hipótese de que o texto fosse um delírio provocado pela doença. A narrativa é em alguns momentos lembra uma fantasia adolescente: reúne elementos de sexo furtivo, rebeldia solitária e terror implacável, levando todos esses elementos a um extremo. O romance foi interpretado como comentário social ou mesmo como profecia. Thomas Pynchon escreveu a respeito do fato de 1984 ter sido escrito na esteira do sucesso de A Revolução dos Bichos, utilizando-se de um fundo político e alegorias semelhantes, utilizando mais ou menos a mesma fórmula:

 

De certa forma, esse romance foi uma vítima do sucesso de A revolução dos bichos, lido por muitas pessoas como uma franca alegoria do destino melancólico da Revolução Russa. Desde o minuto em que o bigode do Grande Irmão surge no segundo parágrafo de 1984, muitos leitores, lembrando imediatamente de Stálin, mantiveram o hábito de tecer analogias ponto a ponto, como haviam feito na obra anterior. Embora o rosto do Grande Irmão certamente seja o de Stálin, do mesmo modo que o rosto de Emannuel Goldstein, o desprezado herege do Partido, é o de Trotski, os dois não se alinham a seus modelos de maneira tão elegante quanto Napoleão e Bola de Neve em A revolução dos bichos. Isso não impediu que o livro fosse vendido nos Estados Unidos como uma espécie de tratado anticomunista. O romance foi publicado no auge da era McCarthy, quando o “comunismo” era oficialmente condenado como uma ameaça mundial, monolítica, e não havia motivo até mesmo para distinguir Stalin de Trotski, assim como não haveria motivo para que pastores ensinassem as ovelhas sobre as nuances do reconhecimento de lobos (PYNCHON, 2009, p. 396).

 

Orwell parece, em 1984, desenvolvido as alegorias no sentido de ser crítico, também, ao mundo ocidental e aos métodos de controle que, num futuro próximo, ele via que as democracias capitalistas desenvolveriam. Ele passou a não desejar associar tão diretamente seu texto à revolução russa, colocando várias referências mais especificamente inglesas. Ele parece ter intuído formas de dominação ainda pouco aceitas ou desenvolvidas em seu tempo, como a televisão e a pornografia, jogariam um importante papel nas sociedades do futuro. Nesse sentido é que seu texto foi admirável e profético. Esses elementos estão ausentes de A Revolução dos Bichos, que parece uma fábula anticomunista utilizável desde o ensino fundamental para doutrinar contra o anticomunismo de uma forma indireta e facilmente compreensível. Assim, Orwell casou o argumento de A Revolução Traída de Trotsky ao estilo das fábulas de La Fontaine, transmitindo ao final um notável antídoto contra o comunismo: todo esforço de lutar contra a opressão produzirá fatalmente uma opressão ainda mais violenta, daí que todo esforço utópico é inútil, pois toda revolução degenera.

Em 1984, a referência à revolução russa e seus desdobramentos permanece, mas o romance funciona como um quebra-cabeça intelectual, onde todas as respostas e objeções fáceis são bloqueadas de uma forma esperta. Não se pode objetar que o texto é simples propaganda anticomunista, pois tal não é tão óbvio.

Ao mesmo tempo, algumas descrições do futuro foram associadas ao presente, ao momento em que Orwell escreveu o seu texto: a Grã-Bretanha do pós-guerra, onde havia monotonia, escassez material e burocracia governamental, é a base da inspiração do país no futuro. Uma personagem que dá mais alento é Júlia, mais agradável e simpática do que Winston. Em meio ao atoleiro de desalento de Oceânia, a política se mostra totalmente entediante para Júlia. Ela tem como objetivos na vida a despreocupação e um ideal adolescente de liberdade, não estando preocupada com a próxima geração, ao ponto de ser chamada por Winston de “rebelde da cintura para baixo”. Como um ideal como esse de Julia poderia sobreviver ao domínio do partido? Winston resiste à nova era como uma relíquia, lembrando-se de incoerências e desvendando o processo através do qual o partido reescrevia o passado. Julia parece indicar que os métodos novos de dominação do partido falharam. Contraditoriamente, um dos temas da narrativa é que os métodos totalitários do estado são inevitavelmente ineficazes, embora ele não aponte esperanças ao final.

Atualmente, muitas palavras e conceitos utilizados em 1984 passaram a ser usadas comumente por pessoas que nunca leram o livro. A maior parte desses termos é direcionada contra o poder do estado e, em especial sobre a capacidade do estado de distorcer a realidade. Pode-se objetar que atualmente a dominação não é realizada somente pelo estado, mas também pelas grandes corporações, ou seja, as grandes empresas e monopólios. Embora 1984 seja lido como uma crítica ao trabalhismo inglês e às democracias ocidentais, esse elemento fundamental das democracias capitalistas (sua economia é composta de grandes monopólios que efetivamente buscam vigiar o que seus trabalhadores fazem fora e dentro do serviço) há esse ponto cego, pois as corporações estão totalmente ausentes. O foco é no estado, o que dá argumentos aos privatistas e neoliberais que querem combater o estado.

A atitude do estado quanto ao sexo também é ambivalente. Ao mesmo tempo em que há “liga juvenil antissexo”, ou seja, o sexo é proibido pelo estado, há uma produção estatal de pornografia, o que é sinal de que ela é tolerada e consumida. Ora, a pornografia instiga ao sexo, ou pelo menos desperta os desejos sexuais. É pelo menos contraproducente por parte do estado instigar algo oficialmente com produtos para serem consumidos e ao mesmo tempo proibi-lo. Com certeza, esse método de controle seria ineficaz. Ben Pimlott define a respeito:

 

A provação da sociedade de Oceânia, na qual tudo é feito coletivamente e na qual, no entanto, todos permanecem sós, é a negação do erótico. É isso que conflagra os sentimentos dominantes de “medo, ódio, adução e triunfo orgiástico”. A histeria sexual é deliberadamente usada para fermentar uma aversão sádica aos inimigos imaginados e para estimular um amor masoquista e despersonalizado em relação ao Grande Irmão (PIMLOTT, 2009, p. 387).

 

A pornografia mostra-se uma forma de controle eficaz nas democracias capitalistas, uma vez que oficialmente, o poder permite alguma liberdade sexual. No entanto, a pornografia é uma produção artística de baixo nível, é degradação estética. Ela reproduz clichês e estereótipos. Ora, no estereótipo é que está a ideologia dominante. Quem consome pornografia estaria, ao mesmo tempo em que sentindo uma liberação imaginária, reforçando em sua mente os estereótipos desejados pelo poder dominante: o machismo, a coisificação das pessoas no sistema capitalista, em especial a situação submissa da mulher, assim como a homossexualidade masculina encontra-se segregada em filmes onde há somente esse tipo de homossexualidade. A homossexualidade feminina está presente na pornografia através de um olhar masculino que é tolerante com ela, mas mostra-se intolerante com a homossexualidade masculina. Outro ponto é que a pornografia sempre permaneceu proibida na sociedade soviética, mas passou a ser permitida nas democracias ocidentais, principalmente a partir de 1968. No entanto, não ocorre a produção estatal de pornografia como no romance de Orwell.

Sendo assim, a estratégia de Orwell parece ser a de projetar os mecanismos de opressão sofisticados que pressente e observa na Inglaterra de seu tempo, já um capitalismo desenvolvido: televisão, pornografia, etc, e projetá-los para uma sociedade dominada pelo estado, inspirada na União Soviética dos anos 30, então presidida por Stálin.

Julia, embora mais jovem que Winston, parece ser também fora do tempo: o caso de amor que ela tem com Winston parece uma narrativa de um país invadido, não de um país onde há controle total da vida privada e individual.

O romance sustenta-se, ainda hoje em dia, não devido à profundidade psicológica, mas devido à textura extraordinária do pano de fundo. O texto é um ensaio de não ficção sobre o poder maligno, disfarçado de uma ficção de horror cômica. É difícil, no entanto, ver nesse romance uma sátira. Ele oscila entre uma ficção científica, uma alegoria política e um romance de horror.

Em relação à fábula anterior, Revolução dos Bichos, esse romance de Orwell elabora melhor alguns elementos do mundo ocidental, tais como a indústria da cultura presente no mundo do futuro, ao falar da televisão e da pornografia. Na realidade, a televisão e a pornografia nunca foram utilizadas como meios de controle na União Soviética. A pornografia nunca foi permitida oficialmente, embora possivelmente tenha circulado clandestina. Já a televisão dos países socialistas nunca buscou abertamente o lucro promovendo programas falando de sangue, de crimes e de escândalos sexuais como no caso dos países do Ocidente, concentrando-se no aspecto educativo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O romance 1984 foi o último texto publicado de George Orwell e, como Revolução dos Bichos, é um grande sucesso, sendo esses dois seus livros mais conhecidos. Ambos foram marcados pela posição trotsquista de Orwell em política e de sua decisão de que era preciso demolir o mito soviético para fazer nascer um verdadeiro socialismo. O que observou-se, em nossa época, com o fim da União Soviética, foi um período que não se mostrou promissor como o esperado –e nem nasceu o tal novo socialismo.

O romance 1984 apresentou, como Revolução dos Bichos, uma estrutura amparada na analogia entre o Grande Irmão (Stálin) e o dissidente político (Lev Davidovich Bronstein, ou Trotsky). A narrativa de 1984 se faz com base nessa oposição. Menciona-se A Revolução Traída, assim como são citados os grandes expurgos. A divergência entre Trotsky e Stálin, no entanto, não fica jamais clara. Comparou-se, então, nesse artigo, as posições históricas dos dois líderes e o desenrolar do conflito entre eles como uma reflexão que pode esclarecer a narrativa histórica que serve de fundo para 1984.

O romance é bastante simples enquanto arte, com descrições naturalistas e personagens que representam diferentes posições políticas. Os personagens não têm aprofundamento psicológico, o que de certa forma torna o pano de fundo da narrativa histórica propriamente dita bastante importante para entender o que se passa. Nessa narrativa, quem sabe para evitar aproximações demasiado explícitas com a revolução russa como Revolução dos Bichos permitia, Orwell introduziu elementos presentes nas sociedades ocidentais, mas que pouco haviam sido utilizados como formas de manipulação de massas, tais como a pornografia e a televisão. Ele descreveu o presente opressivo da Inglaterra depois da guerra em suas descrições de escassez, aproveitou alguns fatos históricos da União Soviética durante o período Stálin e projetou o conjunto como uma sociedade imaginária, a Oceânia, onde o estado oprimia a todos e até a vida íntima dos cidadãos era vigiada.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BRAR, HARPAL. Leninismo X Trotsquismo. <http://comunidadestalin.blogspot.com/2011/03/trotskismo-x-leninismo-indice.html>>.

 

ESCUSA, Alberto. Quien fué realmente George Orwell? ¿Quién fue realmente George Orwell? Los mitos orwellianos: de la Guerra Civil española al holocausto soviético. Comunidadestalin.blogspot.com. <<acesso em 16 de outubro de 2012>>.

 

 

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

 

PYNCHON, Thomas. Posfácio. In: 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

 

PIMLOTT, Ben. Posfácio. In: 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

 

SAYERS Michel. KAHN, Albert E.   A Grande Conspiração contra a União Soviética. <http://comunidadestalin.blogspot.com.br/2011/12/grande-conspiracao-guerra-secreta_28.html>>.



[1] Aluno do Curso de Letras, da FASF/UNISA, Polo Luz/MG.

[2] Aluna do Curso de Letras, da FASF/UNISA, Polo Luz/MG.

domingo, 30 de agosto de 2020

Entrevista com um Idoso sobre Mao

 Entrevistador: Você poderia nos falar um pouco sobre o Presidente Mao?

Entrevistado: O Presidente Mao é o sol que nunca se põe. Assim como as plantas, que não crescem sem chuva, a revolução não pode [se realizar] sem o Pensamento Mao Zedong. [1]

O Leste está Vermelho, o sol está nascendo. Da China, vem Mao Zedong. Ele luta pela felicidade do povo. Viva! Ele é o grande salvador do povo! [2]

O Rio Liuyang se contorce e vira, ele percorre dezenas de quilômetros ao Rio Xiang. Há uma província “Xiang Tang” na margem desse rio, que foi onde o Presidente Mao nasceu, nos liderou à libertação [do país] e se tornou mundialmente famoso.

O Presidente Mao é como a luz do sol que ilumina as montanhas de neve.

Devemos seguir suas instruções. O propósito da Revolução Cultural é proteger o Estado proletário do Capitalismo, a Revolução Cultural é a ditadura do proletariado. Antes do Movimento de 4 de Maio, em 1919, falava-se de “Velha Revolução Democrática”, desde então, falamos de “Revolução Democrática de Novo Tipo” [3]. A revolução de 1966 à 1976, liderada pelo Presidente Mao, é uma revolução comunista e ditadura do proletariado, a união dos trabalhadores e camponeses oprimidos derrubou os líderes do Partido e retornou o poder ao povo. O Presidente Mao é sempre revolucionário! Devemos seguir o caminho posto por ele, realizar a Revolução, nos manter à causa da Grande Revolução Proletária Cultural sem hesitarmos, e realizar o Comunismo descrito por Marx, em seu Manifesto Comunista: eliminar os capitalistas e a propriedade privada, dar o dinheiro para o povo pobre da China e do mundo inteiro.

Quem criou o mundo? Nós, a classe trabalhadora! Tudo pertence à classe trabalhadora, não há espaço para os parasitas. Esse é o conflito final: mantendo-nos unidos e lutando, o comunismo se tornará realidade.

Falei muito hoje, venha à minha casa quando você tiver tempo.

E se eu falar demais, e eles me ouvirem, e quererem cortar minha cabeça [risos]. Já falei demais. Política é um negócio arriscado, porque colocamos nossa cabeça [vida] na linha.

A polícia é horrível, eles encurtaram minha vida, me mantiveram em cárcere por décadas, fui privado de uma alimentação saudável, e me fizeram tomar drogas psicotrópicas, que danificaram meu fígado. Também realizaram tortura elétrica comigo. A polícia é fascista.

Em 13 de Dezembro, a polícia veio me importunar porque eu expus o negócio sujo deles. O Ministro da Agência de Segurança Pública, Hua Guofeng, [era] um usurpador ganancioso. Antes de sua ascensão ao poder, os três líderes faleceram: O Presidente Mao, o Comandante Chefe Zhu De, e o Primeiro-Ministro Zhou Enlai. A dinastia acabou.

Jiang Qing, a viúva do Presidente Mao, foi presa por Hua Guofeng. Sob um disfarce “esquerdista”, Hua Guofeng cortou os pinheiros do Presidente Mao, para criar um memorial anti-revolucionário, no nome da revolução. Ele, na realidade, era um direitista tentando diminuir a revolução de Mao.

Velhos camaradas, me dêem seus conselhos. Quero reparar meus erros e me ater ao que é bom.

Referências

[1] Pensamento Mao Zedong: é o nome da corrente política que se deu ao Marxismo-Leninismo aplicado às condições da Revolução Chinesa, que viria a ser sintetizado e universalizado, tornando-se o Marxismo-Leninismo-Maoismo, pelo Partido Comunista do Peru. Para entender a diferença entre Pensamento Mao Zedong e Marxismo-Leninismo-Maoismo, olhem aqui. Para entender mais do Maoismo, olhem aqui.

[2] Aqui, o entrevistado recita um trecho da canção “O Leste é Vermelho”.

[3] Nova Democracia, o nome dado ao período da Revolução Chinesa de 1949 a 1956, e uma das contribuições do Marxismo-Leninismo-Maoismo.


Lukács e o Realismo Socialista de Soljenitsin

 

Lukács e o realismo antissocialista de Soljenitsin

 

Adriano Alves

Andreza Vale

 

Resumo

 

Esse artigo busca investigar um ensaio de Lukács sobre o dissidente russo Soljenitsin, motivado por comentários recentes a respeito de um possível paralelo entre Soljenitsin e a dissidente cubana Yoani Sánchez. Lukács considerou, ao analisar os romances de Soljenitsin, que esse escritor era um renovador do marxismo, ou ainda, um renovador que estava trazendo o realismo socialista de volta aos primórdios. O tempo não confirmou essas expectativas de Lukács, traçadas em 65. Outra hipótese a respeito de Soljenitsin foi elaborada por Abraham Rothberg em seu livro Herdeiros de Stálin: o escritor russo seria um entusiasta da liberdade de expressão e tinha sido apoiado por Kruschev. Seria, então, um dissidente liberal, não um marxista ou realista socialista. Mesmo essa hipótese deve ser deixada em suspenso diante das atitudes de Soljenitsin depois da queda da URSS, quando ele se manifestou a favor de um regime que ligasse a igreja ortodoxa ao regime czarista, apresentada em texto de Mário Sousa e do norte-americano Eric Margollis. Assim, a hipótese com que finalizou-se essa pesquisa foi que Soljenitsin elaborava um realismo antissocialista, buscando principalmente através de sua ficção apoiar o seu projeto político de extrema-direita, embora ele não assumisse diretamente essas posições reacionárias em seus primeiros tempos de União Soviética.

 

Palavras-chave: dissidência, liberalismo, realismo socialismo, Lukács, Soljenitsin, crítica literária

 

Abstract

 

This paper investigates an essay by Lukács on Russian dissident Solzhenitsyn, motivated by recent comments about a possible parallel between Solzhenitsyn and Cuban dissident Yoani Sánchez. Lukacs considered when analyzing Solzhenitsyn's novels, which this writer was a renovator of Marxism, or even a renovator who was bringing socialist realism back to the beginnings. The weather did not confirm these expectations Lukacs, drawn in 65. Another hypothesis about Solzhenitsyn was drafted by Abraham Rothberg in his book Heirs of Stalin: Russian writer was an enthusiast of free speech and had been supported by Khrushchev. It would then be a dissident liberal, not a Marxist or socialist realist. Even this hypothesis should be left open on the attitudes of Solzhenitsyn after the fall of the USSR, when he came out in favor of a system that would link the Orthodox Church to tsarist regime, presented in text Mário Sousa and American Eric Margollis . Thus, the hypothesis that ended up with this research was that Solzhenitsyn elaborated antissocialista realism, seeking mainly through his fiction support their political project of far-right, although he did not directly assume these positions reactionary in their early days of the Soviet Union .

 

Keywords: dissent, liberalism, socialist realism, Lukács, Soljenitsin, literary critics

 

Introdução

 

Recentemente, em um artigo na revista Pittacos, o teórico marxiano Luiz Sérgio Henriques comparou os romances do dissidente russo Soljenitsin aos textos da polêmica blogueira Yoani Sánchez, cuja turnê anticomunista motivou uma avalanche de polêmicas e ganhou até capa da revista Veja no mês de fevereiro [deste ano corrente de 2013].

 Henriques sugeriu a leitura dos romances do escritor russo. O motivo está presente no próprio título do artigo: deveríamos saber “O que os dissidentes dizem sobre nós”. Nós, ele quer dizer: a esquerda. A seguir, ele ainda sugere a leitura dos ensaios de Georg Lukács sobre Soljenitsin, que, segundo ele, romperam uma barreira nos anos 60. Henriques julga que são obras-primas da literatura e denúncias fundamentais do “stalinismo”.

No entanto, ao pesquisar, descobrimos que os textos de Georg Lukács sobre Soljenitsin não foram publicados em português. Esse artigo busca debater um desses textos, Soljenitsin e o Novo Realismo, aproveitando a provocação lançada por Luís Sérgio Henriques. Supomos que essa leitura poderia trazer surpresa até mesmo para  autor que os recomendou.

 

1. Lukács e sua crítica a Soljenitsin

 

Em primeiro, é preciso começar essa polêmica contextualizando para os leitores quem foram Georg Lukács (1885-1971) e Alexander Soljenitsin (1918-2008). George Lukács era considerado um intelectual comunista herege, mas ao mesmo tempo, também era considerado no Ocidente como um teórico do realismo socialista. Em seus ensaios sobre Soljenitsin, confrontam-se Lukács, um marxista supostamente atualizado e heterodoxo (mas que também fora preso duas vezes, uma vez em 1940 e depois em 56), e Soljenitsin, um oponente público do partido soviético. Curiosamente, o que se deu é que os pontos de vista de ambos se aproximam.

Lukács, mesmo em seu livro recém traduzido no Brasil, Ontologia do Ser Social, é um autor que está sempre no meio de uma discussão muito técnica sobre o marxismo, que ele prefere chamar de “crítica marxiana”. Em seus ensaios sobre Soljenitsin, pode-se dizer que Lukács expressa com fervor a aversão que sentia pelo “stalinismo”. Sobre Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Lukács se entusiasma e escreve que "o campo de concentração é um símbolo da vida cotidiana stalinista”. E ainda vai mais além. Lukács apresenta-se convicto de que os romances de Soljenitsin contribuíam para o verdadeiro marxismo ao combaterem as distorções stalinistas:

 

E, é evidente que a verdadeira maneira de manter a fé é rejeitar distorções stalinistas e, desse modo, consolidar e aprofundar todos os realmente marxistas, com convicções socialistas realmente, ao mesmo tempo, preparando-os para enfrentar problemas novos (LUKÁCS, 1965, p. 214).

 

Embora o próprio Soljenitsin tenha sido, durante algum tempo, apoiado e editado pelo líder soviético Kruschev e a república popular húngara, nos anos 60, enfeitasse muita coisa que editava com citações do próprio Lukács, as diferenças entre Stálin e os que o sucederam são negadas. Lukács aparentemente repudiou também Kruschev e Brejnev, "com todas as suas mudanças que preservam os métodos essenciais do stalinismo, com apenas modificações superficiais". E há uma série de passagens assim, afinal, bastante reveladoras do que pensa Lukács. Ele sempre fala de Soljenitsin como alguém com grande estatura moral, aprovando-o como alguém que mostra independência e coragem. No livro O Primeiro Círculo, Lukács praticamente aceita como típico um personagem que, prisioneiro na União Soviética, ainda permanece um marxista ortodoxo. Soljenitsin narra que considera o personagem decente, mas ainda marxista. Para Lukács, os “campos de concentração eram símbolo do dia a dia da vida stalinista”. Mas Lukács admira também o Soljenitsin escritor. Lukács, programaticamente antimodernista, admira o escritor que não faz utiliza técnicas experimentais em sua narrativa. Tanto como Pasternak quanto Soljenitsin voltam às formas realistas do século XIX, daí a simpatia de Lukács pela narrativa bastante tradicional de Soljenitsin.

Lukács compara Um Dia Na Vida de Ivan Denisovich com as novelas curtas de Conrad e Hemingway. Ele escreve que esses romances falam de um indivíduo colocado em uma situação extrema. O sanatório dos tuberculosos descrito por Soljenitisin é associado a Thomas Mann e A Montanha Mágica. Depois de associar Mann e Soljenitsin (comparação bastante lisonjeira para com o autor russo), Lukács ainda afirma que “as obras de Soljenitsin aparecem um renascimento dos nobres primórdios do realismo socialista.” Como referência de realismo socialista, Lukács considera como referência o escritor soviético Makarenko. Essa é a hipótese de Lukács, que julgamos desmentida pelos fatos posteriores. Pode-se supor que Soljenitsin fez justamente o contrário: realismo anti-socialista.

De um ponto de vista predominantemente favorável, assim mesmo Lukács fez críticas a Soljenitisin no sentido de que o escritor escreve do ponto de vista de uma mente “plebéia” e não de uma consciência socialista. Mas, logo em seguida, ele associou esse suposto ódio plebeu ao privilégio social ao personagem Platon Karatayev de  Guerra e Paz (de Leon Tolstoy). Soljenitsin foi aproximado a Tolstoi em suas inclinações religiosas. A respeito de quais são verdadeiramente as inclinações de Soljenitisin, vale a pena incluir uma observação sobre o que disse o colunista Eric Margollis quando da morte de Soljenistin em 2008, finalizando um artigo claramente elogioso, intitulado a Morte de um Titã:

 

Em seguida, ele [Soljenitsin] publicou um livro sobre um assunto até então tabu, o papel proeminente de judeus russos no Partido Comunista e na polícia secreta. O livro provocou uma tempestade de críticas na América do Norte. Solzhenitsyn foi marcado como antissemita e rapidamente se tornou uma não-pessoa pela segunda vez. Solzhenitsyn retornou à nova Rússia, após a queda do comunismo e tornou-se o principal expoente do culto revivido e reacionário do século 19, o nacionalismo pan-eslavo. Ele defendia a Igreja Ortodoxa da Rússia como guardiã da alma da nação, proclamou o destino manifesto da Rússia e defendeu uma forma de czarismo moderna, que se parece muito com aquela levada adiante hoje no Kremlin por Vladimir Putin e Dimitri Medvedev (MARGOLLIS, 2008).

 

Assim, o “plebeu” era na verdade um reacionário ortodoxo, cuja escrita aparentemente reforça o seu projeto, ainda que, nos anos 60 (ou seja, no período que estamos tratando), ele não pudesse ainda mostrar quem realmente era. Pelo contrário, Soljenitsin é lido como um autor que defende a linha adotada por Kruschev no congresso onde começou a desestalinização e que deseja o aprimoramento –e não a derrocada – do regime. Mas agora, de acordo com Margollis, sabemos qual é a verdade. A avaliação de Lukács, em seu texto Soljenitisin e o Novo Realismo, não poderia ser mais equivocada, quando a lemos à luz dos acontecimentos de 1965 para cá:

 

O mundo socialista, hoje, está às vésperas de um renascimento do marxismo, que não é chamado simplesmente a restaurar o sistema original, distorcido de modo grave por Stalin, mas que será dirigido em primeiro lugar a uma plena compreensão dos novos dados da realidade pela luz dos conceitos, do ao mesmo tempo novo e velho, marxismo genuíno (LUKÁCS, 1965, p. 203).

 

Aqui já temos que fazer uma observação: o pensamento de Stálin é ligado ao marxismo-leninismo. É também marxismo genuíno. Essa suposta dissociação entre “bolchevismo e stalinismo” foi primeiro realizada por Leon Trotsky em um famoso ensaio e generalizou-se como uma convicção no chamado “marxismo ocidental”, mas não encontra base na realidade. Lukács vai ainda mais longe. Ele atou o destino de seu marxismo ao realismo de Soljenitsin. Será que ele sabe que Soljenitsin era um realista anti-socialista, como mostrou posteriormente? Não há como responder a essa questão em termos simples. Pode-se dizer que possivelmente Lukács achou conveniente não ser objetivo a respeito a aderir a uma nova onda:

 

No campo literário, uma cobrança idêntica enfrenta o realismo socialista. Qualquer continuação do que foi elogiado e homenageado na era Stalin como realismo socialista seria inútil. Mas estou convencido de que eles [os críticos liberais] estão igualmente equivocados em profetizar uma sepultura precoce para o realismo socialista, e querem rebatizar como "realismo" praticamente tudo, desde a [o que se produz na] Europa Ocidental até o expressionismo e futurismo, assim como abolir todo o uso do termo "socialista". Quando o socialismo retoma sua verdadeira natureza, e sente-se mais uma vez sua responsabilidade artística em face dos grandes problemas da sua época, forças poderosas podem ser colocadas em movimento para a criação de uma nova literatura socialista da atualidade. Em meio a um processo de transformação e renovação que implica para o realismo socialista uma brusca mudança de direção daquela da era de Stalin, a história de Solzhenitsyn constitui, na minha opinião, um marco no caminho para o futuro (LUKÁCS, 1965, p. 203).

 

Mas de fato é muito surpreendente que Lukács tenha de fato analisado Soljenistin e afirmado que o material do “realismo socialista” de Soljenitsin era, agora, a avaliação crítica objetiva – e não distorcida ou reacionária-- da era de Stálin. Os personagens de Soljenitsin estão sempre esmagados pelo poder do aparelho repressivo. Lukács parece aceitá-los como ilustrativos do período Stálin – e sem fazer observações críticas. Pelo contrário, o fato de Soljenitsin abordar temas sociais e políticos em uma perspectiva reacionária e contrapor o indivíduo ao estado é visto por Lukács como uma benéfica fuga do subjetivismo de Kafka e do experimentalismo de Beckett, que para estão embebidos do niilismo da época que deu Hitler. Diferente do individualismo presente em romances de Conrad ou Hemingway, onde a luta é contra uma força da natureza, Soljenitsin traria a esperança da renovação do realismo socialista, embora fique evidente seu enfoque seja o tempo todo criticar o socialismo como um todo. Lukács arriscou uma hipótese ousada quando viu nessa perspectiva o renascimento do marxismo.

Soljenitisin transformou um dia normal em um campo anônimo num símbolo literário de um passado ainda não digerido, retratado em tons de cinza sobre cinza. Lukács citou com aprovação até mesmo frases como “o melhor lugar que se podia estar é a prisão”. E pode-se dizer também que os textos de Soljenitsin, como o romance Arquipélago Gulag, conseguiram estabelecer ligações entre os campos de concentração nazifascistas e as prisões comunistas sob Stálin. Soljenitsin pretende, em sua ficção, apresentar uma descrição autêntica da vida, dando a seus textos o cunho de denúncia política bastante didática. Se em Conrad e Hemingway, o indivíduo pode sentir simpatia pelas forças da natureza que se opõe, em Soljenistin ele não tem nenhuma simpatia pelo sistema social e político que o oprime.

Pode-se dizer, então, que o filósofo e crítico literário húngaro Lukács não só aceitou Soljenitsin como renovador do realismo socialista como associou seu reaparecimento a um suposto “renascimento do marxismo” que seria, possivelmente, orientado e reforçado pelas obras de Soljenitsin. O que se sabe, porém, é que algo de bem diferente se basou após a queda de URSS, com Soljenitsin assumindo uma posição não só anticomunista, mas também como um monarquista religioso de extrema-direita. A avaliação de Lukács mostrou-se, então, equivocada. É bem provável que Soljenitsin voltava os cânones do realismo socialista contra ele próprio, confundindo-se, nesse ínterim, com um verdadeiro realismo socialista. A seguir vamos analisar como um crítico literário norte-americano, o professor Abraham Rothberg, leu Soljenitsin nos anos 70.

 

2. Soljenitsin na obra de Rothberg: um liberal dissidente

 

            No livro Os Herdeiros de Stálin, o professor Abraham Rothberg apresenta Soljenitsin de forma diferente da leitura acima realizada por Lukács. Rotberg contextualiza o surgimento de Soljenitsin como escritor como parte de um movimento mais geral de desestalinização e de liberalização por parte de Nikita Kruschev. Soljenitsin começou, então, a ter seus livros editados não contra, mas apoiado pelo poder; no caso, pelo secretário-geral Nikita Kruschev. O primeiro texto que Soljenitsin lançou foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, publicado na revista Novy Mir:

 

O número da revista esgotou-se logo. Cem mil exemplares de Ivan Denisovich em forma de livro esgotaram-se também rapidamente . Ao mesmo tempo, publicações oficiais lançavam uma campanha coordenada para dar o máximo de publicidade ao romance: Soviet Literature o traduziu para o inglês; Moscou News, semanário de consumo de estrangeiros, foi autorizado a publicar uma versão em série; e Izvestia e outros jornais não literários publicaram resenhas altamente favoráveis ao livro. Pravda, por exemplo, comparou favoravelmente Solzhenitsyn com Tolstoy (ROTHBERG, 1972, p. 70).

 

            Como se pode ver acima, Soljenitsin foi lido favoravelmente por Kruschev como uma peça a mais na desestalinização e liberação, ou seja, ao mesmo tempo ele foi acolhido como um liberal e como um sucessor de Tolstoy. A citação de Tolstoy é uma indício de que já se sabia do aspecto religioso da obra de Soljenitsin, aspecto que depois veio à tona mais vigorosamente (ROTHBERG, 1972, p. 71).

Um Dia na Vida provocou uma tempestade de críticas tanto ao autor quanto o periódico. Logo a seguir, a mesma revista publicou um outro romance curto, Pelo Bem da Causa, igualmente provocando polêmica: para uns, a publicação de Soljenitsin era saudada como signo de liberalização, para outros era tido como narrativa exagerada e tendenciosa, que faltava com a verdade quanto ao que foi o período retratado. Já para Rothberg, a posição de Soljenitsin seria de dissidência liberal assumida, muito diferente da posição intermediária de um Lukács. Ele não adota a hipótese de que Soljenitsin esteja querendo renovar o realismo socialista e também não o associa ao marxismo, senão ao liberalismo. Leia-se seu comentário a respeito em Herdeiros de Stálin:

 

Se Ivan Denisovich foi um impacto para os dogmatistas da velha guarda, porque revelava a injustiça e a crueldade não como matéria acidental, mas com política do estado, o romance, afinal de contas, decorria no início da década de 50, na era de Stálin, a uma distância no tempo tão longe, que os fatos poderiam ser “controlados”, atribuindo-se-lhes ao passado que não se deveria mais repetir. Mas Pelo Bem da Causa era um ataque explícito aos remanescente estalinistas ainda presentes no sistema soviético, uma investidura contra burocratas mesquinhos e arbitrários, que os retratava como carreiristas impiedosos, ambiciosos e autoritários; e tempo era o presente. O fato de Kruschev ter permitido sua publicação só pode ser atribuído à necessidade de revitalizar a economia estagnada, o que esperava pudesse ser conseguido com a eliminação da inflexibilidade dogmática dos burocratas estalinistas (ROTHBERG, 1972, p. 119).

 

            O pequeno romance (“novela”) em questão, Pelo Bem da Causa, conta a história de como um pequeno grupo de jovens ajuda a construir um novo prédio escolar poderem estudar, uma vez que o prédio anterior era velho e inadequado e como, depois de concluída a construção, eles a perdem para os burocratas e carreiristas. Um personagem em especial, Knorozov, representou, na narrativa, o burocrata stalinista.

O texto causou polêmica porque o crítico Yuri Barabash, do jornal Literaturnaya Gazeta, comentou que Soljenitsin teria criado em Knorozov uma caricatura, um símbolo irreal do período Stálin. Através das análises de Rothberg pode-se notar que havia um debate público a respeito de Stálin, literatura e política na União Soviética, ao contrário da imagem que se tenta passar nos últimos anos, de um regime tirânico, que não permitiu crítica alguma e vigia os seus cidadãos no dia a dia. O texto Os Herdeiros de Stálin registrou, inclusive, a existência de uma imprensa alternativa na URSS, os chamados “samizdats”, jornais clandestinos em que circulavam materiais não liberados pela censura, chegando inclusive ao Ocidente. Como a URSS não participava das convenções internacionais de direitos autorais, muito material era contrabandeado para o exterior. Soljetinsin era elogiado e criticado na imprensa soviética. Como se pode ler em Rothberg:

 

No início de janeiro, a imunidade de Soljenitsin ao ataque começou também a ruir. Lydia Fomenko o censurou por não ter deixado de erigir uma percepção filosófica do período estalinistas em Ivan Denisovich, e por ter deixado de compreender que o povo e o Partido andaram bem em construir o socialismo, apesar de Stálin. Era a crítica que começava numa campanha contra Soljenitsin, crítica que iria crescer e se tornar o meio de o regime tratar o problema dos herdeiros de Stálin. O socialismo, o que quer que fosse, tinha sido construído pelo povo e, por extensão, pelo Partido, mesmo enquanto Stálin cometia seus erros e suas distorções. Os apologistas apontavam para as realizações da industrialização soviética e para a vitória sobre a Alemanha nazista como provas positivas de que eles –o Partido e o povo, o Partido conduzindo o povo –tinham realizado como distinto do que ele –Stálin –tinha desviado ou distorcido. Uma vez entregue a essa apologia, os líderes do Partido tinham de reabilitar Stálin, pelo menos em parte, de modo que sua lógica e sua história, embora deficientes e deformadas, não parecessem inteiramente absurdas (ROTHBERG, 1972, p. 84).

 

A partir desse momento, portanto, que ocorreu no ano de 1962, a suposta preferência de Kruschev por Soljenitsin se abrandou. Naquele ano, uma conferência de escritores deu um basta à liberalização e à desestalinização. O grupo dos escritores liberais tais como Yevtuchenko, Ehrenburg e Nekrassov passou a ser criticado e Kruschev ficou especialmente irritado com uma exposição de arte abstrata na URSS. Ele passou, então, a afirmar que não ia aceitar mais desvios do realismo socialista. Passou-se a criticar Ehremburg, assim como outros escritores, entre os quais Soljenitsin, pela forma como a propaganda ocidental utilizava suas obras, ou seja, como uma propaganda contra o socialismo como um todo (ROTHBERG, 1972, p. 85).

A leitura de Soljenitsin, assim, alimentava-se mais e mais de um interesse político. Outro ponto presente em sua literatura e já registrado por Rothberg foi a associação que Soljenitsin causava, entre os campos de concentração do tempo de Stálin e os campos fascistas. Esse ponto foi fortemente o ponto que foi ressaltado no Ocidente nos anos 70, quando Soljenitsin mudou para o exterior e radicalizou suas posições em O Arquipélago Gulag (ROTHBERG, 1972, P. 85).

 

3. Soljenitsin: uma literatura fascista?

 

            Embora de início associada à liberalização, Soljenitisin entrou em choque com o poder soviético no decorrer do final dos anos 60 e, no início dos anos 70, abandonou a URSS, obtendo, no entanto, grande sucesso no Ocidente. O governo soviético exigiu que Soljenitsin não participasse de uma campanha internacional de difamação da União Soviética, mas Soljenitsin negou-se a aceitar. Assim, depois de estimulados, seus livros passaram a sofrer censura.

 Enquanto isso, na União Soviética, sua peça A Festa dos Conquistadores provocava polêmica. Segundo Soljenitsin, a peça teria sido apreendida ilegalmente pela polícia política. Por outro lado, as autoridades alegavam que a peça tinha sido obtida junto a estrangeiros que contrabandeavam manuscritos de dissidentes russos para o ocidente. A peça, também escrita durante o período de encarceramento de Soljenitsin, apresentava o exército vermelho com um exército de vândalos e estupradores e simpatizava abertamente com o general Vlassov, que se passou para o lado dos nazistas durante a II Guerra. A polêmica em torno da peça fazia supor que a condenação pela qual Soljenitsin fora aprisionado em 1946 tinha sido motivada por sua simpatia aos nazistas ainda em plena II Guerra Mundial. Ao contrário do regime cubano hoje em dia, que tolera que a dissidente Yoani Sánchez mova uma campanha internacional de difamação e calúnia, tal não foi tolerado pelo governo soviético em plena Guerra Fria.

A hipótese do marxista português Mário Sousa sobre Soljenitsin é a última que iremos analisar: ele parte do pressuposto de que sua ficção reforça um projeto político de extrema-direita.

No Ocidente, Soljenitsin lançou o livro Arquipélago Gulag, radicalizando sua visão sobre as prisões ao tempo de Stálin.  Em 1970, Soljenitsin ganhou o prêmio Nobel de literatura, mas o texto passou a ser lido no Ocidente como uma peça de propaganda anticomunista e  não uma ficção. Até hoje essa leitura de sua obra é bastante comum.  Em 1974, Soljenitsin emigrou para a Suíça e depois para os Estados Unidos. Sua suposta simpatia pelos nazis não era, então, abertamente discutida.

            As posições de Soljenitsin no Ocidente eram abertamente anticomunistas: propôs atacar o Vietnã mesmo depois do fim da guerra, discursou no senado norte-americano, assim como foi orador no sindicato conservador AFL-CIO. Dentre outras posições conservadoras, defendeu a intervenção dos USA para coibir a Revolução dos Cravos em Portugal. Ele também lamentou a libertação das colônias portuguesas da África. Soljenitsin inspirou a série Rambo, ao alegar que existiam norte-americanos trabalhando como escravos no Vietnã do Norte, assim como apoiou o regime fascista de Francisco Franco na Espanha, opondo-se e prevenindo as pessoas contra as reformas democráticas depois da morte de Franco, em 1975, quando o rei começou, timidamente, uma liberalização democrática. Soljenitsin contrastou, em entrevista no horário nobre, os cento e dez milhões de russos que morreram vítimas do socialismo com a liberdade que se desfrutava na Espanha. Assim, relembrando o artigo de Eric Margollis que citamos anteriormente, Soljenitsin não ganhou inteiro apoio político em seus dezoito anos de exílio nos Estados Unidos, tendo saído paulatinamente da mídia: embora ele tenha sido uma peça importante na campanha antissoviética da Guerra Fria, mesmo os governos capitalistas não podiam apoia-lo sem constrangimentos, como quando publicou um livro abertamente antissemita nos Estados Unidos. De fato, nem os capitalistas mais radicais se interessaram em apoiar o projeto político de Soljenitsin, que é a volta do regime autoritário dos czares em ligação com a igreja russa ortodoxa.

            Assim sendo, Soljenitsin  foi lido de três formas que excluem umas às outras: como realismo socialista (Lukács), como um defensor da liberdade de expressão e um dissidente liberal a favor de Kruschev (Rothberg) e, finalmente, como um defensor da extrema-direita. Nossa hipótese é que essa última hipótese é que é a correta: Soljenitsin é um ficcionista de extrema-direita.

            Mas sua ficção é também muito lida como informação histórica no Ocidente e tratada como bibliografia a respeito da União Soviética. E isso mesmo pelos simpatizantes do marxismo ocidental (como o supracitado Luiz Sérgio Henriques, considerado referência no estudo de Lukács no Brasil e citado ao lado de José Paulo Netto, José Chasin e outros).

 

3. Conclusão

 

A obra ficcional de Alexander Soljenitsin foi esquecida nos últimos anos. Foi citada recentemente a propósito da visita da dissidente cubana Yoani Sánchez ao Brasil pelo teórico lukacsiano Luiz Sérgio Henriques, que sugeriu em artigo recente na revista Pittacos o assunto desse artigo: a leitura dos artigos de Lukács sobre Soljenitsin. Porém, Henriques esqueceu-se, possivelmente, de que esses artigos não foram publicados em português, como aliás, parte significativa da obra de Georg Lukács, cujo livro considerado essencial, Ontologia do Ser Social, só recentemente foi publicado no Brasil. Ao ler o texto Soljenitsin e o Novo Realismo e comentá-lo para esse artigo, o que foi observado é que os pontos de vista de Lukács e Soljenitsin convergem em alguns pontos. Tal não deixa de ser surpreendente, uma vez que, para muitos no Ocidente, Lukács é um marxista ortodoxo, enquanto Soljenitsin, conforme foi verificado depois da queda da União Soviética, era um antissemita, monarquista e religioso fanático, adepto da extrema-direita e peça importantíssima numa campanha de propaganda antissoviética em plena Guerra Fria que o governo da URSS não tolerou. Ao contrário do governo de Kruschev, que estimulou inicialmente Soljenitsin e depois o censurou, proibindo sua campanha antissoviética no Ocidente, o que se nota é que o governo cubano é tolerante com uma campanha semelhante desencadeada por Yoani Sánchez. Nossa hipótese é que a teoria de Lukács sobre Soljenitsin, supondo que a ficção de Soljenitsin seria na verdade um novo realismo socialista, buscando renovar o marxismo, não tem de forma alguma correspondência na realidade e foi, posteriormente, desmentida pelos fatos. A hipótese de Abraham Rothberg é mais próxima da realidade: Soljenitsin de fato era um dissidente do regime soviético. O que Rothberg não deixa entrever é a radicalidade de Soljenitsin contra a URSS, parcialidade visível no artigo Morte de um Titã, de Eric Margollis, após a morte desse verdadeiro titã do anticomunismo. O que é surpreendente que um marxista considerado ortodoxo como Georg Lukács confunda realismo socialista com algo que pode ser considerado como realismo anti-socialista. Ou que de fato teve um uso, no Ocidente, como realismo antissocialista, em meio a uma campanha da Guerra Fria contra a União Soviética. E surpreende que Lukács ainda compare, favoravelmente, mas de acordo com a visão que era também debatida na URSS dos anos 60 e 70, Soljenitsin com Tolstoy, chegando a dizer que ele seria “um novo Tolstoy”. Os elogios não param por aí: O Pavilhão dos Cancerosos, parte da obsessão de Soljenitsin pelo encarceramento, é comparado pelo marxista ocidental Lukács com a prestigiosa obra A Montanha Mágica, de Thomas Mann, pelo fato de que os dois tratam de pessoas colocadas fora de seu meio. As situações extremas são o motivo-guia que irá permitir a comparação que Lukács realiza entre Soljenitsin e Conrad, assim como o escritor russo é também comparado a Ernest Hemingway, autor de pequenos textos curtos como O Velho e o Mar e também bastante famoso e apreciado. Porém, Lukács observa que os personagens de Soljenitsin se movimentam individualmente contra um sistema opressor, com o qual eles, isolados, nunca sentem nenhuma simpatia ou ambivalência. Assim, conclui-se que a visão de Lukács observa Soljenitsin de uma forma complacente, simpática, quem sabe devido ao fato de que Lukács também foi encarcerado duas vezes durante o período Stálin, pelo motivo mesmo de não ser considerado um marxista ortodoxo. Lukács chega a atrelar sua obra a de Soljenitsin, considerado que ela seria uma expressão artística do marxismo renascido após a desestalinização e da liberalização do regime soviético. Assim, Lukács liga-se à visão de Soljenitsin predominante no período Kruschev, quando esse escritor russo foi apoiado oficialmente. E não demonstra, em 1965, estar retrocedendo da posição simpática adotada inicialmente por Kruschev diante daquele escritor e que, desde 62, registra Abraham Rothberg, estava refluindo, com Soljenitsin tendo perdido sua imunidade e tendo sido criticado na imprensa soviética. Há, portanto, três hipóteses sobre a obra de Soljenitsin, aqui inventariadas. Tomou-se partido, então, da hipótese de Mário Sousa, de que a ficção do escritor russo era de extrema-direita, em detrimento da hipótese de Rothberg de que ele seria um liberal e da de Lukács, de que ele seria um marxista e realista socialista. O fundamento para poder afirmar que o projeto político de Soljenitsin era de extrema-direita foram suas posições mais abertamente tomadas depois do fim da União Soviética.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4. Referências bibliográficas:

 

HENRIQUES, Luís Sérgio. O que os dissidentes dizem sobre nós.  <http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=1556>

 

HOWE, Irving. Lukacs and Solzhenitsyn. Revista Dissent. MIT Press, 1965.

 

LUKÁCS, Georg. SOLZHENITSIN AND THE NEW REALISM. Socialist register. <http://socialistregister.com/index.php/srv/article/view/5957#.UU-IvzdFseo>>

 

MARGOLIS, Eric. The Death of a Titan. <<http://www.bigeye.com/fc081108.htm>>.

 

MARTENS, Ludo. Stalin, Um Outro Olhar. Rio de Janeiro: Ed Revan, 1990.

 

ROTHBERG, Abraham. Os Herdeiros de Stálin. A dissidência e o regime soviético 1953-1970. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1972.

 

SOUSA, Mário. Mentiras sobre a União Soviética. http://republicasocialista.blogspot.com.br/2012/12/mentiras-sobre-historia-da-uniao.html. Acesso em 20 fevereiro de 2013.

 

 

 

sábado, 15 de agosto de 2020

O Caso Mersault


 Romance de Karim Daoud (trecho)

 

 

 

            Hoje, minha mãe ainda está viva.

Ela não diz mais nada, mas ela pode contar bem as coisas. Ao contrário de mim, que ao tentar desenterrar essa história, quase não me lembro.

Eu quero falar de uma história que remonta a mais de meio século. Ela aconteceu e muito se falou sobre ela. As pessoas falam sobre ela, mas só evocam um morto –e não ficam com vergonha em fazer isso, uma vez que existiram dois mortos. A razão desse esquecimento? O primeiro sabia contar, ao ponto de que ele fazer renunciar a fazer esquecer seu crime, então o segundo era um iletrado que Deus criou apenas para receber uma bala e retornar ao pó, um anônimo que não teve nem tempo de ter um sobrenome.

Eu te digo imediatamente: o segundo morto, o que foi assassinado, era meu irmão. Ele não tem nada, a não ser eu, assentado nesse bar, esperando os meus sentimentos que jamais ninguém me dará. Você pode rir, mas é um pouco minha missão: ser o revendedor de uma história de bastidores depois que a cena do teatro está vazia. É por isso que eu aprendi a falar esta língua e a escrevê-la; para falar no lugar de um morto, continuar um pouco suas frases. O assassino tornou-se célebre e sua história está muito bem escrita e por isso tem a vontade de imitá-la. Dar essa língua a ele. É porque eu vou fazer o que fizemos nesse país desde a independência: pegar as pedras das antigas casas dos colonos e fazer uma nossa, uma língua nossa. As palavras e as expressões do assassino são meu mal que veio para bem. O país está cheio de palavras que não pertencem mais a ninguém e que nós percebemos na fachada das velhas lojas, nos livros amarelados, nos rostos, ou transformados pelo estranho dialeto que a descolonização produziu.

Há muito tempo que o meu irmão está morto e há muito tempo que meu irmão cessou de existir –salvo para mim. Você está cansado de colocar perguntas que eu detesto, mas eu espero que você me escute com atenção, você terminará por compreender. Não é uma história normal. É uma história que começa pelo fim e volta ao seu começo., sim como um cardume de salmões desenhado a lápis. Como todos os outros, você vai contar a história que conta sobre o homem que a escreveu. Ele escreve tão bem que as palavras parecem pedras talhadas pela exatidão em pessoa. Era alguém muito severo com as nuances, seu herói, eles os obrigava quase a serem matemáticos. De infinitos cálculos à base de pedra e de minério. Você viu sua forma de escrever? Ele parece usar a arte do poema para falar de um tiro. Seu mundo é limpo, cinzelado pela claridade matinal, claro, traçado...

 

Ondulatória, o Amor é para os Fortes

 

            Esse é um livro de poesias de Eduardo Andrade (Literatura em Cena, 2019) onde o que me fascina é a imagem da onda, das ondulações. Eduardo continua na linha de valer-se do cotidiano e das falas ditas na clínica para fazer poemas e prosa poética. A moça disse que o dedo era podre, mas não era o dedo físico: era no sentido figurado. E aí Eduardo teve uma epifania: “naquele momento percebi que o podre é o abandono do cuidado interno que inclina-se a repetições cegas. Anulação própria do luxo angustiante de poder escolher. A repetição é uma prisão e a pior cegueira é a de que não olha para dentro de si”. Ele desenvolve, então, uma curiosa teoria das ondulatórias psíquicas: “era das ondulatórias psíquicas, que na tentativa de serem caladas, falavam gritando pelas pontas do dedo. O ato refaz o corpo. A existência quando calada, grita pelos poros que encontram! Não se esconde de si mesmo”. É como se uma questão, ao não ser falada pelo analisando, falasse em si em seu corpo, falasse por si própria dentro dela ou dele.

            Em resposta, sua poética fala: fala das ondulatórias das águas (“estrias líquidas”), da labirintite psíquica ao sair da sessão de análise (sair trocando as pernas?), da poesia enquanto nudes da alma. Outra imagem da ondulação: “na lisura do seu macio cabelo escorre brincando a esperança no humano; a esperança é uma criança”. O amor é uma onda que só pode ser navegável pelas sutilezas dos fortes.  Eduardo utiliza-se de uma citação do livro Mulheres de Bukowski, que diz que o sexo, para a maioria das pessoas, e só dar corda, o que nos remete à imagem de pular corda, o que também é uma imagem da onda, da ondulação.Daí que,  concluindo, o poeta reflete que o amor só é suportável para quem aguenta a sobrecarga psíquica, ou seja, o sexo pode até ser para a maioria das pessoas, mas o amor é para quem não é fraco em termos psíquicos, é para os fortes, como diz o título, como os que fazem terapia, por exemplo.

 

 

 

Ainda que o o Amor seja para todos, Amar não é para Qualquer Um

 

            Nesse livro, juntamente com o Ondulatória, ambos de 2019, Eduardo elabora uma poética que parte de observações do cotidiano, de onde tira epifanias, no sentido de revelações do sagrado, da beleza, da leveza, das lições da vida. O livro não tem poesias propriamente no formato de versos: utiliza-se do formato de crônicas, prosa poética. Ele é muito perspicaz em notar que o ódio tem sua face erótica: atrito, bater boca: “atrito. É briga, é contato”. Suas palavras e observações são mamíferas, sugam o leite das coisas. No poema a invasão das decisões, ele observa que as pessoas chegam para as outras, sem ter conquistado liberdade para isso, e já imperam pelo imperativo do dizer o que esta deve ou não fazer (...). Geralmente o resultado da justificativa é das próprias questões e não de uma acolhida da história da pessoa”. É muito curioso o trabalho da linguagem com uma frase como “seja a si mesmo”, que remete ao “torna-te quem és”, de Píndaro, ou o conhece- te a ti mesmo, de Sócrates. Eduardo observa que ninguém tem uma identidade pronta, somos verbos. Ser a si mesmo é ser plural, pois não podemos dizer que temos uma identidade una, que não somos e, a partir de um certo ponto, passamos a assumir uma determinada identidade. O que se tem é um melhor ajuste, é estar melhor resolvido ao encontrar-se enquanto pertencente a uma determinada tribo (gays, funkeiros, etc), ao descobrir em si mesmo um talento que os outros reconhecem. Eduardo contesta a ideia de beleza, em especial quando trata-se de um discurso voltado para a mulher. A feminista é sempre feia para os controladores de plantão. Chamar de feia é uma estética vazia. Ele diz a respeito: “é feio o outro escancarar assim os desejos que tanto se luta por reprimir. Feio é sentimento que brota na epiderme estética, mas que diz de como percebemos tal coisa. Nada é feio sem interpretação. Feio é estado de espírito! Nada é bonito quando se está bem consigo”. Feio, analisa ele, é um estado de espírito, ele acredita em beleza interior, feio é um nome que damos para espelhar o que de dentro temos. O que me lembra a frase de Jorge Amado para responder a Vinícius: “algumas mulheres feias são irresistíveis”.

João Dalvi X Jones Manoel

 


Não fosse a falta de tempo, trabalho esposa, casa e filho, eu te daria uma resposta. Não porque eu seja algum teórico ou intelectual. Porque, assim como você, eu não sou. Mas quando a "critica" é tão rasa e vazia de significado basta ter bom senso e o mínimo conhecimento do marxismo, da história do Brasil e de nossa intelectualidade para o fazer. O centro do seu vídeo é a criação de um espantalho para poder atacar, já que você não tem condições de atacar o objeto em si. Sua afirmação de que os maoistas do Brasil fazem um transplante mecanicista e dogmático de teoria é simplesmente falso. Sem entrarei no mérito de que o próprio pcbrasileiro faz exatamente aquilo de que você acusa o maoismo fazer. Me contento em afirmar que isso é pura e simplesmente mentira. Mentira organicamente, quem conheceu ou participou de algum movimento desses conhece e sabe muito bem que a realidade é o completo oposto do ué você afirma. É mentira historicamente, na questão da semi feudaridade, porque décadas antes de existirem maoistas no Brasil, intelectuais da envergadura de Nelson werneck Sodré e Josué de Castro já eram ávidos defensores da caracterização do Brasil como pais semi feudal, e deixavam bem claro como era importante que essa caracterização fosse feita da forma correta. Essa informação, você ou desconhece, mostrando que não sabe do que fala, ou você omitiu justamente porque ela ataca uma das bases do espantalho que você criou para bater, que é a de que a semifeudaridade do Brasil é um transplante mecanicista feito pelos maoistas e não uma análise concreta da realidade concreta que os comunistas defenderam por muito tempo no Brasil e que não tem nada que ver com os maoistas, estes nem sonhavam ainda em existir. Logo, ao menos sobre esse assunto, ou você é um desinformado, ou é um charlatão, que está tentando enganar as pessoas de propósito. Eu lhe recomendo sair do apartamento e ir conhecer o país que você mora. De uma volta no campo, no Pará, Rondônia, Bahia, norte de Minas, Espírito Santo. Vá ver quantos camponeses recebem salário e quantos vivem em regime de terça e meia. Vá ver as expressões da semi feudaridade que atravessam séculos de latifúndio na mentalidade da classe dominante brasileira, na vida das próprias cidades, etc. Pergunte-se porque será que o maior movimento social do mundo é justamente um movimento camponês brasileiro: o MST. Que, diga-se de passagem, historicamente mobilizou a massa camponesa para tomada de terras, pela reivindicação da propriedade da terra e não por salários, jornada de trabalho ou outras pautas da classe Operária. Seria muito engraçado, se não fosse trágico, a quantidade de pessoas sendo induzidas ao erro por um garoto arrogante desses que não sabe do que fala, e acha que entende melhor do que gente que dedica sua vida a isso na prática do fogo da luta de classes. Que se dedica a ver na prática a validade da teoria, como o prosiduntu mão Tsetung nos ensinou. E o fazem lutando ao lado do povo, vivendo e morrendo, e trabalhando ao seu lado. Se tem alguém hoje além de alguns dirigentes regionais do MST, que entende muito bem da aplicação da teoria na prática da luta de classes, especificamente do campo e das relações de trabalho que ele engendra, são os maoistas e organizações de massas COMO a LCP. Você, garoto, das duas uma: ou não sabe do que fala, ou sabe mas está enganando as pessoas porque é incapaz de fazer uma crítica real do maoismo enquanto teoria e enquanto pratica política. Afinal, como ensinava o presidente mao, a prática é o critério da verdade. Comparem a prática do maoismo no Brasil com a prática do pcbrasileiro, um eterno partido eleitoral inexpressivo que existe para ser linha auxiliar de outros partidos da direita liberal travestida de esquerda ou polidos pós modernos. Vocês estão inconformados por estarem perdendo militantes que enxergaram que se queriam participar da revolução brasileira, estavam no partido errado. Esta que é a realidade. Deixa eu te contar uma coisa. Vão continuar perdendo militantes justamente por causa desse tipo de polêmicas quixotescas que vocês não tem a mínima condição de sustentar. Um forte abraço!