segunda-feira, 16 de maio de 2022

Professor Wilson Lopes do Couto

 

Professor Wilson Lopes do Couto

 

                O mais desconhecido, por vezes, é o mais familiar. Esse tema filosófico, aparentemente distante do dia a dia, mostra-se verdadeiro quanto tratamos de algumas figuras de nossa comunidade. Quem foi professor Wilson Lopes do Couto? Fazemos constantemente essa pergunta a respeito dessa e de outras personalidades, tais como Chiquinha Soares, Coronel Robertinho, etc. Curiosamente, nossa educação não é voltada para enraizar nossa identidade. O professor Tchesco, ao contar-me sua viagem a Cuba no pior período da história da ilha, o período especial nos anos 90, observou de forma arguta que aquele povo aguerrido e revolucionário tem uma grande virtude: é um povo com identidade. Amo essa escola, meu local de trabalho, mas pouco obtive sobre o personagem no local que foi objeto dessa homenagem. Graças à equipe da biblioteca e meus alunos do primeiro ano da Escola Estadual Wilson Lopes, especialmente das salas 1001 e da 1004 (disciplina Ensino de Ciências Sociais e Humanas Aplicadas/Novo ensino Médio), consegui saber mais sobre esse até então enigmático personagem. A todos agradeço e, aos alunos, parabenizo pelo bom trabalho, bem como por sua vitória no Futsal do JEMG em Dores do Indaiá.

            Nascido em 26 de outubro de 1918, no retiro São José no Povoado dos Alves em Bom Despacho, Wilson morreu em 28 de junho de 1958, tendo vivido apenas quarenta anos. Seus pais eram Pacífico Lopes do Couto e Maria Teodora Costa. Foi casado com Rita Cançado Couto, com quem teve cinco filhos. Tinha uma formação ampla: Tecnologia, Filosofia e Geografia. Professor Wilson trabalhou no então ginásio Miguel Gontijo como professor de Geografia, Latim e História. Exerceu também outras funções: foi secretário geral na prefeitura municipal de Bom Despacho, bem como foi policial. Concluiu, no entanto, que sua vocação estava no ensino.

            Wilson Lopes começou a estudar na hoje Escola Municipal Coronel Praxedes, Posteriormente, conseguiu terminar seus estudos mudando-se para Cascavel no Paraná. Imagino as dificuldades, o isolamento, a distância, num período recuado como esse, primeira metade do século XX, quando telefone era luxo e a comunicação ainda era por cartas. Muito estudioso, fez tudo na vida de modo genial, mas em especial, era brilhante como professor, gostava era de dar aulas e ensinar. Ele costumava dizer que somente a educação tem o poder de aliviar a miséria da existência humana. Foi atribuído a ele uma frase que caiu na boca do povo, virando um ditador popular: “o homem é aquilo que ele pensa e dá importância”. Lendo sobre professor Wilson, realmente sinto orgulho de exercer essa profissão!

            Finalmente, deixo aos meus leitores um convite: dia 20 de maio, na Biblioteca Pública, 19 horas, lançarei meu livro Museu de Grandes Novidades (editora Literatura em Cena), junto a um show do amigo Boleka. Venham celebrar conosco esse belo momento!

 

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Seja Sutil, Vote no Liu

 

Seja Sutil, Vote no Liu





Francisco Campos (Liu) nasceu em 1934 e nos deixou em 2016 e, era primo de meu avô Mário Morais, com quem tinha alguma semelhança física. Nos últimos treze anos de sua vida, convivi com ele. O título dessa crônica remete a sua candidatura a vereador, fato que aconteceu em 1985, pelo Partido Democrata Social (PDS). Ele usou esse curioso slogan: “seja sutil, vote no Liu”. Muito curioso que tenha tentado a carreira política, pois era homem caseiro, sem verbo fácil, sorria muito raramente, econômico com as palavras. Não se esforçava para agradar o interlocutor, nem sequer costumava pegar na mão. Para vocês terem uma ideia, muitas vezes, antes de dar opinião sobre algum assunto, dizia, sem sorrir: “a opinião de um bobo”. Não parece muito mais um narrador de romance de Machado de Assis do que um político de nossa época? Homem cheio de sutilezas marotas, mas ao mesmo tempo um católico conservador, Liu era da Santo Antônio do Monte de José de Magalhães Pinto.Tinha, contudo, um lado cosmopolita, tendo morado em São Paulo.

De São Paulo, trouxe um violino e uma câmera Super-8. Até o final da vida foi apaixonado por filmagens em Super-8. Fui junto a ele até a Vila Militar para tentar salvar os rolos de filme que ele tinha, em busca de um antigo projetor, possivelmente o projetor que servia no cineminha da vila militar muitos anos antes, comentado por meu pai em outra crônica nessa coluna...Eu vi algumas dessas imagens em preto e branco, mostrando a construção da Matriz, pessoas patinando, outras tomando sorvete (aparentemente, grandes novidades na época), desfiles de estudantes no primeiro de junho. Ele passou essas filmagens para VHS, na tentativa de salvar os rolos de filme que possuía, mas acabaram perdidas, creio que não foram transmitidas para DVD e acabaram mofando.

Liu contava ter conhecido Sílvio Santos quando ele ainda era um vendedor ambulante. Teria ido, também, às apresentações de Mazaroppi logo quando ele surgiu, antes do cinema. Era grande admirador desses dois e conhecia muito os filmes do cineasta paulista e criador do inesquecível Jeca.

Há quem diga que ele tinha um “it”, como diziam na época. Lembro da história de um papagaio que, contavam os parentes, só falava com ele. Como nada existe de mais oposto à seriedade desse homem do que as molecagens de um papagaio, imagino como se daria esse diálogo.

Francisco me fazia lembrar muito o poema Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade, onde ele fala que de Itabira lhe veio a “cabeça baixa”. Igualmente, o nosso candidato a vereador, bastante recatado, andava de cabeça baixa na rua, sem cumprimentar ninguém. As pessoas observavam isso e comentavam comigo. A meu ver, era uma estratégia para não ter que conversar com todo mundo em cidade do interior e, daí, seguir adiante, cabeça baixa, indo resolver o que tinha que resolver no centro da cidade. Ele também parecia Carlos Drummond de Andrade em sua aparência física, fato também comentado por outrem. Ele era um mineiro que nascera duas gerações depois, mas tinha muito em comum com o poeta itabirano. Ele também falava baixo, tom suave, com expressivos olhos azuis, mas não costumava olhar de frente. Ambos eram tímidos.

Igualmente emocionante foi o último encontro entre Liu e meu avô Mário Morais, quando meu avô já estava seriamente adoentado. Não consigo lembrar sobre o que ambos conversaram. Os dois não se frequentavam, como disse a mim o meu avô, mas sempre mantiveram uma amizade. Nesse dia, curiosamente, notei o quanto os dois se pareciam, a origem em Santo Antônio do Monte. Liu também conhecia a fazenda Coqueiros, fazenda essa que deu nome a um livro memorialístico (que ele leu) de autoria meu avô, os olhos azuis eram os mesmos, a pele clara, a forma recatada de falar, a educação.

Nos seus últimos dias, depois que ele teve um acidente vascular cerebral, vimos alguns filmes juntos, tais como São Paulo S. A. Ele gostou de ver a São Paulo de sua juventude. Ele admirou bastante o filme Bang Bang, de Andrea Tonacci, que mostrava a Rodoviária, a Afonso Pena e a Praça Sete tal como elas eram no ano de 1971. Isso ativava nele as memórias que tinha dessa cidade, que visitava com frequência repor os estoques de sua loja, o Bazar Joene, famoso pelos artigos de muito bom gosto, cujas vitrines chiques e reluzentes fascinavam. Liu trazia muita coisa de São Paulo, cidade onde deixou muitos parentes. Ele lembrou-se que a dançarina que aparece no filme improvisava ali no centro de Belo Horizonte. Eles devem ter levado, de improviso, a dançarina para uma apresentação de flamenco no mirante (segundo ele) e daí aquela impressão curiosa que aparece no filme, de uma figura gigantesca dançando sobre a cidade.

Nesse período, fui à Santa Casa vê-lo, pois eu o tinha levado lá sozinho quando ele começou a passar mal. Dias depois, ao visitá-lo, já estava bem. A enfermeira disse: “Você é o Lúcio, você é parente dele”? Eu disse: “sim, sou genro”. Ela: “ele chamou seu nome a noite inteira”. Semanas depois, bem melhor, ele resolveu ir à missa na Matriz, bem cedo, pois sentia-se em falta por não ir à missa. E lá ele sofreu um outro AVC e morreu de uma forma como ele mesmo, com certeza, gostaria de morrer: dentro da igreja.

Sua lembrança de sétimo dia o retratou com um raro sorriso e um movimento de mão que parece um “tchau”. Foi a despedida de quem sempre combateu o bom combate e guardou a fé, um exemplo para nós.







sábado, 16 de abril de 2022

Diário de viagem de uma bom-despachense na Europa

 

Diário de viagem de uma bom-despachense na Europa

 

            Em julho de 1975, minha tia Elizabeth fez uma viagem à Europa. Ela era professora de francês aqui em Bom Despacho, no colégio Tiradentes. Elizabeth Madeira Morais faleceu prematuramente em 1993 aos 46 anos. Dessa viagem ficou um curioso diário de viagem. A viagem ocorreu junto da prima Dilma Morais e Netinha, uma amiga. Ela foi a Portugal, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Áustria, Alemanha, Suíça, Itália e Espanha. Em Portugal, cita o marido de Júlia (aluna de francês de Brigitte Paredaens), Getúlio:

 

            Os muros de Lisboa estão todos marcados com o sinal comunista (martelinho e foice) e com vários dizeres como: “Abaixo o fascismo e viva o proletariado”. Lembrei-me do Getúlio que queria algum livro sobre a situação atual do Brasil.

 

            Beth comenta que conseguiu se virar (“je me debrouille”) em francês na França, cometendo alguns erros, tais como escrever photo no lugar de photographie, salle de bains no lugar de toilette. Ela conta ter ido ao mausoléu de Napoleão (Les Invalides) e ao Panthéon onde estão os túmulos dos grandes homens que obtiveram o reconhecimento da pátria: Rousseau, Voltaire, Victor Hugo, Zola, etc. Curiosamente, ela comenta que não gostou da comida francesa, não conseguiu comer nem arroz e nem pizza napolitana: “O que há de gostoso é a sobremesa: hoje comi uma tarte au fraises deliciosa; o croissant também é bom, e também as confitures (compotas).”

            Beth também observou uma curiosidade cultural ligada a outros bom-despachenses: “tivemos mesmo a oportunidade de presenciar uma cena em que uma senhora passou uma descompostura em outra (casa de Assunção, cunhada de Netinha) porque as crianças faziam muito barulho”. Os franceses, muitos educados, segundo ela, gostam de silêncio, observou ela, principalmente depois das dez da noite.

            Nessa viagem de Beth, ela curiosamente adorou Viena, Innsbruck e Munique e não gostou de Roma, na Itália. Roma era barulhenta e suja, muitos homens abordavam-nas na rua, enquanto as cidades alemãs tinham grandes e bem cuidados jardins e fizeram um amigo, Gerhard (“um simples, um puro de coração, alegre e espontâneo”), que as levou a vários lugares interessantes e até parecia apaixonado por uma delas. Os homens alemães, segundo ela, eram alegres, mas respeitadores, enquanto os italianos paravam o carro para fazer cantadas e piadinhas incompreensíveis. Em Munique, ela esteve na Hofbrauhaus, a maior cervejaria do mundo:

 

            Foi muito interessante, porque pudemos observar o povo alemão com toda sua alegria e vivacidade. Que maravilha! Todos pareciam uma grande família, cantando músicas lindas, acompanhados por instrumentos musicais. No fim todos deram-se as mãos e fizeram uma grande roda ao redor das mesas.

 

Beth também conta como foi a viagem de trem de Viena a Munique:

 

Viagem digna de nota foi a de Viena a Munique, de trem. Foi uma experiência excepcional. Em nosso vagão reuniu-se uma turma de Israel, Hungria, Iugoslávia e alemã. Divertimo-nos bastante, sobretudo com os húngaros: 3 moças (Hildegard, Elizabeth e Gabriela) e um rapaz (Charlie) (...). Sobre os húngaros, foi muito engraçado porque aprendemos algumas palavras em húngaro (comuns ao alemão) como servus (pronuncia-se serbus =adeus); puszi =beijinhos. Quando nos despedimos, eles, que ainda iam a Paris, vindo de Bucareste, ficaram no trem gritando: adeus, beijinhos; e nós, “servus, puszi”. Todo mundo ficou rindo de nossa despedida.

 

            Segundo Beth, o único lugar bem conservado de Roma lhe pareceu o Vaticano, “muito lindo”. Ela tinha a expectativa de conhecer uma cidade maravilhosa, mas ficou numa pensão velha, com “tudo desorganizado, sujo e preto, há papéis na rua, ônibus velhos, trânsito difícil”. Para mim, que sou afilhado de Beth, o diário emociona muito ao final, quando ela escreveu, aguardando o avião no aeroporto de Lisboa:

 

            Na espera, despeço-me de tudo, olho para todas as coisas com olhos de despedida. Talvez nunca mais eu retorne. Ou talvez um dia, quem sabe? Nunca se pode prever alguma coisa nessa vida. Valeu a pena a experiência (...). Adeus Portugal, adeus Europa. Até amanhã, Brasil.

 

                É com um aperto no coração que escrevo esse texto, com uma saudade imensa dessa pessoa querida que esteve ao meu lado e perdi. Há quanto anos partiu! E pensar que já vivi mais do que ela! Beth ensinou-me a cantar a Marselhesa. Foi muito bom reencontrar minha eterna madrinha nesse diário, foi muito bom escrever essa coluna para, de certa forma, ressuscitá-la através de sua escrita. Adeus, Beth! Até um dia!

 

 

 

 

 

domingo, 3 de abril de 2022

Teatro em Bom Despacho: A Viagem de Sucesso de Nosso Barquinho

 

Teatro em Bom Despacho: A Viagem de Sucesso de Nosso Barquinho

 

            Minha lembrança do teatro em Bom Despacho é uma lembrança infantil muito terna: minha tia Jane foi a Iara na peça A Viagem de um Barquinho, de Sílvia Orthof, encenada no Salão São Vicente com bastante sucesso. Foi também encenada em Dores do Indaiá. Vander Araújo lembrou-se de ter participado, ainda criança, da peça, mencionando-a em seu romance Roupa Suja de Inconfidente. Era mágico e encantador ver Jane na figura de uma sereia de cabelos verdes.

Segundo carta que recebi de Roniere Menezes, que era o sapo naquela peça, o grupo teatral chamava-se Porta Aberta. Apresentaram-se no salão São Vicente mais de uma vez, bem como em Dores do Indaiá, etc. Havia a Deolina como lavadeira e o Wander Araújo, criança na época, como menino. Os dois eram os protagonistas. A Samira irmã do Wander também trabalhava, entre várias outras pessoas amigas. Bil Morais, meu tio, era o diretor da peça.

            Quando voltei a viver em Bom Despacho, no início dos anos 2000, o teatro estava florescendo. O grande artista que mobilizou o teatro na cidade naquele período chama-se Júnior Souza, o professor Juninho. Eu fiz algumas anotações (que agora consulto), na época, sobre o enredo da peça De Quem é Esse Reino. Isso ocorreu em dezembro de 2002.

De Quem É Esse Reino tratava das relações de poder num reino imaginário, a Sorbônia. Num dado momento ficava claro que a Sorbônia era o espelho do Brasil. Neste reino, que nos fazia lembrar aquele da novela Que Rei Sou Eu, existia uma trama para levar uma serviçal do palácio (negra e acima de seu peso ideal) ao trono, aproveitando-se da velhice da rainha Dinorah. A serviçal (operária?) conseguia, após alguns ardis de “Malvina”, sua colaboradora, chegar ao poder, fazendo-se passar por homem (insinuando o tema do travestismo). O verdadeiro príncipe foi retido por asseclas dos usurpadores. A “serviçal”, uma vez no poder, cometeu a gafe de tentar falar em línguas estrangeiras sem nada saber: “murchas graxas”, arranhou em portunhol, dando mancada e entregando-se. A seguir, a “ex-operária” expôs seu programa de governo, explicitamente cortando os direitos dos “serviçais”, e, pelo que me lembro, falou em cortar o décimo terceiro salário, etc. Logo sua “corte” se irritou com os descaminhos do príncipe gritalhão. Enquanto isso, o príncipe herdeiro se libertou daqueles que estavam em seu caminho e veio salvar o reino das mãos da plebe, retomando a linhagem nobre. E a peça encerrou-se com a serviçal voltando a servir no palácio. Notem como é curioso esse enredo, ao levantar questões como a possibilidade de mudar de classe social e de corte de direitos dos trabalhadores, temas ainda hoje muito atuais.

            Pelo menos dois atores de expressão foram revelados no teatro do Juninho: Thales Braga e Ítalo Laureano. Ítalo, graduado em teatro na UFMG, desenvolve trabalhos como ator e diretor, aliás como co-fundador do Grupo Quatroloscinco Teatro do Comum. (Ator e Diretor em 7 espetáculos/14 anos), participou também das novelas Espelho da Vida e Bom Sucesso. Thales fez parte de uma encenação muito elogiada de Pra Acabar com o Juízo de Deus, de Antonin Artaud (em Belo Horizonte). Foram muitas peças de enorme sucesso local escrita pelo professor Juninho: Três Mulheres e um Amigo, Guarapari é Aqui (ambas com Lili Cunha, que cedeu as fotos dessa matéria e a quem agradeço imensamente) lotando o Salão São Vicente. Lili brilhou nessas peças de Juninho e hoje consolidou a graciosa personagem Palhaça Berinjela (@palhacaberinjela). Oxalá, com o fim da pandemia, a cidade retome sua bela vocação teatral, com muito sucesso e muitos talentos revelados e cultivados! Que o nosso barquinho continue sua viagem de sucesso!!!

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Um Artigo de 2003 Sobre Lula

 

Em dezembro de 2002 fui a uma peça de teatro infantil aqui em Bom Despacho, interior de Minas. A peça, de autoria do professor Júnior Souza e chamava-se De Quem É Esse Reino. Porém, não pretendo fazer quaisquer observações estéticas a respeito da obra, tarefa que deixo para um entendedor ou crítico especializado. O que me interessa aqui é um insuspeito elo que verifico existir, entre o cenário político nacional e aquela peça teatral.

 

De Quem É Esse Reino tratou das relações de poder num reino imaginário, a Sorbônia. Num dado momento ficava claro que a Sorbônia era o espelho do Brasil. Neste reino, que nos fazia lembrar aquele da novela Que Rei Sou Eu (comentada posteriormente pelo sociólogo Gilberto Vasconcellos como sendo uma novela favorável a Collor), existia uma trama para levar uma serviçal do palácio (negra e acima de seu peso ideal) ao trono, aproveitando-se da velhice da rainha Dinorah. A serviçal (operária?) conseguia, após alguns ardis de “Malvina”, sua colaboradora, chegar ao poder, fazendo-se passar por homem (insinuando o tema do travestismo). O verdadeiro príncipe estava retido por asseclas dos usurpadores. A “serviçal”, uma vez no poder, cometeu a gafe de tentar falar em línguas estrangeiras sem saber: “Murchas graxas”, arranhou em portunhol. A seguir, a “ex-operária” expôs seu programa de governo, explicitamente cortando os direitos dos “serviçais”, e, pelo que me lembro, falou em cortar o décimo terceiro salário, etc. Logo sua “corte” se irritou com os descaminhos do príncipe gritalhão. Enquanto isso, o príncipe herdeiro se libertou daqueles que estavam em seu caminho e veio salvar o reino das mãos da plebe, retomando a linhagem nobre. E a peça se encerrou com a serviçal voltando a servir no palácio.

 

Pois então: o governo Lula, agora em andamento, lembra a passagem que comentei acima sobre a pessoa que, vinda do povo, ascende ao poder e se volta contra aqueles de sua classe de origem. Confirmei, com Lula, não é só o pobre que entende o pobre, não é o só o negro que entende o negro, não é só o gay que entende o gay. Neste governo, a classe trabalhadora, iludida para pensar que chegou ao poder com Lula, está numa “aliança interclassista” que só faz aprofundar seu jugo, ganhando mais exploração e mais ilusão – e só.

 

E, em termos de alianças interclassistas, essa que o PT agora fez é muito pior do que aquela que fez o partidão (PCB) com Vargas e Adhemar de Barros no tempo de Stálin, e que foi motivo da saída de muitos intelectuais do partido comunista. Aquela tinha algum lastro na realidade, e foi melhor discutida em sua teorização. A finalidade era reformar o capitalismo no Brasil, encerrando a fase colonial ou semi-colonial; nessa fase, segundo Stálin, a burguesia se cindiria em burguesia associada com o imperialismo e outra mitológica “burguesia nacional progressista”. Um exemplo: Apesar de fraco nos momentos de decisão e outros defeitos, João Goulart, enquanto ministro do trabalho de Vargas, deu aumento de cem por cento para os trabalhadores. Então esse homem não era homem de esquerda? Era “a última lava do vulcão varguista?”, como disse Glauber Rocha? Será que um dia veremos Jacques Wagner dando um aumento desse?

 

Um dado que me deixa perplexo: o partido que carrega a herança de Vargas, o PDT, está no poder junto com Lula. Penso que o interesse deles é a sobrevivência política, além do apetite por cargos e por poder. Quando Lula chegou ao poder, e até um pouco antes, um historiador respeitado como José Murilo de Carvalho escreveu a sério comparando Lula a Getúlio, de “populista” e “pai dos pobres”. Porém, Lula já deu sinais de anti-varguismo explícito em inúmeras oportunidades, a partir do início de sua carreira, em que dizia que “a CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Numa reportagem na Folha de São Paulo, recentemente, ele se posicionou a respeito da CLT. Luiz Inácio, como ultimamente tem agido e falado, não é nem totalmente nem totalmente a favor. Agora ele discorda de algumas coisas na CLT e concorda com outras. Parece uma atitude ponderada, mas não é. Penso que essa é uma das mais curiosas características de seu discurso atual. O que o governo encaminha, sem buscar tornar consensual entre as centrais sindicais, é a retirada (e não a ampliação) dos direitos.

 

E, como comecei a falar de cultura (e não irei falar sobre Gil, a quem José Ramos Tinhorão acusou de parvenu e arrivista), noto também a tendência para a “falsa ponderação” mais do que evidente quando Lula se encontrou com o pessoal do meio artístico recentemente, para assistir ao filme Amarelo Manga. Lula “ponderou” que não basta só ficar xingando [a hegemonia norte-americana] e também é preciso ter um produto competitivo”. Por que essa é uma falsa ponderação? Com essa fala, Lula se desincumbe, ele que seria o responsável por ajudar a viabilizar essa “arte industrial” que é cinema, e atira a responsabilidade sobre os artistas. E, a respeito do “produto competitivo”, o presidente não detêm conhecimento suficiente para ponderar. O filme brasileiro citado por ele como referência é “Sinhá Moça”, de 1953 e outras produções da Vera Cruz. Ora, vejamos. O homem que “compreendeu o Brasil” segundo um professor como Paulo Ghiraldelli, tem como sua referência cinematográfica a chanchada. Ao contrário do outro “pai dos pobres”, personagem suicida e trágico, esse que nos preside agora é gordinho e falastrão, vivendo uma gozada chanchada da vida real num país que produz menos filmes do que a Argentina.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Bom Despacho, a Mulher e As Manifestações de Rua: De 1968 até 2013

 

Bom Despacho, a Mulher e As Manifestações de Rua: De 1968 até 2013

 

            Maria Celeste Morais, minha mãe, apresenta uma memória bastante curiosa: lembra-se sempre das manifestações estudantis em Bom Despacho, no ano de 1968. Mamãe é uma talentosa escritora que escreveu crônicas na imprensa bom-despachense, no passado, sob o elegante pseudônimo de Marcelle Siarom (curiosa montagem das letras de seu nome!). Nunca vi um artigo ou crônica sobre o assunto. Ela lembra-se de alguns fatos: o preço do Cine Regina aumentou. Isso detonou o protesto dos estudantes. Eles marcharam da escola até a praça e tiveram apoio do professor Geraldo Magela (o que é curioso, pois esse professor estava muito mais para Jânio Quadros, em termos de simpatia política, do que para Leonel Brizola). E foram cantando o hoje esquecido Hino do Estudante Brasileiro, celebrizada por Inezita Barroso:

Estudante do Brasil

Tua missão é a maior missão

Batalhar pela verdade

Impor a tua geração

Marchar, marchar para frente

Lutar incessantemente

A vida iluminar

Ideias avançar!

E assim tornar bem maior

Com todo amor varonil

A raça, o ouro, o esplendor

Do nosso imenso Brasil

Marchar, marchar para frente

Lutar incessantemente

A vida iluminar

Ideias avançar!

E assim tornar bem maior

Com todo amor varonil

A raça, o ouro, o esplendor

Do nosso imenso Brasil

Os desdobramentos de tal protesto não foram assim tão esplendorosos: diante da bilheteria, os estudantes faziam uma fila falsa, não compravam o ingresso e atrapalhavam a sessão. Houve vidros quebrados e pedradas. Logo a seguir, o cinema ficou um tempo fechado, como consequência dessa rebelião. Mamãe lembra-se de dois líderes: Zuca Lobato e Brasinha.

A minha geração, que veio depois da geração 68, viu as manifestações de 1992 contra Collor. Eu me lembro apenas de um carro de som com microfone ali na Praça da Inconfidência, cheio de petistas apenas, clamando porque o PMDB não tinha vindo. O hoje artista plástico e cineasta Pablo Lobato, filho do Zuca Lobato do PMDB, estava presente junto a mim e não achou nada bom. Isto posto, resolvemos deixar aquela manifestação. Posteriormente, havia uma moça bonita, de frente ao Gharif (que começou como restaurante árabe, servindo até kafta e que foi do meu tio Cláudio Morais) passando tinta verde e amarela no rosto dos jovens “carapintadas”.

Se 1968 me chegou como afetiva memória maternal, 1992 participei marginalmente, 2013 vi apenas pela internet e televisão. Aqui em Bom Despacho houve uma significativa manifestação, com umas 4.000 pessoas. Até hoje sou administrador de um grupo do facebook dessa época: Vem Pra Rua. Um médico que tem parentesco com a família Cabral aqui na cidade, Giovano Ianotti, foi uma figura muito marcante nas manifestações em Belo Horizonte. Petista, ele ajudava as manifestações feridos ou que passavam mal com o gás. Ele deu socorro ao Douglas, rapaz que caiu do vão no viaduto José de Alencar e morreu. Ele mesmo não tinha visto a foto do momento em que ele dava socorro ao rapaz e, em seu depoimento no facebook, colocou apenas um desenho do momento dramático. O momento da queda, no entanto, foi registrado em foto pelo MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário, de linha maoísta) e eu tive a honra de postá-la para que o Dr. Ianotti visse a nobreza de seu gesto. Nobreza da qual estamos tão carentes em nosso tempo..

E, por falar em nobreza de gestos, homenageio, nesse dia da mulher, minha mãe, Maria Celeste Morais, escritora de mão cheia, leitora sempre atenta e politizada dessas minhas crônicas, que ela critica com ironia machadiana. Feliz dia internacional da mulher, mãe!

sexta-feira, 4 de março de 2022

Mosaicos

 

Mosaicos



O título dessa coluna adveio da leitura dos textos de Paulo Teixeira Campos. Estou organizando um livro com suas crônicas e ele, ao tratar de assuntos vários, sempre usava esse título. Mosaico é uma composição de vários pequenos fragmentos. E é isso o que eu queria aqui, pois acumularam-se muitos assuntos. Mosaico também será o título do livro que lançaremos. Em breve, darei notícias a respeito, prometo.

O primeiro deles foi o falecimento de meu tio Luiz Negreiros. Major do exército, ele comandou o Tiro de Guerra aqui em Bom Despacho nos anos 90. Faleceu no Rio de Janeiro, onde há anos vivia em Cabo Frio e lutava contra um câncer no pulmão. Minha postagem no facebook trouxe inúmeras mensagens de conforto e pessoas que lembram-se dele com carinho: a Lilian, Fábio Mingau, a todos agradeço. Sérgio Cunha, jornalista e escritor, enviou inclusive uma coluna que já publicou a respeito dele no jornal Fique Sabendo. Sérgio é também escritor e passou-me uma de suas produções, 4 Pedaços E-mail, para que analisasse. Eu indiquei a ele Eduardo Lucas Andrade, meu editor. Outro falecimento foi o de minha tia avó Teresa, viúva de Alcino, que morava na rua atrás da rodoviária.

Outro assunto são os escritores e seus livros. Para comemorar os 200 anos da Semana de Arte Moderna, dia 11 de fevereiro fiz uma live sobre a Semana de 22 junto da Academia Bom-Despachense de Letras. Estou para lançar um livro meu, Museu de Grandes Novidades, contendo um inédito (Marco Zero III: Beco do Escarro, fragmentos inéditos de autoria de Oswald de Andrade que garimpei na UNICAMP em 2007). É Bom Despacho a produzir publicações relevantes a nível nacional. O evento online foi emocionante e só teve feras: Denise Coimbra (que também é escritora e que logo comentarei mais, realizou um livro chamado 54, Rua da Alfândega), Ronniere Menezes (que já falou de Chico Buarque em Paris e tocou bossa nova em Nova York, ficando na casa de meu tio Paulo em Goldensbridge), dentre muitos outros.

Ainda sobre os nossos fervilhantes escritores: Vander André Araújo, leitor assíduo desse Jornal de Negócios, autor do livro de contos Roupa Suja de Inconfidente, envia-me notícias. Esse livro resgatou parte importante da cultura de Bom Despacho. Lugares da cidade, como Praça São José, foram retratados nesse livro e viraram palco para seus personagens, num misto de crônica com literatura clássica. Vander irá lançar seu novo livro no dia 4 de março. Seu novo rebento intitula-se Pode Durar o Tempo de Uma Música, editora Adelante, no Espaço La Bluh, rua Chaves Maia, 15, Jardim dos Anjos, Bom Despacho (MG).