domingo, 3 de abril de 2022

Teatro em Bom Despacho: A Viagem de Sucesso de Nosso Barquinho

 

Teatro em Bom Despacho: A Viagem de Sucesso de Nosso Barquinho

 

            Minha lembrança do teatro em Bom Despacho é uma lembrança infantil muito terna: minha tia Jane foi a Iara na peça A Viagem de um Barquinho, de Sílvia Orthof, encenada no Salão São Vicente com bastante sucesso. Foi também encenada em Dores do Indaiá. Vander Araújo lembrou-se de ter participado, ainda criança, da peça, mencionando-a em seu romance Roupa Suja de Inconfidente. Era mágico e encantador ver Jane na figura de uma sereia de cabelos verdes.

Segundo carta que recebi de Roniere Menezes, que era o sapo naquela peça, o grupo teatral chamava-se Porta Aberta. Apresentaram-se no salão São Vicente mais de uma vez, bem como em Dores do Indaiá, etc. Havia a Deolina como lavadeira e o Wander Araújo, criança na época, como menino. Os dois eram os protagonistas. A Samira irmã do Wander também trabalhava, entre várias outras pessoas amigas. Bil Morais, meu tio, era o diretor da peça.

            Quando voltei a viver em Bom Despacho, no início dos anos 2000, o teatro estava florescendo. O grande artista que mobilizou o teatro na cidade naquele período chama-se Júnior Souza, o professor Juninho. Eu fiz algumas anotações (que agora consulto), na época, sobre o enredo da peça De Quem é Esse Reino. Isso ocorreu em dezembro de 2002.

De Quem É Esse Reino tratava das relações de poder num reino imaginário, a Sorbônia. Num dado momento ficava claro que a Sorbônia era o espelho do Brasil. Neste reino, que nos fazia lembrar aquele da novela Que Rei Sou Eu, existia uma trama para levar uma serviçal do palácio (negra e acima de seu peso ideal) ao trono, aproveitando-se da velhice da rainha Dinorah. A serviçal (operária?) conseguia, após alguns ardis de “Malvina”, sua colaboradora, chegar ao poder, fazendo-se passar por homem (insinuando o tema do travestismo). O verdadeiro príncipe foi retido por asseclas dos usurpadores. A “serviçal”, uma vez no poder, cometeu a gafe de tentar falar em línguas estrangeiras sem nada saber: “murchas graxas”, arranhou em portunhol, dando mancada e entregando-se. A seguir, a “ex-operária” expôs seu programa de governo, explicitamente cortando os direitos dos “serviçais”, e, pelo que me lembro, falou em cortar o décimo terceiro salário, etc. Logo sua “corte” se irritou com os descaminhos do príncipe gritalhão. Enquanto isso, o príncipe herdeiro se libertou daqueles que estavam em seu caminho e veio salvar o reino das mãos da plebe, retomando a linhagem nobre. E a peça encerrou-se com a serviçal voltando a servir no palácio. Notem como é curioso esse enredo, ao levantar questões como a possibilidade de mudar de classe social e de corte de direitos dos trabalhadores, temas ainda hoje muito atuais.

            Pelo menos dois atores de expressão foram revelados no teatro do Juninho: Thales Braga e Ítalo Laureano. Ítalo, graduado em teatro na UFMG, desenvolve trabalhos como ator e diretor, aliás como co-fundador do Grupo Quatroloscinco Teatro do Comum. (Ator e Diretor em 7 espetáculos/14 anos), participou também das novelas Espelho da Vida e Bom Sucesso. Thales fez parte de uma encenação muito elogiada de Pra Acabar com o Juízo de Deus, de Antonin Artaud (em Belo Horizonte). Foram muitas peças de enorme sucesso local escrita pelo professor Juninho: Três Mulheres e um Amigo, Guarapari é Aqui (ambas com Lili Cunha, que cedeu as fotos dessa matéria e a quem agradeço imensamente) lotando o Salão São Vicente. Lili brilhou nessas peças de Juninho e hoje consolidou a graciosa personagem Palhaça Berinjela (@palhacaberinjela). Oxalá, com o fim da pandemia, a cidade retome sua bela vocação teatral, com muito sucesso e muitos talentos revelados e cultivados! Que o nosso barquinho continue sua viagem de sucesso!!!

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Um Artigo de 2003 Sobre Lula

 

Em dezembro de 2002 fui a uma peça de teatro infantil aqui em Bom Despacho, interior de Minas. A peça, de autoria do professor Júnior Souza e chamava-se De Quem É Esse Reino. Porém, não pretendo fazer quaisquer observações estéticas a respeito da obra, tarefa que deixo para um entendedor ou crítico especializado. O que me interessa aqui é um insuspeito elo que verifico existir, entre o cenário político nacional e aquela peça teatral.

 

De Quem É Esse Reino tratou das relações de poder num reino imaginário, a Sorbônia. Num dado momento ficava claro que a Sorbônia era o espelho do Brasil. Neste reino, que nos fazia lembrar aquele da novela Que Rei Sou Eu (comentada posteriormente pelo sociólogo Gilberto Vasconcellos como sendo uma novela favorável a Collor), existia uma trama para levar uma serviçal do palácio (negra e acima de seu peso ideal) ao trono, aproveitando-se da velhice da rainha Dinorah. A serviçal (operária?) conseguia, após alguns ardis de “Malvina”, sua colaboradora, chegar ao poder, fazendo-se passar por homem (insinuando o tema do travestismo). O verdadeiro príncipe estava retido por asseclas dos usurpadores. A “serviçal”, uma vez no poder, cometeu a gafe de tentar falar em línguas estrangeiras sem saber: “Murchas graxas”, arranhou em portunhol. A seguir, a “ex-operária” expôs seu programa de governo, explicitamente cortando os direitos dos “serviçais”, e, pelo que me lembro, falou em cortar o décimo terceiro salário, etc. Logo sua “corte” se irritou com os descaminhos do príncipe gritalhão. Enquanto isso, o príncipe herdeiro se libertou daqueles que estavam em seu caminho e veio salvar o reino das mãos da plebe, retomando a linhagem nobre. E a peça se encerrou com a serviçal voltando a servir no palácio.

 

Pois então: o governo Lula, agora em andamento, lembra a passagem que comentei acima sobre a pessoa que, vinda do povo, ascende ao poder e se volta contra aqueles de sua classe de origem. Confirmei, com Lula, não é só o pobre que entende o pobre, não é o só o negro que entende o negro, não é só o gay que entende o gay. Neste governo, a classe trabalhadora, iludida para pensar que chegou ao poder com Lula, está numa “aliança interclassista” que só faz aprofundar seu jugo, ganhando mais exploração e mais ilusão – e só.

 

E, em termos de alianças interclassistas, essa que o PT agora fez é muito pior do que aquela que fez o partidão (PCB) com Vargas e Adhemar de Barros no tempo de Stálin, e que foi motivo da saída de muitos intelectuais do partido comunista. Aquela tinha algum lastro na realidade, e foi melhor discutida em sua teorização. A finalidade era reformar o capitalismo no Brasil, encerrando a fase colonial ou semi-colonial; nessa fase, segundo Stálin, a burguesia se cindiria em burguesia associada com o imperialismo e outra mitológica “burguesia nacional progressista”. Um exemplo: Apesar de fraco nos momentos de decisão e outros defeitos, João Goulart, enquanto ministro do trabalho de Vargas, deu aumento de cem por cento para os trabalhadores. Então esse homem não era homem de esquerda? Era “a última lava do vulcão varguista?”, como disse Glauber Rocha? Será que um dia veremos Jacques Wagner dando um aumento desse?

 

Um dado que me deixa perplexo: o partido que carrega a herança de Vargas, o PDT, está no poder junto com Lula. Penso que o interesse deles é a sobrevivência política, além do apetite por cargos e por poder. Quando Lula chegou ao poder, e até um pouco antes, um historiador respeitado como José Murilo de Carvalho escreveu a sério comparando Lula a Getúlio, de “populista” e “pai dos pobres”. Porém, Lula já deu sinais de anti-varguismo explícito em inúmeras oportunidades, a partir do início de sua carreira, em que dizia que “a CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Numa reportagem na Folha de São Paulo, recentemente, ele se posicionou a respeito da CLT. Luiz Inácio, como ultimamente tem agido e falado, não é nem totalmente nem totalmente a favor. Agora ele discorda de algumas coisas na CLT e concorda com outras. Parece uma atitude ponderada, mas não é. Penso que essa é uma das mais curiosas características de seu discurso atual. O que o governo encaminha, sem buscar tornar consensual entre as centrais sindicais, é a retirada (e não a ampliação) dos direitos.

 

E, como comecei a falar de cultura (e não irei falar sobre Gil, a quem José Ramos Tinhorão acusou de parvenu e arrivista), noto também a tendência para a “falsa ponderação” mais do que evidente quando Lula se encontrou com o pessoal do meio artístico recentemente, para assistir ao filme Amarelo Manga. Lula “ponderou” que não basta só ficar xingando [a hegemonia norte-americana] e também é preciso ter um produto competitivo”. Por que essa é uma falsa ponderação? Com essa fala, Lula se desincumbe, ele que seria o responsável por ajudar a viabilizar essa “arte industrial” que é cinema, e atira a responsabilidade sobre os artistas. E, a respeito do “produto competitivo”, o presidente não detêm conhecimento suficiente para ponderar. O filme brasileiro citado por ele como referência é “Sinhá Moça”, de 1953 e outras produções da Vera Cruz. Ora, vejamos. O homem que “compreendeu o Brasil” segundo um professor como Paulo Ghiraldelli, tem como sua referência cinematográfica a chanchada. Ao contrário do outro “pai dos pobres”, personagem suicida e trágico, esse que nos preside agora é gordinho e falastrão, vivendo uma gozada chanchada da vida real num país que produz menos filmes do que a Argentina.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Bom Despacho, a Mulher e As Manifestações de Rua: De 1968 até 2013

 

Bom Despacho, a Mulher e As Manifestações de Rua: De 1968 até 2013

 

            Maria Celeste Morais, minha mãe, apresenta uma memória bastante curiosa: lembra-se sempre das manifestações estudantis em Bom Despacho, no ano de 1968. Mamãe é uma talentosa escritora que escreveu crônicas na imprensa bom-despachense, no passado, sob o elegante pseudônimo de Marcelle Siarom (curiosa montagem das letras de seu nome!). Nunca vi um artigo ou crônica sobre o assunto. Ela lembra-se de alguns fatos: o preço do Cine Regina aumentou. Isso detonou o protesto dos estudantes. Eles marcharam da escola até a praça e tiveram apoio do professor Geraldo Magela (o que é curioso, pois esse professor estava muito mais para Jânio Quadros, em termos de simpatia política, do que para Leonel Brizola). E foram cantando o hoje esquecido Hino do Estudante Brasileiro, celebrizada por Inezita Barroso:

Estudante do Brasil

Tua missão é a maior missão

Batalhar pela verdade

Impor a tua geração

Marchar, marchar para frente

Lutar incessantemente

A vida iluminar

Ideias avançar!

E assim tornar bem maior

Com todo amor varonil

A raça, o ouro, o esplendor

Do nosso imenso Brasil

Marchar, marchar para frente

Lutar incessantemente

A vida iluminar

Ideias avançar!

E assim tornar bem maior

Com todo amor varonil

A raça, o ouro, o esplendor

Do nosso imenso Brasil

Os desdobramentos de tal protesto não foram assim tão esplendorosos: diante da bilheteria, os estudantes faziam uma fila falsa, não compravam o ingresso e atrapalhavam a sessão. Houve vidros quebrados e pedradas. Logo a seguir, o cinema ficou um tempo fechado, como consequência dessa rebelião. Mamãe lembra-se de dois líderes: Zuca Lobato e Brasinha.

A minha geração, que veio depois da geração 68, viu as manifestações de 1992 contra Collor. Eu me lembro apenas de um carro de som com microfone ali na Praça da Inconfidência, cheio de petistas apenas, clamando porque o PMDB não tinha vindo. O hoje artista plástico e cineasta Pablo Lobato, filho do Zuca Lobato do PMDB, estava presente junto a mim e não achou nada bom. Isto posto, resolvemos deixar aquela manifestação. Posteriormente, havia uma moça bonita, de frente ao Gharif (que começou como restaurante árabe, servindo até kafta e que foi do meu tio Cláudio Morais) passando tinta verde e amarela no rosto dos jovens “carapintadas”.

Se 1968 me chegou como afetiva memória maternal, 1992 participei marginalmente, 2013 vi apenas pela internet e televisão. Aqui em Bom Despacho houve uma significativa manifestação, com umas 4.000 pessoas. Até hoje sou administrador de um grupo do facebook dessa época: Vem Pra Rua. Um médico que tem parentesco com a família Cabral aqui na cidade, Giovano Ianotti, foi uma figura muito marcante nas manifestações em Belo Horizonte. Petista, ele ajudava as manifestações feridos ou que passavam mal com o gás. Ele deu socorro ao Douglas, rapaz que caiu do vão no viaduto José de Alencar e morreu. Ele mesmo não tinha visto a foto do momento em que ele dava socorro ao rapaz e, em seu depoimento no facebook, colocou apenas um desenho do momento dramático. O momento da queda, no entanto, foi registrado em foto pelo MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário, de linha maoísta) e eu tive a honra de postá-la para que o Dr. Ianotti visse a nobreza de seu gesto. Nobreza da qual estamos tão carentes em nosso tempo..

E, por falar em nobreza de gestos, homenageio, nesse dia da mulher, minha mãe, Maria Celeste Morais, escritora de mão cheia, leitora sempre atenta e politizada dessas minhas crônicas, que ela critica com ironia machadiana. Feliz dia internacional da mulher, mãe!

sexta-feira, 4 de março de 2022

Mosaicos

 

Mosaicos



O título dessa coluna adveio da leitura dos textos de Paulo Teixeira Campos. Estou organizando um livro com suas crônicas e ele, ao tratar de assuntos vários, sempre usava esse título. Mosaico é uma composição de vários pequenos fragmentos. E é isso o que eu queria aqui, pois acumularam-se muitos assuntos. Mosaico também será o título do livro que lançaremos. Em breve, darei notícias a respeito, prometo.

O primeiro deles foi o falecimento de meu tio Luiz Negreiros. Major do exército, ele comandou o Tiro de Guerra aqui em Bom Despacho nos anos 90. Faleceu no Rio de Janeiro, onde há anos vivia em Cabo Frio e lutava contra um câncer no pulmão. Minha postagem no facebook trouxe inúmeras mensagens de conforto e pessoas que lembram-se dele com carinho: a Lilian, Fábio Mingau, a todos agradeço. Sérgio Cunha, jornalista e escritor, enviou inclusive uma coluna que já publicou a respeito dele no jornal Fique Sabendo. Sérgio é também escritor e passou-me uma de suas produções, 4 Pedaços E-mail, para que analisasse. Eu indiquei a ele Eduardo Lucas Andrade, meu editor. Outro falecimento foi o de minha tia avó Teresa, viúva de Alcino, que morava na rua atrás da rodoviária.

Outro assunto são os escritores e seus livros. Para comemorar os 200 anos da Semana de Arte Moderna, dia 11 de fevereiro fiz uma live sobre a Semana de 22 junto da Academia Bom-Despachense de Letras. Estou para lançar um livro meu, Museu de Grandes Novidades, contendo um inédito (Marco Zero III: Beco do Escarro, fragmentos inéditos de autoria de Oswald de Andrade que garimpei na UNICAMP em 2007). É Bom Despacho a produzir publicações relevantes a nível nacional. O evento online foi emocionante e só teve feras: Denise Coimbra (que também é escritora e que logo comentarei mais, realizou um livro chamado 54, Rua da Alfândega), Ronniere Menezes (que já falou de Chico Buarque em Paris e tocou bossa nova em Nova York, ficando na casa de meu tio Paulo em Goldensbridge), dentre muitos outros.

Ainda sobre os nossos fervilhantes escritores: Vander André Araújo, leitor assíduo desse Jornal de Negócios, autor do livro de contos Roupa Suja de Inconfidente, envia-me notícias. Esse livro resgatou parte importante da cultura de Bom Despacho. Lugares da cidade, como Praça São José, foram retratados nesse livro e viraram palco para seus personagens, num misto de crônica com literatura clássica. Vander irá lançar seu novo livro no dia 4 de março. Seu novo rebento intitula-se Pode Durar o Tempo de Uma Música, editora Adelante, no Espaço La Bluh, rua Chaves Maia, 15, Jardim dos Anjos, Bom Despacho (MG).









sábado, 26 de fevereiro de 2022

Annie Ernaux: entre “a memória dos outros” e a escrita de si mesma

 


* Por Luciene Guimarães *

Na mesma década em que nasceu a  escritora Annie Ernaux,  na Normandie, em 1940, que Marguerite Duras, nascida em 1914, começava a publicar sua obra. Em 1985, Duras vence o prêmio Goncourt, pela publicação de O amante. Em 2017, Annie Ernaux recebe o prêmio Marguerite Yourcenar pelo conjunto da sua obra. Bem que as duas escritoras não sejam contemporâneas e a obra de Duras possa se imbuir de um espírito transgressor, as duas escritoras se aproximam pela mesma tradição literária que as consagrou: escrever suas memórias.

Em três livros de Ernaux que chegaram às mãos do leitor, O lugar, Os anos e O acontecimento, (Editora Fósforo, os dois primeiros com tradução de Marília Garcia),  a narrativa da autora vai desenrolado um enorme novelo de um tempo linear, a memória subjetiva e familiar que se mesclam com a memória coletiva. Em O lugar, a história começa nos anos 20, e em Os anos, as memórias se desenrolam desde sua infância, na década de 40, até os anos 2000.

O lugar dessas memórias é justamente  a Normandia, origem de sua família, mas também o lugar que ficou para sempre na História, marcando o fim da Segunda Guerra. As crianças “guardavam na memória todas aquelas histórias”, casos contados pelos adultos, “época fabulosa – da qual entenderiam mais tarde a ordem dos acontecimentos, a Debacle, o Êxodo, a Ocupação, o Desembarque, a Vitória.” No dia em que ficou conhecido como “o dia D”, Annie Ernaux ainda era criança, mas anos mais tarde entendeu o que tudo aquilo significou. A Normandia é também o lugar de Marguerite Duras e que tanto nutriu sua obra e seu processo criativo. Também o lugar onde viveu e trabalhou, escrevendo e filmando, em Trouville, à beira mar, onde passava os verões.

A documentarista Michelle Porte, amiga pessoal de Marguerite Duras, publicou nos anos 70 um livro de entrevistas com a autora sobre os seus lugares, Les lieux de Marguerite Duras. Porte, a mesma que entrevistou Duras, publicou também Le vrai lieu, entrevista com Annie Ernaux. Ao aceitar o convite, como comenta no avant-propos, Ernaux diz estar convencida que o lugar geográfico e social, onde nascemos e vivemos, oferece aos textos escritos, não uma explicação, mas um cenário de fundo da realidade, onde mais ou menos eles são enraizados. Se para Proust, a vida é a própria literatura, para Ernaux, como ela mesma diz a Porte, “a literatura é ou deveria ser a própria iluminação ou a opacidade da vida”.

“A memória dos outros fazia com que fizéssemos parte do mundo”  

“Milhares de palavras vão sumir de repente, palavras que serviram para nomear coisas, rostos de pessoas, ações e sentimentos. Palavras que serviram para organizar o mundo, disparar o coração e umedecer o sexo (…) Tudo vai se apagar em um segundo, o vocabulário acumulado, do berço ao leito final, será eliminado. Restará somente o silêncio, sem palavra alguma para nomeá-lo.”

Em Ernaux, a palavra dá sentido ao mundo, escrever é uma tentativa quase desesperada de agarrar o tempo fugidio da memória familiar, que escapará com os anos e que está atrelada à memória coletiva, “assim como milhares de imagens que estavam na cabeça dos avós mortos há meio século e dos pais também mortos.” É na ânsia de contar essas memórias, e que podem desaparecer, a familiar, a coletiva , onde o lugar da autora se afirma, o que motiva o narrador de Os anos.  Só a escrita pode guardar o que é contado, como se paralisasse a ampulheta do tempo, mas também como se pudesse recuperar o tempo que se esvaiu. “Assim como o desejo sexual, a memória nunca se interrompe. Ela equipara mortos e vivos, pessoas reais e imaginárias, sonhos e história.” O que revela a voz do narrador, que o vivido pode ser organizado numa narrativa.

Em O lugar, em que a autora narra a vida do próprio pai; o avô é também lembrado: “Sempre que me falavam do meu avô, começavam dizendo que ele ‘não sabia ler nem escrever’, como se sua vida e sua personalidade não pudessem ser compreendidas sem esta informação básica.”

Marguerite Duras trataria a memória de forma diferente, pois em Duras, a narrativa da memória é fragmentada e atravessada pelo esquecimento, pelo silêncio, pela dor, pelo trauma, como um testemunho do seu tempo. Já para Annie Ernaux, essa memória se desenrola de forma linear, o tempo é um guia que se detém à narrativa. A história coletiva não se desvencilha da familiar, nem quando são as memórias infantis que prevalecem. Ela tarz crianças que escutam os assuntos da vida dos adultos, na mesa de jantar, por exemplo. “A memória dos outros fazia com que também fizéssemos parte do mundo”, diz o narrador. É assim que o texto de Os anos e O lugar, tecido pelas memórias, é construído. Para o narrador de Os anos, a história familiar e a história coletiva são uma única coisa. Através dos anos, fatos, objetos, eventos da cena francesa do pós-guerra emerge: “A França era imensa e formada por populações que se diferenciavam de acordo com as comidas e os modos de falar. Em julho, os ciclistas do Tour de France atravessavam o país inteiro e nós acompanhávamos o percurso no mapa Michelin preso à parede da cozinha.” À medida que o fio se estende na evolução dos acontecimentos, outras imagens surgem, o desalento da guerra: “Em velhos cartazes, a imagem em três por quatro do general Charles de Gaulle usando um quepe, com o olhar perdido.”

Se em Duras, é através da descrição de uma fotografia que o narrador de O amante começa a desvelar o passado, da mesma forma, em Ernaux, o narrador de Os anos, se vale de fotografias antigas para contar memórias. Annie Ernaux, muito provavelmente leitora de Duras, revela entre as camadas do palimpsesto da escrita, sua influência. Eis onde os processos criativos se encontram. Para Marília Garcia, tradutora arrebatada pela obra de Ernaux, tanto Annie Ernaux quanto Marguerite Duras fazem parte de uma mesma tradição literária, mesma fonte onde bebeu também Proust. Memória involuntária proustiana, memória oscilando entre esquecimento e lembrança durassiana e a memória linear de Ernaux, são modalidades que se divergem. Entretanto, a memória linear de Ernaux evoca também o gênero de Montaigne, o ensaio, como lembra Marília Garcia. Assim, o leitor aprende que nos anos 70 a influência dos anúncios publicitários criava uma sociedade cada vez mais adepta ao consumismo. A sociedade agora tinha um nome, “sociedade de consumo”. Era um fato sem discussão, uma certeza que, gostando ou detestando, não tinha mais volta. “O aumento do preço do petróleo deixava a todos atônitos. O clima de consumo estava no ar e havia uma apropriação das coisas e dos bens. Comprávamos uma geladeira duas portas, um Renault R5 no impulso, uma semana no Club Hôtel em Flaine, um studio em Grande-Motte.” Em contrapartida, os ideais de maio 68 impregnaram toda a geração jovem, o feminismo e a conquista do aborto viraram bandeira de protesto pela emancipação feminina. Até que ponto maio de 68 – que ela tem a impressão de ter perdido, pois a vida já estava estabelecida demais – está na origem da pergunta que a deixa sossegada? “Será que eu poderia ser mais feliz se levasse outra vida?” Começa a imaginar a si própria fora da situação conjugal e da família.

*

A seguir, entrevista com Marília Garcia, tradutora e também poeta. Depois de traduzir O lugar Os anos, ela trabalha na tradução de A vergonha , que também sai pela Fósforo.

Como foi ou está sendo sua relação com a obra de Annie Ernaux? Antes de traduzir, você já era leitora da autora? Ela era inédita no Brasil? Descobri Annie Ernaux através da tradução, a partir do convite da editora, e a autora já havia sido traduzida, pela editora Objetiva, nos anos 90, mas apenas um livro, A paixão simples. A narrativa de Ernaux me cativou de imediato. O lugar, livro que em ela conta a vida familiar, a história do pai  me comoveu, uma tradução que ao terminar, não pude conter as lágrimas. Por uma questão de agenda, não pude me dedicar à tradução de O acontecimento, [traduzido por Isadora Pontes], livro em que o tema central é o aborto nos anos 60, época em que ainda era proibido na França, um livro que foi adaptado para o cinema [filme de Audrey Diwan, Leão de Ouro no Festival de Veneza] mas estou trabalhando na tradução de A vergonha, o próximo a ser publicado pela Fósforo.

O que você tem a dizer do processo tradutório? Alguma dificuldade no texto de Ernaux? O processo tradutório exige sempre uma releitura, uma “segunda mão”, e esse processo tradutório, pelo menos o processo material, pode ser comparado a uma pintura, que inacabada, precisa de retoques. Como o texto de Annie Ernaux  é impregnado de muitas referências culturais, da cultura francesa, há sempre um cuidado com algumas expressões que aparecem e com as próprias referências. Mas as várias ferramentas de pesquisa que a própria Web proporciona, ajuda bastante.

Há alguma semelhança entre Marguerite Duras e Annie Ernaux. Você crê que Ernaux sofreu influência ou era leitora de Duras? Certamente. É possível que Annie Ernaux tenha conhecido bem a obra de Duras, ou mesmo que ela não tenha lido tudo, elas compartilham da mesma tradição literária.

Você acha que “traduzir é perder”, ou seja que ao verter o texto para outra língua, há algo que se perde? Como poeta, traduzir prosa e poesia impõe diferentes procedimentos? É uma boa pergunta… Talvez haja uma perda porque é impossível fidelidade ao texto de partida, mas há também ganhos, que talvez estejam na recepção da obra, pois o leitor ganha o que não pôde ler em outra língua. Quanto à traduzir prosa e poesia, há uma forma,  ritmo, rima, métrica que se impõe no poema, eis o  desafio.

*

Foto de Annie Ernaux: Catherine Hélie (c) Editions Gallimard 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Duas Cartas de Pedro Rogério Couto Moreira

 


 

A propósito da coluna da semana passada, recebi duas cartas de um importante jornalista que viveu em Bom Despacho, Pedro Rogério Couto Moreira (nascido em 1945, repórter da Globo entre 1978 e 1986, como se pode encontrar no site Memória Globo), o “Pedrim do Sô Benigno”, atualmente residente em Brasília. Pedro publicou os seguintes livros: “Hidrografia Sentimental – Aventuras sem malícia de um repórter na Amazônia”; “O almanaque do Pedrim”; “Bela noite para voar – Um folhetim estrelado por JK”; “Jornal Amoroso”; “Jornal AmorosoEdição Vespertina”; “Amor a Roma, amor em Roma”; “Memórias da diverticulite: Geografia sentimental de Miguel Torga em Minas”; “Passeio pela magia na história de Carlos Magno”; “Palavras cruzadas”; “Diário da falsa Cruz de Caravaca. Sob o céu de Belo Horizonte”; “O livro de Carlinhos Balzac e Fortuna Biográfica de Vivaldi Moreira”.

 Pedro viveu em Bom Despacho entre 1951 e 58. Pedro Rogério foi praticamente o co-autor do livro de Zé Toniquinho, tendo “preparado os originais” desse texto tão marcante para nós. Seguem as cartas:

            No recente artigo “Maura Lopes Cançado: Nossa Maior Escritora”, de autoria do excelente jornalista Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior, foi dito que o meu romance “Bela Noite para Voar” inspirou a minissérie da TV Globo sobre a vida do presidente Juscelino Kubistchek. Há aqui um engano. Na verdade, o livro foi a base do roteiro do filme dirigido por Zelito Viana, com o mesmo título, estrelado por Mariana Ximenes.

            A figura singular de Maura Lopes Cançado foi o molde da criação de Princesa, personagem do meu romance “Bela Noite para Voar”. Maura Lopes Cançado vive no coração de todas as mineiras que amam os desafios da vida.

                A outra carta, encaminhada por Pedro Rogério, mas de outro autor, é de um bondespachense que reside no Rio, o advogado José Márcio Machado Brandão Couto, neto do seu Benigno, que foi coletor federal de 1940 a 1960 em Bom Despacho. Recentemente, depois de ver as fotos de nossa cidade atual, escreveu:

            Só não tinha visto o Campinho do Padre e o pré-Seminário. Desde o final dos anos 80, Bom Despacho tenta modernizar-se. Primeiro, as Tvs e suas novelas tiraram a pureza de uma juventude recatada e avessa a excessos, depois a entrada dos computadores com seus sites acessados sem limite de idade. Engenheiros, querendo tornar a cidade uma megalópole, projetaram e realizaram obras absurdas pro tamanho de Bom Despacho, tais como prédios residenciais altíssimos que, num sinistro de fogo, nenhuma escada Magirus conseguiria salvar alguém. Tragédia à vista.

            Só nos resta mesmo a saudade de uma época lúdica –para nós –quando, inocentes, soltávamos papagaio e jogávamos finca na praça.

            Nem a chegada da cidade foi preservada: da estrada via-se a majestosa torre da igreja matriz; hoje, o cimento de dois espigões empana as bençãos que dali mesmo já recebiam seus visitantes ou simples passantes.

 

 

 

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A Nossa Maura Lopes Cançado: Nossa Maior Escritora

 


 

            Em nossa cidade não faltam artistas e, em especial, escritores. Na cidade há a Academia Bom-Despachense de Letras e até  mesmo um editor anda por aqui, recentemente homenageado pela Câmara Municipal: Eduardo Lucas Andrade, da Editora Literatura em Cena. No entanto, a escritora de renome nacional que já viveu aqui, e pouco celebramos, foi Maura Lopes Cançado. Precisamos dar mais atenção a esse nome. Quem tem esse sobrenome na cidade é parente dela. A esposa do Dr. Clodomiro, Dona Ângela, é parente afastada dela e Rodrigo Anaya Rojas, meu tio, comentou sobre o assunto falando comigo falando na “tia Maura”.

            Maura era filha de um fazendeiro rico de São Gonçalo de Abaeté, ela veio aqui, ainda nos anos 40, aprender a pilotar no bairro São Vicente, então Campo de Aviação – que na época era realmente um aeroporto. Como ela conta em sua “autobiografia” Hospício é Deus, editado pela primeira vez em 1965 e reeditado em 2015 pela Editora Autêntica, ela uma vez quis tentou jogar o avião em cima de uma casa. Ao tentar justificar-se, ela afirmou ser fascinada pela idéia de causar um acidente de avião. Ela não cita Bom Despacho no livro, mas o jornalista Maurício Meireles citou nossa cidade como importante na formação da escritora no prefácio que escreveu para a editora Autêntica.

 Maura, então apenas uma menina de dezesseis anos (ela nasceu em 1929), dividia sua paixão por aviação com Jair Praxedes, filho do famoso Coronel Praxedes (também da mesma idade). Ela contou, em seu diário de hospício, ter sido casada durante um ano com Jair Praxedes, mas ter-se apaixonado pelo seu sogro, desiludindo-se do casamento. Ambos tiveram um filho chamado Cesarion Praxedes O jornalista Pedro Rogério Couto, que vive em Brasília, afirmou que Maura foi uma das fontes inspiradoras de um romance chamado Bela Noite para Voar (2001, Thesauros), livro em que foi baseado um filme de Zelito Viana. A vida e obra de Maura inspiraram também o romance A Origem da Água, de Ana Cristina Braga Martes. A partir dos anos 60, fixou-se no Rio de Janeiro, onde trabalhou no jornal Correio da Manhã e, segundo ela, Fernando Sabino foi quem a indicou para sua primeira editora.

No Rio, conheceu artistas tais como Tônia Carrero, por quem disse, em carta a Vera Brant, ter se sentido desprezada. Maura vivia entrando e saindo de internações em clínicas psiquiátricas. Torquato Neto, jornalista e letrista da tropicália, ficou no mesmo hospital, em Engenho de Dentro (título aproveitado por ele), e citou Hospício é Deus. Em crise, dilapidava heranças, brigava com os amigos, perdia empregos. Depois de sua morte, em 1993, foi lembrada em artigos por Carlos Heitor Cony, Reinaldo Jardim, Nelson de Oliveira e Ferreira Gullar, entre outros. Hoje na internet existem vários vídeos, lives, e várias dissertações de mestrado sobre sua obra.

            Em 2011, no último de nossos festivais de inverno, realizei o roteiro de um vídeo sobre Maura chamado Hospício é Deus, junto do cineasta Sérgio Villaça. Curiosamente, o  vídeo foi colocado no canal de um membro da família Lopes Cançado e teve 3.200 visualizações. Eu convido vocês a verem o vídeo e a sonharem com novos festivais de inverno:

Endereço do vídeo no canal de Jorge Lopes Cançado: <https://www.youtube.com/watch?v=-9KDTXnXbZ4>>.